quinta-feira, 25 de maio de 2017

Queimada. O homem que vende guerras.

Observando os fatos que estão ocorrendo no Brasil após a ruptura democrática de 2016, me deu vontade de rever o filme QUEIMADA. Ele é uma obra prima do cinema político e uma das mais perfeitas amostras da transição  do colonialismo para o imperialismo e da abolição da escravidão, que veio em seu bojo. Queimada é uma ilha fictícia das Antilhas, de colonização portuguesa, e que tem na monocultura canavieira a sua riqueza. Um misto de História do Brasil, de Cuba e também do Haiti, ou em termos mais amplos, da colonização portuguesa e espanhola. Ele esteve proibido no Brasil, ao longo da ditadura militar.
Foto do meu DVD  do filme Queimada, com destaque para o nome de Marlon Brando.

O filme reúne gente de primeira qualidade do cinema mundial. A produção italiana, do ano de 1969, tem a direção de Gillo Pontecorvo, assinatura do roteiro de Franco Solinas e Giórgio Arlório e a música é de, ninguém mais e ninguém menos, que Ennio Morricone. O papel principal, o do colonizador inglês William Walker é de Marlon Brando, em magnífica interpretação. O cenário é paradisíaco e os fatos ocorrem em meados do século XIX. O nome do filme no original é Burn.

Primeiramente dou a resenha da contracapa do DVD: "Uma ilha do Caribe na metade do século XIX. A natureza fez um paraíso aqui; o homem o transformou em inferno. Escravos de vastas plantações de açúcar dos portugueses estão prontos para transformar sua miséria em revolta - e os britânicos estão prontos para despejar a última gota d'água. Eles enviam o agente William Walker (Marlon Brando) em uma missão tripla e desonesta: convencer os escravos a se rebelarem, tomar o comércio de açúcar para a Inglaterra... e restabelecer o regime de escravidão. Os temas do colonialismo e da insurreição são explorados no épico QUEIMADA! Com visual e narrativa impressionantes. QUEIMADA tem o brilho de um diretor genial. A genialidade também é evidente na interpretação complexa e inteligente que Marlon Brando faz de um homem que é, ao mesmo tempo, um cavaleiro e um patife, revolucionário e colonialista. E a música de Ennio Morricone é o acompanhamento perfeito de um roteiro tão forte".

O filme começa com a chegada do agente inglês à ilha. Um negro, imediatamente, lhe oferece ajuda para carregar a sua mala. Estão aí, em cena, os dois principais personagens, William Walker e o negro José Dolores. José Dolores será acompanhado de perto pelo inglês, que fará dele o líder das insurreições. O ensina praticando, - roubos e assassinatos por necessidade, - para se habituar com a ideia e não fraquejar, quando dos acontecimentos. José Dolores passa pelas condições de heroi da independência e de vilão execrado, já sob o imperialismo inglês.

O inglês fomenta a rebelião. Assiste aos festejos da independência e se retira do cenário, voltando à cena, dez anos depois. A ilha já está sob os grilhões dos ingleses que manipulam por completo o comércio do açúcar. Os preços logo estarão abaixo dos custos de produção, levando o país, sob o comando de José Dolores, à uma situação de extrema miséria. José Dolores, já na condição de guerrilheiro, lutará bravamente até a resistência final.

Está aí o triplo papel do agente inglês, do qual fala a resenha. Transformar os negros em rebeldes revolucionários a proclamar a independência e abolir a escravidão, decretando assim, o fim da era colonial; transferir o comando para os ingleses, não mais sob o domínio político direto, mas pelo total e implacável domínio econômico, fato que denominamos de imperialismo, e a terceira missão, que será a da restauração da escravidão, sob uma nova forma, também indireta, que é a do trabalho livre assalariado.

Quero dar destaque especial a duas cenas. A primeira, em que  William Walker tenta convencer  os líderes locais sobre as vantagens da abolição da escravidão. Usa para isso uma comparação da mulher no casamento e da mulher como prostituta. No casamento se assume a mulher pelo resto da vida e, como acréscimo, também os seus custos. Já com a mulher prostituta, paga-se apenas pelos serviços eventualmente prestados, sem nenhuma consequência a mais. Assim também é a escravidão. Com a abolição, paga-se apenas por serviços prestados, sem o ônus da doença, da alimentação e da velhice.

A outra cena, é a do final do filme. A discussão que se estabelece em torno do que  deve ser feito com o líder José Dolores. Como tornou-se absolutamente insubmisso, não haverá fórmula para enquadrá-lo e formatá-lo, como se fazia antes. Se o matam, ele se transforma em heroi e o heroi se torna mito e servirá de exemplo para milhares de outros, que o seguirão cegamente (Seria uma imagem do cubano José Martí?). Ao final, os ingleses induzem o novo governo da ilha a matá-lo, à moda inglesa, por enforcamento. O inglês ainda fará uma última tentativa para deixá-lo vivo. É o momento em que José Dolores, mais uma vez se oferece para carregar a sua mala, aproveitando o momento para apunhalá-lo mortalmente.

O fato de querer rever o filme se deveu fundamentalmente a dois motivos. Ver a questão do líder popular, do seu papel messiânico junto ao povo, e do outro lado, a implacável perseguição que lhe será devotada pelos que se sentiram incomodados em sua confortável situação. O outro motivo foi a questão do imperialismo, que aqui no Brasil, sempre encontrou uma burguesia consular. Eu explico. Aqui sempre existiram chefes políticos locais a entregar as nossas riquezas, para que os interesses imperialistas não encontrassem qualquer tipo de resistência.

 É o que vemos ocorrendo no Brasil, neste momento, com a supressão dos direitos trabalhistas e previdenciários. Como os trabalhadores assalariados, ao longo da história foram adquirindo direitos, aproveita-se agora o momento da crise, para suprimi-los por completo. Seus direitos cessam ao final do trabalho realizado, tal qual o exemplo da prostituta, citado no filme. Ambos recebem o soldo ao final dos serviços prestados. Me acompanha a certeza de que, o respeito devotado pelo colonialista, imperialista ou burguês, ao trabalhador e à prostituta é o mesmo, ou seja, nenhum. Segue o link do filme. https://www.youtube.com/watch?v=tQBHr8pjGXI

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Oswald de Andrade e a Academia Brasileira de Letras.

A Academia Brasileira de Letras nunca foi uma unanimidade. Em Navegação de Cabotagem Jorge Amado nos conta algumas de suas peripécias. Entre elas está a de que Machado de Assis, um de seus fundadores, impunha dois vetos incondicionais para quem dela quisesse participar. Dela estariam sistematicamente afastados os boêmios e as mulheres. Fundada em 1897, Rachel de Queiroz ingressou nela apenas em 1977. Foi a pioneira. Foram 80 anos à espera de uma presença feminina.
Irreverente e sarcástico. Marcos do homem do modernismo brasileiro.


Agora, lendo a bela biografia de Oswald de Andrade, de autoria de Maria Augusta Fonseca, encontro mais curiosidades que merecem registro. O homem do modernismo brasileiro, por duas vezes tentou ingressar no mais elevado círculo dos homens de Letras desse país, mais por deboche, do que por efetiva vontade. São tentativas cheias de humor e ironia, tão características de Oswald.

A primeira tentativa ocorreu em 1925, depois, portanto, da passagem do furacão da Semana de Arte Moderna de 1922, ocasião em que Oswald foi estrondosamente vaiado. A primeira a saber da sua intenção foi Tarsila do Amaral, a quem comunicou sua intenção através de uma carta com os seguintes dizeres: "Prezada artista, a 1ª da capital [...] Aqui todos vão bem e eu vou apresentar minha candidatura na ilustre Academia Brasileira. Conto ser vencido, porém, com glória. [...] Oswald phd 1º homem do Brasil!"

Não chegou a ser considerado inscrito, mas pleiteou a vaga em carta aberta, endereçada aos imortais. Depois de uma estocada num dos concorrentes, ele apresenta as suas qualidades. "O Senador Antônio Azeredo - todos vós o sabeis - erra ainda em gramática, erra em estilo, erra em colocação de pronomes. Só acerta em política. Eu não erro porque não acredito em nada disso. Sou escritor e poeta todos os dias, há quinze anos no mínimo. Uso quando quero do estilo convincente (esta carta!), ando às vezes de guarda chuva, já falei na Sorbonne e tenho sido repetidamente elogiado pelo Sr. Tristão de Athayde. Indiquei, queiram ou não queiram, o roteiro brasileiro à minha geração - ao contrário da vossa - quase toda genial. Publiquei diversos volumes de originalíssima  realização - como sobejamente o provam a hostilidade e o espanto do nobre professor Oiticica".

Promete mudar a Academia em quase tudo. Promete "meter o bedelho nos negócios administrativos da Academia, promovendo medidas de alta justiça que não compreendo como até agora escaparam à visão imortal" e continua alfinetando "a Academia desmente o espírito com que foi fundada e insulta a inteligência brasileira a cada nova eleição" e arremata.

"Dos vossos nobre escrutínios só pode sair a derrota de uma pretensão que não entra no meu feitio - todos sabem. Eu de farda - (eu e mais do que eu, qualquer dos modernistas brasileiros solidários com a mocidade heroica de Graça Aranha) - é um anacronismo tão grave como Osório Duque Estrada de bicicleta. A minha candidatura  ficará sendo o altifalante de uma queixa - a dos milhares de intelectuais de minha terra, escarnecidos pela cavação da expoência, quando não pela expoência cavação".

Quinze anos após, em 1940 tenta novamente, na vaga deixada por Luís Guimarães. Disputa com Manuel Bandeira, Martins de Oliveira, Berilo Neves, Basílio de Magalhães, Júlio Nogueira e Menotti del Picchia, que desiste em favor de Manuel Bandeira, que será o vencedor, com 21 votos. Adivinhem quantos votos foram para o Oswald? Apenas um, o de Cassiano Ricardo.

A sua candidatura, mais uma vez, tinha a finalidade de levantar polêmica mas, desta vez, se inscreve formalmente por meio de uma carta-inscrição. Veja os termos: "Senhor acadêmico: Será V.S. uma das raras inteligências deste Grêmio que compreendem a atual situação do mundo (Segunda Guerra), e portanto, a da própria Academia? Ou será V.S. um dos membros da quinta-coluna, que camuflados no fardão, sabotam aí dentro, as magras conquistas do espírito brasileiro.

Passará pela cabeça de V.S. alertada pelos bombardeios contemporâneos, que o fim dos quarenta imortais que nas últimas décadas adormecem o espírito francês sous la coupole, pode ser um campo de concentração? Ou será V.S. daquelas teimosas velhas de Botafogo que ainda acreditam no pavoneio dos títulos literários, roubados aos verdadeiros trabalhadores da cultura? Neste caso quererá V.S. que a Academia Brasileira de Letras seja um espelho Luís XV de um grupo de arrivistas coloniais e suspeitos pretendendo explorar uma multidão de analfabetos? Ou quererá V.S. realmente que o nosso povo se emancipe, participando afinal da vida intelectual do país, como da sua vida econômica, jurídica e social? Todas essas interrogações vêm na dobra da minha candidatura a um fauteuil nessa casa. Sobre ela decidirá V.S. com a mentalidade que representa. O futuro julgará essa eleição mais do que a eleição me julgará. Protocolarmente sou candidato ao voto de V. S. e com prazer me subscrevo".

Também deu muitas declarações à imprensa, como esta, comparando-se a um paraquedista."paraquedista que se lança sobre uma formação inimiga, cujo destino único é ser estraçalhado". Dá bem uma ideia do espírito polêmico, irrequieto e provocador do homem do modernismo brasileiro. A Academia Brasileira de Letras bem que merecia estas finas ironias e continua merecendo, especialmente quando sabemos que o global Merval Pereira é um de seus componentes.

domingo, 21 de maio de 2017

Oswald de Andrade - Biografia. Maria Augusta Fonseca.

O meu contato maior com Oswald de Andrade era para ter acontecido em 2011, quando o homem do modernismo brasileiro foi o homenageado da Feira Literária de Paraty, em sua nona edição. Não ocorreu, pois eu ainda estava em sala de aula. Agora, quase ao acaso, tive este feliz reencontro com o escritor.  Uma pequena compra me fez passar em frente a uma feirinha de livros  da Top Livros, no Shopping Barigui. Todos os livros a R$ 10,00. Uma breve vasculhada, e já estava com vários livros em mãos.
Bela biografia e belo entremear do escritor com o seu tempo e história. Um belo panorama cultural.


Um deles era Oswald de Andrade - biografia, de autoria da professora Maria Augusta Fonseca. O livro é de 2007, da Editora Globo. A Top Livros atua na ponta de estoque dos livros. Imerecidamente este livro fez parte de sobras. Isto me lembrou do último livro do escritor, homem sem profissão. Sem profissão é uma alusão à vida que leva o escritor no Brasil. Tanto os escritores, quanto seus livros podem facilmente entrar no imerecido ostracismo. No funeral de Oswald de Andrade havia menos gente do que na menos concorrida das recepções que dava em seus tempos de fausto.

Oswald de Andrade tem o seu nome umbilicalmente ligado ao modernismo brasileiro, à semana da arte moderna e ao companheiro daquela pioneira jornada, Mário de Andrade.  Antônio Cândido, seu compadre, e analista de sua obra, assim define  este complexo, irrequieto e provocador personagem: "Nesse homem contraditório, reside o conservador e o vanguardista, o conformista e o experimentador". Com a mesma facilidade com que cultivava amizades, também as rompia, com a sua feroz crítica.

Oswald de Andrade pertenceu a mais alta burguesia paulista O pai era político e fez fortuna com a especulação imobiliária. Não foi suficiente, no entanto, para que a ela desse um fim. Recebeu fortes influências da mãe, especialmente o fervor do catolicismo, com o qual nunca rompeu por completo, mesmo sendo adepto do materialismo em seus tempos de militância comunista. Sua vida era agitadíssima sob todos os aspectos. Com os amigos, com as finanças, e, especialmente, em seus envolvimentos amorosos, que muito escandalizaram a conservadora São Paulo.

Jorge Schwartz escreve a orelha do livro e assim faz a sua apresentação. "A biografia entrelaça vida e obra, com um pesquisa minuciosa, em fontes como depoimentos de época, correspondências, artigos jornalísticos, polêmicas literárias, políticas e pessoais, somados às próprias e surpreendentes descrições desse artista que, na melhor tradição vanguardista da identificação 'arte-vida', chegou a se converter em sua própria personagem. Mais do que desenhar um perfil individual, a autora faz um verdadeiro retrato do Brasil. Em momento algum deixa de cruzar os traços biográficos com os registros históricos de um país rural de inícios do século XX, que ingressa na modernidade pau-brasilante com todas as contradições próprias de uma nação periférica e dependente, que buscou com afinco definir sua própria identidade".

Oswald de Andrade nasceu em 1890 e morreu em 1954. Assim a sua história passa pelos reflexos da abolição e da proclamação da República, pela lenta transformação da cidade pela industrialização, pelos agitos dos anos 1920, com a Semana de Arte Moderna em que foi estrondosamente vaiado, pela Revolução e transformações de 1930, pelo Estado Novo e sua censura, pela filiação ao Partido Comunista, até a sua morte em 1954, de uma diabete mal cuidada, embora todo o zelo de sua mulher.

O livro tem 19 capítulos, espalhados ao longo de 392 páginas, com bloco de fotografias e fartas notas apontando as fontes. Passa pela sua infância de filho único mimado, pelos anos de formação, pelo seu ingresso na Faculdade de Direito, pelas suas viagens a Paris, onde frequenta os mais requintados meios culturais, pelo seu envolvimento com a Semana da Arte Moderna e com todo o modernismo brasileiro, pelas suas obras literárias, pela sua atividade jornalística e de polemista da cultura brasileira. Uma vida muito rica, embora pouco compreendida.

A vida amorosa nunca lhe deu sossego. O seu lado dionisíaco era muito forte. De rígida formação moral religiosa passa por muitos amores, que assim como vinham, também se iam. Desta forma se envolveu com Kamiá, com Landa, com a bailarina Isadora Duncan, com Deise, com Tarsila do Amaral, com Pagu, com Julieta, e com Maria Antonieta d'Alkmin, com quem se casou em "últimas núpcias" e para quem escreveu o "Cântico dos Cânticos para flauta e violão". Deveria ser alguém muito sedutor.

Toda a sua obra, bem como as críticas a ela, também são objeto de análise desta biografia. Nas páginas finais tem uma relação completa de seus livros, todos reeditados pela Record. Os que me deu mais vontade ler são os mais autobiográficos. Memórias sentimentais de João Miramar, o Rei da vela (peça de teatro), Pau Brasil, Serafim Ponte Grande e um Homem sem profissão. De maneira geral a sua obra não foi bem recebida. Podemos dizer que ele foi redescoberto, apenas com a chegada do século XXI. O livro também é rico em aspectos pitorescos de sua vida, como as duas tentativas para seu ingresso na Academia Brasileira de Letras, mais como denúncia do que vontade efetiva de ingresso. Mas isso merece um post especial.

O livro é maravilhoso e eu o tomei como um grande livro de história do Brasil, um Brasil tão novo, tão em busca de identidade, causa esta, que foi o motivo principal da agitada vida do escritor. Como gosto de epígrafes, pela sua capacidade de síntese, deixo aqui duas delas. A primeira é geral ao livro: "O homem é o animal que vive entre dois grandes brinquedos - o amor onde ganha, a morte onde perde. Por isso inventou as artes plásticas, a poesia, a dança, a música, o teatro, o circo e enfim, o cinema". A segunda é da introdução, "A vida não é em linha reta, nem em ordem direta se processam as histórias de cada homem".

Um dos grandes méritos em sua vida foi o de nunca ter tido medo de amar. Como recompensa, entre muitas outras, imagino, recebeu uma dança, com absoluta exclusividade, de Isadora Duncan, com a sua nudez envolta apenas com a mágica leveza de suaves transparências. Confesso que fui acometido por uma deliciosa pontinha de inveja.






terça-feira, 16 de maio de 2017

A Gênese das teses do Escola sem Partido. Guadêncio Frigotto.

Na sexta feira, dia 12 de maio, fui assistir uma palestra, organizado pela APP-Sindicato, pelo seu Núcleo Curitiba-Sul, com o professor Gaudêncio Frigotto, que versaria sobre o movimento do Escola sem Partido. Conheço o professor, já de longa data, e a sua fala qualificada, bem como os seus textos e livros sempre são uma referência para mim. A sua fala foi vigorosa e reconfortante.

Tomei as devidas anotações para fazer este post, mas ao final de sua palestra eu adquiri o livro organizado por ele, Escola "sem" partido - Esfinge que ameaça a educação e a sociedade brasileira. Como muito do que ele falou está contido no seu artigo no livro, será ele a referência para o post. Ele versa sobre a gênese das teses do movimento, e usa, para combatê-lo, as imagens de Édipo diante da Esfinge, o Ovo da Serpente do filme de Ingmar Bergman e duas crônicas, O Ódio e O Alarme, de Luiz Fernando Veríssimo. Basta jogar no google, e você as terá.
Como não encontrei o livro em livrarias, dou o contato via e-mail: uerj.Ipp@gmail.com

Três tópicos constituem a estrutura do texto. A estrutura do sistema capitalista, anulação da política e estado policial; retorno do fundamentalismo mercantil e o desmanche da escola pública e a função docente e -  para concluir: o golpe, o escola sem partido, a esfinge, o ovo da serpente, o ódio e o alarme. Todo o texto é permeado pelo princípio de que vivemos numa sociedade capitalista, fundada no lucro e dividida em classes. Este fato implica em graves conflitos que são resolvidos por guerras, revoluções e golpes.

Do primeiro tópico destacaria a ideia de que as crises são fator de acumulação de capital, hoje concretizado pelo assalto institucional da dívida pública, que abocanha 45% do total do orçamento anual da União. Se antes as crises eram cíclicas e locais, hoje elas são globais e permanentes. Para viabilizar a acumulação sem contestações, se instala  o estado policial. Para executar este projeto, no interesse da burguesia, ela coopta uma série de coadjuvantes como a mídia, moedora de cérebros, e seitas religiosas, que transformaram "deus" numa mercadoria abstrata. Esta burguesia que é anti nação, anti povo e anti escola pública quer, pelo projeto, instituir uma pedagogia do medo e da violência, pelo instrumento da delação.
O autógrafo e a certeza de estarmos nas mesmas lutas.

No segundo tópico o conceito básico é o de que hoje todas as relações sociais são pautadas e permeadas pela mão invisível do mercado. Todo o histórico da escola pública republicana é substituído pelo ideário do capital humano, que individualiza a culpa, ou do êxito, ou do fracasso. Os pobres são pobres porque não se empenham, não investem em sua produtividade. Este mercado educacional não necessita de políticas públicas, pois a educação saiu da esfera dos direitos para entrar na dos investimentos, que, no mercado são regidos pelo implacável processo de competição. Este forma os seus intelectuais orgânicos em organizações próprias, como a OMC, o BIRD e o BID. Esta educação exige um novo currículo e um novo professor. Nesta escola apenas se pratica, sem práxis, o ato de ensinar. O professor é destituído de sua função educadora e formadora.

Na conclusão, Frigotto nos mostra que o "Escola sem Partido" é o projeto desta burguesia que quer esta nova escola e este novo professor. Quer lhe retirar seus direitos e lhe impor um estado policial fundado na denúncia, na delação e implantar nas escolas uma verdadeira pedagogia do medo, do medo que está entre nós, com a presença dos próprios colegas. Por fim ressalta que é preciso desvendar o enigma da esfinge  e enxergar o filhote da serpente, ainda dentro do ovo, através da fina membrana que o encobre e ver os alertas feitos pelas crônicas de Veríssimo, antes que a esfinge nos devore e que a serpente, já não mais dentro do ovo, destile o seu veneno e contamine todas as instituições da sociedade brasileira.
Sempre é bom o encontro de amigos.

Para isso é fundamental vencer o medo. No texto Frigotto nos remete a Antônio Cândido, a um artigo seu, publicado no jornal Opinião, em janeiro de 1972, sob o título O caráter da repressão. Um texto imperdível, disponível no Portal Vermelho. Ele termina com uma citação de Alfred de Vigny, sobre o medo do medo. " Não tenha medo da pobreza, nem do exílio, nem da prisão, nem da morte. Mas tenha medo do medo". O oposto do medo é a coragem, a coragem para decifrar o enigma da esfinge   e para destruir a serpente, ainda dentro do ovo, para que o fascismo em implantação, seja contido antes que propague todos os seus males, como já o foi tristemente experimentado.

domingo, 7 de maio de 2017

Uma História do Samba. As origens. Lira Neto.

Ler um livro do Lira Neto é sempre uma certeza de muita satisfação, informação e formação. Depois de ler a trilogia da biografia de Getúlio Vargas e a do padre Cícero, agora foi a vez do primeiro volume de uma nova trilogia sobre a história do samba. Uma história do samba - As origens. Uma primorosa edição da Companhia das Letras, um lançamento de 2017.
 Pesquisa de muito fôlego. Será sempre uma referência para quem estudar o samba.

Antes de partir para a resenha do livro, passo para a apresentação do projeto da trilogia. A referência está contida no próprio livro. "Esta é a primeira parte da história do moderno samba urbano. O presento tomo, que serve de abre-alas à série e tem como subtítulo As origens, concentra-se no Rio de Janeiro do final do século XIX, até o início da década de 1930, quando da realização dos primeiros desfiles das escolas de samba cariocas. O segundo volume mapeará a chamada Época de Ouro da música brasileira, compreendendo, portanto, o espaço temporal entre os anos de 1930 e 1945, quando o samba se institucionalizou como símbolo de uma proclamada "identidade nacional". O terceiro tomo, por fim, prosseguirá desse ponto em diante, até alcançar os cenários contemporâneos do samba, com seu rico e controverso leque de vertentes e derivações".

O primeiro tomo tem 342 páginas. Estas estão divididas em treze capítulos e 73 páginas de notas e referências bibliográficas das fontes. Um legado para os pesquisadores. Um detalhe, fontes inéditas. Acompanham ainda dois blocos de preciosas e históricas fotografias. Como pretendo fazer um apanhado geral, sem entrar em pormenores dos nomes dos protagonistas das origens do samba, os deixo aqui citados, tomando-os da contracapa do livro: "Rastreando os passos de bambas como Zé Espinguela, Donga, Sinhô, Pixinguinha, Ismael Silva e Noel Rosa, o livro investiga as letras e as melodias, os instrumentos e as gravações fonográficas, a sociologia e a política do ritmo. Lira demonstra que a trajetória do samba corresponde a sua gradativa incorporação ao imaginário cultural do Brasil, no qual festa e agonia se digladiam de modo intermitente".

Festa e agonia. Estas duas palavras resumem a história do samba. Isso também está expresso na bela frase que serve de epígrafe ao livro, tomada de Caetano Veloso - O samba é pai do prazer / O samba é filho da dor. "Desde que o samba é samba". Aparece ainda no prólogo do livro, sob o título Entre a agonia e a festa.  A dor é proveniente da escravidão e das políticas de exclusão que se seguiram à abolição e o prazer é a festa, pois, a própria palavra samba é sinônimo de festa. A alegria, mesmo em meio a tanta dor, sempre a esta superou. Vejam só o aspecto formativo do livro.

Bem, como vimos, o primeiro livro trata dos fins do século XIX e se estende até os anos 1930, tempo de Getúlio Vargas. Alguns fatos políticos e históricos precisam ser levados em conta, como a abolição e a proclamação da República, o fenômeno da urbanização da capital da República e as deliberadas políticas de exclusão social, decorrentes do imperativo da "Ordem e Progresso".
Lira Neto autografando o terceiro volume da biografia de Getúlio, em jantar na casa do amigo Rodolfo Prates.

Na há dúvidas de que o samba é de origem africana e que no Brasil, os seus primeiros ensaios são baianos, mas estes baianos vieram para o Rio de Janeiro. Hilário Jovino Ferreira é nome para ser anotado. Conhecer a geografia do Rio de Janeiro também ajuda a ler o livro. Foi o que me faltou bastante. Mas vamos tomar o centro como referência. Vamos até a Central do Brasil e acompanhar os trilhos da ferrovia. Ao longo deles e nos morros dos arredores ia morando o povão, enquanto os ricos foram rumando para a zona sul. Muitos casarões foram transformados em cortiços, que vieram abaixo com as políticas de Pereira Passos, o Haussmann brasileiro. A literatura ajudou bastante. Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Lima Barreto...

Um fato que me chamou bastante atenção foi a formação dos núcleos urbanos a partir dos fenômenos de exclusão social, pela inexistência de políticas públicas. Os soldados que regressaram da Guerra de Canudos (1896-97), sem soldo e sem lar, mais os negros libertos do Vale do rio Paraíba, com a decadência da lavoura cafeeira, formaram os primeiros núcleos urbanos na região portuária, do Valongo, na "Pequena África". As políticas de higienização protagonizadas por Pereira Passos promoveram novos deslocamentos, empurrando-os para mais longe e, ao menos no primeiro momento, a Praça Onze e os seus entornos foram a nova morada destas populações e, em consequência, também do samba.

Outro fenômeno interessante, bonito e tipicamente brasileiro é o sincretismo religioso, a partir da festa de Nossa Senhora da Penha, onde em meio aos cânticos religiosos, os instrumentos do povo negro foram cavando os seus espaços, junto com as comidas e quitutes da cozinha africana, ao longo das festividades, eminentemente populares.

Aí começa a história dos grandes nomes, dos quais, cada um mereceria uma biografia. Também  são citados os instrumentos e os grupos que se formaram. Mas a marca da dor e do prazer continua vivia. A dor pelos empregos mal remunerados, pelos horários rígidos a que eram submetidos em seus trabalhos mal remunerados e a presença da sífilis e da tuberculose, as doenças que provocavam as mortes precoces e, por outro lado, a ausência do saneamento também provocava as suas letais consequências. Além disso sofriam as constantes ameaças de prisão pela lei da vadiagem (1902) com a qual eram punidos os desocupados, tidos como vadios. Tudo servia de pretexto para a modernização e higienização. Mas as noites se tornavam intermináveis, nas casas das tias, com rodadas de cachaça, cerveja e os instrumentos e as vozes do samba. Estas dores e amores, sofrimentos da ausência do dinheiro e da perdas e ganhos nos amores eram a matéria prima deste grande marco da cultura e da identidade brasileira.

Os últimos capítulos são dedicados às escolas de samba e aos primeiros desfiles (1932-1933), com destaque para o segundo, realizado na Praça Onze, com a Mangueira (a Primeira) se sagrando bi campeã. O livro contém os regulamentos, as boas maneiras necessárias, a proibição do uso de instrumentos de sopro, da sátira política, do uso de símbolos nacionais, assim como os quesitos a serem julgados: harmonia, samba, enredo, originalidade e conjunto. É também o tempo da indústria fonográfica e da indústria cultural. A mulher, ao menos neste primeiro momento da história, entrava apenas como tema dos cantos, mas não ainda, como voz. Carmen Miranda, porém, já aparece no cenário. Fico na espera da continuidade, com a publicação do segundo volume. Aí entrará em cena Lupicínio, meu ídolo maior, Lembro ainda, que a Folha de São Paulo tem uma bela coleção - Coleção Folha Raízes da Música Popular Brasileira, dedicada a 25 cantores. A coleção tem folheto e um CD com a voz dos grandes astros.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Stefan Zweig. Adeus Europa.

Os livros de Stefan Zweig há muito estão em minha lista de espera. Há muito despertaram a minha curiosidade. Agora, com a estreia do filme Stefan Zweig - Adeus Europa, lançado no Brasil no final de abril de 2017, tive com o autor um encontro um pouco mais marcado. Vamos, de início contextualizar um pouco o famoso escritor austríaco. Ele nasceu em Viena em 1881 e era descendente de judeus muito ricos. Morreu em Petrópolis junto com Lotte, a sua mulher, ambos por suicídio. Zweig era escritor renomado e apenas Thomas Mann o superava em número de leitores.


O filme, embora sendo uma autobiografia, fez uma opção para apresentar apenas recortes de sua vida, a partir do exílio, em 1936, com cenas passadas no Brasil, na Argentina e nos Estados Unidos. Zweig conseguiu fugir em tempo hábil, se livrando assim das garras da ascensão do nazismo e de todas as suas atrocidades. De uma maneira geral a crítica cobra um maior conhecimento da vida do escritor pois, para o pessoal absolutamente leigo, haveria dificuldades em situá-lo. Não sei se seria realmente o caso. Quais são efetivamente os critérios que levam alguém ao cinema? Ver Zweig segue a uma deliberação, a uma escolha.

O filme começa com uma recepção luxuosíssima ao escritor na embaixada brasileira, no Rio de Janeiro. Lá foi recebido em festivo almoço, com rica decoração, com a mesa ornamentada  com flores muito coloridas, com cores muito brasileiras. O banquete da recepção não foi mostrado, apenas os discursos. Zweig estava a caminho de Buenos Aires para um encontro mundial de escritores que visava celebrar a liberdade de expressão. É neste momento que ocorre uma cena bastante elogiada pela crítica. Uma entrevista coletiva para a imprensa. Os jornalistas procuraram de todas as formas arrancar uma confissão anti Hitler, que ele recusou. Seriam necessários maiores dados biográficos para entender os motivos desta criticada recusa. Seria uma função do escritor?

De Buenos Aires o escritor ruma para os Estados Unidos, sem antes passar por uma cidade do interior da Bahia, onde recebe homenagens bastante hilárias, marcadas pelas características do prefeito fanfarrão e dos improvisos, com atrasos e desacertos e, inclusive, uma gafe da direção. O sotaque não é baiano, é português. Antes da homenagem são mostrados canaviais e algumas coisas relativas ao seu cultivo. Zweig mostrou profundo interesse, fazendo inúmeras anotações. Zweig se tornou um grande entusiasta do Brasil, de seus encantos e de sua gente.

Outra parte bem interessante do filme mostra Zweig em Nova Iorque. Lá ele se reencontra com a ex mulher que lhe faz duras cobranças para que ele ajude, com o uso de sua notoriedade, na fuga de outros escritores alemães e austríacos que encontravam grandes dificuldades em empreenderem suas fugas. Creio que, mais uma vez, faltam dados biográficos para uma maior compreensão das cenas. Ele era considerado bastante recluso e talvez por isso ele fosse considerado como pouco propenso a exposições.

Na parte final o filme volta-se novamente para o Brasil, para Petrópolis, mais precisamente, a morada derradeira do escritor. Mostra-o entusiasmado pela paisagem, com a rica flora, a sua integração com a população local e o contato com amigos que também se encontravam no exílio. Em meio a isso vem o lúgubre desfecho. Tanto o escritor, quanto a sua mulher cometem o suicídio, por envenenamento, durante o carnaval de 1942. Estas cenas são magnificamente trabalhadas, mais insinuando do que mostrando. Um dos destaques do filme é a atuação de Josef Hader no papel de Zweig. O seu olhar e o seu semblante indefinido são sempre portadores de alguma perturbação. A direção do filme é de Maria Schrader.

Stefan Zweig deixou uma carta de despedida. Localizei a sua parte final onde ele expõe a razão do ato extremo. As dores do mundo, dilacerado em guerra, eram superiores às de sua capacidade de, pelas palavras, ainda conseguir imprimir mensagens de esperança, função maior de sua arte. Mas vejamos este parágrafo: "A cada dia fui aprendendo a amar mais  e mais esse país, e em nenhum lugar eu poderia ter reconstruído por completo a minha vida, justo quando o mundo de minha própria língua se acabou para mim, e meu lar espiritual, a Europa, se auto-aniquila".

Quanto a leitura, três livros me chamam mais a atenção. A biografia escrita por Alberto Dines, Morte no Paraíso - A Tragédia de Stefan Zweig; o seu livro sobre o Brasil Brasil, o país do futuro e a sua autobiografia O Mundo de ontem.








terça-feira, 2 de maio de 2017

Auto de Fé. Elias Canetti.

Este livro é mais uma das indicações, dos nove maiores romances da literatura mundial, indicados pelo escritor Vargas Llosa. Encontrei a referência no Portal Raízes. Trata-se de Auto de Fé, do escritor búlgaro/inglês, com sobrenome italiano e que escrevia em alemão, Elias Canetti. O livro foi publicado em Viena em 1935, o segundo ano da ascensão do nazismo. Elias Canetti chegou à condição de Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1981.
A edição de Auto de Fé da Nova Fronteira com tradução de Herbert caro.


Confesso que tive enormes dificuldades na leitura e na metabolização do mesmo. O real e o imaginário se misturam o tempo todo, ao longo de suas longas 671 páginas. No Brasil o livro foi editado pela Nova Fronteira. Para facilitar um pouco a sua compreensão e como é hábito meu, vamos a uma rápida contextualização do autor e de sua obra. Elias Canetti nasceu na Bulgária em 1905, filho de uma família judaica espanhola com grande tradição de erudição. Já aos cinco anos foi levado para Londres e, com a morte prematura do pai, a mãe o levou para Viena. A sua formação basicamente se deu na Alemanha. Em 1938 exilou-se na Inglaterra, fugindo do nazismo. Morreu em 1994, na Suíça. Vida agitada, como podem ver.

Vamos ao livro. Ele foi publicado em 1935 em Viena. Encontrei em um blog, entre os comentários, uma informação interessante sobre a escrita do mesmo. Consta que ele foi escrito ao longo de três anos, em um quarto extremamente confortável, situado em frente a um manicômio, ouvindo o grito dos "loucos". Esta era a denominação da época e, sobre isso, existem muitas referências no livro (sobre a psiquiatria). A mim me pareceu que todos os personagens que interagem no livro eram internos deste manicômio. Erro de percepção. Os personagens eram reais, de uma Europa dilacerada, com os indivíduos se decompondo em massa, que não parava de crescer, no início dos anos 1930. Tempos de crise geram monstros. A massa fanática se sobrepõe a todo e qualquer princípio de lógica e de racionalidade.

O romance é de leitura complicada, já que os personagens vivem a realidade da loucura. O humor e a ironia são componentes fundamentais, entremeados com a loucura.  O personagem mais importante é um intelectual, o maior sinólogo (entendido em China) da época e dono de uma vasta biblioteca, a maior biblioteca privada da cidade. Não se relaciona com ninguém. Vive enclausurado dentro da enorme biblioteca, em contato apenas com uma governanta, com quem mantém pactos de não comunicação. É um intelectual respeitado mas absolutamente estéril. Após oito anos de convivência com Therese, a governanta, lhe propõe casamento. Assim não precisaria mais pagar-lhe ordenado. Aí começa a sua ruína. Peter Kien, este é o nome do sinólogo, manifesta uma misoginia tão explícita, como nunca vi paralelo em qualquer outra leitura que já fiz.

Um terceiro personagem é um brutamontes, um policial aposentado, que é o zelador do prédio e que aparentemente é aliado do professor. Vejam a representação da violência na figura do policial. Pfaff, tal é o seu nome, visa apenas ganhos pessoais e para obtê-los carece de qualquer tipo de escrúpulos. Aliás a questão do dinheiro está onipresente no livro. Todos o buscam inescrupulosamente. Um quarto personagem é Fischerle, um anão corcunda, que perambula junto com o professor Kien em suas desventuras, longe de sua biblioteca, da qual fora posto para fora por Therese. Ajuda ao professor na construção de sua nova biblioteca, agora em seu imaginário. Carrega e descarrega diariamente os livros de sua cabeça, alinhando-os cuidadosamente nos hotéis em que se hospedam.

Ficherle introduz o intelectual no submundo, levando-o aos prostíbulos da cidade, no Paraíso, mais elitizado e no Babuíno, frequentado por estes, que dão o nome à casa. Fiz uma consulta para ver o significado exato da palavra. Conferiu com os frequentadores. Fischerle era esperto, dizia-se campeão mundial de xadrez e sonhava com a América e com os sonhos a que ela induzia. No Babuíno arrumou um passaporte falsificado de primeira. Vivia fazendo trapaças, conseguindo dinheiro em fraudes de todos os tamanhos. Pensando na aplicação de mais golpe, manda um telegrama ao irmão de Kien, um psiquiatra, que presidia um manicômio em Paris.

Que o leitor não queira saber sobre o final da história. Ela não se fecha. Tudo permanece inconcluso. O irmão Georges, que quando jovem fora renomado ginecologista e, onde as mulheres adoeciam quando os maridos viajavam, não deixavam de se consultar. Depois se transformou em psiquiatra, tendo sob seus cuidados mais de 800 internados. Quando ele chega a cidade do irmão, aparentemente o liberta de tudo, isto é, do jugo de Therese, do zelador e da gang de Fischerle. Então começam as brigas entre os dois irmãos. São as discussões mais elevadas do livro. Esta passagem me lembrou um pouco de A Montanha Mágica. O autor tem estofo para os diálogos deste livro, mas não os seus personagens. Estes o levam aos submundos de seu tempo.

O livro está dividido em três partes que recebem os seguintes títulos, que podem nos dar uma pista sobre o seu conteúdo, ou não. Uma cabeça sem mundo; um mundo sem cabeça e um mundo na cabeça. Valeu? Além do Nobel de Literatura de 1981, Canetti recebeu também o prêmio Franz Kafka, o mais importante prêmio da literatura austríaca. O maior mérito do livro está, sem dúvida, em nos apresentar este destroçamento psíquico em que a Europa vivia neste tempo de entre guerras e a ascensão dos regimes fascista e nazista. Lembrem-se que ele pertenceu a uma família de judeus. O google me deu a seguinte definição de auto de fé: Auto-de-fé ou auto-da- refere-se a eventos de penitência realizados publicamente (ou em espaços reservados para isso) com humilhação de heréticos e apóstatas bem como punição aos cristãos-novos pelo não cumprimento ou vigilância da nova lhes outorgada, postos em prática pela Inquisição, principalmente em Portugal ...

Adendo. Em 27.06.2024. Do livro: GREEN. Toby. Inquisição - O reinado do medo. Objetiva. Rio de Janeiro. 2011. No último capítulo do livro (14) encontramos dois parágrafos relativos ao livro de Elias Canetti. São profundamente esclarecedores:

"Outro autor que usou esse tema foi Elias Canetti. Como eu, Canetti descendia de judeus ibéricos, os primeiros alvos da inquisição. Isso foi um empecilho à objetividade, mas talvez permita um nível de empatia que, espera-se, libere as emoções produzidas pela Inquisição em vez de esmagá-las. Uma das obras mais conhecidas de Canetti é o romance Der Blendung, publicado na Áustria em 1935 e traduzido para o inglês sob a supervisão do autor como Auto de fé (* Este é também o título da edição brasileira). No livro Canetti - que recebeu o Prêmio Nobel em 1981 - retrata a crise psicológica de Peter Kien, um erudito da Europa Central, cada vez mais dominada pelo autoritarismo nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial. Depois de perder o apartamento, enganado pela governanta Thérèze e pelo caseiro fascista Benedikt Pfaff, Kien submerge num submundo do qual não consegue mais sair.

O livro de Canetti repete a sátira ao auto de fé composto três séculos antes por Cervantes. Na perturbadora visão de Canetti, o pano de fundo da loucura e do colapso de Kien são a crescente agressão, a violência e a utilização de bodes expiatórios por uma sociedade à beira da guerra genocida. Este mundo é incapaz de se responsabilizar por suas atrocidades. Obcecado por sua própria visão da verdade em seu livros, cercado por uma cultura de perseguição incipiente, derrotado, intenso e louco, Kien já não era capaz de viver com o que criara no microcosmo de seu apartamento em ordem. Kien, que criara aquele espaço de tanta erudição e cultura, decide incendiar o apartamento, queimar os livros e destruir a si mesmo no processo". Páginas 384-5. Der Blendung - em tradução literal - seria O brilho.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Como votou a bancada paranaense para o fim da CLT.

Mais uma vez, para ficar registrado na história. Veja os deputados que retrocederam ao período posterior a 1943, quando foi instituída a CLT pelo presidente Getúlio Vargas. São 20 deputados que sistematicamente votam contra o interesse dos trabalhadores. Mas nem todos os que votaram contra o fim da CLT são confiáveis. Alguns tiveram permissão para votarem NÃO como foi o caso do delegado, de Luciano Ducci e Leopoldo Meyer, que são da base do golpista Temer. A lista não é muito diferente daquela em que votaram em favor da terceirização total. Confira a lista. Minha fonte é o Congresso em Foco.

O item mais importante é o que estabelece o princípio do acordado sobre o legislado, o que anula toda a legislação. Os governistas argumentaram em seu favor com o hilário princípio de que isso geraria empregos. Não sabem eles que o emprego é gerado por fatores econômicos, por políticas de industrialização e de distribuição de renda. O que fizeram foi aderir ao jogo internacional da passagem de uma regulação de trabalho fordista para uma regulação competitiva.  Votaram junto com o governo do golpista Temer, que tem menos de 5% de aprovação popular. É a anti representação popular.

Paraná (PR)

Alex Canziani PTB Sim
Alfredo Kaefer PSL Sim
Aliel Machado REDE Não
Assis do Couto PDT Não
Christiane de Souza Yared PR Não
Delegado Francischini Solidaried Não
Dilceu Sperafico PP Sim
Edmar Arruda PSD Sim
Enio Verri PT Não
Evandro Roman PSD Sim
Giacobo PR Sim
João Arruda PMDB Sim
Leandre PV Sim
Leopoldo Meyer PSB Não
Luciano Ducci PSB Não
Luiz Carlos Hauly PSDB Sim
Luiz Nishimori PR Sim
Nelson Meurer PP Sim
Nelson Padovani PSDB Sim
Osmar Bertoldi DEM Sim
Reinhold Stephanes PSD Sim
Rocha Loures PMDB Sim
Rubens Bueno PPS Sim
Sandro Alex PSD Sim
Sergio Souza PMDB Sim
Takayama PSC Sim
Toninho Wandscheer PROS Sim
Total Paraná: 27


Fonte Congresso em Foco. Estiveram ausentes ou não votaram:
Diego Garcia PHS
Hermes Parcianello PMDB
Zeca Dirceu PT.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Democracia - capitalismo, colonialismo e patriarcado. Boaventura Sousa Santos.

A difícil democracia - reinventar as esquerdas é um livro fundamental para quem quiser efetivamente discutir a difícil democracia nos dias de hoje. Dias de absoluto domínio da ideologia neoliberal e da mudança de conceitos de territorialidade - desterritorialidade, de países ou de nações, para se chegar ao chamado mercado mundial globalizado. Se o Estado, até certo ponto, era um antídoto aos males do liberalismo econômico, o liberalismo político, pela ação do Estado, procurava mitigar, ao menos um pouco, os seus efeitos sociais perversos. O neoliberalismo é a mais anti social de todas a ideologias.
 Livro imprescindível para a democratização do espaço das relações humanas.

Neste livro Boaventura Sousa Santos trabalha com os conceitos de democracia de baixa e alta intensidade. A democracia de baixa intensidade é a democracia liberal, representativa, formal e cujo principal componente é o fenômeno das eleições. Marx designava o poder decorrente desta democracia liberal como a trincheira da defesa dos interesses burgueses. É uma democracia estática, que odeia e abomina a participação e qualquer movimento ascensional nas bases da sociedade.

Sob esta democracia representativa o atual poder mundial institui o que o autor chama de "fascismo social", isto é, um sistema que aboliu todos os direitos ligados ao trabalho e à seguridade social, assim como o estamos vendo no Brasil após o golpe de 2016. Este fenômeno ocorre, mesmo sob a aparência da normalidade democrática, de baixa intensidade. Este poder mundial está associado ao capital financeiro, que para continuar com a finalidade primeira do capitalismo, isto é, a acumulação, precisa destruir direitos para continuar atingindo os seus perversos intentos. É um tempo em que se soma a ideologia política com os interesses econômicos das minorias. É um tempo em que pretendem transformar a dominação em hegemonia, para que os pobres se sintam como os culpados pela sua própria pobreza.

Estes são os difíceis tempos para a democracia, a qual se refere o título, ao mesmo tempo que procura alternativas democráticas para às esquerdas, como sugere a segunda parte do título. Diante desta difícil democracia o sociólogo português propõe a radicalização da democracia, a democratização da própria democracia e transformá-la numa democracia representativa, de alta intensidade. Muitos outros espaços, para além da política, precisam ser atingidos.

Esta alta intensidade implicaria em transformar radicalmente as esferas de seis diferentes espaços e tempos sob os quais está estruturada a nossa sociedade e nos quais ocorrem as relações de poder desiguais. Para ser totalmente fiel ao texto, recorro à transcrição. "No espaço-tempo doméstico, a forma de poder é o patriarcado ou relações sociais de sexo; no espaço-tempo da produção, a forma de poder é a exploração centrada na relação capital/trabalho; no espaço-tempo comunidade, a forma de poder é a diferenciação desigual, ou seja, os processos pelas quais as comunidades definem quem pertence e quem não pertence e se arrogam o direito de tratar desigualmente quem não pertence; no espaço-tempo do mercado, a forma de poder é o fetiche das mercadorias, ou seja, o modo como os objetos assumem vida própria e controlam a subjetividade dos sujeitos (alienação); no espaço-tempo da cidadania, a forma de poder é a dominação, ou seja, a desigualdade no acesso à decisão política e no controle dos decisores políticos; e, finalmente, no espaço-tempo mundial, a forma de poder é troca desigual, ou seja, a desigualdade nos termos de troca internacionais, tanto econômicas como políticas e militares". (Página136-7. É possível vislumbrar este quadro das relações?

Boaventura volta ao tema no epílogo do livro, epílogo que propõe, seja lido apenas em 2050. Refletindo então, sobre o passado, encontramos o seguinte: "Operavam três poderes em simultâneo, nenhum deles democrático: capitalismo, colonialismo e patriarcado; servidos por vários subpoderes, religiosos, midiáticos, geracionais, étnico-culturais, regionais. Curiosamente, não sendo nenhum democrático, eram o sustentáculo da democracia realmente existente".

Refleti um pouco sobre estas três palavras-conceito, capitalismo, colonialismo e patriarcado. Expus as três palavras a uma pessoa praticamente analfabeta, destas coisas que ainda acontecem no Brasil. Por coincidência, também era negra. Lhe perguntei se as relações, com as quais ele se entrelaça na sociedade, eram autoritárias ou democráticas  e se elas, em consequência, geravam justiça e igualdade, ou injustiça e desigualdade. Explicitei mais, perguntando: como se dão as suas relações de trabalho (capitalismo); como se dão as suas relações étnico-raciais, (colonialismo) e como se dão as suas relações domésticas e familiares (patriarcado)? A resposta foi batata. Pratica o autoritarismo quando pode, mas na maioria das vezes é a sua vítima. Aliás, nem precisava recorrer a este exemplo. Basta olhar para nós mesmos. Vivemos numa sociedade extremamente autoritária, desigual e injusta. Coisas da cultura.

Realmente a missão das esquerdas é difícil. A difícil democracia e a reinvenção das esquerdas. É preciso um enorme esforço teórico para ler corretamente o mundo e um esforço prático, que envolve enorme soma de esforços para que a indiferença e o medo não suplantem as esperanças. As esperanças passam por um mundo de enormes desafios.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

O que é ser de Direita ou ser de Esquerda? Boaventura Sousa Santos.

Neste post não pretendo nem polêmica, nem contextualização histórica. Ele tem por finalidade única, apresentar os conceitos trabalhados por Boaventura Sousa Santos em seu livro A difícil democracia - reinventar as esquerdas. O livro é uma edição da Boitempo, de 2016. É um livro poderoso, de estudioso que investiga os movimentos e contra movimentos da democracia ao longo do século XX e das primeiras décadas do século XXI.
Aqui você encontrará as definições do que é ser de direita ou de esquerda.

O livro é uma espécie de nova gramática ou um novo dicionário para a democracia com o uso de novas terminologias, necessárias para definir a realidade de um mundo globalizado, sob o domínio da ideologia neoliberal, sob a égide total da voracidade do capital financeiro. É um remapeamento dentro da dialética da territorialização - desterritorialização, repleto de tensões. Seu resultado é o que  vemos em curso, a existência de um "fascismo social", com a destruição de tudo o que possa proporcionar cidadania, em nome da "eficiência" e da voracidade da acumulação capitalista, sem precedentes. O neoliberalismo é o mais anti social de todas as ideologias que já existiram. Em nome da austeridade pratica-se um verdadeiro austericídio. Salvação mesmo, só num futuro indeterminado, pois, resta-nos apenas o tempo presente.

Vejamos um pequeno trecho do epílogo do livro, recomendado para ser lido apenas em 2050;  "... Por isso, as paisagens converteram-se em pacotes turísticos e as fontes e as nascentes tomaram a forma de garrafa. Mudaram os nomes às coisas para as coisas se esquecerem do que eram. Assim desigualdade passou a chamar-se mérito; miséria, austeridade; hipocrisia, direitos humanos; guerra civil descontrolada, intervenção humanitária; guerra civil mitigada, democracia. A própria guerra passou a chamar-se paz para poder ser infinita. Também Guernica passou a ser apenas um quadro de Picasso para não estorvar o futuro do eterno presente. Foi uma época que começou com uma catástrofe, mas que logo conseguiu transformar catástrofes em entretenimento. Quando uma catástrofe a sério sobreveio, parecia apenas  uma nova série".

E ainda por cima procuram transformar as vítimas em culpados, como nos advertia Malcom X, o revolucionário sem medo: "Se não tiverdes cuidado, os jornais convencer-vos-ão de que a culpa dos problemas sociais é dos oprimidos, não de quem os oprime"?  Isso porque, voltando a Boaventura, "A opinião pública passou a ser igual à privada de quem tinha poder para publicá-la". Mas vamos aos conceitos. 

Começamos pelo de direita. "Entendo por direita o conjunto das forças sociais, econômicas e políticas que se identificam com os desígnios globais do capitalismo neoliberal e com o que isso implica, no nível das políticas nacionais, em termos de agravamento das desigualdades sociais, da destruição do Estado social, do controle dos meios de comunicação e do estreitamento da pluralidade do espectro político". E continua.

São os que aceitam a "prioridade da lógica do mercado na regulação não só da economia como da sociedade em seu conjunto; privatização da economia e liberalização do comércio internacional; diabolização do Estado enquanto regulador da economia e promotor de políticas sociais; concentração da regulação econômica global em duas instituições multilaterais, ambas dominadas pelo capitalismo euro-norte-americano (o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional) em detrimento das agências da ONU que antes supervisionavam a situação global; desregulação dos mercados financeiros; substituição da regulação econômica estatal (hard law) pela autoregulação controlada por empresas multinacionais (soft law)".  Pretendem transformar "a dominação em hegemonia, ou seja, fazer com que mesmo os grupos sociais prejudicados por esse modelo fossem levados a pensar que era o melhor para eles". Se identificou? (Páginas 112-3).

Vamos então para o conceito de esquerda. "Esquerda é o conjunto de teorias e práticas transformadoras que, ao longo dos últimos 150 anos, resistiram à expansão do capitalismo e ao tipo de relações econômicas, sociais, políticas e culturais que ele gera e que assim procederam na crença da possibilidade de um futuro pós-capitalista, de uma sociedade alternativa, mais justa, porque orientada para a satisfação das necessidades reais das populações, e mais livre, porque centrada na realização das condições do efetivo exercício da liberdade. A essa sociedade alternativa foi dado o nome genérico de socialismo". Encontramos esta primeira definição à página 74.

Na página 144, após repetir a definição, ele avança no sentido de provocar uma discussão em torno do que seria o socialismo. "Falar do socialismo do século XXI significa falar do que existiu e do que ainda existe como se fossem partes da mesma entidade. Não estou tão certo de que essa seja a melhor maneira de imaginar o futuro, embora ache que a análise crítica e desapaixonada do socialismo do século XX, apesar de urgente, ainda não tenha sido feita e provavelmente ainda não pode ser feita".

Já na página 173, Boaventura começa uma série de cartas dirigidas às esquerdas, nas quais começa por uma definição do que elas sejam. vejamos; "A esquerda é um conjunto de posições políticas que partilham o ideia de que os humanos  têm todos o mesmo valor e são o valor mais alto. Esse ideal é posto em causa sempre que há relações sociais de poder desigual, isto é de dominação". Continua a sua análise afirmando que o capitalismo é a mais importante das fontes deste poder de dominação. Outra ideia muito presente no livro é a da radicalização da democracia, da democracia de alta intensidade e dos espaços que esta deve ocupar. A radicalização da democracia e o princípio de democratizar a democracia é outra característica das esquerdas. mas a este tema dedicaremos um novo post. Conseguiu a sua identificação? Objetivo cumprido.


sábado, 22 de abril de 2017

A difícil democracia. Reiventar as esquerdas. Boaventura Sousa Santos.

Em rápido encontro com o deputado Tadeu Veneri, trocamos algumas leituras. Uma de suas indicações foi este de Boaventura Sousa Santos, A difícil democracia - reinventar as esquerdas. O livro do respeitado sociólogo português data de 2016, mas no livro são compilados textos, entrevistas e cartas, mais antigos.  Uma publicação da Boitempo. Grato pela indicação. Pela complexidade do livro não é fácil elaborar uma resenha. Mas vejamos.
Leitura obrigatória para tod@s os que se afirmam democratas de alta intensidade.


Certamente o escrito por Frei Betto, na orelha do livro, nos serve de guia. Depois de afirmar que o livro lança um olhar sobre o mundo pela ótica dos oprimidos e de que a democracia vive em grave crise, ele faz a interrogação fundamental que paira sobre a democracia no mundo de hoje. Será ela possível sob o império do capital financeiro? Afirma ainda que a democracia, para se consolidar, precisa ir para muito além do mundo político. É por estas questões que o sociólogo português procura respostas em suas investigações. Este é o livro.

Antes de entrar na resenha propriamente dita, deixo aqui também as minhas impressões preliminares. A democracia representativa, formal e restrita a eleições, muito pouco representa para a própria democracia nos tempos de hoje. É necessário retomar o conceito de democracia participativa, já afirmada por Rousseau, de que o povo é soberano e que ela necessariamente deve rumar para a igualdade, a tal ponto que não haja ninguém tão rico para que possa comprar alguém. No entanto, as formas de compra, nos dias de hoje, se multiplicam extraordinariamente. Também é forte e perpassa todo o livro, a constatação de Frei Betto sobre a insuficiência da democracia liberal, uma democracia de baixa intensidade. Para se viver efetivamente numa sociedade democrática é necessária a busca por outros espaços que vão para além da política e atingir todas as esferas das relações humanas, marcadas fortemente por relações desiguais e injustas de poder. Será necessário se exercitar numa democracia de forte intensidade e democratizar a própria democracia.

Embora o livro seja uma publicação de 2016, nem todos os textos são recentes, embora todos sejam extremamente atuais. Ele se divide em quatro partes. Parte I. Revolução e transformação do Estado. Esta parte é formada por um único texto, que é também o mais longo. Tem por título: O Estado e a sociedade na semiperiferia do sistema mundial: a Revolução dos cravos - Portugal, 1974).  O texto é de 1990. 

O vigoroso texto começa pela análise da saída de Portugal de seu longo regime ditatorial e de todos os atrasos a ele relacionados. Mostra as diferentes opções políticas tomadas, em que sempre prevaleceu, o que poderíamos caracterizar como modernização conservadora ou de adaptação aos tempos neoliberais. Passa ainda pela integração à União Europeia e pelas implicações sociais deste processo. Chama muito a atenção a passagem das relações sociais no trabalho, que passaram de uma regulação fordista para uma regulação, ou melhor, desregulação competitiva em um mundo que se transformou em um único mercado. Interessantes são também as análises sobre a dialética entre territorialização e desterritorialização provocadas por este mercado. Na leitura deste capítulo parece que você está lendo sobre a desregulamentação das proteções trabalhistas e previdenciárias no Brasil, depois do golpe de 2016.

A parte II do livro recebe como título geral As marcas do tempo. É formado por dois textos. O primeiro, Por que Cuba se transformou num problema difícil para a esquerda? Nele o autor comenta sobre o caráter peculiar da democracia cubana, as suas enormes dificuldades, passando pela análise dos tempos mais difíceis, fortemente influenciados pela conjuntura internacional e as suas reinvenções para a sua sobrevivência. Liderança carismática e construção de hegemonia são também questões abordadas.

O segundo texto tem por nome Comentários com data. São oito comentários sobre a política mundial, datados entre 2012 e 2015. O foco é a atuação do capitalismo financeiro internacional e as reações a ele, como as ocorridas na América Latina e as graves tensões internacionais que que envolvem os Estados Unidos e a Rússia, com foco na Ucrânia (Hoje seria a Síria). Há espaço ainda para a questão dos conflitos étnico religiosos e os fundamentalismos decorrentes. São sábias aulas para os cursos dedicados à política, geopolítica e relações internacionais, além da militância, é claro.

A parte III tem por título geral o bordão - Democratizar a democracia. É formado por dois textos. O primeiro, politizar a política e democratizar a democracia. Parte da existência dos conceitos de democracia representativa e participativa, da evolução histórica de sua formatação, de seus inimigos ao longo do século XX, quais sejam, o fascismo e o comunismo, chegando até a sua crise atual marcada pelo neoliberalismo, a mais anti social das ideologias que já existiram. Como antídoto propõe a radicalização e a democratização da própria democracia, marcada pelo avanço por seis espaços, em que uma democracia de alta intensidade deverá ser implantada. Como isto merecerá um post especial, me reservo o direito de, neste momento, apenas enunciá-los. São o espaço-tempo doméstico; da produção; da comunidade; do mercado; da cidadania e das relações mundiais. Talvez seja a parte do livro que mais motivou a sua publicação.

O segundo texto, Democracia, populismo e insurgência passa pela conceituação dos termos para se concentrar na insurgência. O neoliberalismo precisa de respostas e enfrentamentos. Como o neoliberalismo é incompatível com a democracia, por ser anti social, ele procura construir hegemonia, tornando necessária e até simpática a ideia da perda de direitos sociais fundamentais, fenômeno que o sociólogo denomina de "fascismo social". Este fascismo social, um verdadeiro austericídio, precisa ser combatido nos seis espaços já apontados, ou seja, pela prática de uma política de alta intensidade.

A parte IV é destinada a Reinventar as esquerdas. Nela não há um texto, mas Cartas às esquerdas. São 13 cartas que terminam num manifesto incompleto. Nelas, praticamente, todo o teor do livro é retomado. É um apelo à unidade, que começa por uma boa leitura do perverso, anti social e anti igualitário mundo existente, pois, a democracia é fundamentalmente luta por igualdade e justiça nas relações. Eu destacaria aqui quatro destas cartas. A de número 4, Colonialismo, democracia e esquerdas, a de número 10, Democracia ou capitalismo, a de número 12, Ecologia ou extrativismo e a de número 13, que é o Manifesto Incompleto. Nele existem três conceitos que também merecerão um post à parte. São um teste para ver se você é ou não é democrático ao examinar as suas posições frente ao capitalismo, ao colonialismo e ao patriarcado.

O livro termina com um epílogo de quatro páginas. Somente por estas quatro páginas o livro já mereceria ser comparado e lido. Ele tem uma espécie de título. Para ler em 2050: Uma reflexão sobre a utopia ou sobre a sociologia das ausências das esquerdas. O conceito de esquerdas e de direita também merecerão um post especial. Vejam, o plural e o singular são intencionais. Livro obrigatório para todos os verdadeiramente democratas das mais diferentes áreas de militância.








quarta-feira, 19 de abril de 2017

O pai não é mais deputado. Carta de Rubens Paiva para os filhos.

Ainda estou aqui é um belo livro de Marcelo Rubens Paiva, lançado em 2015. O foco do livro são as memórias do escritor sobre os tristes acontecimentos que envolveram seu pai com o regime militar, como a cassação de seu mandato em 1964 e o seu desaparecimento, após prisão e tortura até a morte, nos quartéis do Rio de Janeiro. Mas o foco principal é a luta de sua mãe para a obtenção da verdade e do atestado de óbito e o seu fazer-se uma profissional do direito após o assassinato do marido, aos 41 anos e assumir o comando da família.
A partir da mãe, Eunice Paiva, é recordado o episódio da tortura, morte e desaparecimento do pai, Rubens Paiva pelo regime militar.


Deve ser o livro que melhor relata as mentiras que começaram a ser produzidas em 20 de janeiro de 1971, feriado de São Sebastião, a data de sua prisão. Com o tempo tudo foi desvendado: os motivos da prisão, a versão de sua fuga, o nome dos torturadores assassinos e para onde levaram o corpo, este nunca encontrado. O óbito foi obtido em 1995. A luta de Eunice Paiva é realmente uma bela e exemplar história. A sua dedicação à causa indígena a torna uma pessoa com méritos perenes. Ao final, já aos 77 anos é acometida pelo mal de Alzheimer. O tema é abordado com muito cuidado e ternura. Eunice Paiva ainda está viva, devendo contar com 87 anos.

Mas o objetivo deste post é a de explicar o que foi a ditadura civil-militar, instituída com o golpe de Estado de 1964. Rubens Beyrodt Paiva era deputado federal pela combativa legenda do PTB. Ele teve o mandato cassado já em 1964 e partiu para o exílio, primeiramente na Iugoslávia e depois em Paris. Em um voo de Paris para Montevidéu, com escala no Rio de Janeiro, desceu no Rio e como ninguém implicou com a sua saída, ali permaneceu. Anos depois ocorreu o triste incidente de sua tortura, morte e desaparecimento. 

A cartinha foi escrita, ainda em Brasília, quando estava refugiado na embaixada da Iugoslávia.  Era uma justificativa para suas 4 filhas e para o filho das razões da cassação de seu mandato e do seu exílio. A carta é bem simples e revela todo o carinho de um pai de 35 anos de idade para com a sua família. Era uma defesa que os filhos poderiam usar quando sofressem acusações por parte de coleguinhas na escola e em outros ambientes. Começa  nominando os apelidos das crianças. Vou transcrevê-la na íntegra:

"Verinha, Cuchimbas, Lambancinha, Cacazão e Babiu.
Recebi suas cartinhas, desenhos etc., fiquei muito satisfeito de ver que os nenês não esqueceram o velho pai. Aqui estou fazendo bastante ginástica, fumando meus charutos e lendo meus jornais. É possível que o velho pai vá fazer uma viagenzinha para descansar e trabalhar um pouco. Vocês sabem que o velho pai não é mais deputado? E sabem por quê? É que no nosso país existe uma porção de gente muito rica que finge que não sabe que existe muita gente pobre, que não pode levar as crianças na escola, que não tem dinheiro para comer direito e às vezes quer trabalhar e não tem emprego. O papai sabia disso tudo e quando foi ser deputado começou a trabalhar para reformar o nosso país e melhorar a vida dessa gente pobre. Aí veio uma porção daqueles muito ricos, que tinham medo que os outros pudessem melhorar de vida e começaram a dizer uma porção de mentiras. Disseram que nós queríamos roubar o que eles tinham: é mentira! Disseram que nós somos comunistas que queremos vender o Brasil: É mentira! Eles disseram tanta mentira que teve gente que acreditou. Eles se juntaram - o nome deles é gorila - e fizeram essa confusão toda, prenderam muita gente, tiraram o papai e os amigos dele da Câmara e do governo e agora querem dividir tudo o que o nosso país tem de bom entre eles que já são muito ricos. Mas a maioria é de gente pobre, que não quer saber dos gorilas, e mais tarde vai mandar eles embora, e a gente volta para fazer um Brasil muito bonito e para todo mundo viver bem. Vocês vão ver que o papai tinha razão e vão ficar satisfeitos do que ele fez".

Está aí límpido e claro, o que foi o golpe e porque ele ocorreu. E a enorme esperança fundada na fé de que ele estava certo. É triste vermos a repetição dos fatos. Se não existe violência física neste golpe que vivemos nos dias atuais, os objetivos dos golpistas são absolutamente os mesmos. Impedir a realização da justiça social e da vida com cidadania em nosso país. Uma carta que Marcelo Rubens Paiva guarda com muito carinho entre os seus documentos pessoais.

Deixo a referência do livro donde transcrevi a carta. Lê-lo é um antídoto para que fatos semelhantes não se repitam. Recomendo aos colegas professores para a leitura junto com os seus alunos. PAIVA,  Marcelo Rubens. Ainda estou aqui. Rio de Janeiro. Alfaguara. 2015. Extraído das páginas 101-102.

Um adendo - (30 de novembro 2024). Em 2024 o livro transformou-se em filme aplaudidíssimo. Candidato a Oscar e em breve tempo, mais de dois milhões de brasileiros já o assistiram. Deixo a resenha do filme. 

terça-feira, 18 de abril de 2017

Ainda estou aqui. Marcelo Rubens Paiva.

Conheci Marcelo Rubens Paiva pelo seu livro Feliz Ano Velho. O li, assim que foi publicado. O foco do livro foi o seu acidente, que o deixou tetraplégico. Conhecia razoavelmente a história do seu pai, o bravo deputado do PTB, Rubens Beyrodt Paiva, cassado pela ditadura militar, ainda em 1964, e dado como desaparecido em 1971. Na verdade, morreu sob forte tortura, que lhe provocou hemorragias internas. Nada sabia de Eunice Paiva, a mãe de Marcelo Rubens.
A partir da mãe, Eunice Paiva, as memórias da família.

Esta semana tive com ele um reencontro através do Ainda estou aqui, o seu mais recente livro, lançado em 2015. Ganhei o livro de presente do meu filho Iuri, que entrou em contato com ele através de um clube de leitura que ele tem com seus colegas de trabalho. Foi um reencontro muito agradável, pois Marcelo Rubens é efetivamente um grande escritor. Foi também um reencontro triste, pela realidade retratada. Também sempre manifesto a minha preferência por biografias e livros de memória.

Em Ainda estou aqui, Marcelo Rubens privilegia dois temas que são o fio condutor do livro. O seu pai e a sua mãe. Do pai conta tudo sobre o seu desaparecimento e a longa luta pela obtenção do atestado de óbito. De sua mãe nos conta como Eunice Paiva refez a sua pacata vida de dona de casa de classe média alta, que aos 41 anos se tornou viúva de um marido dado como desaparecido. Corajosamente tomou a frente da família, formando-se em direito, tornou se advogada de prestígio, com dedicação especial à causa da defesa indígena. Com a vida refeita, lhe sobrevém o mal de Alzheimer.

O livro está dividido em três partes, tendo a primeira cinco capítulos e a segunda e a terceira, seis. Os capítulos recebem títulos. Os capítulos da primeira parte tem os seguintes títulos: 1. Onde é aqui. Fala de sua mãe, advogada e a sua interdição, aos 77 anos, pela doença de Alzheimer. 2. A água que não era mais do mar. Aqui são relatadas as memórias de sua infância e os episódios de 1971, o ano do desaparecimento de seu pai e, ainda, a obtenção do seu atestado de óbito em 1995. 3. Blá-blá-blá. Continua relatando as memórias de infância e sobre o encontro das famílias de seus pais. Moravam em uma fazenda na cidade de Eldorado, em São Paulo. Toca na questão da doença da mãe, quando para ela, as conversas se transformaram em blá-blá-blá. 4. Cometas da memória. Se dedica especialmente à memória da família, uma família tipicamente burguesa, de alta classe média. Fala da mudança para o Rio de Janeiro, da morte do pai e, a mãe refazendo a sua vida, em Santos, a cidade de origem. 5. Mãe protocolo. Este capítulo é dedicado à mãe, agora já em São Paulo, concluindo o curso de direito e se dedicando ao ofício da advocacia. Conta ainda de seus tempos de vida estudantil e relembra o seu triste acidente de 1979.

A segunda parte tem seis capítulos. 1. Merda de ditadura. Busca as memórias do golpe militar, a cassação do mandato de seu pai, a fuga para o exílio e a sua volta, para então ocorrer o seu desaparecimento em 1971. 2. É a peste, Augustin - Perdão, tenho que morrer. O capítulo versa sobre a tortura dos militares e torturas policiais, com foco, obviamente, em seu pai. 3. O telefone tocou. No feriado de 20 de janeiro o exército vem prender o seu pai. 4. Doze dias. Relata a espera da volta do pai, que nunca chega e também a prisão da mãe e da irmã. A mãe ficou presa por 12 dias, a irmã foi solta no dia seguinte. 5. Ou, ou, ou, ou, ou. É sobre o assassinato do pai e a versão oficial da fuga. A morte "em guerra". 6. O sacrifício. Aqui são relatados os motivos da prisão, sendo o principal a interceptação de uma carta vinda do Chile, para onde tinham ido as pessoas trocadas pelo embaixador suíço.

A terceira parte tem mais seis capítulos. 1. Depois do luto. Conta sobre a mãe que assume as tarefas do comando da família, a sua ida para Santos e São Paulo e o exercício da profissão de advogada. Fala ainda de sua vida estudantil, e das dificuldades na escolha da profissão. 2. Você lembra de mim? Dois temas principais são abordados, os desaparecimentos após prisões e tortura e a luta da mãe por justiça. A chegada  da doença de Alzheimer também recebe uma abordagem. 3. Já falei do suflê? Todo o foco deste capítulo é a mãe. A sua dedicação ao direito e a nobre questão da defesa dos povos indígenas e, a sua especialidade na cozinha, o suflê. 4. O choro final. Este capítulo é especial, dedicado ao desvendamento dos mistérios que envolveram a morte do pai, o nome dos assassinos, a obtenção do óbito e o seu mestrado com foco em seu pai. 5. O alemão impronunciável. O foco está no alemão impronunciável, ou seja, o mal de Alzheimer. A aposentadoria da mãe aos 70 anos também é relatada, assim como a chegada da doença, em sua primeira fase. 6. O que estou fazendo aqui. É sobre o avanço da doença, aos seus estágios dois e três e a brava resistência. Por ocasião da conclusão do livro, em 2015, contava com 85 anos de brava resistência.

Em suma, um grande livro. Evidentemente que o foco principal é a luta da mãe para por a limpo a história do seu marido. Uma luta sem tréguas. Tudo foi desvendado, o nome dos assassinos, a causa da prisão, a falsidade da versão oficial e o fato de ter conseguido o tão sonhado atestado de óbito. É também um triste retrato do que foi a ditadura militar, das atrocidades cometidas. Leitura obrigatória para que histórias de desaparecimentos não se repitam, que ditaduras não se repitam. O tema do Alzheimer é tratado com profunda dignidade. Que doença!

Eu particularmente gostei de uma cartinha do pai, explicando para o filho e para as filhas, as razões de seu exílio. Uma explicação, ao mesmo tempo simples e bem profunda. Mas sobre isto farei um post especial. A sua volta do exílio foi também notável e inusitada. Em um voo de Paris para Montevidéu, com escala no Rio de Janeiro, simplesmente desceu do avião. Como não o incomodaram, ficou. Se tivesse ido para Montevidéu, a sua história certamente teria sido outra. O livro também me fez sentir um carinho todo especial pelo Marcelo Rubens, pela forma carinhosa com que retratou pai e mãe neste magnífico livro. E, ao Iuri, meus agradecimentos pelo belo presente.

Ainda que bastante atrasado, deixo o link do premiado filme baseado nesse livro:

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Trópico de Câncer. Henry Miller.

Mais uma das indicações de Vargas Llosa. Ele indicou os nove livros mais importantes da literatura mundial. Como não lembro a fonte e como muitos a pedem, conferi a lista no Portal Raízes. Trata-se de Trópico de Câncer, de Henry Miller. Fiquei conhecendo a fama deste escritor, ainda nos anos 1960, quando estava no seminário. Era proibidíssimo. O conteúdo sexual de suas obras era o motivo. O escritor nasceu em 1915 e morreu em 2005, apenas para situá-lo e datá-lo.
Em Paris. Sem dinheiro, emprego, moradia e alimento. A queda nas profundezas da existência.

Para situar a obra, vamos localizá-la. Ela foi escrita em 1934, em Paris. A cidade é o seu objeto de descrição. Miller é um dos muitos escritores americanos que moraram nesta cidade, não tão maravilhosa, ao menos, segundo o escritor. Lá ele passou por poucas e boas. Observe bem o ano de publicação e procure contextualizar a data. É o período entre guerras, da crise do capitalismo mundial de 1929 e de suas decorrências e da ascensão das anomalias políticas como o fascismo e o nazismo.

Vou começas com duas frases bem sintomáticas. Uma, eu guardo a mais tempo, dos tempos em que eu li uma biografia de Fellini. Ela diz o seguinte: "Segundo minhas experiências, na escola como em casa faziam de tudo para apagar nossa peculiaridade". E agora, lendo Fausto de Goethe, entre os comentários sobre a obra encontrei a eterna luta da "oposição entre a uniformidade do comportamento social e a peculiaridade específica dos anseios individuais". Trópico de Câncer é um libelo em favor do indivíduo em seu confronto com a cultura reinante.

Bóris é um dos vários personagens do livro. Bóris estava com chatos e nos é apresentado pelo narrador como um profeta meteorológico. Bóris não era um otimista: "O tempo continuará ruim, diz ele. Haverá mais calamidades, mais morte, mais desespero. Não há a menor indicação de mudança em parte alguma. O câncer do tempo está-nos comendo. Nossos heróis estão morrendo ou estão se matando. O heroi, então não é o Tempo, mas a ausência do Tempo. Precisamos acertar o passo, em ritmo acelerado, em direção à prisão da morte. O tempo não vai mudar". Encontramos esta profecia já na primeira página do livro. Esta será a tonalidade e esta é a referência ao câncer, que está no título.

A obra não é de leitura agradável. O tom pessimista e mesmo nojento com que aborda os temas está onipresente. Sexo rasteiro, prostituição com asco, desrespeito ao ser humano, machismo descarado, loucura, fome, rastejar pela sobrevivência são a realidade diária descrita na obra, ambientada em Paris, onde vive o narrador, praticamente sem dinheiro, sem emprego, sem moradia e sem comida. Vive de bicos e de favores. Os bicos lhe aparecem pela sua condição de americano e de escritor. Revisa jornais e, num convênio franco americano, é professor de inglês em Dijon. O convênio existe, diz, para difundir o evangelho da amizade franco americana.

A cultura que o oprime são dois mil anos de idiotices passando pelo judaísmo, pelo cristianismo e pela civilização da técnica. Assim fala da Weltschmertz, de sua neurose e sofrimento. Fala dos judeus, de padres, em meio aos poloneses, indianos, russos, procurando caracterizar cada um em suas peculiaridades e em meio a inúmeras prostituas, putas de alto a baixo e de suas bocetas, encontradas às fartas em qualquer parte da cidade.

O livro que eu li é da Biblioteca Folha, com tradução de Aydano Arruda. Não tem apresentação, prefácio ou posfácio. Tem apenas duas pequenas referências sobre a obra, uma na orelha da capa, e outra, na contracapa. A orelha não tem autoria mas tem um roteiro interessante para a leitura. Nos conta que são as aventuras do autor, em Paris, nos famosos anos 1930. Nos dá as seguintes pistas.

"Sem obedecer a uma sequência linear, o romance se estende pelos bulevares da cidade, entra em suas pensões baratas, se embebeda nos cafés ordinários, convive com uma multidão de artistas e intelectuais igualmente desenraizados e sem dinheiro, dorme com prostitutas e mulheres solitárias. O ritmo é do relato rápido, ansioso, de quem quer chegar à medula das coisas. Tendo sido acusado de pornográfico e obsceno quando foi lançado, o livro de Henry Miller pode hoje ser lido, sem as lentes do preconceito, como um dos mais intensos testemunhos literários de uma geração que mergulhou de cabeça na vertigem do século XX".

Na contracapa o colunista da Folha, Fernando Bonassi, nos dá outras informações, como a censura ao livro nos Estados Unidos e que foi liberado apenas quando as suas revelações começariam a ser digeridas quando "o sonho americano deu sinais de pesadelo e os filhos e filhas da bomba atômica abriram os olhos, deixaram crescer os cabelos e suspenderam as saias". O livro nos narra, ainda segundo Bonassi, o que há de mais nobre e medíocre na experiência humana, fazendo um dos elogios mais revolucionários da autonomia pessoal que a literatura universal pode suportar".

Bonassi em seu parágrafo de encerramento nos diz ainda: "Aqui se encontra música; a cadência de frases vitaminadas e a força irada das imagens poéticas. Aqui se discute sem vergonha o preço da felicidade e do caos. Sexo, loucura, arte, vício, fome... Você tem nas mãos um livro nojento, grandioso, estimulante, infernal. Você tem nas mãos o Livro da Vida! Diante de uma experiência como essa, só o arrebatamento".

O livro tem 286 páginas, sem nenhuma sequência linear, como vimos. Possui 15 capítulos, não numerados, em que aparecem diferentes personagens. Tem um crescendo extraordinário nos capítulos finais. Um dos pontos altos do livro, que tem uma profunda tonalidade da angústia da existência, é um grande diálogo que mantém com inúmeros autores consagrados da literatura universal. Me permitam uma observação final. Eu contrariaria Vargas Llosa. Não o incluiria entre as nova obras mais significativas de todos os tempos.



domingo, 9 de abril de 2017

Fausto de Goethe. 3. No cinema.

Fausto é um personagem onipresente na cultura alemã. É uma história extremamente popular. Ele teria vivido ao final da Idade Média. Era um misto de médico, charlatão, adivinho, astrólogo e vidente. Era odiado pelo clero, pois mesmo sem fé, promovia curas. Suas aparições eram concorridas. É uma figura que costuma aparecer em época de crises e de transições. Teria vivido na Alemanha, entre os anos de 1480 e 1540.

Goethe não foi o primeiro a lhe dedicar atenção literária. A sua história já circulava através de edições populares e por uma versão mais esmerada no teatro inglês, por Marlowe, em 1592, um dos antecessores ou contemporâneo de Shakespeare. É um personagem extremamente fascinante para mentes irrequietas, não muito afeitas à tradição da obediência religiosa e de suas verdades absolutas. Originalmente, embora sob o formato de uma peça para o teatro, ela foi escrita para ser apresentada como uma leitura dramatizada.


Com a chegada do cinema, seria óbvio que este também lhe lançaria o olhar. Esta tarefa coube ao cineasta alemão Friedrich Wilhelm Murnau, em 1926, ainda nos tempos do cinema mudo. Diga-se de passagem, ele fez uma obra grandiosa. A minha primeira curiosidade se voltou para o roteirista. Quem teria a ousadia para transportar obra de tamanha envergadura para o cinema? Murnau costumava trabalhar com Karl Mayer, mas para o Fausto o escolhido foi um poeta, Hans Kyser, auxiliado por Gerhart  Hauptmann. Porém Murnau fez muitas modificações. Coisas de diretor perfeccionista.

Evidente que escolhas teriam que ser feitas. O filme que eu vi foi o da Coleção Folha - Grandes Livros no Cinema, que vem acompanhado de um libreto. Nele é apresentado um trailer em que são postas duas frases. A primeira diz assim: "Com a intenção de dominar o mundo, Mefisto aposta com um anjo que pode corromper a alma de fausto, um velho professor". E a segunda é assim apresentada: "Mefisto lança uma praga sobre a terra, e Fausto, incapaz de desvendar a cura, renuncia a Deus e à ciência e invoca a ajuda do diabo". Fausto aparecerá como um médico.

O recorte está feito.Num primeiro momento o filme privilegia os embates entre a ciência e a fé, quando o mundo é castigado por uma peste que não tem fim. Como ele não dispõe da fala, apenas os recursos da legenda, das expressões faciais, dos gestos e da música são possíveis. E o são feitos com grandiosidade. No libreto da Coleção Folha existe uma descrição sobre a produção do filme, por sinal, o último de Murnau na Alemanha. Depois ele seguiria carreira nos Estados Unidos. Mas vejamos a descrição, que é de Tatiana Monassa.

"Produzido pela UFA, um grande estúdio alemão do período mudo, o filme de Murnau apresenta diversos traços recorrentes do chamado 'expressionismo alemão'. Os jogos de luz e sombra, os cenários com perspectivas distorcidas e o drama do Mal encarnado por uma figura influente (o que abriu espaço para a interpretação de que esses filmes prefiguravam a ascensão do nazismo) são alguns deles. E esses foram certamente fatores essenciais para a imortalização do filme como a grande versão cinematográfica de Fausto".

Da Coleção Folha - Grandes Livros no Cinema. Fausto. Foto do DVD da minha coleção.

Fausto, Eine deutsche Volkssage, tem o Fausto interpretado por Gösta Ekman e o Mefistófeles por Emil Jannings, cabendo à jovem Camila Horn a interpretação de Margarida. O filme tem duração de 106 minutos e estreou na Alemanha em outubro de 1926. A Coleção Folha - Grandes livros no cinema tem 25 filmes.