terça-feira, 10 de outubro de 2017

Os Muckers. P. Ambrósio Schupp S.J.


Creio que estou vivendo uma fase saudosista em minha vida. Estou retomando memórias de minha infância e, posso afirmar, das mais longínquas. Se tinha uma coisa que me assustava muito era a frase, dita por meu pai ou minha mãe, ou simplesmente lida nos jornais, Die Mucker Kommen. Os Muckers estão chegando. Aprendi a associar tudo o que se podia imaginar de ruim, a estes Muckers, sem ter a mínima ideia de quem eles poderiam efetivamente ser.

Agora, após uma visita ao meu irmão, vi com ele alguns materiais sobre as origens da imigração alemã e, consequentemente, sobre as nossas origens familiares. Já li o livro Os imigrantes do Husnrück e encontrei, na Estante Virtual, o livro Os Muckers, de autoria do padre Ambrósio Schupp, um padre jesuíta. O livro foi originalmente escrito em alemão e recebeu tradução de Alfredo Cl. Pinto. O livro foi muito bem escrito e é afirmada e reafirmada a fidelidade absoluta aos fatos. Toda a narrativa obedece a depoimentos de envolvidos, autos de processos ou cópias da imprensa da época. Porém, os adjetivos empregados, demonstram uma clara tomada de posição.
O livro. Um importante documento histórico.

O fato ocorrido remete ao ano de 1872, junto ao morro Ferrabraz, no hoje município de Sapiranga, mas os seus antecedentes ou as suas causas remetem a problemas trazidos desde a Alemanha. Aliás, se o livro tem algum defeito, ele está justamente na não análise das causas e dos objetivos deste movimento. De acordo com a leitura, o fato ocorreu de uma forma meio espontânea, como uma consequência da ausência de padres e de pastores, somado à possibilidade da livre interpretação da Bíblia, por parte dos protestantes. Do movimento são abstraídas as causas econômicas e ideológicas.

O livro do padre Ambrósio, que foi escrito ainda no século XIX, deve ter originado, por muito tempo, a única interpretação dos fatos e por isso mesmo, a verdadeira ou oficial. Esta interessava tanto aos padres, quanto aos pastores. É sabido que os alemães que se estabeleceram em São Leopoldo, as margens do rio dos Sinos, ali chegaram em 1824, em função das difíceis condições existentes na Alemanha, especialmente em consequência das guerras napoleônicas. Trouxeram também as suas divisões religiosas, entre os protestantes e os católicos. Os protestantes também trouxeram o movimento pietista.

O livro é dividido em três partes, divididas em pequenos capítulos. As partes tem os seguintes capítulos: 1. Os fanáticos; 2. Assassinos-incendiários e 3. Os rebeldes. Só por estes títulos já dá para ver a neutralidade do livro. O livro tem uma bela introdução sobre a colonização alemã no Rio Grande do Sul, seguramente um documento de valor histórico.

Na primeira parte, os fanáticos, entramos em contato com o curandeiro João Jorge e com Jacobina, o casal protagonista de toda a história. No começo, o papel principal era exercido pelo curandeiro, mas aos poucos este papel passa a ser exercido por Jacobina, pelo seu misticismo e capacidade de convencimento. Em pouco tempo conseguiu atrair muita gente, diante dos quais começou as suas pregações e interpretações bíblicas. Cada vez mais gente e gente com certa influência afluiu ao Ferrabraz. Também entra em cena um certo personagem misterioso. O movimento começou a dividir as famílias entre os seguidores e os chamados ímpios. A divisão também atingiu protestantes e católicos. A dissolução das famílias, segundo o padre narrador, também constava da doutrina dos seguidores de Jacobina. O movimento começa a preocupar as autoridades e, tanto João Jorge, quanto Jacobina chegam a ser presos. Mas isso só fez o movimento crescer.

Na segunda parte, Assassinos e incendiários, são descritas as cenas de violência, que segundo o autor, foram promovidas pelos Muckers, numa ampla ofensiva decretada contra os ímpios. Na calada da noite os Muckers promoviam os ataques aos inimigos mais declarados, incendiando-lhes paiol e casas e assassinando mulheres e crianças. A sanha sanguinária dos principais líderes é descrita com forte carga nas tintas. Ganhou grande destaque a chamada "Noite da carnificina", em que foram lançados muitos ataques simultaneamente. As "orgias de sangue" alcançam, inclusive, picadas mais distantes, narra o autor. Providências por parte dos colonos e das autoridades passam a ser tomadas. Mas, ao que tudo indica, também havia divisão entre estas autoridades.

Na terceira parte, Os rebeldes, são narradas as providências tomadas pelos colonos e pelas autoridades para por fim ao movimento. Isto não foi nada fácil. Os Muckers se organizaram para a resistência e a organização militar do Império era deveras frágil (recém tinham saído da Guerra do Paraguai) e com problemas de toda ordem, como os comandos, a desobediência e a falta de treinamento. Várias expedições resultaram em baixas e grandes derrotas, que causavam ou sentimento de admiração ou de pavor. Finalmente, depois de impor disciplina e um pouco de treinamento, em agosto de 1874, os Muckers são rendidos pelas forças legalistas. De uma maneira geral, a paz volta aos campos ensanguentados por mais este movimento messiânico, tão presente em nossa história, principalmente entre as populações economicamente menos favorecidas. Em tempo. Também houve uma delação premiada. Jacobina havia escolhido, entre os seus apóstolos, também um Judas.
Harmonia. No livro tem esta foto da minha terra natal. Não teve participação neste episódio dos Muckers.


Assisti também o filme, Os Mucker, do ano de 1978. O filme já contém alguns elementos mais críticos, envolvendo questões econômicas e ideológicas. E o filme tem uma preciosidade. O genuíno alemão da região alemã do Hunsrück, falado entre os colonos. É fácil localizá-lo no YouTube.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Eleições APP-2017. Nota oficial da chapa 2.

Com a finalidade de deixar este documento num espaço permanente, visando especialmente finalidades de pesquisa, transcrevo este documento para este espaço do blog. É a nota oficial da chapa 2. App Independente, democrática, de base e de luta sobre o processo eleitoral. O documento é de 5 de outubro de 2017.





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quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O cemitério dos vivos. Lima Barreto.

Antes de efetivamente falar de O cemitério dos vivos, vamos falar um pouco sobre o Lima Barreto, sobre a sua formação. Apesar de sua origem humilde, uma série de influências o fizeram ser um homem de uma formação esmerada, a melhor que se poderia imaginar. Passou pelos estudos preparatórios e ingressou, como se diria hoje, na faculdade de engenharia, da qual, segundo ele, felizmente desistiu.

Os seus desencontros na vida e com a vida, em grande parte, decorreram dessa sua formação e o fato de não encontrar uma ocupação que realmente contemplasse este seu nível de formação. Exerceu uma função burocrática e rotineira no Ministério do Exército. Na literatura teve pouco reconhecimento, embora escrevesse muito. Por artigos em jornais e revistas procurou tornar-se conhecido, mas isso em muito pouco o ajudou. A tudo isso se aliou uma insegurança extrema diante das dificuldades da vida, entre elas, as questões financeiras que sempre o atormentaram. Tudo isso o levou ao álcool, muito álcool, e aos delírios por ele causados e a dois internamentos em hospício, ao qual chegou, segundo ele próprio, da pior maneira possível, pelas mãos da polícia. No hospício ele teve uma certeza mais do que absoluta: a de que ele não era um louco.
Os dois livros de memória de Lima Barreto.  Acima de tudo, grande contribuição para os estudos da psiquiatria.

Nestas condições ele escreveu dois livros notáveis. O primeiro, Diário do hospício, é um livro de memórias e um mínimo de ficção. É uma descrição valiosa destas suas desventuras, em dois internamentos. O segundo, O cemitério dos vivos é mais notável. Nele, se não fosse conhecida a sua biografia, já não se distinguiria entre a realidade e a ficção. As descrições são acompanhadas de profundas e lúcidas reflexões. Estabelece relações com Dostoiévski, com as Memórias da casa dos mortos e com os sofrimentos e impactos de Cervantes em sua prisão em Argel. Este livro deveria ser leitura obrigatória para todos os estudantes de medicina que se dedicam à neurologia e à psiquiatria. São observações de uma pessoa com a mais alta e elevada formação possível e em absoluto estado de lucidez, observando o tratamento que ele e os demais receberam, naquilo que se chama de um tratamento para a loucura.

O próprio Lima conta sobre os objetivos deste seu livro: "Essa narração, porém, não tem por fim indicar medidas de administração; quero contar simplesmente as impressões da minha sociedade com os loucos, as minhas conversas com eles e o que esse transitório comércio me provocou pensar".

O livro está dividido em cinco capítulos. O primeiro é quase pura ficção. Seria o que poderíamos dizer, os anos de formação de Vicente Mascarenhas. A sua timidez, o seu interesse por literatura, os seus projetos e sonhos de ser um escritor reconhecido, o seu casamento e sobre o seu único filho. Chama atenção neste capítulo uma descrição da arrogância da ciência e da pretensão doutoral dos brasileiros, tão presente ao longo de sua obra. Os bruzundangas.

No segundo capítulo ele narra do seu internamento num dia de natal. É submetido a todas as humilhações possíveis a um ser humano. Aí é que se recorda de Dostoiévski e de Cervantes, recolhidos em prisões. Ele não faz distinção entre prisão, hospício e inferno. O seu estado psicológico está assim descrito: "Veio-me, repentinamente, um horror à sociedade e à vida; uma vontade de absoluto aniquilamento, mais do que aquele que a morte traz; um desejo de perecimento total da minha memória na terra; um desespero por ter sonhado e terem me acenado tanto grandeza, e ver agora, de uma hora para outra, sem ter perdido de fato a minha situação, cair tão, tão baixo, que quase me pus a chorar que nem uma criança". 

O capítulo mostra o choque entre seus sonhos de jovem, a sua formação relacionada com a sua origem, proveniente de uma mistura racial, os seus altos sonhos com a literatura, a sua permanente falta de dinheiro, que o levou a bebidas baratas, à cachaça. O seu estado de ânimo está assim descrito: "Tinha trinta e poucos anos, um filho fatalmente analfabeto, uma sogra louca, eu mesmo com uma fama de bêbado, tolerado na repartição que me aborrecia, pobre, eu vi a vida fechada. Moço, eu não podia apelar para minha mocidade; ilustrado, não podia fazer valer a minha ilustração; educado, era tomado por um vagabundo por todo mundo e sofria as maiores humilhações. A vida não me tinha mais sabor e parecia que me abandonava a esperança".

Novas reflexões são trazidas no capítulo terceiro. Desta vez elas atingem o próprio estado da loucura. Quais seriam as suas origens, causas e explicações? Procura desmistificar as absurdas teorias da origem hereditária. Se assim fosse, quem não seria louco, deduz. E a sua reflexão continuava, sobre o ser moral que está no homem: "Eu sofria honestamente por um sofrimento que ninguém podia adivinhar; eu tinha sido humilhado, e estava, a bem dizer, ainda sendo, eu andei sujo e imundo, mas eu sentia que interiormente eu resplandecia de bondade, de sonhos de atingir a verdade, do amor pelos outros, de arrependimento dos meus erros e um desejo imenso de contribuir para que os outros fossem mais felizes do que eu, e procurava e sondava os mistérios de nossa natureza moral, uma vontade de descobrir o seu núcleo primitivo de amor e de bondade". Em meio a tudo isso, ele recebe tratamentos um pouco mais humanizados e isso lhe faz renascer as esperanças.

O quarto capítulo trata fundamentalmente das relações que ocorrem no presídio. Lima é observado e ganha um tratamento diferenciado. Ele jamais o reivindicou, especialmente, por sentimentos de culpa, que o aniquilavam. De maneira geral, os funcionários eram portugueses pobres. Descreve, mas pede para não generalizar, um brasileiro, lhe conferindo as qualidade de exibição, mando e autoritarismo. Com ele teve um atrito, dos poucos que teve. Soberba, superioridade e inferioridade nas relações ganham também as suas observações. Considera a falta de solidão um dos piores suplícios do hospício. Sempre tem um louco por perto a incomodar. A hora mais triste é a que está entre o pós jantar e o dormir, quando afloram na memória os tristes episódios da vida.

No quinto capítulo descreve e reflete sobre a sua relação com os médicos. Descreve com atenção especial dois médicos com atitudes opostas. De um teme que lhe aplique os novos inventos da medicina. De outro, exalta as suas qualidades humanas. Da ciência louva o progresso da técnica, mas duvida das ciências médicas, por sua arrogância e o distanciamento na interação do médico com o paciente. Este é tratado como um objeto. Passou por cinco médicos, cada um com as suas peculiaridades. Descreve, ainda as cinco sessões do hospício. Sobra tempo também para uma reflexão sobre a bebida, quando um dos médicos constata que ela não lhe provocara estragos tão grandes. "Eram mínimos", constatou. E aí começa a sua nova reflexão:

"Ela não me matava, ela não me estragava de vez, não me arruinava. De quando em quando, provocava-me alucinações, eu incomodava os outros, metiam-me em casas de saúde ou no Hospício, eu renascia, voltava, e assim levava uma vida insegura, desgostosa, e desgostando os outros, sem realizar plenamente o meu destino, que as coisas obscuras queriam dizer não ser o de um simples bêbado. Era preciso reagir".

Lima Barreto não reagiu. O memorável escritor sucumbiu diante de seus problemas, na jovem idade de 42 anos. Um brasileiro que retratou a si e ao seu país. Um escritor profundamente temperado pelos sofrimentos que a vida impõem, especialmente para aqueles que melhor os compreendem. O cemitério dos vivos é o livro em que Lima Barreto melhor expõe as angústias de sua vida. Profundamente existencial.




Diário do Hospício. Lima Barreto.

Cheguei a estes dois livros do Lima Barreto (reunidos num só), Diário do hospício e O Cemitério dos vivos, pela lista dos mais vendidos na FLIP - 2017. Ele ocupou o sétimo lugar. Lembrando que Lima Barreto foi o escritor homenageado desta edição da Feira. Entre os mais vendidos também figurou a maravilhosa biografia do escritor, em terceiro lugar, de autoria de Lília Schwarcz, Lima Barreto - Triste visionário. Uma biografia notável. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/08/lima-barreto-triste-visionario.html
Os dois livros do Lima Barreto. Diário do hospício e O cemitério dos vivos.

No Diário do hospício nos deparamos com o Lima Barreto memorialista, embora no livro constem também alguns lances de ficção, poucos na verdade. O livro, da Companhia das Letras tem prefácio de Alfredo Bosi e inúmeras notas explicativas de Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura. As memórias estão contadas em dez capítulos. Desde já destaco o terceiro, que em cinco páginas descreve seu drama vivido em companhia do álcool. O capítulo tem por título: A minha bebedeira e a minha loucura. Dá vontade de transcrever o capítulo inteiro. Mas vamos aos outros.

No primeiro capítulo O Pavilhão e a Pinel faz uma detalhada descrição do hospício. Diz ter chegado a ele da pior forma possível, pelas mãos da polícia. Aliás, a comparação entre a prisão e o hospício é uma constante ao longo da obra. Também nela está onipresente a comparação com o inferno. Dante recebe inúmeras citações. O tratamento dado é desumano e as humilhações são constantes. Deixa também a certeza de que ele não é louco. Está ali por causa do álcool, ao qual estão associados os seus problemas familiares, o seu não reconhecimento, a sua origem e a cor da pele, além dos seus constantes problemas financeiros.

No segundo capítulo Na Colmeil descreve este pavilhão no qual ficou internado, por uma deferência do Dr. Juliano Moreira, uma exceção, no bom sentido, entre os médicos alienistas que o tratam. A frieza dos demais também é constante na obra. Aplicam teorias sem quererem saber a quem elas são aplicadas. Os considera arrogantes e prepotentes, em nome da ciência que julgam dominar. Também aparecem as primeiras descrições dos colegas e da biblioteca do estabelecimento.

Do terceiro capítulo, A minha bebedeira e a minha loucura, tomo apenas uma descrição: "Saído dela (da leitura de Maudsley, O crime e a loucura), escrevi um decálogo para o governo de minha vida; entre os artigos havia o mandamento de não beber alcoólicos, coisa aconselhada por Maudsley, para evitar a loucura. Nunca o cumpri e fiz mal. Muitas coisas influíram para que viesse a beber; mas de todas elas, foi um sentimento ou pressentimento, um medo, sem razão nem explicação, de uma catástrofe sempre presente. Adivinhava a morte de meu pai e eu sem dinheiro para enterrá-lo; previa moléstias com tratamento caro e eu sem recursos; amedrontava-me com uma demissão e eu sem fortes conhecimentos que me arranjassem colocação condigna com a minha instrução; e eu me aborrecia e procurava distrair-me, ficar na cidade, avançar pela noite adentro; e assim conheci o  chopp, o whisky, as noitadas, amanhecendo na casa deste ou daquele.

No quarto capítulo Alguns doentes, Lima defende uma interessante tese de que "não há espécies, não há raças de loucos; há loucos só". Isso devia ser muito forte para ele, pois, conviveu com as teses da degeneração das raças quando elas se misturavam. Este era o seu caso. Por isso a constatação tem tanta ênfase. Também faz a afirmação categórica de que a ciência não pode tudo. Continua tergiversando sobre as possíveis causas da loucura, como o álcool e o amor, ou a falta dele. Descreve os primeiros de seus colegas.

No quinto capítulo Guardas e enfermeiros, estes merecem a sua atenção. De maneira geral lhes faz referências elogiosas. Mas se ocupa mais de reflexões existenciais, sobre a inutilidade da vida. Neste capítulo entram também os primeiros elementos de ficção. Daí em diante, dos capítulos VI a IX, eles não tem mais título e o Xº, nem mesmo recebe numeração. No VIº ele continua analisando seus colegas e faz interessantes considerações sobre o endividamento e sobre os crimes de uxoricídio.

No VIIº capítulo, um dia de tédio, o dia São Sebastião, ganha as suas reflexões. Se depara com uma espécie de arrependimento por não ter seguido na vida por caminhos já batidos, por ter ousado e de querer reconhecimento. Volta à ficção falando de sua mulher, já morta e se culpa por não tê-la amado. No VIIIº capítulo, mais descrições e auto reflexão. Conta sobre a inadequação da biblioteca e busca em sua infância a sua iniciação na literatura com a obra de Júlio Verne. Sobre um suicídio que ocorre nas dependências do hospício ele afirma não ter encontrado forças para cometê-lo também, mas que se voltasse a este local, também nele encontraria a sua morte. No IXº capítulo encontrei duas observações interessantes: poucos internos se davam ao choro e todos, numa rotina de inspeção, manifestavam a imensa vontade de sair deste ambiente.

Já o Xº capítulo consta de umas dez páginas de anotações para um próximo livro. Mais observações em torno do suicídio e uma perspicaz observação sobre os padres, que transcrevo: "Houve festa na capela e ao sair o café (à uma hora) cruzei-me com os padres. Que lorpas! E a Constituição! Padres como esses não fariam mal se não fossem eles a guarda avançada do estado-maior jesuítico que nos pretende oprimir, favorecendo os ricos e pavoneando os seus preconceitos".

E um último pensamento, sobre os livros. Existe uma relação entre a inteligência e a loucura? Entre as suas anotações do capítulo X existe uma anotação a respeito. Mas, no primeiro capítulo existe uma pequena frase que é extraordinária: "Ah! A literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela". Um livro fundamental para melhor compreender este tão fantástico escritor, genuinamente brasileiro.


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O jovem Karl Marx no cinema.

Há tempos aguardava o lançamento de O jovem Karl Marx no cinema, no circuito comercial. Como este lançamento não ocorria, até desisti de procurar. Foi então que o meu amigo Marco Aurélio Gaspar me mandou o link para assisti-lo. Não dá para entender as razões pelas quais o filme ainda não estreou nos cinemas brasileiros. Seria medo de reações, afinal vivemos um grande tempo de intolerâncias. MBL e similares.



O filme, antes de tudo é muito bonito e dá grande ênfase no lado humano dos principais personagens. Assim mostra o amor do jovem Marx pela bela e aristocrata Jenny Westphalen, o nascimento de Laura, a segunda filha do casal, em meio a todas as dificuldades materiais possíveis e as relações complicadas entre Friedrich Engels e o seu pai, o rico industrial da Ermen & Engels, que já naqueles tempos era uma multinacional do setor têxtil. Também o calor dos debates, das disputas ideológicas, ganha um grande foco.

O filme retrata, como é afirmado no título, o jovem Marx. Não é um filme de fácil assimilação para um país que tem pouca tradição em estudar o tema. Não é um filme para principiantes. Tem que entender um pouco a evolução da filosofia alemã e um pouco de história deste conturbado período. É um tempo de monarquias em queda, como resultado das revoluções e estragos causados por Napoleão Bonaparte. O filme não mostra os seus anos de formação, mas sim, os seus primeiros anos de atividade, digamos assim, de atividade profissional, como jornalista.

Começa com o seu primeiro artigo polêmico escrito na Gazeta Renana, sobre a coleta de lenha nas florestas de Colônia. Neste artigo já se discute  a questão da propriedade privada. A censura e os mecanismos de perseguição policial são imediatamente acionados e o jovem Marx, já casado, se refugia, junto com Ruge, na França. Em Paris também conhece um mundo de hostilidades, por parte do regime de Guizot. Em Paris conhecerá outro jovem, Friedrich Engels, filho de um dos mais ricos industriais, mas movido a desvendar o mundo de injustiças, que promoveram a fortuna da família. Engels é diretamente responsável por colocar Marx em contato com o mundo do trabalho nas fábricas inglesas, com o seu A situação da classe trabalhadora na Inglaterra.

Em Paris também conhece Proudhon, o famoso anarquista de Lyon. Começa aí uma longa disputa pela hegemonia na condução teórica das lutas operárias. Este é um período de intensa produção teórica, de refutação das doutrinas idealistas, do surgimento do materialismo histórico, do tempo em que se afirma o princípio de que é preciso ir além das interpretações de mundo para começar sim, a sua transformação. Nada de doutrinas piedosas e utópicas.  O modo de produção capitalista traz em sua raiz a oposição entre a classe trabalhadora e a burguesia. Ele não permite conciliações. Ele exige a Revolução.

Após sua expulsão de Paris Marx se estabelece em Bruxelas e, mais uma vez, pelas mãos de Engels, entra em contato com a Liga dos Justos, a principal organização dos trabalhadores da Inglaterra. Inserir-se nesta organização não foi tarefa fácil. Não será qualquer teórico que dará orientação para os trabalhadores. Mas Marx e Engels vão ultrapassando as rejeições e recebem a encomenda de um documento teórico que conduza a ação dos trabalhadores do mundo inteiro.

Está assim posto o nascimento do Manifesto do Partido Comunista. É um dos momentos mais impressionantes do filme. A disciplina de Engels, a relativa lentidão de Marx na produção teórica, sempre na busca da perfeição em seu último grau e a participação de Jenny na redação final do documento. Com o Manifesto, Liga dos Justos se transforma na Liga dos Comunistas, e aos poucos, Marx e Engels se tornarão hegemônicos na interpretação teórica que conduzirá as lutas operárias pelo mundo afora, longe de haver qualquer tipo de unanimidade.

Marx é um dos pensadores mais complexos que o mundo já conheceu. A filosofia, com ele, encontrou a sua utilidade prática. Ela deveria proporcionar a transformação do mundo e a emancipação da classe trabalhadora. Ele é uma síntese do pensamento alemão, francês e inglês de sua época. Tudo indicava que a Revolução aconteceria sob os princípios do Manifesto, já no ano de 1848, o ano de sua publicação. Vide o ocorrido na França.

Creio que o maior mérito do filme está em mostrar as disputas que se travam pela hegemonia da interpretação do mundo decadente da época e de afirmação dos próximos passos na condução do processo histórico. Creio que Engels tinha uma visão extraordinária desse processo, sempre reconhecendo a superioridade da capacidade teórica de Marx para fazer a análise do mundo em crise, no qual estavam inseridos. O filme é uma produção da França, Bélgica e Alemanha. O jovem Marx é interpretado por August Dieh, Jenny por Vicky Krieps e Engels por Stefan Konarske.
O belo livro de Nicolai Lápine. O Jovem Marx.
A biografia de Engels escrita por Tristán Hunt.

Tenho duas sugestões de leitura por fazer. A primeira, O jovem Marx, de Nicolai Lápine. O livro é dividido em três partes: 1. Em busca de concepção do mundo própria, com dois capítulos: Dos bancos da escola ao doutoramento em filosofia e Através da filosofia para a política. 2. Passagem para o materialismo e para o comunismo, também com dois capítulos: Início da passagem para o materialismo e para o comunismo e Através da crítica de Hegel, rumo a uma concepção científica do mundo. 3. Nas fontes de uma concepção científica integral do mundo, mais uma vez com dois capítulos: Ponto de partida do comunista e O fundamento econômico e filosófico do comunismo. A segunda leitura é a densa biografia, Comunista de casaca - A vida revolucionária de Friedrich Engels, escrita por Tristán Hunt. E a certeza de que, enquanto houver capitalismo, o marxismo não estará superado. O link do filme não está mais disponível por questões de direito autoral.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Assentamento Contestado, na Lapa. Uma visita.

30 de setembro 2017. Um sábado. Atendendo a um convite dos meus amigos, Regina e Valdemar, fui com eles ao Assentamento Contestado, na Lapa. É um assentamento do MST. Era uma atividade escolar promovida pela professora Regina, junto aos alunos do curso de direito da UNINTER. Foram dois ônibus e mais de cinquenta alunos.
O senhor Antônio e a sua conversa.
O resultado. 108 famílias produzindo produtos agro ecológicos.

Lá fomos recebidos pelo senhor Antônio, que com toda a tranquilidade e transparência começou a sua fala e se pôs a disposição para responder aos questionamentos propostos. A sua fala podia facilmente ser comprovada com a prática do que se via ao redor. Origem do MST, recrutamento de pessoal, acampamentos e assentamentos, relação com o governo foram as primeiras questões. As áreas escolhidas para serem ocupadas também ganharam o seu foco e o assentamento Contestado, em particular. Era uma área enorme, pertencente à INCEPA, que era grande devedora de tributos. Estes tributos entraram nas negociações para a desapropriação. O assentamento envolve 320 hectares de terra, na qual estão hoje assentadas 108 famílias.

A produção também mereceu um foco especial. A agro ecologia. Junto ao assentamento funciona uma escola latino americana de agro ecologia. Defendem a posição de que a propriedade da terra deve pertencer essencialmente às futuras gerações, por isso todo o cuidado com a preservação. Outro destaque é a questão da saúde alimentar. Livrar o corpo humano dos agro tóxicos. A melhor forma de fazê-lo é pela agricultura familiar e evitando as monoculturas. O agro negócio é para eles um enorme lixo tóxico e de empobrecimento rápido das terras.

 Com o senhor Antônio, visitando as instalações.

A organização da produção mereceu outro foco. A organização em cooperativa, visando a comercialização. Desde a compra dos insumos até a venda dos produtos colhidos, tudo passa pela organização cooperativa. Praticamente todos os assentados dela participam. Tem até industrialização de muitos de seus produtos. Atendem os mercados da Lapa e região e chegam a Curitiba, atendendo a vendas até pela via do WhatsApp. Produtos agro ecológicos da agricultura familiar. Acima de tudo um conceito.

Ao meio dia foi servido um almoço e, logo após, retomados os trabalhos. Tomo o depoimento de um aluno como o resultado do encontro. Este aluno rompeu com a sua timidez para falar o seguinte: "Vim aqui movido pela curiosidade. Vim com todos os preconceitos incutidos pela Mídia. Saio daqui com uma nova visão".  Os trabalhos foram encerrados com uma visita às instalações: o mercado da cooperativa, os depósitos e a pequena agro indústria. Um dia extremamente proveitoso, que eu considero como um dia em que ocorrem aqueles choques, aqueles que provocam verdadeiras rupturas em nossa formação, essencialmente conservadora em seus propósitos e origens.
 Antônio Tavares. Uma vida ceifada pelas lutas. Quem é o assassino?

Quero ainda destacar as palavras iniciais da fala do senhor Antônio. Muito próprias para alunos de um curso de direito. É preciso saber o que é a lei, quem a faz e para que e para quem ela é feita. Dentro da ordem, estas 108 famílias que, digamos, hoje vivem bem, estariam provavelmente vivendo a verdadeira tragédia humana das periferias das nossas grandes cidades, vítimas da venda das pequenas propriedades agrícolas, que promoveram o chamado êxodo rural brasileiro, especialmente, ao longo do período da ditadura civil-militar que se instalou no país em 1964. Muito aprendizado e os parabéns à professora Regina e ao coordenador do curso que também acompanhou as atividades. Importa ainda dizer que o assentamento está dotado de serviços de infra estrutura de educação e de saúde. Eles aprenderam a reivindicar organizadamente. Não confiam muito na representação política, via partidos. É democracia direta.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Os imigrantes do Hunsrück. Haus Weber. Selbrício Bohn.

"Aos primeiros a morte, aos segundos a miséria e aos terceiros, então o pão".

Numa visita ao meu irmão Hédio, na cidade de Mondaí (SC), as origens familiares vieram à tona em nossas conversas. Fotografias, cartas e livros. Entre os livros, apareceu um que me despertou particular interesse. Trata-se de Os imigrantes do Hunsrück. Nossos antepassados: sua partida, sua viagem e chegada em São Leopoldo. Na capa consta que o autor é Selbrício Boh, mas este dado não corresponde. Selbrício é o tradutor. O autor, como consta no interior do livro, é Haus Weber, um escritor da região do Husrück, de onde partiram os emigrantes alemães com destino a São Leopoldo.
O livro contém o romance e os nomes dos emigrados entre 1824 e 1892.

O livro tem muitos problemas, começando por este que já apontei. O maior problema está, creio eu, nem mesmo na tradução, mas no português. Frases inconclusas, erros de grafia e parágrafos inteiros, meio sem sentido. Com um pouco de esforço, no entanto, você consegue ler o livro. É louvável o esforço do Selbrício, que em viagens à região do Husnrück, descobriu o livro e nos legou um importante documento.

O livro é composto de cinco capítulos. No primeiro estão transcritas as dificuldades vividas na Alemanha, na região do Hunsrück, região próxima aos rios Reno e Mosel, nas proximidades da França, com quem disputava o território. Os maiores problemas eram as guerras, (as guerras napoleônicas) os pesados serviços militares obrigatórios, a miséria e a fome e, especialmente, a ausência de perspectiva de futuro. Isto levou muitos ao sonho na distante América. Um projeto de colonização do Império brasileiro chamou a atenção de muitos.

Entre estes muitos havia o casal João Pedro e Regina Teis. Eles tinham cinco filhos, dois meninos e três meninas. Também havia o Frederico Gewehr, marceneiro de profissão. No mercado de Kastellaun ouviram falar do Brasil. Não sem resistência, o pai de Regina vendeu um pedaço de terra, sua futura herança. Esta venda tornou a viagem possível. Estes não foram os colonos da primeira viagem. Esta ocorreu em 1824, no navio Protector. A chegada em São Leopoldo ocorreu em 25 de julho de 1824. Josão Pedro, Regina e Frederico partiram em 1827.

A saída da Alemanha, por si só já foi uma verdadeira epopeia. A ela está reservado o capítulo de número dois. Ela durou um mês inteiro. Embarque no porto de Oberwesel e chegada em Colônia. De Colônia seguiram por terra, pelos serviços postais, até Hannover, para finalmente atingirem o porto de Bremen, do qual saíram, sem a perspectiva de volta. Um misto de medo e esperança foram os grandes companheiros desta viagem. Da data de saída, 1º de abril de 1827, até a chegada ao Rio de Janeiro, em 3 de agosto, decorreu uma eternidade. Mais alguns dias estariam em Porto Alegre e São Leopoldo.

Mas este já é o tema do terceiro capítulo. Na chegada ao Rio de Janeiro tiveram até uma saudação imperial. Já em Porto Alegre e em São Leopoldo alguns colonos das primeiras viagens os aguardavam. Por estradas lamacentas foram até São Leopoldo. Mata virgem, cobras e índios hostis se constituíram em seus novos medos. Os lotes 53 e 54 estavam agora na mão de seus destinatários, as famílias Teis e Gewehr. Horta, pomar e as primeiras plantações vieram junto com um poço. As dificuldades iniciais estavam sendo superadas.

O capítulo IV ocupa apenas três páginas. Ele tem uma espécie de sub título: São Leopoldo, cinco anos depois, 1832. Nele é narrado um ataque indígena com a queima das casas e muitas mortes. Os nossos imigrantes sobreviveram. Em resposta vieram as armas de fogo e uma espécie de militarização da região.

A relativa estabilização dos colonos é descrita no quinto capítulo. Já contam com vaca leiteira, cabra e galinhas. Com fins estratégicos, as casas passam a ser agrupadas. Frederico vai para Porto Alegre exercer a profissão de marceneiro. Um novo e grave problema os aguarda. Em 1835 irrompe a Revolução Farroupilha. Procuram não se envolver. Mas uma lealdade ao imperador os faz ficar ao lado do Império. A revolução vitima o filho mais velho da família. O veneno de uma cobra ceifa a do outro. Em 1854 já havia na região onze mil colonos. E, temendo um estado alemão, os novos colonos serão destinados aos vales do rio Pardo e Jacuí. Ainda no ano de 1854, havia na região, entre serrarias, moinhos e fábricas, 12 igrejas luteranas e 9 católicas, além de 24 escolas de língua alemã.
Um retrato de família, a do meu avô.


Frederico não seguiu uma regra muito comum entre os colonos. Casou-se com uma mulata e com ela teve 4 filhos cor café marrom. As filhas se casaram e para o orgulho da família, Lisa, a mais nova das meninas, tornou-se professora. Em 1870 morre João Pedro e em 1875, Regina, terminando assim a saga das primeiras famílias, da primeira geração, dos emigrantes do Hunsrück, os imigrantes da região do vale do rio dos Sinos. Deixaram mais de dois milhões de descendentes, numa das regiões brasileiras que desconhece a pobreza e a miséria.

O livro tem ainda outra preciosidade. Traz o nome, ou melhor o sobrenome de todos os emigrados da região do Hunsrück, até o ano de 1892. Para quem quiser levantar dados para uma pesquisa sobre a origem familiar encontra aí os primeiros dados, com os quais consegue iniciar os trabalhos. Já encomendei outro livro, A História de São José do Hortêncio, para onde se destinou Nicolau Rech, que deve ter chegado à região em 1829, com 26 anos de idade. Era militar. Ele deve ter sido o avô do meu avô. O meu pai deve ter sido já da 4ª geração de descendentes. Hoje são muito comuns os encontros de famílias. Nunca participei, mas deve ser bem interessante. Muitas histórias para contar. Selbrício conta sobre um desses encontros, o encontro da família Bohn em São Sebastião do Caí em 1999.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A Livraria Mágica de Paris. Nina George.

Não sei exatamente como cheguei a este livro. Certamente por alguma recomendação no facebook, ou por e-mail de editoras ou livrarias.  Tenho certa resistência na leitura de best-sellers, mas confesso que valeu muito a pena ler este livro. Trata-se de A Livraria mágica de Paris, da jornalista, professora e escritora alemã,  Nina George. O livro figurou entre os mais vendidos na Alemanha, Itália, Polônia e Holanda. O lançamento do livro foi em 2013 e no Brasil em 2016. O exemplar que eu li, já é de sua oitava edição. Isso no Brasil é fato raro. Na capa da edição está a informação: mais de um milhão de exemplares vendidos no mundo.
O best seller de Nina George. Da Record.


Passo primeiramente a apresentação do livro contida em sua contracapa: "O livreiro parisiense Jean Perdu sabe exatamente que livro cada cliente deve ler para amenizar os sofrimentos da alma. Em seu barco-livraria, ele vende romances como se fossem remédios. Infelizmente, o único sofrimento que não consegue curar é o seu: a desilusão amorosa que o atormenta há 21 anos, desde que a bela Manon partiu enquanto ele dormia. Tudo o que ela deixou foi uma carta - que Perdu não teve coragem de ler.  Até um determinado verão - o verão que muda tudo  e que leva Monsieur Perdu a abandonar a casa na estreita rue Montagnard e a embarcar numa jornada que o levará ao coração da Provence e de volta ao mundo dos vivos".

Esta é a síntese. Jean Perdu amava Manon, que vivia um duplo amor. Manon abandona Perdu e lhe deixa a carta, voltando para casa. Perdu não tem coragem para ler a carta. Vive no seu interessante ofício de livreiro, num barco livraria, ancorado no rio Sena. Mais uma atração destinada aos turistas. O seu mundo se limita aos vizinhos da rua Montagnard e aos dois gatos que mantém no barco. Em seu barco conhece um jovem escritor de sucesso, Max Jordan, acometido da doença dos escritores, qual seja, o entrave ou os bloqueios na criação.

Um dia Perdu avança nos carinhos com a vizinha Catherine mas logo se contém. A memória o remete há vinte e um anos atrás, ao ocorrido com Manon. Lê a carta e toma uma decisão. Navegar para o sul da França, atrás dos vestígios da amada, embora a soubesse morta. Quando desamarra o barco, o jovem escritor Max se lança ao barco para acompanhá-lo, em busca de inspiração. Ao longo do trajeto, um italiano, Cuneo, que sofre de semelhantes males aos de Perdu, também lhes faz companhia. Em meio a viagem, encontros diálogos e memória. E um livro. O livro de memórias de Manon.
O mapa da viagem. A linha contínua com o barco e a pontilhada de carro.


A viagem segue para o sul da França, pelo Sena e seus rios formadores até a cidade papal de Avignon, seguindo daí, de carro para a Provence, a região de origem de Manon.  Muito mais interessante do que a história propriamente dita é maneira de contar da escritora e o encontro dos personagens. Isto leva aos temas que certamente foram os responsáveis pelo grande êxito do livro. O amor, o medo, o medo de amar, os desencontros, a morte e, obviamente os livros. E uma cidadezinha, Sanary, da resistência e abrigo de escritores.

Com exceção da morte de Manon, vítima de câncer, e dos longos anos de desencontros de Perdu, todo o resto da história tem final feliz. O medo de amar passa a ser amplamente superado e a vida, a criação literária e a propensão para o trabalho criativo renascem com todo o esplendor. Max Jordan se dedica à literatura infantil, Perdu a livros especializados e Catherine, a nova companheira de Perdu, a um ateliê de escultura. E Max Jordan se casa com a menina do trator vermelho. Aí tem história.

O livro é dividido em 44 pequenos capítulos, todos eles cheios de romantismo e de belas construções literárias, que podem perfeitamente ser lidos em doses diárias. Com certeza que farão bem para a auto-estima. Certamente você se encontrará em muitas das situações ali narradas. Mas eu não quero encerrar sem fazer uma referência especial ao grande tema abordado que são os livros. Selecionei duas passagens, a primeira diz respeito ao livreiro e a segunda sobre o efeito dos livros:

1. "Quando a avó, a mãe e a menina se despediram e foram embora, Perdu refletiu sobre a concepção equivocada de que livreiros cuidam de livros. - Eles cuidam de pessoas".

2. "A todos abaixo de quatorze anos ele vendia livros por peso: dois quilos por dez euros.
- Não ficamos no prejuízo desse jeito? - perguntou Max.
- Financeiramente falando sim. Mas todo mundo sabe que a leitura deixa as pessoas insolentes, e o mundo de amanhã com certeza vai precisar de algumas pessoas que se rebelem, não acha? 

Que ideias maravilhosas. O livreiros cuidam de pessoas e que no mundo de amanhã precisaremos de pessoas que se dediquem à rebeldia. Depois da leitura me deu uma enorme vontade de viajar pela Provence e desfrutar de sua história, de sua culinária e de seus temperos de alecrim e de tomilho e, especialmente, de seus vinhos.

Ainda em tempo, o livro contém uma série de receitas de comidas que aparecem no livro e um lista dos principais livros recomendados e suas respectivas propriedades terapêuticas.


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Estudos da Oxfam apontam: Brasil aprofunda a desigualdade.

A Oxfam é uma organização não governamental criada em 1942, em Oxford, com a finalidade de arrecadar alimentos e assim aliviar as dores causadas pela Segunda Guerra Mundial. Ela atua no Brasil desde os anos 1950. Ela se dedica para termos "um futuro sem pobreza, desigualdades e injustiças", diz o seu site. Ela realiza estudos sobre a desigualdade social que ocorre nos diferentes países do mundo.

Oxfam Brasil. Uma organização no combate às desigualdades.


Em 25.09.2017 o jornal El Pais publicou reportagem sobre o Brasil. A matéria é assinada por Marina Rossi e os dados foram fornecidos por Katia Maia, diretora executiva da Oxfam - Brasil. Os dados são estarrecedores. Dela constam os dados apresentados em Manchete: 5% dos ricos no Brasil ganham o mesmo que os outros 95%. As mulheres ganharão igual aos homens apenas a partir de 2035 e os negros igual aos brancos apenas no distante ano de 2089.

A reportagem mostra que os seis brasileiros mais ricos concentram o mesmo dinheiro que os cem milhões mais pobres, ou seja, praticamente a metade da população brasileira, que alcança 207,7 milhões. Os seis homens mais ricos do Brasil são: Jorge Paulo Leman (AB Inbev), Joseph Safra (Banco Safra), Marcel Hermmann Telles (AB Inbev), Carlos Alberto Sicupira (AB Inbev), Eduardo Saverin (Facebook) e Ermírio Pereira de Moraes (Grupo Votorantim). Se eles juntos gastassem um milhão de reais por dia, levariam 36 anos para esgotarem suas fortunas.

Os estudos da Oxfam - Brasil apontam que houve melhoras com a instituição do Bolsa Família, assim como aponta também, que para minorar a desigualdade, não basta apenas mexer na base da pirâmide. É necessário mexer em seu topo. Combater a desigualdade no Brasil de hoje não constitui uma prioridade. Neste ano ela despencou 19 posições no ranking mundial. Na América Latina ficamos atrás apenas da Colômbia e de Honduras. Para atingir os níveis de igualdade com relação a outros países latinos, levaríamos 31 anos para nos igualar com a Argentina, 11 com o México, 35 com o Uruguai e 3 com o tão louvado Chile.

A principal medida para amenizar esta situação seria instituir uma reforma tributária que efetivamente tributasse os mais ricos, acabar com os paraísos fiscais e cobrar tributos sobre os dividendos e não apenas arrecadar em cima das classes pobres e médias. A reforma tributária não pode mais ser considerada apenas como uma discussão entre tecnocratas. A diretora executiva aponta ainda para a reversão da PEC dos gastos públicos, se efetivamente quisermos combater as desigualdades.

Aponta ainda para tempos de grandes riscos e retrocessos. Este é lamentavelmente o país do golpe. O mundo inteiro está sentindo os seus efeitos. Apenas os brasileiros, anestesiados e atônitos, estão em ruidoso e ensurdecedor silêncio. Algo precisa ser feito urgentemente para conter o golpe e os avanços que este promove na destruição da Nação brasileira e da cidadania de seus filhos. Colhi estes dados de um e-mail recebido pelo Instituto Humanitas, da UNISINOS.
 




domingo, 24 de setembro de 2017

O processo eleitoral de 2017 na APP-Sindicato.

Eu chegava ao Paraná em 1969, após me formar em filosofia no emblemático ano de 1968. Me estabeleci em Umuarama como professor suplementarista e em janeiro de 1971 me efetivei, em concurso público, na disciplina de História. Realizei a prova no Colégio Estadual do Paraná. Na entrada do colégio havia uma banquinha para a filiação na APLP. Não tive dúvidas e, além de me filiar, convidei o pessoal para fundar a entidade também em Umuarama. Conheci assim pessoas como Dino Zambenedetti, Adir de Lima, Elisiário Cattoni, Rubem de Oliveira, entre outros. Posteriormente participei ativamente da fusão das três entidades então existentes, em torno da APP.
A gralha. Alto valor simbólico. Ela planta.

Com boas equipes de trabalho, dirigi por três vezes o Núcleo de Umuarama e vim para a direção estadual em 1993, com o grupo OPA, trazendo de Umuarama mais de 95% dos votos. Antes de qualquer análise quero aqui fazer três afirmações: A APP já me beneficiou antes mesmo de ser professor e da minha chegada ao Paraná. Em uma histórica assembleia realizada em 1968 na cidade de Ponta Grossa, o então governador Paulo Pimentel praticamente dobrou o salário dos professores; que a APP nunca trouxe prejuízos a nenhum professor. Podemos ter tido descontos de faltas e algum problema de ascensão na carreira, mas por suas lutas garantimos estrutura de carreira e pisos salariais. Nos anos 1980 chegamos ao piso de 3,2 salários mínimos. O seu não cumprimento, pelo então governador Álvaro Dias, motivou o 30 de agosto de 1988; que a APP foi decisiva na minha formação e na minha conscientização política.

Na gestão OPA, 1993-1996, participei ativamente do processo de filiação da APP-Sindicato à Central Única dos Trabalhadores. Foi um dos mais importantes movimentos de conscientização política que houve no Paraná. Antes, a pregação era a de que os professores não eram trabalhadores, pois não usavam macacão e não tinham as mãos sujas de graxa. Junto com o meu amigo Elson Pereira de Campos fizemos os trabalhos de preparação para a filiação nas regiões que eram tidas como as mais conservadoras. A CUT sofria as acusações de promoção da desordem e da baderna. Lembro de uma fala de um padre polonês, em Palmas, afirmando que a CUT era um resto de comunismo.

Em 1995 houve a histórica assembleia de filiação na cidade de Ponta Grossa. Por questões internas e não de convicção me recusei a fazer a fala que encaminharia a filiação. Aceitei, no entanto, fazer a primeira fala após a filiação. Foi uma emoção rara. Muito choro e lágrimas de alegria. Os votos contrários não somaram uma dúzia. E eu lembrava que a estes deveríamos conquistar, não com as nossas palavras, mas sim com os nossos exemplos,com a nossa convivência solidária.

Na gestão 1996-1999 as lutas fratricidas das correntes políticas se tornaram mais agudas. Uma das correntes do PT queria se tornar majoritária. Houve interferências nacionais, via CNTE e CUT e uma composição e não uma unidade foi feita. Foram tempos difíceis. Contra a sindicalização em massa, sempre defenderam os mecanismos de controle. O mais belo trabalho foi a união dos sindicatos dos professores e o dos funcionários. Este foi o mais belo trabalho do qual eu participei. A luta pela superação dos preconceitos gerados pela divisão social do trabalho. No Congresso que propôs a unidade houve muitas tramoias e quase perdemos a nossa marca, que hoje ultrapassa os setenta anos; APP-Sindicato. O hoje professor deputado era então um dos mais ativos combatentes do grupo ao qual hoje está aliado. Depois deste evento eu me afastei da direção para retomar a minha vida acadêmica. Dois fatos me levaram a isso. A necessidade de formar meus filhos e os desgostos provocados pelas divisões internas. Sempre a divisão entre as tendências. Elas provocaram um adoecimento, do qual escapei com a volta à atividade acadêmica. A PUC/SP e a Universidade Positivo me acolheram.

Deste período, quando se instalaram os primeiros governos neoliberais no Brasil e no Paraná, quero destacar os trabalhos de formação. Por eles sabíamos o que era o neoliberalismo e compreendíamos a atuação dos economistas do Banco Mundial que se transformaram em pretensos intelectuais orgânicos da educação. Com alegria constatamos que houve vida e vida intensa, após os governos de Fernando Henrique e de Jaime Lerner. Em Adorno, em Educação após Auschwitz,  li com profunda tristeza que as raízes do fascismo estão no fato de indivíduos se submeterem cegamente a coletivos, abrindo mão do pensar. Contra sujeitos coletivos passei a defender sujeitos que abraçam causas coletivas. Formação contra a doutrinação.

Os meus anos de Positivo foram de alta densidade intelectual. Lá permaneci por 13 anos. Quando resolvi exercer a minha última profissão, a de administrador de tempo livre, recebi o convite para exercer outras funções, às quais recusei, por compromissos históricos comigo mesmo, com a minha história de vida. Comecei a receber convites para fazer falas na APP-Sindicato e me reaproximei. A minha aproximação se deu devido a afinidades ou a ausência delas. Ela se deu com o grupo APP- Independente, assumindo a coordenação de alguns trabalhos de formação.

Para dar sequência a estes trabalhos de formação me envolvi no processo eleitoral de 2017. Participei ativamente, viajando pelo estado, tanto na montagem de chapas nos núcleos, quanto na divulgação das propostas do grupo da chapa 2. Foram momentos lindos, de reencontros, de avivamento da memória, de verdadeiras celebrações de amizade e também do estabelecimento de novas. Conheci pessoas maravilhosas, que certamente reenergizariam as atividades do sindicato. Tudo isso fez um bem extraordinário para a minha auto estima. Eu estava sendo útil.

Ao longo de toda a campanha não proferi nenhuma ofensa pessoal ou fiz qualquer fala da qual eu tenha que me arrepender. Mas também disse tudo o que precisava ser dito. Mostramos divergências com relação a concepção sindical e a condução de direção. Direção que perde assembleia precisa fazer forte autocrítica. Quando isso acontece e, efetivamente aconteceu, ocorre a cisão da direção com a sua base. A base deixou de ser ouvida. Perdemos a eleição mas ganhamos no processo. Este foi extremamente rico.

Quanto ao pós eleição, temo uma vitória de Pirro. Ao longo da caminhada pelas escolas percebemos muito desânimo e desalento. A dessindicalização foi uma das tônicas encontradas nas escolas. Creio que esta foi uma das causas de termos perdido. Os nossos possíveis eleitores já não eram mais sindicalizados. Os custos da campanha provavelmente serão muito elevados. Eles deverão se refletir sobre o ânimo da categoria. As piores práticas da conturbada vida política brasileira estiveram presentes na campanha, na eleição e na apuração. Existe a sensação generalizada de uma dissintonia entre o sentimento da categoria e o resultado das urnas.

Algumas questões precisam ser submetidas à crítica, já que a autocrítica dificilmente será feita. Algumas perguntas precisarão ser respondidas: Qual foi a função de uma quarta chapa no processo? A que interesses ela atendeu? Por que houve a adoção de um processo de votação eletrônica sem a comprovação de sua viabilidade e eficiência? Como foi conduzido o processo de apuração dos votos? A exaustão física atingiu os seus limites ao longo da apuração. Também a atuação da Central Única dos Trabalhadores, que por sinal não é tão única, precisa ser profundamente questionada. Temo que muitos recursos financeiros e energias humanas, que deveriam ser direcionadas para o combate aos governos Temer e Richa, foram direcionados para um mero aparelhamento burocrático das facções ou correntes que se digladiam no interior do sindicato. Da mesma forma a atuação do Partido dos Trabalhadores, especialmente, no processo de formação das chapas precisa de questionamento. Lembro ainda, para os que não entendem, que partidarização e politização não combinam. Doutrinação versus formação.

E nós que pensávamos, lá em 1995, em conquistar mais companheiros com a nossa prática...!Termino com um convite à unidade. Para uma unidade possível, que não ultrapasse os limites éticos. Que práticas abomináveis não sejam normalizadas. E vamos em frente. Estou imune aos fluidos líquidos da pós-modernidade. Haverá vida após Temer e após Beto Richa. E haverá vida também após o processo eleitoral da APP-Sindicato -2017. Um registro para a história das minhas percepções.

sábado, 23 de setembro de 2017

Acleilton Ganzert reflete sobre o processo eleitoral da APP-Sindicato 2017.




Raramente trago textos que não sejam meus, neste blog. Hoje, lendo este belo texto no facebook, pedi para o seu autor, Acleilton Ganzert, autorização para publicá-lo. Quero cumprir assim duas finalidades. Deixar registros para a história, para futuros pesquisadores, sobre este peculiar processo eleitoral da APP-Sindicato de 2017, que a todos nós deixou atônitos. Cumpro assim uma finalidade acadêmica. A outra finalidade é a de proporcionar elementos para que sindicalizados e demais participantes possam fazer as suas reflexões e avaliações.

Me sinto feliz e honrado pelo consentimento que o professor Acleilton me deu para a publicação. É um texto de elevada qualidade acadêmica e faço votos de que sirva como base para muitas reflexões. Também fica aqui, num espaço permanente, como um registro desse processo eleitoral histórico. Acleilton é formado em ciências sociais pela UEL e pela mesma universidade também concluiu o seu mestrado. Acleilton é da base do Núcleo Sindical do METROSUL.

Também estou fazendo as minhas análises e em breve publicarei. Abro o espaço também para outras publicações referentes ao tema.
A gralha no símbolo da APP-Sindicato. Uma rica simbologia.

"Manhã de reflexão após um período intenso de aprendizado. É, nesse momento, assim que estou tentando avaliar tudo que passei e/ou tudo que passamos. 

Conheci os sindicatos nos livros durante a graduação em Ciências Sociais. Li sobre algumas experiências históricas de trabalhadores organizados enquanto força política, do papel dos movimentos sociais, de debates sobre paradigmas sob os quais podemos analisá-los, da relação entre indivíduo e sociedade, da estrutura de classes, de problemas de natureza epistemológica, ideológica, ontológica, e tantas outras coisas. A respeito da licenciatura, isto é, da formação para docente, confesso que a da UEL foi muito robusta. 

Mas, tem um aspecto disso tudo que não está na sala de aula, nem nos livros, que não cabe nas linhas, nos métodos, nem na etiqueta da linguagem formal da academia. Que não passa na propaganda, sem maquiagem. Há uma dimensão que você só tem noção dela agindo, trabalhando, construindo, desconstruindo. Tanto na escola quanto nos sindicatos de educadores, assim como em tantos outros espaços, a correlação de forças e as disputas, na realidade, não são polidas e educadas, embora também guardem esse aspecto por uma necessidade teatral de parecerem formalmente respeitosas. 

Nos momentos mais abertos, elas se dão de forma vil e abjeta. Assim, nessa dimensão, experimentamos toda a sorte de interesses e práticas em torno do poder político de dirigir, de mandar e/ou comandar, de organizar, planejar, debater, instruir, formar, avaliar, direcionar recursos, etc.

Nos sindicatos tive o desprazer de ser mesário em uma eleição organizada por um sindicato de base da UGT. Uma primeira experiência quando eu era, ainda, mais jovem. Coisa medonha. Horas de trabalho seguidas, sem dormir, sem comer direito, eu sem entender nada àquela época. Jovem, pobre, sem qualificação, precisando de uma grana e tentando entender o que significava aquela disputa antiética, cruel e violenta. Voltei meus esforços para a formação acadêmica novamente. Nesse caminhar, li sobre os limites da ação sindical, sobre a história do movimento sindical brasileiro, francês, inglês, estadunidense, russo, e, de maneira geral, sobre os processos de constituição da classe trabalhadora enquanto força econômica e política no palco das disputas no interior das sociedades modernas e contemporâneas do Ocidente capitalista. 

Desde 2008 que eu guardava alguma relação com o sindicato dos educadores, mas ainda de maneira muito fragmentada, haja vista que só pegava aula, enquanto acadêmico, de uma parte do ano para frente e, muitas das vezes, estava trabalhando com os "bicos", pois os horários para me dedicar a pesquisa fragmentavam todo o meu dia. A partir de 2013, quando consegui terminar o mestrado em Ciências Sociais, me afastei da academia para me dedicar a docência na educação básica de maneira integral. Também pude me aproximar com mais regularidade da atividade sindical. A conjuntura nos colocou diante de lutas históricas, embora em um período curto de tempo. Fiquei muito entusiasmado com pessoas que conheci e que em suas práticas desencadeavam esperança e fé no futuro, retidão ética, compromisso, responsabilidade, pouca ambição a partir de projetos pessoais, e a crença de que precisamos construir uma saída. 

Estive, também, umas tantas vezes nesses últimos anos, diante do que há de pior no ser humano. A disputa vil e abjeta como um mostro autofágico. A fé no futuro, os projetos, a formação, o companheirismo, a camaradagem, a necessidade de construção e fortalecimento de um movimento amplo de participação dos trabalhadores, de uma educação ampla e democrática, voltada para a autonomia, tudo isso atacado por interesses corporativos, mesquinhos e de grupos, aliados a práticas de ataque físico e emocional, de má fé, de promiscuidade com o poder econômico, de humilhação e aniquilamento de corações e almas. 

Tive certeza do modo de agir de determinadas forças políticas no interior do movimento sindical brasileiro, aquilo que nos livros aparece de modo bastante polido como "sindicalismo burocrático", como "aristocracia proletária", como "interesses imediatos", experimentei na prática sob empurrões, gritos e xingamentos. 

Nosso adoecimento está na moderação. Vamos cada vez mais pela raiz!"

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

1917 - 2017. Cem anos da Revolução Russa.

Com a chegada do mês de outubro, um tema se impõe. A Revolução comunista de 1917, na Rússia. Ela foi a mais importante tentativa histórica de superação do sistema capitalista. Por questão de espaço não vou falar de suas causas. Mas não poderia deixar de mencionar que houve uma relação direta entre as análises que Marx fizera sobre as contradições e mazelas do sistema capitalista para que o processo revolucionário se desencadeasse. Foram elas que forneceram o estofo teórico para deflagrar e dar rumo e direção para a Revolução.

A Rússia vivia uma situação peculiar de opressão e, sob ela, foram criadas as chamadas condições objetivas para o início de um processo revolucionário. Sobre o tema recomendo muito o clássico de Sergei Eisentein O Encouraçado Potemkim, que nos dá uma ideia da situação opressiva sob o regime absolutista dos czares. Quanto ao processo revolucionário em si a recomendação de leitura vai para Dez dias que abalaram o mundo, de John Reed. Recomendo ainda a leitura de um livro que sempre me acompanhou em minhas aulas de história. Trata-se de História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman, um livro dividido em duas partes: a primeira se ocupa da transição do feudalismo ao capitalismo e a segunda, do capitalismo ao? Uma verdadeira profissão de fé.

Com a tomada do poder, implantar o socialismo na Rússia se tornou uma tarefa extremamente complexa, pois ali o capitalismo mal e mal chegara com a sua modernização da economia. A Rússia ainda era um país rural. Também a morte prematura de Lênin e a sua sucessão trouxeram dificuldades. Mas a Revolução transformou a Rússia na União Soviética e esta, em grande potência mundial. Ocasionou a chamada bipolaridade, dividindo o mundo em duas grandes potências. Esta potência também exerceu papel decisivo na Segunda Guerra Mundial, determinante para a derrota do regime nazista, em sua expansão em busca do espaço vital. Mas havia a ditadura do proletariado. E havia também o grande problema da construção da igualdade sob um regime de liberdade. Diante desta questão sobra um pergunta de difícil resposta: Existe compatibilidade entre a liberdade e a igualdade?

Quanto as influências de 1917 sobre as mentes e corações dos trabalhadores também teríamos muito a dizer, mas vou me ater ao Brasil. Mas antes recomendo mais uma leitura. Navegação de cabotagem de Jorge Amado. Nele o escritor relata as suas andanças, o seu encontro com os grandes intelectuais do mundo. A leitura deste livro dá uma sensação de que todos os que se ocupavam com a mente, com a poesia, com o cinema e com a literatura em geral, professavam o ideário tornado concreto com a Revolução de 1917. As decepções começam com o XX Congresso do PCUS, quando Khrushchev denuncia as atrocidades cometidas sob o regime de Stálin.

No Brasil, pelas peculiaridades da imigração, os ideais igualitários vieram com os anarquistas italianos, ao final do século XIX. As influências da Revolução de 1917 chegam mais tarde, em 1922, quando se funda, em Niteroi, o Partido Comunista do Brasil, o PCB, que ao longo da história ficaria mais conhecido como o Partidão. Ele obedeceu aos ditames da Terceira Internacional, criada em Moscou em 1919 para, em torno dela, aglutinar os trabalhadores do mundo inteiro. Ao longo da história do Partidão, o líder mais conhecido foi Luís Carlos Prestes, que aderiu ao partido depois da épica Coluna Prestes.

Contar a história do Partidão também não é tarefa fácil, especialmente em função do fracionamento das esquerdas, derivadas tanto das quatro Internacionais, quanto aos movimentos posteriores a elas. A construção da unidade sempre foi tarefa praticamente impossível, tal o número de divergências, especialmente com relação aos meios de se chegar ao poder, ou mesmo o relacionamento com ele, enquanto não se deflagrava a Revolução. Recomendaria a leitura de biografias de Prestes, em especial a de Daniel Aarão Reis - Luís Carlos PRESTES - Um revolucionário entre dois mundos. Esta biografia recebeu pronta contestação da filha de Prestes, Anita Leocádia. Daniel Aarão Reis também ajudou a organizar os seis volumes da História do marxismo no Brasil, possivelmente o estudo mais completo sobre o tema.

A atuação do Partidão foi extremamente confusa no período da ditadura militar, quando se envolveu na luta armada, na guerrilha do Araguaia. Sofreu também várias dissidências, como a do PCdoB. Com a redemocratização perdeu a hegemonia das esquerdas, para o moderno socialismo pós soviético, do socialismo com democracia, que no Brasil se construiu em torno do Partido dos Trabalhadores. Quanto ao Partidão, ele proclamou a sua autodissolução, em Congresso realizado na Câmara Municipal de São Paulo, em 1992. Este Congresso foi capitaneado por Roberto Freire. Sobraram alguns remanescentes, que continuam sob a sigla do PCB.

Com os adventos da queda do muro de Berlim (1989) e do fim da URSS (1991) o mundo da bipolaridade acabou. Triunfalmente o mundo liberal anunciou o fim da história e o advento do pensamento único, como se as contradições do sistema capitalista tivessem acabado. Sob o neoliberalismo e a globalização dos mercados e a ascensão do chamado capitalismo financeiro, as crises só fizeram por crescer e as desigualdades por aumentar, especialmente, após a crise global de 2008, que longe está de terminar. Aliás, com o neoliberalismo e a globalização dos mercados, as crises antes cíclicas, se tornam agora permanentes.

Às lutas históricas dos trabalhadores somam-se hoje as novas dificuldades como as do avanço tecnológico e das ideologias do individualismo que se reinventam com significativas e sedutoras formas como as professadas pelas religiões ou seitas ligadas à teologia da prosperidade, do empreendedorismo e da meritocracia, que culpam o indivíduo pelos seus fracassos. O antídoto sempre será o apelo à formação da consciência e para a necessidade da organização coletiva. E, enquanto houver exploração capitalista, as análises de Marx, que continuam sendo um apelo à Revolução, não estarão superadas. E a convocação final do Manifesto continua absolutamente necessária. Trabalhadores do mundo inteiro, uni-vos, ou Proletarier aller Länder, Vereinigt euch!, no original.



sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Nossa senhora do Nilo. Scholastique Mukasonga.

Na Feira Literária Internacional de Paraty - 2017, a escritora tutsi de Ruanda, Scholastique Mukasonga, além de comparecer pessoalmente no evento, também compareceu duas vezes entre os dez livros mais vendidos na tradicional feira. Ela ocupou o segundo lugar, com A mulher de pés descalços e o quarto com Nossa Senhora do Nilo. Os livros foram lançados pela editora Nós.
Mapa do pequeno país africano, tristemente conhecido por causa de seu genocídio.


Ruanda é um pequeno país africano que tem em torno de dez milhões de habitantes. O país é ainda dominantemente rural e convive com muita pobreza. Ele teve colonização alemã mas depois da Primeira Guerra o domínio passou para a Bélgica. A independência ocorreu em 1962. O país ficou mundialmente e tristemente conhecido em função de seus conflitos étnicos. Sua população se divide entre os tutsis (9%) e os hutus (90%). Os belgas celebraram um acordo com os tutsis e os mantiveram no poder. Em 1959 houve uma rebelião dos hutus, que ascenderam ao poder. Em 1994 ocorre um dos maiores genocídios do mundo, com a morte entre 800 mil a 1 milhão de pessoas, sendo 90% pertencentes a etnia tutsi.

Um belo livro que relata os horrores deste genocídio é o livro de Philiph Gourevitch, Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias, da Companhia De Bolso. Lembro que ganhei este livro de presente da professora e amiga Simone Meucci, quando ainda trabalhávamos na Universidade Positivo. O livro é um relato impressionante. Os colonizadores foram os grandes responsáveis por instigarem estes conflitos étnicos, tirando proveito da situação. Também é interessante lembrar o filme Hotel Ruanda.

Não conhecia a escritora, que atualmente vive na França. No livro senti falta de uma maior contextualização, através de uma apresentação ou prefácio para os leitores brasileiros. Na orelha do livro tem algumas informações sobre o Liceu Nossa Senhora do Nilo e a trama do romance que descreve "o ambiente sociopolítico dos anos que precederam o golpe de Estado de 1973. Como em seu precedente romance (A mulher de pés descalços), ela relata as tensões que marcaram a história da sociedade ruandesa, nomeadamente o período do regime autoritário e etnicista da Primeira República hutu, às vésperas do genocídio ruandês".
O livro lançado na FLIP 2017.


Na contracapa do livro temos mais a seguinte informação: "Uma escola para meninas, situada no alto das montanhas da bacia do Congo e do Nilo, em Ruanda, aplica rigorosamente um sistema de cotas étnicas que limita a 10% o número de alunas da etnia tutsi.  Quando os líderes do poder hutu tomam conta do local, o universo fechado em que têm que viver as alunas torna-se o teatro de lutas políticas e de incitações ao crime racial. Os conflitos são um prelúdio ao massacre ruandês que aconteceria tempos depois. Em Nossa Senhora do Nilo, Scholastique Mukasonga, sobrevivente do massacre, conta as experiências-limites pelas quais passaram as jovens do colégio, numa narrativa pungente que encantou o mundo".

O romance está envolvido nos belos mistérios africanos. O Liceu se situava nas nascentes do rio Nilo e Nossa Senhora do Nilo é uma Nossa Senhora negra, protetora de Ruanda. O Liceu abrigava as meninas da alta elite, onde as prendadas meninas aprendiam os valores da democracia e do cristianismo. O padre Hermenegilde é um dos perversos personagens do romance. Entre os objetivos do Liceu constavam a preservação da virgindade e o arranjar de bons casamentos.

A trama do romance ocorre especialmente quando Gloriosa começa a envenenar o Liceu com as suas pretensões políticas, disseminando a ideologia dominante e inventando fantasmas sobre os ataques tutsis que estariam por ocorrer. Verônica e Virgínia eram as suas vítimas preferidas. Quase ao final do romance encontramos, por uma de suas personagens, uma síntese quase perfeita sobre tudo o que aconteceu em Ruanda: "Agora não tenho dúvidas, dentro de cada homem há um monstro adormecido: não sei quem foi que o acordou em Ruanda". Com certeza, uma leitura muito interessante.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A subversividade em Paulo Freire.

Na minha condição de administrador de tempo livre, dei uma pausa nas leituras, para me dedicar um pouco à militância sindical em virtude das eleições na APP-Sindicato. Esse fato me levou a cidade de Francisco Beltrão para ajudar na divulgação das propostas da chapa 2, do grupo APP independente, democrática, de base e de luta, liderada pelo professor Paixão.

Em Francisco Beltrão encontramos uma equipe maravilhosa e cheia de brios. Muito compromisso, acima de tudo, com os filhos da classe trabalhadora, os alunos da escola pública.  O grupo da chapa 2 está sob a liderança do professor Rogério Rech, o nosso candidato a presidente. Rogério é professor de matemática no C.E. Leo Flach e é doutor em educação, mestre em matemática e em desenvolvimento regional e docente do ensino superior na FAMPER. Mas o que mais impressiona é a sua dedicação ao ensino público. Nos levou à sua escola, bem como à comunidade em que ela está inserida.
Rogério, calmo e tranquilo, apresentando o seu trabalho.

Uma característica interessante de todo o grupo é a sua dedicação à formação. O interesse pelos estudos acadêmicos se destaca em seus currículos, mas isso, de maneira alguma, inibe suas atividades sindicais e a dedicação às causas coletivas. Em Francisco Beltrão me chamou particular atenção uma instituição chamada Assessoar, fundada por padres belgas e que, conforme me contou o professor Rogério, é a mãe de todo o espírito cooperativo em Francisco Beltrão e em toda a região.

Entre as atividades desenvolvidas como as visitas às escolas, tive também o privilégio de assistir o momento da qualificação de mais um mestrado do professor Rogério. Desta vez o tema é Paulo Freire. O título provisório de sua dissertação é "A subversividade em Paulo Freire: um espectro nos ronda, o fantasma das ditaduras no Brasil e na Argentina". Me senti imensamente privilegiado em ouvir falas qualificadas sobre Paulo Freire. Pessoalmente eu tive a enorme satisfação de conviver com o grande mestre em algumas oportunidades.

O trabalho do professor Rogério está sob a orientação do professor Dr. André Castanha e na banca se fizeram presentes a professora Dra. Cecília Guedini, especialista na educação do campo. Tanto os Dr. André, quanto a Dra. Cecília pertencem ao quadro de professores da Unioeste do Campus de Francisco Beltrão. O professor Dr. Ivo Dickmann, da Universidade de Chapecó completou a banca. O Dr. Ivo estuda Paulo Freire há mais de 20 anos.
Rogério junto com os membros da banca de qualificação.

Não vou entrar em detalhes da orientação da qualificação, vou destacar apenas alguns aspectos que mais me chamaram a atenção. Em primeiro lugar o conceito de subversão, no sentido positivo da palavra, no seu sentido revolucionário emancipatório. Nas orientações foi lembrado o texto de Kant que fala do significado do esclarecimento, o famoso texto do sapere aude, o ouse saber. É óbvio que a dissertação passa pela leitura dos clássicos de Paulo Freire e houve também a recomendação dos livros de memória do autor de Educação como prática da liberdade, um título que por si só, já revela todo um caráter de subversão. Outra orientação foi a de ver as influências de Marx no pensamento de Paulo Freire.

Quanto a questão das ditaduras, houve o debate em torno da delimitação do tema. Rogério apresentou interessantes dados de fatos ocorridos na cidade de Córdoba, onde os livros de Paulo Freire chegaram a ser queimados publicamente. Enquanto eu participava desta apresentação, da qual ainda quero destacar o grande comprometimento da banca, eu evocava as imagens do meu convívio com o autor da Pedagogia do Oprimido, a sua imagem profética de extrema generosidade, afetividade e amorosidade. É inacreditável que uma figura humana desta qualidade receba tanto ódio por parte da elite brasileira, "de longe a mais perversa do mundo", conforme ouvi de suas próprias palavras.

Obviamente que o trabalho de qualificação foi aprovado e tenho a certeza absoluta que com a seriedade e o comprometimento peculiar ao professor Rogério, em breve disporemos de mais um belo trabalho sobre o educador brasileiro mais citado no mundo e elevado à condição de Patrono da Educação Brasileira.

Retomo este post, pois, participei do momento da defesa da dissertação (02 de abril de 2018) aprovada com louvor e recomendação de publicação. A banca foi enriquecida com a presença da Dra. Mariana Tosolini, da Universidade de Córdoba, a histórica Universidade fundada pelos padres jesuítas, ainda no início do século XVII, em 1613. É a mais antiga da Argentina. A dra. Cecília e o Dr. Ivo, que já haviam participado da qualificação, integraram também a banca da defesa. E que banca, que observações!
O - mais uma vez - mestre Rogério Rech, com a banca, após a aprovação de seu trabalho.


A noite houve a Aula Magna, de abertura dos trabalhos de pós-graduação da Unioeste referente ao ano de 2018, campus Francisco Beltrão, do qual deixo o cartaz. Foi uma noite memorável. E, claro, ao final de tudo, uma cervejinha para comemorar.
O cartaz de convocação para a aula inaugural.