domingo, 25 de abril de 2021

O mestre de esgrima. Arturo Pérez-Reverte.

Mais um livro comprado em promoção e não lido logo após a compra. O comprei no ano de 2011 e, como já contei em outro post, nas promoções eu comprava, ou pelo autor, pelo tema, ou pela editora. Este - O mestre de esgrima, de Arturo Pérez-Reverte, certamente foi em função da editora, a Companhia das Letras. Do autor, nunca tinha ouvido falar e nunca me detive sobre o tema da esgrima, nem como arma e nem como esporte. 

O professor de esgrima. Arturo Pérez-Reverte. Companhia das Letras. 2003. 

Não me decepcionei com a leitura. O tema é muito interessante. A disciplina exigida para a prática da esgrima é algo impressionante. Era uma arma da nobreza e exigia total disciplina, concentração e o cumprimento de todo um ritual, até mesmo para eliminar o adversário. Atrás da esgrima havia um rigoroso código de postura e de ética. Quanto ao autor, fiquei surpreso. Ele é lido em mais de vinte países. O livro pode ser enquadrado como um romance policial e histórico e, sob certo aspecto, até romântico amoroso.

O ano dos acontecimentos é o ano de 1868 e o país é a Espanha e a sua monarquia. Isabel II era a rainha, no poder desde 1830. O tema do livro são as insurreições deste ano que a derrubam do poder, mas não derrubaram a monarquia. Essas intrigas são parte integrante do romance, do qual, no entanto, o professor dom Jaime Astarloa, mestre pela Academia de Esgrima de Paris é o protagonista. Os personagens coadjuvantes, às quais o leitor deverá prestar atenção, são Dom Luis de Ayala, o marquês de Alumbres, amigo e aluno do mestre dom Jaime, a bela Adela de Otero, uma mulher estranha que entra na história também como aluna de dom Jaime e o amigo jornalista Agapito Cárceles. 

O romance, desenvolvido ao longo de oito capítulos e 271 páginas, se ocupa da descrição da esgrima e os lamentos do professor, no que diz respeito às armas de fogo e a consequente decadência dessa arte de defesa e ataque em duelos, especialmente, em defesa da honra. Essa decadência também afetava a demanda por alunos, cada dia mais escassos. Contra os princípios de Dom Jaime ele admite Adela de Otero como sua aluna, por quem se apaixona perdidamente. Sempre, no entanto, soube manter a compostura. Já era um senhor de certa idade. Bem, o resto é a trama do enredo, começando a parte policial. A leitura é extremamente agradável e fluente. É daqueles livros que você não quer parar de ler.

Para dar o tom do romance transcrevo um parágrafo em torno da ética e valores da esgrima e sobre a decadência desses mesmos valores, em que Adela de Otero cobra do mestre os ganhos do seu, digamos, estoicismo: "De todos os personagens deste drama, senhor Astarloa, foi o senhor o mais crédulo, o mais querido e o mais digno de dó. - As palavras pareciam gotejar lentamente no silêncio. - Todo mundo, os vivos e os mortos, mandou a consciência às favas. E o senhor, como nas comédias ordinárias, com sua ética ultrapassada e suas tentações vencidas, interpretando o papel de marido enganado, o último a saber. Olhe para o senhor, se for capaz. Pegue um espelho e me diga onde foi parar agora todo o seu orgulho, toda a sua segurança, sua fátua auto complacência. Quem diabo o senhor achava que era? Bem, tudo foi muito enternecedor, está certo. Se desejar, pode se aplaudir mais uma vez, a última, porque já é hora de baixar o pano. O senhor precisa descansar". p. 264. Foi para humilhar!

Deixo a orelha do livro para aguçar a sua curiosidade para a leitura: "Dom Jaime de Astarloa, um homem habituado aos usos da tradição, a honra é mais importante que o sucesso ou o poder político. O sexagenário professor de esgrima permanece fiel aos valores de toda uma vida: a lealdade é um princípio natural e a nobreza significa mais do que títulos adquiridos em ocasião propícia.

Nas ruas de Madri, porém, a agitação crescente - ouvem-se rumores sobre tropas revolucionárias que planejam deixar o exílio e derrubar a casa real dos Bourbon. A esperança republicana toma corpo, mas dom Jaime não se deixa levar pela instabilidade.  Apesar das transformações em curso, tudo é ordem e têmpera para o mestre de esgrima.

O mecanismo de relógio que rege a pacata existência do professor, entretanto, está prestes a ser desregulado.  A misteriosa e sedutora Adela de Otero, de pele acobreada e olhos cor de violeta, acrescenta vertigem à vida do experiente mestre e convence dom Jaime a lhe ensinar os segredos de um golpe fatal, conhecido como a mortífera 'estocada de duzentos escudos'.

À súbita paixão vêm se somar os percalços das intrigas políticas, que chegam aos ouvidos de dom Jaime pelas confissões de um de seus alunos, dom Luis de Ayala, o influente marquês  do los Alumbres. A dom Jaime somente, graças à lealdade do professor, o marquês confia segredos de alcova e documentos lacrados, bem como suas mais secretas opiniões sobre o poder.

Uma investigação policial termina por lançar o mestre de esgrima definitivamente no centro das convulsões políticas e sociais. A perícia de esgrimista terá então de conduzir seus movimentos, e qualquer hesitação poderá custar-lhe a vida. Como afirma o próprio mestre nesta inquietante parábola, 'em esgrima, o simples, é inspiração; o complexo é técnica'. Este parece ser também o norte do estilo do autor: um mínimo de retórica para um máximo de efeitos".

Plenamente recompensado com a leitura do livro e mais do que recomendações para a sua leitura. O autor é espanhol, nascido em 1951. É jornalista de profissão, profissão que abandona em favor da literatura. O mestre de esgrima data do ano de 1988. A edição brasileira é de 2003. A tradução é de Eduardo Brandão.



domingo, 18 de abril de 2021

A misteriosa chama da rainha Loana. Romance ilustrado. Umberto Eco.

É mais um Umberto Eco. Trata-se de A misteriosa chama da rainha Loana. Romance ilustrado. Comprei o livro em 2009 e o li em partes. Fiz até alguns apontamentos. Deles não me lembrava absolutamente nada. Não, não se apavorem. Eu não perdi a memória. Apenas para dizer que o livro trata da perda da memória e da tentativa e dos esforços feitos para recuperá-la. O livro se divide em três partes: Primeira: O acidente; Segunda: Uma memória de papel; Terceira: OI NOZTOI (O Z, na verdade é o Zigma).

A misteriosa chama  da rainha Loana. Umberto Eco. Record. 2005. Tradução: Eliana Aguiar.

Na primeira parte Yambo, o protagonista do romance, sofre um acidente (certamente um AVC) e perde a memória em partes. Não mais lembra quem ele é ou como se chama, mas ainda consegue dirigir, identificar as diferentes cores e não perdeu o sabor (ainda bem - assim pode tomar uma garrafa de vinho, acompanhando as refeições). Relembra a sua profissão de comerciante de livros raros e de sua secretária, a bela (bela até demais - segundo Paola, a esposa) Sibilla. Politicamente, lembra que era um pacifista. São os quatro primeiros capítulos.

Na segunda parte, Yambo busca a recuperação da memória, indo para a pequena cidadezinha de Solara, onde, na casa do avô, volta a ter contato com os anos de sua infância e juventude. É a parte mais longa do livro e grande parte dele se passa no sótão, onde estão encaixotadas as coisas desse tempo. Passa por reencontrar uma enciclopédia, revistas em quadrinhos, um rádio e documentos e recortes de jornais dos anos do Fascismo e da Guerra. A época retratada, os anos de infância e juventude, são os da década de 1930 e 1940. Encontra ainda discos e seus cadernos e livros escolares. Aí está a preciosidade do romance. A reconstituição de uma época, retratada pelos livros oficiais. Como eles vão até depois da guerra, é notável observar a mudança de posição com relação a valores e heróis. Passa oito dias no sótão e a sua pressão se altera, ela sobe.

Quando descobre um livro raro de Shakespeare, que vale uma fortuna, ele não aguenta. Entra em coma. Aí vem recordações enevoadas. As artimanhas de um narrador. É a terceira parte do livro. As contraposições da história oficial se acentuam com as derrotas do nazi-fascismo, mostradas especialmente nas revistas em quadrinhos, onde agora irão aparecer os heróis norte-americanos. O capítulo dezesseis é o mais rico deles. Nele, Yambo estabelece diálogos com Gragnolo, um jovem anarquista, um contestador, qualidade inerente a todo anarquista. Deus, o Bem e o Mal, Fascismo e Livre Arbítrio são alguns temas abordados. Nesta parte do livro ele entra, não sei se é correto dizer, em fluxos de consciência. Relembra os seios nus de Josephine Baker e a homenagem que lhe presta, devidamente confessada ao padre, - mas se fixa mesmo, num amor platônico de sua adolescência, - a menina, LILA, que na história real desaparecera por completo de seus horizontes. Ela viera para o Brasil e dela não se teve mais notícia. Sim, o romance tem a Itália fascista como cenário junto com a eclosão da Segunda Guerra e o seu final. Esse amor seria a misteriosa chama?

Para dar uma ideia mais precisa do livro, transcrevo a sua orelha: "Depois de Baudolino, Umberto Eco lança um romance cheio de calor e lembranças, de suspiros (mitigados) e saudades. Decidiu assumir a paisagem de sua geração e, a partir dessa luz, obteve uma narrativa de fundo biográfico, num vasto painel dos anos 1930 e 1940, do brevíssimo e sobressaltado século XX.

O protagonista, Yambo, é um senhor de meia-idade, provido de grande cultura, que trabalha com livros raros, em Milão. Após salvar-se de uma doença grave, Yambo perde uma parte da memória afetiva ou biográfica. Para tentar recuperá-la, passando um longo período nas montanhas do Piemonte, na casa que fora de seu avô. As lembranças reaparecem - com idas e vindas - quando se depara com um acervo que lhe marcou a infância: jornais, discos, quadrinhos - um imenso parque (ou cemitério) de objetos. Toda uma semiologia que leva aos tempos do Fascismo e às portas da Segunda Grande Guerra.

Desdobra-se o romance no repertório fundamental da primeira e da segunda infâncias de Yambo-Eco, nos sonhos de heróis e distâncias impossíveis: das figurinhas de álbuns famosos aos mais diversos gibis; do suplemento Corrieri dei Piccoli; das obras de Emilio Salgari, em orientes perdidos e suspirados; da canção popular, por onde passam jovens frágeis e inesquecíveis (Signorinella pallida), outras, apaixonadas (C'erevamo tanti amati), ousadas, patriotas ( Le ragazze di Trieste); além dos hinos fascistas, com suas promessas de perenes primavera e juventude (Primavera , Giovinezza),, visando ao fortalecimento moral das fronteiras do Império Italiano. E mais, o rádio de galena, as ondas curtas e a BBC de Londres.

Que o leitor descubra todo o percurso de Yambo, e que reconheça imagens e canções, que marcaram parte essencial da história da Itália e do Mundo.

Nesse romance pós-moderno, será difícil não evocar as Confissões de Agostinho ou a filogenética, a delicada fronteira do repertório individual e do coletivo, o palácio da memória e a digital da história. Eco nos traz um romance largo e emocionado"

Como pontos altos do livro, destacaria, do capítulo 17 (são 18 ao todo), a discussão entre Yambo e Gragnolo, o seu amigo anarquista, uma discussão sobre o fascismo (p. 341), sobre os males contidos nos dez mandamentos (apenas quatro são bons), ditados por um Deus fascista (p. 342-345), sobre o Bem e o Mal e o Livre Arbítrio. Do Livre Arbítrio tomo a reflexão final: "Você fala como um teólogo, só que todos eles falam de má-fé. Dizem como você que o Mal existe, mas Deus nos deu o mais belo presente do mundo que é o livre-arbítrio. Podemos livremente fazer o que Deus ordena ou o que o diabo sugere, e se depois vamos para o inferno é porque não fomos criados como escravos, mas como homens livres, só que usamos mal a nossa liberdade e isso foi uma decisão nossa". Isso. Isso? Mas quem lhe disse que a liberdade é um presente? p. 349. E aí vem as contestações.

O fato de ser um romance ilustrado nos põem em contato com um rico acervo de capas de livros e de revistas, de manchetes de jornais e artistas em cartaz na época. Coisa bem do campo e do domínio do escritor.  Dois grandes temas em foco. A perda da memória e a memória dos tempos do fascismo.

terça-feira, 13 de abril de 2021

O Cemitério de Praga. Umberto Eco.

É um Umberto Eco. Comprei O Cemitério de Praga em 2011, quando ainda estava em sala de aula. Por esta razão, apenas comecei a sua leitura, sem concluí-la. É um livro volumoso. São 479 páginas. Agora o retomei e o li em uma só sentada. Não é um livro de leitura fácil. São muitos personagens e vários fatos históricos, dos quais você precisa ter algum conhecimento, para que a leitura flua. Ao final do livro, o próprio autor procura facilitar a leitura, através de uma coluna em que alinha o capítulo com o enredo e a história. Ao todo são 27 capítulos e o tempo histórico descrito vai de 1830 até 1898.

O Cemitério de Praga. Record. 2011. Tradução de Joana Angélica d'Avila Melo.

Simone Simonini é o personagem central do livro e, segundo o autor, é o único personagem inventado na história. Todos os outros são personagens reais. Simonini divide o seu protagonismo com o seu alter ego, o padre Della Piccola. Simonini escreve o seu diário de memórias, iniciado em 24 de março de 1897 e o termina em 20 de dezembro de 1898. Ele conta a sua história de vida, desde os anos de sua infância vividos em Turim, a sua participação nas guerras da unificação italiana, o seu exílio em Paris, de onde assiste e participa, nos bastidores, com a elaboração de documentos históricos e falsificações, dos episódios da segunda metade do século XIX. Catolicismo, jesuítas, maçonaria e judeus constituem o núcleo central do livro. 

Ao final do livro, na página 478, temos uma espécie de adendo - Fatos póstumos - que esclarece muitas coisas. Aparecem quatro datas; 1905, quando na Rússia se fala de uma "sinistra conspiração mundial", uma "conspiração maçônica judaica", que pode ser conhecida através  de um manuscrito, sob o título Protocolos dos anciãos de Sião; 1921, quando o London Times estabelece relações entre o livro de Joly (este autor aparece muitas vezes ao longo do romance) e os protocolos e os considera como uma falsificação; 1925, Hitler cita os protocolos no Mein Kampf e 1939, ano em que Henry Rollin considera os protocolos como a obra mais difundida no mundo depois da Bíblia.

Vamos agora procurar elucidar o título do livro - O Cemitério de Praga. É neste cemitério que se reuniam os rabinos para debaterem o seu plano de dominação do mundo. Esse projeto envolvia judeus,  maçons e os jesuítas, que não passam de "maçons vestidos de mulher". p. 22.  Muitas tramas neste romance, que pode ser qualificado como um romance histórico, uma vez que os personagens envolvidos são reais. Uma história de horrores, que viria a desaguar nos acontecimentos da primeira metade do século seguinte. Espionagem e contraespionagem, traições e assassinatos, cadáveres ocultos em cloacas, falsificação de documentos, perfuração de hóstias consagradas em missas de magia negra vão se sucedendo ao longo dos 27 capítulos do livro.

Na resenha vou me ater ao capítulo 26 que leva o título de "A solução final". Nele está revelado o famoso plano de dominação mundial. Assim lemos: "Conferi o que eu já tinha usado para os discursos  precedentes do rabino. Os judeus se propunham apoderar-se das vias férreas, das minas, das florestas, da administração, dos impostos, do latifúndio; visavam à magistratura, à advocacia, à instrução pública; queriam infiltrar-se na filosofia, na política, na ciência, na arte e, sobretudo na medicina, porque um médico entra nas famílias mais facilmente do que um padre. Convinha minar a religião, difundir o livre pensamento, suprimir nos programas escolares as aulas de religião cristã, açambarcar o comércio do álcool e o controle da imprensa. Santo Deus, o que mais eles pretendiam". p.450. Na sequência, são listados os meios para atingirem seus fins. A frase atribuída a Maquiavel aparece explicitamente:

"Para impedir que o povo descubra, por si só, uma nova linha de ação política qualquer, nós o manteremos distraído com várias formas de divertimento: jogos ginásticos, passatempos, paixões de vários gêneros, tabernas, e o convidaremos a participar de competições artísticas e esportivas... Estimularemos o amor pelo luxo desenfreado e aumentaremos os salários, mas isso não trará benefícios ao operário, porque simultaneamente acresceremos o preço das substâncias mais necessárias, sob o pretexto de maus resultados nos trabalhos agrícolas. Minaremos as bases da produção, semeando os germes da anarquia entre os operários e encorajando-os ao abuso de bebidas alcoólicas. Procuraremos dirigir a opinião pública para toda espécie de teoria fantástica que possa parecer progressista ou liberal". p. 451. Também havia um programa de controle dos estudantes:

"Quando estivermos no poder, supriremos dos programas educativos todas as matérias que possam perturbar o espírito dos jovens e os reduziremos a criancinhas obedientes, que amarão seu soberano. Em vez de estudar os clássicos e a história antiga, que contêm mais exemplos ruins que bons, mandaremos que estudem os problemas do futuro. Cancelaremos da memória dos homens a lembrança dos séculos passados, que poderia ser desagradável para nós. Com uma educação metódica, saberemos eliminar os resíduos de independência de pensamento da qual desde há muito nos aproveitamos para nossos fins... Sobre os livros com menos de trezentas páginas, baixaremos uma taxa dupla, e essa medida obrigará os escritores a publicar obras tão longas que terão poucos leitores. Nós, ao contrário, publicaremos obras baratas para educar a mente do público. A taxação determinará uma redução da leitura deleitável e ninguém que deseje atacar-nos com sua pena encontrará um editor". p. 452. Quanto a imprensa também havia um programa:

"Quanto aos jornais, o plano judaico prevê uma liberdade de imprensa fictícia, que sirva para o maior controle das opiniões. Dizem os nossos rabinos que será preciso apoderar-se do maior número de periódicos, de modo que expressem opiniões aparentemente diferentes, a fim de dar a impressão de uma livre circulação de ideias, ao passo que, na realidade, todos refletirão as ideias dos dominadores judeus. Observem que comprar os jornalistas não será difícil, porque eles constituem uma maçonaria e nenhum editor terá coragem de revelar a trama que liga todos à mesma trilha, uma vez que ninguém é admitido ao mundo dos jornais sem ter tomado parte em algum negócio escuso na sua vida privada.... p. 452. E assim por diante...

Como não tenho imagens do cemitério, vai aí um dos símbolos da cidade. O relógio astronômico.

Quero deixar ainda uma frase que, para mim, foi a mais marcante do livro. Ela é dita por um russo, Rachkovsky, que pede a Deus, para que sempre tenham um judeu a quem possam expressar o seu ódio: "É necessário um inimigo para dar ao povo uma esperança. Alguém já disse que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas: quem não tem princípios morais costuma se enrolar em uma bandeira, e os bastardos sempre se reportam à pureza da sua raça. A identidade nacional é o último recurso dos deserdados. Muito bem, o senso de identidade se baseia no ódio, no ódio por quem não é idêntico. É preciso cultivar o ódio como paixão civil. O inimigo é o amigo dos povos. É sempre necessário ter alguém para odiar, para sentir-se justificado na própria miséria. O ódio é a verdadeira paixão primordial. O amor, sim, é uma situação anômala. Por isso, Cristo foi morto: falava contra a natureza. Não se ama alguém por toda a vida; dessa esperança impossível nascem adultérios, matricídios, traições dos amigos... Ao contrário, porém, pode-se odiar alguém por toda a vida. Desde que esse alguém esteja sempre ali, para reacender nosso ódio. O ódio aquece o coração". Hoje poderíamos dizer, - um inimigo, seja ele quem for, mas um inimigo, nem que ele seja uma construção, uma invencionice. 

Para dar uma ideia mais precisa do livro, transcrevo o primeiro parágrafo da orelha da capa: "Ao longo de todo o século XIX, entre Turim, Palermo e Paris, encontramos uma satanista histérica, um abade que morre duas vezes, alguns cadáveres no esgoto parisiense, um garibaldino que se chamava Ippolito Nievo, desaparecido no mar nas proximidades de Stromboli, o falso bordereau de Dreyfus para a embaixada alemã, a disseminação gradual da falsificação conhecida como Protocolos dos sábios de Sião (que serviriam de inspiração a Hitler para os campos de concentração), jesuítas que tramam contra maçons, maçons, carbonários e mazzinianos que estrangulam padres com as tripas das próprias vítimas, um Garibaldi de pernas tortas, os planos dos serviços secretos piemonteses, franceses, prussianos e russos, os massacres numa Paris da Comuna em que se comem ratos, golpes de punhal, horrendas e fétidas reuniões por parte de criminosos que, entre doses de absinto, planejam explosões e revoltas de rua, barbas falsas, falsos notários, testamentos enganosos, irmandades diabólicas e missas negras. Um material perfeito para um romance-folhetim ao estilo oitocentista, ilustrado com os feuilletons daquela época".

Este romance aparece em 2010, trinta anos após o insuperável O nome da rosa. Trata-se de uma antevisão dos horrores do século XX, quando efetivamente todos os ódios implodem ou explodem. Uma obra, para implodir também, toda e qualquer ingenuidade. E, acima de tudo, extremamente atual. "Que Auschwitz não se repita", nos alertava Adorno. Será difícil. E, como diz Primo Levi, um raro sobrevivente de Auschwitz, em frase de epígrafe no livro Fascismo - um alerta, de Madeleine Albright, "Toda era tem o seu próprio fascismo". Infelizmente, o Brasil tem o seu, com uma dose de ódio mais forte do que as doses de absinto que são sorvidas no livro.

terça-feira, 6 de abril de 2021

A morte de Rimbaud. Leandro Konder.

Em 2011 eu ainda dava aulas na universidade. Assim eu não lia todos os livros que eu comprava. Lembro que as livrarias Curitiba faziam grandes promoções de queima de estoque, livros encalhados, certamente. Eu comprava por dois critérios, por autor ou por editora. O livro A morte de Rimbaud atendia a estes dois critérios: um bom autor, Leandro Konder e, uma grande editora, a Companhia das Letras. Também um terceiro quesito me chamou a atenção. Rimbaud, o escritor francês. Somente agora eu fiz a leitura.

A morte de Rimbaud. Leandro Konder. Companhia das Letras. 2000.

Não tenho grande experiência em fazer resenhas de romances policiais e o livro é do gênero. Não quero dar pistas que possam retirar a curiosidade ao leitor. Então tomo, da contracapa do livro, o seu enredo: "Um milionário apaixonado por literatura francesa resolve sustentar cinco escritores que julga muito talentosos. Passa a chamá-los pelo nome de grandes autores franceses: Rimbaud, Aragon, Rousseau, Malraux e Claudel. Oferece-lhes uma polpuda verba mensal e despacha-os anualmente para férias na França. Rimbaud é encontrado morto. Pode ter sido acidente - ou não". O local do acidente é o Grande Hotel Combray. Bem interessante.

Depois de um pequeno problema em identificar o narrador, a leitura fluiu, como deve fluir um romance policial. Nele notei muito humor, ironia e, com certeza, um fundo moral, motivado pelo financiamento do milionário e a improdutividade dos escritores. O cenário, como os nomes poderiam sugerir, não é a França, mas sim, fictícias cidades brasileiras. Todos os personagens são brasileiros, embora os seus nomes não induzam a isso.

Os cinco escritores são: Cláudio Nicodemo da Silva, o Claudel, Mauro Teodoro dos Santos Oliveira, o Maurô, ou Malraux, José Tibúrcio Gonçalves Aragão, o Aragon, João Carlos Suslov, apelidado de russo, pelo sobrenome, passou a ser chamado de Rousseau e Severino Cavalcante, que na academia de musculação era chamado de Rambo, que se transformou em Rimbaud. O mecenas atende por Bergotte. e o personagem central do romance é Sdruws, um detetive e guarda-costas do milionário mecenas dos escritores. Outro personagem com papel de protagonista é Saint-Ex (Saint-Exupéry), o gerente do hotel onde se dão os acontecimentos. Outros personagens também são envolvidos. Um romance policial sempre precisa de pistas e despistes. É óbvio que um delegado de polícia também é personagem. 

Os escritores, embora os grandes apelidos, são absolutamente grotescos e perversos e são totalmente desprovidos de qualquer criatividade. Os quatro sobreviventes são suspeitos do crime. Se odiavam reciprocamente o suficiente para provocarem tais suspeitas. Também o próprio investigador, Sdruws dá motivos para ser suspeito. Como bons componentes de romance policial também não faltam cenas de traição, de desconfianças, de ciúmes, de desavenças e de relações sexuais com alto teor de perversão. Até traficantes frequentam as páginas do romance.

O livro tem também uma curiosidade interessante, que só poderia estar presente no livro pela enorme erudição de seu autor. Todos os capítulos são antecedidos por frases em epígrafe e que se relacionam com o teor do capítulo. No capítulos final tem uma epígrafe de cada um dos escritores famosos. O livro todo tem uma epígrafe de Marx, a grande especialidade do autor, que é professor de filosofia. Eis a epígrafe: "Perseu precisava de um capacete para perseguir os monstros. Nós, puxando o capacete para baixo, cobrimos os olhos e os ouvidos, para podermos negar a existência dos monstros". A frase está escrita também no original, em alemão. Leandro Konder foi exilado na Alemanha, como vítima da ditadura militar brasileira de 1964. 

Sobre o romance lemos na orelha da capa: "Sem a sua experiência de leitor, ele com certeza não teria escrito um livro que se enquadra com tanta exatidão no gênero policial. Aqui existe, por exemplo, uma morte, que pode ter sido acidente ou assassinato; uma ilustre coleção de suspeitos; um conjunto variado de motivações para o crime e de oportunidades para cometê-lo; pequenas tramas paralelas que são puro diversionismo; uma série de detalhes aparentemente gratuitos e que no entanto se revelam determinantes para o desenrolar da ação; um detetive paciente, pertinaz e autoconfiante, desses que são capazes de se fazerem de bobos apenas para soltar a língua de um suspeito".

O livro integra um projeto da Companhia das Letras, envolvendo a morte de grandes escritores. Rimbaud foi um escritor bastante controvertido e toda a sua literatura foi produzida antes dos vinte anos. Deixo o link de Uma temporada no inferno. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/01/uma-temporada-no-inferno-e.html. Ao final do livro também encontramos notas bibliográficas dos escritores franceses envolvidos.


sábado, 3 de abril de 2021

Neoliberalismo e globalização. 40 anos de deterioração da vida social e construção de desigualdades.

Tempos de pandemia são tempos de recolhimento, tempos de leitura e de reflexão. As presentes reflexões tem como fonte principal os dois últimos livros que eu li. Fascismo - um alerta, de Madeleine Albright e A tirania do mérito - o que aconteceu com o bem comum, de Michael J. Sandel. Os dois livros tem em comum, o título que atribuí ao presente texto, o tema dos quarenta anos de deterioração da vida social e da construção de desigualdades. As consequências são as que estamos vivenciando neste momento de insanidades, de ódio e ressentimento, que, por vezes, sufoca até a esperança presente em nosso imaginário, teimosamente, ainda não reduzida.

Fascismo - um alerta. Crítica. 2020. Tradução de Jaime Biaggio.

Nesses livros encontramos duras advertências: Madeleine Albright nos adverte que, em nada menos de 170 países existem hoje sérias ameaças à democracia, enquanto Sandel nos aponta para o entendimento das insanidades que diariamente estamos assistindo: "Isso ajuda a explicar porque os deixados para trás pela globalização ficam irritados e ressentidos, e porque se sentem atraídos por populistas autoritários que atacam as elites e prometem reafirmar as fronteiras nacionais com vingança".

As frases que mais detiveram minha atenção foram, - de Madeleine Albright, a de que "Em termos globais, mais de um terço da força de trabalho não tem emprego em tempo integral. Na Europa, o desemprego juvenil passa de 25% e a taxa aumenta quando se trata de imigrantes. Nos Estados Unidos, um em cada seis jovens está fora da escola e sem trabalho. Em termos práticos, salários estão estagnados desde os anos 1970" (p. 117), e a de Sandel, a retiro do capítulo sete, todo ele dedicado ao não reconhecimento do trabalho: "A renda média de homens estadunidenses está estagnada, em termos reais, por meio século. Apesar de a renda per capita ter aumentado 85%, desde 1979, homens brancos sem um diploma universitário de um curso de quatro anos hoje recebe menos, em termos reais, do que recebiam". Tomo a liberdade de enunciar a primeira frase do parágrafo seguinte: "Não é surpreendente que eles sejam infelizes" (pp. 283-4).

Retrocedamos então aos anos 1970, ao seu final e ao início dos anos 1980. Ou então, retrocedamos ainda mais, ao final da Segunda Guerra, para entendermos as mudanças havidas. Os anos posteriores à grande guerra  são marcados, em termos, pela construção do Estado de bem-estar social e por uma certa cooperação internacional, com os Planos Marshall, para a Europa e a Aliança para o Progresso, para a América Latina. O Estado de bem-estar social, social democracia ou Estado Democrático de Direito compreende que a estrutura social é fundada sob três pilares básicos: O indivíduo, o mercado e o Estado. O Estado faz o papel de mediação, de regulação e até, de intervenção econômica para direcionar a economia em favor do bem estar social. Afirma a precedência do Estado sobre os mercados. Nesta concepção o Estado faz a mediação entre os indivíduos (organizados em sindicatos e entidades representativas) e o mercado, passando a regulamentar as decisões tomadas. Surge assim toda uma legislação de afirmação de direitos, sob a convicção de que o ser humano é portador de direitos, que são, em contrapartida, deveres do Estado. 

Esta concepção de sociedade promoveu grande euforia, pelo que se convencionou chamar estes anos, de "anos de ouro" do sistema capitalista. Quais foram os seus feitos? Recuperação da Europa destruída pela grande guerra, ter promovido a terceira revolução industrial, a da nano tecnologia e, ainda industrializar uma série de países da periferia do mundo capitalista, entre eles o Brasil. Dominava nesta época o conceito de que industrializar era desenvolver. Só que no Brasil, esse desenvolvimento se deu sob a forma de "modernização conservadora", utilizando até as Forças Armadas (1964) para concretizar essa modernização, sem efetivar os seus benefícios sociais.

Mas em meio a tudo isso, as causas da grande guerra não foram removidas. Vejamos o discurso do presidente Truman, na Conferência de São Francisco, na recém fundada Organização das Nações Unidas: "O fascismo não morreu com Mussolini. Hitler está liquidado, mas as sementes espalhadas por sua mente doentia estão solidamente enraizadas em um número muito grande de cérebros fanáticos. É mais fácil depor tiranos e destruir campos de concentração do que matar as ideias geradas por eles", lemos no livro de Albright, na página 103.

O germe do mal não foi extinto nem com os horrores vividos durante a grande guerra. As sementes estavam sendo guardadas para serem plantadas e fertilizadas em momentos propícios posteriores. No plano político ideológico elas vieram através de um obscuro senador, influenciado por um ainda mais obscuro padre jesuíta. É o senador Joseph McCarthy. Com o macarthismo estava arremessada a semente contra todo o movimento por justiça social. Todos os que por ela lutavam foram rotulados de comunistas. Estava lançado o conceito da "ideologia da segurança nacional", a salvaguarda para o combate ao comunismo. Em nome das liberdades e valores do ocidente cristão surgiram as mais diversas organizações de extrema direita, fanaticamente atuantes até os dias de hoje.

Já no campo econômico, não se esperou pelo término da guerra. Ainda em 1944, Friedrich Hayek lançava as sementes do neoliberalismo, com o livro O caminho da servidão e, já em 1947, dá organicidade à chamada Mont Pèlerin Society. O que ele advogava? Segundo Perry Anderson, em texto no livro Pós-neoliberalismo (livro organizado por Emir Sader e Pablo Gentili), ele faz um balanço deste movimento e denuncia as suas pretensões: "Hayek e seus companheiros argumentavam que o novo igualitarismo (muito relativo, bem entendido) deste período, promovido pelo Estado de bem-estar, destruía a liberdade dos cidadãos e a vitalidade da concorrência, da qual dependia a prosperidade de todos. Desafiando o consenso oficial da época, eles argumentavam que a desigualdade era um valor positivo - na realidade imprescindível em si -, pois disso precisavam as sociedades ocidentais. Esta mensagem permaneceu na teoria por mais de 20 anos" p.10. Trilhar qualquer caminho fora do "livre mercado", seria trilhar O caminho da servidão.

Assim o todo social ganha uma nova estrutura em que as relações se estabelecem apenas entre os indivíduos e o mercado, sem a ação reguladora do Estado. Já não existem mais direitos, e o Estado não deve mais nada a ninguém. O que antes era tido como direito (saúde, educação, previdência...) agora são serviços disponíveis no mercado. Os direitos viraram mercadoria. "Não existe almoço grátis", diriam os adeptos posteriores dessa doutrina. Agora os mercados precederiam à política, subordinando-a a ele. É o anúncio do Estado pós-democrático. Perry Anderson, no texto já citado, critica os seus princípios, pelos quais pretendiam conter as crises econômicas: "O remédio então era claro: manter um Estado forte, sim, em sua capacidade de romper o poder dos sindicatos e no controle do dinheiro, mas parco  em todos os gastos sociais e nas intervenções econômicas. A estabilidade monetária deveria ser a meta suprema de qualquer governo. Para isso seria necessária uma disciplina orçamentária, com a contenção dos gastos com o bem-estar, e a restauração da taxa "natural" de desemprego, ou seja, a criação de um exército de reserva de trabalhadores para quebrar os sindicatos. Ademais, reformas fiscais eram imprescindíveis para incentivar os agentes econômicos. Em outras palavras, isso significava redução de impostos sobre os rendimentos mais altos e sobre as rendas" p. 11.

Pós -neoliberalismo. Paz e Terra. 1995.

Ainda no balanço do neoliberalismo, Perry Anderson nos mostra que, os princípios que permaneceram latentes por vinte anos, com a crise do petróleo, nos anos 1970 se tornaram política dominante já ao final da década. Em 1979 foi eleito o governo de Thatcher, em 1980 Reagan se elege presidente dos Estados Unidos e em 1982, Kohl derrota os sociais democratas na Alemanha. Essa onda neoliberal avança ao longo da década de 1980 por toda a Europa, independente de governos de direita ou de esquerda e nos anos 1990 atinge toda a América Latina, lembrando que sob a ditadura monstruosa de Pinochet, no Chile, se fez o experimento pioneiro, diretamente acompanhado e supervisionado por Milton Friedman, um de seus teólogos, que agora emergem aos borbotões da Universidade de Chicago. O Brasil enveredou por esses caminhos, logo após a promulgação da Constituição de 1988, com os governos Collor e FHC e revertida com a eleição de Lula em 2002. Os governos petistas só foram apeados do poder com o golpe institucional de 2016 e com a eleição de Bolsonaro em 2018. Antes a Justiça se encarregou de afastar, fraudulentamente, Lula dessas eleições.

Guardo comigo um texto, ainda do final dos anos 1990. Nele constam seis palavras que marcaram a efetividade prática do neoliberalismo, evidenciando, que o que o Estado de bem estar regulamentava, o Estado neoliberal desregulamenta. Eis as seis palavras, que aglutinadas, formam o tripé neoliberal: desestatização - desnacionalização; desregulamentação - desconstitucionalização e desuniversalização - desproteção. Creio que todos lembram como estas políticas foram implementadas e como elas vem sendo realizadas agora, quando já estamos vivendo esta triste realidade na política brasileira pela segunda vez. A primeira vez, confesso, que mesmo com toda a perversidade, procuravam executá-las com um certo charme, junto com uma tentativa de construção de hegemonia, sob lideranças como FHC e Jaime Lerner aqui no Paraná. Agora, a partir do do golpe de 2016 e a eleição de Bolsonaro em 2018 ele se reveste, além da violência real e simbólica, do grotesco, do ridículo, do antiintelectualismo e do negacionismo, sob as figuras públicas de Bolsonaro e de Ratinho.

Ainda dos anos 1990, guardo um trabalho sobre o futuro da democracia nos tempos do neoliberalismo. A frase que evoco de memória é a que diz que não se constrói a democracia sob a destruição sistemática e planejada dos direitos civis, políticos e sociais do povo. Isso só se faz mediante o uso da violência e da supressão das instituições democráticas. E, como nos afirmam os livros motivadores dessas reflexões, já faz meio século que assistimos e sofremos sistematicamente  a essa destruição.

Hoje, cada vez que sopram os ventos da democracia as fanatizadas forças conservadoras, inspiradas no anticomunismo dos tempos da guerra fria e banalizada pelo macarthismo, somadas com a dogmática teologia do "livre mercado", associadas às religiões conservadoras vinculadas ao capital, entram em cena para barrar os benefícios que poderiam ser gerados pelo fortalecimento da democracia. Esses ventos também sopram com mais força, transformando-se em verdadeiras tempestades, com a nefasta pregação ideológica da meritocracia, do empreendedorismo, da teologia da prosperidade e da manipulação feita pela indústria cultural do entretenimento. 

Reverter esse quadro, por meio do fortalecimento da democracia e de valores de solidariedade e do bem comum, é o objetivo maior dos dois livros aqui trazidos e que inspiraram este texto. É esta preocupação contida nas exortações finais de Madeleine Albright, quando fala da razão da escrita de seu livro: "Se Donald Trump não tivesse sido eleito presidente, ainda assim eu teria mergulhado neste trabalho, pois concebi o projeto com a ideia de dar impulso à democracia durante o primeiro mandato de Hillary Clinton. A eleição de Trump só fez aumentar o sentido de urgência" p. 254. Já, de A tirania do mérito, tomo a sua preocupação com a democracia, dos primeiros parágrafos do primeiro capítulo - Ganhadores e perdedores: "Estes tempos são perigosos para a democracia. O perigo pode ser visto no aumento da xenofobia e no crescente apoio público de figuras autocráticas que testam os limites das normas democráticas". p.29. Madeleine nos adverte de que a democracia hoje corre sérios riscos em, nada mais, nada menos do cento e setenta países, mundo afora. Com certeza, monstros como Trump, Bolsonaro e tantos outros, se elegeram sob princípios democráticos mas representavam também profundos ressentimentos e ódios incontidos. Que tempos! Meio século de degradação da vida social e da dignidade do trabalho.


quarta-feira, 31 de março de 2021

A tirania do mérito. O que aconteceu com o bem comum? Michael J. Sandel.

Mais um livro que comprei por efeito da publicidade, daquela que aparece quando você compra livros e eles oferecem outros com temas similares. Mas, o motivo maior da compra foi em função do instigante e polêmico tema da meritocracia. Trata-se de A tirania do mérito - O que aconteceu com o bem comum?, de Michael J. Sandel. Confesso que desconhecia o autor, mas já tinha ouvido falar de outro livro seu O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado. O seu livro mais famoso, no entanto, anunciado até na capa do presente livro, é Justiça: o que é fazer a coisa certa. Sandel é professor na Universidade de Harvard. Pelo seu curso Justice já passaram mais de quinze mil alunos. O livro é de 2020.

A tirania do mérito. Michael J. Sandel. Civilização Brasileira. 2020. Tradução: Bhuvi Libanio.

Como a orelha da capa nos põe em contato com o tema central do livro, começo por aí a resenha. A questão posta é esta: "As democracias liberais estão em risco. E, de acordo com o filósofo Michael J. Sandel, o princípio do mérito, um de seus pilares básicos, é o responsável por esse cenário". Não imaginava que toda a pregação em torno da "força do indivíduo" pudesse atingir tal nível de contestação. Mas, vamos m frente:

"Vivemos em uma constante competição, que separa o mundo entre "ganhadores" e "perdedores", esconde privilégios e vantagens e justifica o status quo  por meio de ideias como "Eu quero, eu posso, eu consigo" e "Quem acredita sempre alcança". O resultado concreto é um mundo que reforça a desigualdade social e, ao mesmo tempo, culpabiliza as pessoas, o que gera uma onda coletiva de raiva, frustração, populismo, polarização e descrença em relação ao governo e aos demais cidadãos.

Ao analisar conceitos em torno da ética do estudo, do trabalho, do sucesso, do fracasso, da tentativa e de quais são os meios considerados legítimos para trilhar esses caminhos, Sandel sugere um novo olhar para essas relações. O autor salienta as contradições do discurso meritocrático, seus contextos estruturais e a arrogância dos "vencedores", que julgam duramente os "perdedores".

A tirania do mérito propõe que, para existir uma ética diferente e dignificadora, o sucesso deve ser compreendido em prol da coletividade. Indica que uma alternativa de pensamento guiado pela humildade, pela compreensão do papel do acaso na vida humana e pela criação real da oportunidade poderá ser, então, a melhor bússola para a democracia, para o bem comum".

Do prólogo tomo os três parágrafos finais, que também considero uma boa provocação para a leitura do livro, que é a finalidade dessa resenha: "Essa maneira de pensar sobre sucesso torna difícil acreditar que "Estamos todos juntos nisso". Ela persuade os vencedores a considerarem que o sucesso deles é resultado de suas ações e os derrotados a sentirem que aqueles no topo olham para baixo com desdém. Isso ajuda a explicar por que os deixados para trás pela globalização ficam irritados e ressentidos, e por que se sentem atraídos por populistas autoritários que atacam as elites e prometem reafirmar as fronteiras nacionais com vingança.

Agora, são essas figuras políticas, apesar de desconfiarem da experiência científica e da cooperação global, que deverão conter a pandemia. Não será fácil.  Mobilizar para confrontar a crise global de saúde pública que encontramos exige não só habilidades médicas e científicas, mas também renovação moral e política.

A mistura tóxica de arrogância  com ressentimento que arremessou Trump ao poder não é uma fonte possível da solidariedade que necessitamos agora. Qualquer esperança de renovarmos nossa vida moral e cívica depende de entender como, ao longo das últimas quatro décadas, nossos laços sociais e nosso respeito um pelo outro se desmantelaram. Este livro procura explicar como isso aconteceu e refletir sobre como poderemos encontrar o caminho para uma política do bem comum".

O livro, de 349 páginas, está dividido em sete capítulos, além de prólogo, introdução e conclusão. A introdução é explosiva, mostrando as fraudes no sistema de ingresso nas universidades renomadas que formam a  IVY LEAGUE. Os sete capítulos tem os seguintes títulos: 1. Ganhadores e perdedores; 2."Grandioso porque é bom", uma breve história moral do mérito; 3. A retórica da ascensão; 4. Credencialismo: o último preconceito aceitável; 5. Ética do sucesso; 6. A máquina da triagem; 7. O reconhecimento do trabalho. A conclusão tem por título - O mérito e o bem comum.

Tenho a síntese dos capítulos, mas seria um trabalho muito longo, por isso vou selecionar algumas categorias trabalhadas ou outras pequenas dicas do que se ocupa cada capítulo. Assim, no primeiro temos: globalização, arrogância, humilhação, ressentimento, discórdia. No segundo: Graça divina, recompensa por mérito, prosperidade, sofrimento e a "América é grande porque é boa".  No terceiro: sucesso, esforço próprio, fé, responsabilidade, discurso inspirador ou discurso ofensivo. No quarto: credenciais universitárias, educação, igualdade e desigualdade, o smart X Stupid, tecnocracia X democracia. No quinto: aristocracia X meritocracia, liberalismo e neoliberalismo, o estigma burro/inteligente. No sexto temos a triagem. Por óbvio, o tema é o do ingresso nas universidades, os vencedores e a felicidade, o trabalho em nível superior e em nível técnico. No sétimo temos análises estatísticas da remuneração, a degradação da dignidade do trabalho e o grave problema de que a questão financeira não é a única que gera angústias, mas que as agrava. Volta também a questão do ressentimento. Trata também dos suicídios, denominados de "mortes por desespero".

E, ainda como provocação para a leitura, duas passagens: A primeira é retirada do capítulo 3, a retórica da ascensão: "A tirania do mérito é resultado não só da retórica da ascensão. Ela consiste em um conjunto de comportamentos e circunstâncias, que, agrupadas tornaram a meritocracia tóxica. Primeiro, sob condições de desigualdade desenfreada e mobilidade barrada, reiterar a mensagem de que nós somos responsáveis por nosso destino e merecemos o que recebemos corrói a solidariedade e desmoraliza pessoas deixadas para trás pela globalização. Segundo, insistir na ideia de que algum diploma universitário é o principal caminho para um emprego respeitável e uma vida decente cria um preconceito credencialista que enfraquece a dignidade do trabalho e rebaixa pessoas  que não chegaram à universidade; e terceiro, insistir na ideia de que problemas sociais e políticos são mais bem resolvidos por especialistas com educação de nível superior e valores neutros é presunção tecnocrática que corrompe a democracia e tira o poder de cidadãos comuns". p. 105.

A segunda é a exortação final do livro: "A convicção meritocrática de que pessoas merecem quaisquer que forem as riquezas que o mercado concede a partir de seus talentos faz a solidariedade ser um projeto quase impossível. Por que as pessoas bem-sucedidas devem algo aos membros com menos vantagens na sociedade? A resposta para essa pergunta depende de reconhecer que, para todos os nossos esforços, não vencemos por conta própria nem somos autossuficientes; estar em uma sociedade que recompensa nossos talentos é sorte, não é obrigação. Uma sensação viva do contingente de nosso destino pode inspirar certa humildade: "Aí vou eu, mas pela graça de Deus ou por acidente de nascimento, ou ainda, por mistério do destino". Essa humildade é o começo do caminho de volta da dura ética do sucesso que nos divide. Aponta para além da tirania do mérito na direção de uma vida pública menos rancorosa e mais generosa". pp.325-6.

Por fim, dois depoimentos da contracapa: "Acessível e profundo, A tirania do mérito é uma análise reveladora da perversa injustiça da nossa sociedade, movida em parte por uma ingênua e míope confiança na noção de mérito. Em tempos de retórica fácil e tribalismo irrefletido, este livro provocativo é leitura obrigatória àqueles que ainda se importam com o bem comum". E "Sandel oferece uma crítica convincente e profunda da meritocracia, essa que [...] deteriorou nosso senso de comunidade e respeito mútuo [...]. Uma análise instigante de um grave problema político e social".

É a velha distinção entre o ser como um indivíduo ou como um ser social. Uma questão de concepção. Uma leitura necessária.


terça-feira, 23 de março de 2021

FASCISMO - um alerta. Madeleine Albright.

Cheguei a este livro por meio da publicidade virtual que é feita quando você compra livros. Eles aparecem como sugestões por afinidade de temas com os livros que você comprou. Também ouvi boas referências no programa do Reinaldo Azevedo, que agora, praticamente, se transformou num programa referência nas questões políticas e jurídicas. Quem diria? A compra também foi efetuada em virtude da autora do livro, a ex-secretária de Estado dos Estados Unidos. Confesso que até o deixei numa fila de espera, pensando se tratar de um livro de teoria que exigiria grande concentração de esforços. Nada disso. O livro é fluente e de agradável leitura, apesar da nebulosidade do tema. Trata-se do livro: Fascismo - um alerta, de Madeleine Albright.

Fascismo - um alerta. Madeleine Albreight. Crítica. 2020. Tradução: Jaime Biaggio.

Na página final do livro lemos sobre a escrita do mesmo: "Se Donald Trump não tivesse sido eleito presidente, ainda assim eu teria mergulhado neste trabalho, pois concebi o projeto com a ideia de dar impulso à democracia durante o primeiro mandato de Hillary Clinton. A eleição de Trump só fez aumentar o sentido de urgência". p.284. A edição estadunidense do livro data de 2018 e a brasileira de 2020. E, como diz o subtítulo, um alerta, evidencia que a democracia está sob sérios riscos.

O livro começa profundamente autobiográfico, mostrando a fuga da família de Madeleine, de Praga, sua cidade natal, para a Inglaterra durante a ocupação nazista da Tchecoslováquia e depois com a ocupação do país pelo regime soviético. Posteriormente a família se estabeleceu nos Estados Unidos, onde ela exerceu importantes atividades políticas, foi professora universitária (Georgetown University - Washington) e escritora. Escreve este livro, portanto, a partir de um posto de observação extremamente privilegiado. Ela foi a poderosa secretária de Estado no governo Clinton. Um governo neoliberal, diga-se de passagem.

O livro acompanha a sua trajetória de vida e aponta os principais entraves ou retrocessos mundiais para assegurar o processo democrático. Isso é narrado ao longo de dezessete capítulos, ao longo de 299 páginas. Vou enunciar os títulos dos capítulos para depois tecer breves comentários: 1. Uma doutrina de raiva e de medo; 2. O maior espetáculo da terra; 3. "Queremos ser bárbaros"; 4. "Não tenham piedade no coração"; 5. A vitória dos Césares; 6. A Queda; 7. A ditadura da democracia; 8. "Há muitos corpos lá em cima"; 9. Uma difícil arte; 10. Presidente vitalício; 11. Erdogan, o magnífico; 12. O homem da KGB; 13."Somos quem um dia fomos"; 14. "O líder sempre estará conosco"; 15. Presidente dos Estados Unidos; 16. Sonhos ruins"; 17. As perguntas certas. Vamos aos comentários.

1. Nesse capítulo Madeleine narra a sua familiaridade com o tema do fascismo, que o acompanha desde a sua tenra infância de fugas, primeiro do nazismo e depois do regime soviético, de sua cidade natal, a bela Praga, para a Inglaterra, para depois se estabelecer nos Estados Unidos. De lá, com notoriedade acompanhou os grandes fatos políticos do mundo, até, com estarrecimento, acompanhar o governo de Trump, "o primeiro presidente antidemocrático  na história moderna dos EUA".

2. Nesse capítulo é narrada a ascensão do fascismo na Itália, com destaque para a crise generalizada, que se tornou o campo fértil para a ascensão de Mussolini. A Itália, no imaginário popular, sentia a necessidade de um Duce.

3. O terceiro capítulo é dedicado a Hitler e às condições da Alemanha para a sua ascensão. Pesaram para isso a insatisfação popular, o Tratado de Versalhes e a fragilidade da República de Weimar. De Hitler ela destaca o uso do rádio, a Internet da época, e as fortes autoconvicções de grandeza do Führer, o Duce alemão.

4. O quarto capítulo é particularmente lindo. Ele começa com o filme de Chaplin - O Grande Ditador. Então, por óbvio, o tema são as relações entre os dois comandantes, especialmente no que diz respeito à Guerra Civil Espanhola, onde entra em cena um terceiro comandante fascista, o general Franco, que, contudo, não se alinhou. A minha referência à beleza desse capítulo é a relação estabelecida com o filme de Chaplin e não às relações entres os ditadores. Também as divisões entre os grupos de esquerda na Espanha ganha a sua abordagem.

5. O capítulo tem por tema o poderoso Império Austro-húngaro e a sua adesão ao nazismo. Também é analisado o Zeitgeist da época, de grande perigo de adesão em massa ao regime do nazi/fascismo, tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos.

6. O tema do capítulo não poderia ser outro, senão o do enunciado do título. A queda, primeiro de Mussolini e depois de Hitler. Ao final, Chaplin volta à cena com o seu fantástico discurso, cheio de humanidade, de seu Último Discurso.

7. Um belo capítulo sobre o pós-guerra. Ela retoma as memórias de sua cidade natal e os desesperos de uma menina de oito anos a estabelecer paralelos entre dois regimes totalitários, que falavam a mesma língua, a língua da violência. Fala de sua adaptação nos Estados Unidos, a sua nova pátria, envolvida com os horrores do macarthismo, onde o medo do comunismo alavancava o espírito fascista.

8. Este capítulo começa com o discurso de Truman, em São Francisco, na recém fundada ONU. "O fascismo não morreu com Mussolini. Hitler está liquidado, mas as sementes espalhadas por sua mente doentia estão solidamente enraizadas em um número muito grande de cérebros fanáticos". A grande abordagem é o perigo representado pelo fanatismo da tradição e dos nacionalismos. O traço biográfico está de volta, com a narrativa de suas intervenções, já como Secretária de Estado, especialmente no que diz respeito à Guerra dos Balcãs, com o esfacelamento da antiga Iugoslávia. Uma história de muito horror.

9. Outro capítulo extraordinário. Ela apresenta as suas percepções de mundo. A deterioração geral dos salários a partir do final dos anos 1970 (Lembrando que são os anos em que se iniciam as políticas neoliberais, com as ascensões de Thatcher, em 1979, Reagan em 1980 e Kohl em 1982). Ela destaca quarenta anos de insatisfações, em contraposição aos anos imediatamente posteriores à Guerra. Faz alusão às semelhanças entre os climas da ascensão do fascismo e do nazismo com o clima hoje existe em, no mínimo, setenta países. Esses sintomas foram agravados com a crise de 2008 e com a generalização da propagação de falsas verdades, as famosas fake news.

10. Este capítulo é dedicado à Venezuela de Chávez e Maduro e sobre as origens do bolivarianismo. Uma bela análise em que condena a política de ameaças de Trump a Maduro.

11. O capítulo é dedicado à Turquia e ao presidente Erdogan.

12. Interessante capítulo sobre a Rússia pós 1991. Todo o destaque vai para Putin e aos problemas que ele enfrenta e como os enfrenta. Putin é sempre um amigo de governos autoritários.

13. O capítulo versa sobre a União Europeia, seus avanços, dificuldades e crises. Orban da Hungria é o personagem mais retratado. Os inimigos de Bruxelas.

14. Capítulo dedicado aos problemas da Coreia, desde a Guerra Fria, com destaque para a única família no poder, desde aqueles tempos, até os dias de hoje na Coreia do Norte. É claro que o líder Kim Jong-un e a sua política de armas nucleares é o personagem central.

15. O presidente do título é Donald Trump, "o primeiro presidente antidemocrático da história moderna dos EUA". O capítulo termina com uma advertência de Primo Levi, um raro sobrevivente de Auschwitz, sobre os sintomas do fascismo que se manifesta "não só através do terror da intimidação policial, mas pela negação e distorção das informações, pelo enfraquecimento dos sistemas de justiça, pela paralisação do sistema educacional e pela disseminação, de várias formas sutis, da nostalgia por um mundo onde reinava a ordem". Os sintomas estão visíveis.

16. O capítulo apresenta as percepções da autora sobre o mundo atual, em que, lamentavelmente, predominam os aspectos negativos.

17. Um grande capítulo final, o capítulo do grande alerta, do subtítulo do livro. Uma interrogação fundamental paira sobre o capítulo, bem como sobre todo o livro: Quando começa o fascismo? Quando "queremos que nos digam para onde marchar". Eis a resposta. É quando perdemos a capacidade da autodeterminação e, cegamente, obedecemos. Comando e massa unificados. Essa sempre foi a senha. É quando morreu a contradição. Quando ocorre a sintonia absoluta e inquestionável entre quem manda e quem obedece. Aí mora o perigo. As pré-adesões, com a ausência da crítica e da deliberação.

A resenha ficou um pouco longa, mas foi o meu desejo de fazer a provocação para a leitura por meio desse aperitivo do livro. E, para os meus amigos professores dos cursos de relações internacionais, ligados à geopolítica e disciplinas afins. Eis um programa de aulas pronto, quase completo. Leitura imperdível. Sim, uma última observação. O livro é escrito em parceria com o grande jornalista Bill Woodward. Quanto ao olhar, o ponto de observação do livro, apresento uma frase da autora: "Ninguém que um dia tenha estado em um cargo de confiança, inclusive eu mesma, pode olhar para trás sem arrependimento pelos muitos problemas deixados sem resolução". p. 223. Ela enxerga o mundo a partir de sua morada e da cultura de seu entorno.

terça-feira, 16 de março de 2021

O Brasil no espectro de uma Guerra Híbrida. Piero Leirner.

Procurando compreender os bastidores da política brasileira recente, mais precisamente após o golpe 2016 e a eleição de Bolsonaro em 2018, me deparei, entre outros, ao menos com três livros bem interessantes: Bolsonaro - o mito e o sintoma, de Rubens Casara, A República das milícias - dos esquadrões da morte à era Bolsonaro, de Bruno Paes Manso e, por último, O Brasil no espectro de uma Guerra Híbrida - militares, operações psicológicas e política em uma perspectiva etnográfica. Três livros profundamente reveladores e impactantes.

O Brasil no espectro de uma guerra híbrida. Piero Leirner. Alameda 2020.

A República das milícias e O Brasil no espectro de uma Guerra Híbrida tem em comum o delicado tema da ação das forças armadas. Em ambos, são os herdeiros dos militares da chamada "linha dura", dos "anos de chumbo" que são os protagonistas. Militares inconformados e ressentidos com o desfecho do golpe de 1964, regime do qual queriam a continuidade. No primeiro livro é abordada a questão dos esquadrões da morte e a sua migração para as milícias e, no segundo, o protagonismo exercido pelo grupo, especialmente pela ação dos generais Augusto Heleno e Villas Boas nos bastidores do governo Dilma e provocando a "guerra híbrida", da qual resultou a eleição de Bolsonaro, guerra que, longe está por acabar.

Por fidelidade ao livro, apresento primeiramente a orelha do livro, numa bela síntese: "Este livro trata de um tema novo, a assim chamada Guerra Híbrida, e o modo que ela está sendo realizada no Brasil. Não se trata de uma "guerra clássica", com fogo, mas de uma guerra que visa sobretudo a captura e neutralização de mentes. Suas "bombas" são antes de tudo informacionais, visam causar dissonâncias cognitivas e induzir as pessoas a vieses comportamentais: percepção, decisão e ação passam a trabalhar a favor de quem ataca. Seu objetivo último é o que se chama nas teorias desse tipo de guerra de uma "dominação de espectro total". Essa ideia de "totalidade" está no âmago da Guerra Híbrida: não há mais a separação entre guerra e política, ou "tempo de guerra/tempo de paz"; todos passam a ser, voluntária ou involuntariamente, combatentes; e não se vê exatamente nem seu princípio, nem seu fim.

A hipótese central aqui levantada é que o Brasil foi, e é, um laboratório onde este modelo foi aplicado. Embora estejamos falando de algo que remonte a vários fenômenos que atravessaram a última década - sociais, políticos, culturais e militares - constatou-se aqui o acionamento de elementos que estavam latentes há muito tempo. O caso aqui estudado leva a um dos protagonistas principais desta forma de guerra e sua estratégia: um certo grupo de militares, operações psicológicas e o modo como isso se disseminou na política. O resultado, que vai muito além da eleição de 2018, é a dissonância generalizada que impera no Brasil hoje, que aqui segue um dos conceitos centrais da Guerra Híbrida - a cismogênese".

É um livro complexo e exige muitos pré-requisitos para a sua leitura, especialmente no campo da teoria. O livro tem um prefácio, de Marco Antônio Gonçalves, sob o título Adeus Tocqueville! A Guerra Híbrida e novos sentidos da democracia, que fala da retomada do poder pelos militares e da forma como isso foi feito, especialmente pelo uso das redes sociais. Tem-se nele o primeiro contato com os termos Guerra Híbrida e Cismogênese.

O livro está estruturado em três capítulos, precedidos por uma longa introdução e sucedidos por uma conclusão, que bem poderia também ser o capítulo final do livro. Os três capítulos tem por título: 1. O lugar do antropólogo; 2. O lugar da guerra: problemas conceituais e terminológicos; 3. A cismogênese Dilma - militares e além. A conclusão leva por título o termo alemão Blitzkrieg.

Na introdução temos uma breve análise de conjuntura dos fatos, a partir de 2014, como a Lava Jato, Comissão da Verdade e o governo Dilma e a relação com os militares; as palestras de Olavo de Carvalho no Clube Militar, as paranoias em torno do Foro de São Paulo, as ações do Poder Judiciário em orquestração com os setores militares; estes e a Guerra Híbrida e, ainda, a relação entre etnografia, Guerra Híbrida e redes sociais.

No capítulo primeiro o foco vai para os estudos que os antropólogos fazem dos movimentos militares, para estudar em profundidade a sua cultura e o seu pensamento, chegando até o novo momento das guerras, que são as Guerras Híbridas, com o aprisionamento das mentes pela produção de consensos em torno das novas formas das operações militares. Um capítulo de muita história dos últimos movimentos militares, especialmente por parte dos Estados Unidos.

No segundo capítulo é apresentado o Estado neoliberal, que para transferir a renda para o 1% privilegiado da sociedade, em favor dos papeis e contra a produção e o trabalho, precisa de uma guerra total e permanente e da militarização do Estado. Isso só pode ser atingido por uma nova forma de fazer a guerra, a Guerra Híbrida, com o captar das mentes. O caso brasileiro, a partir de 2013. passa a ser o tema abordado.

Creio que a maior razão de ser do livro é o seu capítulo terceiro: A cismogênese Dilma, em que são analisadas as células que se formam nos meios militares, a sua observação das ações do governo da "ex-guerrilheira"  e a "janela de oportunidades" que se abre para o personagem Jair Bolsonaro. Ó capítulo é uma extraordinária contextualização dos fatos e dos personagens envolvidos. Chama a atenção também a fraca percepção das ações militares pelo governo Dilma, especialmente pelos Ministérios da Justiça e da Defesa.

Na conclusão continua a análise da fraca percepção da movimentação dos militares contra o governo Dilma, uma breve análise do governo Temer e a captura de sua pauta das reformas, com a intervenção militar no Rio de Janeiro e o direcionamento do mercado em favor da campanha da candidatura de Bolsonaro. Por fim detalhes da campanha.

Piero Leirner também merece uma palavra. Que pesquisa! Que pesquisador! Na orelha da contracapa lemos: "Piero Leirner é Doutor em Antropologia pela USP e Professor Titular do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFS-Car. Estuda temas relacionados aos militares, guerras e hierarquia desde o começo da década de 1990. Super recomendo a leitura.

quarta-feira, 10 de março de 2021

SAPIENS. Uma breve história da humanidade. Yuval Noah Harari.

Há uns dois anos fui consultar um oftalmologista. Coisas de rotina, nada de especial. A conversa, por óbvio, girou em torno de leituras. Falei das minhas preferências pelos clássicos, das biografias, dos romances históricos e dos livros de teoria política. Ele, por sua vez, confessou todo o seu entusiasmo pelo best seller do Yuval Noah Harari, Sapiens - Uma breve história da humanidade. Falei que não conhecia o livro e prometi que iria lê-lo.

Sapiens - Uma breve história da humanidade. 2020. L&PM. Tradução de Janaína Marcoantonio.

Tenho uma certa prevenção com relação a best sellers e dificilmente os leio. Mas agora, lendo o livro do Juremir Machado da Silva, Raízes do conservadorismo brasileiro - a abolição na imprensa e no imaginário social, vi referências muito elogiosas ao livro e, como o Juremir tem bons créditos comigo, li o livro. O projeto do livro é realmente grandioso. Não deve ser nada fácil querer condensar toda a história do Homo sapiens em apenas 459 páginas. Mas o Yuval o conseguiu.

Para a primeira apresentação tomo a contracapa do livro: "O que possibilitou ao Homo sapiens subjugar as demais espécies? O que nos torna capazes das mais belas obras de arte, dos avanços científicos mais impensáveis e das mais horripilantes guerras?

Nossa capacidade imaginativa. Somos a única espécie que acredita em coisas que não existem na natureza, como Estados, dinheiro e direitos humanos.

Partindo dessa ideia, Yuval Noah Harari, doutor em história pela Universidade de Oxford, aborda em Sapiens a história da humanidade sob uma perspectiva inovadora. Explica que o capitalismo é a mais bem sucedida religião; que o imperialismo é o sistema político mais lucrativo; que nós, humanos modernos, embora sejamos muito mais poderosos que nossos ancestrais, provavelmente não somos mais felizes.

Um relato eletrizante sobre a aventura de nossa extraordinária espécie - de primatas insignificantes a senhores do mundo".

Essa eletrizante aventura é narrada em quatro partes e ao longo de vinte capítulos. Na primeira parte é apresentada a Revolução Cognitiva. Ela nos é descrita em quatro capítulos, a saber: 1. Um animal insignificante; 2. A árvore do conhecimento; 3. Um dia na vida de Adão e Eva; 4. A inundação.

Na parte dois, outra revolução nos é apresentada, a Revolução Agrícola. Também ela nos é mostrada em quatro capítulos: 5. A maior fraude da história (Seria o sedentarismo?); 6. Construindo pirâmides; 7. Sobrecarga de memória; 8.  Não existe justiça na história.

Na parte três, o autor nos apresenta o que ele chama de: A unificação da história, contada ao longo de cinco capítulos: 9. A seta da história; 10. O cheiro do dinheiro; 11. Visões imperiais; 12. A lei da religião; 13. O segredo do sucesso.

Na quarta parte, estamos de volta com as revoluções. Dessa vez nos é apresentada a Revolução Científica, esta em sete capítulos: 14. A descoberta da ignorância; 15. O casamento entre ciência e império; 16. O credo capitalista; 17. As engrenagens da indústria; 18.  Uma revolução permanente; 19. E eles viveram felizes para sempre; 20 O fim do Homo sapiens. Por fim o epílogo, de apenas uma página e meia, O animal que se tornou um deus nos é apresentado.

Na contracapa também lemos a nota do Financial Times, de que "Este livro fascinante não pode ser resumido; você simplesmente terá de lê-lo". Também eu tomo esse caminho, mas não sem antes apontar para três capítulos irretocáveis. Os de número oito, sobre as injustiças das desigualdades entre os homens ao longo de toda a história, o de número 16, sobre o credo capitalista, em que ele conta a história da Holanda, para depois nos mostrar o inferno do mundo da ganância e o de número 19, onde mostra as relações entre a economia, o progresso e a felicidade.

Como costumo deixar um ou dois parágrafos como aperitivo para a leitura, tomo dois, já da parte final do livro. O primeiro, do capítulo 19 em que o autor nos faz este belo questionamento: "Nosso mundo moderno se orgulha de reconhecer, pela primeira vez na história, a igualdade elementar entre todos os humanos, porém pode estar prestes a criar a sociedade mais desigual de todas. Ao longo da história, as classes superiores sempre afirmaram ser mais inteligentes, mais fortes e, em geral, melhores do que as classes inferiores. Normalmente, elas estavam se iludindo. Um bebê nascido em uma família camponesa pobre tendia a ser tão inteligente quanto o príncipe-herdeiro. Com a ajuda de novas capacidades médicas, as pretensões das classes superiores podem logo se tornar uma realidade objetiva". p. 422.  Eita  Admirável mundo novo!

O segundo, é o parágrafo final do livro: "Além disso, apesar das coisas impressionantes de que os humanos são capazes de fazer, nós continuamos sem saber ao certo quais são nossos objetivos e, ao que parece, estamos insatisfeitos como sempre. Avançamos de canoas a galés a navios a vapor e naves espaciais - mas ninguém sabe para onde estamos indo. Somos mais poderosos do que nunca, mas temos pouca ideia do que fazer com todo esse poder. O que é ainda pior, os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca.  Deuses por mérito próprio, contando apenas com as leis da física para nos fazer companhia, não prestamos conta a ninguém. Em consequência, estamos destruindo os outros animais e o ecossistema à nossa volta, visando a não muito mais do que nosso próprio conforto e divertimento, mas jamais encontrando satisfação. Existe algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?". pp. 427-8.



terça-feira, 2 de março de 2021

Racismo estrutural. Sílvio Almeida.

A leitura necessariamente chama ou clama por novas leituras. Lendo sobre a questão da escravidão, e a sua permanência dentro da realidade brasileira, mais cedo ou mais tarde, você se depara com o livro de Sílvio Almeida, Racismo estrutural. O livro é extraordinário e, como o título define, o fenômeno do racismo é visto em sua forma estrutural, isto é, ele está nas entranhas do sistema capitalista, colonialista, imperialista, sistema em que estamos inseridos, quer queiramos ou não.
Racismo estrutural. Sílvio Almeida. Jandaíra. 2020. Coleção Femismos Plurais.

Na orelha do livro, Marcelo Paixão, professor do Departamento de Estudos Africanos e Afro-diaspóricos da Universidade de Austin, do Texas, e que foi debatedor com o Sílvio Almeida numa comunicação sobre o movimento negro na Universidade de Harvard, assim se expressou sobre o livro: "O livro Racismo estrutural reflete o que ouvi naquela apresentação. E, como tal, é uma importante contribuição de um jovem intelectual negro para o avanço do pensamento social do país rumo a novas abordagens mais críticas e ousadas sobre os antigos, novos e novíssimos problemas enfrentados pelo Brasil". A partir disso eu faço a minha confissão: com a leitura do livro, pela primeira vez, também eu me senti nesta Universidade, entre os presentes à palestra.

O livro todo é maravilhoso. O encanto me veio já a partir das primeiras páginas, quando o autor fala sobre raça e racismo, de uma perspectiva histórica. Assinalo dois parágrafos que para mim se constituíram na chave para a compreensão do livro. Eles põem em cheque o processo civilizatório do mundo moderno, do projeto do iluminismo. A fundamentação está em Achile Mbembe. São eles: "Achile Mbembe afirma que o colonialismo foi um projeto de universalização, cuja finalidade era 'inscrever os colonizados no espaço da modernidade'. Porém, a 'vulgaridade, a brutalidade tão habitualmente desenvolvida e sua má-fé fizeram do colonialismo um exemplo perfeito de anti-liberalismo'. No século XVIII, mais precisamente a partir do ano de 1791, o projeto de civilização iluminista baseada na liberdade e igualdade universais encontraria sua grande encruzilhada: a Revolução Haitiana". E continua:

"O povo negro haitiano, escravizado por colonizadores franceses, fez uma revolução para que as promessas de liberdade e igualdade universais fundadas na Revolução Francesa fossem estendidas a eles, assim como foram contra um poder que consideraram tirano, pois negava-lhes a liberdade e não lhes reconhecia a igualdade. O resultado foi que os haitianos tomaram o controle do país e proclamaram a independência em 1804" p. 27. Pronto estava instaurado o mundo moderno. O iluminismo virou capitalismo, colonialismo, nacionalismo, imperialismo, escravidão, racismo, apartheid e toda a sorte de dominações e sofrimentos.

A negação dos princípios da liberdade e da igualdade se instauraram nas entranhas da estrutura capitalista em seu todo. Logo o iluminismo se consorciou com o positivismo e procurou legitimar todo o sistema de opressão em nome do processo civilizatório. Além de mostrar essas preciosas observações históricas, o cerne do livro está ancorado em quatro capítulos essenciais, dos quais apresento a estrutura. São eles: 1. Racismo e Ideologia; 2. Racismo e Política; 3. Racismo e Direito; 4.Racismo e Economia. Vamos começar pelo primeiro: racismo e ideologia: Como naturalizamos o racismo; racismo, ideologia  e estrutura social; racismo ciência e cultura; branco tem raça?; racismo e  meritocracia.

O segundo desses capítulos é racismo e política: Mas o que é o Estado?; Estado e racismo nas teorias liberais; Estado poder e capitalismo; raça e nação; representatividade importa?; da biopolítica à necropolítica; racismo e necropolítica. O terceiro capítulo aborda: racismo e o direito. O que é direito?; o direito como justiça; o direito como norma; o direito como poder; o direito como relação social; raça e legalidade; direito e antirracismo.

O quarto capítulo é dos mais importantes, mostrando o entrelaçamento entre o racismo e a economia. As questões levantadas e debatidas são: racismo e desigualdade; uma visão estrutural do racismo e da economia; racismo e subsunção real do trabalho ao capital; o racismo e sua especificidade; sobre a herança da escravidão; classe ou raça?; racismo e desenvolvimento; crise e racismo; o que é a crise, afinal?; o racismo e as crises; o 'grande pânico' de 1873; o imperialismo e neocolonialismo; a crise de 1929, o Welfare State e a nova forma do racismo; neoliberalismo e  racismo.

É a essência do livro, mostrando as interligações do racismo com a ideologia, com a política, com o direito e com a economia. Depois disso é impossível não dizer que o racismo é efetivamente estrutural. O livro é acompanhado de muitas análises históricas e dos melhores referenciais teóricos sobre os temas abordados.

A leitura me fez lembrar de aulas de filosofia que eu dei e me fez buscar duas anotações que fiz ao pé da página do manual de filosofia da Marilena Chauí, Convite à Filosofia, que eu usava muito. A primeira é a frase de Marx, que chama para a necessidade do estudo e da investigação científica; "Se a aparência fosse igual à essência, não haveria a necessidade da ciência" e a segunda é a anotação de quatro palavras, com as quais pode ser instaurada ou explicitada uma base para a dominação e a submissão. São elas: dividir, hierarquizar, naturalizar e universalizar.

E como aperitivo provocativo para a leitura do livro, um parágrafo que fala do atualíssimo tema da austeridade fiscal e de suas consequências: "Chama-se por austeridade fiscal o corte das fontes de financiamento dos direitos sociais a fim de transferir parte do orçamento público para o setor financeiro privado por meio dos juros da dívida pública. Em nome de uma pretensa 'responsabilidade fiscal', segue-se a onda de privatizações, precarização do trabalho e desregulamentação de setores da economia. Do ponto de vista ideológico, a produção de um discurso justificador da destruição de um sistema histórico de proteção social revela a associação entre parte dos proprietários dos meios de comunicação de massa e o capital financeiro: o discurso ideológico do empreendedorismo - que, na maioria das vezes, serve para legitimar o desmonte da rede de proteção social de trabalhadoras e trabalhadores -, da meritocracia, do fim do emprego e da liberdade econômica como liberdade política são diuturnamente  martelados nos telejornais e até nos programas de entretenimento.

Ao mesmo tempo naturaliza-se a figura do inimigo, do bandido que ameaça a integridade social, distraindo a sociedade que, amedrontada pelos programas policiais e pelo noticiário, aceita a intervenção repressiva do Estado em nome da segurança, mas que, na verdade, servirá para conter o inconformismo social diante do esgarçamento provocado pela gestão neoliberal do capitalismo. Mais do que isso, o regime de acumulação que alguns denominam de pós-fordista dependerá cada vez mais da supressão da democracia". p. 206. O livro, entre capítulos e notas, tem 255 páginas.

Por fim a contracapa do livro, por ser bem ilustrativa: "Racismo estrutural traz reflexões inovadoras acerca da construção das noções de raça e racismo.  Depois de fornecer argumentos e tecnologias para a escravidão e o colonialismo, tais conceitos desafiam as sociedades contemporâneas como o Brasil, onde crescem anseios por igualdade racial. A indagação central da obra exige resposta complexa, englobando aspectos históricos, políticos, sociais, jurídicos, institucionais. O autor nos convida à sua demonstração, tecida em análises feitas à luz da Filosofia, da Ciência Política, da Economia e da Teoria do Direito. Com escrita sedutora e admirável erudição, Sílvio Almeida finca o produtivo conceito de racismo estrutural. 

Seu livro constitui-se, desde já, em importante referência para a educação antirracista, calcada nos valores da igualdade, da liberdade e do direito à vida". A referência é da professora Lígia Fonseca Ferreira, da UNIFESP. Sílvio Almeida é professor e advogado, com pós doutorado pela Faculdade de Direito da USP, do Largo de São Francisco.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

A República das milícias. Dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. Bruno Paes Manso.

Normalmente quando converso com o deputado Tadeu Veneri, trocamos ideias sobre livros que estamos lendo. Desta vez não foi diferente. Eu falava para ele do livro do Rubens Casara, Bolsonaro - o mito e o sintoma e ele me falou de A República das milícias - dos esquadrões da morte à era Bolsonaro, de Bruno Paes Manso. Já conhecia o autor por outro livro seu, sobre a formação e ascensão do PCC, A Guerra - A ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil, escrito em parceria com Camila Nunes Dias. Deixo o link dos dois livros. Primeiro o de A Guerra - http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/06/a-guerra-ascensao-do-pcc-e-o-mundo-do.html e em segundo, o fantástico livro do Rubens Casara. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/02/bolsonaro-o-mito-e-o-sintoma-rubens.html. Na troca de leituras nunca se tem a perder.

A República das milícias. Bruno Paes Manso. todavia. 2020.

O livro de Bruno Paes Manso, jornalista e pesquisador do Núcleo de Estudos da violência da USP, é estarrecedor. Poucas vezes o título e o subtítulo de um livro conseguem expressar tão bem a síntese de uma obra: A República das milícias - dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. Na contracapa do livro temos dois depoimentos imperdíveis, junto com a recomendação de Fernanda Torres, de que a leitura do livro se constitui numa obrigação. Os depoimentos são de Luiz Eduardo Soares, autor de Meu casaco de general e de Paulo Lins, autor de A Cidade de Deus. Começamos com o ex-Secretário de Segurança do Rio de Janeiro:

"Esta obra rouba a inocência à boa consciência nacional. Ninguém mais poderá dizer que não sabia. A história da Nova República (após a Constituição de 1988) terá de ser contada de outro modo depois deste livro". Uma verdade. Já o autor de A Cidade de Deus, um dos palcos do livro de Manso, nos diz: "Com uma pesquisa primorosa, Bruno Paes Manso nos revela como o crime organizado chegou aos Poderes Legislativo e Executivo, tornando o Brasil um dos países mais violentos do mundo". Nada mais do que uma triste verdade.

Voltamos ao título e subtítulo, por outras palavras: Como as milícias, representadas por Bolsonaro, chegaram ao Poder. Uma longa história de violência. Tudo começou na ditadura militar, com a ala extremada das Forças Armadas, inconformada com a abertura política. A justificativa era a caça aos comunistas, para eles verdadeiros terroristas. Contra eles, toda a violência se justificaria. Violência, tortura e mortes seriam justificadas em nome da manutenção da ordem. Isso fez surgir os chamados esquadrões da morte, que rapidamente migraram para flagrar outros inimigos, que não os comunistas, mas todos os que perturbavam a ordem das "pessoas de bem". O livro se desenvolve, numa sequência lógica irretocável, ao longo de oito capítulos e uma conclusão, divididos entre as 302 páginas do livro. Eis os capítulos:

1. Apenas um miliciano; 2. Os elos entre o passado e o futuro; 3. As origens em Rio das Pedras e na Liga da Justiça; 4. Fuzis, polícia e bicho; 5. Facções e a guerras dos tronos; 6. Marielle e Marcelo; 7. As milícias 5G e o novo inimigo em Comum; 8. Cruz, Ustra, Olavo e a ascensão do capitão - e a conclusão sob o nome de Ubantu, a filosofia que inspirou Nelson Mandela e o bispo Desmond Tutu.

O primeiro capítulo é marcado por uma entrevista com um miliciano, que expõe toda a filosofia que inspira estes grupos de contravenção em nome da manutenção da ordem, da justificativa da violência para impor a ordem. Fala do nascimento das milícias, com a junção de alas ressentidas do exército com as bandas podres das polícias militares, de suas alianças no combate ao Comando Vermelho.  Também mostra as formas de arrecadação que dão sustentação à organização. Fala também da intervenção das Forças Armadas no Rio de Janeiro. O segundo capítulo é dedicado à formação das milícias na cidade do Rio de Janeiro, a partir da expansão da cidade para Jacarepaguá e Cidade de Deus. Mostra ainda os principais envolvidos, dando destaque para o clã familiar de Bolsonaro. A comoção pela morte de Tim Lopes cria um clima favorável à existência dos justiceiros.

No terceiro capítulo entra em cena a organização da entidade em torno de Rio das Pedras e da Liga da Justiça, como os embriões e cernes da organização. Mostra as formas da organização, da arrecadação e da sua "aliança" com o povo para lhe oferecer proteção. Invasão de áreas, transporte clandestino, construção de lajes, gatonet, venda de gás, achaques e subornos são as principais formas de arrecadação. Tudo em nome da autodefesa das comunidades, contra o poder dos traficantes. No quarto capítulo é mostrada a sua constituição com a união de militares ressentidos com os policiais da banda podre e o jogo do bicho e também com os traficantes não pertencentes ao Comando Vermelho. O pesado mercado de armas também entra em cena. É nesse tempo que nasce o bordão "Bandido bom é bandido morto", nem que seja morto por outro bandido.

No quinto capítulo são mostradas as principais organizações criminosas, como o Comando Vermelho, a ADA e o Terceiro Comando. Ao contrário de São Paulo, onde o PCC se tornou hegemônico no mundo do crime, no Rio de Janeiro nenhuma organização conseguiu se impor. Em meio a essas disputas surge a organização das milícias em aliança com os demais grupos, mais o jogo do bicho,. Todos contra o Comando Vermelho, o que é mostrado no sétimo capítulo. Nesse sétimo capítulo também são mostrados os traficantes evangélicos e os 'Bondes de Jesus', uma verdadeira e inimaginável história de horrores. Também é mostrada a relação com os governadores e as suas políticas de Segurança Pública. Voltando um pouco, o sexto capítulo é dedicado a Marielle e Marcelo, e por extensão, ao PSOL e Marcelo Freixo, em particular. Este sexto capítulo termina com as eleições de 2018 e a ascensão de Bolsonaro, Witzel, Flávio e, o hoje em evidência, Daniel Silveira.

O oitavo capítulo, creio que foi o motivo maior do comentário de Luiz Eduardo Soares, de que ninguém mais poderia se confessar inocente. São devassadas as vidas do entorno de Jair Bolsonaro, as bases de sua formação e o seu sujo e antidemocrático projeto político. No seu entorno estão o general Newton Cruz, Brilhante Ustra, Olavo de Carvalho e o general Mourão, uma síntese de Ustra e Olavo. Bem pior do que se imagina. 

De Ubantu tomo uma frase, entre as mais significativas: "Bolsonaro venceu a eleição em 2018 porque parte dos brasileiros foi seduzida pela ideia da violência redentora. Diante da crise econômica e da descrença na política, os eleitores escolheram um justiceiro para governá-los. Como se o país decidisse abandonar suas instituições democráticas para se tornar uma enorme Rio das Pedras gerida por princípios milicianos.

Sem dúvida, há espaço para aprender e amadurecer depois do surto bolsonarista. A tristeza e a depressão chegaram porque o Brasil prometido pela Nova República não aconteceu. Bolsonaro foi o sintoma dessa desesperança". Que sintoma! O momento final do livro é uma homenagem a Marielle: 'Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe'? "Bolsonaro veio com a proposta de acirrar a guerra. O surto que levou os eleitores a optar por essa via já faz parte da história brasileira, mas, se tudo der certo, será passageiro. Permanece a mensagem deixada por Marielle, a apontar o único caminho possível".

Concluo com a convocação de Fernanda Torres: "A República das milícias é leitura obrigatória" e a citação de uma frase de Leonardo Boff: "Se os pobres deste país soubessem o que estão preparando para eles, não haveria rua onde coubesse tanta gente para protestar". Este livro faz saber o que estão preparando.