quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Le Goff e Dostoiévski falam sobre a mentira.

O Brasil de 2022 se transformou no país governado pela mentira. É simplesmente inacreditável o que está acontecendo. Um enorme abismo poderá estar voltando seus olhos sobre nós. A situação é extremamente preocupante. Quero aqui registrar duas passagens clássicas sobre a mentira. A primeira é do grande medievalista, Jacques Le Goff, retirada de seu livro A civilização do ocidente medieval. Vejamos:

O monumental livro de Jacques Le Goff.

"Antes de chegar lá, os homens da Idade Média tiveram que lutar contra uma impressão generalizada de insegurança, e o combate não tinha chegado ao fim no século 13. Sua grande perturbação provém de que os seres e as coisas não são realmente o que parecem. O que a Idade Média mais detesta é a mentira. O epíteto natural de Deus é 'aquele que nunca mente'. Os maus são mentirosos. 'Vós sois um mentiroso, Fernando de Carrion', diz Pero Bermuez na cara de um infante, e Martin Antolinez, outro companheiro do Cid, joga na cara do segundo infante: 'Fechais vossa boca, mentiroso, boca-sem-verdade'. A sociedade é feita de mentirosos. Os vassalos são traidores, félons (vassalo traidor) que renegam seu senhor, êmulos de Ganelão (traidor famoso dos francos), e, depois dele, do grande protótipo de todos: Judas. Os mercadores são fraudadores que só pensam em enganar e roubar. Os monges são hipócritas, tal Falso-Semblante, personificado no Roman de la Rose por um franciscano. O vocabulário medieval é de extraordinária riqueza para designar os inumeráveis tipos de mentira e as infinitas espécies de mentirosos. Até os profetas podem ser falsos profetas, e os milagres, falsos milagres, obras do Diabo. É que o domínio do homem medieval sobre a realidade é tão fraco que ele deve valer-se da astúcia para levar a melhor. Pode-se pensar que aquela sociedade belicosa tudo ganhava ao atacar. Grande ilusão. As técnicas eram tão medíocres que a resistência quase sempre prevalecia sobre a ofensiva. Mesmo no domínio militar, os castelos e as muralhas eram quase
impenetráveis. Quando o invasor os forçava, era quase sempre pela astúcia. A totalidade de bens colocados à disposição da humanidade medieval era tão insuficiente que para viver era preciso 'se arranjar'. Aquele que não tinha força ou astúcia estava quase que com certeza fadado a perecer. O que é seguro e quem é seguro? Da imensa obra de Santo Agostinho, a Idade Média deu atenção especial ao tratado De Mendacio (Da mentira)".

Texto extraído de: LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Bauru, EDUSC, 2005. Páginas 354-355.

A segunda é de Dostoiévski, retirada de Os irmãos Karámazov. Já li o livro duas vezes, mas a citação me veio através do facebook, numa postagem de Paulo Wendling, que mostrava um artigo do arcebispo de Manaus, D. Leonardo Steiner de Em Tempo, datado de 15 e 16 de novembro de 2022. O título do texto é Da verdade. A citação abre o texto e reflete o atual momento que estamos vivendo na política brasileira. Uma aula sobre a condição humana do mentiroso.

"Quem mente a si mesmo e escuta as próprias mentiras, chega ao ponto de já não poder distinguir a verdade dentro de si mesmo nem ao seu redor, e assim começa a deixar de ter estima de si mesmo e dos outros. Depois, dado que já não tem estima de ninguém, cessa também de amar, e então na falta de amor, para se sentir ocupado e distrair, abandona-se às paixões e aos prazeres triviais e, por culpa dos seus vícios, torna-se como uma besta; e tudo isso deriva do mentir contínuo aos outros e a si mesmo".

Sem comentários.


terça-feira, 18 de outubro de 2022

A língua - para o bem ou para o mal. Uma lenda do candomblé.

 Ainda ando meio impactado com a viagem que empreendemos, em maio, para Salvador e Santo Amaro da Purificação. Em Santo Amaro tivemos contato com a festa do Bembé do Mercado, uma festa que ocorre desde 1889. É uma festa, simultaneamente, de gratidão e de resistência. Ela é uma festa do candomblé, única, realizada em espaço público, o espaço do mercado da cidade.

Depois do contato com essa festa, que se realiza há 133 anos, comecei a me interessar mais pelo candomblé e pela sua expressão através dessa longeva festa. Santo Amaro, junto com outras cidades do Recôncavo Baiano, formaram o coração da escravidão baiana. Foi o grande centro da economia açucareira, economia que trouxe para o Brasil a escravidão. Já de volta para Curitiba, me embrenhei em muitas leituras e entrei em contato com a obra de Reginaldo Prandi, hoje, o maior estudioso do país das religiões brasileiras de origem africana.

Mitologia dos orixás. Reginaldo Prandi. Companhia das Letras. 2022. 1ª edição: 2001.

O seu livro Mitologia dos orixás (o candomblé é a religião dos orixás), editado pela Companhia das Letras, já está em sua 33ª reimpressão, tal é o interesse pelo tema. No livro são relatados 301 dos incontáveis mitos dos ancestrais africanos, reis e heróis dos povos iorubás (parte da Nigéria) que se transformaram em divindades, que se transformaram em orixás. No candomblé existe um deus criador, Olorum ou Olodumare, (Olofim, nas santerias cubanas), que, após a criação do universo, entregou a governança do mundo aos seus orixás. São eles, que através de seus feitos heroicos, se transformaram em divindades.

Os mitos são muito bonitos e significativos. A maioria tem a sua procedência na observação dos fenômenos da natureza e se incorporaram nesses fenômenos da própria natureza. Por isso a sua preservação é de fundamental importância. A mediação dos orixás com os humanos se dá através dos babalaôs, os sacerdotes dessa religião. Os babalaôs, na versão brasileira, são as mães e os pais de santo, que regem o povo de santo nos terreiros.

Mas, como convite para a leitura, peço uma licença toda especial ao grande pesquisador Reginaldo Prandi, para apresentar uma das lendas do livro, como um aperitivo, como uma pequena amostra das maravilhas que livro nos reserva. É a história de número 271, contada nas páginas 466-467 do livro. Ela versa sobre os poderes benéficos ou maléficos da língua e tem por título, Orunmilá (o primeiro babalaô, o detentor dos segredos) recebe de Obatalá (o criador dos humanos) o cargo de babalaô. Vejamos:

"Fazia muito tempo // que Obatalá admirava a inteligência de Orunmilá // Em mais de uma ocasião // Obatalá pensou em entregar a Orunmilá o governo do mundo. // Pensou em entregar a Orunmilá o governo dos segredos, // os segredos que governam o mundo // e a vida dos homens. // Mas quando refletia sobre o assunto // acabava desistindo. // Orunmilá, apesar da seriedade de seus atos, // era muito jovem para missão tão importante. // Um dia Obatalá quis saber se Orunmilá era // tão capaz quanto aparentava // e lhe ordenou que preparasse a melhor comida // que pudesse ser feita.

Orunmilá preparou uma língua de touro // e Obatalá comeu com prazer. // Obatalá, então perguntou a Orunmilá por qual razão // a língua era a melhor comida que havia. // Orunmilá respondeu: // 'Com a língua se concede axé, // se ponderam as coisas, // se proclama a virtude, // se exaltam as obras // e com seu uso os homens chegam à vitória'. // Após algum tempo, Obatalá pediu a Orunmilá // para preparar a pior comida que houvesse. // Orunmilá lhe preparou a mesma iguaria. //Preparou língua de touro.

Surpreso, Obatalá lhe perguntou como era possível // que a melhor comida que havia fosse agora a pior. // Orunmilá respondeu: // 'Porque com a língua os homens se vendem e se perdem. // Com a língua se caluniam as pessoas, // se destrói a boa reputação // e se cometem as mais repudiáveis vilezas'. // Obatalá ficou maravilhado com a inteligência // e precocidade de Orunmilá. // Entregou a Orunmilá nesse momento o governo dos segredos. // Orunmilá foi nomeado babalaô, // palavra que na língua dos orixás quer dizer pai do segredo. // Orunmilá foi o primeiro babalaô".

Na cultura ocidental, certamente, chamaríamos essa história da mitologia dos povos iorubás de fábula. E quanta atualidade há nessa magnífica fábula. Se gostou, no livro tem ainda trezentas outras dessas histórias, um prólogo maravilhoso de iniciação ao candomblé e um riquíssimo acervo de fotografias. Está feita a recomendação. Observem ainda a arte poética do autor, ao contar essas histórias.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Salvador. Rua Alagoinhas 33. A Casa do Rio Vermelho.

Em maio de 2022 eu e o meu amigo Valdemar Reinert estivemos em Salvador. A nossa intenção primeira era a de assistir ao show de Caetano Veloso Meu Coco, no famoso e histórico Teatro Castro Alves. Em 1968 ele fora o palco de despedida de Caetano e Gil, no rumo de seus exílios. Tempos de endurecimento de um regime que não tolerava a democracia e a arte de seu povo. Mas a viagem foi muito mais.

Além das maravilhas de Salvador, de seu histórico Pelourinho, onde se localizava a Tenda dos Milagres do Jorge Amado, por ele transformada na Universidade Popular do Pelourinho, sob a chancelaria de mestre Pedro Archanjo e Magé Bassã; Conhecemos também o Dom Quixote do Pelourinho, na pessoa do "eterno menino", Clarindo Silva em sua "Cantina da Lua", além da Ilha de Itaparica e da terra de Dona Canô e do Bembé do Mercado, que é a cidade de Santo Amaro da Purificação, cidade do Recôncavo, onde experimentamos os sabores e sentimos os odores da cozinha da Bahia, no acolhedor "Lá em Carla".

A casa famosa, no endereço famoso. Rua Alagoinhas 33.

Mas uma das melhores visitas que fizemos foi num lugar que se tornou enormemente famoso. Lugar descrito em livro e transformado em local de romaria cultural. Dou o endereço. Rua Alagoinhas número 33, no bairro do Rio Vermelho. O local foi adquirido com direitos autorais da passagem de uma de suas obras para as telas do cinema. Visitamos a casa de Zélia Gattai e de Jorge Amado. Um local contagiante que transpira as alegrias dos sentimentos maiores do ser humano, como o cultivar amizades. Um local de encontro das maiores intelectualidades do século XX.

Não quero eu me por a falar da Casa. Vou transcrever o escrito de quatro cartazes e mostrar algumas fotografias desse lugar pleno de magia e de energia e deixar uma recomendação de leitura. Mas antes
quero deixar o escrito que tomei de um livro que lá eu estava folheando. Trata-se de Carybé - Verger e Jorge. A frase é de Carybé, um visitante assíduo da casa, e que me fez muito bem, por isso vou deixá-la em maiúsculo:

O busto do escritor, na casa famosa. 

"ENTREI PARA O CANDOMBLÉ PORQUE GOSTO. É A MELHOR RELIGIÃO. NÃO TEM INFERNO NEM PECADO E OS DEUSES, EM ÚLTIMA INSTÂNCIA, SÃO OS RIOS, O MAR, A FLORESTA, O VENTO, A CHUVA. OXUMARÉ É O ARCO ÍRIS. NA BAHIA É TRADIÇÃO". CARYBÉ.  Uma religião sem culpa.

No primeiro cartaz ou quadro a casa é apresentada. Ela leva o título de A Casa do Rio Vermelho e diz o seguinte:

Nos jardins da casa.

Revelar aos baianos, brasileiros e turistas a intimidade de Jorge e Zélia é mais do que um investimento em cultura ou turismo; é preservar a alma e a essência do povo baiano, ajudando a manter viva a memória que nos remete à nossa própria identidade e à construção dos nossos valores mais genuínos. Esperamos que a casa do Rio Vermelho seja, além de um memorial que conta a história de amor de um casal e como essa relação contagiou o mundo inteiro e todos aqueles que pela Rua Alagoinhas número 33 passaram, também seja fonte de inspiração permanente para o surgimento de novos talentos literários e pensadores libertários. Viva Jorge Amado! Viva Zélia Gattai!

Um tabuleiro de sabores e odores.

O segundo quadro é uma referência ao mundo de pessoas recebidas pelo casal, sob a beleza do que se chama de hospitalidade. O título é: A Amizade é o Sal da Vida. Vejamos:

Jorge Amado e Zélia Gattai foram pessoas agregadoras e, ao longo da vida, formaram uma grande coleção de amigos, vindos de todas as partes do mundo, das mais diferentes origens e ocupações. Muitos desses amigos foram importantes nomes da cultura e do pensamento do século XX. A Casa do Rio Vermelho esteve sempre aberta a eles, numa permanente celebração à alegria de viver e à união entre as pessoas. 

Uma obra de arte na apresentação da casa.

O terceiro quadro nos apresenta a Bahia. Ele tem mesmo esse título. A Bahia de Jorge Amado. Nele lemos:

A Bahia de Jorge Amado é a terra da mistura e da mestiçagem. É preta, parda, índia, branca. É a terra da diversidade e da convivência de diferentes crenças e religiões. É também terra violenta e desigual, com seus coronéis, jagunços e pistoleiros; seus heróis do povo, suas mulheres guerreiras. É a terra dos sabores e cheiros, da dança, do suor, dos amores cheirando a sexo, cravo e canela. Terra habitada por uma gente que, mesmo na pobreza e na adversidade, sabe dar valor à vida, em tudo o que ela significa de luz e alegria. E eu acrescento: Por toda essa sua diversidade, ela é terra para múltiplas aprendizagens. Não se aprende com o eco da própria voz.

Com o quarto quadro, rendo um tributo a Jorge Amado, pela sua luta em favor da Liberdade Religiosa. Foi dele, na qualidade de deputado constituinte, a inscrição em nossa Constituição de 1946 do artigo sobre esta liberdade e que depois nunca mais deixou de constar nas Constituições posteriores. Ela tem por título: Jorge e o Candomblé.

Jorge Amado também cultivava seus santos de admiração.

Depois que foi apresentado à magia do candomblé, aos 15 anos de idade, Jorge Amado se tornou frequentador assíduo dos terreiros. Filho de Oxóssi, foi amigo das grandes mães de santo de Salvador e lutou de forma incansável contra a violência e a intolerância e a favor da liberdade religiosa no Brasil. Essa luta de uma vida inteira transformou Jorge Amado em um dos mais importantes defensores do candomblé e da cultura negra na Bahia.

Devo ainda registrar que na saída passando pela lojinha que vende os livros do casal de escritores, além de lembrancinhas, e depois de uma longa conversa com a senhora que toma conta dessa lojinha, fomos por ela agraciados com o livro O Universo de Jorge Amado, um livro distribuído gratuitamente pela Companhia das Letras. Na capa se lê - caderno de leituras. Orientações para o trabalho em sala de aula. Ele também está à venda.

O livro com o qual fomos agraciados.

E, em sua próxima visita a Salvador anote em sua agenda a visita na rua Alagoinha número 33. A senhora da lojinha nos deu o espírito da casa. "Lá no Pelourinho, na Fundação, está a sua obra, mas aqui, na sua casa, está a sua vida". Memorável. Vejamos ainda a resenha do livro da Zélia. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/03/a-casa-do-rio-vermelho-zelia-gattai.html 


sábado, 10 de setembro de 2022

Galinhas. Reflexões de um anarquista sobre a propriedade privada. Rafael Barret.

Encontrei este texto clicando no Google - Biblioteca Terra Livre. Conto "Galinhas". Rafael Barret. Aí aparece este texto maravilhoso, uma produção genial saída de uma mente anarquista. Rafael Barret é espanhol, nascido em Torrelavega no ano de 1876 e que morreu na cidade de Arcachon, na França, em 1910. A sua vida literária foi desenvolvida em terras paraguaias. O autor começa a ter preocupações na vida, e preocupações sérias, quando começou a ter uma propriedade, a propriedade de uma galinha, apenas uma galinha. 

A fonte do texto portanto é a Revista Terra Livre n.° 2. O mordaz e satírico conto diz assim:

Já tem um cachorro intruso.

"Enquanto não possuía mais que minha cama e meus livros, fui feliz. Agora possuo nove galinhas e um galo e minha alma está perturbada. A propriedade me tornou cruel. Sempre que comprava uma galinha, a prendia por dois dias em uma árvore, para impô-la ao meu domicílio, destruindo em sua frágil memória o amor a sua antiga residência. Remendei a cerca do meu quintal, para evitar a evasão das minhas aves e a invasão de raposas de quatro e de dois pés.

Me isolei, fortifiquei minha fronteira, tracei uma linha diabólica entre meu próximo e eu. Dividi a humanidade em duas categorias: eu, dono das minhas galinhas e os demais, que podiam roubá-las. Defini o delito. O mundo para mim se encheu de supostos ladrões e pela primeira vez lancei para  o outro lado da cerca um olhar hostil.

Meu galo era muito jovem. O galo do vizinho saltou a cerca e começou a fazer corte às minhas galinhas e a amargurar a existência do meu galo. Expulsei o intruso a pedradas, mas ele saltava a cerca e voava para a casa do vizinho. Reclamei os ovos e o vizinho me aborreceu. Desde então vi sua cara sobre a cerca, seu olhar inquisidor e hostil, idêntico ao meu. Seus frangos passavam pela cerca e devoravam o milho molhado que deixava para os meu. Os frangos alheios me pareciam criminosos.

Tentando a fuga pela cerca.


Persegui eles e cegado pela raiva, matei um. O vizinho atribuiu uma importância enorme ao atentado. Não quis aceitar uma indenização monetária. Retirou o cadáver do seu frango de modo muito sério e, no lugar de comê-lo, mostrou a seus amigos, começando a circular pelo povo a lenda da minha brutalidade imperialista. Tive que reforçar a cerca, aumentar a vigilância, elevar em uma palavra, meu pressuposto de guerra. O vizinho dispõe de cão disposto a tudo; eu penso em adquirir um revólver.

Onde está a minha tranquilidade? Estou envenenado pela desconfiança e pelo ódio. O espírito do mal se apoderou de mim. Antes era um homem. Agora sou um proprietário".

Ah, esses anarquistas!


segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Escravidão. Volume III. Da independência à Lei Áurea. Laurentino Gomes.

 Como Laurentino Gomes escreveu uma trilogia sobre a escravidão brasileira, antes de fazer a resenha do terceiro volume, apresento o link da resenha dos volumes I e II, já feitas nesse blog.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/03/escravidao-volume-1-laurentino-gomes.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/10/escravidao-volume-ii-laurentino-gomes.html

O terceiro volume da trilogia Escravidão. Globo Livros. 2022.

Apresento também os subtítulos dos três volumes. O título geral é Escravidão. O subtítulo do volume I é Do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares, o do volume II é Da corrida do ouro em Minas Gerais até a chegada da corte de dom João ao Brasil e o do volume III é Da Independência do Brasil à Lei Áurea. O terceiro volume é o mais volumoso deles. São quase 600 páginas de muito conteúdo. Ao todo, a soma dos três volumes atinge praticamente 1500 páginas, passando pelo tráfico, pela análise do sistema da escravidão, até a abolição, que, de fato não existiu. A desigualdade pela qual o Brasil passa ainda nos dias de hoje é um reflexo de que no Brasil pode ter havido um processo de  abolição da escravidão, mas não a sua obra, usando uma afirmação de Joaquim Nabuco.

O terceiro volume está estruturado em 29 capítulos e, conforme o subtítulo nos indica, ele faz a abordagem desde os tempos da independência até a abolição, de 1822 a 1888, portanto. A proclamação da independência, nada significou para a população brasileira escravizada. José Bonifácio era praticamente uma voz solitária na abordagem dessa  questão nessa época. Como os títulos dos capítulos são curtos, eu os apresento. Depois vou me deter em alguns deles.

Cap. I. Folguedos da libertação (um panorama geral do período); cap. II. O comendador (Sousa Breves, um símbolo da escravidão nesse período, já dominado pela lavoura cafeeira no vale do rio Paraíba); cap. III. Os esquecidos (por óbvio, os escravizados, não atingidos pela independência); cap. IV. Para inglês ver (a lei de 1831 que aboliu o tráfico negreiro, assinado junto a Inglaterra); cap. V. Hipocrisia (as relações comerciais com a Inglaterra, sem levar em conta a lei de 1831); cap. VI. Honoráveis beneméritos (traficantes benfeitores da humanidade e cidadãos exemplares); cap. VII. Barões e fidalgos (a distribuição de comendas da nobreza no vale do Paraíba, o coração escravista ao longo do século XIX).

Capítulo VIII. O Império escravista (O cotidiano escravista nas fazendas de café do vale do Paraíba); cap. IX. Vende-se, compra-se, aluga-se (Trabalho desumanizante, as diferentes formas de escravidão. Escravos de ganho, de aluguel, amas de leite, além de outras formas ainda menos dignas. Aborda também a questão de uma linguagem escravista); cap. X. O Valongo (o centro de comercialização dos escravizados no Rio de Janeiro); cap. XI. A testemunha (A história da escravidão é contada por brancos); cap. XII. O amigo do rei (os traficantes africanos, amigos dos reis - enquanto houver comprador, nós venderemos); cap. XIII. Nã Agotimé (A escravização de nobres e de reis africanos).

Capítulo XIV. Angola, frente e verso (As dores de Angola - o comércio de escravos); cap. XV. Medo, morte e repressão (24 de janeiro de 1835, a rebelião dos malês); cap. XVI. Manual do cativeiro (sob o princípio de que - quem se diverte não conspira. Como lidar com os escravizados para não chicotear 24 horas por dia. A dosagem entre a severidade e a "brandura", para evitar as rebeliões); cap. XVII. Na mira dos canhões (dos canhões ingleses. Lei Eusébio de Queirós - abolição do tráfico - 1850);  cap. XVIII. No limbo (Como eram tratados os ex escravizados, os alforriados. O tratamento dado aos lanceiros negros na Revolução dos Farroupilha); cap. XIX. Apogeu e queda (depois de 1870, ao término da Guerra do Paraguai, os alicerces da monarquia começam a tremer. Lei do Ventre Livre e Sexagenários). 

Capítulo XX. Os abolicionistas (Os radicais e os do interior do sistema); cap. XXI. O precursor (Luiz Gama, o famoso e temido Dr. Gama). cap. XXII. A conversão (Fatos marcantes que levaram ao abolicionismo: Luiz Gama, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e André Rebouças); cap. XXIII. Terra da luz (Ceará e Amazonas - os estados precursores da abolição. A lavoura cafeeira como polo de resistência); cap. XXIV. Reação (As resistências à abolição. A sedimentação de ódios e preconceitos); XXV. Aliança escravocrata (A vinda ao Brasil dos escravocratas confederados dos Estados Unidos); XXVI. Maré Branca (As teorias do branqueamento. O latifúndio permanece intocado. 1850 e a lei da terra no Brasil. 1862 e o Homestead Act nos USA).

Capítulo XXVII. Pânico (o clima pré emancipação. As rebeliões escravas e a aliança com os abolicionistas); cap. XXVIII. Isabel (Sua fragilidade. A agonia do império. José do Patrocínio e o título de Isabel - A Redentora. O 13 de maio X 20 de novembro); cap. XXIX. O dia seguinte (Da euforia à depressão. As favelas. A manutenção da brutal desigualdade).

Laurentino Gomes deu também três entrevistas ao Programa Roda Viva da TV Cultura de São Paulo. Recomendo muito assistir ao terceiro, sobre o terceiro volume. O ponto alto da entrevista é o relato sobre as transformações pessoais por ele sofridas ao longo da escrita da obra, transformações de vida, do modo de vê-la ao adquirir uma maior compreensão do nosso processo histórico. Quanto ao livro, ele é maravilhoso do começo ao fim, mas eu anotei alguns capítulos em particular, como os de número IX XV e XVI, XXII, XXV e XXVI.

Do capítulo IX, destaco a questão da linguagem. A linguagem é um importante passo para aquilo que hoje se chama de racismo estrutural. Do XV, o destaque se dá em função da revolta dos malês, na Bahia, em 1835, um capítulo pouco estudado em nossos livros escolares. Para mim o capítulo que mais me chamou a atenção foi o de número XVI. Os escravagistas chegaram a escrever um manual de como deveriam tratar os escravizados para que eles não se rebelassem. Tentaram construir uma espécie de hegemonia, para não usarem permanentemente a violência do chicote, o das chibatadas e açoites. Castigo em demasia, embrutece e o embrutecimento tem consequências imprevisíveis.

O destaque do capítulo XXIV é para a presença dos escravocratas confederados, que depois da Guerra da Secessão vieram se estabelecer aqui no Brasil, para continuarem a usufruir do sistema da escravização. Tentaram em vários lugares, mas os maiores êxitos estão relacionados à região de Americana em São Paulo. O destaque para o capítulo XXVI vai para a questão da terra, da reforma agrária. Que oportunidade perdida! Joaquim Nabuco e André Rebouças tiveram uma grande visão relativa a essa questão.

Enfim, a minha recomendação para a leitura do livro. Este terceiro volume vai para muito além da escravidão. Ele é um belo livro sobre o Segundo Reinado, a queda da monarquia e a instauração de uma República, nada republicana. Além disso é uma obra completa, não definitiva. Ele fornece as informações, os fatos históricos e os referenciais de análise também são excelentes, basta conferir a bibliografia usada  nesses seus livros. Super recomendo, especialmente quando completamos 200 anos de independência e o Brasil parece tentar não lembrar de sua história, ao não promover debates sobre a efeméride. Estaríamos praticando um historicídio, como denunciaram alguns historiadores, em texto do dia 03.09.2022 na Folha de S.Paulo.  

Deixo ainda o segundo parágrafo da orelha da capa do Livro: "A escravidão era, na definição de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, 'um cancro que contaminava e roía as entranhas da sociedade brasileira'. Disseminado por todo o território, o escravismo perpassava todas as atividades e todas as classes sociais. Ricos e pobres, fazendeiros, comerciantes e profissionais urbanos, instituições públicas e privadas, ordens religiosas, bispos e padres, brancos, mestiços e mesmo negros libertos - todos, indistintamente, eram donos de escravos ou almejavam sê-lo. Maior território escravista da América em 1822, o Brasil assim se manteria até o final do século XIX, com sua rotina pautada pelo chicote e pela violência contra homens e mulheres escravizados".


sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito!

Não poderia deixar de fazer a minha parte diante deste importante documento documento para a história brasileira. Contribuir com a sua divulgação. Tomei a carta diretamente do site da Universidade de São Paulo. Por óbvio, o documento não precisa de comentários. Hoje é 12 de agosto e gostaria apenas de destacar a enorme repercussão que ele teve no dia de ontem, 11 de agosto, um dia especial para o direito, com a criação dos primeiros cursos no Brasil. A carta já tem mais de um milhão de assinaturas. Um documento que fará história. Parabéns a todos os democratas envolvidos.

Atenas. Cidade símbolo da democracia. Foto de minha autoria.

Em agosto de 1977, em meio às comemorações do sesquicentenário de fundação dos Cursos Jurídicos no País, o professor Goffredo da Silva Telles Junior, mestre de todos nós, no território livre do Largo de São Francisco, leu a Carta aos Brasileiros, na qual denunciava a ilegitimidade do então governo militar e o estado de exceção em que vivíamos. Conclamava também o restabelecimento do estado de direito e a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte.

 

A semente plantada rendeu frutos. O Brasil superou a ditadura militar. A Assembleia Nacional Constituinte resgatou a legitimidade de nossas instituições, restabelecendo o estado democrático de direito com a prevalência do respeito aos direitos fundamentais.

 

Temos os poderes da República, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, todos independentes, autônomos e com o compromisso de respeitar e zelar pela observância do pacto maior, a Constituição Federal.

 

Sob o manto da Constituição Federal de 1988, prestes a completar seu 34º aniversário, passamos por eleições livres e periódicas, nas quais o debate político sobre os projetos para país sempre foi democrático, cabendo a decisão final à soberania popular.

 

A lição de Goffredo está estampada em nossa Constituição “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de seus representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.

 

Nossas eleições com o processo eletrônico de apuração têm servido de exemplo no mundo. Tivemos várias alternâncias de poder com respeito aos resultados das urnas e transição republicana de governo. As urnas eletrônicas revelaram-se seguras e confiáveis, assim como a Justiça Eleitoral.

 

Nossa democracia cresceu e amadureceu, mas muito ainda há de ser feito. Vivemos em país de profundas desigualdades sociais, com carências em serviços públicos essenciais, como saúde, educação, habitação e segurança pública. Temos muito a caminhar no desenvolvimento das nossas potencialidades econômicas de forma sustentável. O Estado apresenta-se ineficiente diante dos seus inúmeros desafios. Pleitos por maior respeito e igualdade de condições em matéria de raça, gênero e orientação sexual ainda estão longe de ser atendidos com a devida plenitude.

 

Nos próximos dias, em meio a estes desafios, teremos o início da campanha eleitoral para a renovação dos mandatos dos legislativos e executivos estaduais e federais. Neste momento, deveríamos ter o ápice da democracia com a disputa entre os vários projetos políticos visando convencer o eleitorado da melhor proposta para os rumos do país nos próximos anos.

 

Ao invés de uma festa cívica, estamos passando por momento de imenso perigo para a normalidade democrática, risco às instituições da República e insinuações de desacato ao resultado das eleições.

 

Ataques infundados e desacompanhados de provas questionam a lisura do processo eleitoral e o estado democrático de direito tão duramente conquistado pela sociedade brasileira. São intoleráveis as ameaças aos demais poderes e setores da sociedade civil e a incitação à violência e à ruptura da ordem constitucional.

 

Assistimos recentemente a desvarios autoritários que puseram em risco a secular democracia norte-americana. Lá as tentativas de desestabilizar a democracia e a confiança do povo na lisura das eleições não tiveram êxito, aqui também não terão.

 

Nossa consciência cívica é muito maior do que imaginam os adversários da democracia. Sabemos deixar ao lado divergências menores em prol de algo muito maior, a defesa da ordem democrática.

 

Imbuídos do espírito cívico que lastreou a Carta aos Brasileiros de 1977 e reunidos no mesmo território livre do Largo de São Francisco, independentemente da preferência eleitoral ou partidária de cada um, clamamos as brasileiras e brasileiros a ficarem alertas na defesa da democracia e do respeito ao resultado das eleições.

 

No Brasil atual não há mais espaço para retrocessos autoritários. Ditadura e tortura pertencem ao passado. A solução dos imensos desafios da sociedade brasileira passa necessariamente pelo respeito ao resultado das eleições.

 

Em vigília cívica contra as tentativas de rupturas, bradamos de forma uníssona:

 

Estado Democrático de Direito Sempre!!!!

 

Faça parte dessa história. Assine a Carta.

 

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Porto Feliz - Mondaí. O centenário da colonização (1922-2022).

Esta é a segunda vez que a cidade de Mondaí comparece no meu blog. A primeira, foi com o livro Um novo lar na imensidão da mata, que relata as memórias da família Ramminger, que chegava em Porto Feliz, o nome de então, da hoje cidade de Mondaí, no ano de 1922. O livro, da editora Oikos, publicado no ano 2020, é organizado pelo historiador Leandro Mayer. O livro é simplesmente a saga de uma família pioneira. Deixo o link da resenha. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/07/um-novo-lar-na-imensidao-da-mata.html

Agora é a vez de outro livro, Porto Feliz - Mondaí. O centenário da colonização (1922-2022). O livro, da editora Schreiben é organizado também por um historiador, Douglas Orestes Franzen. Mas, poderiam me perguntar, por que eu alimento esse interesse por esta cidade? A resposta é simples. Dois motivos me movem para isso. Em primeiro lugar, eu tenho um irmão que mora na cidade e que mandou esses livros e, em segundo lugar, porque a nossa família tem muito a ver com toda a história relatada nesse maravilhoso livro. A nossa família é de origem alemã. E Porto Feliz- Mondaí é uma cidade de origem alemã. Basicamente ela foi colonizada pelos colonos pioneiros, que aportaram em São Leopoldo, há quase 200 anos, no já longínquo ano de 1824, na cidade gaúcha de São Leopoldo.


Porto Feliz - Mondaí. O centenário da colonização (1922-2022). Ed. Schreiben. 2022. Livro organizado por Douglas Orestes Franzen.

O meu irmão Hédio José Rech, de certa forma também é um pioneiro nesse extremo oeste catarinense, para onde foi nos idos da década de 1960. Foi para ser professor e se estabeleceu, depois de algumas andanças, na comunidade de Catres. Hoje mora na cidade. Ele foi recrutado para ser professor e também passou por inúmeras dificuldades até ser formalmente contratado como professor pelo estado de Santa Catarina. A nossa família é natural de Harmonia, que na época era o terceiro distrito de Montenegro. Já visitei o meu irmão em várias oportunidades. Eis a minha relação com a cidade. Também me move a satisfação de colaborar, por mínimo que seja, com a divulgação desse valioso livro. 

O livro tem um valor inestimável. Livro de preservação de memória. Ele deve ter dado um bom
trabalho ao seu organizador, pois diferentes pesquisadores fazem as mais diferentes abordagens relativas ao histórico desenvolvido ao longo dos cem anos da história de Mondaí. Ao longo de 361 páginas são desenvolvidos os principais fatos históricos e culturais do município, junto com um rico acervo bibliográfico acompanhado de fotografias históricas coletadas junto às famílias dos pioneiros ou retiradas ou de um museu existente na cidade, o  Museu Pastor Karl Ramminger.

Donde vieram os pioneiros? A maioria veio das antigas colônias alemãs do Rio Grande do Sul, das colônias originárias de São Leopoldo e São José do Hortêncio, da década de 1820. As terras ao longo dos vales dos rios Sinos, Caí, Taquari, começam a ficar escassas, para os numerosos filhos que as famílias geralmente tinham. Novas fronteiras precisavam ser buscadas. É nesse contexto que é ocupada a fronteira oeste do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná. Trago bem presente na memória esse fenômeno que eu vivi na minha infância nos anos 1950. Sempre havia vizinhos de partida.

Especificamente a colonização de Porto Feliz-Mondaí se deu a partir da cidade de Panambi (Neu-Wittemberg). Ali tinha sede a companhia colonizadora Chapecó-Peperi, que estendeu os seus laços comerciais para além do rio Uruguai, nas terras catarinenses. A cidade de Panambi, historicamente tem a ver com a religião protestante, influência que foi levada para a nova colônia do então Porto Feliz. Isso tudo é bem contado ao longo do livro. Lá em Harmonia, onde só havia católicos, junto com Bom Princípio e Tupandi, lembro que se falava mais de Porto Novo, atual Itapiranga, para onde foram direcionados as famílias dos católicos. Coisas da colonização. Hoje o espírito ecumênico prevalece. O tempo aproximou os credos e todos convivem harmoniosamente.

Outros pioneiros vieram diretamente da Europa e de maneira toda especial, da Alemanha, que vivia os problemas do pós Primeira Guerra. Um fato interessante é que vários migrantes também vieram da Bessarábia (Romênia), país do qual não temos tantos imigrantes. O rio Uruguai foi fundamental nessa nova frente de colonização. Era a grande via desses tempos de pioneirismo. 

A ocupação como demarcação de fronteiras também teve importância nessa história de povoação do extremo oeste catarinense. Chapecó era até então a última fronteira e o município mãe de toda essa região. As fronteiras que deveriam ser demarcadas eram as que dividiam o Paraná com Santa Catarina (Pós guerra do Contestado - 1912-1916) e  entre o Brasil e a Argentina. 

Três fatos históricos mereceram de minha parte maior atenção. O primeiro deles foi a passagem por ali, no ano de 1925, da Coluna Prestes, que gerou grande pânico entre os colonos. O outro fato foi a crise sanitária decorrente dos animais mortos pela passagem da Coluna e a contaminação provocada, que resultou numa grave epidemia de tifo, que vitimou muitos colonos. Creio que dá perfeitamente para imaginar o tamanho da tragédia, agravada pela total falta de recursos, em todos os sentidos. Mas, com certeza o fato mais significativo, foi o que aconteceu nos anos 1930 e agravada ao longo do Estado Novo (1937-1945), com a ditadura de Getúlio Vargas. O Brasil entra na Segunda Guerra, declarando guerra a Alemanha. O alemão passa a ser língua proibida. É inimaginável a violência que se estabeleceu na região por causa desse problema. Muitas prisões e torturas aconteceram nesses pacatos locais. Quem minimamente conhece essas  colônias alemãs sabe, que ainda hoje, a língua mais falada e preferida continua sendo o alemão. Esse período recebeu a denominação de nacionalização.

Outro fato que me  chamou bastante atenção foi o do interesse da cidade com a preservação de sua memória e de seus marcos culturais. Creio que as universidades das grandes cidades mais próximas, como Chapecó e Passo Fundo tem bastante a ver com isso, e isso é muito bom.

Por tudo isso eu mais do que recomendo a leitura e, para dar um melhor panorama do livro ainda deixo a síntese  apresentada na orelha da capa e contracapa. Vejamos: A fundação de Porto Feliz. "Pode-se considerar como data de fundação de Porto Feliz o dia 20 de maio de 1922 que ao mesmo tempo marca o início da colonização do extremo oeste de Santa Catarina.

Nesse dia, Faulhaber, na qualidade de diretor da Empresa Chapecó-Peperi Ltda., pisou as terras da nova colônia para determinar o local de sua sede.

O diretor Faulhaber partiu de Nonoai na pequena lancha a motor de Camilo Picou. Seguiu Uruguai abaixo acompanhado por seus homens de confiança, os colonos Jacob Schüler e Friedrich Forbrig, de Neu-Württemberg, assim como o agrimensor Victor Alberto Webering e o comerciante Francisco Martins, de Palmeira. 

Na foz do primeiro ribeirão, abaixo do rio das Antas, havia, no alto do barranco, um rancho abandonado por balseiros. Em frente, ao lado riograndense, vivia um único morador, Ernesto Scherer. Era apaixonado caçador e já havia percorrido as matas de ambas as margens do Uruguai. Podia assim, fornecer informações preciosas.

O diretor Faulhaber decidiu-se, após dois dias de minuciosas verificações, pelo amplo vale localizado, às margens do ribeirão Capivara, fixando juntamente com o agrimensor Webering, os limites da futura povoação: desde a foz do rio das Antas no Uruguai até a embocadura do ribeirão Laju e, seguindo pela margem do rio, em direção ao sul, até a foz do riacho que deságua no Uruguai diante da ilha do Pão de Açúcar.

Juntamente com Jacob Schüler, o mestre carpinteiro, foi determinado o local para a construção do primeiro prédio da administração, situado próximo ao porto. Uma pequena elevação rio abaixo, foi escolhida para a edificação do primeiro barracão de imigrantes.

Faulhaber sugeriu que a futura sede fosse denominada "Porto Feliz", sugestão que, alguns dias depois, foi aprovada em Carazinho em reunião dos demais sócios da empresa colonizadora". (Koelln, 1980, p.20). Trata-se portanto de uma citação do livro de KOELLN, Arno. Porto Feliz: a história de uma colonização as margens do rio Uruguai. Mondaí. Improeste. 1980.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Um banquete no trópico. 36. Os índios e a civilização. Darcy Ribeiro.

Este é o trigésimo sexto e último trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da análise de João Pacheco de Oliveira, antropólogo do Museu Nacional - da Universidade Federal do Rio de Janeiro, de Os índios e a civilização, de Darcy Ribeiro. A resenha encontra-se em Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, volume II, nas páginas 403 - 422, livro organizado por Lourenço Dantas Mota. O conceito fundamental do livro é o de transfiguração étnica e a sua primeira publicação data do ano de 1970. Esse conceito está explicitado no subtítulo - a integração das populações indígenas no Brasil moderno.

Trigésima sexta resenha. A última. Volume II. Os índios e a civilização.

João Pacheco inicia a sua resenha falando que Darcy escreveu este livro tendo presente duas lealdades fundamentais: com a seriedade do trabalho científico e com uma profunda vinculação humana com as populações indígenas, com as suas diversidades socioculturais, com a sua penosa integração social e com o destino trágico de suas micro etnias. A sua segunda lealdade confere ao livro um grave tom de indignação e de denúncia.

O resenhista situa o livro como "escrito em linguagem simples e direta, despreocupado em exibir racionalidades ou uma erudição sufocante, tornando explícito seu comprometimento com as populações que estuda, Os índios e a civilização constitui um leitura útil e fascinante mesmo para o leitor comum. Sua carga informativa não é excessiva nem desvinculada dos conceitos que possibilitam compreender qual é e como foi gerada a condição presente das populações indígenas brasileiras, bem como a significação dos mecanismos e políticas acionados por diversos agentes para resolver a questão indígena". Ainda o situa ao lado das grandes interpretações de Brasil como Casa-Grande&Senzala Raízes do Brasil. Entra também nas grandes polêmicas da época, a respeito da integração ou desaparecimento dessas populações.

Afirma a característica da miscigenação como uma das marcas da população brasileira, destacando a presença da mulher indígena no primeiro século de colonização. Não havia praticamente mulheres brancas ou negras. Também apresenta dados históricos como a das tentativas da escravização, o isolamento e as constantes investidas coloniais na expansão da pecuária, das lavouras e de atividades extrativistas e mineradoras, com grandes perdas de núcleos tribais, populacionais e socioculturais. As tendências apontavam para a extinção ou para a adaptação. Apresenta os dados de Julian Stewart, de que no ano de 1500 havia no Brasil 1,1 milhão de indígenas e em 1948, apenas 50 mil, e que, entre 1500 e 1957 houve o desaparecimento de 87 etnias. Às etnias sobreviventes seria necessário garantir a sobrevivência. Vejamos o resenhista: 

"Para conseguir sobreviver essas etnias devem responder a desafios urgentes, buscando preservar sua identidade e autonomia étnica, bem como 'assegurar a continuidade de sua vida cultural mediante alterações estratégicas que evitem a desintegração de seu sistema associativo e a desmoralização completa do seu corpo de crenças e valores'. Esse processo adaptativo, que se impõe como imperativo aos grupos indígenas que sobreviveram ao extermínio, faz com que eles permaneçam indígenas 'já não nos seus hábitos e costumes, mas na auto-identificação como povos distintos do brasileiro e vítimas de sua dominação'. É a isso que Darcy Ribeiro chama de 'transfiguração étnica', afirmando que 'o impacto da civilização sobre as populações tribais dá lugar a transfigurações étnicas e não a assimilação plena"'.

Darcy Ribeiro não é apenas um intelectual, um professor ou um escritor. Ele não atua no abstrato. É também um ator. Aprendeu com Rondon, mas foi para muito além dele. Foi Darcy quem deu os fundamentos do indigenismo brasileiro e quem contribuiu decisivamente para a criação do Parque Indígena do Xingu. Além disso, sempre disse um grande não para a neutralidade. Sempre pôs o seu conhecimento a favor das populações indígenas.

O próprio Darcy define o objetivo de seu livro e de seu trabalho. "Alcançar uma compreensão acurada das situações de interação entre índios e frentes de expansão, a fim de chegar a generalizações significativas sobre o processo de mudança cultural". O plano da obra se divide em três partes. A primeira, visa uma visão de conjunto da sociedade indígena e as frentes de expansão agrícola, pastoril e extrativista, formas de expansão arcaica e despótica, que indicavam para a extinção das culturas. Na segunda, ele mostra as formas de integração entre índios e brancos, a etnocêntrica, romântica e absenteísta. Visou a superação das visões extremadas, em favor da igualdade de condições. Historia a fundação (1910) e a atuação do SPI, até a sua extinção, em 1967, mostrando ainda a atuação dos sertanistas. Na terceira parte ele aprofunda a questão das transfigurações étnicas e analisa o destino dos índios no Brasil.

Darcy também tem clareza  da relação que se estabelece entre a ciência e a ética, sendo a sobrevivência física das populações indígenas a sua preocupação maior, frente as ameaças representadas pela frentes expansionistas das fronteiras econômicas, pelas forças de mercado. Analisa os postos indígenas e a atuação dos antropólogos, condenando as transposições mecânicas. Aí volta para o tema da transfiguração étnica, um processo de sucessivas alterações. Ela obedece a quatro níveis diferentes: o ecológico; o biótico; o tecnológico e sócio econômico; o étnico cultural e sócio psicológico. Visou fundamentar um estatuto teórico para os seus trabalhos de preservação da identidade cultural das populações indígenas brasileiras.

Considera que a integração sempre foi uma acomodação penosa e apresenta dados do ano de 1957, com a diminuição da população e desaparecimento de etnias, apelando para sentimentos humanitários contra a tendência de destruição. Assim ele se manifesta, argumentando que "representando apenas um por mil da população brasileira, os índios são hoje quase inexpressivos no conjunto da nação e seus problemas são imponderáveis como problema nacional [...] as terras de que necessitam e a assistência de que carecem lhes podem ser concedidas sem grandes sacrifícios". Hoje ocupam 18,4% do território da Amazônia e 10% do território brasileiro, muitas dessas  terras em áreas de mananciais e de preservação ambiental. Ele ainda aponta para as perspectivas que se ofereciam ao tempo da escrita do livro, assim apresentadas pelo resenhista: "Embora o Estado brasileiro continue a ser responsável em última instância pelo bem-estar e pelo respeito aos direitos dos índios, não mais possui um poder de tutela sobre eles, que se fazem representar por organizações próprias, que já operam com recursos e parcerias múltiplas, mobilizando apoios em muitos níveis de ação". E João Pacheco de Oliveira assim termina a sua resenha:

"Afastando-se dessas posturas divergentes, Darcy aponta para os cientistas brasileiros uma direção original e crítica - a de uma ciência social consciente de seu enraizamento em uma conjuntura histórica específica, preocupada com o exercício da pesquisa empírica e com a elaboração teórica mas compromissada com os grupos sociais mais desfavorecidos. Recusando-se à condição de ideólogo e justificador do status quo, tomando os índios do Brasil e seus problemas como referência, com esse livro Darcy alcançou projeção nacional e internacional, produzindo o mais lido e conhecido estudo sobre os povos e culturas indígenas de nosso país".

Assim chego ao final desse trabalho levando uma certeza. Quem mais aprendeu fui eu. Como gostaria, que ao menos o mundo acadêmico, tivesse a oportunidade da leitura desses verdadeiros clássicos. Apresento ainda o link das cenas finais da vida de Darcy, quando ele recebe a extrema-unção de Leonardo Boff. Seria o que eu chamaria de uma boa morte. Darcy seguramente partiu em paz.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/04/darcy-ribeiro-recebe-extrema-uncao-de.html

E, ainda uma indicação de Antônio Cândido, do que ele considera o melhor livro sobre o tema nos tempos atuais. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/12/indios-no-brasil-historia-direitos-e.html

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Um banquete no trópico. 35. A integração do negro na sociedade de classes. Florestan Fernandes.

Este é o trigésimo quinto trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html 

Trata-se da resenha que Gabriel Cohn, professor do Departamento de Ciência Política da FFCH da Universidade de São Paulo, fez de A integração do negro na sociedade de classes, de Florestan Fernandes. A resenha encontra-se em Introdução ao Brasil - um banquete no trópico, volume II, páginas 385 a 402, livro organizado por Lourenço Dantas Mota. O livro, de dois volumes, aborda essa questão profundamente paradoxal. A integração do negro numa sociedade de classes. A primeira publicação data do ano de 1964.

Florestan Fernandes. No volume II. 

O livro, de dois volumes, O legado da raça branca O limiar de uma nova era, trata da formação de uma sociedade de classes em São Paulo. Trata, portanto, de um dos mais vivos problemas na formação da sociedade brasileira, como o é o da formação de uma sociedade de classes. Limiar de uma nova era era o nome dado ao principal órgão da imprensa negra nesse período. O livro é mais expressão de promessas do que o seu cumprimento, mais de anseios do que sua realização, mais de obstáculos do que trajetos bem sucedidos. Trata de um entrecruzamento de dois graves problemas, o dos ex-escravizados e a formação de uma sociedade de classes. Qual seria o caminho a percorrer? Haveria a abertura de espaços para a integração? Quais seriam as possibilidades de organização e de afirmação como classe?

Não há caminho reto e plano a percorrer. Se houve uma dita "Lei áurea" não houve uma "via áurea" para a efetivação da integração social. O negro deveria se afirmar como negro e como classe. A via, não áurea, o empurrava para o beco. Obstáculos praticamente intransponíveis impediam essa via. A história da sociedade brasileira se defrontava com o dilema de que o passado e o presente comprometiam irremediavelmente o nosso futuro. Mas não era essa a perspectiva da obra. Seria necessária uma mudança qualitativa nas relações. O antigo cativo, agora era um homem negro, membro ativo de uma classe. Sem isso, o dilema se apresentava como insolúvel. Mas como se efetivaria essa mudança? Como pode o antigo cativo afirmar-se como um agente de transformações históricas, liberar as forças antes tolhidas? O negro entra no âmago da história e não à sua margem, nas análises de Florestan. O negro é o povo.

Ao negro coube o pior ponto de partida, de largada, nessa disputa histórica dentro de uma sociedade de classes. Não era mais inteiramente excluído e nem devidamente equipado para a inclusão. Nesse processo era ele o mais vulnerável. Ele move-se em círculos econômicos e políticos fechados que atravessam toda a nossa história, embora, não mais afirmados como tal. Mas esse povo quer emergir da história. Era a parte mais penalizada e a integração não se daria como um dom, mas como uma tarefa, uma missão. Vejamos uma parte dessa análise, na interpretação do resenhista:

'"O ainda, aqui e o agora formaram o objeto de nossas indagações', esclarece o autor na apresentação da obra. Por isso, acrescenta, 'a constelação social constituída pela ordem social competitiva impôs-se como sistema de referência inevitável nas descrições e interpretações'. Repare-se que o foco da análise não é um tipo de sociedade. Este somente é a referência básica (mesmo que o autor explicitamente não vê razão para crer que, tal como se apresenta, essa sociedade pudesse proporcionar 'as soluções efetivas para o dilema racial brasileiro'). Nem mesmo é o negro como categoria social específica, ou nem sequer  as relações entre negros e brancos. O objeto real do estudo é a complexa e tensa dinâmica em que se entrelaçam o presente, o legado do passado e as possibilidades futuras na sociedade brasileira". A identificação de um legado histórico. Ir para além desse legado. Ele contém um fardo e uma promessa. Carga do passado e potência do presente. Um passado de persistência e um futuro como projeção. Os vetores e as linhas de força.

A partir desse ponto o resenhista entra na análise da estrutura da obra, uma obra de 795 páginas. Começa mostrando Florestan e a familiaridade com o tema, a partir de pesquisa realizada junto com Roger Bastide, da qual saiu o livro Brancos e negros em São Paulo. Na continuidade, duas décadas de dedicação ao tema, com enormes avanços especialmente sobre o conceito de "democracia racial", conceito que fundamentava a pesquisa anterior, financiada pela UNESCO. Em uma de suas análises surge um novo personagem, o personagem do povo brasileiro e este povo brasileiro era formado por negros. Do conceito de "democracia racial" ele evolui para o conceito mais amplo de uma democracia em toda a sociedade. E esta democracia tem obstáculos estruturais e de resistências muito fortes para que ela se concretizasse em todas as suas dimensões, a começar pela política. A partir daí apresenta o conteúdo e a forma dos dois volumes de sua obra.

A primeira é mais teórica. Fundamenta-se na coleta de dados retirados de livros, jornais, artigos e relatórios e a segunda consta da análise da pesquisa de campo. O resenhista apresenta alguns dados que considera mais relevantes, como a questão do legado da raça branca, título do primeiro volume. Os brancos viram-se livres de seus escravos, mais do que estes ganharam a sua liberdade. O foco é a cidade de São Paulo e a grande perspectiva é a de como os escravizados, agora livres, reuniam condições de sobrevivência numa sociedade de classes, competitiva, portanto. Para agravar a sua situação somavam-se às condições que traziam da escravidão, a concorrência sofrida com a chegada maciça da vinda de imigrantes europeus. Teriam que disputar os mesmos espaços. O resenhista assim procura interpretar o autor:

"Confrontados com experiências como a do contrato de trabalho eram levados a interpretá-las sob um critério rígido: nada que lembrasse as condições anteriores era aceitável, sobretudo quando estavam envolvidas restrições a uma liberdade percebida de modo difuso. Viam-se, assim, em situações em que o próprio modo como traduziam seu empenho na integração social voltava-se contra eles. Mesmo quando buscavam absorver uma exigência do novo modo de vida, como a ambição por riqueza e o avanço social, o faziam de maneira desastrosa. Essa ambição existia, mas foi 'exatamente a causa de sua perda, pois fomentou opções extremamente rígidas e negativas', comenta o autor. Nessas condições, 'a sociedade de classes torna-se uma miragem, que não lhe abre de pronto nenhuma via de redenção coletiva'. Nessa etapa inicial [...] a liberdade apresenta-se para o povo negro de modo ainda ambivalente, como exigência radical e também como fonte de frustrações. Mas, comenta o autor, 'para expurgar-se de uma herança cultural perniciosa e converter-se em homem livre, o 'negro precisava viver em liberdade. Se chegou a usar a liberdade contra si, isso aconteceu, porque não sabia proceder de outro modo..."'.

Eles teriam que cumprir um 'destino humano', com enormes impactos da liberdade sobre a constituição de sua personalidade. O livro ganha uma grande dramaticidade. Faltavam ao negro suportes perceptivos e cognitivos para uma 'boa' organização do comportamento humano. Florestan chega a usar termos que superam o que antes designava por heranças culturais intransponíveis como 'apanhados numa ratoeira'. Ele padecia de carência de técnicas sociais e culturais diante de sua nova situação. Constantemente ouvia expressões como "Aprenda a agir como branco" ou "Aprenda que você não é branco". Enfim, o problema da inserção numa sociedade de classes era um grande problema que se apresentava para toda a sociedade brasileira. E uma grande e grave pergunta. Até aonde vai a lealdade dos brancos nessa tarefa de integração. Afinal, esta integração não se daria no 'fechado mundo dos brancos'? Vejamos esse mundo, na voz do resenhista:

"Nesse sentido, 'a ordem social competitiva emergiu e expandiu-se, completamente, como um autêntico e fechado mundo dos brancos'. Mas uma ordem social simultaneamente competitiva e fechada é uma aberração, uma fonte de dilemas insolúveis. Claro, concordaria Florestan, e poderia acrescentar: é isso mesmo que eu queria mostrar, examinando como se deu e em nome do que persiste. Mas é a aberração em que historicamente nos foi dado viver, na qual a inconformidade negra não tem como vencer, nem como desistir". O resenhista ainda selecionou um parágrafo relativo aos preconceitos raciais. Vejamos:

"Ao mesmo tempo, não obstante, amortecem ou anulam as repercussões das tendências de democratização da riqueza, do prestígio social e do poder na esfera das relações raciais. Descobre-se, assim, uma faceta deveras instrutiva da nossa realidade racial. Ela sugere que assiste razão aos que apontam o Brasil como um caso extremo de tolerância racial. Entretanto, também evidencia o reverso da medalha, infelizmente negligenciado: a tolerância racial não está a serviço da igualdade racial e, por conseguinte, é uma condição neutra em face dos problemas humanos do 'negro', relacionados com a concentração racial da renda, do prestígio social e do poder. Ela se vincula claramente, de fato, à defesa e à perpetuação indefinida do status quo racial, através de efeitos que promovem a preservação indireta das disparidades sociais, que condicionam a subalternização permanente do negro e do mulato. As vítimas do preconceito e da discriminação são encaradas e tratadas, com relativo decoro e civilidade, como pessoas; contudo, como se fossem pela metade. Os seus interesses materiais ou morais não entram na linha de conta. O que importa, imediata e realmente, é a 'paz social', com tudo o que ela representa como fator de estabilidade dos padrões de dominação racial".

Diante dessa afirmação, dois pequenos parágrafos do resenhista como conclusão. "As consequências desse estado de coisas são muito fundas. Na consciência social do 'branco' o 'preconceito de cor' aparece 'como se constituísse uma necessidade maldita'. E, na mais pungente frase do livro: 'O negro prolonga, assim, o destino do escravo'.

Seres humanos pela metade. Necessidade maldita. prolongamento do destino do escravo. Conclusão: é tempo de se promover a Segunda abolição.

Deixo ainda o link da outra obra de Florestan Fernandes. A revolução burguesa no Brasil.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/04/um-banquete-no-tropico-19-revolucao.html 

E como de hábito, o trabalho anterior, Ordem e progresso, de Gilberto Freyre.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/06/um-banquete-no-tropico-34-ordem-e.html


segunda-feira, 25 de julho de 2022

Um banquete no trópico. 34. Ordem e progresso. Gilberto Freyre.

Este é o trigésimo quarto trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da análise feita por Élide Rugai Bastos, professora do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, de Ordem e progresso, de Gilberto Freyre. A resenha encontra-se em  Introdução ao Brasil - um banquete no trópico, volume II, nas páginas 357 a 384, livro organizado por Lourenço Dantas Mota. A primeira edição do livro data de 1959. Trata das transformações ocorridas no Brasil, na transição do Império para a República. A análise alcança, assim, a última década do século XIX e as três primeiras do XX.

No volume II, a resenha de Ordem e progresso.

A primeira observação da resenhista Élide Rugai Bastos sobre Ordem e progresso é relativa a uma observação de Freyre na apresentação: Introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil - 3. Assim ele sugere uma unidade entre os seus três grandes livros. A formação pré nacional e nacional da sociedade brasileira em Casa-Grande&Senzala, a decadência do patriarcado rural até a República em Sobrados e mucambos e a análise da última década do século XIX e as três primeiras do XX, em Ordem e progresso. Os dois primeiros volumes tem o nordeste como cenário, enquanto que o terceiro, já abrange o Brasil inteiro. Segundo a crítica, este terceiro volume não teve o mesmo alcance que os dois anteriores.

A resenhista afirma ser o livro uma resposta à pergunta de como se manteve, na mudança do regime monárquico para o republicano, a organicidade da sociedade e a unidade nacional. De como se manteve a ordem democrática em meio a alterações bastante acentuadas, alterações na linguagem, nas crenças, na moda, na higiene, no sanitarismo, na urbanização, nas instituições e na economia. As diferentes regiões tem também ordem e progresso diferenciados. A base para o livro são entrevistas que Freyre realizou junto a pessoas que viveram as transições. O livro não é basicamente organizado em capítulos, mas em ensaios. O livro mostra também a quase total apatia do povo com relação às mudanças ocorridas. Houve uma adesão sem entusiasmo.

Três teriam sido os fatores responsáveis pelo relativo êxito do novo regime: a manutenção da integridade territorial, a defesa da propriedade e a defesa das liberdades individuais. Nenhuma voz poderosa saiu em defesa da Monarquia. Não éramos ainda um povo, numa definição sociológica. O lema "Ordem e progresso", privilegiava muito mais a ordem do que o progresso. Os nossos maiores revolucionários eram conservadores. Aqui os ventos revolucionários franceses sempre tiveram pouca força. A República representava uma continuidade de nosso passado, tendo o exército como guardião da ordem.

Uma importante parte do livro é dedicada às novas formas de socialização, acompanhando o fenômeno da transição do mundo rural para o urbano. Preserva-se, no entanto, todas as distinções entre a socialização dos meninos e das meninas e os modos europeus se impõem às do mundo rural do passado. Esse fenômeno passa por uma grande mudança em todos os hábitos e costumes. Mudanças também são trazidas pelo fenômeno da industrialização e da imigração. Abrem-se espaços, ainda que pequenos, para a democratização das relações sociais e dos mecanismos de ascensão social. Na educação ocorrem mudanças de método e de conteúdo.

Também merece destaque a observação de que a mudança mais profunda não foi a da Monarquia para a República, mas sim, a da abolição da escravidão, emancipação mais teórica do que prática. Houve também grandes dificuldades de inserção do negro e da mulher nas estruturas sociais em mudança, fator que causou grandes insatisfações, afetando a estabilidade social. O país necessitaria de mudanças mais profundas, as de superfície já não davam conta da manutenção da ordem. A indústria representou a modernização mas relegou a um segundo plano a economia do campo. Houve também toda uma secularização nos valores que regiam a sociedade. A assistência social saiu das instituições de caridade para as mãos do Estado, o que representou um total abandono. A religião perdeu a sua condição de guardiã da moralidade, os costumes se secularizaram e a liberdade religiosa foi ganhando força. Tudo isso como consequência da separação entre Igreja e Estado, no advento da República. A análise ainda passa pela ebulição dos anos 1920. A questão social vai ganhando força e a República passa a viver a sua grande crise, crise de descompasso entre o governo e a sociedade. A modernização foi feita de cima para baixo. Sempre uma modernização conservadora.

Em suma, o livro que não é de fácil leitura, procurou a resposta à pergunta inicialmente feita. Vejamos o parágrafo final da resenha: "A tarefa que Gilberto propõe à sociologia é a resposta à pergunta: como se mantém a organicidade e a unidade nacionais? Vai buscá-la na análise das formas pelas quais se dá a internalização da ordem social, no caso do texto, através do processo de socialização. Aqui reside o grande alcance de seu livro. Mas também o seu limite, o que levou a que se fizessem várias críticas ao trabalho, principalmente na direção de apontar-se a centralidade de sua análise na esfera da cultura, o que o impede de abordar de frente os desafios contidos no projeto emancipatório da modernidade".

Deixo ainda a resenha dos dois livros anteriores. Casa-Grande&Senzala

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/04/um-banquete-no-tropico-10-casa-grande.html

Sobrados e mucambos. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/06/um-banquete-no-tropico-33-sobrados-e.html