sábado, 13 de julho de 2019

Roteiro de uma viagem. 2. Preparativos. Berlim - Praga - Budapeste e Viena. EuropaMundo.

No post anterior publiquei o roteiro de oito dias pela Alemanha Clássica e expus os motivos que me levaram a esta viagem. Hoje complemento a viagem com o roteiro por várias capitais europeias, ou especificando: Berlim, Praga, Budapeste, Bratislava e Viena. É um velho sonho e um mergulho profundo na história. Afinal de contas, não se faz uma viagem tão longa para ficar apenas uma semana. Dou o link do roteiro anterior. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/07/roteiro-de-uma-viagem-1-preparativos.html

Só poderíamos começar por Berlim.

Vamos então para o nosso segundo roteiro:

Primeiro dia: BERLIM.Chegada ao hotel e tempo livre. Já estaremos em Berlim, em virtude do tour anterior. Espero poder dar uma boa saída à noite ou aproveitar alguma sugestão da agência da EuropaMundo.

Segundo dia: BERLIM. Repetiremos o tour. Faremos uma visita panorâmica pela incrível e pujante capital da Alemanha. Conheceremos o centro histórico, a ilha dos museus, o Reichstag, o Portão de Brandemburgo, suas artérias comerciais e seus parques. Conheceremos também o impressionante Memorial do Holocausto e o Museu-memorial do Muro de Berlim. Há ainda sugestões para passeios opcionais, com recomendação especial para Postdam, com seus belos palácios.

Terceiro dia: BERLIM - DRESDEN - PRAGA. Viagem entre bosques até DRESDEN, cidade que, graças ao seu excepcional patrimônio arquitetônico e artístico, transformou-se em um dos principais centros turísticos da Alemanha. Tempo para almoçar e conhecer seus palácios. Posteriormente, saída rumo à República Tcheca. Chegada a PRAGA, à tarde. Visita panorâmica da cidade, uma das mais belas da Europa, onde se destacam: O Castelo, a Praça da Prefeitura e a bela Ponte Carlos. Finalizaremos nosso dia, com um translado noturno ao centro da cidade, onde existem várias cervejarias tradicionais.

Quarto dia: PRAGA. Dia livre. Sugere-se passeio opcional para conhecer a "Praga Artística", visitando: Mala Strana, Menino Jesus de Praga, São Nicolas, cruzeiro pelo rio Moladava, bairro judeu, etc. Estou estudando com muito cuidado. Mas um dia livre em Praga é realmente um sonho. Um adendo. Eu nasci em Harmonia - RS. O padroeiro desta cidade é São João Nepomuceno. É um santo da cidade de Praga, mártir por causa do segredo da confissão.

Quinto dia: PRAGA - LETNICE - GYOR - BUDAPESTE. Saída de Praga no início da manhã. Na região da Morávia, tempo para conhecer os jardins e admirar os castelos de Lednice, declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco. A viagem segue via Eslováquia até a Hungria. Em GYOR, tempo para almoçar e passear pela "cidade dos quatro rios". Continuação até BUDAPESTE, às margens do rio Danúbio e chegada ao meio da tarde. À noite translado incluído ao calçadão, repleto de restaurantes típicos, alguns com música ao vivo.

Sexto dia: BUDAPESTE. Visita panorâmica pelas duas regiões que deram origem ao nome da capital: "BUDA" com seu antigo centro e "PESTE" com suas áreas comerciais. Poderão desfrutar do encanto da cidade do Danúbio. Tarde livre. Várias sugestões de passeios.

Sétimo dia: BUDAPESTE - BRATISLAVA - VIENA. Saída no início da manhã de Budapeste. Tempo para conhecer BRATISLAVA, cidade às margens do rio Danúbio que possui um atrativo centro histórico. Tempo para conhecer a cidade e almoçar. Após o almoço, viagem rumo a VIENA. Na chegada visita panorâmica da cidade com guia local, onde poderá conhecer suas majestosas avenidas, belos palácios e grandes parques. A noite faremos um translado à Praça da Prefeitura, onde você poderá desfrutar de sua iluminação e da atividade noturna das ruas vizinhas.

Oitavo dia: VIENA. Dia livre na capital austríaca. Poderão desfrutar, sem horário, do encanto dessa charmosa cidade. Tempo para passear e descobrir lugares inesquecíveis. Estudando programas opcionais, ou passeios a pé e a esmo.

Nono dia: VIENA. Após o café da manhã, fim dos nossos serviços. Translado ao aeroporto. Volta a São Paulo e Curitiba, via Frankfurt.

Na volta eu conto tudo. Um post para cada dia, enriquecido com muitas fotografias. Até a volta.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Roteiro de uma viagem. 1. Preparativos. Alemanha clássica. EuropaMundo.

Pronto para mais uma viagem. Desta vez, a primeira parte da viagem se destina à Alemanha, a terra dos meus longínquos antepassados. Consta que eles chegaram ao Rio Grande do Sul em 1828 e se estabeleceram na hoje cidade de São José do Hortêncio, a Picada dos Portugueses, ou a portugieserschneis de então. Entre as pessoas mais idosas este nome ainda se preserva. Eles eram oriundos do Hunsrück, região próxima da França. O motivo da vinda foram as guerras napoleônicas. Em 1835, já se defrontaram aqui, com a Revolução Farroupilha. Nunca tiveram vida fácil. A minha cidade natal é a de Harmonia. Em torno de cinco mil habitantes. Sobre esta história deixo um link http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/10/historia-de-sao-jose-do-hortencio.html


Tudo começou em Berlim.

Falo a língua alemã, no dialeto daquela região e daquele tempo, uma vez que, por aqui, ela ficou em estado de isolamento. Depois estudei o alemão clássico, mas a falta de oportunidades para exercê-la faz com eu tenha as naturais dificuldades. A língua portuguesa eu vim aprender, apenas na escola. Já estive na Alemanha em 1995 para a finalidade específica de estudos. Desta vez, apenas passeios. A viagem se divide em duas etapas. A primeira consta de um tour pela Alemanha Clássica, assim denominada pela empresa EuropaMundo, uma empresa espanhola, que recomendo muito. Dou o roteiro:

Primeiro dia: Chegada em BERLIM, via Frankfurt. Chegaremos ao hotel, já a noite, atentos aos recados da recepção para o tour do dia seguinte, na capital, a histórica cidade de Berlim, palco de grandes e tristes acontecimentos ao longo do século XX. 

Segundo dia: BERLIM. Da programação consta o seguinte: Faremos uma visita panorâmica pela incrível e pujante capital da Alemanha. Conheceremos o centro histórico, a ilha dos museus, o Reichstag, o Portão de Brandenburgo, suas artérias comerciais e seus parques. Conheceremos também o impressionante Memorial do Holocausto e o Museu-memorial do Muro de Berlim. Opcionalmente, sugere-se conhecer os arredores de Postdam com seus belos palácios. Pretendo fazer este tour histórico opcional.

Terceiro dia: BERLIM - DRESDEN - BAMBERG - NURENBERG. Lemos o seguinte: Saída rumo a DRESDEN, cidade que está situada junto ao rio Elba e onde se poderá admirar seu palácio. A viagem segue para a Baviera. Chegada em BAMBERG, belíssima cidade cheia de vida. Sugere-se passear pela "Pequena Veneza". Continuação em direção a cidade histórica de Nuremberg, a segunda cidade da Baviera, com longa história, onde se encontrava o Coliseu de Hitler.

Quarto dia: NUREMBERG - LANDSHUT - DACHAU - MUNIQUE. Eis a proposta: O dia de hoje nos prepara  grandes surpresas. Em Kelheim embarcaremos para realizar um rápido cruzeiro pelo vale do Danúbio, na zona das "gargantas do Danúbio". Chegada a KLOSTER WELTENBURG, um belíssimo mosteiro beneditino fundado no ano de 1040. Tempo para visita. Saída rumo a LANDSHUT, uma das cidades mais bonitas da Alemanha. Tempo para almoçar. À tarde, seguiremos para DACHAU, onde visitaremos o museu sobre o campo de concentração nazista. À tarde, chegaremos a MUNIQUE, visitaremos o impressionante  recinto da BMW WELT (mundo BMW), moderníssimas instalações de exposições multifuncionais do grupo BMW, a prestigiada  marca de automóveis alemã - depois disso conheceremos o parque onde está localizado o Olympiastadion de grande beleza arquitetônica e onde foram realizados os famosos jogos olímpicos de 1972. Posteriormente disporemos de tempo livre no centro histórico onde você poderá desfrutar das típicas cervejarias. (Será fácil de me encontrar em alguma delas).

Quinto dia: MUNIQUE - FÜSSEN - ROTEMBURGO - FRANKFURT : Entre altos cumes alpinos e belas paisagens, chegamos em FÜSSEN, onde se localiza o castelo de Neuschwainstein, subiremos de ônibus até a Ponte de Maria, onde desfrutaremos de de uma fantástica paisagem a partir de uma pequena ponte localizada entre barrancos, em que você poderá retornar caminhando ou de charrete (não incluído). Seguindo a "Rota romântica", a viagem segue para ROTEMBURGO, cidade cercada de muralhas. Entrada incluída ao belíssimo "Museu de Natal". Continuação até FRANKFURT, capital financeira da Alemanha. (Aí passarei um bom tempo cuidando das minhas múltiplas aplicações financeiras. Um mundo de preocupações).

Sexto dia: FRANKFURT - CRUCERO RHIN - COCHEN - COLÔNIA: Hoje é dia de conhecer o Vale do Reno e Mosela, dois rios históricos e com povoados cheios de encanto. Se fará um pequeno cruzeiro pelo rio Reno, entre os povoados de RUDESHEIM e ST. GOAR.  Sem dúvida, o lugar mais pitoresco do Reno. Posteriormente, tempo para almoçar em COCHEM, às margens do rio Mosela. Conheceremos também o incrível Burg Eltz, castelo medieval cercado de bosques entre montanhas.  Chegada em COLÔNIA prevista para o final da tarde, tempo para passear na ativa área da catedral antes de dar continuidade ao nosso hotel localizado em DUSSELDORF.

Sétimo dia: COLÔNIA - HAMELIN - HANNOVER: Um passeio por DUSSELDORF, cidade às margens do Reno, no centro da região mais industrial da Alemanha (Aí fica a sede da poderosa DGB, a Central Sindical Alemã). Continuaremos rumo a ZOLLVEREIN, um dos pontos mais importantes da "rota europeia da herança industrial", visitaremos seu complexo industrial da mina de carvão, declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Seguiremos para o norte, pararemos em HAMELIN, no norte da Alemanha. Esta cidade se tornou popular devido ao conto folclórico "O Flautista de Hamelin". Após passar pelas "pegadas dos ratos", a viagem continua até HANNOVER. Tempo para conhecer o centro desta importante cidade.

Oitavo dia: HANNOVER - GOSLAR - BERLIM. Tempo livre em HANNOVER, antes de continuar a viagem até GOSLAR, um dos mais belos povoados da Alemanha, com sua arquitetura de madeira, suas muralhas e praças.  Tempo para passear e almoçar. Continuação até BERLIM. Chegada ao meio da tarde. Tempo livre. Fim dos nossos serviços.

Neste dia pernoitaremos em Berlim, para no dia seguinte iniciar um novo tour. Desta vez visitaremos capitais, começando por Berlim e seguindo para Praga, Budapeste, Bratislava e Viena. Dou o roteiro detalhado em outro post. De Viena voltaremos ao Brasil, via Frankfurt.

terça-feira, 9 de julho de 2019

O Último dia de um condenado. Victor Hugo.

Não me lembro bem se cheguei a este livro através de uma recomendação ou por uma propaganda de livraria pelo facebook. O certo é que se trata de um livro de valor extraordinário. Trata-se de O último dia de um condenado, de Victor Hugo. O tema e o autor me levaram à compra. E como é bom ler um clássico. O livro é de 1829 e se constitui num dos maiores libelos contra a pena de morte. Argumentos racionais, morais e emocionais para que o crime público ou o "assassinato judicial" não mais seja cometido.
A bela edição da Estação Liberdade. Dois prefácios que complementam a obra.

Como já citei, o livro apareceu em 1829 e, já neste ano, ele teve três edições e na terceira, teve um prefácio que se tornou famoso. Ele foi escrito em forma de uma pequena peça de teatro, em que os atores se mostram perplexos diante do fato de alguém ser contra a pena de morte. Nestas edições o livro ainda não mostrava a pessoa do famoso escritor. Em 1832 apareceu outro prefácio famoso, desta vez com todas as argumentações contra esta pena, fora dos parâmetros da civilização. 

O livro não é longo. A edição da Estação Liberdade tem exatas 198 páginas, mas nela estão incluídos os dois prefácios e um pequena resenha biográfica do escritor. Ao todo o livro consta de 40 capítulos, sendo que muitos deles não passam de meia página. O crime cometido não é relatado, valendo assim para todos os tipos e circunstâncias em que foi praticado. Por outro lado ele tem um autor e este, embora não nominado, possui família, mulher e uma filha, a pequena Marie. Esta relação ocupa as páginas mais sensíveis do livro.

O enredo se passa em três locais diferentes: primeiro no Bicêtre, que é o local para o qual os condenados são levados após a sentença de condenação. Ali permanecem por seis semanas, até se esgotarem todos os recursos de apelação; o segundo é a da Conciergerie, a ante sala da morte, onde são feitos os últimos preparativos para a morte. Finalmente aparece a praça de La Grève, local onde os condenados são guilhotinados. A guilhotina "humanizou" a morte, fazendo-a durar menos de trinta segundos.

As primeiras reflexões se voltam ao condenado após ele receber a sentença da condenação. Aí começam as reflexões sobre a vida, e uma primeira grande frase de efeito: "Os homens estão todos condenados à morte com direito a sursis indefinidos". Na mente não sai a onipresente sentença: Condenado à morte. Depois os sonhos de vida e de liberdade não lhe saem da mente. Neste local também estavam os condenados as galés. No início preferiu a pena morte aos trabalhados forçados, mas à medida que a morte se aproximava passou a aceitar plenamente a possibilidade da troca da pena. Começa a escrever o diário de seus sofrimentos.

As reflexões mais profundas se dirigem a seus familiares, a mãe, a mulher e a filha. Serão elas as maiores vítimas. Enquanto lê as frases deixadas nas paredes pelos hóspedes que o precederam, pensa na filha, a pequena Marie, de três aninhos. Recebe a sua visita. Ela o chama de senhor. No seu imaginário o pai tinha morrido. Perguntando se não era ele, ela respondeu que não, que o seu era muito mais bonito. A ausência da perspectiva de vida já o tinha feito abandonar os cuidados com o corpo e a barba já estava crescida e desalinhada. E, ainda em sonhos, projeta fugas mirabolantes.

Um encontro muito comovente vai se dar com o padre. Ele o rejeita. Quer ser atendido por um outro padre, não o capelão do cárcere. Este já estava habituado com a morte. Ela já lhe dizia muito pouco. O cotidiano abrandara os seus sentimentos, emoções e afetos. Queria um outro padre, ainda sensível à terrível pena. A visita de um arquiteto, diretor do presídio, o aborrece profundamente. Ele lhe fala sobre as melhoras que passarão a ser introduzidas. Haja sensibilidade. Outro preso lhe pede para que, após a morte, ele volte para ditar os números premiados da loteria. Ele não quer deixar dívidas para seus familiares.

Finalmente chega o estágio final. Aí não são mais contados os dias, mas as horas e os minutos, até chegar a hora fatal. Quatro horas. Os horários precisam ser rigorosamente cumpridos, sem atrasos. Ainda pensa em escrever para Marie, explicando para ela as razões de sua condenação.

Do prefácio de 1832 selecionei uma bela reflexão sobre o espírito punitivo reinante. Aliás, Beccaria já é citado. Mas fiquemos com esta bela reflexão sobre as causas que levam ao crime: "pobres diabos que a fome leva ao furto, e o furto ao resto; crianças deserdadas de uma sociedade madrasta, que a casa de detenção pega aos doze anos, as galés aos dezoito e o cadafalso aos quarenta; desafortunados que com uma escola e uma oficina os senhores poderiam ter tornado bons, morais, úteis, e com os quais não sabem agora o que fazer". Seria uma antevisão de Os miseráveis? 

Me lembrei muito das discussões, ou júris simulados, que se faziam nas faculdades de Direito em torno do tema. Quantos vezes já fui entrevistado ou solicitado a dar referências contra a aplicação da pena! Deixo, assim, aqui esta preciosa referência, junto com uma observação final. Como é bom ler livros escritos por intelectuais, quando os intelectuais efetivamente eram ouvidos. O mundo pós-moderno simplesmente os substituiu por especialistas, que falam, tanto a favor, quanto contra, dependendo da oferta recebida para se manifestar. Dá uma tristeza.

Deixo ainda os últimos parágrafos da orelha do livro: "Em O último condenado, o poeta engaja toda a sua eloquência a serviço dessa causa, demonstrando a injustiça, a ineficácia da pena, a barbárie e os horrores da execução e de suas consequências: "esse homem tem uma família; e então acham o golpe com o qual o degolam fere apenas a ele? Seu pai, sua mãe, seus filhos não sangrarão também? Não? Matando-os, os senhores decapitam toda a família.

Ao mesmo tempo que apresenta técnicas narrativas extremamente avançadas para a época, Victor Hugo nos faz acompanhar as seis últimas semanas de um condenado à morte, desde o tribunal onde foi declarada a sentença capital até o pé do cadafalso.

A polêmica que a obra causou permitiu a sequência de edições (três no ano do lançamento) e o acréscimo de dois prefácios, que trazemos nesta edição. No ano de 1829, com uma paródia em forma  de peça de teatro, Victor Hugo rebate as primeiras críticas à obra. Mas em 1832, o requisitório racional e argumentativo pela abolição da pena de morte é o complemento perfeito à defesa literária e sentimental de seu romance-manifesto.

Por vezes ingênuo em seu papel de reformador social, Victor Hugo é, no entanto, um magistral e eloquente porta-voz da condição humana e de seus direitos". Um monumento de livro.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

A República dos bugres. Ruy Tapioca.

Vou começar com uma frase em epígrafe: "Há duas histórias: a história oficial, mentirosa, que se ensina, a história ad usum Delphini; depois a história secreta, onde estão as verdadeiras causas dos acontecimentos, uma história vergonhosa". Honoré de Balzac, As ilusões perdidas, 3, XXXII. Com certeza, o romance histórico - A República dos bugres, de Ruy Tapioca, pertence ao segundo grupo, aos livros de história secreta, "uma história vergonhosa". Encontramos esta epígrafe na abertura da segunda parte.
"É difícil não escrever sátira". Um grande livro. Muitas risadas e muito latim.

Cheguei ao livro através de uma pergunta do meu amigo, o professor Sebastião Donizete Santarosa, se eu conhecia o livro. Ele estava lendo Os tambores de São Luís, de Josué Montello e um outro professor lhe fez esta pergunta, afirmando que os livros tinham similaridades. Confesso que nunca tinha ouvido falar, nem do livro, nem de seu autor. Consultei a Estante Virtual e quando vi que havia apenas quatro volumes à disposição e com uma diferença exorbitante de preço entre o primeiro e os outros volumes, fui à compra. Em conversa com a professora Cláudia Gruber, ela me contou que este livro fez parte de uma disciplina de mestrado, que focava nos romances históricos. Só passo pela vergonha de dizer que não conhecia nem o escritor e nem o livro, pelo fato de ele pertencer aos livros da "história secreta".

Ao final do livro, à página 530 lemos a seguinte nota: Rio de Janeiro, 5 de fevereiro de 1995 a 16 de junho de 1998". É o tempo que o escritor dedicou à pesquisa e à escrita do livro. Na orelha, lemos outra preciosa informação: "o resultado final é uma alentada contribuição às comemorações dos 500 anos do Brasil". Uma informação dada dentro do espírito irônico do livro. Ele foi editado pela Rocco, em 1999. Sua maior premiação foi o Guimarães Rosa, no ano de 1998, antes, portanto, de sua publicação. Uma outra epígrafe, esta na abertura do livro, nos alerta que "É difícil não escrever sátira", retirada de Juvenal, de seu Sátira I, 30.

Este romance histórico, aliás um longo romance, está dividido em dez partes, sem títulos, mas com frases em epígrafes. Estas partes são divididas em trinta capítulos, também sem títulos, mas com tópicos que indicam a localização e a data do ocorrido. A história começa com a chegada da família real portuguesa ao Brasil e termina com a proclamação da República, pelo doente e monarquista marechal Deodoro da Fonseca. Mas não é só este o período retratado. Existem também os apontamentos do bacharel Viegas de Azevedo, que iniciam com o descobrimento e vão até 1755, ano da vinda do bacharel ao Brasil, em virtude do terremoto que castigara a cidade de Lisboa. A partir desta data ele passa a ser testemunha dos fatos, em notas esparsas e genéricas sobre as peculiaridades da formação do povo brasileiro, ou da "República dos bugres".

É difícil fazer a resenha do livro sem reescrever a longa história narrada. Vou fazê-la através de alguns de seus personagens, seguramente os mais marcantes. Vou centralizar tudo no bacharel Viegas de Azevedo e dois personagens de seu entorno, o negro e ex escravo padre Jacinto Venâncio e seu amigo de infância Quincas, um mestre-escola, que não se tornou padre por ter apelidado um padre de "padre perereca", um ato de indisciplina grave. Quincas viera junto com a corte em fuga e era filho bastardo do príncipe regente e depois imperador Dom João VI. O bacharel é o portador da voz mais ferina.

Todos os fatos da história oficial passam a ser reescritos sob o ponto de vista da história não oficial. Vejam como ele nos apresenta D. Pedro, o nosso libertador, na voz do irreverente bacharel: "Quincas: boa bisca não dará esse libertador da pátria dos negros e dos botocudos, tendo na ascendência um avô senil, uma avó louca, um pai corno e uma mãe puta!". Só com isso já dá para perceber que os personagens preferidos nesta sátira são os da família real. Um fato sempre presente no livro é a guerra do Paraguai. Exalta as qualidades de Osório e Caxias e tripudia D. Pedro II e o Conde d'Eu por não terem oferecido armistício ao Paraguai, preferindo o  covarde massacre de feridos, crianças e mulheres. Na guerra encontraremos o padre Jacinto Venâncio, colega de infância de Quincas, o filho bastardo de D. João VI. É um padre negro, um venerável personagem. Os dois encerram o livro com o seguinte diálogo: "Cá habitamos a terra que é a esperança do mundo. Quincas! Viva a República do Brasil! - exclamou o padre, afagando-me o rosto. Pelas alminhas de quem lá tem, padre! Só se for a República dos Bugres". Está aí a referência ao título.

O tema preferido do bacharel Viegas de Azevedo é a formação do povo brasileiro, oriundo de "três matrizes raciais vagabundas". Apresenta o exército brasileiro como um exército de escravos e que a guerra do Paraguai obedeceu a um ditame de branqueamento do povo brasileiro, com a morte de milhares de negros, despreparados para a guerra. O último episódio é o da proclamação da República, onde um marechal, entre a vida e morte, a proclama em meio a vivas ao Imperador. 

Apresento ainda a contracapa do livro: "Romance histórico, em tom picaresco, A República dos bugres revisita a história do Brasil desde a chegada da família real portuguesa até a Proclamação da República, situando o leitor entre o embrião do futuro Estado monárquico e o embrião da presente ordem republicana.

Fatos históricos relativos à Família Real são apresentados com singeleza através das ações de Quincas, o filho bastardo de João VI, assim como fatos relativos à história da escravidão, Guerra do Paraguai e campanha abolicionista são evocados por meio do padre negro e ex escravo. Ademais, personagens célebres povoam as páginas desse romance e, sem nenhuma afetação, o leitor deparará, entre outras, com Dona Maria I e sua loucura; Carlota Joaquina e seus amantes; Dom João VI e suas indecisões; Pedro I e sua impetuosidade; um oportunista Caxias em início de carreira; Machado de Assis, menino e brilhante aluno de latim do mestre-escola Joaquim Manuel (Quincas); até chegar a Pedro II e ao marechal Deodoro da Fonseca. Todo esse vasto panorama, numa apresentação pouco cerimoniosa dos personagens, que leva o leitor a rir com gosto de inúmeras passagens.

Na atmosfera de celebração dos 500 anos, A República dos bugres propõe uma reflexão crítica e, ao mesmo tempo, muito divertida sobre a formação da sociedade brasileira". Um livro imperdível.

Dois adendos: 1. Sobre a importância da educação no Brasil: "Nunca te esqueças que moras no Brasil: a educação para brasileiro tem a mesma importância que mulher tem para eunuco". Página 455. 2, O mestre escola Quincas falando para um aluno que queria ser escritor: "Todavia, reitero-te minhas preocupações, filho: larga dessa ideia maluca de, no futuro, escrever romances, que isso é coisa para franceses, ingleses e russos. Poderias, isso sim, ser um mestre-escola como eu, ou um vigário como o Jacinto Venâncio, por que não?  Não serias abastado, por certo, longe disso! Mas ganharias o suficiente para uma vida minimamente digna. Viver de escrever livros no Brasil é o mesmo que pintar para cegos, ou tocar música para surdos!... Tira essa doidice da cabeça! - aconselhou-o o mestre Quincas". Páginas 352-3. O menino que queria ser escritor era o Machado de Assis.

domingo, 30 de junho de 2019

História das lutas sociais no Brasil. Everardo Dias.

Lendo A classe média no espelho, de Jessé Souza, encontro a referência ao livro História das lutas sociais no Brasil, de Everardo Dias. outra grande referência apontada pelo Jessé, neste mesmo livro foi Homens livres na ordem escravocrata, de Maria Sylvia de Carvalho Franco. Jessé Souza, além de ele próprio ser uma grande referência, sempre nos remete a outras. O livro de Everardo Dias foi publicado originalmente em 1962. Já o que eu li, é da Editora Alfa-Omega, de 1977. É óbvio, que o título me provocou a busca do livro.
Da Alfa-Omega, de 1977.

O livro, escrito em 1961, é obra de um militante, um gráfico, que trabalhava no jornal Estado de S. Paulo. Esteve, assim, em contato com a mais alta intelectualidade deste país e com os comunistas, de modo particular, de acordo com as suas convicções, história de vida e de lutas. Everardo nasceu em Pontevedra na Espanha, em 1883 (1886 - no livro) e morreu em São Paulo, no ano de 1966. O foco maior de seu livro são os anos da virada do século XIX para o XX e as primeiras três décadas deste. Everardo é o narrador de seus sonhos, desejos e, especialmente, de suas lutas. Sempre protagonista.

Seu livro tem 330 páginas que estão divididas entre - Dados biográficos do autor, uma introdução e três partes, com os seguintes títulos: O Socialismo no Brasil; Organização Trabalhista e Lutas Sindicais e Primeiras Ideias Socialistas no Brasil. A primeira parte consta de 13 capítulos, a segunda, de três e a terceira, de apenas um. Nenhum dos capítulos leva título.

Na primeira parte temos a República e as primeiras frustrações com ela, o que só lhe fazia aumentar o desejo por justiça. São também tempos de forte imigração. Europeus vem, alguns com o sonho burguês do enriquecimento, e outros, com os ideais de justiça, de um socialismo já consolidado. Na organização sindical prevalece o anarco-sindicalismo. Embora as organizações ainda fossem fracas a repressão policial, ao contrário, já era extremamente forte e violenta. Em 1917 surge o grande alento, com a primeira greve geral. Acordos são celebrados. Mas bastou a volta ao trabalho para a violência ser redobrada. Os anos 1920 foram passados sob constante Estado de Sítio, mas também foram anos de muita movimentação. Alento enorme veio junto com a revolução bolchevique na Rússia, de 1917 e com a fundação do PCB no Brasil, em 1922. Chega também o trabalhismo, com a ascensão de Vargas. São estas as principais pinceladas da primeira parte.

Na segunda parte voltam as discussões em torno do marxismo, do socialismo reformista e, ainda, a doutrina dos anarquistas. Como novidade, chegam as ideias trabalhistas e a nomeação do primeiro ministro do trabalho do Brasil. Era Lindolfo Collor, que nada tinha a ver com os trabalhadores. O autor reconhece as conquistas da era Vargas, lembra de muitos aproveitadores e reconhece que a vida das lideranças dos movimentos teve melhoras, tudo se complicando, mais uma vez, com o Estado Novo. Também o cenário internacional merece suas análises. Aí seguem setenta páginas sob forma de enciclopédia, com a narrativa das principais lutas, desde 1798, quando da execução dos quatro líderes da revolta dos alfaiates na Bahia e chegando até 1934. São anotações que sobreviveram a todas as investigações a que o autor sempre esteve submetido. Uma bela narrativa.

Na terceira parte entram em cena os índios e os negros, até aqui ausentes em sua narrativa. Vejamos sobre o indígena: "O elemento proletário indígena, em sua imensa maioria analfabeto e inferiorizado, empregava-se em ocupações secundárias, não se lhe reconhecia valor mesmo que fosse um artista ou perito em algum mister. Podiam, quando muito, achar que era 'habilidoso'". E agora sobre o negro: "Quanto ao negro, saído poucos anos antes da escravidão, tinha apenas a missão de trabalho rude e pesado, tanto na lavoura como nas cidades, era um ser desprezível e humilhado" E arremata: "Esse o panorama do País, por essa década de 90 a 900". Ou seja, de 1890 a 1900.

Vejamos ainda a contra capa do livro: "Everardo Dias, é um dos raros sobreviventes daquela geração que, nas primeiras décadas do século, contribuiu para organizar e dar uma consciência de classe ao jovem proletariado brasileiro que então se formava no país.

Operário ele mesmo, participou da criação de muitas organizações sindicais e políticas do operariado, dirigiu greves, editou jornais e revistas de caráter classista e esteve integrado em todas as lutas políticas e sociais que se verificaram no Brasil, principalmente entre os agitados anos de 1910 e 1930.

Seu nome está hoje profundamente ligado à história das lutas sociais em nosso país. E este livro é a rememoração, aliás, bem documentada, dessas lutas, de que foi testemunha e quase sempre ator de primeira linha.

Preso inúmeras vezes, sempre ligado às massas operárias e consciente de sua posição social e seus deveres de membro da classe operária, ele acumulou um experiência valiosa para as novas gerações.

Autor de vários livros, e dono de um estilo claro e conciso, este seu último trabalho confirma suas qualidades de escritor popular que possui uma vivência e uma mensagem que deve ser acolhida com especial atenção, como valiosa contribuição para o conhecimento da história pátria".




segunda-feira, 24 de junho de 2019

Homens livres na ordem escravocrata. Maria Sylvia de Carvalho Franco.

Ao ler o livro A classe média no espelho, de Jessé Souza, deparo com uma citação de Maria Sylvia de Carvalho Franco. Verificando, nas referências bibliográficas, constatei que se tratava de Homens livres na ordem escravocrata. De imediato o livro me interessou, devido ao tema. Sempre quis aprofundar a questão de como os negros se inseriram na "sociedade livre", após a escravidão. Embora não seja este o tema - e sim, a constituição ou a formação mais geral da sociedade brasileira após a abolição, fiquei muito satisfeito com a sua leitura. Da mesma forma, o livro não se dedica especificamente à questão da imigração, pelos mesmos motivos.
Edição de 1997, da UNESP. A primeira edição foi de 1969.

A vontade da leitura do livro cresceu, ao ver que se tratava originalmente da defesa de tese de doutoramento na USP, no ano de 1964. O livro foi publicado primeiramente pela editora da USP em 1969, passando depois para outras editoras. A edição por mim lida é da UNESP, datada do ano de 1997. O primeiro relato que me impressionou fortemente foi a banca presente na defesa da tese: Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda,  Antônio Cândido de Mello e Souza, Francisco Iglesias e Octávio Ianni. Tremi só de imaginar. Todos intelectuais de primeira linha.

Confesso que não tenho grande afeição pela leitura de teses, em virtude da linguagem acadêmica, que não considero muito agradável devido a muitas amarras, mas a leitura fluiu  e os temas abordados são realmente interessantes. A própria autora situa o teor do seu trabalho: "A pesquisa refere-se à velha civilização do café que, no século XIX, floresceu nas áreas do Rio de Janeiro e de São Paulo pertencentes ao Vale do Paraíba". O foco maior da pesquisa é a cidade de Guaratinguetá. Ela revirou mundos em sua pesquisa. Documentos de cartórios, de câmaras municipais, relatos dos escritores viajantes e por aí vai. 

O livro consta de uma introdução, quatro capítulos, conclusões e uma valiosa preciosidade de referências bibliográficas. A historiografia agradece. Os capítulos tem os seguintes títulos: I. O código do sertão; II. A dominação pessoal; III. O homem comum, a administração e o Estado e IV. O fazendeiro e o seu mundo. Dou também os subtítulos de cada capítulo.

Em O código do sertão temos: 1. Vizinhança: a violência costumeira. 2. Trabalho e lazer: a violência institucionalizada. 3. Parentesco: a violência necessária. 4. Pobreza e individualização: a violência como moralidade. Impressiona como a violência fazia parte do cotidiano e se dava, sempre por motivos fúteis e banais. Os homens livres e pobres eram violentos e valentes. A valentia era o grande valor moral de uma sociedade hierarquizada em todas as suas possibilidades.

Em A dominação pessoal temos: 1. Tropeiros e vendeiros: a abertura do sistema social. 2 Sitiantes: os fundamentos da dominação pessoal. 3. Agregados e camaradas: necessidade e contingência da dominação pessoal. Trata das possibilidades de ascensão social às margens da lavoura cafeeira, como a dos tropeiros, negociadores de cavalos e as famosas vendas que surgiam à beira das estradas, que enriqueciam os seus donos. O foco maior está nas relações sociais que passaram a se estabelecer. Tanto os sitiantes, quanto os agregados e os camaradas vivam na dependência do fazendeiro e as relações teriam de ser "cordiais", senão a violência imperava.

Em O homem comum, a administração e o Estado temos: 1. A herança da pobreza. 2. Patrimônio estatal e propriedade privada. 3. Autoridade oficial e influência pessoal. 4. A construção do futuro e 5. As peias do passado. O público e o privado se confundiam. O poder emanava do proprietário, dono do latifúndio e as relações eram de pura e simples dominação. As condições de vida eram marcadas pela penúria e a alimentação se restringia ao feijão, à farinha, ao toucinho e à carne salgada. A frágil estrutura do Estado estava presente na infraestrutura e o seu poder se confundia com o do latifúndio. Também intervinha nas desavenças, quase sempre marcadas pelos conflitos de terras.

Em O fazendeiro e seu mundo temos: 1. A visão do antepassado. 2. Negócios: padrões costumeiros e práticas capitalistas. 3. Estilo de vida: produção e dispêndio. 4. Diferenciação social e participação na cultura e 5. Declínio. Predominou, neste período, o orgulho herdado dos bandeirantes, marcados pela intrepidez, brutalidade, ganância e impiedade. A truculência e a violência imperavam no cenário. As relações eram estabelecidas entre os fazendeiros, os comissários, os ensacadores e os exportadores. Quase todos os trabalhos de mediação eram feitos pelos comissários. A cultura era extensiva e pouco se ligava para a produtividade. Quem enriquecia permanecia um ser tosco, sem nenhum refinamento, apesar de títulos nobiliárquicos, que começavam a perder o significado. As terras se exauriram e as fronteiras agrícolas atingiram o fértil oeste paulista.

Em suma, na conclusão, a doutora nos apresenta a lavoura cafeeira como uma monocultura associada ao latifúndio e ao autoritarismo, que se tornou possível, primeiro por causa da escravidão e, depois pelo fato de ser uma cultura extensiva, marcada pelo latifúndio e pelas relações de trabalho sempre sob o domínio do poderoso senhor. O único critério de toda esta atividade era o enriquecimento, mesmo sem usufruir dos benefícios por ele trazidos, não impactando sobre o bem estar social e cultural. Permaneciam rudes e toscos. Com o declínio da lavoura cafeeira no vale do Paraíba, outra cultura extensiva tomou conta das terras já exauridas. O gado.

Deixo ainda um comentário, que creio ser próprio como uma conclusão estendida deste trabalho de 1964. É de Jessé Souza que, em seu livro A classe média no espelho afirma ter sido a lavoura cafeeira a cultura embrionária do agronegócio dos dias de hoje. As características das relações sociais permanecem praticamente inalteradas.



segunda-feira, 17 de junho de 2019

A formação escolar e acadêmica das pessoas que integram o "sistema" Justiça.

Como estamos trabalhando, junto a um grupo de educadores, com histórias de vida, privilegiando a percepção de como se formaram para serem profissionais comprometidos e com consciência clara para quem devem ser direcionados os os esforços de seu trabalho, me deparo, em minhas leituras, com um texto maravilhoso do notável jurista Rafael Valim, professor de Direito na PUC de São Paulo. O texto tem por título "O discurso jurídico brasileiro: da farsa ao cinismo. Ele integra o livro Resgatar o Brasil, coordenado por Jessé Souza e Rafael Valim e editado pela Contracorrente e Boitempo. O texto apresenta os passos da formação dos integrantes do sistema Justiça.  Simplesmente apresento o autor como um jurista, em meio a um mundo de operadores do Direito.
A prioridade número um. Um projeto para o país e para o seu povo.

O quadro é de uma ironia profunda, não deixando de constituir também uma bela peça de humor. Ao terminar a apresentação da "formatação" dos membros do sistema, faz as seguintes considerações: "A leitura deste retrato irônico, porém real, de parcela dos integrantes do sistema Justiça brasileiro aponta para a resposta que estamos buscando: é a mediocridade que levou estas pessoas a destruir os direitos fundamentais, a democracia e o patrimônio nacional. Neles não habita qualquer sentimento constitucional". Mas vamos ao "retrato", ressaltando que se trata de uma "parcela":

"... A esta altura muitos devem estar se questionando: o que motivou esta parcela do Judiciário a destruir, a um só tempo, a democracia, os direitos fundamentais e o patrimônio nacional? A resposta a esta pergunta passa por uma rápida descrição, ainda que caricatural, do padrão das pessoas que ocupam os cargos públicos no âmbito da Justiça brasileira.

Branco, nasce no seio da classe média. Os pais, trabalhadores, acreditam piamente na meritocracia, julgam que a pobreza é fruto da preguiça e que política é coisa de bandido. A referência familiar de cultura é o tio que lê todos os dias os jornalões e nos almoços de domingo regurgita, com ar professoral, alguma mentira publicada.

Desde a mais tenra idade, frequenta escolas particulares e logo irrompe o desejo de ir à Disney. Quando chega à "América", constata a superioridade moral do povo estadunidense. Não há corrupção nem pobreza, prevalecem os direitos humanos, os "serviços públicos" funcionam e há armas à vontade. Um paraíso!

Na adolescência, continua a frequentar escolas privadas onde, naturalmente, só convive com pessoas brancas e da mesma classe social. O oceânico conhecimento que passa a amealhar vem das apostilas e de resumos de alguns clássicos da literatura que nele não despertam o mínimo interesse. Já a tocante sensibilidade social começa a aflorar em "projetos" de distribuição de presentes no dia das crianças ou de entrega de cobertores à moradores de rua quando durante o inverno.

Logo se depara com o vestibular. Intensifica-se o uso das apostilas para ingressar, de preferência, em universidade com boa reputação. Não se pode, naturalmente, descartar os temas atuais, também exigidos nas provas, e, por isso, começa a ler uma revista semanal de grande circulação. Um novo mundo se descortina pelas mãos de notáveis jornalistas isentos e comprometidos com a democracia.

Ingressa na Faculdade de Direito. Entre uma festa e outra, começa a ter contato com professores extraordinários, cujas aulas se assemelham às apostilas que liam no Colégio. Uma didática exemplar e nenhuma crítica: uma maravilha! Professores de filosofia ou sociologia são evitados. Para aprofundar os estudos, adquire livros caríssimos em cujos títulos há presença obrigatória de expressões como "esquematizado", "descomplicado", "sistematizado", "resumido". Ora para que complicar?

É também durante a Faculdade de Direito que toma contato com o mercado de trabalho! Afinal, meritocracia é isso: só começar a trabalhar, ainda que como estagiário, aos 21 anos de idade.

No final do curso é confrontado com a realidade do concurso público. Coitado, terá de sofrer novamente agruras que remontam ao período tenebroso do vestibular. Para superar este desafio, matricula-se prontamente em um curso preparatório que oferece técnicas "ninja" de estudos. Dedica-se a memorizar Códigos e devorar, uma vez mais, apostilas com conteúdos sintetizados e questões de múltipla escolha.

O nosso herói não tem vida fácil. Para comprovar a experiência profissional exigida nos concursos públicos, insere o nome nas procurações outorgadas a uma tia que é sócia de um escritório de advocacia. Desta maneira pode, às expensas dos pais, dedicar-se integralmente aos estudos por vários anos até, finalmente, conquistar o tão sonhado cargo público na Justiça brasileira.

Após alguns anos de exercício do cargo, recebe em sua caixa de correio um convite para participar de um curso de formação em uma renomada Universidade estadunidense. Honrado, quase aos prantos, recorda-se dos dias na Disney e da indiscutível superioridade do gênio norte-americano. Apressa-se em aceitar o convite e, na sequência, matricula-se em uma escola de inglês onde poderá não só aprender a língua inglesa, por meio de maravilhosas apostilas, como também fazer uma "imersão" na cultura norte-americana.

Para arrematar esta história de sucesso, um belo dia recebe uma solicitação de entrevista de um jornalista que, coincidentemente havia sido seu "guru" no período de vestibular. Dias depois vê sua foto estampada na capa da revista semanal que outrora lhe servira de guia em matéria de "atualidades". É a consagração!

Deduções e conclusões por sua conta.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Resgatar o Brasil. Jessé Souza e Rafael Valim (coordenadores).

Ao ler o livro de Jessé Souza, A classe média no espelho - sua história, seus sonhos e ilusões, sua realidade, deparei com uma citação de Maria Lúcia Fatorelli. A citação se refere a um texto seu, sob o título de "Sistema da dívida pública: entenda como você é roubado". O texto está inserido no livro organizado por Jessé Souza e Rafael Valim, Resgatar o Brasil. Ela é a Coordenadora Nacional da Auditoria Cidadã da Dívida. Como há muito eu queria ler algo dela, comprei o livro. O tema é explosivo. Segundo Jessé é ela o grande instrumento da corrupção brasileira e é praticada dentro do Banco Central. A corrupção denunciada pela Lava Jato, é por ele considerada como a "corrupção dos tolos", de centavos, perto da real corrupção existente.
A força do pensamento de sete intelectuais brasileiros.
O livro é maravilhoso. Ele pensa o Brasil por inteiro, como um projeto de Nação, com inclusão social e cidadania, através de políticas públicas, para superar nossa perversa formação histórica, oriunda do sistema da escravidão, não superado.Trata fundamentalmente de política, passando necessariamente pela economia. Vários intelectuais brasileiros escreveram os textos, organizados por Jessé Souza e Rafael Valim. Ele foi editado pela Contracorrente e Boitempo em 2018.

Os textos são os seguintes, pela ordem: O engodo do combate à corrupção: ou como imbecilizar pessoas que nasceram inteligentes? de Jessé Souza; Viralatismo em marcha: golpe visa redefinir lugar do Brasil no mundo, de Gilberto Maringoni; O fim da farsa: o fluxo financeiro integrado, de Ladislau Dowbor; Sistema da dívida pública: entenda como você é roubado, de Maria Lucia Fatorelli; Imposto é coisa de pobre, de André Horta; Os grandes negócios que nasceram da cartelização da mídia, de Luis Nassif e O discurso jurídico brasileiro: Da farsa ao cinismo, de Rafael Valim. A maioria dos autores são bem conhecidos de quem, mesmo minimamente, vive informado.

O texto de Jessé retoma os seus livros, A tolice da inteligência brasileira, A elite do atraso e A classe média no espelho.  Vou traçar dois pontos: Somos guiados por ideias e, como estas ideias guia entram em nossas cabeças. O texto responde a estas questões, aplicando-as para o caso brasileiro. Ele parte de um pressuposto que eu sempre defendi, de que é impossível não aprender. Ele diz isto da seguinte forma: "Como sempre, o principal  desafio do conhecimento não é cognitivo. A grande maioria das pessoas pode compreender qualquer coisa dita de modo direto e sem floreios desnecessários. A grande dificuldade humana para aprender qualquer coisa  nova é emocional". O apego por quem colocou estas ideias em nossa cabeça. Me fez lembrar o texto de Kant O que é o esclarecimento? As pessoas não querem aprender. É cômodo ser de menor. Aí ele entra na formação histórica brasileira e nos apresenta a Santíssima Trindade do pensamento viralata conservador, fundado na escravidão: Sérgio Buarque de Holanda é o seu filósofo, Raimundo Faoro, o seu historiador e FHC o seu realizador. Genial, como sempre.

O texto de Gilberto Maringoni se centra no golpe midiático, jurídico e parlamentar de 2016 e, como o seu título enuncia, ele trata das consequências do golpe e da nova inserção do Brasil no mercado global. Esta inserção representa enorme atraso, fazendo o país voltar aos projetos da antiga UDN, de um país submisso e genuflexo na ordem internacional. Relembra a frase de Magalhães Pinto: "O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil". Do texto anotei uma frase inicial: "Em dois anos de golpe e quatro da Operação Lava Jato, foram destruídos ou estão em processo de desnacionalização os setores de construção civil, estaleiros, carne e derivados, energia elétrica, petróleo e indústria da aviação". Mais claro é impossível. É apagar a memória de Vargas, como queria a terceira pessoa da  nada Santa Trindade, apontada pelo Jessé. Outra meta do golpe é a destruição dos direitos garantidos na CLT e na Constituição de 1988. Em outro post eu citava os quatro pilares da frágil cidadania brasileira: a CLT, o nosso sistema educacional, mesmo com toda a sua precariedade e a questão da Seguridade Social, implantada pelo SUS e pela Previdência, na Constituição de 1988. Tudo isso está sendo desmontado. São os temas de Maringoni.

Ladislau Dowbor nos dá a mais óbvia lição de economia, ao falar de seu círculo virtuoso, citando o New Deal e o Brasil de 2003-2013, como exemplos. Este círculo virtuoso também aumenta a arrecadação dos impostos, o que permite a melhora dos salários indiretos, representados pelos serviços públicos. Com esta lição visa combater o chamado nanny state, expressão que, confesso, não conhecia. Mas conheço muito bem os seus malefícios, as políticas de austeridade. Depois passa para análises econômicas, centrando suas críticas às estratosféricas taxas de juros que inviabilizam a nossa economia. Quando Dilma diminuiu a taxa de juros, o sistema financeiro patrocinou o golpe. Como alternativa ao modelo do nanny state, apresenta os modelos da economia alemã, da China e do Canadá. Aqui os créditos chegam a ser 1200% mais caros do que nos países da OCDE..

O texto de Maria Lucia Fatorelli é praticamente uma continuidade do de Dowbor, abordando a questão da dívida pública, paga pelo Estado, e que consome praticamente a metade de todos os impostos arrecadados. A dívida pública é o "veículo do roubo". Em meio ao seu texto aparece uma tabela em que compara a distribuição do arrecadado com uma pizza, cortada em pedaços. A pizza é desproporcionalmente cortada. A dívida pública ganha um pedação, que se destina ao improdutivo sistema financeiro. Não sobra para os serviços públicos. E como a economia se apropriou da categoria moral da palavra dívida, o seu pagamento ganha o caráter religioso de salvação. O Banco Central administra os pagamentos em nome do combate à inflação. Termina mostrando a fundamental contradição brasileira, de tanta pobreza em meio a tanta riqueza.

Com o sugestivo título de que imposto é coisa de pobre, André Horta nos mostra o nosso injusto sistema tributário, ao não aplicar um sistema de progressividade, em que os ricos pagariam mais do que os pobres. Aqui pagamos por igual. Os diferentes em riquezas pagam tributos por igual. A partir daí o texto converge com o de Dowbor, sobre o círculo virtuoso da economia, destacando que o bem estar social é a grande base para impulsionar o crescimento econômico. Algo elementar, que a nossa elite teima em não compreender. Com o sistema tributário progressivo seria possível fazer a revolução social silenciosa, lembrando, para terminar, que os privilégios é que foram a grande causa da Revolução Francesa. E esta, nada silenciosa.

O texto de Luís Nassif, sobre a mídia brasileira, mostra a sua concentração e, ao mesmo tempo, aponta para o surgimento de novas mídias. Como é um texto datado, por óbvio, não entrou na questão que hoje faz ferver o caldeirão político, com as revelações do The Intercept. Cita que hoje o Google já é dono da segunda receita publicitária brasileira. Mas o coração do texto é a concentração, ou a cartelização da mídia, num termo mais apropriado. Todos os meios estão nas mesmas e poucas mãos. Dá um belo panorama histórico do combate à cartelização nos Estados Unidos e apresenta outra perversa característica da mídia brasileira, que é a possibilidade de um mesmo grupo atuar em todos os sistemas de mídia, quando TV, jornais, revistas, rádio e sites atuam entrelaçados. Esta atuação permite a total manipulação da Opinião Pública, criando mitos como os da Petrobras quebrada, da Eletrobras quebrada e tantos outros, como também o maior de todos, de que a corrupção é o principal dos nossos problemas. Tudo motes para a privatização.

Confesso que sou fã incondicional do autor do último texto do livro, de Rafael Valim. Ele ganhou esta sua condição por força de um único artigo seu, que eu li no livro de entrevistas do Lula, A verdade vencerá. O texto tem por título, "O caso Lula e o fracasso da Justiça brasileira". Um jurista notável. Deixo o link. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/05/o-caso-lula-e-o-fracasso-da-justica.html Em seu texto nos apresenta uma retrospectiva histórica do Poder Judiciário, comprometido com as elites, uma classificação dos juízes e, uma ironia terrível de como ocorre a formação jurídica de quem integra o sistema Judiciário. Vou fazer um post em separado sobre esta formação, mas não resisto em apresenta a sua classificação. Com ela ele abre seu texto, antecedido de uma advertência:


"Sejamos francos, pois o momento não admite meias palavras.
Atualmente, a comunidade jurídica brasileira está dividida em certos grupos: os que integram o sistema de Justiça e, estão às expensas do povo, cometendo arbitrariedades inomináveis; os que tentam se aproveitar das circunstâncias para obter vantagens; os que, embora compreendam o grave estado de coisas atual, preferem se calar; os que, por um grave déficit cognitivo ou por uma cegueira ideológica incurável, julgam que está tudo em ordem e que o Brasil logo extirpará o 'lamaçal da corrupção'; e finalmente, os que, apesar do macarthismo implacável, não abdicaram do compromisso histórico de enfrentar o arbítrio, ainda que togado".

Creio que todos perceberam que se trata de mais um livro necessário. E eu, diante de tanta burrice, hoje cultivada, fico cá comigo, tentando metabolizar esta frase do Jessé: "Como sempre, o principal  desafio do conhecimento não é cognitivo. A grande maioria das pessoas pode compreender qualquer coisa dita de modo direto e sem floreios desnecessários. A grande dificuldade humana para aprender qualquer coisa  nova é emocional".







quarta-feira, 12 de junho de 2019

A Internacional. A oração leiga dos revolucionários de todo o planeta.

O hino - a Internacional - tem a sua origem na Segunda Internacional, reunida em Paris no ano de 1889, já sem a presença dos anarquistas. A letra é uma composição de Eugène Potier, em 1871. O poema ganhou a sua música em 1888, através do operário anarquista Pierre De Geyter, sob a inspiração da Marselhesa. Em 1889 passou a ser o hino dos trabalhadores de todos os povos e, por um certo tempo, o hino da União Soviética. Vejam o contexto da Segunda Internacional.

O motivo que me levou a este post foi a leitura de A greve de 1917 - Os trabalhadores entram em cena, de José Luiz del Roio. No quarto capítulo de seu livro, sob o título "Suada vitória" ele, num subtítulo fala  de uma determinada "oração leiga". Era o hino da Internacional, apresentado como "a oração leiga dos revolucionários de todo o planeta". Esta canção era cantada pelos grevistas em comemoração às conquistas da primeira grande greve geral havida no Brasil. Transcrevo na íntegra, o que vai pelas páginas 82 a 85.
Um livrinho simplesmente maravilhoso. A greve de 1917.

"A Internacional, canto dos trabalhadores de todo o mundo, traduzido em inúmeros países, tem letra do francês Eugène Pottier (1816-1887), que havia combatido na Comuna de Paris em 1871, e música do belga Pierre De Geyter (1848-1932). Adotada como hino pela Internacional Socialista, era usada também pelos anarquistas. Com a criação da Internacional Comunista, passou a ser também seu hino oficial.

As muitas traduções apresentam algumas variações. Em nosso caso, a versão mais conhecida é a do anarquista português Neno Vasco (1878-1923), de 1909. Ele viveu no Brasil de 1901 a 1910 e atuou decididamente na imprensa anarquista. Como alguns termos da letra são de difícil compreensão, pensou-se em algo mais leve e moderno. Porém, todas as tentativas falharam e seguimos com os versos de Neno Vasco há mais de um século. É sempre muito emocionante. Seguem seus versos:

De pé, ó vítimas da fome
De pé, famélicos da terra
Da ideia a chama já consome
A crosta bruta que a soterra
Cortai o mal bem pelo fundo
De pé, de pé, não mais senhores
Se nada somos em tal mundo
Sejamos tudo, ó produtores

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional

Senhores, Patrões, chefes supremos
Nada esperamos de nenhum 
Sejamos nós que conquistemos
A terra mãe livre e comum
Para não ter protestos vãos
Para sair desse antro estreito
Façamos nós por nossas mãos
Tudo o que nos diz respeito

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional

O crime do rico, a lei o cobre
O Estado esmaga o oprimido
Não há direitos para o pobre
Ao rico tudo é permitido
À opressão não mais sujeitos
Somos iguais todos os seres
Não mais deveres sem direitos
Não mais direitos sem deveres

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional

Abomináveis na grandeza
Os reis da mina e da fornalha
Edificaram a riqueza
Sobre o suor de quem trabalha
Todo o produto de quem sua
A corja rica o recolheu
Querendo que ela o restitua
O povo só quer o que é seu

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional

Nós fomos de fumo embriagados
Paz entre nós, guerra aos senhores
Façamos greve de soldados
Somos irmãos trabalhadores
Se a raça vil, cheia de galas
Nos quer à força canibais
Logo verás que as nossas balas
São para os nossos generais.

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional

Pois somos do povo os ativos
Trabalhador forte e fecundo
Pertence a terra aos produtivos
Ó parasitas deixai o mundo´
Ó parasitas que te nutres
Do nosso sangue a gotejar
Se nos faltarem os abutres
Não deixa o sol de fulgurar

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional

Durante décadas, inúmeros foram os mártires que a cantaram nas masmorras, nas salas de tortura e no patíbulo. Com a voz alta quando as forças permitiram ou apenas murmurando, num último fio de voz. Com força e ira marchando ao combate ou numa explosão de alegria nas vitórias. É a oração leiga dos revolucionários de todo o planeta".






segunda-feira, 10 de junho de 2019

A greve de 1917 - Os trabalhadores entram em cena. José Luiz Del Roio.

Ao ler o livro de Jessé Souza, A classe média no espelho, deparo com a indicação do livro A greve de 1917 - Os trabalhadores entram em cena, de José Luiz del Roio. Sempre alimentei o desejo de ler algo de maior profundidade a respeito e por isso comprei o livro. Na introdução o autor compara este movimento com a Comuna de Paris, tal a sua importância. São Paulo praticamente parou nestes meses de junho e julho de 1917. Os livros oficiais de história do Brasil não são nada generosos em mostrar esta realidade ao povo brasileiro. Esta greve foi fruto do chamado sindicalismo revolucionário, influenciado por anarquistas e comunistas, estes inspirados pelo 1917 da Rússia.
Simplesmente um livro necessário.

O livro é um primor, chamando a atenção o belo português do autor, bem como a sua exposição, extremamente didática. Poderíamos qualificá-lo como um pequeno grande livro. Possui apenas 129 páginas, com bons espaços e direito a fotos da época relacionadas ao triste evento. O livro tem um prefácio, escrito por Gilberto Moringoni, em que conta a história, tanto do livro quanto a de seu autor, lembrando também o esforço em reconstituir a memória desta greve. Os acervos de 1917.

O livro divide-se em introdução, cinco capítulos, indicação bibliográfica e 17 páginas de fotografias. Os capítulos tem os seguintes títulos: 1. Onde tudo começou; 2. Eles, os trabalhadores; 3. Braços cruzados; 4. Vitória suada e 5. O legado da greve. A publicação é de 2017, ano do centenário, pela editora Alameda e pela Fundação Lauro Campos.

Na introdução o autor nos brinda com uma bela contextualização da época, mostrando o Brasil do final do século XIX e início do XX, com acento nas transformações ocorridas na formação econômica e social brasileira, pelos fatores internos e externos. Sobra espaço, ainda, para a apresentação do sindicalismo revolucionário, de raiz anarquista.

No primeiro capítulo, Onde tudo começou, o autor aprofunda o tema da introdução, mostrando a incompatibilidade entre o trabalho escravo e a sociedade capitalista, mostrando a abolição da escravidão (mas não a de sua obra, lembrando Joaquim Nabuco), e a substituição pela "mão de obra" imigrante. Isso também fazia parte do branqueamento da raça, uma vez que teorias higienistas conspiravam contra a presença maciça de negros. Os negros foram, praticamente, empurrados para fora da economia brasileira. Apresenta também a característica dos imigrantes, italianos e católicos, obedientes e submissos, de preferência. A lavoura cafeeira se expandia e a elite se inspirava na vida burguesa de Paris e de Londres.

O segundo capítulo, Eles, os trabalhadores mostra que a incipiente industrialização brasileira já necessitava de trabalhadores mais especializados. Estes, como inconveniente, trouxeram também as bases de sua formação na "luta de classes". Surgiram os primeiros bairros industriais/operários em São Paulo, como o Brás, a Mooca e o Belenzinho. O patronato continuava absolutamente escravista e, agora, com o adendo de colonizados. São Paulo contava em 1890 com 65.000 habitantes, número que saltou para 500.000 em 1917. Surgem as primeiras associações das "classes laboriosas". Mostra a forte presença dos anarquistas, inclusive, os seus princípios educacionais das doutrinas de Francisco Ferrer. Mostra também a entrada do mundo na I Guerra Mundial, a revolução de 1917 na Rússia e a presença, no Brasil, do anarco sindicalismo.

No terceiro capítulo, Braços cruzados, o autor entra em cheio no tema do livro. Conta, em rápidos traços, a história da família Crespi, o seu envolvimento com o fascismo italiano e os seus métodos de trabalho aterrorizante em São Paulo. A sua fábrica de tecidos tinha mais de dois mil funcionários e  o trabalho era ininterrupto. A jornada de trabalho atingia 12 horas diárias para todos, homens, mulheres e crianças, acompanhadas de um forte esquema de vigilância e punições. Foi nesta fábrica, que em junho, a greve teve início. A narrativa da sua expansão, das passeatas, das mortes é de extraordinário vigor e constituem as páginas mais significativas do livro. O nome das lideranças ganha certo destaque, em especial o alemão Edgar Leunroth, além de Theodoro Monicelli, Gigi Damiani, Francesco Cianci, Antônio Candeias Duarte e  Rodolfo Felippe. Embora ele não cite nenhuma mulher, elas foram decisivas. A indústria têxtil sempre empregou muitas mulheres. Em julho São Paulo, literalmente parou. Surgem as mediações, sendo os Street a favor da mediação e os Crespi contra. Obviamente que os Street foram chamados de comunistas, apesar, também, de toda a sua dureza para com os trabalhadores. Elabora-se uma pauta mínima e forma-se um Comitê de Imprensa para a mediação.

No quarto capítulo, Vitória suada, mostra os trabalhadores em festa cantando "a oração leiga dos revolucionários de todo o planeta", a Internacional. Depois da pacificação vem a vindita patronal. Mortes, demissões e deportações. Todos os mecanismos de controle são reforçados em todo O Brasil. Pouco depois o anátema que se dirigia contra os anarquistas ganha o endereço dos comunistas. Em 1924 foi criado o DOPS.

No quinto capítulo, O legado da greve, são mostrados os limites do sindicalismo revolucionário e a crítica à sua recusa de participação política, além da não preocupação com a formação de um projeto para a nação brasileira. Mostra ainda a formação de um sindicalismo mais burocrático, com sedes e organização por categorias de trabalho, a partir da fundação do PCB, em 1922, na cidade de Niterói, sob a liderança de Astrogildo Pereira. Para combater a carestia são criadas as feiras populares livres.

As indicações bibliográficas são valiosas e as 17 páginas de fotografias se constituem numa rara preciosidade. Eu, numa fala de Paulo Freire, ouvi dele mais ou menos o seguinte: Conheço todas as elites do mundo. De longe, a elite brasileira é a mais perversa. Com a leitura, agora entendo melhor a afirmação de Paulo Freire. Ela não contém nenhum tipo de exagero. A elite é escravocrata e colonizada. Leitura necessária, inclusive, para entender o atual momento brasileiro, às vésperas de uma greve geral contra a destruição da previdência e da seguridade social.


sexta-feira, 7 de junho de 2019

Agosto. Rubem Fonseca. O romance da nossa desesperança.

Primeiramente quero expressar toda a minha satisfação com a leitura deste livro, Agosto, de Rubem Fonseca. Superou todas as minhas expectativas. Muito tinha ouvido falar do romance, especialmente, porque o mesmo foi transformado em minissérie pela Rede Globo de Televisão. As 366 páginas do livro foram transformadas em 16 capítulos televisivos. No livro são 26. Os três personagens centrais do livro foram interpretados por José Mayer, no papel do Comissário Mattos, sendo que as duas mulheres de sua vida, Salete e Alice receberam a interpretação de Letícia Sabatella e Vera Fischer, respectivamente. Mas quem me fez mesmo ler o livro, foi a insistente recomendação do meu amigo Sebastião Donizete Santarosa.
A história do Brasil resumida pelo mês de agosto de 1954.

Bem, creio que já entramos na resenha do livro ao enunciar o primeiro trio de personagens. Vamos começar pelos já citados. O Comissário ou delegado de polícia Mattos é uma figura que já não existe mais no serviço público. Ele era honesto e absoluto cumpridor da lei. No curso de direito sempre fora um aluno dedicado. Para conhecê-lo melhor, transcrevo um diálogo mantido junto a Paiva, um outro comissário:

"'O que você quer saber'? Pergunta Mattos para Paiva.

'Moralmente somos obrigados a sacrificar a própria vida, se necessário, para cumprir o nosso dever, que é impedir que se cometam crimes. Não é verdade? Por que não podemos, também para cumprir o nosso dever, matar um bandido para impedi-lo de cometer um crime?'

'Vou responder de maneira bem simples à sua pergunta simplória. Porque a lei não nos dá esse direito. E a lei é feita para todos, principalmente para pessoas que têm alguma forma de poder, como nós. Um policial pode morrer no exercício de seu dever, mas não pode desobedecer a lei'". Página 298-9.

Mattos investigava crimes pesados de toda a ordem. O romance começa exatamente com o assassinato de um empresário de nome Paulo Gomes Machado de Aguiar, o crime do edifício Deauville. O crime é de natureza político-econômica, com favorecimentos governamentais mediados por políticos. Esta investigação ocupa uma das linhas narrativas do romance. As sub tramas nos levam a uma crônica policial do Rio de Janeiro deste agosto de 1954. O comissário Mattos sofria de problemas estomacais, tomando muito leite e estava sempre acompanhado de cápsulas de Pepsamar, um anti ácido, que, por sinal, ainda existe nos dias atuais. As duas meninas do delegado são complicadíssimas e em muito agravavam os seus problemas estomacais.

Mas o mote principal do livro, que lhe dá, inclusive, o título de Agosto, é o suicídio do presidente Vargas, no dia 24 de agosto de 1954. O romance se ocupa exatamente desses dias que antecederam este suicídio. Aí aparece uma outra série de personagens, que são bem conhecidos para os que minimamente conhecem a nossa história. Carlos Lacerda e os políticos da UDN, que junto com os coronéis da aeronáutica tramam pela queda do presidente, políticos do PTB e PSD, a base de apoio do presidente, com destaque para o senador pernambucano Freitas, metido em todas as maracutaias da corrupção governamental. E obviamente o Gregório, o anjo negro de Getúlio, chefe da guarda presidencial. Esta linha de narrativa tornou o romance um romance histórico. É a parte real. A do comissário é a parte da ficção. 

Os destaques desta parte vão para o atentado da rua Tonelero, que era para ter vitimado Carlos Lacerda, o virulento jornalista que tirava o sossego do presidente. Mattos, inclusive, terá participação nos desvendamentos do crime. A outra parte vai para os movimentos finais que antecedem o suicídio. Os momentos da trama palaciana em que as forças militares, a partir da aeronáutica, abandonam o presidente. Não falta também a comoção popular pós suicídio.

Nunca tinha lido uma obra do escritor, por isso mesmo, me impressionou a sua extraordinária capacidade narrativa. Não tem como parar de ler. Várias tramas de investigação correm sempre paralelas e sempre em meio a muita ironia e extremado senso de humor. As frases são curtas e certeiras. Muitos diálogos entre os personagens tornam a leitura muito fluente. Um escritor de muitos méritos. É também um passeio, especialmente, pelas ruas centrais da cidade do Rio de Janeiro. Em suma, teremos três importantes assassinatos e o suicídio do presidente. Apenas para instigar a leitura.


Antes de terminar, recorro ao enunciado no título do post. "o romance da nossa desesperança". O comentário é de  Roberto Pompeu de Toledo, em resenha feita para o jornal do Brasil. Eis a sua justificativa: "Tudo somado, a visão que fica de Agosto é a do emparedamento histórico brasileiro". Sérgio Augusto, em comentário final, contido no próprio livro, assim justifica este qualificativo para o romance: "Nem antes, nem durante, nem depois do 24 de agosto de 1954 o país conseguiu romper com o ciclo do atraso e da violência, da corrupção e da injustiça, da miséria e da demagogia. Não estávamos melhor quando o livro foi lançado; muito pelo contrário: em novembro de 1990 o país atravessava uma das fases mais deprimentes de sua história moderna, daí por que Toledo qualificou Agosto de "o romance da nossas desesperança'". 

E o que dizer dos dias de hoje. O Fla-flu entre a UDN e o PTB continua a todo o vapor e, no atual momento, com ampla vantagem para as forças que levaram Vargas ao suicídio. O comissário Mattos continua sendo assassinada diariamente, várias vezes ao dia. E assim vamos nós, com a soma da voracidade econômica do capitalismo financeiro destroçando um mundo de direitos e o obscurantismo cultural que nos remate, de volta, à idade média.

terça-feira, 4 de junho de 2019

A Guerra. A ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil.

Cheguei ao livro A Guerra - A ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil, de Bruno Paes Manso e Camila Nunes Dias, pela revista CULT, nº 244, na qual havia uma entrevista com Bruno Paes Manso, um dos autores do livro. O título da entrevista foi "Como atuam as milícias - suas origens, a infiltração no poder público e o seu modelo de negócios". Não é o tema do livro, mas é uma decorrência da organização do crime organizado no Brasil, a partir de sua organização maior, qual seja, O PCC, o Primeiro Comando da Capital.
Uma radiografia da organização do crime no Brasil, a partir da hegemonia do PCC.

O livro é impressionante e antes de mais nada deixo a autorizada voz de Drauzio Varella para tecer este comentário, que se encontra na contracapa do livro. "A guerra é um daqueles livros que a gente começa a ler e não consegue parar. Nunca vi descrição tão detalhada e análise tão profunda dos acontecimentos que levaram à formação das quadrilhas que hoje disputam a hegemonia no mundo do crime. É um livro essencial para entendermos a violência urbana que nos aflige e as contradições da sociedade brasileira".

O livro foi concluído em julho de 2018, sendo esta, portanto a data limítrofe dos acontecimentos. O livro foi editado no mesmo ano de 2018, pela Todavia. São 342 páginas, divididas em nove capítulos e uma espécie de conclusão sob o nome de Ubuntu, "filosofia sul-africana que em 1994 serviu de base para que Nelson Mandella e o bispo Desmond Tutu costurassem um novo pacto social para a reconstrução do país no pós-apartheid". Ubuntu emite a opinião dos autores sobre como a questão do crime deveria ser tratada e leva em conta também os estudos de Marielle Franco em sua dissertação de mestrado sobre as UPPs.

Antes de entrar nos nove capítulos deixo ainda a nota de Sergio Adorno, também da contracapa do livro. Síntese perfeita da obra: "Enquanto o crime organizado se modernizou, o Estado permaneceu atrelado ao passado. A expansão do PCC além das fronteiras, os rachas entre facções, a dinâmica dos negócios ilegais, a contabilidade dos mortos, as políticas de regulação e controle social - este livro é um retrato do Brasil contemporâneo sob chamas".

Vamos então aos títulos dos nove capítulos: 1. O racha; 2. As rebeliões; 3. O Projeto Paraguai; 4. O sistema; 5. A consciência; 6. A fronteira; 7. A expansão; 8. O novo mundo do crime; 9. Desequilíbrios e a conclusão sob o título de Ubuntu. Também existe uma radiografia do PCC, com mapas indicando posições do crime organizado e um preciosa indicação bibliográfica.

No primeiro capítulo é mostrada a ascensão do PCC à posição hegemônica do crime organizado, as tentativas de aproximação entre o PPC - Primeiro Comando da Capital (SP) e o Comando Vermelho (RJ), os fracassos destas tentativas e a nova organização do crime, a partir do sistema prisional, com a entrada em cena do telefone celular. Ainda ganha atenção o tema da expansão do PCC, para os estados do MS e PR, por suas posições estratégicas junto a fronteira. O segundo capítulo é uma decorrência da não conciliação entre as duas grandes organizações e o consequente surgimento de inúmeras outras facções, especialmente no norte e nordeste do país. As rebeliões carcerárias e as inúmeras mortes mostram as divergências entre estas organizações.

No terceiro capítulo vemos os avanços do PCC em sua estratégia de aumento de lucros com a eliminação de intermediários, nos caminhos entre a produção e o consumo da droga. Isso implica no domínio das fronteiras no Paraguai, na Bolívia e no Peru e em menor escala na fronteira norte do país. É de estarrecer, especialmente, o que é contado do que ocorreu nas cidades limítrofes entre Pedro Juan Caballero e Ponta Porã e entre Coronel Sapucaia e Capitan Bado. O PCC se torna uma organização criminosa internacional. O capítulo de número quatro conta sobre a organização do crime, a partir do PCC, sua origem e organização até a sua internacionalização, inspirados em grupos colombianos e mexicanos.

O quinto capítulo é dedicação a formação da consciência dos participantes e o sentido de grupo, de pertencimento dos integrantes para com a sua organização criminosa. São mostrados os seus códigos de conduta e de ética. Enfatiza muito os conceitos de hierarquia e de obediência. "O crime precisa se unir. O crime fortalece o crime. Os inimigos são as polícias e o sistema". São apontados também os motivos que levam os jovens ao mundo do crime. No sexto capítulo volta a questão das fronteiras, e mais uma vez, de forma mais específica, as fronteiras com o Paraguai. O sétimo capítulo é dedicado à expansão, com os avanços do PCC pelos estados do Nordeste e do Norte. Um interessante paralelo é traçado entre o PCC e as agências reguladoras. O PCC exerce ou procura exercer esta função no mundo do crime. Outro interessante paralelo traçado é o que mostra o PCC como o STF do mundo do crime.

O oitavo capítulo mostra a reorganização do crime com a entrada em cena do Sistema Prisional Federal, na tentativa de desmantelar o crime e também da formação das milícias e o seu confronto com o mundo do crime. É crime contra o crime. "Milícias e policiais engrossaram o caldo da opressão armada, sob o aplauso da população amedrontada, que também tinha raiva e aposta na violência para se proteger. Como se fosse impossível escapar desse ciclo autodestrutivo". O nono capítulo mostra divergências ou desequilíbrios do PCC no exercício do poder, por brigas na disputa pela liderança interna e a generalização da violência quando os grupos entram em conflito. São as inúmeras mortes nas prisões e fora delas.

No Ubantu lemos, na voz de Marielle Franco, em sua dissertação de mestrado: "O mais correto, se estivesse em jogo uma alteração qualitativa na política de Estado e de Segurança Pública, seria nominar as UPPs de Unidades de Políticas Públicas, por se tratarem de uma necessária mudança cultural em territórios nos quais a presença do Estado não ocorre na completude. [...] O que ocorre é uma propaganda geral pela paz, na qual a polícia, e não a política, ocupa lugar central. [...] A abordagem das incursões policiais nas favelas é substituída pela ocupação do território. Mas tal ocupação não é do conjunto do Estado, com direitos, serviços, investimentos, e muito menos com instrumentos de participação. A ocupação policial, com a caracterização militarista que predomina na polícia do Brasil".