quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Intérpretes do Brasil. Clássicos, rebeldes e renegados. 2. Heitor Ferreira Lima.

Na continuidade da análise dos "Intérpretes do Brasil", a partir do livro Intérpretes do Brasil - Clássicos, rebeldes e renegados, livro organizado por Luiz Bernardo Pericás e Lincoln Secco, vamos hoje trabalhar o militante do partidão Heitor Ferreira Lima, num ensaio/resenha de Marcos Del Roio. O livro é uma publicação da Boitempo Editorial do ano de 2014. Ao todo são trabalhados 25 autores/intérpretes, em ensaios ou resenhas apresentados por especialistas. O foco do livro são os autores que resultaram das transformações brasileiras dos anos 1920 (tenentismo, semana da arte moderna, PCB), quando se inicia no Brasil a denominada modernização conservadora. São apresentados a primeira e a segunda geração desses intérpretes.
Intérpretes do Brasil - clássicos, rebeldes e renegados. Boitempo Editorial. 2014. Páginas 27-38.

Heitor Ferreira Lima nasceu em Corumbá (MS) no ano de 1905 e morreu em São Paulo em 1989. Datas bem sugestivas. O início das revoluções na Rússia e a Queda do Muro de Berlim. Tudo a ver com a sua vida. Na sua apresentação inicial Marcos Del Roio o apresenta como um estudioso da ruptura colonial brasileira pelo processo de industrialização, mirando no horizonte a perspectiva da transformação socialista. Ocupou-se assim com os estudos da revolução burguesa no Brasil, ocorrida entre os anos de 1930 e 1980. Sua vida esteve envolvida em contradições entre a sua formação marxista e o seu entusiasmo com a transformação industrial do Brasil. Contradições profundas. Além do marxismo também um positivismo de esquerda entrou em sua vida.

Não pertenceu a uma família abastada, mas, aos 17 anos já se encontrava no Rio de Janeiro, dividindo a sua vida entre o trabalho e os estudos. Participou do movimento sindical e por ele foi levado ao Partido Comunista, fundado em 1922. O Partido o levará a Moscou para estudar na escola leninista, onde fez o seu "curso superior", entre os estudos de economia e de história. De volta ao Brasil, na qualidade de dirigente partidário, empreende viagens que o aproximam da realidade brasileira. Sente dificuldades dentro do Partido e a sua rígida hierarquia e a obediência às ordens do COMINTERN. Passa por prisões e por grandes dissabores. Encontra no jornalismo a sua atividade profissional, agora fixado na cidade de São Paulo. A sua primeira publicação será uma biografia de Castro Alves, que o levou ao tema da escravidão e do colonialismo. 

Entra em contato com o liberal Roberto Simonsen, presidente da FIESP e formulador da política de industrialização de Getúlio Vargas. Essa aproximação o tornou entusiasta do processo de industrialização, mais pelas suas transformações técnicas do que pelas relações sociais. Considerava Roberto Simonsen como o introdutor do fordismo na industrialização brasileira. Isso o aproximou com o positivismo de esquerda e até com a UDN, para se distanciarem do integralismo. Os seus estudos desse período o levaram ao seu livro Formação industrial do Brasil. A industrialização significava para ele a verdadeira ruptura com o colonialismo e as suas estruturas básicas do latifúndio e da escravidão. Aí vem a primeira grande crítica do resenhista. Vejamos:

"Sem negar o valor de autores como Caio Prado e Nelson Werneck Sodré, por exemplo, é inegável que na fase em que o marxismo se implanta no Brasil e que coincide com a revolução burguesa, de fins dos anos 1920 a meados dos anos 1970 do século XX, tanto o movimento operário quanto o marxismo aparecem como força secundária. O resultado é um marxismo vulgar e subalterno, embebido de economicismo, de positivismo, o qual, por um lado, teve enorme dificuldade de ver e fazer do proletariado um protagonista de uma revolução democrática, em virtude de dificuldades teóricas e práticas (que não cabe discutir agora), e, por outro, traduziu a ideologia burguesa ao modo, por exemplo, de industrialismo e industrialização para expressar o processo de revolução burguesa (sem democracia)". Problemas de ordem teórica e prática.

As suas observações sobre a industrialização, o fazem ver a inspiração alemã, de indução do processo a partir do Estado (Friedrich List), a chamada "via prussiana" de industrialização. Critica no entanto, a ausência de planejamento, afirmando que o processo se deu de uma forma meio espontânea, a partir das crises mundiais, que induziram a uma política de "substituição das importações". Criticou também a presença externa em nossa economia, mas, afirma o resenhista, que o seu entusiasmo prejudicou um senso crítico maior. A sua visão mais economicista do que marxista o levou a ser um intelectual mais orgânico à burguesia do que ao marxismo. Viu também, no processo de industrialização a nossa via de ruptura colonial e de afirmação nacional.

Em 1975 publica outro livro, dentro da mesma temática. História do pensamento econômico no Brasil, curiosamente editado pela FIESP, pela proximidade do autor com Roberto Simonsen, a quem tece rasgado elogio: "Roberto Simonsen foi o mais combativo e o mais coerente industrialista que o Brasil já teve". Na sua fase final volta-se, como no seu início, às biografias. O seu entusiasmo agora o leva a Silva Jardim (1860-1891), um personagem dentro da esquerda do positivismo. Ele batalhou pela abolição e pela República, mas a República não o entusiasmou. Preferiu um autoexílio, no qual encontrou a sua morte. Vejamos um parágrafo dedicado a Silva Jardim:

"A postura de Silva Jardim em defesa das ideias mais à esquerda que o embate político suportava formam as mesmas ideias que o fizeram angariar grande prestígio público e a marginalização política, logo que alcançado o objetivo da instauração da república. A morte o colheu em acidente no vulcão Vesúvio, em 1891, antes mesmo de completar 31 anos de idade, quando havia se imposto um exílio voluntário".  Consta que ele fora advertido da erupção iminente do vulcão. Curioso...

Quanto a importância de Heitor Ferreira Lima, vejamos o último parágrafo da resenha: "O interesse de Heitor Ferreira Lima pela biografia de Silva Jardim pode ter um significado esclarecedor do seu próprio pensamento e visão de Brasil. Silva Jardim foi um jovem intelectual positivista de esquerda, vertente que se alongou no tempo no Brasil e foi o tronco do qual se originaram as ideologias do movimento operário, inclusive o marxismo particular do Brasil, marxismo do qual foi Heitor Ferreira Lima um representante dos mais dignos e expressivos, ainda que não lhes tenha sido possível romper com a subalternidade ante a vanguarda do pensamento burguês brasileiro". 

Marcos Del Roio é autor do belo livro sobre as greves operárias do ano de 1917. Veja:

Veja também a publicação anterior - sobre Octávio Brandão: 


segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Intérpretes do Brasil. Clássicos, rebeldes e renegados. 1. Octávio Brandão.

Retomo hoje o tema dos "intérpretes do Brasil". O livro que tomo como referência é Intérpretes do Brasil - clássicos, rebeldes e renegados, um livro organizado  por Luiz Bernardo Pericás e Lincoln Secco e publicado pela Boitempo Editorial. O ano da publicação é 2014. Ao todo são trabalhados 25 autores - intérpretes, em ensaios ou resenhas apresentados por especialistas. O foco do livro são os autores que resultaram das transformações brasileiras dos anos 1920 (tenentismo, semana da arte moderna, PCB), quando se inicia no Brasil a denominada modernização conservadora. São apresentados a primeira e a segunda geração desses intérpretes.

Intérpretes do Brasil - clássicos, rebeldes e renegados. Boitempo Editorial. 2014.

O primeiro deles é OCTÁVIO BRANDÃO, que é apresentado por João Quartim de Moraes. A sua apresentação ocupa as páginas 13 a 25. Octávio Brandão nasceu no interior de Alagoas, em Viçosa, no ano de 1896 e veio a falecer em 1980, na cidade do Rio de Janeiro. A sua história de vida é toda ela dedicada ao PCB, o chamado Partidão. 

Octávio Brandão, como já apontamos, nasceu em Viçosa - AL (hoje 26.249 habitantes). A família era proprietária de uma farmácia, fato que o encaminhou para esses estudos em Recife. Nasceu, segundo afirmação sua, em meio a latifúndios e, obviamente, a todas as suas consequências. Do pai, afirma também, que a maior herança recebida. foi a sua coragem moral. Os seus estudos o levaram ao gosto pelas ciências da natureza, mas, ele se destacou mesmo, foi como agitador social. Os fatos o levaram para esse lado. Já no Rio de Janeiro, na qualidade de pacifista, assina manifesto contra a primeira guerra mundial. O fato de ser pacifista e de se preocupar com a justiça social, o torna uma presença incômoda na sociedade carioca e um pensador marcado.

No Rio de Janeiro, os primeiros contatos serão com os pensadores anarquistas, mas deles, logo derivará para o comunismo. Pela não consideração do Estado, julgou o anarquismo como uma doutrina sem futuro. Os contatos com o pensamento de Marx o levaram à fundação do PCB, o partidão, em 1922. Os seus primeiros estudos o fizeram prever os conflitos brasileiros entre o setor agrário e a industrialização. Dedicou-se também aos estudos do imperialismo. Chegou a eleger-se vereador no Rio de Janeiro. A perseguição de Vargas aos comunistas o levou ao exílio na URSS. Em 1957 faz uma autocrítica de seus estudos sobre o agrarismo X industrialismo, numa questão complicada, interna às questões de hierarquia partidária centralizada. Da URSS, faz também o seu observatório sobre a segunda guerra. Antes já se envolvera em outra complicada questão que envolveu a (NÃO) libertação de Olga Benário.

Também continuou com a sua obra teórica, analisando quatro séculos de colonialismo, envolvendo a matança das populações indígenas e a escravidão. Não é nem um pouco conivente com a "hipocrisia" religiosa desse período, entrando em conflito, especialmente, com os padres jesuítas. Em 1947, o encontramos de volta ao Rio de Janeiro, mais uma vez como vereador da cidade. 

O seu pensamento, segundo o resenhista, foi recuperado dentro da história, a partir dos anos 1980, a partir das obras de Edgar Carone sobre a República Velha e de John Foster Dulles, sobre os anarquistas e comunistas no Brasil. O autor da resenha também é participante das pesquisas que resultaram na publicação dos seis volumes da História do marxismo no Brasil, dos quais João Quartim de Moraes é um dos autores e organizadores. Creio que podemos afirmar que Octávio Brandão se enquadra bem dentro dos autores do subtítulo do livro: clássicos, rebeldes e renegados, especialmente como rebelde e renegado.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Dom Helder: O artesão da paz. Raimundo C. Barros e Lauro de Oliveira.

Este livro ficou anos no aguardo de sua leitura. O comprei em 2009, na Primeira Bienal do livro de Curitiba. Sim, já tivemos uma Bienal do Livro em Curitiba. Estou falando de Dom Helder: O artesão da paz, livro organizado por Raimundo Caramuru Barros e Lauro de Oliveira e editado pelo Senado Federal. A edição é do ano de 2009. É o volume de número 120 das Edições do Senado Federal. O livro traz uma bela síntese biográfica de Dom Helder (as primeiras 80 páginas) e os seus principais discursos e pronunciamentos (o restante do livro de 391 páginas). Aqui vou me deter apenas na síntese biográfica.

Dom Helder: O artesão da paz. Raimundo C. Barros e Lauro Oliveira (organizadores).

Dom Helder Câmara nasceu na cidade de Fortaleza no ano de 1909 e veio a falecer na cidade de Recife em 1999. Iniciou os seus estudos em Fortaleza (uma formação absolutamente conservadora), onde também concluiu a sua formação para a ordenação sacerdotal. Posteriormente veio ao Rio de Janeiro, para trabalhar próximo ao cardeal Leme, onde, pelos trabalhos desenvolvidos, ganhou a sua grande notoriedade.

Depois de longos trabalhos desenvolvidos no Rio de Janeiro, foi nomeado bispo para a cidade de São Luís do Maranhão, onde nem mesmo chegou a tomar posse, sendo nomeado para a arquidiocese de Olinda e Recife, onde permaneceu até a sua aposentadoria compulsória, aos 75 anos. Depois ali permaneceu até o tempo de sua morte, no ano de 1999. A síntese biográfica é desenvolvida por sete tópicos, dos quais apresento, primeiramente os títulos, para depois, me deter um pouco neles. Eles tem um título geral: Perfil e trajetória de Dom Helder no século XXI. Vejamos os títulos:

I. Preâmbulo; II. Primeiros sinais de uma vida de fé em Cristo e na Igreja; III. Alargando os horizontes na dimensão do século XX; IV. Passos que marcaram a escalada ao Tabor e ao Getsemani; V. O idílio conciliar e o caldeirão brasileiro; VI. Igreja servidora e interlúdio espartano (1966-1985); Pós-escrito a Dom Helder Câmara. Observem a data que acompanha o tópico VI (1966-1985). São umas 20 páginas de rara preciosidade, por fazer toda a abordagem das relações entre a Igreja católica e o hiato espartano, como o autor denomina a ditadura militar que regia os destinos brasileiros desse período. São esses os anos do Getsemani de Dom Helder. 

I. PREÂMBULO. O preâmbulo é curto. Nele o autor procura mostrar a realidade brasileira e, a inserção nela, de Dom Helder. Em meados do século XX, a expectativa de vida no nordeste brasileiro era de apenas 40 anos. Dentro dessa realidade, qual foi o papel exercida pelo bispo, na sua transformação? É o que se busca nessa síntese biográfica.  São mostradas as diferentes etapas da vida de Dom Helder, que passam a ser analisadas nos tópicos seguintes. 

II. PRIMEIROS SINAIS DE UMA VIDA DE FÉ EM CRISTO E NA IGREJA. Nesse tópico é mostrada a sua infância, adolescência, anos de formação e as suas primeiras atividades. Abrange os anos de 1909, ano de seu nascimento em Fortaleza, até o ano de 1945. São os tempos da República Velha e do governo Vargas, incluindo aí o Estado Novo. São anos de ebulição em uma República nada democrática. Acompanhou os movimentos desse tempo, como o Movimento dos Tenentes, do Forte de Copacabana, da Semana da Arte Moderna. Tudo isso, ele acompanha, ainda morando no Ceará. No Estado Novo já o encontraremos no Rio de Janeiro, atuando junto ao cardeal Leme. No Rio de Janeiro ele assiste e é ator dos movimentos internos da igreja católica, procurando dar a ela a unidade e a centralidade para uma ação mais vigorosa em favor das populações mais necessitadas. Recebe influências de Jacques Maritain e de Alceu Amoroso Lima.

III. ALARGANDO OS HORIZONTES NA DIMENSÃO DO SÉCULO XX. O período de abrangência é a dos anos de 1946 a 1951. Nesses anos se iniciam os trabalhos pastorais na igreja, especialmente os voltados aos operários, aos migrantes e ao povo das favelas, pelo famoso método do padre belga Joseph Cardijin, do VER - JULGAR e AGIR. Três atividades são destacadas nesse período: 1. A preocupação da igreja com o desenvolvimento regional; 2. O olhar da igreja se volta para a questão da estrutura fundiária, inserindo-se nos movimentos em favor de uma reforma agrária; 3. O desenvolvimento de um colegiado episcopal, com a criação da CNBB. Esta foi fundada em 1952, sendo Dom Helder o seu secretário geral. Prenuncia-se a realização do Concílio Vaticano II, convocado em 1962.

IV. PASSOS QUE MARCARAM A ESCALADA AO TABOR E AO GETSEMANI. Os anos de abrangência são os de 1952 a 1962. São anos de intensa participação de Dom Helder no cenário brasileiro e início de sua projeção e reconhecimento internacional. Em 1952, ele é nomeado e sagrado bispo na igreja da Candelária no Rio de Janeiro. Houve resistências por causa de seu envolvimento, nos anos de formação, com o integralismo de Plínio Salgado. Organiza um Congresso Eucarístico e ajuda na criação do CELAM, uma espécie de CNBB latino americana. Organiza, no Rio de Janeiro, um Congresso Eucarístico Internacional. Dedica-se ao trabalho de orientação de catequistas. Ajuda a promover uma intensa relação entre Igreja e Estado, tanto no governo Vargas, quanto no de JK, quando houve grandes aproximações. Continuam as influências de Jacques Maritain em sua vida, acrescidas agora, com as do padre Lebret, que também inspirou o papa Paulo VI nas encíclicas de forte cunho social. A igreja brasileira passa a ter uma forte visão crítica da realidade brasileira e procura se inserir em seus movimentos de transformação. Jango assume o governo brasileiro e anuncia as Reformas de Base. A situação fica tensa, e Dom Helder inicia a subida ao Getsemani, recebendo ameaças por sua atuação comprometida com os pobres. Vejamos uma advertência que recebeu de Dona Ondina, dona do influente jornal carioca Correio da Manhã:

"Dom Helder, ainda está em tempo. Junte-se a nós; gostamos do senhor e muito o admiramos. Acabe com essa mania de denunciar injustiças sociais em favor dos pobres. Caso contrário, vão acabar com o senhor". Também vale a pena citar uma frase sua, muito conhecida, que não está registrada nessa síntese biográfica: "Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista".

V. O IDÍLIO CONCILIAR E O CALDEIRÃO BRASILEIRO. O período de abrangência são os anos 1962-1965. Como o título mostra, dois movimentos fortes ocorrem no período: a convocação do Concílio Vaticano II. e o ferver da política brasileira, com o golpe de Estado de 1964 que se instaura para deter as Reformas de Base do governo Jango. O padre Lebret é nomeado perito do Concílio e inspira os documentos progressistas da Igreja desse período. Dom Helder irá assumir a arquidiocese de Olinda e Recife, nesse período.

VI. IGREJA SERVIDORA E POBRE E INTERLÚDIO ESPARTANO. O período de abrangência são os anos de 1966 a 1985. É o mais profundo dos tópicos e mostra todo o envolvimento conflituoso entre a Igreja e o Estado, sob o período dessa longa ditadura. O tópico começa com uma belíssima reflexão sobre a Grécia Clássica, mostrando as diferenças entre Atenas e Esparta e a opção brasileira por Esparta nesse período. A análise do tópico passa por uma análise de conjuntura internacional e seus reflexos sobre o Brasil. São os tempos da Guerra Fria e da Ideologia da Segurança Nacional. Seus reflexos no Brasil se evidenciam por um regime de segurança interna, de alinhamento aos Estados Unidos e a manutenção de um Estado forte, isto é, um regime de Segurança Nacional, ditada pelas forças militares mundiais contra os avanços do comunismo, evidenciados pela revolução cubana e pelos fracassos dos Estados Unidos no Vietnã. Anos de terror e de relações tensas entre Igreja e Estado. A Igreja faz a defesa intransigente dos Direitos Humanos e se envolve nas questões fundiárias nas áreas novas de colonização. São criadas nesse período a CPT e o CIMI. 

Dom Helder nesse período passou a ser proscrito, com a proibição de ter o seu nome citado na imprensa brasileira. Restam-lhe as tribunas internacionais para fazer suas denúncias, o que ele faz com maestria. Recebe a indicação para o Nobel da Paz. A própria Igreja contribuiu para que não recebesse essa honraria. O regime militar começa a se deteriorar com as crises econômicas a partir de meados dos anos 1970 e a partir da sucessão do general Figueiredo a situação se torna insustentável, com a indicação de Paulo Maluf para a sucessão. Dom Helder atinge os  75 anos de vida e passa a viver a sua aposentadoria compulsória, vivendo em estrita pobreza e de mergulho profundo nos mistérios de uma vida coerente e condigna com a pregação dos Evangelhos. Dom Helder ajudou, e em muito, a reconfigurar a fisionomia da igreja católica brasileira. A sua morte ocorre no Recife no ano de 1999.

VII. PÓS-ESCRITO A DOM HELDER CÂMARA. Esse tributo de reverência a Dom Helder busca explicar a raiz da força espiritual que sustentou a vida do "santo". Recebeu as fortes influências de dois papas, João XXIII e Paulo VI, aos quais ele também influenciou. Buscou ainda inspiração nos antigos, em Inácio de Antioquia, Basílio da Cesareia, de Santo Agostinho e de São João Crisóstomo e das influências já assinaladas de Jacques Maritain e do padre Lebret. Como tributo a Dom Helder transcrevo o último parágrafo da síntese biográfica.

"Nesses quatro setores da vida da Igreja - colegialidade e comunhão, relações entre Igreja e Estado, testemunho de uma Igreja servidora e pobre, evangelização inculturada - a atuação daquele, que criou as condições para a fundação da CNBB e foi seu primeiro Secretário Geral durante doze anos, pode oferecer subsídios e inspiração para a Igreja no Brasil no alvorecer do século XXI. Mas antes de tudo é preciso reconhecer, que o mais importante legado, que deixa para as gerações futuras é o seu testemunho espiritual, vivido dentro das exigências do Evangelho e em consonância com a recomendação, que recebeu de João XXIII: 'É preciso permanecer sempre no Amor, para permanecer em Deus'".

O deserto é fértil. Dom Helder Câmara. Civilização Brasileira.

Termino com um testemunho meu. Meus anos de formação também foram profundamente marcados pelos papas João XXIII e Paulo VI e pelo Concílio Vaticano II e, depois, ao longo dos primeiros anos atuando como professor, a influência de Dom Helder Câmara. Muito utilizei em sala de aula o seu pequeno livro, de grandes ensinamentos O deserto é fértil. Dom Helder, pela Lei Federal 13.581 de 26 de dezembro de 2017 foi declarado Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos.

Deixo o link de O deserto é fértil.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2023/02/o-deserto-e-fertil-partir-caminhar-dom.html

      



sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Rosa Luxemburgo. 1871 - 1919. Por Elzbieta Ettinger.

 Ao ler algumas informações sobre Rosa Luxemburgo, sobre as quais eu tive sérias dúvidas, resolvi retomar a leitura de uma biografia sua. Reli o livro de Elzbieta Ettinger (judia-polonesa-americana) cuja primeira edição data do ano de 1986. Adquiri o livro no ano 2000 e o li na mesma época. Me lembrava apenas de algumas coisas mais marcantes. Valeu muito a pena a releitura. Rosa é uma pessoa muito singular dentro das teorias e revoluções socialistas.

Rosa Luxemburgo. Elzbieta Ettinger. Zahar. 1996.

O fato de ser singular obedece a diversos fatores, entre os quais eu destacaria, junto com a biógrafa, o fato de ela ser descendente de judeus, sem seguir o judaísmo, de ser polonesa, um país que viveu sob dominação estrangeira em seu período de vida, uma tripla dominação, uma parte russa, outra austríaca e ainda uma terceira parte, alemã. Além disso, tinha um defeito físico, que lhe tolhia a altivez do andar. Sob um casamento de fachada, tornou-se cidadã alemã, mesmo sempre sendo considerada como uma estrangeira. Viveu, junto com as turbulências revolucionárias, também as suas turbulências pessoais, encontrando dificuldades em conciliar a sua vida familiar, afetiva e de liderança revolucionária.

Nasceu no interior da Polônia, mas a família logo mudou-se para Varsóvia, onde ela fez os seus estudos iniciais, destacando-se desde cedo como uma mente extremamente brilhante. Apesar das  dificuldades financeiras da família, foi estudar na Suíça (Zurique), onde concluiu o seu doutoramento, que versou sobre o processo de industrialização da Polônia. A saída da Polônia foi motivada para fugir de uma ordem de prisão. Revolucionária desde muito cedo.

Em Zurique se encontra com Jogiches, um revolucionário da Lituânia, com quem manterá relações por toda uma vida. Relações afetivas e revolucionárias. Essas relações foram extremamente complicadas, que fizeram bem e mal a Rosa. Seria possível conciliar uma vida amorosa com os ideais revolucionários? Ela acreditava que sim. Depois da Suíça, Rosa foi para a Alemanha, para Berlim, mais precisamente. A sua militância foi dentro do poderoso partido da Social Democracia, o SPD, onde teve ascensão fulminante. A sua voz juntava milhares de trabalhadores e a sua pena ocupava espaços nas grandes publicações operárias, especialmente na Alemanha, Polônia e na Rússia.

Rosa nunca foi de repetir teorias. Ela sempre criava as suas. Isso lhe causou muitos problemas, tanto junto aos governos, quanto em meio às próprias organizações operárias. A sua ascendência na social democracia alemã começou a incomodar a direção partidária. Ela era tida como a melhor professora na escola do Partido, sendo considerada uma professora extremamente criativa, que somava às questões teóricas da economia e da política  os grandes personagens da literatura universal.

Encontramos uma forma da expressão do seu pensar bastante significativa na seguinte passagem, quando ela militava, já morando em Berlim. "O conceito de socialismo de Luxemburgo brotou de suas divergências com Marx, o SPD e Lenin. Seus princípios fundamentais foram elaborados, ainda que de maneira muito fragmentária, em sua avaliação de 1918 da Revolução Russa, e perpassaram todo o seu trabalho. O denominador comum no conceito de socialismo de Rosa era a liberdade de 'pensar de maneira diferente'. Seu compromisso com a revolução era, fundamentalmente, uma questão moral. A Realpolitik, fosse ela concebida por Marx, Kautsky ou Lenin, era imoral e, portanto, sem valor. Luxemburgo frisava uma dimensão ética e o idealismo dos trabalhadores, enquanto Marx sublinhou as leis inexoráveis da história, Kautsky, o bem-estar dos trabalhadores, e Lenin a ditadura do proletariado. Por não ter criado uma obra abrangente sobre a mudança social, ela foi basicamente descartada como sendo uma teorizadora ou uma pensadora política inovadora. No entanto, sua contribuição nacional não foi menos válida, do ponto de vista teórico, do que a de Lenin, e foi, por certo, uma dedução coerente dos ensinamentos de Marx".

Uma das ênfases maiores de seu pensamento foi o da necessidade da internacionalização da luta dos trabalhadores, questão que deveria ser superior a dos nacionalismos, que só contribuiriam para desunir. A irrupção da primeira guerra foi terrível para a luta revolucionária, quando as lutas nacionalistas inverteram as prioridades. A nação foi posta acima dos interesses da classe trabalhadora. Esse foi o principal erro da social democracia alemã, além de priorizarem a luta parlamentar, sobre as lutas revolucionárias. Rosa ficou em diferentes prisões, praticamente ao longo de toda a primeira guerra. 

O seu fim veio em janeiro de 1919. O dela e o de seu companheiro de lutas Karl Liebknecht. Morreu assassinada pelos militares do governo social democrata alemão. Ela, primeiramente, foi vítima de uma coronhada e depois de um tiro fatal. O seu corpo foi jogado no rio Spree. Jogiches conseguiu recompor a verdade dos fatos sobre a sua morte. Antes de seu assassinato ela rompera com a social democracia alemã, fundando a Liga de Spartacus, que originou o Partido Comunista alemão. Já a Alemanha enveredou pela República de Weimar e posteriormente para a vergonhosa e desastrosa ascensão de Hitler e do regime nazista.

A biografia escrita por Elzbieta Ettinger tem 15 capítulos, um epílogo e a sua correspondência com o pai e os irmãos. A biografia foca mais a vida pessoal do que a obra teórica da revolucionária. Ela só não teve uma repercussão maior, como teórica, porque ela foi, numa linguagem dos nossos dias, cancelada por Stalin, que em 1931, a acusou de fazer do conceito de revolução de Marx uma mera caricatura. Além disso, nos conta a biógrafa, no prefácio de seu livro "Além da revolucionária renomada, porém há uma outra Rosa Luxemburgo, uma pessoa basicamente desconhecida e triplamente estigmatizada: como mulher, como judia e como aleijada. Esta biografia é primordialmente dedicada a retratar essa pessoa". 

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Números de esperança. O Brasil ainda tem jeito.

 Dei uma folga relativamente grande às atividades do blog, por estar inteiramente absorvido em uma outra atividade ao longo dos últimos meses. Terminada essa tarefa, cá estamos. Sinto falta das leituras e das resenhas dos livros, às quais retomarei em breve.

Rosas brancas. Símbolos de paz.

O post de hoje tem uma finalidade clara e precisa. Mostrar um número que, ao menos para mim, serviu de um grande alento. Também creio ser desnecessário dizer que acompanhei atentamente o último processo eleitoral, bem como o processo de transição que está em curso.

O período eleitoral foi horroroso e acompanhado de muitas preocupações. Não conseguia imaginar mais quatro anos de políticas absolutamente destrutivas para o país. E, morando em reduto nada favorável ao espírito democrático, na dita "República de Curitiba", passei momentos angustiantes, mitigados em encontros com amigos, para mutuamente nos reconfortarmos. O que seriam mais quatro anos com o poder nas mãos desses....deixo os qualificativos para o preenchimento de vocês. E eu não conseguia antever apenas quatro anos, se eles vencessem. O passado projetava mais um longo período de autocracia pela frente. 

Felizmente vencemos. O que estamos vendo é inimaginável e inacreditável. As instituições brasileiras são frágeis demais para acreditar num estabilidade democrática em bases sólidas. O golpe paira no ar permanentemente. A tênue e frágil membrana que ainda mantém a serpente dentro do ovo, está por ser rompida com o auxílio de irados insanos, que não poupam trabalho e recursos para fins inomináveis. As lições anti civilizatórias do passado não servem de lição. Que Auschwitz se repita, parece não importar.

Felizmente vencemos. Os blefes nas ruas, em breve, silenciarão. Lula já está agindo como presidente e, encantando o mundo. O Brasil está retomando protagonismo. Sei que os números finais do processo eleitoral não foram dos melhores, mas quero apresentar alguns que me fizeram muito bem. Eles são um bom e animador indicativo.

Eis os números. Eles são um comparativo entre os anos de 2018 e 2022, das eleições para presidente da República.. Em 2018, o inominável se elegeu presidente com 57.797.847 votos. Já em 2022 ele foi derrotado com 58.206.354 votos. Teve, assim, 408.507 votos a mais do que em 2018. Vamos agora ver o outro lado.

Haddad em 2018, no segundo e decisivo turno, perdeu as eleições com a soma de 47.040.906 votos. Já o presidente Lula, venceu agora, em 2022, com 60.345.999 votos. Vejamos a diferença, o crescimento entre 2018 para 2022. 13.305.093 votos. É muito animador e muito mais animador ainda, quando lembramos de todas as dificuldades enfrentadas ao longo desse terrível processo eleitoral.

Entre 2018 e 2022, um crescimento de 13.305.093 votos. Números de esperança.

                                                            XXXXXXXXX

Um adendo. Em 04.01.2023. Do Blog do Noblat.

"O Partido dos Trabalhadores é o maior vencedor de eleições presidenciais do Brasil. Ganhou cinco das oito eleições da Nova República. Ficou em segundo lugar em todas as que perdeu. Esteve em todos os segundos turnos (Folha). 

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Le Goff e Dostoiévski falam sobre a mentira.

O Brasil de 2022 se transformou no país governado pela mentira. É simplesmente inacreditável o que está acontecendo. Um enorme abismo poderá estar voltando seus olhos sobre nós. A situação é extremamente preocupante. Quero aqui registrar duas passagens clássicas sobre a mentira. A primeira é do grande medievalista, Jacques Le Goff, retirada de seu livro A civilização do ocidente medieval. Vejamos:

O monumental livro de Jacques Le Goff.

"Antes de chegar lá, os homens da Idade Média tiveram que lutar contra uma impressão generalizada de insegurança, e o combate não tinha chegado ao fim no século 13. Sua grande perturbação provém de que os seres e as coisas não são realmente o que parecem. O que a Idade Média mais detesta é a mentira. O epíteto natural de Deus é 'aquele que nunca mente'. Os maus são mentirosos. 'Vós sois um mentiroso, Fernando de Carrion', diz Pero Bermuez na cara de um infante, e Martin Antolinez, outro companheiro do Cid, joga na cara do segundo infante: 'Fechais vossa boca, mentiroso, boca-sem-verdade'. A sociedade é feita de mentirosos. Os vassalos são traidores, félons (vassalo traidor) que renegam seu senhor, êmulos de Ganelão (traidor famoso dos francos), e, depois dele, do grande protótipo de todos: Judas. Os mercadores são fraudadores que só pensam em enganar e roubar. Os monges são hipócritas, tal Falso-Semblante, personificado no Roman de la Rose por um franciscano. O vocabulário medieval é de extraordinária riqueza para designar os inumeráveis tipos de mentira e as infinitas espécies de mentirosos. Até os profetas podem ser falsos profetas, e os milagres, falsos milagres, obras do Diabo. É que o domínio do homem medieval sobre a realidade é tão fraco que ele deve valer-se da astúcia para levar a melhor. Pode-se pensar que aquela sociedade belicosa tudo ganhava ao atacar. Grande ilusão. As técnicas eram tão medíocres que a resistência quase sempre prevalecia sobre a ofensiva. Mesmo no domínio militar, os castelos e as muralhas eram quase
impenetráveis. Quando o invasor os forçava, era quase sempre pela astúcia. A totalidade de bens colocados à disposição da humanidade medieval era tão insuficiente que para viver era preciso 'se arranjar'. Aquele que não tinha força ou astúcia estava quase que com certeza fadado a perecer. O que é seguro e quem é seguro? Da imensa obra de Santo Agostinho, a Idade Média deu atenção especial ao tratado De Mendacio (Da mentira)".

Texto extraído de: LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Bauru, EDUSC, 2005. Páginas 354-355.

A segunda é de Dostoiévski, retirada de Os irmãos Karámazov. Já li o livro duas vezes, mas a citação me veio através do facebook, numa postagem de Paulo Wendling, que mostrava um artigo do arcebispo de Manaus, D. Leonardo Steiner de Em Tempo, datado de 15 e 16 de novembro de 2022. O título do texto é Da verdade. A citação abre o texto e reflete o atual momento que estamos vivendo na política brasileira. Uma aula sobre a condição humana do mentiroso.

"Quem mente a si mesmo e escuta as próprias mentiras, chega ao ponto de já não poder distinguir a verdade dentro de si mesmo nem ao seu redor, e assim começa a deixar de ter estima de si mesmo e dos outros. Depois, dado que já não tem estima de ninguém, cessa também de amar, e então na falta de amor, para se sentir ocupado e distrair, abandona-se às paixões e aos prazeres triviais e, por culpa dos seus vícios, torna-se como uma besta; e tudo isso deriva do mentir contínuo aos outros e a si mesmo".

Sem comentários.


terça-feira, 18 de outubro de 2022

A língua - para o bem ou para o mal. Uma lenda do candomblé.

 Ainda ando meio impactado com a viagem que empreendemos, em maio, para Salvador e Santo Amaro da Purificação. Em Santo Amaro tivemos contato com a festa do Bembé do Mercado, uma festa que ocorre desde 1889. É uma festa, simultaneamente, de gratidão e de resistência. Ela é uma festa do candomblé, única, realizada em espaço público, o espaço do mercado da cidade.

Depois do contato com essa festa, que se realiza há 133 anos, comecei a me interessar mais pelo candomblé e pela sua expressão através dessa longeva festa. Santo Amaro, junto com outras cidades do Recôncavo Baiano, formaram o coração da escravidão baiana. Foi o grande centro da economia açucareira, economia que trouxe para o Brasil a escravidão. Já de volta para Curitiba, me embrenhei em muitas leituras e entrei em contato com a obra de Reginaldo Prandi, hoje, o maior estudioso do país das religiões brasileiras de origem africana.

Mitologia dos orixás. Reginaldo Prandi. Companhia das Letras. 2022. 1ª edição: 2001.

O seu livro Mitologia dos orixás (o candomblé é a religião dos orixás), editado pela Companhia das Letras, já está em sua 33ª reimpressão, tal é o interesse pelo tema. No livro são relatados 301 dos incontáveis mitos dos ancestrais africanos, reis e heróis dos povos iorubás (parte da Nigéria) que se transformaram em divindades, que se transformaram em orixás. No candomblé existe um deus criador, Olorum ou Olodumare, (Olofim, nas santerias cubanas), que, após a criação do universo, entregou a governança do mundo aos seus orixás. São eles, que através de seus feitos heroicos, se transformaram em divindades.

Os mitos são muito bonitos e significativos. A maioria tem a sua procedência na observação dos fenômenos da natureza e se incorporaram nesses fenômenos da própria natureza. Por isso a sua preservação é de fundamental importância. A mediação dos orixás com os humanos se dá através dos babalaôs, os sacerdotes dessa religião. Os babalaôs, na versão brasileira, são as mães e os pais de santo, que regem o povo de santo nos terreiros.

Mas, como convite para a leitura, peço uma licença toda especial ao grande pesquisador Reginaldo Prandi, para apresentar uma das lendas do livro, como um aperitivo, como uma pequena amostra das maravilhas que livro nos reserva. É a história de número 271, contada nas páginas 466-467 do livro. Ela versa sobre os poderes benéficos ou maléficos da língua e tem por título, Orunmilá (o primeiro babalaô, o detentor dos segredos) recebe de Obatalá (o criador dos humanos) o cargo de babalaô. Vejamos:

"Fazia muito tempo // que Obatalá admirava a inteligência de Orunmilá // Em mais de uma ocasião // Obatalá pensou em entregar a Orunmilá o governo do mundo. // Pensou em entregar a Orunmilá o governo dos segredos, // os segredos que governam o mundo // e a vida dos homens. // Mas quando refletia sobre o assunto // acabava desistindo. // Orunmilá, apesar da seriedade de seus atos, // era muito jovem para missão tão importante. // Um dia Obatalá quis saber se Orunmilá era // tão capaz quanto aparentava // e lhe ordenou que preparasse a melhor comida // que pudesse ser feita.

Orunmilá preparou uma língua de touro // e Obatalá comeu com prazer. // Obatalá, então perguntou a Orunmilá por qual razão // a língua era a melhor comida que havia. // Orunmilá respondeu: // 'Com a língua se concede axé, // se ponderam as coisas, // se proclama a virtude, // se exaltam as obras // e com seu uso os homens chegam à vitória'. // Após algum tempo, Obatalá pediu a Orunmilá // para preparar a pior comida que houvesse. // Orunmilá lhe preparou a mesma iguaria. //Preparou língua de touro.

Surpreso, Obatalá lhe perguntou como era possível // que a melhor comida que havia fosse agora a pior. // Orunmilá respondeu: // 'Porque com a língua os homens se vendem e se perdem. // Com a língua se caluniam as pessoas, // se destrói a boa reputação // e se cometem as mais repudiáveis vilezas'. // Obatalá ficou maravilhado com a inteligência // e precocidade de Orunmilá. // Entregou a Orunmilá nesse momento o governo dos segredos. // Orunmilá foi nomeado babalaô, // palavra que na língua dos orixás quer dizer pai do segredo. // Orunmilá foi o primeiro babalaô".

Na cultura ocidental, certamente, chamaríamos essa história da mitologia dos povos iorubás de fábula. E quanta atualidade há nessa magnífica fábula. Se gostou, no livro tem ainda trezentas outras dessas histórias, um prólogo maravilhoso de iniciação ao candomblé e um riquíssimo acervo de fotografias. Está feita a recomendação. Observem ainda a arte poética do autor, ao contar essas histórias.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Salvador. Rua Alagoinhas 33. A Casa do Rio Vermelho.

Em maio de 2022 eu e o meu amigo Valdemar Reinert estivemos em Salvador. A nossa intenção primeira era a de assistir ao show de Caetano Veloso Meu Coco, no famoso e histórico Teatro Castro Alves. Em 1968 ele fora o palco de despedida de Caetano e Gil, no rumo de seus exílios. Tempos de endurecimento de um regime que não tolerava a democracia e a arte de seu povo. Mas a viagem foi muito mais.

Além das maravilhas de Salvador, de seu histórico Pelourinho, onde se localizava a Tenda dos Milagres do Jorge Amado, por ele transformada na Universidade Popular do Pelourinho, sob a chancelaria de mestre Pedro Archanjo e Magé Bassã; Conhecemos também o Dom Quixote do Pelourinho, na pessoa do "eterno menino", Clarindo Silva em sua "Cantina da Lua", além da Ilha de Itaparica e da terra de Dona Canô e do Bembé do Mercado, que é a cidade de Santo Amaro da Purificação, cidade do Recôncavo, onde experimentamos os sabores e sentimos os odores da cozinha da Bahia, no acolhedor "Lá em Carla".

A casa famosa, no endereço famoso. Rua Alagoinhas 33.

Mas uma das melhores visitas que fizemos foi num lugar que se tornou enormemente famoso. Lugar descrito em livro e transformado em local de romaria cultural. Dou o endereço. Rua Alagoinhas número 33, no bairro do Rio Vermelho. O local foi adquirido com direitos autorais da passagem de uma de suas obras para as telas do cinema. Visitamos a casa de Zélia Gattai e de Jorge Amado. Um local contagiante que transpira as alegrias dos sentimentos maiores do ser humano, como o cultivar amizades. Um local de encontro das maiores intelectualidades do século XX.

Não quero eu me por a falar da Casa. Vou transcrever o escrito de quatro cartazes e mostrar algumas fotografias desse lugar pleno de magia e de energia e deixar uma recomendação de leitura. Mas antes
quero deixar o escrito que tomei de um livro que lá eu estava folheando. Trata-se de Carybé - Verger e Jorge. A frase é de Carybé, um visitante assíduo da casa, e que me fez muito bem, por isso vou deixá-la em maiúsculo:

O busto do escritor, na casa famosa. 

"ENTREI PARA O CANDOMBLÉ PORQUE GOSTO. É A MELHOR RELIGIÃO. NÃO TEM INFERNO NEM PECADO E OS DEUSES, EM ÚLTIMA INSTÂNCIA, SÃO OS RIOS, O MAR, A FLORESTA, O VENTO, A CHUVA. OXUMARÉ É O ARCO ÍRIS. NA BAHIA É TRADIÇÃO". CARYBÉ.  Uma religião sem culpa.

No primeiro cartaz ou quadro a casa é apresentada. Ela leva o título de A Casa do Rio Vermelho e diz o seguinte:

Nos jardins da casa.

Revelar aos baianos, brasileiros e turistas a intimidade de Jorge e Zélia é mais do que um investimento em cultura ou turismo; é preservar a alma e a essência do povo baiano, ajudando a manter viva a memória que nos remete à nossa própria identidade e à construção dos nossos valores mais genuínos. Esperamos que a casa do Rio Vermelho seja, além de um memorial que conta a história de amor de um casal e como essa relação contagiou o mundo inteiro e todos aqueles que pela Rua Alagoinhas número 33 passaram, também seja fonte de inspiração permanente para o surgimento de novos talentos literários e pensadores libertários. Viva Jorge Amado! Viva Zélia Gattai!

Um tabuleiro de sabores e odores.

O segundo quadro é uma referência ao mundo de pessoas recebidas pelo casal, sob a beleza do que se chama de hospitalidade. O título é: A Amizade é o Sal da Vida. Vejamos:

Jorge Amado e Zélia Gattai foram pessoas agregadoras e, ao longo da vida, formaram uma grande coleção de amigos, vindos de todas as partes do mundo, das mais diferentes origens e ocupações. Muitos desses amigos foram importantes nomes da cultura e do pensamento do século XX. A Casa do Rio Vermelho esteve sempre aberta a eles, numa permanente celebração à alegria de viver e à união entre as pessoas. 

Uma obra de arte na apresentação da casa.

O terceiro quadro nos apresenta a Bahia. Ele tem mesmo esse título. A Bahia de Jorge Amado. Nele lemos:

A Bahia de Jorge Amado é a terra da mistura e da mestiçagem. É preta, parda, índia, branca. É a terra da diversidade e da convivência de diferentes crenças e religiões. É também terra violenta e desigual, com seus coronéis, jagunços e pistoleiros; seus heróis do povo, suas mulheres guerreiras. É a terra dos sabores e cheiros, da dança, do suor, dos amores cheirando a sexo, cravo e canela. Terra habitada por uma gente que, mesmo na pobreza e na adversidade, sabe dar valor à vida, em tudo o que ela significa de luz e alegria. E eu acrescento: Por toda essa sua diversidade, ela é terra para múltiplas aprendizagens. Não se aprende com o eco da própria voz.

Com o quarto quadro, rendo um tributo a Jorge Amado, pela sua luta em favor da Liberdade Religiosa. Foi dele, na qualidade de deputado constituinte, a inscrição em nossa Constituição de 1946 do artigo sobre esta liberdade e que depois nunca mais deixou de constar nas Constituições posteriores. Ela tem por título: Jorge e o Candomblé.

Jorge Amado também cultivava seus santos de admiração.

Depois que foi apresentado à magia do candomblé, aos 15 anos de idade, Jorge Amado se tornou frequentador assíduo dos terreiros. Filho de Oxóssi, foi amigo das grandes mães de santo de Salvador e lutou de forma incansável contra a violência e a intolerância e a favor da liberdade religiosa no Brasil. Essa luta de uma vida inteira transformou Jorge Amado em um dos mais importantes defensores do candomblé e da cultura negra na Bahia.

Devo ainda registrar que na saída passando pela lojinha que vende os livros do casal de escritores, além de lembrancinhas, e depois de uma longa conversa com a senhora que toma conta dessa lojinha, fomos por ela agraciados com o livro O Universo de Jorge Amado, um livro distribuído gratuitamente pela Companhia das Letras. Na capa se lê - caderno de leituras. Orientações para o trabalho em sala de aula. Ele também está à venda.

O livro com o qual fomos agraciados.

E, em sua próxima visita a Salvador anote em sua agenda a visita na rua Alagoinha número 33. A senhora da lojinha nos deu o espírito da casa. "Lá no Pelourinho, na Fundação, está a sua obra, mas aqui, na sua casa, está a sua vida". Memorável. Vejamos ainda a resenha do livro da Zélia. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/03/a-casa-do-rio-vermelho-zelia-gattai.html 


sábado, 10 de setembro de 2022

Galinhas. Reflexões de um anarquista sobre a propriedade privada. Rafael Barret.

Encontrei este texto clicando no Google - Biblioteca Terra Livre. Conto "Galinhas". Rafael Barret. Aí aparece este texto maravilhoso, uma produção genial saída de uma mente anarquista. Rafael Barret é espanhol, nascido em Torrelavega no ano de 1876 e que morreu na cidade de Arcachon, na França, em 1910. A sua vida literária foi desenvolvida em terras paraguaias. O autor começa a ter preocupações na vida, e preocupações sérias, quando começou a ter uma propriedade, a propriedade de uma galinha, apenas uma galinha. 

A fonte do texto portanto é a Revista Terra Livre n.° 2. O mordaz e satírico conto diz assim:

Já tem um cachorro intruso.

"Enquanto não possuía mais que minha cama e meus livros, fui feliz. Agora possuo nove galinhas e um galo e minha alma está perturbada. A propriedade me tornou cruel. Sempre que comprava uma galinha, a prendia por dois dias em uma árvore, para impô-la ao meu domicílio, destruindo em sua frágil memória o amor a sua antiga residência. Remendei a cerca do meu quintal, para evitar a evasão das minhas aves e a invasão de raposas de quatro e de dois pés.

Me isolei, fortifiquei minha fronteira, tracei uma linha diabólica entre meu próximo e eu. Dividi a humanidade em duas categorias: eu, dono das minhas galinhas e os demais, que podiam roubá-las. Defini o delito. O mundo para mim se encheu de supostos ladrões e pela primeira vez lancei para  o outro lado da cerca um olhar hostil.

Meu galo era muito jovem. O galo do vizinho saltou a cerca e começou a fazer corte às minhas galinhas e a amargurar a existência do meu galo. Expulsei o intruso a pedradas, mas ele saltava a cerca e voava para a casa do vizinho. Reclamei os ovos e o vizinho me aborreceu. Desde então vi sua cara sobre a cerca, seu olhar inquisidor e hostil, idêntico ao meu. Seus frangos passavam pela cerca e devoravam o milho molhado que deixava para os meu. Os frangos alheios me pareciam criminosos.

Tentando a fuga pela cerca.


Persegui eles e cegado pela raiva, matei um. O vizinho atribuiu uma importância enorme ao atentado. Não quis aceitar uma indenização monetária. Retirou o cadáver do seu frango de modo muito sério e, no lugar de comê-lo, mostrou a seus amigos, começando a circular pelo povo a lenda da minha brutalidade imperialista. Tive que reforçar a cerca, aumentar a vigilância, elevar em uma palavra, meu pressuposto de guerra. O vizinho dispõe de cão disposto a tudo; eu penso em adquirir um revólver.

Onde está a minha tranquilidade? Estou envenenado pela desconfiança e pelo ódio. O espírito do mal se apoderou de mim. Antes era um homem. Agora sou um proprietário".

Ah, esses anarquistas!


segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Escravidão. Volume III. Da independência à Lei Áurea. Laurentino Gomes.

 Como Laurentino Gomes escreveu uma trilogia sobre a escravidão brasileira, antes de fazer a resenha do terceiro volume, apresento o link da resenha dos volumes I e II, já feitas nesse blog.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/03/escravidao-volume-1-laurentino-gomes.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/10/escravidao-volume-ii-laurentino-gomes.html

O terceiro volume da trilogia Escravidão. Globo Livros. 2022.

Apresento também os subtítulos dos três volumes. O título geral é Escravidão. O subtítulo do volume I é Do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares, o do volume II é Da corrida do ouro em Minas Gerais até a chegada da corte de dom João ao Brasil e o do volume III é Da Independência do Brasil à Lei Áurea. O terceiro volume é o mais volumoso deles. São quase 600 páginas de muito conteúdo. Ao todo, a soma dos três volumes atinge praticamente 1500 páginas, passando pelo tráfico, pela análise do sistema da escravidão, até a abolição, que, de fato não existiu. A desigualdade pela qual o Brasil passa ainda nos dias de hoje é um reflexo de que no Brasil pode ter havido um processo de  abolição da escravidão, mas não a sua obra, usando uma afirmação de Joaquim Nabuco.

O terceiro volume está estruturado em 29 capítulos e, conforme o subtítulo nos indica, ele faz a abordagem desde os tempos da independência até a abolição, de 1822 a 1888, portanto. A proclamação da independência, nada significou para a população brasileira escravizada. José Bonifácio era praticamente uma voz solitária na abordagem dessa  questão nessa época. Como os títulos dos capítulos são curtos, eu os apresento. Depois vou me deter em alguns deles.

Cap. I. Folguedos da libertação (um panorama geral do período); cap. II. O comendador (Sousa Breves, um símbolo da escravidão nesse período, já dominado pela lavoura cafeeira no vale do rio Paraíba); cap. III. Os esquecidos (por óbvio, os escravizados, não atingidos pela independência); cap. IV. Para inglês ver (a lei de 1831 que aboliu o tráfico negreiro, assinado junto a Inglaterra); cap. V. Hipocrisia (as relações comerciais com a Inglaterra, sem levar em conta a lei de 1831); cap. VI. Honoráveis beneméritos (traficantes benfeitores da humanidade e cidadãos exemplares); cap. VII. Barões e fidalgos (a distribuição de comendas da nobreza no vale do Paraíba, o coração escravista ao longo do século XIX).

Capítulo VIII. O Império escravista (O cotidiano escravista nas fazendas de café do vale do Paraíba); cap. IX. Vende-se, compra-se, aluga-se (Trabalho desumanizante, as diferentes formas de escravidão. Escravos de ganho, de aluguel, amas de leite, além de outras formas ainda menos dignas. Aborda também a questão de uma linguagem escravista); cap. X. O Valongo (o centro de comercialização dos escravizados no Rio de Janeiro); cap. XI. A testemunha (A história da escravidão é contada por brancos); cap. XII. O amigo do rei (os traficantes africanos, amigos dos reis - enquanto houver comprador, nós venderemos); cap. XIII. Nã Agotimé (A escravização de nobres e de reis africanos).

Capítulo XIV. Angola, frente e verso (As dores de Angola - o comércio de escravos); cap. XV. Medo, morte e repressão (24 de janeiro de 1835, a rebelião dos malês); cap. XVI. Manual do cativeiro (sob o princípio de que - quem se diverte não conspira. Como lidar com os escravizados para não chicotear 24 horas por dia. A dosagem entre a severidade e a "brandura", para evitar as rebeliões); cap. XVII. Na mira dos canhões (dos canhões ingleses. Lei Eusébio de Queirós - abolição do tráfico - 1850);  cap. XVIII. No limbo (Como eram tratados os ex escravizados, os alforriados. O tratamento dado aos lanceiros negros na Revolução dos Farroupilha); cap. XIX. Apogeu e queda (depois de 1870, ao término da Guerra do Paraguai, os alicerces da monarquia começam a tremer. Lei do Ventre Livre e Sexagenários). 

Capítulo XX. Os abolicionistas (Os radicais e os do interior do sistema); cap. XXI. O precursor (Luiz Gama, o famoso e temido Dr. Gama). cap. XXII. A conversão (Fatos marcantes que levaram ao abolicionismo: Luiz Gama, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e André Rebouças); cap. XXIII. Terra da luz (Ceará e Amazonas - os estados precursores da abolição. A lavoura cafeeira como polo de resistência); cap. XXIV. Reação (As resistências à abolição. A sedimentação de ódios e preconceitos); XXV. Aliança escravocrata (A vinda ao Brasil dos escravocratas confederados dos Estados Unidos); XXVI. Maré Branca (As teorias do branqueamento. O latifúndio permanece intocado. 1850 e a lei da terra no Brasil. 1862 e o Homestead Act nos USA).

Capítulo XXVII. Pânico (o clima pré emancipação. As rebeliões escravas e a aliança com os abolicionistas); cap. XXVIII. Isabel (Sua fragilidade. A agonia do império. José do Patrocínio e o título de Isabel - A Redentora. O 13 de maio X 20 de novembro); cap. XXIX. O dia seguinte (Da euforia à depressão. As favelas. A manutenção da brutal desigualdade).

Laurentino Gomes deu também três entrevistas ao Programa Roda Viva da TV Cultura de São Paulo. Recomendo muito assistir ao terceiro, sobre o terceiro volume. O ponto alto da entrevista é o relato sobre as transformações pessoais por ele sofridas ao longo da escrita da obra, transformações de vida, do modo de vê-la ao adquirir uma maior compreensão do nosso processo histórico. Quanto ao livro, ele é maravilhoso do começo ao fim, mas eu anotei alguns capítulos em particular, como os de número IX XV e XVI, XXII, XXV e XXVI.

Do capítulo IX, destaco a questão da linguagem. A linguagem é um importante passo para aquilo que hoje se chama de racismo estrutural. Do XV, o destaque se dá em função da revolta dos malês, na Bahia, em 1835, um capítulo pouco estudado em nossos livros escolares. Para mim o capítulo que mais me chamou a atenção foi o de número XVI. Os escravagistas chegaram a escrever um manual de como deveriam tratar os escravizados para que eles não se rebelassem. Tentaram construir uma espécie de hegemonia, para não usarem permanentemente a violência do chicote, o das chibatadas e açoites. Castigo em demasia, embrutece e o embrutecimento tem consequências imprevisíveis.

O destaque do capítulo XXIV é para a presença dos escravocratas confederados, que depois da Guerra da Secessão vieram se estabelecer aqui no Brasil, para continuarem a usufruir do sistema da escravização. Tentaram em vários lugares, mas os maiores êxitos estão relacionados à região de Americana em São Paulo. O destaque para o capítulo XXVI vai para a questão da terra, da reforma agrária. Que oportunidade perdida! Joaquim Nabuco e André Rebouças tiveram uma grande visão relativa a essa questão.

Enfim, a minha recomendação para a leitura do livro. Este terceiro volume vai para muito além da escravidão. Ele é um belo livro sobre o Segundo Reinado, a queda da monarquia e a instauração de uma República, nada republicana. Além disso é uma obra completa, não definitiva. Ele fornece as informações, os fatos históricos e os referenciais de análise também são excelentes, basta conferir a bibliografia usada  nesses seus livros. Super recomendo, especialmente quando completamos 200 anos de independência e o Brasil parece tentar não lembrar de sua história, ao não promover debates sobre a efeméride. Estaríamos praticando um historicídio, como denunciaram alguns historiadores, em texto do dia 03.09.2022 na Folha de S.Paulo.  

Deixo ainda o segundo parágrafo da orelha da capa do Livro: "A escravidão era, na definição de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, 'um cancro que contaminava e roía as entranhas da sociedade brasileira'. Disseminado por todo o território, o escravismo perpassava todas as atividades e todas as classes sociais. Ricos e pobres, fazendeiros, comerciantes e profissionais urbanos, instituições públicas e privadas, ordens religiosas, bispos e padres, brancos, mestiços e mesmo negros libertos - todos, indistintamente, eram donos de escravos ou almejavam sê-lo. Maior território escravista da América em 1822, o Brasil assim se manteria até o final do século XIX, com sua rotina pautada pelo chicote e pela violência contra homens e mulheres escravizados".


sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito!

Não poderia deixar de fazer a minha parte diante deste importante documento documento para a história brasileira. Contribuir com a sua divulgação. Tomei a carta diretamente do site da Universidade de São Paulo. Por óbvio, o documento não precisa de comentários. Hoje é 12 de agosto e gostaria apenas de destacar a enorme repercussão que ele teve no dia de ontem, 11 de agosto, um dia especial para o direito, com a criação dos primeiros cursos no Brasil. A carta já tem mais de um milhão de assinaturas. Um documento que fará história. Parabéns a todos os democratas envolvidos.

Atenas. Cidade símbolo da democracia. Foto de minha autoria.

Em agosto de 1977, em meio às comemorações do sesquicentenário de fundação dos Cursos Jurídicos no País, o professor Goffredo da Silva Telles Junior, mestre de todos nós, no território livre do Largo de São Francisco, leu a Carta aos Brasileiros, na qual denunciava a ilegitimidade do então governo militar e o estado de exceção em que vivíamos. Conclamava também o restabelecimento do estado de direito e a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte.

 

A semente plantada rendeu frutos. O Brasil superou a ditadura militar. A Assembleia Nacional Constituinte resgatou a legitimidade de nossas instituições, restabelecendo o estado democrático de direito com a prevalência do respeito aos direitos fundamentais.

 

Temos os poderes da República, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, todos independentes, autônomos e com o compromisso de respeitar e zelar pela observância do pacto maior, a Constituição Federal.

 

Sob o manto da Constituição Federal de 1988, prestes a completar seu 34º aniversário, passamos por eleições livres e periódicas, nas quais o debate político sobre os projetos para país sempre foi democrático, cabendo a decisão final à soberania popular.

 

A lição de Goffredo está estampada em nossa Constituição “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de seus representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.

 

Nossas eleições com o processo eletrônico de apuração têm servido de exemplo no mundo. Tivemos várias alternâncias de poder com respeito aos resultados das urnas e transição republicana de governo. As urnas eletrônicas revelaram-se seguras e confiáveis, assim como a Justiça Eleitoral.

 

Nossa democracia cresceu e amadureceu, mas muito ainda há de ser feito. Vivemos em país de profundas desigualdades sociais, com carências em serviços públicos essenciais, como saúde, educação, habitação e segurança pública. Temos muito a caminhar no desenvolvimento das nossas potencialidades econômicas de forma sustentável. O Estado apresenta-se ineficiente diante dos seus inúmeros desafios. Pleitos por maior respeito e igualdade de condições em matéria de raça, gênero e orientação sexual ainda estão longe de ser atendidos com a devida plenitude.

 

Nos próximos dias, em meio a estes desafios, teremos o início da campanha eleitoral para a renovação dos mandatos dos legislativos e executivos estaduais e federais. Neste momento, deveríamos ter o ápice da democracia com a disputa entre os vários projetos políticos visando convencer o eleitorado da melhor proposta para os rumos do país nos próximos anos.

 

Ao invés de uma festa cívica, estamos passando por momento de imenso perigo para a normalidade democrática, risco às instituições da República e insinuações de desacato ao resultado das eleições.

 

Ataques infundados e desacompanhados de provas questionam a lisura do processo eleitoral e o estado democrático de direito tão duramente conquistado pela sociedade brasileira. São intoleráveis as ameaças aos demais poderes e setores da sociedade civil e a incitação à violência e à ruptura da ordem constitucional.

 

Assistimos recentemente a desvarios autoritários que puseram em risco a secular democracia norte-americana. Lá as tentativas de desestabilizar a democracia e a confiança do povo na lisura das eleições não tiveram êxito, aqui também não terão.

 

Nossa consciência cívica é muito maior do que imaginam os adversários da democracia. Sabemos deixar ao lado divergências menores em prol de algo muito maior, a defesa da ordem democrática.

 

Imbuídos do espírito cívico que lastreou a Carta aos Brasileiros de 1977 e reunidos no mesmo território livre do Largo de São Francisco, independentemente da preferência eleitoral ou partidária de cada um, clamamos as brasileiras e brasileiros a ficarem alertas na defesa da democracia e do respeito ao resultado das eleições.

 

No Brasil atual não há mais espaço para retrocessos autoritários. Ditadura e tortura pertencem ao passado. A solução dos imensos desafios da sociedade brasileira passa necessariamente pelo respeito ao resultado das eleições.

 

Em vigília cívica contra as tentativas de rupturas, bradamos de forma uníssona:

 

Estado Democrático de Direito Sempre!!!!

 

Faça parte dessa história. Assine a Carta.

 

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Porto Feliz - Mondaí. O centenário da colonização (1922-2022).

Esta é a segunda vez que a cidade de Mondaí comparece no meu blog. A primeira, foi com o livro Um novo lar na imensidão da mata, que relata as memórias da família Ramminger, que chegava em Porto Feliz, o nome de então, da hoje cidade de Mondaí, no ano de 1922. O livro, da editora Oikos, publicado no ano 2020, é organizado pelo historiador Leandro Mayer. O livro é simplesmente a saga de uma família pioneira. Deixo o link da resenha. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/07/um-novo-lar-na-imensidao-da-mata.html

Agora é a vez de outro livro, Porto Feliz - Mondaí. O centenário da colonização (1922-2022). O livro, da editora Schreiben é organizado também por um historiador, Douglas Orestes Franzen. Mas, poderiam me perguntar, por que eu alimento esse interesse por esta cidade? A resposta é simples. Dois motivos me movem para isso. Em primeiro lugar, eu tenho um irmão que mora na cidade e que mandou esses livros e, em segundo lugar, porque a nossa família tem muito a ver com toda a história relatada nesse maravilhoso livro. A nossa família é de origem alemã. E Porto Feliz- Mondaí é uma cidade de origem alemã. Basicamente ela foi colonizada pelos colonos pioneiros, que aportaram em São Leopoldo, há quase 200 anos, no já longínquo ano de 1824, na cidade gaúcha de São Leopoldo.


Porto Feliz - Mondaí. O centenário da colonização (1922-2022). Ed. Schreiben. 2022. Livro organizado por Douglas Orestes Franzen.

O meu irmão Hédio José Rech, de certa forma também é um pioneiro nesse extremo oeste catarinense, para onde foi nos idos da década de 1960. Foi para ser professor e se estabeleceu, depois de algumas andanças, na comunidade de Catres. Hoje mora na cidade. Ele foi recrutado para ser professor e também passou por inúmeras dificuldades até ser formalmente contratado como professor pelo estado de Santa Catarina. A nossa família é natural de Harmonia, que na época era o terceiro distrito de Montenegro. Já visitei o meu irmão em várias oportunidades. Eis a minha relação com a cidade. Também me move a satisfação de colaborar, por mínimo que seja, com a divulgação desse valioso livro. 

O livro tem um valor inestimável. Livro de preservação de memória. Ele deve ter dado um bom
trabalho ao seu organizador, pois diferentes pesquisadores fazem as mais diferentes abordagens relativas ao histórico desenvolvido ao longo dos cem anos da história de Mondaí. Ao longo de 361 páginas são desenvolvidos os principais fatos históricos e culturais do município, junto com um rico acervo bibliográfico acompanhado de fotografias históricas coletadas junto às famílias dos pioneiros ou retiradas ou de um museu existente na cidade, o  Museu Pastor Karl Ramminger.

Donde vieram os pioneiros? A maioria veio das antigas colônias alemãs do Rio Grande do Sul, das colônias originárias de São Leopoldo e São José do Hortêncio, da década de 1820. As terras ao longo dos vales dos rios Sinos, Caí, Taquari, começam a ficar escassas, para os numerosos filhos que as famílias geralmente tinham. Novas fronteiras precisavam ser buscadas. É nesse contexto que é ocupada a fronteira oeste do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná. Trago bem presente na memória esse fenômeno que eu vivi na minha infância nos anos 1950. Sempre havia vizinhos de partida.

Especificamente a colonização de Porto Feliz-Mondaí se deu a partir da cidade de Panambi (Neu-Wittemberg). Ali tinha sede a companhia colonizadora Chapecó-Peperi, que estendeu os seus laços comerciais para além do rio Uruguai, nas terras catarinenses. A cidade de Panambi, historicamente tem a ver com a religião protestante, influência que foi levada para a nova colônia do então Porto Feliz. Isso tudo é bem contado ao longo do livro. Lá em Harmonia, onde só havia católicos, junto com Bom Princípio e Tupandi, lembro que se falava mais de Porto Novo, atual Itapiranga, para onde foram direcionados as famílias dos católicos. Coisas da colonização. Hoje o espírito ecumênico prevalece. O tempo aproximou os credos e todos convivem harmoniosamente.

Outros pioneiros vieram diretamente da Europa e de maneira toda especial, da Alemanha, que vivia os problemas do pós Primeira Guerra. Um fato interessante é que vários migrantes também vieram da Bessarábia (Romênia), país do qual não temos tantos imigrantes. O rio Uruguai foi fundamental nessa nova frente de colonização. Era a grande via desses tempos de pioneirismo. 

A ocupação como demarcação de fronteiras também teve importância nessa história de povoação do extremo oeste catarinense. Chapecó era até então a última fronteira e o município mãe de toda essa região. As fronteiras que deveriam ser demarcadas eram as que dividiam o Paraná com Santa Catarina (Pós guerra do Contestado - 1912-1916) e  entre o Brasil e a Argentina. 

Três fatos históricos mereceram de minha parte maior atenção. O primeiro deles foi a passagem por ali, no ano de 1925, da Coluna Prestes, que gerou grande pânico entre os colonos. O outro fato foi a crise sanitária decorrente dos animais mortos pela passagem da Coluna e a contaminação provocada, que resultou numa grave epidemia de tifo, que vitimou muitos colonos. Creio que dá perfeitamente para imaginar o tamanho da tragédia, agravada pela total falta de recursos, em todos os sentidos. Mas, com certeza o fato mais significativo, foi o que aconteceu nos anos 1930 e agravada ao longo do Estado Novo (1937-1945), com a ditadura de Getúlio Vargas. O Brasil entra na Segunda Guerra, declarando guerra a Alemanha. O alemão passa a ser língua proibida. É inimaginável a violência que se estabeleceu na região por causa desse problema. Muitas prisões e torturas aconteceram nesses pacatos locais. Quem minimamente conhece essas  colônias alemãs sabe, que ainda hoje, a língua mais falada e preferida continua sendo o alemão. Esse período recebeu a denominação de nacionalização.

Outro fato que me  chamou bastante atenção foi o do interesse da cidade com a preservação de sua memória e de seus marcos culturais. Creio que as universidades das grandes cidades mais próximas, como Chapecó e Passo Fundo tem bastante a ver com isso, e isso é muito bom.

Por tudo isso eu mais do que recomendo a leitura e, para dar um melhor panorama do livro ainda deixo a síntese  apresentada na orelha da capa e contracapa. Vejamos: A fundação de Porto Feliz. "Pode-se considerar como data de fundação de Porto Feliz o dia 20 de maio de 1922 que ao mesmo tempo marca o início da colonização do extremo oeste de Santa Catarina.

Nesse dia, Faulhaber, na qualidade de diretor da Empresa Chapecó-Peperi Ltda., pisou as terras da nova colônia para determinar o local de sua sede.

O diretor Faulhaber partiu de Nonoai na pequena lancha a motor de Camilo Picou. Seguiu Uruguai abaixo acompanhado por seus homens de confiança, os colonos Jacob Schüler e Friedrich Forbrig, de Neu-Württemberg, assim como o agrimensor Victor Alberto Webering e o comerciante Francisco Martins, de Palmeira. 

Na foz do primeiro ribeirão, abaixo do rio das Antas, havia, no alto do barranco, um rancho abandonado por balseiros. Em frente, ao lado riograndense, vivia um único morador, Ernesto Scherer. Era apaixonado caçador e já havia percorrido as matas de ambas as margens do Uruguai. Podia assim, fornecer informações preciosas.

O diretor Faulhaber decidiu-se, após dois dias de minuciosas verificações, pelo amplo vale localizado, às margens do ribeirão Capivara, fixando juntamente com o agrimensor Webering, os limites da futura povoação: desde a foz do rio das Antas no Uruguai até a embocadura do ribeirão Laju e, seguindo pela margem do rio, em direção ao sul, até a foz do riacho que deságua no Uruguai diante da ilha do Pão de Açúcar.

Juntamente com Jacob Schüler, o mestre carpinteiro, foi determinado o local para a construção do primeiro prédio da administração, situado próximo ao porto. Uma pequena elevação rio abaixo, foi escolhida para a edificação do primeiro barracão de imigrantes.

Faulhaber sugeriu que a futura sede fosse denominada "Porto Feliz", sugestão que, alguns dias depois, foi aprovada em Carazinho em reunião dos demais sócios da empresa colonizadora". (Koelln, 1980, p.20). Trata-se portanto de uma citação do livro de KOELLN, Arno. Porto Feliz: a história de uma colonização as margens do rio Uruguai. Mondaí. Improeste. 1980.