domingo, 31 de outubro de 2021

O Novo Ensino Médio (NEM). Uma visão crítica. NEM-NEM.

Ontem (30.10.2021), solicitei ao professor Bernardo Kestring autorização para a publicação deste fantástico material sobre o Novo Ensino Médio. Ele tem assinatura de pessoas e instituições de muito respeito. Todos os créditos estão devidamente consignados no material publicado pelo Núcleo Sindical da APP-Sindicato - Curitiba Norte. Faço esta publicação no blog para dar maior divulgação ao material, num espaço permanente e de fácil acesso. Também por crer que ele servirá de base para muitos estudos que certamente serão realizados.

Quanto ao mais, o material fala por si. Não são necessárias maiores explicitações. Apenas quero deixar registrados os meus agradecimentos pelo trabalho, tão necessário, realizado por este grupo e ao Núcleo Sindical - APP-Curitiba Norte pela sua divulgação por meio dessa cartilha.












Como na cartilha virtual que eu utilizei, não tinha a página 11, eu transcrevo o seu conteúdo.

O notório saber: docência sem o conhecimento.
Você já pensou no quanto uma professora ou professor precisa estudar para poder lecionar?
E o que você pensa sobre uma pessoa dar aula para os estudantes do ensino médio, sem ter qualquer formação para isso?
Pois então, com a reforma, profissionais não formados poderão dar aula nos cursos técnicos e profissionais! Chamam isso de "notório saber", mas, na verdade, é só mais uma forma de precarização.
 


domingo, 24 de outubro de 2021

Escravidão. Volume II. Laurentino Gomes.

Ler os livros de Laurentino Gomes é sempre uma certeza de que você terá muitas informações. E você as terá sempre de uma forma muito leve e fluente. A leitura nunca deixará de fluir, embora a aspereza dos temas abordados, como é o caso da escravidão. Estou me referindo especificamente ao segundo volume de Escravidão - Da corrida do ouro em Minas Gerais até a chegada de dom João ao Brasil. É um panorama do século XVIII, o chamado século das luzes, que tantos processos revolucionários causou. Esse século também provou que as verdades proclamadas pelos princípios do Iluminismo ou Esclarecimento não eram universais. Eles enfrentaram a barreira da cor. O tema é trabalhado no livro, no capítulo 28, sob o título de A liberdade é branca. O que se dirá então da igualdade? Deixo a resenha do volume I da trilogia: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/03/escravidao-volume-1-laurentino-gomes.html

Escravidão. Volume II. Globo Livros. 2021.

O século XVIII. Um dos séculos mais conturbados da história. Um século de rebeldia e de afirmação de direitos. Grandes mudanças históricas. Destacaria duas datas que simbolizam essas mudanças: 1776 e 1789. A Independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa. Os dois fatos foram acompanhados de pomposas declarações de afirmação de direitos, proclamados como universais. Já na entrada do século XIX, em 1804 o Haiti proclama a sua independência e põe à prova a universalidade dos direitos afirmados. Até hoje o Haiti paga o preço de sua ousadia. A escravidão dos povos africanos permanecerá intacta ao longo de todo o século em questão e será um dos alicerces econômicos de todas as grandes nações europeias da época.

É este o panorama traçado no volume II da trilogia de Laurentino Gomes. Por óbvio, o principal foco do livro é o Brasil, mas a abordagem do tema é impossível sem voltar o olhar para o continente africano, donde, sob as bênçãos das autoridades, inclusive as eclesiásticas, saíam as "mercadorias" mais desejadas e valiosas desse triste período de nossa história. Um período de muitas violências e de violências que duravam uma vida inteira. Era todo um regime de escravidão.

O livro de Laurentino passa por uma exaustiva pesquisa bibliográfica, apontada no livro, tanto por citações, como  através de uma extensa lista dos livros utilizados, ao final do livro. Uma pesquisa que certamente consumiu anos de trabalho. Por isso mesmo o livro se transforma numa grande referência. O livro tem, ao todo 511 páginas, divididas em 31 capítulos. Como os títulos são curtos, eu os anuncio, com alguns entre parênteses explicativos: 1. A fronteira (sua expansão); 2. Esplendor e miséria; 3. Ouro! Ouro! Ouro!; 4. O herói invisível (o negro e a tecnologia da extração); 5. Fome, crime e cobiça; 6. Sertão adentro; 7. Escravismo piedoso; 8. Isolamento, censura e atraso; 9. Piratas; 10. Corruptos e ladrões; 11. Onda negra; 12. Os castelos (a partir daqui o livro se volta para a África); 13. Ajudá; 14. Agaja; 15. Conversa de reis. 16. Traficante escravizado; 17. Áfricas brasileiras (a herança cultural); 18. O sagrado; 19. Irmãos, reis e rainhas; 20. O trabalho; 21. A violência; 22. O sonho; 23. A família escrava; 24. As mulheres; 25. Chica na terra dos diamantes; 26. Fugitivos e rebeldes; 27. O medo (rebeliões); 28. A liberdade é branca; 29. Quebrando os grilhões; 30. O naufrágio; 31. O presente.

Na orelha do livro, uma síntese: "[...] Desta vez, o tema é a escravidão e seu profundo e definitivo impacto na formação do Brasil e da sociedade em que vivemos hoje. Composta por uma série de ensaios e reportagens de campo, a obra é resultado das leituras, pesquisas e observações feitas pelo autor ao longo de seis anos em viagens por doze países e três continentes. O volume inicial, lançado em 2019, cobriu um período de mais de 250 anos, desde o primeiro leilão de cativos africanos em Portugal, em 1444, até a morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. Este segundo livro concentra-se no século XVIII, auge do tráfico negreiro no Atlântico, motivado pela descoberta das minas de ouro e diamantes no Brasil e pela disseminação, em outras regiões da América, do cultivo da cana de açúcar, arroz, tabaco, algodão e outras lavouras marcadas pelo uso intensivo de mão de obra cativa.

Num período de apenas cem anos, mais de seis milhões de seres humanos foram traficados da África para o Novo Mundo. O Brasil sozinho recebeu um terço desse total, cerca de dois milhões de africanos escravizados. É também o período mais decisivo na construção da África brasileira, pela introdução de novos hábitos e costumes que teriam profundas influências na vida nacional, incluindo a culinária, o vestuário, as festas e danças, os rituais religiosos e o uso dos espaços públicos.

No século XVIII, essas transformações podiam ser observadas em variados aspectos, como a família escrava, as alforrias, a escravidão urbana, as festas, irmandades e práticas religiosas, a assimilação, as fugas, rebeliões e movimentos de resistência".

No último parágrafo do livro, na sua parte final, temos o anúncio do 3º e último volume da trilogia: "Ao longo de todo o século (XIX), senhores de engenho, barões do café, fazendeiros, donos e traficantes de escravos apoiaram o trono brasileiro. Em troca teriam dele a garantia de que tudo continuaria como antes. Em nome dos interesses da aristocracia escravista agrária e mercantil, o império resistiria até o limite do possível a todas as pressões e esforços para acabar com o tráfico de cativos e a própria escravidão. Até que o edifício inteiro, tornado insustentável, implodisse na sequência da lei Áurea, que pôs fim ao cativeiro em 13 de maio de 1888 e seria decisiva na queda da própria monarquia, no ano seguinte. Esses serão os temas do terceiro e último volume da trilogia".

Brasil! Pobre Brasil! Seria a herança da escravidão uma chaga irremovível para a construção de um país com efetiva justiça social e dos princípios de liberdade e igualdade proclamados desde o século aqui em questão? Temo que sim! Existe toda uma ideologia dominante para  que uma verdadeira lei de gravidade social, se imponha.  Trago as notícias desses dias, da diminuição das desigualdades no Brasil, entre os anos de 2003-2014, nos governos do Partidos dos trabalhadores, trazidas pelo Banco Mundial. No entanto, por essa e outras razões, as políticas desse período foram abortadas pelo golpe de estado de 2016, aplicado pelas eternas elites brasileiras, herdeiras de um espírito bandeirante e escravocrata. Esse caminho precisa ser retomado.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Na serra gaúcha. Um tour fotográfico.

Nesses últimos tempos vivi uma espécie de confinamento, em virtude do Coronavírus. Fiquei em casa, por quase dois anos. Agora, um dos meus filhos usufruiu dez dias de férias e me convidou para visitarmos o Rio Grande do Sul, e Harmonia, a minha cidade natal, de uma maneira toda especial. Tracei um roteiro que começou na segunda-feira, dia 27 de setembro. Sem pressa saímos de Curitiba, chegando em Antônio Prado ao final da tarde. Antônio Prado é considerada a mais italiana das cidades brasileiras, em virtude de encontrarmos nela mais de 40 casas tombadas. Vejam o link e a sua igreja matriz.

 https://www.antonioprado.rs.gov.br/turismo/patrimonios_sub.php?id=1

A bela igreja matriz de Antônio Prado.

Na terça feira (28) nos ocupamos com dois programas. Uma visita ao Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio para fazer, especificamente, dois pedidos. Muita chuva em Curitiba para acabar com o rodízio de água e o segundo, um pouco mais difícil, para o Grêmio não cair para a série B, do campeonato brasileiro. O primeiro pedido, creio que já foi atendido, mas o segundo, com a derrota de ontem, para o Sport....., não sei.

A capela original e o Santuário atual de Nossa. Senhora. de Caravaggio, em Farroupilha

Pouco depois, num dos restaurantes no Vale dos Vinhedos, encontramos o Branco, aquele lateral esquerdo da seleção brasileira e do Grêmio e ele nos alertou de que deveríamos ir também para Aparecida e Fátima.

Rosas colhidas no Vale dos Vinhedos.

Os dias 29 e 30 foram dedicados a visitas familiares.

Turismo rural familiar, eu, Andrei e Rose e o meu sobrinho Marcos, em meio a mais de mil pés de limão.

Já no dia 30 fomos a Gramado, fazendo antes uma visita ao Parque do Imigrante em Nova Petrópolis. Depois de visitas em Gramado, passando pelo Lago Negro, Mini Mundo e pelo centro da cidade fomos a Canela para uma visita a sua belíssima igreja e a fantástica cascata do Caracol.

Castelo de Neuschweinstein no Mini Mundo e o original nas proximidades de Munique na Alemanha. No Mini Mundo tudo é vinte vezes menor. Passeio imperdível.


Em Canela, a magnífica cascata do Caracol e a majestosa Catedral de Pedra.

Dedicamos o sábado ao Parque Nacional dos Aparados da Serra, onde visitamos os canyons de Fortaleza e Itaimbezinho. Tivemos azar. Chegamos ao canyon Fortaleza por volta das 9h00, ainda com boa visibilidade, mas ao chegarmos no mirante principal uma forte neblina o tornou praticamente invisível. No de Itaimbezinho não vimos absolutamente nada.


Duas vistas do canyon de Fortaleza em Cambará do Sul. As majestades da natureza.

Como o trecho entre Cambará do Sul, São José dos Ausentes e São Joaquim (SC) é todo ele em estradas de chão, abrimos mão de descer a Serra do Rio do Rastro e rumamos para Florianópolis, para não encompridar tanto a viagem de volta, no domingo. Foi um roteiro de tirar o fôlego, tanto pela beleza dos encantos naturais, quanto as que foram feitas pela intervenção humana. E, durante a viagem, excelente gastronomia e vinhos extraordinários.



sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Guerra pela eternidade - O retorno do tradicionalismo e a ascensão da direita populista. Benjamin Teitelbaum.

Acima de tudo, um livro intrigante. Recebi Guerra pela eternidade - o retorno do tradicionalismo e a ascensão da direita populista, de Benjamin R. Teitelbaum como presente de aniversário, do meu filho, o Iuri. Comecei a sua leitura e fiquei impressionado. Fui buscar com o Iuri o como ele entrou em contato com o livro e ele me falou que foi no programa do Pedro Bial. Fiquei mais intrigado ainda. Pedro Bial é vinculado ao Instituto Millenium. O livro investiga em profundidade o pensamento ultra direitista no mundo contemporâneo. Estranhei demais uma excessiva proximidade do pesquisador com os personagens de sua pesquisa. O próprio pesquisador explica, na nota do autor, com a qual inicia seu livro:

"Sou etnógrafo de profissão, não sou jornalista. Aprendi a seguir um método de pesquisa acadêmica segundo o qual estudiosos observam, interagem com e, às vezes, vivem entre as pessoas que estudam por longos períodos. Nesse método, um objetivo importante é a empatia: compreender e interpretar o seu modo de ver o mundo". Sublinhei - "interagem" e "vivem entre as pessoas". É muita aproximação, que em alguns momentos até chega a se assemelhar com articulação entre os personagem observados. Teitelbaum é professor de etnomusicologia e assuntos internacionais na Universidade do Colorado, em Boulder. 

Guerra pela eternidade. Benjamin Teitelbaum. UNICAMP. 2020. Tradução: Cynthia Costa. 

O etnomusicólogo observa basicamente três personagens, todos ligados à ascensão da chamada direita populista: Steve Bannon, Aleksandr Dugin e Olavo de Carvalho. O primeiro, profundamente vinculado ao presidente Trump, dos Estados Unidos, o segundo, ao presidente da Rússia, Vladimir Putin e o terceiro ao presidente Jair Bolsonaro, do Brasil. Olavo de Carvalho teve influência direta na escolha de ministros de sua filiação ideológica no governo Bolsonaro, como Ricardo Vélez Rodríguez, da Educação e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores.

Além de acompanhar as movimentações desses três personagens, ele estuda o seu modo de pensar, bem como os fundamentos desse pensar. Dois personagens originários são comuns aos três: o francês René Guénon (1886-1951) e o italiano Julius Evola (1898-1974). Ambos misturam a sua filosofia com elementos esotéricos. Guénon ataca as instituições do mundo ocidental moderno, enquanto que Evola foi influente no estabelecimento do fascismo e do racismo na Itália. Oriente e espiritualidade estão presentes nos dois. Os três personagens estudados são bastante generalistas em suas afirmações, mas tem pontos em comum, como a rejeição ao mundo moderno (leia-se, iluminismo, estado-nação, mundo liberal, instituições democráticas, tendências à generalização e universalização na questão dos direitos humanos, da igualdade e contrários à globalização). Vejamos um apontamento do autor:

"Por Tradicionalismo - com T maiúsculo - estávamos nos referindo a uma escola espiritual e filosófica alternativa, com um grupo eclético, ainda que minúsculo, de seguidores, ao longo dos últimos cem anos. Quando combinado com o nacionalismo anti-imigração, no entanto, muitas vezes é sinal de um radicalismo ideológico raro e profundo, e é por isso que o acompanho". A resenha me impede de aprofundar, mas - creio ser interessante essa observação buscada pelo autor em Evola, sobre as degradações da modernidade: "Alternativamente, ele e outros viam na modernidade a ascensão de uma idade sombria na qual democracia e comunismo resultavam de um desprezo generalizado pelo passado e de uma fé proporcional no futuro, na qual a política focava a economia, a população escurecia devido à migração do Sul para o Norte e o feminino e o secularismo forjavam uma cultura que celebrava o hedonismo sexual e a desconsideração caótica por qualquer tipo de limite". 

A pregação, portanto, de uma volta ao passado, a um longínquo passado. Aos povos hindus e iranianos, buscando a origem ariana dos seres humanos. Vejamos o encerramento do livro, a sua última frase: "Sim, os Steve Bannons de nossos tempos podem encontrar vitórias onde outros veem derrotas. Com armas e exércitos, as vezes manifestos, às vezes invisíveis, eles enxergam o mundo através de lentes radicalmente diferentes - veem o caos na estrutura, a ordem nas ruínas e o passado no futuro". Eles recorrem muito ao mundo abstrato da espiritualidade.

Bem, o livro é longo. São 285 páginas, ocupadas por 22 capítulos. O tema é árido, com muitas idas e voltas. Temas interessantes da organização de um pensamento mundial de direita são mostrados. Não negligenciam na publicação de livros. Tem até uma editora específica, a Arktos. O principal elemento de ativismo político é serem contra a universalização (choque com o indivíduo - presenças de Nietzsche e do "DASEIN" de Heidegger), a ascensão feminina, a democracia e a perda da espiritualidade. Liberalismo e comunismo, ambos são frutos da modernidade.

Para nós brasileiros, um capítulo ganha particular interesse. É o capítulo 20, que tem por título, Brasil profundo. É sobre Olavo de Carvalho e sua influência sobre o presidente Bolsonaro, especialmente através de seus filhos. O autor relata a influência na escolha de ministros do governo, das divergências com os militares e do vice, Mourão, por considerá-los pró China e contra a aproximação com os Estados Unidos. O ataque mais contundente de Olavo de Carvalho é contra as universidades brasileiras, para as quais defende a redução de verbas. Vejam uma fala sua: "Se eu te mostrasse fotos de universidades brasileiras, você só veria gente nua fazendo sexo. Eles vão para a universidade para fazer sexo e, se você tenta impedi-los, eles se revoltam, começam a chorar, dizem que você é um opressor". E um pouco mais adiante acrescenta, defendendo mais uma vez, o corte de verbas: "As universidades permaneceriam uma fachada, como todas as instituições no Brasil - nesse caso, uma fachada para a fornicação".

Em suma, o livro é altamente recomendável para todos os que querem entender melhor o mundo e o Brasil, em particular. Digamos, um mundo de horrores. Vejamos ainda a apresentação do livro pelo próprio autor, na orelha do livro: "O ciclo do tempo. O desejo de lutar pela eternidade em vez de imaginar um futuro melhor e mais promissor. É assim que você distingue um Tradicionalista real de alguém que é meramente conservador - ou um tradicionalista, com t minúsculo. É a diferença entre alguém meramente pessimista e quem acredita que vivemos um tempo de destruição, que sustenta que o desmoronamento de monumentos (General Lee - Chesterville) é algo a ser celebrado e que a vontade de construir algo grandioso não passa de uma tolice perversa. O que aconteceria se um grande número de líderes mundiais fosse aconselhado por pensadores que têm o objetivo de colocar tudo abaixo, que valorizam a estagnação em vez do progresso, que desejam que nosso universo resgate o que éramos, e não que conquiste o que sonhamos ser".

sábado, 9 de outubro de 2021

Uma cena de escravidão. Em Gramado - RS. Em 01.10.2021.

Depois de mais de um ano e meio vivendo uma espécie de confinamento por causa do Coronavírus, convidado pelo meu filho, empreendemos uma viagem de férias para o Rio Grande do Sul. Ele estava com um sentimento de saudosismo, querendo revisitar os lugares onde eu nasci. A minha cidade natal é Harmonia, no vale do rio Caí. Os meus filhos nasceram em Umuarama e conheceram essa região do Rio Grande do Sul, ainda em sua infância. 

Procurei traçar um roteiro que misturava visitas turísticas e familiares. Começamos por Antônio Prado, considerada a mais italiana das cidades brasileiras, com mais de 40 casas tombadas pelo IPHAM. Continuamos na Serra Gaúcha no dia seguinte, visitando o Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio, em Farroupilha e o Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves. Rica culinária e excelentes vinhos. O dia seguinte foi dedicado a visitas familiares em Tupandi e Harmonia. Voltamos ainda para a Serra Gaúcha, visitando Garibaldi, Carlos Barbosa e Salvador do Sul. Aí empreendemos a viagem de volta, visitando Nova Petrópolis, Gramado e Canela. Lugares encantadores. A parte turística terminou em Cambará para ver os cânions de Fortaleza e Itaimbezinho. Uma forte neblina nos tolheu a vista durante a visita. Só valeu a primeira meia hora. Escolhemos a cascata do Caracol, como a mais bela atração em toda a viagem.

Mas vamos ao motivo deste post. Uma cena vista em Gramado, cidade encravada na Serra Gaúcha. Ela é belíssima. Tem um pouco menos de 40 mil habitantes e a sua economia é quase totalmente voltada ao turismo. Consta que recebe 6,5 milhões de turistas por ano. Ela é um Shopping a céu aberto, tal o luxo do centro da cidade, na Avenida Borges de Medeiros e ruas próximas. Nela ocorre o famoso Festival Brasileiro e Latino de Cinema, que distribui Kikitos, as programações do Natal Luz e a Festa da Colônia, uma festa de integração dos povos colonizadores, especialmente alemães e italianos. Em Gramado está localizada a igreja de São Pedro, a igreja matriz da cidade. Foi nesta igreja que vi a cena que dá o título para o Post.

Em minhas viagens observei muitas cenas remanescentes da escravidão. Duas delas eu ainda trago muito vivas na memória. A primeira é a igreja de São Francisco, nas proximidades do Pelourinho, em Salvador. A igreja é uma das mais ricas do Brasil. Mas, a sua riqueza é encontrada apenas para além do pórtico de entrada. Na parte anterior, a dos fundos, não há riqueza alguma. A organização do espaço e a sua estética obedecia ao critério das classes sociais que, creio, não satisfazia o gosto de Jesus. A outra cena é de São João del Rei, em Minas Gerais. É uma cena de rua. A rua é a que se situa em frente à casa da família de Aécio Neves, assim pelo menos ela nos foi apresentada pelo guia turístico. A calçada dessa rua tem dois andares, um superior, outro inferior. Na parte superior andavam os senhores, na parte inferior, os escravos que os acompanhavam. A escravidão continua com as suas marcas irremovíveis. É que, citando Joaquim Nabuco, a escravidão foi  abolida, mas não a sua obra.

Agora vamos à cena de Gramado. Muito próximo da bela igreja, uma senhorinha andava ereta e elegantemente trajada. Logo atrás vinham duas crianças, meninos, provavelmente gêmeos, em torno de dois para três anos de idade, ricamente vestidos com roupas que ostentavam uma famosa marca. Atrás vinham duas moças, as pajens das crianças, devidamente uniformizadas, meio avental de professora, meio de enfermeira. Ninguém interagia. A mãe nem mesmo volvia os olhos. Acompanhei a cena meio de lado, com toda a discrição possível. Quando chegaram à igreja, a senhorinha e as crianças entraram, as pajens ficaram. A partir daí não mais acompanhei a cena e me pus a refletir. Por óbvio, não registrei fotograficamente a cena.

Uma cena de primeiro de outubro de 2021. A lei da gravidade social persiste e insiste em se manter. Uma tristeza profunda tomou conta de mim. Certamente, por muito tempo ainda manteremos as estruturas injustas de nossa origem histórica, fundada na escravidão, uma chaga, que tudo indica, é irremovível. Tudo isso, num dos mais belos e ricos países do mundo.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Sobre a estupidez. Robert Musil.

Tenho uma grande estima por romances de formação. Entre eles, um em particular, me causou  profunda impressão. Trata-se de O jovem Törless, do escritor austro-checo, Robert Musil. As desventuras de um menino num colégio interno. Quando estava em busca de seu mais afamado livro O homem sem qualidades, e, como ainda não havia localizado um exemplar que me convinha, apareceram nos anúncios publicitários das redes sociais sugestões de obras semelhantes ou do mesmo autor. Assim apareceu em tela um ensaio/conferência, sob o nome Sobre a estupidez. Adquiri-o de imediato. Deixo o link da resenha de O jovem Törless:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/08/o-jovem-torless-robert-musil.html

O ensaio de Robert Musil, Sobre a estupidez. Ayiné. 2020. Tradução: Simone Pereira Gonçalves.

O ensaio/conferência foi proferido em duas oportunidades, em Viena, nos dias 2 e 17 de março do ano de 1937, atendendo a um convite da Federação Austríaca do Trabalho. Observem o ano - 1937, praticamente às vésperas do Anschluss, fato que até hoje envergonha a história austríaca. Na abertura dessa conferência ele cita um trabalho seu, de 1931, já em tempos de ascensão do nazismo alemão, que se consolidaria já a partir de 1933. Dá para imaginar o empenho e a gana do escritor nessa fala!

Como o ensaio/conferência é de difícil resenha, começo com uma pequena síntese, apresentada na contracapa do pequeno livrinho: "Em 1937, a convite da Federação Austríaca do Trabalho, Robert Musil profere uma penetrante e arguta conferência sobre o tema da estupidez, dando origem a este ensaio, considerado um dos mais importantes do autor. Sobre a estupidez, afirma Musil, as pessoas geralmente preferem não falar, não discutir: "O domínio violento e vergonhoso que a estupidez exerce sobre nós é revelado por muitas pessoas ao demonstrarem-se surpresas de maneira amável e conspiratória quando alguém, a quem confiam, pretende evocar esse monstro pelo nome".

Sublinhei uma série de passagens que me pareceram mais marcantes. A primeira está já na abertura, quando cita um trabalho seu de 1931: "Se a estupidez não fosse tão parecida, a ponto de confundir-se, com o progresso, com o talento, a esperança ou a melhora, ninguém desejaria ser estúpido" (Página 7). Aparece aí uma primeira ideia da distorção em torno do conceito, "um distúrbio do desenvolvimento contemporâneo". De saída o autor também remete o conceito à arte, quando se confunde "um juízo estético com um juízo comercial", referindo-se ao cinema sonoro. Constata ainda que os sábios preferem falar sobre a sabedoria no lugar da estupidez. 

A pressuposição básica de quem fala sobre a estupidez é a de que ele não se considera um estúpido. Musil associa a dificuldade de falar sobre ela à caça da borboleta branca, que quando caçada, aparecem em seu lugar, outras extremamente semelhantes, confundindo o caçador. Também a considera sob a forma de uma relação de poder, o que a vincula com a subordinação, como na relação senhor e servo, professor e aluno. É uma ação de crueldade contra os mais fracos. Triste mesmo é quando o ser humano fala como massa, um "nós" coletivo, tão próprio à classe média. Também a relaciona com a vaidade ao citar um ditado popular: "Estupidez e orgulho crescem no mesmo galho" (Página 18).

Também me causou impacto uma afirmação de que "à estupidez em ação, designamos rudeza" (Página 24). Vem daí a interação entre a inteligência com os sentimentos. É algo mais do que a simples falta de inteligência. Uma das mais brilhantes análises, sob a minha ótica, é quando ele estabelece vínculos entre a inteligência e o desempenho. Estúpido e incompetente se confundem. Aí já se parte para uma associação com as relações comerciais. A desonestidade se reveste de inteligência e competência. Faz também um belo emprego da palavra Kitsch, no sentido de mercadoria de pouco valor, vendida com prejuízo. Estamos assim, já no complicado campo da moral, da competência e da estupidez. A estupidez também, em muitas ocasiões se apresenta como uma forma instintiva de agir. Neste campo, eu me adiantei nos meus juízos, lembrando que o neoliberalismo, em seu estágio mais recente, apresenta o "ganhar dinheiro", como a forma suprema da inteligência.

Ainda sobrou tempo para Musil entrar em outros campos de extrema complexidade, como a da psicologia e das questões médicas. O mais impactante, no entanto, é quando ele fala da educação: "Não há nenhum pensamento importante que a estupidez não saiba aplicar, ela se move em todas as direções e pode vestir todas as roupagens da verdade. A verdade, ao contrário, tem apenas uma roupa em qualquer ocasião, um só caminho, e sempre está em desvantagem" (Página 44). Triste. Sempre existe uma enorme ambiguidade entre a inteligência e a estupidez.

E uma frase para terminar. É sobre a integração entre pensamentos e sentimentos, visando um bom senso: "Mas, se tivéssemos que acrescentar alguma coisa, seria o seguinte: com tudo o que foi dito não existe ainda nenhum sinal seguro de reconhecimento e diferenciação do significativo e não poderia existir nem de leve um sinal totalmente suficiente. Mas justamente isso nos leva ao último e mais importante meio contra  a estupidez: a modéstia (Página 49). O livrinho tem apenas 51 páginas.

Um dos motivos, de uma maneira toda particular, pelos quais eu li o livro, além do apreço pelo autor, foi o de estabelecer uma relação entre os anos de 1937 e os anos do Brasil sob o governo Bolsonaro, um governo, diga-se, eleito. Não vou expor essas reflexões, mas acrescentar uma provocação de Adorno em sua fala do dia 18 de abril de 1966, que depois foi incorporada ao livro Educação e emancipação. Mais profunda é impossível: "A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser necessário justificá-la".


sábado, 25 de setembro de 2021

O século das luzes. Alejo Carpentier.

Sempre me impressionou a história do Haiti. Luís Fernando Veríssimo, em suas crônicas, muito falava da "Maldição do Haiti". Agora, há pouco, eu li Achile Mbembe, Necropolítica. Ele afirma categoricamente que os princípios do Iluminismo ou do Esclarecimento foram postos à prova com a independência do Haiti, em 1804. Os seus princípios, ao contrário de suas afirmações, não eram princípios universais. Não valeriam para as colônias e, muito menos ainda, para a libertação dos povos africanos da escravidão. Sempre quis ler mais a respeito. Deixo o link do Necropolítica. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/06/necropolitica-achile-mbembe.html

Ao ler Leonardo Padura, Água por todos os lados, tive um reencontro com Alejo Carpentier. Padura, nesse seu livro fala muito do principal livro desse escritor, O século das luzes. Sim, O século das luzes. O livro, apesar de ser um romance, não deixa de ser um grande e memorável livro sobre o Esclarecimento e sobre os seus princípios glorificados pela Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade e afirmação Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, proclamados, ainda em 1789. Por um preço, ainda razoável, encontrei o livro na Estante Virtual. Deixo a resenha do Água por todos os lados, do Padura. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/08/agua-por-todos-os-lados-leonardo-padura.html

O século das luzes. Global editora. 1985. Tradução: Stella Leonardos. 

O livro é maravilhoso, embora não tenham sido maravilhosos os princípios trazidos ao Mar das Antilhas, os princípios deste "século das luzes". Vejamos: "Luzindo todos os distintivos de sua autoridade, imóvel, pétreo, com a mão direita apoiada nos montantes da Máquina, Victor Hugues se havia transformado, repentinamente, numa Alegoria. Com a Liberdade, chegava a primeira guilhotina ao Novo Mundo" (Página 139). Victor Hugues é um dos protagonistas do romance. Ele viveu e se adaptou aos diferentes momentos da Revolução Francesa nas Antilhas. O que mais ele viveu foi a transformação de símbolos cristãos em símbolos da razão e a sua ressignificação posterior, quando Paris voltou a abraçar Roma.

A história começa por Havana, com o velório de um rico comerciante, que deixa Sofia e Carlos como herdeiros, mais o primo Estevão. Pouco afeitos aos negócios, eles se dedicam aos estudos e às leituras. Estevão consegue a cura de sua bronquite asmática. A leitura faz circular as ideias, as "perigosas" ideias das luzes. A rotina dos três é quebrada com insistentes batidas da aldrava, na porta da casa. Quem chega é o revolucionário Victor Hugues. Revolucionário em todos os seus significados, a começar pelos costumes. Hugues também é comerciante.

Com os ecos da revolução chegando às ilhas, a família se dispersa. Estevão e Hugues irão a Paris. Carlos e Sofia permanecem. Há os reencontros e as mutações das personagens e situações. Isso eu não conto, mas, quem mais muda será a menina Sofia e, por força de seus cargos, Victor Hugues. A história se desenvolve ao longo de sete capítulos, subdivididos em pequenos tópicos. A leitura flui. São 365 páginas. Hugues, nos conta Carpentier, em adendo ao livro, era um personagem real. A escrita do romance, também nos conta o autor, foi feita entre os anos de 1956-1958, nas cidades de Guadalupe, Barbados e Caracas. Nesta época ele vivia o seu exílio, retornando a Havana, após a revolução castrista. O livro tem um esclarecedor prefácio, assinado por Otto Maria Carpeaux.

A história, as viagens e os personagens foram o grande pretexto para Carpentier expressar os seus sentimentos com relação ao "século das luzes" e é nisso que está o grande valor do romance. A revolução começou jacobina e terminou na acomodação napoleônica. A escravidão foi abolida e recriada. O ideal da liberdade por parte dos escravos sempre foi anterior às luzes, o que é atestado pelas inúmeras rebeliões negras e a existência de quilombos em todas as Américas. Há uma bela passagem sobre Palmares. Também existem dados curiosos ocorridos nesse período revolucionário, como, por exemplo, uma tentativa da venda da catedral de Notre-Dame.

Deixo ainda a síntese e a percepção sobre o livro, na contracapa da publicação da Global Editora: "Não existe outro romance latino-americano mais admirado do que Século das Luzes. É a maior obra do grande Alejo Carpentier. Apoiado por uma poderosa fabulação - a tentativa do aventureiro Hugues de instaurar uma nova Revolução Francesa no Caribe - a prosa metafórica leva o leitor ao pesadelo de um país cujo exaltado clima de revolta e frustração dos ideais fracassados resultam na paisagem política da América Latina". América Latina. Que sina. Liberdade e guilhotina, simultaneamente. Antes, a espada e a cruz. Hoje, o imperialismo e o militarismo e a justiça social sempre abortada nome da dita ideologia da Segurança Nacional. Um grande livro!


quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Quem escreveu Shakespeare? James Shapiro.

Sempre tive muita curiosidade com relação a grandes autores ou grandes personalidades. A minha curiosidade se centrava especialmente na formação dessas pessoas, que escolas frequentaram e, especialmente, o que e quem leram. Em suma, quem influenciou em sua formação. Quando da minha despedida da Universidade Positivo, ganhei, de alguns colegas, um livro de presente. O livro foi Quem escreveu Shakespeare? A história de mais de quatro séculos de disputa pela herança de uma autoria, de James Shapiro.

Quem escreveu Shakespeare? James Shapiro. Nossa Cultura. 2012.

Se autores, de uma maneira geral, me despertavam grande curiosidade, imagina então, sobre William Shakespeare.  Como na época empreendi viagens e me ocupei com outras coisas, dei aquela primeira olhada no livro e o deixei aguardando para uma próxima oportunidade de leitura. Isso ocorreu agora. Antes de mais nada, devo dizer que se trata de um livro destinado a especialistas. Afirmo isso para falar das dificuldades que tive na leitura, uma vez que apenas li algumas de suas peças e nunca estudei a sua obra de forma específica.

Eu sou mais ou menos cético com relação ao tema, não vendo muita diferença entre quem efetivamente teria escrito a obra, se não foi ele mesmo. Afinal, a obra, se sua ou não, está aí. Ao final do livro, Shapiro lança uma advertência: "Quando comecei a pensar em escrever este livro, há alguns anos, um amigo mexeu comigo ao perguntar: 'Que diferença faz quem escreveu as peças'? A resposta reflexiva que dei a ele é agora muito mais clara para mim: 'Muita'. Faz diferença para a forma como imaginamos o mundo em que Shakespeare viveu e escreveu. Faz ainda mais diferença para a forma como entendemos quanta coisa mudou da pré-modernidade para a modernidade. Mas a maior diferença de todas diz respeito a como lemos as peças"... (Página 316).

Mas vamos atender as curiosidades iniciais. Quem teria duvidado da autoria das peças e dos poemas de Shakespeare e quais seriam os seus argumentos? E, se Shakespeare não escreveu Shakespeare, quem o teria escrito e quais teriam sido as razões para não terem assumido a autoria? Respondo a primeira parte das perguntas. Para as demais, é necessária a leitura do livro. Então vamos lá. Primeiro, as pessoas que duvidaram. Só dou duas, pela sua fama: Mark Twain e Sigmund Freud. É obvio que eles se fundamentaram em pesquisadores. E quem teriam sido os supostos autores? Para Mark Twain teria sido Francis Bacon e para Freud, Edward de Vere, o 17º conde de Oxford.

Acho que ainda sobra uma curiosidade inicial. A esta eu também responderei. Quais teriam sido as razões para que duvidassem da autoria? Respondo com a dúvida apresentada por Mark Twain: "Twain reafirma sempre a ligação intrínseca entre escrever com grande efeito sobre o que o autor vivencia. Simplesmente não podia aceitar que um jovem da província, com 21 anos de idade, 'sem nenhuma qualificação preparatória, treinamento ou experiência' pudesse 'produzir grandes tragédias como um vulcão". (Página 154). De uma maneira geral, os céticos em relação a autoria de Shakespeare se centraram na sua falta de formação básica e acadêmica e o meio rural de onde ele procedia. Shapiro tem uma resposta: "O que eu acho mais desalentador na alegação de que o Shakespeare de Stratford não tinha a experiência de vida necessária para escrever as peças é que se menospreza, assim, exatamente aquilo que o torna tão excepcional: sua imaginação". (Página 313).

O livro de Shapiro, de 356 páginas, está dividido em quatro capítulos, epílogo e ensaio bibliográfico. Os capítulos tem os seguintes títulos: 1. Shakespeare; 2. Bacon; 3. Oxford; 4. Shakespeare. No primeiro é apresentada a polêmica da autoria. No segundo, são mostrados os argumentos em favor da autoria de Francis Bacon. No terceiro, os argumentos são em favor do conde de Oxford. No quarto, Shapiro assume a defesa de Shakespeare. No epílogo é mostrado um panorama da questão ao tempo da escrita do livro (2010). No ensaio bibliográfico são apontados todos os livros utilizados na pesquisa. Haja fôlego.

Para dar uma melhor ideia do livro, apresento a orelha da capa: "Por cerca de dois séculos depois da morte de Shakespeare, ninguém questionou a autoria de sua obra. Mas, desde então, dezenas de candidatos rivais - sendo os mais expressivos, Francis Bacon e o conde de Oxford - foram propostos como os verdadeiros autores das peças do bardo. Quem escreveu Shakespeare? explica quando e por que tantas pessoas começaram a questionar a autoria de Shakespeare. Mark Twain, Sigmund Freud e Henry James são apenas alguns exemplos de famosos que se declararam convencidos de que Shakespeare não foi Shakespeare.

A fascinante pesquisa feita pelo estudioso de Shakespeare, James Shapiro, sobre a origem dessa controvérsia reconstrói um caminho tortuoso recheado de documentos fabricados, alegações falsas, códigos, cifras e fraudes. Quem escreveu Shakespeare? levanta questões sobre o que essa controvérsia revela a respeito dos leitores contemporâneos e de nossas expectativas em relação ao maior escritor de língua inglesa da história. O livro pode não encerrar o debate sobre a autoria das obras de Shakespeare, mas esclarece a natureza desse debate e o que está de fato sendo contestado: os poemas e peças de Shakespeare são autobiográficos? Se a resposta for positiva, o que eles nos dizem sobre a pessoa que os escreveu"?

Um livro muito erudito. Com a sua leitura você aprende sobre todo o entorno de Shakespeare, sobre a rainha Elizabeth, sobre o rei Jaime I e toda a questão da passagem do século XVI para o XVII. E avança no debate sobre o autor nos séculos seguintes. E, uma nota sobre a tradução. Ela é de Christian Schwartz e Liliana Negrello, com revisão técnica de Caetano W. Galindo. Christian foi meu colega, como professor na Universidade Positivo e com o Caetano Galindo fizemos uma leitura comentada do Ulisses, de Joyce, livro do qual ele é o tradutor.

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Psicopolítica - o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Byung-Chul Han.

Quando tenho dúvidas em torno do que poderia ser uma boa leitura, eu recorro a algum autores que me dão certezas. Um desses autores é o sul-coreano, hoje professor em Berlim, Byung-Chul Han. O livrinho da vez foi este extraordinário ensaio Psicopolítica - O neoliberalismo e as novas técnicas de poder. É a dominação total, que poderia ser resumida da seguinte forma: Dos controles externos para os controles internos ou os autocontroles. Daí o título de psicopolítica. É uma revolução completa sobre o comportamento humano. O ser humano se tornou absolutamente previsível e controlável. Um horror!.

Psicopolítica - o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Byung-Chul Han. Ed. Ayiné. 2020. Tradução: Maurício Liesen.

Creio que não erro ao apontar duas ideias centrais desenvolvidas neste pequeno livrinho, fundadas na passagem dos controles externos para os internos. A primeira seria uma profunda alteração no modo de produção capitalista, em tempos de hegemonia neoliberal. Essa alteração se dá nas relações sociais de produção, em que já não mais encontraremos burgueses e proletários, uma vez que os proletários foram transformados em micro produtores individuais. Assim não temos mais uma sociedade de classes, mas o burguês e o proletário estão abrigados na mesma pessoa. Já não temos mais uma sociedade de trabalhadores revolucionários, mas sim, uma sociedade de trabalhadores/empreendedores deprimidos.

A segunda grande ideia é a da passagem do pan-óptico de Bentham e da sociedade focaultiana, do vigiar e punir, para a sociedade do Big Data. É a própria pessoa que fornecerá todos os seus dados, os exporá livremente nos novos meios de comunicação das redes sociais. Tem uma passagem muito significativa dessa grande transformação. Eu a apresento: "Devoto significa submisso. O smartphone é um objeto digital de devoção. Mais ainda, é o objeto de devoção do digital por excelência. Como aparato da subjetivação, funciona como o rosário, e a comparação pode ser estendida ao seu manuseio. Ambos envolvem autocontrole e exame de si. A dominação aumenta sua eficiência na medida em que delega a vigilância a cada um dos indivíduos. O curtir é o amém digital. Quando clicamos nele, subordinamo-nos ao contexto da dominação. O smartphone não é apenas um aparelho do monitoramento eficaz, mas também um confessionário móvel. O Facebook é a igreja ou a sinagoga (que literalmente significa 'assembleia') do digital" (Página 24).

O pequeno livrinho tem 117 páginas com o formato de livro de bolso. Ele aborda 13 temas, que são absolutamente correlatos, entrelaçados pela lógica. Aliás, esta é também uma das abordagens do livrinho: a razão é abolida e substituída pela emoção. São eles: 1. Crise de liberdade; 2. Poder inteligente; 3. A toupeira e a serpente; 4. Biopolítica; 5. O dilema de Foucault; 6. A cura como assassinato; 7. Choque; 8. O amável grande irmão; 9. O capitalismo da emoção; 10. Gamificação; 11. Big Data; 12 Para além do sujeito; 13. Idiotismo.

O primeiro tópico é o mais longo deles. Ele traz três abordagens: a exploração da liberdade, a ditadura do capital e a ditadura da transparência. No primeiro desses tópicos há uma revelação do significado da palavra "sujeito", que literalmente significa "estar submetido". Mas, acreditamos que não somos submetidos, acreditamos que somos livres. A depressão e o burnout são os sintomas dessa crise de liberdade. Nos subjugamos a nós mesmos na sociedade do autodesempenho. Na ditadura do capital o autor examina as novas relações sociais de produção, que unificou o burguês e o proletário em uma só pessoa pelo imperativo neoliberal do empreendedorismo, ou mais precisamente, pela transformação dos trabalhadores em microempreendores individuais. Já o tópico da ditadura da transparência apresenta as primeiras noções dos novos meios de comunicação das redes sociais.

Os demais tópicos são bem menores e são desdobramentos do primeiro. Assim, o poder inteligente é o da formação do sujeito submisso, sem que ele se acredite como submisso. Não há mais violência e coerção. As coerções agora são autocoerções. A toupeira é o animal símbolo dos controles externos, da sociedade disciplinar (família, escola, prisão, quartel, hospital, fábrica), enquanto que a serpente é o animal do movimento, do empreender, da fuga dos espaços fechados. Na biopolítica é abordada a questão da passagem do biopoder para o psicopoder, análise que continua com a apresentação do dilema de Foucault, da passagem do treinamento do corpo dócil para a psicotecnologia da otimização de si. Em a cura como assassinato, a abordagem passa pelos fins de semana motivacionais e pela violência da exploração da positividade. 

Em choque, a análise passa pelo livro de Naomi Klein, A Doutrina do choque. Estão em foco o psiquiatra canadense do choque, Cameron e o teólogo do neoliberalismo, Milton Friedman. Em o amável Grande Irmão é analisada a superação do violento Grande Irmão, substituído pelo irmão, agora totalmente afável, do pan-óptico digital. No capitalismo da emoção temos a substituição do capitalismo racional do fordismo-taylorismo pelo capitalismo emocional, da motivação para o empreendedorismo e a transformação do trabalho, pesado e cansativo em agradáveis jogos, com a exploração de muita emoção.   

Nos temas finais , o grande destaque vai para o Big Data, que também merece uma análise um pouco mais longa, sendo abordados os seguintes sub temas: o ovo de colombo (a estatística), o dataísmo, ou seja, a revolução da anotação dos dados, o quantifield self, ou seja, a anotação de todos os dados da sua vida e a escravização a eles (colesterol, glicemia...), o registro total de sua vida, que é transformado em um grande negócio, que é a comercialização de seus dados pelas empresas (como a Acxion).  O autor ressalta que precisamos de uma nova dialética do esclarecimento para ir além do sujeito, com a libertação do terror psicológico e, apresenta ainda, reflexões sobre o idiotismo, sobre as heresias e a necessidade do componente da dúvida.

Na contracapa do livrinho temos a seguinte síntese: "Uma possibilidade infinita de conexão e informação nos torna sujeitos verdadeiramente livres? Partindo dessa questão, Han delineia a nova sociedade do controle psicopolítico, que não se impõe com proibições e não nos obriga ao silêncio: convida-nos incessantemente a nos comunicar, a compartilhar, a expressar opiniões e desejos, a contar nossa vida. Ela nos seduz com um rosto amigável, mapeia nossa psique e a quantifica através dos big data, nos estimula a usar dispositivos de automonitoramento. No pan-óptico digital do novo milênio - com a internet e os smartphones - não se é mais torturado, mas tuitado ou postado: o sujeito e sua psique se tornam produtores de massas de dados pessoais que são constantemente monetizados e comercializados. Neste ensaio, Han se concentra na mudança de paradigma que estamos vivendo, mostrando como a liberdade hoje caminha para uma dialética fatal transformando-a em constrição: para redefini-la, é necessário tornar-se herege, voltar-se para a livre escolha, para a não conformidade".

De Byung-Chul Han eu já tinha lido Sociedade do cansaço, do qual eu deixo a resenha:

 http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/01/sociedade-do-cansaco-byung-chul-han.html


quarta-feira, 1 de setembro de 2021

O Atlântico negro. Paul Gilroy.

Em minhas leituras, andei pela África, pelas Américas e detive-me, particularmente, no Caribe. Li Leonardo Padura e Achille Mbembe. Água por todos os lados e Necropolítica. Cuba e o Haiti mereceram uma atenção maior. Por essas leituras cheguei a um livro extraordinário, O Atlântico negro, de Paul Gilroy. Aí se somaram os fatores de espaço e tempo, juntando quinhentos anos de história no espaço do Oceano Atlântico, por onde andavam europeus e africanos, uns livres e outros forçados, compondo o período histórico que chamamos de modernidade.

O Atlântico negro. Paul Gilroy. Editora 34. 2019. Tradução: Cid Knipel Moreira.

O livro de Paul Gilroy, O Atlântico negro é mais ou menos isso. No Atlântico se encontram os povos europeus, brancos, no novo tempo histórico da modernidade, alavancados por uma filosofia que atendia pelo nome de iluminismo ou esclarecimento, pelo qual a humanidade daria verdadeiros saltos no rumo de um progresso que não mais teria fim. A razão e a ciência seriam as responsáveis por esta tamanha façanha. Os europeus brancos vieram para a América, de norte a sul, passando pelo Caribe. Na África iriam buscar os trabalhadores que trabalhariam nas plantations, num novo velho sistema de trabalho, a escravidão. Essa reintrodução da escravidão nas relações de produção provocou a diáspora do povo negro, fadado a se submeter à supremacia branca. Ao menos é isso que nos é contado pelos livros de história.

Esses povos negros tinham um tradição e uma identidade cultural que, pela subordinação à condição de escravos, deveria ocupar um lugar secundário em suas vidas. A supremacia europeia branca lhes seria imposta. Mas eles não se rendem. Preservam seus traços originários e identidários. Preservam sua linguagem e formas de comunicação, especialmente pela literatura, pela poesia e pela música. Não abdicam de seus amores e de suas paixões. E as expressam. E as culturas se misturaram. Passaram a existir negros, também na Europa e na América. É a diáspora dos povos africanos.

Esses povos que navegam pelo Atlântico negro se encontram e mantém os mais diferentes tipos de relações. Essas relações se contrapõem frontalmente com os princípios da doutrina do esclarecimento, do iluminismo, especialmente com os ideais de emancipação humana, proclamados em seu hinos e slogans revolucionários: "Liberdade, igualdade e fraternidade". Em 1804, na proclamação da independência do Haiti, a casa caiu. Esses princípios seriam válidos apenas para os povos europeus, praticantes dos princípios da cultura ocidental, que continham em si a irrevogável hegemonia ou supremacia. Vejamos isso, numa frase de Du Bois, um dos autores analisados no livro de Gilroy:

"[...] a característica de nossa era é o contato da civilização europeia com os povos não desenvolvidos... Guerra, assassinato, escravidão, extermínio e devassidão: este tem sido reiteradamente o resultado de se levar a civilização e o abençoado evangelho às ilhas do mar e aos pagãos sem lei" (página 234). Que síntese!

O livro de Gilroy apareceu pela primeira vez no ano de 1991, em inglês. No Brasil, tivemos a primeira edição datada de 1993. Paul Gilroy é historiador e escritor britânico e fundador do Centro para o Estudo da Raça e Racismo Sara Parker, do University College de Londres. O título completo do livro é O Atlântico negro - Modernidade e dupla consciência. Na contracapa da edição brasileira lemos o seguinte comentário:

"Clássico contemporâneo da sociologia e dos estudos da cultura, O Atlântico negro, de Paul Gilroy, professor da Universidade de Yale, busca definir a modernidade a partir do conceito de diáspora negra e suas narrativas de perda, exílio e viagens. Histórias de deslocamentos e identidades caracterizam essa formação que Gilroy chama de Atlântico negro: um conjunto cultural irredutivelmente moderno, excêntrico, instável e assimétrico, que escapa à lógica estreita das simplificações étnicas, e se manifesta tanto nos escritos de W. E. B. Du Bois como nas letras dos rappers do século XXI".

"Nas letras e nos rappers". Essa é a construção do livro, de 427 páginas, divididas em seis capítulos e dois prefácios, um dedicado especificamente à edição brasileira. Os capítulos tem os seguintes títulos: 1. O Atlântico negro como contracultura da modernidade; 2. Senhores, senhoras, escravos e as antinomias da modernidade; 3. "Joias trazidas da servidão": música negra e a política de autenticidade; 4. "Anime o viajante cansado": W. E. B. Du Bois, a Alemanha e a política da (des)territorialização...; 5. "Sem consolo das lágrimas": Richard Wright, a França e a ambivalência da comunidade; 6. "Uma história para não passar adiante": a memória viva e o sublime escravo.

Fiz algumas anotações ao longo da leitura dos capítulos, mas vou me ater apenas a alguns comentários. Por óbvio, os capítulos 4 e 5 são uma análise dos autores que constam no título. No primeiro ele enfoca a questão do título da Modernidade e dupla consciência. O autor é negro e europeu. Aparecem também os primeiros autores analisados. Já no segundo capítulo, o foco se centra na dialética do escravo de Hegel, interpretada sob a ótica do negro. Nesse capítulo tem uma citação de um escritor, Frederick Douglas, muito interessante sobre os piores escravocratas: "Se eu tivesse de ser novamente reduzido à condição de escravo, em seguida a esta calamidade, eu deveria considerar o fato de ser escravo de um proprietário religioso o pior que poderia acontecer. De todos os proprietários de escravos com que me encontrei alguma vez, os religiosos são os piores" (página 133). No terceiro capítulo é abordada uma das mais ricas herança negras, a sua música. O último capítulo é dedicado a diáspora e às perspectivas. É feita uma comparação entre os dois povos que sofreram as maiores diásporas da história.

Tive muitas dificuldades na leitura do livro. O tema da identidade da cultura negra e o seu tratamento na literatura me é praticamente desconhecido. Dos livros citados e analisados li apenas Toni Morrison  Amada. Já dos autores da construção da modernidade Gilroy tem um domínio absoluto, passando por Kant, Hegel, Nietzsche, Foucault, Adorno, Benjamin, Jameson, entre outros. Um livro para especialistas, creio ter sido esta a dificuldade que eu encontrei para a sua leitura. Um livro de extrema erudição.

sábado, 21 de agosto de 2021

Água por todos os lados. Leonardo Padura.

No dia 19 de agosto de 2019 - (olhem o acaso, começo a escrever este post, exatamente dois anos após, no dia 19 de agosto de 2021), fui assistir a uma fala de Leonardo Padura, no espaço cultural Capela Santa Maria, aqui em Curitiba. Tive enormes dificuldades em entender o idioma, mas lembro que falava muito de Cuba, de Mário Conde, personagem de muitos de seus romances, de ser um escritor cubano, que morava e escrevia em Cuba, da sua insularidade, do Malecón e da "Água por todos os lados". Na oportunidade comprei o seu livro Hereges, pensando em ganhar um autógrafo do escritor.

A minha foto com o Leonardo Padura, agosto de 2019.
 

Como havia longas filas, contentei-me em tirar uma foto a seu lado. Por esses dias, visitando a sua obra, deparei com o título Água por todos os lados. Lembrei-me da palestra e não tive dúvidas, comprei o livro e, de imediato, comecei a sua leitura. Eu sempre leio acompanhado de um caderno para fazer apontamentos. Entre os meus apontamentos sobre este livro de Padura, tem inúmeros adjetivos, junto às anotações sobre os capítulos: fantástico, maravilhoso, esplêndido, extraordinário, e por aí vai. Que livro maravilhoso! Estou falando de Água por todos os lados, de Leonardo Padura, numa edição da Boitempo, de 2020.

Creio que na terceira parte do livro - Vocação e possibilidade - temos uma síntese da intenção do autor com este seu livro: "Ser cubano. Ser um escritor cubano. Ser um escritor cubano que vive em Cuba. Creio que a esta altura é evidente que essa é a divina trindade entre cujas condicionantes se moveu e se move toda a minha vida e em torno das quais, de um modo ou de outro, giram todos os textos que reuni neste livro, escritos num período de quinze anos e selecionados entre muitos outros de caráter jornalístico ou ensaístico, redigidos no período em que comecei a escrever O romance da minha vida, por volta do ano 2000, até o dia em que Lucía e eu fechamos o cadeado desta coletânea, em 2018" (Página 229).

Água por todos os lados. Leonardo Padura. Boitempo, 2020. Tradução: Monica Stael.

Leonardo Padura é um escritor cubano, com profundo sentimento de pertencimento. Nasceu em Havana, num bairro periférico da cidade, numa casa em que já haviam nascido seus avós e seus pais. É desta relação que nasce o seu sentimento de Cubania. É todo um envolvimento cultural, e a cultura cubana, segundo Padura, ultrapassa em muito os limites geográficos da ilha. Havana, desde cedo, foi a terceira cidade da América espanhola, perdendo apenas para as cidades do México e de Lima. Este é o fator local, particular, por onde inicia a sua gigantesca literatura de abrangência universal. O ser humano em suas circunstâncias.

O livro tem uma breve apresentação sob o título - Descomedimento, singularidade e escrita. Cuba é realmente um país singular: independência tardia (1898), tutela militar americana, a revolução de 1959 e a sua afirmação socialista, em 1961. E, acima de tudo, uma forte identidade cultural, oriunda em grande parte, de sua rica literatura. Sentimento de pertencimento.

O cerne do livro é constituído por três partes: I. A maldita circunstância da água por todos os lados (Padura define: "Porque o muro do Malecón havanês constitui a evidência mais palpável de nossa insularidade geográfica e existencial: nessa longa serpente pétrea, sente-se como em nenhum outro lugar, a evidência de que vivemos cercados de água, contidos pela água, condição que ninguém definiu melhor que o poeta Virgílio Pinera: "A maldita circunstância da água por todos os lados"" (Página19). O Malecón é um paredão de 8 quilômetros de extensão, que vai do centro histórico até o Vedado, passando pelo Centro Habana. Ele tem um metro de altura e 60 cm. de largura. É ladeado por quatro metros de calçada e seis pistas em sua avenida. Foi construído em 1901. Ele marca o começo e o fim. A terra e o mar.  

Esta primeira parte tem sete subtemas: 1. A cidade e o escritor (O Malecón, Mantilha, o seu bairro e mais outros onze tópicos de seu envolvimento com Havana, os seus escritores de um modo todo especial); 2. O reguetón de Havana (Um profundo lamento sobre os valores da juventude de Havana. Cantam uma música "plástica, maçante, agressiva e grosseira". Traça ainda um excelente panorama histórico da Revolução, focando na crise dos anos 1990, com o fim da URSS e sobre os jeitos de driblar os problemas que persistem); 3. A maldita circunstância da água por todos os lados (um dos focos é a busca por saídas da ilha, especialmente a de seus escritores); 4. A geração que sonhou com o futuro (É a geração dos anos 1970, a da educação massiva do ensino superior e os seus sonhos, suas decepções e o enfrentamento da crise dos anos 1990. É um dos pontos altos do livro; 5. Sonhar em cubano: crônica em nove innings. (O grande tema é o beisebol, o esporte nacional, que é uma de suas paixões); 6. Fotos de Cuba (Como se vive em Cuba, hoje em dia); 7. Eu gostaria de ser Paul Auster (Sobre a relação com os Estados Unidos, especialmente a de seus escritores).

A segunda parte leva por título - Para que se escreve um romance? Esta parte é bastante autobiográfica. Conta de sua trajetória profissional e a sua opção em ser romancista e de como vive um romancista que vive e escreve em Cuba. Tem cinco tópicos principais que focam os seus principais livros. 1. O sopro divino: criar um personagem (Mário Conde é este personagem, presente em oito de seus romances); 2. O romance que não foi escrito. Adendos a O homem que amava os cachorros (um rico relato de suas pesquisas para a construção dos principais personagens desse romance: Trótski e o seu assassino Ramón Mercader. Este deve ser o seu livro mais conhecido. Cinco anos para escrevê-lo); 3. A liberdade como heresia (segue o mesmo esquema de mostrar as pesquisas sobre os personagens e situações do romance - Hereges -, no caso, os judeus da Amsterdã, dos meados do século XVII. Dois ganham um destaque maior: Rembrandt e Espinosa); 4. O romance de sua vida. José María Heredia ou a escolha da pátria. (mais uma vez o foco é a construção do personagem do romance - O romance da minha vida); 5. Para que se escreve um romance? (Trata-se de um verdadeiro passeio pela literatura universal, buscando os motivos pelos quais grandes autores escreveram os seus romances. Também aparecem os motivos pelos quais ele, Padura, escreve. Outro ponto alto do livro). O romance da minha vida será a minha próxima leitura. Os outros dois mencionados eu já li e passo o link da resenha ao final do post.

A terceira parte leva por título - Vocação e possibilidade. São quatro tópicos analisados. 1. Cuba e a literatura: vocação e possibilidade (uma análise muito objetiva do que foi a Revolução cubana, o seu projeto de alfabetização massiva, o facilitar o acesso ao ensino superior e a sovietização da cultura a partir dos anos 1970, sob o lema de "Dentro da Revolução, tudo; contra a Revolução, nada". Teriam sido os piores anos para os escritores. A partir da crise dos anos 1990 e com o fim da URSS, os controles foram afrouxados); 2. Revolução, utopia e liberdade em "O século das luzes"  (O século das luzes é um romance político/histórico, escrito por Alejo Carpentier em 1958, portanto, antes da Revolução cubana. Nele o autor mostra suas decepções com as revoluções e a degradação das utopias. Vislumbrei aí um novo romance de Padura, tendo Carpentier como protagonista. Também já localizei o romance para a sua compra); 3. Virgílio Pinera: história de uma salgação (Salgar, no caso, tem o significado de amaldiçoar. Pinera foi, segundo Padura, um "morto civil", o mais proibido dos autores cubanos); 4. Havana nossa de cada dia (são mostradas as diferentes fases da literatura cubana e a sua relação com a Revolução, que termina com "as narrativas do desencanto").

Sem favor nenhum, considero Leonardo Padura um dos maiores escritores vivos de nossos tempos. Ele tem muito claro o porquê da escrita de seus romances. É um dos autores que melhor expressa as angústias existenciais e circunstanciais do ser humano universal, que tem na liberdade o seu bem maior. Deixo a resenha dos dois livros dele, que eu já li:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/05/o-homem-que-amava-os-cachorros-leonardo.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/10/hereges-leonardo-padura.html



sábado, 14 de agosto de 2021

O que aprendi com o silêncio. Monja Coen.

Pelo dia dos pais, recebi de um dos meus filhos, o Iuri, o livro da monja Coen, O que aprendi com o silêncio. De imediato fui acometido de uma enorme curiosidade. O meu maior contato com a cultura budista foi através do Livro de Hermann Hesse, Sidarta. Da monja Coen, além de algumas boas referências, ouvi falar dela, mais precisamente, quando ela visitou o ex-presidente Lula, injustamente preso no prédio da Polícia Federal em Curitiba. Não iria nem mencionar este fato em tempos de tanta intolerância, mas ela mesma se refere ao fato, de uma maneira muito bonita por sinal. Ao Iuri, pelo presente, os meus agradecimentos.

O que aprendi com o silêncio. Monja Coen. Academia. 2020.

Com certeza, um belo livro, de difícil resenha. Começo então pelo que não encontrei no livro e que foi o que mais me encantou e bem me fez. Nenhuma lição de moral, nenhuma admoestação do que deve ou precisa ser feito, nenhuma manifestação de arrependimento ou sensação de culpa. Apenas um convite ao silêncio para uma busca e um encontro consigo mesmo. Nietzsche se fez presente ao longo da agradável leitura, de seu livro, digamos de memórias, além de muitas reflexões. O "torna-te quem tu és" está onipresente. Mas mais presente ainda esteve o primeiro livro do filósofo alemão, O nascimento da tragédia ou o Helenismo e o Pessimismo. Um clamor pela unidade entre o dionisíaco e o apolínio e um clamor ainda mais forte contra a racionalidade, da bipartição do mundo em bem e mal. Isso não me impediu de ver também um Nietzsche oposto e distante.

Também o agora centenário Edgar Morin, se fez presente pelo seu livro Minha Paris - minha memória, no seu primeiro encontro com a complexidade e da ruptura com o binário: "Embora o conceito de complexidade ainda não estivesse no meu horizonte, era um trabalho complexo que eu realizava ali: conexão entre conhecimentos distintos, em geral compartimentados, identificação de contradições que meu espírito hegeliano-marxista me levava a detectar em lugares onde são ignorados pelo pensamento binário". No rumo da superação, do complexo, do unitário.

Já na apresentação do livro, a monja nos ensina: "Pausas e notas musicais. Como poderia uma existir sem a outra? Somos o pluriverso em movimento. Tudo que existe é o consurgir interdependente e simultâneo. Nada tem uma autoexistência individual, substancial e independente. Cada ser é o todo manifesto e não parte do todo. Surge a responsabilidade, a ternura, o cuidado, a compaixão e, assim espero, a sabedoria perfeita". Vejam bem, não a moral, normalmente uma prescrição para os outros.

O livro é de memórias. Adoro livros de memórias. Anos de formação, raízes históricas e familiares, anos do brotar da vida, tempos de insubordinação, tempos de busca, tempos de interrogações existenciais, tempos de angústias profundas. nada parece ter sentido. Tudo é experimentado. Nada parece satisfazer. Muitos buscam a acomodação, as pessoas mais irrequietas buscam saídas. Coen se tornou a monja Coen. Ela se encontrou no silêncio da reflexão, nos exercícios de domínio do corpo e da mente. Isso foi em Los Angeles, depois de já ter percorrido mundo e mundos.

Este é o relato de seu livro. Cinco capítulos, num vai e vem incessante. Memórias da intensidade de sua vida. De uma infância relativamente tranquila, de um primeiro casamento, já aos 14 anos, da experiência da maternidade, de presenças e ausências, de perdas e de danos, de buscas mundo afora. O Zen Center de Los Angeles modificou a sua vida. Aprendeu a meditar, aprendeu o significado de gestos e rituais e, sobretudo, aprendeu a encontrar-se no silêncio. Leu os mestres históricos do budismo e buscou seus mestres atuais. Foi ao Japão e para a Índia, em busca de aperfeiçoamento. Voltou para São Paulo. Teve dissabores e incompreensões em seu trabalho. É hoje uma grande influenciadora, com canal no You Tube, programa de rádio, palestras e ensinamentos.

O livro tem prefácio de Clóvis de Barros Filho, apresentação da autora, que representa o primeiro encontro com o O que aprendi com o silêncio e cinco capítulos. No primeiro, O instante Zen, ela mostra o seu encontro com o Zen, quando morava em Los Angeles e trabalhava no Banco do Brasil. No segundo, Aprendizados, ela mesma o apresenta - "Saí decidida a abandonar marido, apartamento, cachorro, emprego e me alistar como trainee - aprendiz". É o grande encontro com os mestres do budismo e as suas lições. Buda, Sidarta e os seus continuadores. Tornou-se vegana e a ver a grandeza da natureza e a importância da água. Em duas frases, uma síntese: "Tendemos a separar o misticismo da realidade, como se houvesse uma ruptura entre sagrado e profano. Essa dicotomia no pensar e no viver nos leva a incontáveis conflitos e sofrimentos". 

No terceiro, Novas comunidades, ela apresenta a continuidade de suas experiências de vida, tanto no Japão, quanto no Brasil. um novo casamento e uma nova separação. Novos instantes Zen. No quarto, Memórias inacabadas ela memoriza fatos de sua vida, antes de ser monja. São Paulo, a ditadura militar, sua vida de jornalista, a ida a Londres, memórias de sua infância, sexualidade, puberdade, os avós, a irmã. Neste capítulo ela se desnuda. Mostra a sua vida como de fato ela fora. Deixo uma passagem de sua vida anterior a ser monja, quando vivia em Los Angeles, com marido americano. Uma percepção da cultura, da contabilidade do modo americano de viver:

"Quando fui morar em Los Angeles não sabia exatamente o que iria acontecer. Enquanto meu marido norte-americano procurava trabalho na indústria musical eu o esperava no apartamento de uma jovem atriz. Essa jovem, cujo nome e rosto já não sei, tinha uma filha pequena. Algumas vezes ela saía e me pedia para ficar com a menina. Eu adorava brincar com ela. Mas meu marido ficava furioso.

Se era para ser babysitter ela deveria me pagar ou descontar do aluguel. Ainda mais quando eu divida minha refeição congelada com a criança. Foi a primeira vez que me dei conta da maneira que norte-americanos se tratam mutuamente, como tudo pode ser negócio e precisa ser pago". Neste capítulo ela também apresenta reflexões suas, em forma de poemas.

 No quinto, Da adolescência à vida monástica, ela reconta a sua vida, apresentando novos fatos e situações. Ela assim sintetiza o capítulo: "Mas se tudo é este eu, se tudo está incluído e faz parte, mesmo a procura, mesmo a dúvida, mesmo a ignorância. É possível acessar esse estado mental, chamado de Samadhi. Um estado de tranquilidade serena, que nos permite ver a realidade assim como é e atuar de forma decisiva e clara, com dignidade e compostura. É também neste capítulo que ela relata a visita que fez ao ex-presidente Lula: "Fui visitar o ex-presidente Lula. Adorei conhecê-lo, ouvir e ver seus olhos. Meditamos juntos. Foi antes de seu netinho morrer. Continuaria ele meditando? Nunca mais nos falamos. Pessoas me insultaram por tê-lo visitado. Outras me agradeceram. Não agradamos a todos o tempo todo, já disse Lincoln. Acredito firmemente que a meditação será um dos elementos de transformação social e política de toda a humanidade".

Termino este pequeno interregno do mundo da racionalidade, e pior, da racionalidade, instrumental, que é, infelizmente o nosso mundo real, com uma frase da monja, aposta na contracapa do livro: "Aprendi muito com o silêncio, ensinou-me a ouvir dentro e fora de mim mesma. Ensinou-me a quietude viva e excitante de jamais repetir um instante".

Li hoje (12.08.2021) na página do UOL. Monja Coen, um dos principais nomes ligados à filosofia budista no país será "embaixadora da moderação" da Ambev. A monja com mais de 2,7 milhões de seguidores no Instagram e mais de 500 mil livros vendidos, ajudará à cervejaria a falar sobre "limites e autoconhecimento".  As mensagens falarão de saúde e limites do corpo - e, segundo a empresa, não abordarão produtos e marcas. Seria a necessidade da materialidade do espírito?