segunda-feira, 15 de abril de 2013

Siré Obá. A Festa do Rei.

Na quinta feira (04.04) fui assistir a peça de teatro, Siré Obá - A Festa do Rei, dentro da programação do Festival de Teatro de Curitiba. A peça foi apresentada pelo grupo NATA., Grupo Afro Brasileiro de teatro de Alagoinhas, da Bahia. Uma peça memorável. Como não tenho condições de comentar a peça, expresso aqui o que eu senti durante a sua apresentação. Mas desde já digo que compreendi o encanto que pessoas como Pierre Verger, Jorge Amado e Zélia e Carybé tiveram pelo candomblé e a ele se converteram (nem sei se converter é a palavra correta). Pierre Verger e Carybé, inclusive foram morar em Salvador.
Cena da abertura da peça.

A peça começou no páteo do teatro, com canto e dança e com o convite para adentrar ao recinto. A peça tem por finalidade familiarizar o público, numa pequena iniciação, com o candomblé. E a primeira sensação que eu tive, é a de que jamais você vai assistir a um candomblé como você vai assistir a uma missa. Você necessariamente irá participar de um candomblé.  Você é participante o tempo inteiro. Duas cenas me chamaram a atenção mais particularmente: a primeira em que o ator dramatiza um encontro dele com Xangô. É eu nele e, ele em mim. O humano e o divino se fundem numa única realidade; a segunda é quando o ator lembra dos banhos que sua mãe lhe dava, enquanto cantava e, no canto tinha carinho e lições. Imediatamente lembrei de uma conversa que eu tive na ilha de Superagui, com o pessoal do fandango. Nós passamos os nossos valores para os filhos, pelo nosso canto.

O processo civilizatório me passou pela cabeça. Livros e viagens vieram à tona. A Ilíada, a Eneida, especialmente o capítulo VI, Enéias no mundo das sombras, para encontrar-se com seu pai Anquises e ouvir dele as propostas para uma boa convivência entre os homens e A Cidade Antiga, e a elevação dos costumes em religiosidade e instituições. Nas viagens, lembrei-me de Delfos. Até o lugar é místico. O monte Parnaso.Águas sulfurosas, ventos cantantes e vapores subindo das profundezas da terra. moradia da serpente Pítias, filha da deusa Géia. Ali, envoltos em toda a magia se predizia o futuro, auscultando as manifestações de Géia. E a serpente, a que mais ausculta a terra, lugar onde estão nossos antepassados, é o mais sagrado entre os animais. É ela que faz a mediação dos vivos com os seus ancestrais. É ela a mediadora entre vivos e mortos e transmite os desejos de ambos. Uma mediação mística e divina. Não é por nada que a serpente passou a ser o mais abjeto dos animais, no cristianismo. Assim como Delfos era considerada o centro do mundo, também Cuzco era considerada como o umbigo do mundo, pelos povos incas e o seu culto à Pachamama, a mãe terra.
Na cultura greco-romana, o culto à serpente. Ela ausculta a terra, onde estão enterrados os ancestrais.

Voltando á peça de teatro. Quando cheguei em casa, anotei quatro palavras com as quais eu fazia a minha síntese da peça: ancestralidade; transcendência; mediação e valores. Por estas palavras, a minha síntese da peça e da minha iniciação ao candomblé. O candomblé é uma grande festa, com danças e cantorias e muita comida e bebida. Se forma um ambiente de transe. "Xangô em mim e eu nele". A elevação do humano se dá até ao divino, passando pelos ancestrais, e humano e divino passam a ser a mesma realidade. E o que se passa? Os eternos pedidos dos humanos, relatando às divindades as suas necessidades, de um lado e por outro, fazendo os agradecimentos pelo já recebido. A natureza comanda os pedidos, essencialmente a fertilidade e é ela que determina o calendário das festas: festas de plantio, festas de colheita, festas de nascimento e de culto e reverenciamento na morte. E que valores decorrem disso? Aqueles valores legados pela ancestralidade. Eu os identifiquei com a Areté grega, o desenvolvimento das tuas possibilidades ao seu grau máximo. O que significa isso. Copiar o exemplo dos ancestrais e tudo fazer para que as gerações futuras tenham orgulho em se espelhar em você.

Como esta cultura deve fazer bem. Nada tem a ver com a neura da nossa cultura centrada no shopping center, erguido à condição de catedral do culto ao consumo de bens supérfluos, que não consigo adquirir com o salário do meu trabalho e que  isso ainda me gera uma enorme culpa, de que esta realidade é gerada por incompetência minha. E dê-lhe loterias, substâncias amortecedoras, igrejas da teologia da prosperidade e carnês de pagamento.
Cena do encerramento da peça. O público participando.


Mas, acima de tudo me lembrei de Nietzsche. Três livros seus: O Nascimento da Tragédia, Genealogia da Moral e Além do Bem e do Mal e como não, o subtítulo do Crepúsculo dos Ídolos,  -"Como filosofar com o Martelo", para, com o martelo quebrar os pilares que sustentam a cultura fundada na separação entre Apolo e Dionísio e nos ressentimentos causados pela culpa e pelo ascetismo. Lembrei também, de Mãe Senhora, se não me engano, que no vídeo sobre a obra de Darcy Ribeiro O Povo Brasileiro, fala que no candomblé a culpa e o pecado não tem destaque. Certamente porque Dionísio e Apolo vivem uma única e mesma realidade. Vivem a realidade do divino/humano. "Xangô em mim e eu nele".

Para entender melhor esta realidade, vou ler mais Jorge Amado e Zélia Gattai e começar a leitura de Pierre Verger, ou melhor, de Pierre Fatumbi Verger, como ficou sendo o nome deste aristocrata francês, baiano por opção e africano por paixão(de sua cultura, conhecida em Salvador). E parabéns aos organizadores do Festival de Teatro de Curitiba por terem trazido esta peça e com ela abrir esta janela para olhar para o mundo. 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

O Povo Brasileiro 10 - Invenção do Brasil.

Darcy abre o décimo e último capítulo do vídeo sobre o Povo Brasileiro, falando do processo extraordinário que foi o fazimento do Brasil. O povo, ao negar sua ninguemdade, se fez brasileiro. Um novo gênero humano, a humanidade dos trópicos. Roberto Pinho nos lembra que o avanço humano se fez por conquistas e por seduções. Os povos se interpenetraram pelo amor e pela força, deixando a marca humana de paixões e conflitos, de paz e tranquilidade. Judith Cortesão, por sua vez nos fala do mito português, a partir do maravilhamento do descobrimento: a descoberta do paraíso terrestre, cumprindo o seu destino de que viver não é preciso, mas que viver sem sonhos é absolutamente impossível. O viver preciso seria obra da pura racionalidade.
Brasil, um país que ainda precisa se inventar, para ser realmente uma Nação para todos.

Darcy também destaca a beleza desta terra, o mito do paraíso tropical, enquanto Roberto Pinho lembra que, pela apropriação dos muitos mitos, o povo brasileiro foi construindo a sua identidade. A narração nos fala da subversão que o projeto português veio sofrendo com a realidade dos trópicos e a presença da força ameríndia e africana. E continua, - nada aqui permaneceu puro. Um povo mestiço, misturou deuses e mais uma outra realidade, uma nova língua: o português do Brasil. Darcy reflete sobre o milagre da unidade nacional. Como isso foi possível com a confluência de tanta e, tão diversa gente, vinda da Europa, da África e das florestas. Houve uma grande homogeneidade. A uniformidade nas diferenças marcou um conserto de uma grande beleza, que aos poucos foi amadurecendo. A narração nos alerta que esse processo não foi nenhum mar de rosas.

Chico mais uma vez lê Darcy. Lê que muitos tentaram atribuir ao Brasil a cordialidade como a sua principal característica. Por excelência seríamos cordiais, gentis e pacíficos. Não foi bem assim. Os conflitos foram de toda ordem: étnicos, econômicos, sociais e religiosos. O assinável, continua Chico, é que nunca houve conflitos puros. Cada um se pintou com as cores dos outros. Houve entrechoques de índios, negros e brancos e sempre vivemos em estado de guerra latente. E muitas vezes esses conflitos se tornaram cruentos e sangrentos. Darcy conta que houve luta em toda parte, porque diferentes eram os povos e os destinos dessas gentes. O Poder central sempre dominou a todos.

Como exemplo de conflitos, a narrativa do vídeo nos põe em contato com a Cabanagem. Os povos nativos e com vida autônoma entram em conflito com a estreita camada lusa e com o seu projeto de país. O resultado foi um grande genocídio. Mais de cem mil caboclos foram mortos, embora, nas lutas tivesse havido grandes conquistas, apoderando-se inclusive de cidades como Belém e Manaus. Estes caboclos foram trucidados para que a amazônia continuasse amarrada ao Brasil. Fizeram o anti natural para que aquela gente fizesse parte de nossa gente.
A construção da unidade brasileira não foi nenhum mar de rosas. Sublevações, guerras e revoluções sempre estiveram presente, sendo sempre dominadas.

Palmares também é lembrada. Um caso típico de um conflito inter racial. Negros fugidos dos canaviais se organizaram para viverem para si. Já tinham esquecido da África e fizeram uma república bem brasileira, socialista, comunitária onde tudo era de todos. Só que fizeram isso da única forma possível: primitiva, rudimentar, desordenada e desarticulada e, como os cabanos também foram trucidados. Chico lê que a sua destruição era um requisito da manutenção da sociedade escravista, seja para reaver negros fugidos ou para se precaver de novas fugas. As sublevações negras eram mais temidas que as invasões estrangeiras.A destruição teria que se dar por uma lição exemplar. A narrativa continua. E assim, conspirações, revoltas e guerras marcaram os caminhos da nossa configuração como povo e como país. Todos brigaram contra todos e as lutas não cessaram. Houve lutas pela independência e após ela, como nos atestam a Revolução Farroupilha, a Sabinada e a Guerra de Canudos e outros levantes sertanejos.

Canudos é comentada. A herança portuguesa é lembrada. O mito do sebastianismo. Como seu corpo nunca fora encontrado nos campos de batalha, ele voltaria forte, jovem e formoso. É uma das heranças mais bonitas que temos, lembra Darcy. Ele viria com seus exércitos para redimir o seu povo, matando os fazendeiros, os donos da terra, a gente canalha. Isso povoava a imaginação dessa gente. E eles poderiam plantar para comer. As crenças mais diversas se concentraram na figura de Conselheiro, com seus bandos de beatos. E os fazendeiros se apavoravam, não diante de sua religião, de seu misticismo. Se apavoravam com a ideia de que eles fariam as suas roças e comeriam o que plantavam e, ninguém mais faria isso para eles. Foram acusados de monarquistas e contra elas foram levados os exércitos e os canhões. Ao final o que encontraram? Algumas mulheres e crianças. Tinham matado todos.
O maior milagre brasileiro, a unidade nacional. Culturas originárias, fusões e incorporações construíram um povo único, o povo brasileiro.

A narração nos dá indícios para a conclusão do vídeo, mostrando que entre encontros e desencontros é que inventamos um povo e um país e também uma língua nova, o português do Brasil. E como a história continua, também continua a invenção do Brasil, com as fusões genéticas, técnicas e simbólicas. Mas o Brasil deu certo? Muitos acham que não. Eduardo Giannetti, explica. Quem acha que o Brasil não deu certo, olha apenas indicativos objetivos e busca comparações com os Estados Unidos. Diz ser um equívoco frequente. Lembra que muita coisa não deu certo mesmo, outras deram e muitas outras ainda poderão dar. Cita as mazelas sociais, como aquilo que não deu certo, como a educação, a saúde e a instabilidade das instituições políticas, que precisam ser melhoradas para propiciar uma convivência próspera e com instituições estáveis. E com toda a convicção exalta as nossas vantagens no campo da subjetividade. As heranças da vitalidade iorubá, a ternura lusitana e a magia índia nos dão a riqueza da arte, da cultura, da vida afetiva, das relações pessoais, tão ricas e tão densas. E Lupicínio canta: e assim vamos vivendo de amor...

Judith lembra da enorme capacidade produzida pelos mitos sobre esse povo e que os mitos, pelo simbólico são até mais importantes que os fatos. Darcy pergunta: o que queremos? E a resposta é tão simples. Queremos fazer o país habitável, queremos ser felizes, alegres, amorosos, afetuosos e comer todos os dias. É um absurdo, um país tão grande e tão rico ter tanta fome e tanta criança abandonada. E lamenta que o nervo da ética, do humano e do utópico tenha se quebrado.
Que a beleza da natureza brasileira seja o símbolo  maior de nosso futuro de prosperidade e grandeza.

Agostinho da Silva faz votos de que o mito português de D. Henrique, da instituição do reino do Espírito Santo, com fraternidade e prosperidade, efetivamente se concretize e Darcy termina, chamando muita atenção para o que irá dizer: Nós temos que inventar o país que queremos. Além disso eu, particularmente, gosto muito da afirmação de que - se o Brasil sempre deu certo como empresa para os outros, - por que ele não pode dar certo como Nação, para si próprio, para a sua gente, a nossa gente? 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O Povo Brasileiro 9. - O Brasil Caboclo.

De novo Darcy Ribeiro faz a maior parte dos comentários sobre o mais bonito dos Brasis, o Brasil caboclo, o Brasil  amazônico, das riquezas e dos povos da floresta. Chico continua lendo trechos de Darcy e Aziz Ab'Saber e  Márcio de Souza também comentam e, com raro brilho. Também são lidos textos do padre Vieira e de Rondon. Enquanto isso ao longo de todo o capítulo são mostradas a florestas e os rios, os produtos nativistas e os peixes, bem como manifestações de fé deste Brasil caboclo.
No Brasil mais profundo, encontramos o Brasil Caboclo.

Muitos índios e poucos portugueses, misturados pelos jesuítas, eis a origem do nosso caboclo, que habita no lugar de beleza incomparável, beleza só nossa e de alguns vizinhos, a beleza da Amazônia. O chamado Jardim da Terra, de uma extensão imensa. Lá impera a exuberância e o mistério, o mito das riquezas, do ouro e da prata. Das mulheres guerreiras, de gigantes e de anões, das drogas e das plantas fantásticas. Se eu tivesse que falar da minha terra, diz Aziz Ab'Saber, diria que ela convive com raízes ainda  pré-históricas e que copia o que existe de mais moderno no mundo ocidental. Diria também, em termos de futuro, que temos os maiores recursos hídricos de rios, riachos e igarapés, de rios brancos, negros e violáceos, o maior domínio de natureza tropical e as florestas com a maior biodiversidade da terra. Bela perspectiva.
A exuberância do Brasil caboclo, amazônico. Muito sol, muita água, muita planta. Que biodiversidade!

A chegada dos europeus representou a catástrofe. As doenças que trouxeram entraram no corpo dos índios para dizimá-los. Foi o sarampo, a bexiga, as cáries dentárias, a caxumba e as gripes. todas mataram grande número de índios. Os que sobraram foram transformados em escravos, para a coleta das drogas do sertão, ou então ficaram sob o controle da catequese de jesuítas, carmelitas e franciscanos. O narrador vai lendo texto do padre Vieira, lamentando a morte de dois milhões de índios, em trinta anos. Este caboclos se transformaram em índios genéricos, sem língua própria, sem identidade. Uma enorme massa de índios, de poucos brancos e negros formou uma nova matriz étnica. Falavam o tupi, uma língua estrangeira que lhes foi trazida pelos jesuítas. O português era apenas a segunda língua, que foi se firmando, graças aos esforços, no segundo reinado. Viviam das drogas do sertão e da abundância da natureza, da forma mais rudimentar e primitiva.

A partir de 1880 ocorreu a primeira grande transformação, que marcou o seu maior florescimento econômico. A borracha abriu um ciclo econômico vinculado com a exportação, com a Europa. Para lá é que eram drenados todos os recursos. O seringueiro levava uma vida desgraçada e que conheceu uma nova forma de exploração, o sistema de aviamento. Ele recebia adiantamente as mercadorias que precisava, poucas na verdade: comida, roupas, pólvora,  e pagava depois, mas nunca conseguia pagar. As contas sempre pendiam para um lado só. Manaus transformou-se na capital mundial da borracha e Belém na capital da Amazônia.
O teatro de Manaus, símbolo do fausto da borracha.

Depois da primeira guerra o cenário muda. A Malásia domina o mercado da borracha e aqui ocorre a debandada. Empresários se suicidam, casas e palácios começam a ruir e Manaus, a primeira cidade brasileira a ter telefone, energia elétrica e bondes, na década de cinquenta nem energia elétrica mais tinha. Um novo período de desastres se reabrirá com o projeto dos militares golpistas. Queriam integrar a amazônia, loteando-a para os grandes grupos internacionais. Com a Transamazônica queriam levar a modernidade à região. Mas só inauguraram uma nova via crucis de conflitos agrários e de destruição de áreas indígenas. A desintegração e os conflitos tomam conta da região. A contradição é percebida e os povos da floresta se organizam. A morte de Chico Mendes representa simbolicamente todo este conflito. O narrador lê um texto do marechal Rondon sobre o absurdo do loteamento da Amazônia, um projeto atrasado, lastimoso e vergonhoso. As terras, onde jamais o homem civilizado pôs os pés,  numa inversão monstruosa de ordem tanto moral, quanto racional, passou a ser propriedade privada, para no futuro, ali se promover a expulsão de índios e ainda acusá-los de intrusos, salteadores e ladrões.
Olhem a maravilha! Integração entre o homem e a natureza. Ah! se essa natureza fosse tratada como a Mãe Terra, a Pachamama inca.

Até hoje a civilização se mostrou incapaz de produzir um sistema de viabilidade econômica às condições da floresta tropical. E, enquanto Chico lê, a câmara mostra cenas das consequências, como os misticismos e os trabalhos degradantes. O Brasil precisa vencer o desafio da amazônia e tem que mostrar ao mundo, que nem tudo é mercado e competição e que o índio precisa de medidas especiais de proteção, para que as populações do Brasil Caboclo não sejam reduzidas à condições de vida de extrema pobreza. E Darcy quase chega a nos pregar: lá vive o povo mais culto da terra, o povo mais culto do Brasil. Tem dez mil anos de sabedoria herdada, de convívio com a natureza e de saber sobreviver nela, sem degradá-la. O que não seria de uma economia que incorporasse o cupuaçu, o bacuri e tantas outras frutas numa agricultura organizada. A própria mata se enriqueceria. O que não seriam as fazendas de criação de peixes e de jacarés.O cenário de fundo vai mostrando estas maravilhas.
Escolhi esta foto como símbolo do Jardim da Terra, do qual Darcy fala.

Darcy termina, afirmando que ninguém tem o que nós temos. Imaginem o turismo levando o mundo inteiro para ver as belezas da selva amazônica, e todos andando pelados pelas matas. Temos o maior sol, a maior  floresta e a maior biomassa. O mundo mais rico, o mais exótico e o mais bonito. Temos as eternas promessas do Eldorado Nós temos o Jardim da Terra.
Mais uma foto do Paraíso terrestre, o jardim do Éden, que é a amazônia. O encontro das águas do rio Solimões e do Negro.

Ir a Manaus, Belém também é muito bonita, é um dos maiores encantos que se pode imaginar. Quando a conheci, visitando filho que trabalhou por lá, comprei um álbum, em CD, de 400 fotografias, mostrando paisagem, flora, fauna, folclore, artesanato, etnias, arquitetura e gastronomia. Uma maravilha só. As fotos são de Nelson Jobim e Ana Butel. As quatro últimas fotos são deste álbum.



quarta-feira, 10 de abril de 2013

O Povo Brasileiro 8. - O Brasil Sulino.

O Brasil sulino é uma região muito diferente, como é diferente entre as suas próprias regiões.A sua povoação teve quatro origens básicas, culturas que resistiram, mas acabaram se mesclando. São elas: os missioneiros, os provenientes da gadaria, portugueses e açorianos e , num termo genérico, os gringos. Isso nos é contado por Darcy e Chico, por Eduardo Giannetti e Judith Cortesão e com riquíssimas ilustrações e visuais.
Até eu entrei nesta história do Brasil Sulino, o meu espaço para ser um brasileiro, de origem alemã, mas cosmopolitizado. Somado este espaço, ao meu tempo, e, eis eu aí.

As Missões são algo impressionante. Se formaram pelo encontro dos jesuítas espanhóis, com um projeto bem definido, com os índios guaranis e, com este encontro, uma utopia se fez realidade. Os jesuítas transformaram índios  guerreiros e de ritos antropofágicos em índios seráficos e piedosos, que confessavam diariamente as suas mais recônditas vontades e os mais profundos desejos, que por sua vez recebiam a censura e a repressão dos padres, com a triste ideia do pecado. Centenas de milhares de pessoas entraram neste projeto. O projeto de Deus estava realizado! Além de um projeto político, era também, um projeto espiritual, de conquista de almas. Judith Cortesão nos relata que este foi um dos projetos de lavagem cerebral mais bem sucedidos. Porém, um dos mais abomináveis, ao se desfazer uma visão de mundo e promover o desenraizamento cultural. O índio já não era mais índio.
As Missões, um dos maiores transplantes culturais. Índios passaram a não ser mais índios.

Mas quem apanhou com este projeto espiritual, foi o corpo. Eles perderam a capacidade de lutar, de se defender. Os mamelucos bandeirantes viram estes índios e o seu trabalho disciplinado e os transformaram em presas. Formaram bandeiras, verdadeiras cidades ambulantes, com até duas mil pessoas e mais de trezentos mil catecúmenos missioneiros se transformaram em mercadoria, que ainda por cima se auto transportava, para os canaviais e os engenhos açucareiros.

A outra matriz gaúcha veio da gadaria, do gado trazido pelos espanhóis e que ficou meio largado, meio sem dono, pelos pantanais e pelos charcos. Do cuidado com este gado surge o gaúcho típico, bem característico e orgulhoso de sua condição. Estes gaúchos já não eram índios, nem espanhóis, foram formando uma etnia nascente, unificada em torno do pastoreio, da gadaria, e de usos e costumes comuns. Judith Cortesão os qualifica como heroicos e líricos  e que nas noites de galpão celebram em tertúlias, os seus feitos grandiosos, insistindo na permanência de um tempo passado. E a gauchada foi se espalhando, junto com o gado, semeando as fronteiras no sul, entre brigas e entreveros.
Tertúlia é o eco das vozes, tribuna de injustiçados. Assim canta Leonardo, famoso cantor gaúcho.Carne no fogo, chimarrão rodando, gaita tocando, causos e cantos, desafios e trovas. Eis as ricas tertúlias.

Mas os portugueses também estavam presentes. Eles já estavam em Laguna, o extremo sul português de então. Vendo as fronteiras de hoje, entendemos os êxitos do empreendimento expansionista. Durante as falas, lindas cenas da presença portuguesa, são mostradas. Duas foram as raízes portuguesas, vai contando Judith Cortesão, a dos açorianos e a dos poveiros, navegadores e pescadores de Póvoa de Varzim, do norte de Portugal. Quem quiser conhecer a presença portuguesa no sul, sugiro uma visita ao bairro de Santo Antônio de Lisboa, em Florianópolis. Não tem como não se encantar. Cortesão ainda nos fala das festas do Divino, que como vimos no capítulo da matriz lusa, são festas simbolizando fartura e fraternidade.

Açorianos e portugueses transformaram as invernadas em estâncias e a espontaneidade cedeu para a racionalidade e, o gaúcho campeiro cede espaço para o escravo negro. Dos negros foi herdada a festa de Navegantes, uma das maiores festas do sul, e os candomblés, numerosos em Porto Alegre e na cidade de Rio Grande. A presença negra também nos legou Lupicínio Rodrigues. Inigualável. Entre as suas músicas está um dos hinos mais cantados, Brasil afora e, conhecido de todos "Até a pé nós iremos", o hino do único imortal no futebol, o imortal tricolor. Esta menção eu estou inserindo, em vingança ao vídeo, que mostra um escudo daquele outro time de Porto Alegre, em uma casa de imigrantes.
Olhem aí os rostinhos lindos do brasil imigrante.

A quarta presença no sul é a dos imigrantes. Alemães, italianos e poloneses foram trazidos pelo governo, para povoar as áreas vazias entre a fronteira e as cidades. Formaram núcleos culturais bastante fechados, fechados até hoje. Assim temos os alemães dos vales dos rios dos Sinos e Itajaí e os italianos da região da serra gaúcha, tendo em Caxias do Sul, o seu maior núcleo. Em menor número vieram os poloneses e os ucranianos. A urbanização e a industrialização se encarregou das fusões e unificações. Cortesão ainda nos conta da herança portuguesa dos faxinais, um legado para o futuro. Terras coletivas, em meio a propriedades individuais, sob o cuidado e uso coletivo.

Já no encerramento Chico lê Darcy, sobre os problemas da região. As famílias se multiplicando e as terras se tornando pequenas e poucas, formando uma população excedente. E o antigo gaúcho se transforma em peão, carrapato, xanga, reserva de mão de obra. Mas no sul se forma um dos mais fortes conceitos de Nação. Nação, formada de território e de instituições soberanas, mas acima de tudo por um sentimento de pertencimento, alicerçado na memória que transforma o sul no mais vasto e rico, plástico e vital laboratório de aculturação. E este sentimento, que cultiva o regional, sem jamais abandonar o nacional.

E, uma pitada de música, na qual o sul é riquíssimo. Considero Pedro Ortaça o grande representante da música missioneira e Adelar Bertussi, do canto imigrante serrano e Dante Ramon Ledesma, do canto da fronteira, que inclusive as ultrapassa, formando o canto brasileiro/argentino.









terça-feira, 9 de abril de 2013

O Povo Brasileiro 7. - O Brasil Caipira.

Este sétimo capítulo sobre o povo brasileiro é apresentado por uma dupla caipira. Não de música, mas de intelectuais: Antônio Cândido, o de "Os Parceiros do Rio Bonito", o maior estudioso da cultura caipira e por Darcy Ribeiro, o maior estudioso da formação do povo brasileiro. Que maravilha fez este vídeo documentário, ao juntar estes dois intelectuais. Darcy é de Minas, de Montes Claros, mais sertão, mas  quase toda a sua formação se desenvolveu nas áreas caipiras. Continuam ainda presentes, Chico Buarque, lendo e Antônio Pinho comentando. Os filmes que fornecem cenários ficam por conta de Marvada Carne (André Klotzel), São João na Roça (Dênison Diamantino), Cruzada de Mogi e Moçambique de São Bernanrdo (Dina Lévi Strauss), A Luta pelo Transporte (Jean Manzon) e Deslocamento de Índios (Nutels). O capítulo é aberto com a narração de um texto de Oswald de Andrade, depois comparece Sérgio Buarque de Holanda.
Darcy Ribeiro e Antônio Cândido nos contando sobre o Brasil Caipira. É fascinante. Qualidade!

Quem é o caipira? O da paulistânia. Trata-se de uma outra área cultural, seguramente a que mais transformações, de toda ordem, recebeu. Não se trata, nos adverte Antônio Cândido, daquele sujeito de hábitos não civilizados, que pejorativamente chamamos de caipira, mas de um dos personagens mais característicos na formação de nossa gente. É aquele morador que sobrou dos primórdios da colonização de São Paulo, resultado do cruzamento do português com as índias. Esta gente andeja perambulou por aí, com o sertão no horizonte e um sonho fixo na mente. Falavam a língua geral, uma elaboração dos jesuítas, sobre o tupi guarani. Só não se tornou a língua oficial pela imposição de Portugal. Primeiramente, por século e meio, aprisionaram índios para mandá-los como escravos para os engenhos, até que um dia, um negro encontrou algo também negro, que o branco descobriu ser ouro.

Do nada, 300.000 pessoas acorreram para o ciclo do ouro. Quando o ouro se acabou, a diáspora espalhou essa gente, para áreas de novas minas (Goiás e Mato Grosso), mas muitos foram ficando. Fizeram roça, plantaram milho, criaram porco, galinha e vaquinhas. O queijo também fazia parte de seus fazimentos. Eis o povo caipira. Antônio Cândido nos explica que alguns se fizeram fazendeiros, latifundiários, exportadores. Permaneceram no mercado e moraram em cidades. Mas a maioria saiu do mercado, vivendo em suas rocinhas, produzindo para si mesmos. Os orgulhosos bandeirantes, agora atrofiados, se transformaram nos caipiras.
Antônio Cândido vai nos contando um pouco de seu vasto conhecimento da cultura caipira.

A nova transformação veio com o café. Florestas são derrubadas e a sina da escravidão se estende agora para a cafeicultura. E, culturalmente, novas fusões se fazem, com a incorporação da cultura afro, rumo a uma indiferenciação, pela unificação. O Vale do Paraíba é o grande cenário. Este cenário se modifica com a abolição e a imigração. Vejam bem, até aqui, todo o trabalho regular, sistematizado, e já estamos no final do século XIX, (1888), era trabalho escravo, trabalho tratado a chibata. Mas o que se fez com o negro, para integrá-lo a uma sociedade classista e competitiva? Não tenho espaço, aqui, para tratar da questão. O imigrante não teve sorte muito melhor mas, ao menos, já estava habituado com o trabalho assalariado.

Como a população era escassa e móvel, os assentamentos populacionais foram feitos de uma forma extensiva. O que os unia e congregava era o bairro, como conta Antônio Cândido, pela voz de um velho caipira; "O bairro é... uma naçãozinha". O bairro era onde se assentava a coesão social. No bairro ele satisfazia suas necessidades, se praticava a solidariedade dos mutirões e aí eram feitas as festas. Muitas festas, festas da santa cruz, festas de São João, festas caipiras. Se mantinha uma erudição portuguesa do século XVII. Do gosto pela festa, somado com a vida simples da auto suficiência que levava e, com a incorporação do hábito indígena da caça e da pesca, ele ganhou a fama de preguiçoso. O Jeca Tatu.
O caipira mal falado: O Jeca Tatu.

 Mas esta sociedade de auto suficiência, do queijo, do franguinho e do porquinho, da rapadura, da cachaça e do fumo, da produção artesanal, sofrerá a sua última grande transformação. Estamos na metade do século XX. Esta cultura é assolada pela transformação da industrialização. De fora lhe é trazido um modelo, uma sociedade de mercado, que lhe mostra produtos, para os quais não tem dinheiro para comprar. A vida no campo também muda, com uma completa reestruturação das atividades agrícolas e pastoris. Ocorre o êxodo rural. Não porque a cidade tivesse empregos e atrativos, conta Darcy, até a escola que era boa, fica ruim. O que existe é um enxotamento. O caipira vem para a cidade para exercer funções subalternas, servente de pedreiro na construção civil, porteiro, soldado, e vai morar na periferia.  Vai viver desolado. Subordinado ao mercado. Todos querem as coisas do mercado mas como comprar as mercadorias sem ter o dinheiro.
Só lhe resta cantar as saudades e as mágoas.

E a sociedade se desintegra. O poder não funciona mais. As instituições não dão mais conta de nada. Chico lê Darcy: a escola não ensina, a igreja não catequiza e os partidos não politizam. O poder foi substituído por um sistema de comunicação de massa que impõem padrões de consumo inatingíveis e desejos inalcançáveis, aprofundando ainda mais a sua marginalização. E Antônio Cândido vai encerrando o capítulo. Não falo como estudioso, falo como um de seus integrantes. E aí eu tenho a dizer que esta cultura caipira acabou. Antes já dissera que São Paulo, a cidade, é uma destruidora de caipiras. Uma criança vai cantando: Eu não sei para onde vou...

Antônio Pinho tem a palavra final falando da enorme capacidade da reinvenção, que a riqueza  dessa cultura sempre teve e que sempre terá, com novas maneiras de ver a realidade, para novas reinvenções e triunfos e o canto ufanisticamente insiste. "Vai melhorar".
O circo, o grande palco de lazer e diversão do povo caipira. Quantos artistas não foram aí formados.

Uma pitada minha. Gosto da música caipira. Seguem três sugestões: Mágoa de Boiadeiro, a interpretação de Pedro Bento e Zé da Estrada é um luxo; Franguinho na Panela e Saudades da Minha Terra. É um lamento doído e sofrido. Sim, tem mais. Não é muito meu feitio, mas eu comprei o DVD Chitãozinho e Xororó - Sinfônico, comemorando os 40 anos da dupla. Retrata esta história, do Brasil caipira, da economia cafeeira para cá, desde a chegada da dupla em São Paulo, na estação de trem, hoje transformada na casa São Paulo, onde o show comemorativo foi realizado.Um trabalho de muita qualidade.




segunda-feira, 8 de abril de 2013

O Povo Brasileiro 6. O Brasil Sertanejo.

O pedaço mais sofrido deste Brasil. O eito de terra mais hostil ao ser humano. A sua beleza é terrível e grandiosa, estranha e forte, no dizer de Ariano Suassuna. O sertão nos deu Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e o próprio Suassuna. Nos deu o baião e Luís Gonzaga. Nos deu Nelson Pereira dos Santos e nos deu  Euclides da Cunha a narrar o maior fenômeno nele ocorrido. Estão presentes neste sexto capítulo do vídeo, Darcy, Chico Buarque, de novo, lendo Darcy, Paulo Vanzolini, Antônio Risério, como comentadores, músicas de Luís Gonzaga e cenas de Vidas Secas, de Raízes e Rezas, Casa de Farinha e de Memórias do Cangaço.  O vídeo é completado com leituras do narrador, de textos de Guimarães Rosa, Roger Bastide, Josué de Castro, Capistrano de Abreu e de Graciliano Ramos. 
O sexto capítulo é dedicado ao Brasil mais sofrido, mas que endoidou de ficar bom, nos diz Darcy, ao falar do cultivo de frutas, no São Francisco.

O sertão brasileiro tem origem na criação do gado, no nordeste que vive situações extremadas. A caatinga é a natureza mais hostil que existe para o ser humano, o lugar mais difícil de se viver. Sem chuvas e quando chove ela é irregular e pouca. A terra não a absorve, pois é um chão de argilas secas em solo raso e pedregoso. Sua vegetação é a espinhenta caatinga. Surgiu num surto de interiorização, com a criação de gado, criação esta impossível, junto aos canaviais. O gado foi então levado para as terras imprestáveis, sem água, um boi em cada dois alqueires de terra. Mas havia um pouco de água e a teimosia humana insistiu em ali ficar. O boi era mercadoria boa, nos diz Darcy, que como os escravos não precisa de transporte. Ele se auto transportava. E deste sertão se fez criame de gado e de gente, de uma gente diferente, o sertanejo.
Mas quando e onde havia água, a paisagem se engalanava.

Ameríndios, brancos e mestiços, de São Paulo e da Bahia foram alargando nossas fronteiras agrícolas, sob a permanente ameaça do sol. Ali se criou um homem forte, resignado e prático, preparado para a luta. Estamos no século XVIII e começando pelo Piauí. Entramos no ciclo da pecuária extensiva, com as marcas do couro, do latifúndio, do misticismo e do coronel, este de faca e de fuzil.

O couro era onipresente: de couro era a porta das cabanas, o leito no chão duro, o lugar de guardar roupa, a bainha da faca, o mocó de carregar comida, a esteira onde se arrastava terra para a construção de açudes, e a roupa para adentrar ao mato, e muito mais. Formou-se uma civilização em torno do couro. O espírito do sertanejo tinha uma espécie de ligação direta com o mundo medieval, uma cultura de arcaísmos. A poesia popular, manifesta pelo cordel reflete este mergulho na Idade Média. No espírito cultivavam o ascetismo (devia ser difícil), o milenarismo e até o sebastianismo. Viviam um cristianismo português, la´da profundidade. Um rei voltaria com seus cavaleiros para salvar o seu povo. este espírito era a sua resistência, para esta insurreição da terra, contra a presença nela do homem. E quando os pássaros abandonavam a área, a seca estava anunciada. Era o prenúncio de desgraças mil.
A seca acabava com tudo, homens e animais. Aos homens cabia a fuga do sertão e assim levas de gente foram abrindo novas frentes agrícolas ou povoar as cidades, se empregando em tarefas que não exigiam classificação, na construção civil e na indústria.

O coronel era o senhor absoluto. Dono da vida e da morte. Formava um aparelho para estatal. Zelava pela lei, mas também impunha a sua própria lei. Aos desafios, a morte de alguém da família, a desonra de uma moça, era respondida com a violência. Antônio Risério comenta esta situação citando Guimarães Rosa, que mesmo Deus, quando vier, que venha armado, porque bala é apenas pedacinho de metal. O coronelismo gerou a sua antítese, o cangaço. O enfrentamento ao coronel tinha os seus símbolos: cabelo comprido, a estrela de Salomão no peito, os dedos cheios de anéis e as cartucheiras. 

A sua religião era puro misticismo e superstição (Os padres não enfrentaram a dureza do sertão?). Era cheia de demônios, de malditos, de lobisomens. A religião era tão trágica, tão machucada de espinhos e tão torturada pelo sol, quanto a própria paisagem. Esta religião se expressa no padre Cícero de Juazeiro, na santidade de Jaguaripe, no misticismo de Pedra Bonita, em Pernambuco e na personificação maior em torno de Antônio Conselheiro e a tragédia de Canudos.

Premido pela seca, o sertanejo se fez força de trabalho, sem preparo, amargando situações difíceis nas cidades, onde se prolongou o seu sofrimento do sertão. Ou então se embrenhou no Brasil profundo, sempre fugindo da seca e sempre sonhando em voltar. Hoje ele é encontrado no Brasil inteiro e o transporte e os meios de unificação também vão unificando culturas. Como heranças culturais nos deixaram o couro, a carne de sol, o baião e os trios nordestinos, com o tradicional acordeão, o triângulo e zabumba. por falar em música nos deixaram Luís Gonzaga e Dominguinhos, recém falecido. Ah sim. Lula também veio do sertão, num pau de arara.
havendo as mínimas condições, isto é, havendo um mínimo de água, o sertanejo não abandona o sertão, ou então fica doida para nele voltar.

O sertão nordestino e o nele viver é maior lição que o sertanejo deixou, para nossa geração ávida de consumo e que tudo encontra em shoppings. Quem viveu as agruras do sertão, está apto a viver em qualquer lugar do mundo, acostumado que está em lidar com as dificuldades. Com as modernas tecnologias é possível levar água ao sertão, hoje um dos melhores lugares do mundo para produzir frutas,como nos demonstram as culturas das margens dos Rio São francisco.

O vídeo encerra com citação de Guimarães Rosa. O sertão está em qualquer parte, o sertão está dentro da gente e o final só poderia ser mesmo, com Luís Gonzaga e a Asa Branca.




sexta-feira, 5 de abril de 2013

O Povo brasileiro 5. O Brasil Crioulo.

O quinto capítulo do vídeo começa com a apresentação de dados por Darcy Ribeiro e Chico Buarque. Darcy nos fala, que ao longo dos séculos XVI e XVII, a economia açucareira era a mais forte expressão econômica da época, equivalente à do petróleo nos dias dias de hoje. Toda ela foi construída em cima do regime escravagista e este mercado de escravos movimentou, em quatro séculos, mais de cem milhões de negros, dos quais doze milhões "foram trazidos" para o Brasil, dos quais a metade morreu e a outra metade foi "gasta" no processo, expressão usada por Darcy. Chico, agora comentarista e não leitor, como nos outros capítulos nos conta que a criatividade negra se tornou expressão dominante e que se expressa gloriosamente nas regiões para as quais os negros mais afluíram, como na Bahia, Pernambuco, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Olha a beleza e a riqueza desta escrita. O quinto capítulo é dedicado a esta maravilha que foi e é o Brasil crioulo, fonte de tanta inspiração.

Da casa grande e da senzala, dos engenhos e das tecnologias, da fertilidade das terras e do conhecimento do açúcar pelos portugueses e com a escravidão negra se forjou a civilização canavieira. O senhor do engenho reinava absoluto. Era uma espécie de senhor feudal, todo poderoso, poder pleno. Para simbolizar este poder, Darcy conta a história de um senhor que comprou uma moleca, para os seus deleites e a sua senhora lhe mandou quebrar todos os dentes, para torná-la feia. Tudo se podia. Até poder religioso, o senhor feudal tinha, pois a igreja e a casa grande eram unidas. Na casa grande, toda a pompa e riqueza. Na senzala, um pombal negreiro, onde  viviam encaixotados e empilhados e prontos para produzir a opulência do ciclo açucareiro.

A riqueza estava aqui. Ricos éramos nós. E a nossa riqueza era expressa não só pela economia, mas também pelas artes, pela pintura, pela música, pela poesia, pela escultura e pelo pensamento político. Nos Estados Unidos jamais se produziu uma cidade como Salvador e muito menos, como Ouro Preto. A opressão sobre o negro não cessou com a abolição, como seria de imaginar, pelo contrário iniciou-se um processo que os marginalizou, com mil processos de exclusão e de não qualificação para serem integrados a uma sociedade de classes. (Tenho trabalhos sobre a questão -Joaquim Nabuco, Florestan Fernandes -, que oportunamente publicarei). Mesmo após a abolição, a elite não pensou em formar uma Nação para os brasileiros. Continuaríamos sendo uma empresa para os outros. Um momento decisivo para o Brasil, mas desperdiçado. Deixamos de integrar pessoas ao mercado e criando problemas sociais.
Expressão da riqueza artística que acompanhou a economia açucareira.

Depois desta apresentação o vídeo passa a mostrar as raízes da cultura negra, a sua permanência, mesmo com toda a repressão, e a sua constante reinvenção e a  sua presença nos dias de hoje, já como a cultura brasileira. A cultura negra manteve a sua força, mantendo-se paralela a cultura branca dominante. Faziam as suas festas, nos dias de festa dos brancos, quando os instrumentos de vigilância se afrouxavam nas senzalas. Quando as manifestações exteriores eram tolhidas, as cultivavam no espaço intangível da interioridade. Mãe Estela, o Babalaô Agenor Miranda da Rocha nos falam da herança, enquanto são mostradas cenas dos filmes de Nelson Pereira dos Santos (Rio Zona Norte) e de Jean Manzon (Uma Canção Brasileira). Mas não é só. Clementina de Jesus, canta e ensina a fazer feijoada, na recuperação de programas de televisão, com a sua participação.

Os destaques da herança são para o vocabulário, enriquecendo-o e lhe dando maior expressão linguística e mais beleza. Na música nos deram ritmos, o berimbau e a cuíca, enquanto regavam a nossa comida com o azeite de dendê e a tornavam "quente" com a pimenta malagueta, além de a enriquecerem com a banana e o quiabo. Acima de tudo deram o sabor ao nosso peixe e à nossa galinha. Se mostraram os verdadeiros donos da terra ao se apoderarem da cozinha. Mas acima de tudo nos legaram a sua herança cultural e espiritual.
A maravilha da moqueca baiana e, ... no Barravento, (chique!) junto ao Farol da Barra, onde  a colonização começou. Pagamos pela paisagem, a comida foi de brinde. Estou com o amigo Sérgio Marson, presidente do N. S. da APP. de Umuarama.

A cultura baiana é essencialmente uma interação entre o ser humano e a natureza, manifesta pela espiritualidade. Fragmentos da natureza são as suas divindades. Iemanjá é a deusa do mar, Iansã a do vento, Xangô, o do fogo. A terra é o palco dos deuses e nela, os humanos pedem às divindades a saúde , a beleza, a fertilidade e a riqueza. Imaginem a cara do Darcy, contando sobre Iemanjá, uma mãe de deuses, que faz amor. Darcy usa uma palavra, que a minha herança cristã não permite dizer. Algo parecido com trepar! Conta Darcy, que depois dos gregos, nenhuma divindade nos é apresentada dessa forma. Isso é maravilhoso! O vídeo vai mostrando falas de Mãe Filhinha, e cantos de Luís Melodia e Chico Science (Manguetown). Este Brasil crioulo também nos legou três das nossas maiores festas: o candomblé, as festas de Iemanjá e acima de tudo o Carnaval.

Agora quem canta é Nelson Sargento - Encanto da Paisagem, cantando as mazelas do desajuste social. A seguir, quem canta é Clementina de Jesus - Sei lá, Mangueira. O vídeo encerra com Chico lembrando a amálgama da mão que supliciou e praticou a crueldade mais atroz, de gente insensível e brutal, com a doçura mais terna, para chegar a isso que é o povo brasileiro. Mãe Estela faz até um pedido pela elevação da alma desses algozes, lembrando que a repressão gerou uma maior força de permanência. Quem encerra mesmo, é Cartola - com O Sol Nascerá. A sorrir eu pretendo levar a vida. Tem que lembrar sempre o Darcy falando  sobre - o que não teria sido este povo, se aqui tivesse havido um projeto de Nação e não o de uma empresa para os outros.
A sorrir eu pretendo levar a vida. A poesia e o canto não foram impedidos por um processo civilizatório dos mais cruéis e que provocou tantos desajustes sociais, com os quais ainda convivemos.

Tenho certeza de que cometerei injustiças ao lembrar um pouco deste mundo, não por maldade, mas por esquecimento. Mas como não imaginar nesta hora, toda a riqueza de um Gilberto Freyre, de um Jorge Amado, de um João Ubaldo Ribeiro. De um Nelson Pereira dos Santos e de um Glauber Rocha. De um Vinícius, Caymi, Caetano e Gil e de um Cartola, de um Nelson Sargento, de Clementina de Jesus, de um Chico Science e de um Luís Melodia, estes últimos, presentes no vídeo. É um mundo maravilhoso e voltado, apesar de todos os desajustes, para a alegria, como Darcy não cansa de falar.

Ontem (04.04.2013) fui assistir Siré Obá - A Festa do Rei, no Festival de Teatro de Curitiba. O grupo é de Alagoinhas, lá da Bahia. Um mergulho na cultura afro. Um turbilhão de emoções e uma maravilhosa elevação espiritual. Poucas vezes a minha mente ficou tão agitada. E viva o Jorge Amado, que com a sua briga política, inscreveu a liberdade religiosa em nossa Constituição, lá nos idos de 1946.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

O Povo Brasileiro 4. - Encontros e Desencontros.

Este quarto capítulo do vídeo é divido em dois atos. O primeiro é os dos primeiros trinta anos, com a economia, denominada por Darcy, de cunhadismo. É um momento tomado pelo espontaneísmo de iniciativas individuais e de acasos, que deu lugar à colonização oficial, o segundo ato, com a presença de um projeto de Estado. O primeiro ato é marcado pelo encontro e desencontro entre portugueses e indígenas e o segundo com a vinda para o Brasil dos escravos africanos para a economia açucareira e, esta própria economia.
O quarto capítulo do vídeo, O Povo Brasileiro, é dedicado ao encontro e desencontro de portugueses, índios e negros, na gênese do povo brasileiro.

O vídeo tem a participação de Darcy Ribeiro, de Chico Buarque, leitura interpretativa de textos de Pero Vaz de Caminha, de Pero Lopes e de Cervantes e comentários de Hermano Viana e de Antônio Risério. Mais uma vez são mostrados, ao longo do vídeo, magníficas obras de arte relativas ao tema abordado. Um luxo só.

Darcy abre o capítulo, falando da cultura brasileira como uma cultura de retalhos, guardados pelo povo, um povo novo que vai se miscigenando no corpo e no espírito. A primeira contribuição é a do índio nativo, que ensina o viver na floresta ao português e desta primeira sementeira humana, acrescida depois pela presença negra, se forja uma fusão de corpos e mentes, que irá produzir o novo. Uma fusão genética sem freios e sem pecados, numa mistura de todas as taras e de todos os talentos como Chico nos mostra, na leitura da obra de Darcy. Neste processo, identidades milenárias foram se encontrando, se misturando, perdendo originalidade na criação do novo e, de novo, algo muito original. Eis a origem da formação do povo brasileiro. Esta fusão continua em ato, no fazimento da brasileiridade.
  Se você considera Chico Buarque lendo só para você um privilégio, a oportunidade está aí.

Imaginem a cena. Darcy a faz. Imaginem os índios, imaginem os portugueses e imaginem o encontro e o desencontro. Oi índios festejando a chegada de Maíra, do povo de Maíra, os enviados de Deus.Os portugueses em júbilo, vendo meninas desnudas, com as vergonhas em mostra e, mais bonitas que as meninas de Lisboa. Estão encantados e maravilhados. Pero Vaz de Caminha nos conta isso, e no vídeo por leitura interpretativa magnífica feita por Tom Zé. Mais ou menos assim: da existência de ouro e prata não sabemos, mas a terra é de bons ares; as praias são chãs e formosas e as águas infindas; em plantando, aqui dar-se-á de tudo, pelas águas que tem; mas a tarefa maior, lembra Caminha, é salvar esta gente. O início dos desencontros.

Tom Zé ainda nos dá informações preciosas sobre quem mais aqui tem chegado. A informação tem como fonte Miguel de Cervantes. O novo mundo foi refúgio e amparo para os desesperados, abrigo dos falidos, salvo condutos dos homicidas, apoio e proteção para os jogadores, chamariz de mulheres perdidas, engano comum de muitos e remédio particular de poucos.

Darcy nos explica melhor o que foi a economia fundada no cunhadismo. O português, ao prenhar uma índia, torna todos os índios, seus cunhados e eles passam a trabalhar para ele. Deliciosamente nos conta que o casamento de João Ramalho com Bartira foi uma crassa e piedosa invenção dos jesuítas. João Ramalho e cada um de seus filhos teve mais de trinta mulheres, trinta, apenas um modo dizer. Os filhos assim nascidos perdiam parte da raiz, tanto índia, quanto portuguesa. Um novo povo estava se plasmando.O encontro dos diversos, formando o diferente.

Assim termina o primeiro ato da aventura Brasil e se inicia a sua colonização, por dois núcleos. O de João Ramalho, em Piratininga e São Vicente  e o de Diogo Alvares, o Caramuru, em Salvador, nas proximidades do Farol da Barra. Isso ocorre essencialmente em função da cobiça que a terra provocou nos franceses e nos holandeses. Assim o Brasil sai de sua economia cunhadista e entra em seu ciclo da economia escravista.

Havia dois projetos fundamentais; o da Coroa, com a exploração mercantilista e o dos religiosos, diga-se dos jesuítas, que queriam fundar uma república pia. Passamos a ter a escravidão e a catequese e uma hecatombe,  como consequência. Genocídios e etnocídios. Os índios foram gastos, no dizer de Darcy, pela escravidão e pelas doenças brancas, as diferentes pestes, uma verdadeira guerra biológica.
Os índios vítimas da escravidão e da guerra biológica. Um etnocídio, sem precedentes.

O tráfico escravista era uma prática do comércio internacional da época, fonte de bons negócios. os navios tumbeiros traziam os escravos negros, mais adaptáveis em função de viverem em um outro estágio, eram considerados como mais adaptáveis. E vinham também, Darcy nos conta, molecas, meninas de doze a treze anos, para a satisfação dos portugueses. Assim foram gerados os mulatos. Estes já não eram, originalmente, nem negros e nem portugueses. De novo, um novo povo se formando e, em meio a muitos sofrimentos, os desencontros.

No Brasil foi se perdendo a ideia do puro, ideia maléfica das doutrinas da eugenia, pela qual estaríamos eternamente condenados. Aqui estávamos diante do desafio da mistura, tínhamos que inventar uma nova maneira de estar no mundo. É um Brasil se fazendo a si próprio. E justiça seja feita. Gilberto Freyre, podem chamá-lo de romântico,mas este mérito ele tem,  se não foi o primeiro, ao menos foi o grande propagador da ideia de que a miscigenação jamais seria uma causa de condenação, jamais isto seria impedimento para a construção de uma Nação. Pelo contrário, ali estavam os seus poderosos alicerces.


quarta-feira, 3 de abril de 2013

O Povo Brasileiro 3. - A Matriz Afro.

Para entender bem este capítulo sobre a raiz afro, creio ser necessário fazer um longo estágio no candomblé baiano ou então mergulhar em profundidade na obra de Jorge Amado. É lindo demais! Deve ser o capítulo mais bonito e mais bem trabalhado de toda a produção. Nele aparecem de novo Darcy e Chico. A descrição fica por conta de Carlos Serrano e de François Neyt, e textos de Nina Rodrigues. Também comparece Gilberto Gil. Muitas das esculturas  e quadros mostrados são de Carybé, o eterno amigo de Jorge Amado.
O terceiro capítulo do vídeo é dedicado a matriz afro, na formação do povo brasileiro. Que maravilhosa herança cultural recebida.

A África é apresentada como o continente negro e, para o espanto e... de muitos, é apresentada como o berço da humanidade, pois foi aí que a espécie humana surgiu. O mosaico de culturas é enorme. Nunca houve uma cultura africana homogênea, a diversidade sempre foi a sua maior marca. De Angola, Congo, Nigéria, Moçambique e Daomé "foram partidos" os africanos que fizeram a travessia para o Brasil, para serem aqui, a sua força de trabalho. Os primeiros negros que aqui vieram, o ciclo da Guiné, vieram da Costa Ocidental. Mais tarde vieram os da África Central Atlântica, da Angola e do Congo, os Bantos.

Já conheciam a agricultura, a cerâmica, a criação de gado e a metalurgia.Esta era vista como uma dádiva divina e em toda a África havia as divindades metalúrgicas. Em seu louvor, tanta arte em metais. Já tinham uma concepção de Estado, faziam uso de moedas e a escravidão entre eles já era uma prática existente. O sagrado está onipresente. Acreditavam na existência de dois mundos que se interligavam, o mundo visível e o invisível, o mundo de Deus. Deus é a criatura incriável, o princípio de tudo e acima de tudo, sem ter tido um princípio, um começo. A Ele chegavam, estabelecendo vínculos e laços, através de seus antepassados. Os primeiros clãs, os ancestrais mais longínquos exerciam o poder político e também o religioso. Eles eram os proprietários de tudo: da terra, das águas, das florestas e do sertão e das palmeiras. No culto aos mortos buscavam a fertilidade das mulheres, da terra, de todas as benesses e o afastamento dos perigos.
Carlos Serrano, versando sobre a cultura afro.

A vida era o que existia de mais sagrado, o ser supremo da criação. A sua ética era antropocêntrica e vital e, porque não dizer, profundamente humana. Na sua organização, o rei estava acima das família, para ser o chefe de todas elas. Havia todo um ritual, uma liturgia do cargo, para lhe conferir poder. Participava de danças reservadas, vestia as mais ricas vestimentas, sentava-se em trono de marfim e era coroado com um boné ricamente bordado. O poder sempre foi uma liturgia muito criteriosa, cheia de simbolismos e misticismos. Eram especialistas em guerras. Disparavam flechas em série, de até 28, antes que a disparada por primeiro, se cravasse na terra. Eram divididos em três classes: a aristocracia, os homens livres e os escravos. No seu cruzamento com os europeus, já usavam moedas e escravos em suas transações comerciais.

Havia um culto ao sol e ao tempo. Havia a claridade e a escuridão. Para perguntar a hora, perguntavam qual era o sol, e havia a hora, ou o sol para tudo: para plantar, para colher, para chegar e para partir. O tempo presente, o tempo favorável e o momento preciso. Na despedida derradeira, eram conduzidos por um barco para o mundo invisível.

A partir do século XVIII, chegam a Salvador, Recife e São Luís os bantos, os negros da Angola e do Congo. São eles que mais profundamente deixarão as marcas sobre a nossa cultura. Mãe Senhora nos dá uma aula sobre os orixás, sobre o candomblé. Em suas crenças não há lugar para a maldade, para a vigilância e para a punição. Não se castiga ninguém. Há isso sim, uma magia toda particular, de cantos e saudações. Nesta altura do vídeo entra Gilberto Gil, declamando um poema, Oriki de Oyá - Iansã. Logo depois ele entoa o Oriki de Xangô. Com Jorge Amado aprendi a não entender dessas coisas, que isso é coisa de baiano.
Olha a mãe Senhora aí. E sabem com quem? Com Zélia Gattai, com Jean Paul Sarte, Simone de Beauvoir e Jorge Amado. Como são lindas estas mães do candomblé baiano. Religião sem pecado, sem culpa!

Vieram ainda outros negros que já tinham contatos com os árabes e, foram estes os que mais bravamente lutaram contra o serem transformados em meras máquinas do plantio e da colheita agrícola. Foram os que mais ferrenhamente lutaram contra a escravidão. François Neyt, nos fala de sua arte, a transcendência do real para o sobrenatural, para o invisível. Até nos apresenta estes valores como os que podem salvar o mundo em seu estágio atual de culto ao que é apenas visível, ao econômico. Neste seu mundo invisível está o mundo do coração, dos sentimentos, da criação e valorização do belo.
Pela arte, a transcendência, a busca não do real, mas do invisível. 

Mãe Senhora praticamente encerra o capítulo, numa fala inigualável. Mais ou menos o seguinte: Tudo aquilo que você tem e que sofreu para tê-lo, você passa a valorizar mais. Se a manutenção de tua cultura ancestral custou sacrifícios e sofrimentos, essa dor ancestral se torna presente e dá forças para lutar para mantê-la. Uma cultura sob permanente ameaça se torna muito mais forte.

Darcy, no encerramento fala que no encontro com os negros e com os índios, em sua miscigenação, eles deixaram de ser eles, para serem o povo brasileiro. A presença da força da ancestralidade é mostrada com um belo canto de Gilberto Gil, que descobri ser Babá Opalá. Lindíssima.

Uma palavra minha. A convivência com estas maravilhas fez do baiano Jorge Amado, cansado de ver a difamação, a perseguição e  a destruição destas manifestações religiosas, propor, como deputado constituinte de 1946, o artigo que garante a todos a liberdade de religião, artigo ainda inscrito na atual Constituição, a de 1988, tal qual foi escrito nos idos de 1946 pelo deputado da bancada comunista e contra ela, pois não cabe aos comunistas se ocuparem com questões de religião. Devemos muito a este homem lindo, em seu esplendor de humanidade. Ah, sim! Urgentemente a cultura africana nos currículos escolares. Imprescindível.

terça-feira, 2 de abril de 2013

O Povo Brasileiro 2. - A Matriz Lusa.

Este segundo capítulo, a matriz lusa conta com gravações de Darcy Ribeiro e comentários de Judith Cortesão, Roberto Pinho e Agostinho da Silva.Tem poemas de Camões e Fernando Pessoa declamados  por Tom Zé e uma participação especial de Gilberto Gil, cantando música com versos de Fernando Pessoa e muita coisa dos museus portugueses. Um luxo só.

A matriz lusa. O segundo capítulo do vídeo.

Darcy começa falando dos sonhos do Infante D. Henrique, um rei meio doidão, segundo ele, filho pleno da Idade Média e da revolução tecnológica, na arte de navegar. Este D. Henrique colocou Portugal na vanguarda dos povos e o seu incentivo à navegação e os inventos decorrentes, como o navio com leme fixo, como o barco a velas, equipados com bússola e astrolábio, foram os grandes responsáveis pelo vanguardismo dos portugueses nas navegações. Estas naus tiveram importância histórica maior para a humanidade,do que as naves espaciais dos dias de hoje. Além disso Portugal se transformou na primeira Nação dos tempos modernos.

Portugal, formada por uma estreita faixa de terras premidas entre o mar e a Espanha e, com algo em torno de um milhão, a um milhão e meio de habitantes, para sobreviver, tinha que, necessariamente se lançar ao mar. E fez isso munido com as experiências incorporadas de árabes e de judeus, se fez um país de navegadores e de conquistadores.
Roberto Pinho nos descreve a cultura portuguesa.

A sua origem histórica remete aos fenícios, aos gregos e aos cartagineses e a submissão ao Império Romano. Depois vieram os diferentes povos bárbaros, godos, visigodos e celtas, mas a maior influência caberia aos árabes. Darcy inclusive defende a tese de que Portugal é mais árabe do que latino, destacando para isso o recebimento dos números arábicos, em substituição aos romanos e a obra de Aristóteles e, acima de tudo, o que a visão aristotélica de mundo e de ciência proporcionou. Os árabes formaram um mosaico de mercadores, artesãos e camponeses e deixaram como herança para os portugueses inúmeras coisas como o moinho, o algodão, o bicho da seda, a cana de açúcar e a doçaria, o azulejo e o gosto pela claridade, as varandas. Os traços judeus também estão presentes, preponderantemente com a economia mercantilista.
A presença árabe na cultura lusa. A revolução causada pelo uso dos números arábicos.

A Nação portuguesa  se formou essencialmente no combate com os espanhóis, na luta pela manutenção de suas fronteiras e na luta pela expulsão dos árabes. Já tinham uma língua e acima de tudo e, Darcy faz questão absoluta em destacar, tinha um projeto. Aquele rei meio doidão, também professava uma heresia utópica. Acreditava em três reinos, de acordo com a trindade. O passado longínquo era o reino de Deus Pai, o Antigo Testamento. O reino do Filho era o tempo do Novo Testamento e o futuro seria representado pelo Espírito Santo. E como seria este reino do Espírito Santo? Seria o reino do paraíso terrestre. Atrás desta visão mística existe a ideia de um projeto de Estado. Uma heresia utópica, que foi pesadamente combatida pelo freio do catolicismo.

Agostinho da Silva fala mais desta visão do reino do Espírito Santo, seguramente, uma festa de origem portuguesa. No dia do divino havia um grande banquete e se soltavam todos os presos, simbolizando, exatamente, esta visão de um reino sem males e de fartura, o paraíso terrestre. Com a reação a esta heresia, a festa teve maior permanência no Brasil, longe da vigilância do Santo Ofício. Só que o banquete deveria ser diário e, a não existência de presos, representaria uma ausência de males. Neste reino se cultivaria a fartura, o sorriso e a alegria. Bela utopia inspiradora, que, se não se concretizou, ainda poderá vir a ser uma realidade.
Henrique e o seu sonho de uma república governada pelo Espírito Santo, como um projeto de Estado.

Em Sagres se juntou o saber prático e o saber teórico, se ordenou todo o conhecimento. O empreendimento português não se tornou possível, anteriormente, por causa da Igreja, mas agora com o espírito do renascimento, com as novas tecnologias aplicadas à navegação e com um sentimento de Nação se consolidando, Portugal avança para as glórias da imortalidade. Estabelecimento de feitorias, uso de escravos índios e africanos se tornarão a marca da expansão comercial portuguesa. Portugal se torna o grande entreposto do mundo.

Darcy termina o vídeo com um resgate de memória. Muitos alimentam preconceitos com relação ao fato de termos sido colonizados por portugueses. Uma estupidez. Fomos descobertos pelo povo mais avançado que havia na época e embalados num sonho mirabolante de grandeza, de instituição de um reino novo, governado pelo Espírito Santo, com um banquete, não apenas de um único dia, na sua festa, mas de um banquete, simplesmente, diário, em uma terra sem males. Isto é utópico, mas acima de tudo, muito lindo.


segunda-feira, 1 de abril de 2013

O Povo Brasileiro 1. - A Matriz Tupi.

Darcy Ribeiro abre este primeiro capítulo do vídeo, perguntando se alguém consegue imaginar o mundo, daqui a cinquenta anos, com base na observação do que ele foi, cinquenta anos atrás. Faz isso, alertando-nos de que o futuro precisa ser construído, o futuro precisa ser inventado. Daí fala do primeiro povo componente da etnia brasileira, a nossa matriz indígena, a matriz tupi. Ressalta que o Brasil índio já existia há mais de mil anos no 1500, quando houve o encontro com os descobridores. Destaca que estes índios tinham na alegria e no gozo de viver a sua grande marca.
Matriz Tupi abre o primeiro capítulo do vídeo. Uma maravilho. A harmonia entre o homem e a natureza.

Aziz Ab'Saber e Washington Novaes narram a descrição dos povos indígenas que aqui habitavam, bem como as suas principais características.Os índios basicamente eram os tupinambás. Não havia, no entanto, uma nação tupi, havia uma miríade de tribos, totalmente auto suficientes em sua interação com a natureza. Estavam se iniciando na fase da agricultura, domesticando inúmeras plantas e animais. Conheciam a natureza em detalhes, conhecendo plantas e animais e conhecendo os diferentes usos a fazer. O curso dos rios determinava as suas moradas.
Da convivência com os índios, nasce a dedicação de Darcy a eles e a preocupação em dar um destino ao povo brasileiro, amálgama das miscigenações genéticas e culturais.

Darcy nos fala da matriz Tupi. Conviveu por dez anos com os índios, que se tornaram a sua maior paixão.
Os tupinambás viviam em função das guerras e das festas. A guerra  era por conquista de melhores espaços. Não escravizavam os vencidos, já que não os integravam à sua economia. Incorporavam, isso sim, a sua força e os seus brios, em ritos antropofágicos, o ritual maior de suas festas. Jamais comiam covardes. Não havia pelejas internas, furtos ou brigas. Eram educados para a convivência a partir dos mais velhos. O poder emanava do exemplo, do carisma e da tradição. Jamais se davam ordens. Havia muitas liberdades. Casamentos podiam ser feitos e desfeitos. A homossexualidade não era vergonhosa e não era escondida de ninguém.
O índio busca o máximo da beleza na celebração de seus ritos religiosos. A força da liturgia e do sagrado.

Havia a diferença de gênero. os homens eram educados para as funções da caça e da pesca e para a fabricação destes utensílios, bem como as canoas. As mulheres eram educadas para a tecelagem, o preparo das comidas e das bebidas e das grandes festividades. Não havia praticamente diferenças entre arte e trabalho. Se realizavam nesta tarefa trabalho/arte. Na fabricação dos objetos punham toda a beleza possível e identificavam os artesãos pela beleza de seus trabalhos. O produto de sua arte marcava a identidade do artista. Também não faziam grandes distinções entre esta vida e a outra. A outra, seria uma continuidade do paraíso em que já viviam.

Iniciando o estágio da agricultura, já cultivavam a mandioca (consideravam a não necessidade de seu armazenamento como uma fábula, a de poder guardar esta comida viva), o milho, a batata-doce, o cará, o feijão, o amendoim, o tabaco, a abóbora o guaraná, entre outros, e faziam deles alimentos e matérias primas para condimentos, estimulantes e venenos. Conheciam e interagiam com a natureza, vivendo com ela uma relação tida como edênica.
Chico Buarque lendo trechos do Livro O Povo Brasileiro. É um privilégio ouvi-lo.

O traço mais marcante de sua cultura era a preservação de sua identidade. Na convivência aprendiam a ser índios. Era uma força que brotava de seu interior. A alegria era uma de suas maiores marcas. Viviam fazendo festas, comemorando nascimento, plantio, colheitas e  mesmo rituais fúnebres. Eram implacáveis com os seus inimigos. Na guerra havia honra, uma ética e até uma estética. A morte era natural. A tribo os vingaria. Só não cabia em sua cultura, a desonra, a fuga e a mostra de fragilidades. Darcy narra o encontro com um índio que lhe nomeou mais de 1000 parentes, tal era o valor que davam aos grupos tribais e gostavam de lembrar e serem lembrados pelos feitos em sua vida. Não tinham como se vangloriar de posses, pois tudo era comum.

Tinham tudo, mas nada possuíam. Cultivavam roças próprias, mas a terra era de uso comum. Entre as grandes heranças nos deixaram os deslocamentos rápidos e a convivência com a floresta, o banho diário, a alimentação, mas acima de tudo a sua vida integrada com a natureza e o seu espírito de alegria e predisposição para a festa. Viviam se pintando, se enfeitando, cantando, dançando e brincando. havia ricos rituais para tudo.

Quando viram os colonos chegarem em seu paraíso, imaginaram que eram os deuses que com eles vieram conviver no paraíso. Mal pensaram eles que era uma outra cultura chegando e que faria deles, meros objetos para os seus ganhos em outros valores, os valores cifrados $$$ em pau brasil, cana de açúcar, ouro ou diamantes. Uma cultura que os transformaria em ninguém, palavra que Darcy usa bastante, para designar que  com a soma desses ninguéns é que foi se formando o povo brasileiro e a ele dando identidade. Além de Darcy, participam deste primeiro capítulo, Aziz Ab'Saber e Washington Novaes, que explanam sobre o tema e Chico Buarque de Holanda a fazer leituras. No meu entender, no entanto, a mais bela descrição que Darcy faz da população indígena está em suas Confissões, quando em seu capítulo 4, conta a sua convivência com os índios. Amanhã veremos a raiz lusitana, no segundo capítulo do vídeo.