Cena da abertura da peça.
A peça começou no páteo do teatro, com canto e dança e com o convite para adentrar ao recinto. A peça tem por finalidade familiarizar o público, numa pequena iniciação, com o candomblé. E a primeira sensação que eu tive, é a de que jamais você vai assistir a um candomblé como você vai assistir a uma missa. Você necessariamente irá participar de um candomblé. Você é participante o tempo inteiro. Duas cenas me chamaram a atenção mais particularmente: a primeira em que o ator dramatiza um encontro dele com Xangô. É eu nele e, ele em mim. O humano e o divino se fundem numa única realidade; a segunda é quando o ator lembra dos banhos que sua mãe lhe dava, enquanto cantava e, no canto tinha carinho e lições. Imediatamente lembrei de uma conversa que eu tive na ilha de Superagui, com o pessoal do fandango. Nós passamos os nossos valores para os filhos, pelo nosso canto.
O processo civilizatório me passou pela cabeça. Livros e viagens vieram à tona. A Ilíada, a Eneida, especialmente o capítulo VI, Enéias no mundo das sombras, para encontrar-se com seu pai Anquises e ouvir dele as propostas para uma boa convivência entre os homens e A Cidade Antiga, e a elevação dos costumes em religiosidade e instituições. Nas viagens, lembrei-me de Delfos. Até o lugar é místico. O monte Parnaso.Águas sulfurosas, ventos cantantes e vapores subindo das profundezas da terra. moradia da serpente Pítias, filha da deusa Géia. Ali, envoltos em toda a magia se predizia o futuro, auscultando as manifestações de Géia. E a serpente, a que mais ausculta a terra, lugar onde estão nossos antepassados, é o mais sagrado entre os animais. É ela que faz a mediação dos vivos com os seus ancestrais. É ela a mediadora entre vivos e mortos e transmite os desejos de ambos. Uma mediação mística e divina. Não é por nada que a serpente passou a ser o mais abjeto dos animais, no cristianismo. Assim como Delfos era considerada o centro do mundo, também Cuzco era considerada como o umbigo do mundo, pelos povos incas e o seu culto à Pachamama, a mãe terra.
Na cultura greco-romana, o culto à serpente. Ela ausculta a terra, onde estão enterrados os ancestrais.
Voltando á peça de teatro. Quando cheguei em casa, anotei quatro palavras com as quais eu fazia a minha síntese da peça: ancestralidade; transcendência; mediação e valores. Por estas palavras, a minha síntese da peça e da minha iniciação ao candomblé. O candomblé é uma grande festa, com danças e cantorias e muita comida e bebida. Se forma um ambiente de transe. "Xangô em mim e eu nele". A elevação do humano se dá até ao divino, passando pelos ancestrais, e humano e divino passam a ser a mesma realidade. E o que se passa? Os eternos pedidos dos humanos, relatando às divindades as suas necessidades, de um lado e por outro, fazendo os agradecimentos pelo já recebido. A natureza comanda os pedidos, essencialmente a fertilidade e é ela que determina o calendário das festas: festas de plantio, festas de colheita, festas de nascimento e de culto e reverenciamento na morte. E que valores decorrem disso? Aqueles valores legados pela ancestralidade. Eu os identifiquei com a Areté grega, o desenvolvimento das tuas possibilidades ao seu grau máximo. O que significa isso. Copiar o exemplo dos ancestrais e tudo fazer para que as gerações futuras tenham orgulho em se espelhar em você.
Como esta cultura deve fazer bem. Nada tem a ver com a neura da nossa cultura centrada no shopping center, erguido à condição de catedral do culto ao consumo de bens supérfluos, que não consigo adquirir com o salário do meu trabalho e que isso ainda me gera uma enorme culpa, de que esta realidade é gerada por incompetência minha. E dê-lhe loterias, substâncias amortecedoras, igrejas da teologia da prosperidade e carnês de pagamento.
Cena do encerramento da peça. O público participando.
Mas, acima de tudo me lembrei de Nietzsche. Três livros seus: O Nascimento da Tragédia, Genealogia da Moral e Além do Bem e do Mal e como não, o subtítulo do Crepúsculo dos Ídolos, -"Como filosofar com o Martelo", para, com o martelo quebrar os pilares que sustentam a cultura fundada na separação entre Apolo e Dionísio e nos ressentimentos causados pela culpa e pelo ascetismo. Lembrei também, de Mãe Senhora, se não me engano, que no vídeo sobre a obra de Darcy Ribeiro O Povo Brasileiro, fala que no candomblé a culpa e o pecado não tem destaque. Certamente porque Dionísio e Apolo vivem uma única e mesma realidade. Vivem a realidade do divino/humano. "Xangô em mim e eu nele".
Para entender melhor esta realidade, vou ler mais Jorge Amado e Zélia Gattai e começar a leitura de Pierre Verger, ou melhor, de Pierre Fatumbi Verger, como ficou sendo o nome deste aristocrata francês, baiano por opção e africano por paixão(de sua cultura, conhecida em Salvador). E parabéns aos organizadores do Festival de Teatro de Curitiba por terem trazido esta peça e com ela abrir esta janela para olhar para o mundo.










































