terça-feira, 9 de abril de 2013

O Povo Brasileiro 7. - O Brasil Caipira.

Este sétimo capítulo sobre o povo brasileiro é apresentado por uma dupla caipira. Não de música, mas de intelectuais: Antônio Cândido, o de "Os Parceiros do Rio Bonito", o maior estudioso da cultura caipira e por Darcy Ribeiro, o maior estudioso da formação do povo brasileiro. Que maravilha fez este vídeo documentário, ao juntar estes dois intelectuais. Darcy é de Minas, de Montes Claros, mais sertão, mas  quase toda a sua formação se desenvolveu nas áreas caipiras. Continuam ainda presentes, Chico Buarque, lendo e Antônio Pinho comentando. Os filmes que fornecem cenários ficam por conta de Marvada Carne (André Klotzel), São João na Roça (Dênison Diamantino), Cruzada de Mogi e Moçambique de São Bernanrdo (Dina Lévi Strauss), A Luta pelo Transporte (Jean Manzon) e Deslocamento de Índios (Nutels). O capítulo é aberto com a narração de um texto de Oswald de Andrade, depois comparece Sérgio Buarque de Holanda.
Darcy Ribeiro e Antônio Cândido nos contando sobre o Brasil Caipira. É fascinante. Qualidade!

Quem é o caipira? O da paulistânia. Trata-se de uma outra área cultural, seguramente a que mais transformações, de toda ordem, recebeu. Não se trata, nos adverte Antônio Cândido, daquele sujeito de hábitos não civilizados, que pejorativamente chamamos de caipira, mas de um dos personagens mais característicos na formação de nossa gente. É aquele morador que sobrou dos primórdios da colonização de São Paulo, resultado do cruzamento do português com as índias. Esta gente andeja perambulou por aí, com o sertão no horizonte e um sonho fixo na mente. Falavam a língua geral, uma elaboração dos jesuítas, sobre o tupi guarani. Só não se tornou a língua oficial pela imposição de Portugal. Primeiramente, por século e meio, aprisionaram índios para mandá-los como escravos para os engenhos, até que um dia, um negro encontrou algo também negro, que o branco descobriu ser ouro.

Do nada, 300.000 pessoas acorreram para o ciclo do ouro. Quando o ouro se acabou, a diáspora espalhou essa gente, para áreas de novas minas (Goiás e Mato Grosso), mas muitos foram ficando. Fizeram roça, plantaram milho, criaram porco, galinha e vaquinhas. O queijo também fazia parte de seus fazimentos. Eis o povo caipira. Antônio Cândido nos explica que alguns se fizeram fazendeiros, latifundiários, exportadores. Permaneceram no mercado e moraram em cidades. Mas a maioria saiu do mercado, vivendo em suas rocinhas, produzindo para si mesmos. Os orgulhosos bandeirantes, agora atrofiados, se transformaram nos caipiras.
Antônio Cândido vai nos contando um pouco de seu vasto conhecimento da cultura caipira.

A nova transformação veio com o café. Florestas são derrubadas e a sina da escravidão se estende agora para a cafeicultura. E, culturalmente, novas fusões se fazem, com a incorporação da cultura afro, rumo a uma indiferenciação, pela unificação. O Vale do Paraíba é o grande cenário. Este cenário se modifica com a abolição e a imigração. Vejam bem, até aqui, todo o trabalho regular, sistematizado, e já estamos no final do século XIX, (1888), era trabalho escravo, trabalho tratado a chibata. Mas o que se fez com o negro, para integrá-lo a uma sociedade classista e competitiva? Não tenho espaço, aqui, para tratar da questão. O imigrante não teve sorte muito melhor mas, ao menos, já estava habituado com o trabalho assalariado.

Como a população era escassa e móvel, os assentamentos populacionais foram feitos de uma forma extensiva. O que os unia e congregava era o bairro, como conta Antônio Cândido, pela voz de um velho caipira; "O bairro é... uma naçãozinha". O bairro era onde se assentava a coesão social. No bairro ele satisfazia suas necessidades, se praticava a solidariedade dos mutirões e aí eram feitas as festas. Muitas festas, festas da santa cruz, festas de São João, festas caipiras. Se mantinha uma erudição portuguesa do século XVII. Do gosto pela festa, somado com a vida simples da auto suficiência que levava e, com a incorporação do hábito indígena da caça e da pesca, ele ganhou a fama de preguiçoso. O Jeca Tatu.
O caipira mal falado: O Jeca Tatu.

 Mas esta sociedade de auto suficiência, do queijo, do franguinho e do porquinho, da rapadura, da cachaça e do fumo, da produção artesanal, sofrerá a sua última grande transformação. Estamos na metade do século XX. Esta cultura é assolada pela transformação da industrialização. De fora lhe é trazido um modelo, uma sociedade de mercado, que lhe mostra produtos, para os quais não tem dinheiro para comprar. A vida no campo também muda, com uma completa reestruturação das atividades agrícolas e pastoris. Ocorre o êxodo rural. Não porque a cidade tivesse empregos e atrativos, conta Darcy, até a escola que era boa, fica ruim. O que existe é um enxotamento. O caipira vem para a cidade para exercer funções subalternas, servente de pedreiro na construção civil, porteiro, soldado, e vai morar na periferia.  Vai viver desolado. Subordinado ao mercado. Todos querem as coisas do mercado mas como comprar as mercadorias sem ter o dinheiro.
Só lhe resta cantar as saudades e as mágoas.

E a sociedade se desintegra. O poder não funciona mais. As instituições não dão mais conta de nada. Chico lê Darcy: a escola não ensina, a igreja não catequiza e os partidos não politizam. O poder foi substituído por um sistema de comunicação de massa que impõem padrões de consumo inatingíveis e desejos inalcançáveis, aprofundando ainda mais a sua marginalização. E Antônio Cândido vai encerrando o capítulo. Não falo como estudioso, falo como um de seus integrantes. E aí eu tenho a dizer que esta cultura caipira acabou. Antes já dissera que São Paulo, a cidade, é uma destruidora de caipiras. Uma criança vai cantando: Eu não sei para onde vou...

Antônio Pinho tem a palavra final falando da enorme capacidade da reinvenção, que a riqueza  dessa cultura sempre teve e que sempre terá, com novas maneiras de ver a realidade, para novas reinvenções e triunfos e o canto ufanisticamente insiste. "Vai melhorar".
O circo, o grande palco de lazer e diversão do povo caipira. Quantos artistas não foram aí formados.

Uma pitada minha. Gosto da música caipira. Seguem três sugestões: Mágoa de Boiadeiro, a interpretação de Pedro Bento e Zé da Estrada é um luxo; Franguinho na Panela e Saudades da Minha Terra. É um lamento doído e sofrido. Sim, tem mais. Não é muito meu feitio, mas eu comprei o DVD Chitãozinho e Xororó - Sinfônico, comemorando os 40 anos da dupla. Retrata esta história, do Brasil caipira, da economia cafeeira para cá, desde a chegada da dupla em São Paulo, na estação de trem, hoje transformada na casa São Paulo, onde o show comemorativo foi realizado.Um trabalho de muita qualidade.




14 comentários:

  1. Parabéns, seu texto contribuiu muito para a minha pesquisa, fico contente ao saber que muitas pessoas ainda se interessam pela formação do nosso "Brasilzão"

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  2. Agradeço o comentário. Você pegou duas referências maravilhosas. A de Darcy Ribeiro e a de quem é especialista no assunto, talvez o maior de todos eles, o Antônio Cândido.

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  3. Parabéns, gostei muito do texto, sou caipira de Taubaté um grande reduto de caipiras e acho muito importante resgatar um desses brasileiros tão importants para formação do Brasil.

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  4. E que vivam os parceiros do Rio Bonito. Para gostar deste país, nada melhor do que ler aqueles que mais o amaram. Entre eles seguramente está o Darcy Ribeiro.

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  5. Parabéns pela síntese e clareza. Colaborou muito para minha pesquisa e entendimento do povo caipira. Lindo, ironicamente triste e feliz, e com a melhor culinária de todas! Abraços

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  6. Que bom que colaborou com o seu trabalho. Este é o povo brasileiro. Não podemos deixar de ler o Darcy Ribeiro. Agradeço o seu generoso elogio.

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  7. Agradeço pelo conteúdo, esta ajudando numa pesquisa para a feira de ciências do meu colégio ! Ainda vai ajudar muitos por ai, beijos, fique bem

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  8. JuhGF, bom dia. Que bom que ajudou. êxitos na feira e na vida. Agradeço o comentário e os beijos.

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  9. Preciso de um slide sobre o brasil caipira, alguém teria como me enviar por favor?
    carlos-junior007@hotmail.com

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  10. Nessa eu não posso te ajudar, sinto muito.

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  11. Excelente! Dá outra ideia "visual" dos vídeos assistidos.Obrigada!

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  12. Obrigado Letícia, pelo seu generoso comentário.

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  13. Muito obrigado Patricksama pelos parabéns ao blog.

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