segunda-feira, 8 de abril de 2013

O Povo Brasileiro 6. O Brasil Sertanejo.

O pedaço mais sofrido deste Brasil. O eito de terra mais hostil ao ser humano. A sua beleza é terrível e grandiosa, estranha e forte, no dizer de Ariano Suassuna. O sertão nos deu Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e o próprio Suassuna. Nos deu o baião e Luís Gonzaga. Nos deu Nelson Pereira dos Santos e nos deu  Euclides da Cunha a narrar o maior fenômeno nele ocorrido. Estão presentes neste sexto capítulo do vídeo, Darcy, Chico Buarque, de novo, lendo Darcy, Paulo Vanzolini, Antônio Risério, como comentadores, músicas de Luís Gonzaga e cenas de Vidas Secas, de Raízes e Rezas, Casa de Farinha e de Memórias do Cangaço.  O vídeo é completado com leituras do narrador, de textos de Guimarães Rosa, Roger Bastide, Josué de Castro, Capistrano de Abreu e de Graciliano Ramos. 
O sexto capítulo é dedicado ao Brasil mais sofrido, mas que endoidou de ficar bom, nos diz Darcy, ao falar do cultivo de frutas, no São Francisco.

O sertão brasileiro tem origem na criação do gado, no nordeste que vive situações extremadas. A caatinga é a natureza mais hostil que existe para o ser humano, o lugar mais difícil de se viver. Sem chuvas e quando chove ela é irregular e pouca. A terra não a absorve, pois é um chão de argilas secas em solo raso e pedregoso. Sua vegetação é a espinhenta caatinga. Surgiu num surto de interiorização, com a criação de gado, criação esta impossível, junto aos canaviais. O gado foi então levado para as terras imprestáveis, sem água, um boi em cada dois alqueires de terra. Mas havia um pouco de água e a teimosia humana insistiu em ali ficar. O boi era mercadoria boa, nos diz Darcy, que como os escravos não precisa de transporte. Ele se auto transportava. E deste sertão se fez criame de gado e de gente, de uma gente diferente, o sertanejo.
Mas quando e onde havia água, a paisagem se engalanava.

Ameríndios, brancos e mestiços, de São Paulo e da Bahia foram alargando nossas fronteiras agrícolas, sob a permanente ameaça do sol. Ali se criou um homem forte, resignado e prático, preparado para a luta. Estamos no século XVIII e começando pelo Piauí. Entramos no ciclo da pecuária extensiva, com as marcas do couro, do latifúndio, do misticismo e do coronel, este de faca e de fuzil.

O couro era onipresente: de couro era a porta das cabanas, o leito no chão duro, o lugar de guardar roupa, a bainha da faca, o mocó de carregar comida, a esteira onde se arrastava terra para a construção de açudes, e a roupa para adentrar ao mato, e muito mais. Formou-se uma civilização em torno do couro. O espírito do sertanejo tinha uma espécie de ligação direta com o mundo medieval, uma cultura de arcaísmos. A poesia popular, manifesta pelo cordel reflete este mergulho na Idade Média. No espírito cultivavam o ascetismo (devia ser difícil), o milenarismo e até o sebastianismo. Viviam um cristianismo português, la´da profundidade. Um rei voltaria com seus cavaleiros para salvar o seu povo. este espírito era a sua resistência, para esta insurreição da terra, contra a presença nela do homem. E quando os pássaros abandonavam a área, a seca estava anunciada. Era o prenúncio de desgraças mil.
A seca acabava com tudo, homens e animais. Aos homens cabia a fuga do sertão e assim levas de gente foram abrindo novas frentes agrícolas ou povoar as cidades, se empregando em tarefas que não exigiam classificação, na construção civil e na indústria.

O coronel era o senhor absoluto. Dono da vida e da morte. Formava um aparelho para estatal. Zelava pela lei, mas também impunha a sua própria lei. Aos desafios, a morte de alguém da família, a desonra de uma moça, era respondida com a violência. Antônio Risério comenta esta situação citando Guimarães Rosa, que mesmo Deus, quando vier, que venha armado, porque bala é apenas pedacinho de metal. O coronelismo gerou a sua antítese, o cangaço. O enfrentamento ao coronel tinha os seus símbolos: cabelo comprido, a estrela de Salomão no peito, os dedos cheios de anéis e as cartucheiras. 

A sua religião era puro misticismo e superstição (Os padres não enfrentaram a dureza do sertão?). Era cheia de demônios, de malditos, de lobisomens. A religião era tão trágica, tão machucada de espinhos e tão torturada pelo sol, quanto a própria paisagem. Esta religião se expressa no padre Cícero de Juazeiro, na santidade de Jaguaripe, no misticismo de Pedra Bonita, em Pernambuco e na personificação maior em torno de Antônio Conselheiro e a tragédia de Canudos.

Premido pela seca, o sertanejo se fez força de trabalho, sem preparo, amargando situações difíceis nas cidades, onde se prolongou o seu sofrimento do sertão. Ou então se embrenhou no Brasil profundo, sempre fugindo da seca e sempre sonhando em voltar. Hoje ele é encontrado no Brasil inteiro e o transporte e os meios de unificação também vão unificando culturas. Como heranças culturais nos deixaram o couro, a carne de sol, o baião e os trios nordestinos, com o tradicional acordeão, o triângulo e zabumba. por falar em música nos deixaram Luís Gonzaga e Dominguinhos, recém falecido. Ah sim. Lula também veio do sertão, num pau de arara.
havendo as mínimas condições, isto é, havendo um mínimo de água, o sertanejo não abandona o sertão, ou então fica doida para nele voltar.

O sertão nordestino e o nele viver é maior lição que o sertanejo deixou, para nossa geração ávida de consumo e que tudo encontra em shoppings. Quem viveu as agruras do sertão, está apto a viver em qualquer lugar do mundo, acostumado que está em lidar com as dificuldades. Com as modernas tecnologias é possível levar água ao sertão, hoje um dos melhores lugares do mundo para produzir frutas,como nos demonstram as culturas das margens dos Rio São francisco.

O vídeo encerra com citação de Guimarães Rosa. O sertão está em qualquer parte, o sertão está dentro da gente e o final só poderia ser mesmo, com Luís Gonzaga e a Asa Branca.




10 comentários:

  1. Adorei esse trabalho, me ajudou bastante, você o escreveu de uma maneira bem didática, parabéns!!!

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  2. Meus agradecimentos ao pessoal de Ciências Sociais da FASFI pelo estimulante comentário.

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  3. Parabéns pelo trabalho, também não sou desta área de pesquisa e achei o texto super didático.

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  4. Agradeço o parabéns recebido. Estímulo para continuar trabalhando. Muito obrigado.

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  5. Adorei o fato dessa série de textos sobre o Povo Brasileiro trazer não só um bom resumo sobre essa obra, mas trazer também o que para mim é o mais importante, que é o olhar apaixonante de Darcy Ribeiro ao descrever o nosso povo.

    Obrigada

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  6. Veja essa do Darcy: "Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei construir uma universidade séria. Não consegui. Mas meus fracassos são minhas vitórias. Detestaria estar no lugar de quem venceu". Isso é paixão pura.

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  7. Maravilha tal ainda pode até ser escrita, mas este é o nosso verdadeiro realismo. Somos um continente, uma nação única em todo planeta... esse é o BRASIL.
    João de Jesus Silva Melo

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  8. Meu amigo João de Jesus. Veja o que diz Darcy Ribeiro na apresentação do livro de Manoel Bomfim - América Latina - Males de origem, escrito em 1905: "O aspecto com que mais me identifico na obra de Manoel Bomfim é aquele que o opõe a todos os antigos e modernos pensadores coniventes com os grupos de interesse que mantêm o Brasil em atraso. É a sua extraordinária capacidade de indignação e de esperança. É sua certeza de que esse é um país viável. É sua convicção de que construiremos aqui uma civilização solidária e bela, assim que retirarmos o poder de decisão das mãos de nossas classes dominantes, infecundas e infiéis". Os golpistas estão rondando por aí. Um abraço.

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  9. Amei o texto PARABÉNS,TEXTO LINDO;MARAVILHOSO.

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  10. Oi Denise. Muito obrigado pelo seu generoso comentário.

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