sexta-feira, 12 de abril de 2013

O Povo Brasileiro 10 - Invenção do Brasil.

Darcy abre o décimo e último capítulo do vídeo sobre o Povo Brasileiro, falando do processo extraordinário que foi o fazimento do Brasil. O povo, ao negar sua ninguemdade, se fez brasileiro. Um novo gênero humano, a humanidade dos trópicos. Roberto Pinho nos lembra que o avanço humano se fez por conquistas e por seduções. Os povos se interpenetraram pelo amor e pela força, deixando a marca humana de paixões e conflitos, de paz e tranquilidade. Judith Cortesão, por sua vez nos fala do mito português, a partir do maravilhamento do descobrimento: a descoberta do paraíso terrestre, cumprindo o seu destino de que viver não é preciso, mas que viver sem sonhos é absolutamente impossível. O viver preciso seria obra da pura racionalidade.
Brasil, um país que ainda precisa se inventar, para ser realmente uma Nação para todos.

Darcy também destaca a beleza desta terra, o mito do paraíso tropical, enquanto Roberto Pinho lembra que, pela apropriação dos muitos mitos, o povo brasileiro foi construindo a sua identidade. A narração nos fala da subversão que o projeto português veio sofrendo com a realidade dos trópicos e a presença da força ameríndia e africana. E continua, - nada aqui permaneceu puro. Um povo mestiço, misturou deuses e mais uma outra realidade, uma nova língua: o português do Brasil. Darcy reflete sobre o milagre da unidade nacional. Como isso foi possível com a confluência de tanta e, tão diversa gente, vinda da Europa, da África e das florestas. Houve uma grande homogeneidade. A uniformidade nas diferenças marcou um conserto de uma grande beleza, que aos poucos foi amadurecendo. A narração nos alerta que esse processo não foi nenhum mar de rosas.

Chico mais uma vez lê Darcy. Lê que muitos tentaram atribuir ao Brasil a cordialidade como a sua principal característica. Por excelência seríamos cordiais, gentis e pacíficos. Não foi bem assim. Os conflitos foram de toda ordem: étnicos, econômicos, sociais e religiosos. O assinável, continua Chico, é que nunca houve conflitos puros. Cada um se pintou com as cores dos outros. Houve entrechoques de índios, negros e brancos e sempre vivemos em estado de guerra latente. E muitas vezes esses conflitos se tornaram cruentos e sangrentos. Darcy conta que houve luta em toda parte, porque diferentes eram os povos e os destinos dessas gentes. O Poder central sempre dominou a todos.

Como exemplo de conflitos, a narrativa do vídeo nos põe em contato com a Cabanagem. Os povos nativos e com vida autônoma entram em conflito com a estreita camada lusa e com o seu projeto de país. O resultado foi um grande genocídio. Mais de cem mil caboclos foram mortos, embora, nas lutas tivesse havido grandes conquistas, apoderando-se inclusive de cidades como Belém e Manaus. Estes caboclos foram trucidados para que a amazônia continuasse amarrada ao Brasil. Fizeram o anti natural para que aquela gente fizesse parte de nossa gente.
A construção da unidade brasileira não foi nenhum mar de rosas. Sublevações, guerras e revoluções sempre estiveram presente, sendo sempre dominadas.

Palmares também é lembrada. Um caso típico de um conflito inter racial. Negros fugidos dos canaviais se organizaram para viverem para si. Já tinham esquecido da África e fizeram uma república bem brasileira, socialista, comunitária onde tudo era de todos. Só que fizeram isso da única forma possível: primitiva, rudimentar, desordenada e desarticulada e, como os cabanos também foram trucidados. Chico lê que a sua destruição era um requisito da manutenção da sociedade escravista, seja para reaver negros fugidos ou para se precaver de novas fugas. As sublevações negras eram mais temidas que as invasões estrangeiras.A destruição teria que se dar por uma lição exemplar. A narrativa continua. E assim, conspirações, revoltas e guerras marcaram os caminhos da nossa configuração como povo e como país. Todos brigaram contra todos e as lutas não cessaram. Houve lutas pela independência e após ela, como nos atestam a Revolução Farroupilha, a Sabinada e a Guerra de Canudos e outros levantes sertanejos.

Canudos é comentada. A herança portuguesa é lembrada. O mito do sebastianismo. Como seu corpo nunca fora encontrado nos campos de batalha, ele voltaria forte, jovem e formoso. É uma das heranças mais bonitas que temos, lembra Darcy. Ele viria com seus exércitos para redimir o seu povo, matando os fazendeiros, os donos da terra, a gente canalha. Isso povoava a imaginação dessa gente. E eles poderiam plantar para comer. As crenças mais diversas se concentraram na figura de Conselheiro, com seus bandos de beatos. E os fazendeiros se apavoravam, não diante de sua religião, de seu misticismo. Se apavoravam com a ideia de que eles fariam as suas roças e comeriam o que plantavam e, ninguém mais faria isso para eles. Foram acusados de monarquistas e contra elas foram levados os exércitos e os canhões. Ao final o que encontraram? Algumas mulheres e crianças. Tinham matado todos.
O maior milagre brasileiro, a unidade nacional. Culturas originárias, fusões e incorporações construíram um povo único, o povo brasileiro.

A narração nos dá indícios para a conclusão do vídeo, mostrando que entre encontros e desencontros é que inventamos um povo e um país e também uma língua nova, o português do Brasil. E como a história continua, também continua a invenção do Brasil, com as fusões genéticas, técnicas e simbólicas. Mas o Brasil deu certo? Muitos acham que não. Eduardo Giannetti, explica. Quem acha que o Brasil não deu certo, olha apenas indicativos objetivos e busca comparações com os Estados Unidos. Diz ser um equívoco frequente. Lembra que muita coisa não deu certo mesmo, outras deram e muitas outras ainda poderão dar. Cita as mazelas sociais, como aquilo que não deu certo, como a educação, a saúde e a instabilidade das instituições políticas, que precisam ser melhoradas para propiciar uma convivência próspera e com instituições estáveis. E com toda a convicção exalta as nossas vantagens no campo da subjetividade. As heranças da vitalidade iorubá, a ternura lusitana e a magia índia nos dão a riqueza da arte, da cultura, da vida afetiva, das relações pessoais, tão ricas e tão densas. E Lupicínio canta: e assim vamos vivendo de amor...

Judith lembra da enorme capacidade produzida pelos mitos sobre esse povo e que os mitos, pelo simbólico são até mais importantes que os fatos. Darcy pergunta: o que queremos? E a resposta é tão simples. Queremos fazer o país habitável, queremos ser felizes, alegres, amorosos, afetuosos e comer todos os dias. É um absurdo, um país tão grande e tão rico ter tanta fome e tanta criança abandonada. E lamenta que o nervo da ética, do humano e do utópico tenha se quebrado.
Que a beleza da natureza brasileira seja o símbolo  maior de nosso futuro de prosperidade e grandeza.

Agostinho da Silva faz votos de que o mito português de D. Henrique, da instituição do reino do Espírito Santo, com fraternidade e prosperidade, efetivamente se concretize e Darcy termina, chamando muita atenção para o que irá dizer: Nós temos que inventar o país que queremos. Além disso eu, particularmente, gosto muito da afirmação de que - se o Brasil sempre deu certo como empresa para os outros, - por que ele não pode dar certo como Nação, para si próprio, para a sua gente, a nossa gente? 

8 comentários:

  1. Excelente material, me ajudou bastante. Parabéns!

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  2. Todo o material publicado é de excelente qualidade. Parabéns pelo Blog que contém inúmeros assuntos de interesse daqueles que buscam conhecimento. Estou cursando Direito e a sua produção vai me ajudar em muito, após a leitura do livro do Dr. Darcy Ribeiro e assistir ao vídeo, na execução de trabalho, sobre esta obra, que foi requerido, neste semestre , pela Universidade. Muito obrigado, e espero que continue com esse alto nível de produção.

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  3. Muito obrigado, João. Seu comentário é um estímulo para continuar produzindo. Você deve estudar numa boa universidade. Abraço.

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  4. Professor, excelente material, me auxilio muito na preparação de aula , quero lhe agradecer.

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  5. VeraFatec, muito obrigado pelo seu comentário. Que bom que ajudou. Abraço.

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  6. Parabéns pelo Blog e conteúdos postado.
    Esse documento e um resumo do capitulo do livro de Darcy Ribeiro

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  7. Agradeço o seu elogioso comentário, Fernando. Para mim sempre é um estímulo.

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