quarta-feira, 3 de abril de 2013

O Povo Brasileiro 3. - A Matriz Afro.

Para entender bem este capítulo sobre a raiz afro, creio ser necessário fazer um longo estágio no candomblé baiano ou então mergulhar em profundidade na obra de Jorge Amado. É lindo demais! Deve ser o capítulo mais bonito e mais bem trabalhado de toda a produção. Nele aparecem de novo Darcy e Chico. A descrição fica por conta de Carlos Serrano e de François Neyt, e textos de Nina Rodrigues. Também comparece Gilberto Gil. Muitas das esculturas  e quadros mostrados são de Carybé, o eterno amigo de Jorge Amado.
O terceiro capítulo do vídeo é dedicado a matriz afro, na formação do povo brasileiro. Que maravilhosa herança cultural recebida.

A África é apresentada como o continente negro e, para o espanto e... de muitos, é apresentada como o berço da humanidade, pois foi aí que a espécie humana surgiu. O mosaico de culturas é enorme. Nunca houve uma cultura africana homogênea, a diversidade sempre foi a sua maior marca. De Angola, Congo, Nigéria, Moçambique e Daomé "foram partidos" os africanos que fizeram a travessia para o Brasil, para serem aqui, a sua força de trabalho. Os primeiros negros que aqui vieram, o ciclo da Guiné, vieram da Costa Ocidental. Mais tarde vieram os da África Central Atlântica, da Angola e do Congo, os Bantos.

Já conheciam a agricultura, a cerâmica, a criação de gado e a metalurgia.Esta era vista como uma dádiva divina e em toda a África havia as divindades metalúrgicas. Em seu louvor, tanta arte em metais. Já tinham uma concepção de Estado, faziam uso de moedas e a escravidão entre eles já era uma prática existente. O sagrado está onipresente. Acreditavam na existência de dois mundos que se interligavam, o mundo visível e o invisível, o mundo de Deus. Deus é a criatura incriável, o princípio de tudo e acima de tudo, sem ter tido um princípio, um começo. A Ele chegavam, estabelecendo vínculos e laços, através de seus antepassados. Os primeiros clãs, os ancestrais mais longínquos exerciam o poder político e também o religioso. Eles eram os proprietários de tudo: da terra, das águas, das florestas e do sertão e das palmeiras. No culto aos mortos buscavam a fertilidade das mulheres, da terra, de todas as benesses e o afastamento dos perigos.
Carlos Serrano, versando sobre a cultura afro.

A vida era o que existia de mais sagrado, o ser supremo da criação. A sua ética era antropocêntrica e vital e, porque não dizer, profundamente humana. Na sua organização, o rei estava acima das família, para ser o chefe de todas elas. Havia todo um ritual, uma liturgia do cargo, para lhe conferir poder. Participava de danças reservadas, vestia as mais ricas vestimentas, sentava-se em trono de marfim e era coroado com um boné ricamente bordado. O poder sempre foi uma liturgia muito criteriosa, cheia de simbolismos e misticismos. Eram especialistas em guerras. Disparavam flechas em série, de até 28, antes que a disparada por primeiro, se cravasse na terra. Eram divididos em três classes: a aristocracia, os homens livres e os escravos. No seu cruzamento com os europeus, já usavam moedas e escravos em suas transações comerciais.

Havia um culto ao sol e ao tempo. Havia a claridade e a escuridão. Para perguntar a hora, perguntavam qual era o sol, e havia a hora, ou o sol para tudo: para plantar, para colher, para chegar e para partir. O tempo presente, o tempo favorável e o momento preciso. Na despedida derradeira, eram conduzidos por um barco para o mundo invisível.

A partir do século XVIII, chegam a Salvador, Recife e São Luís os bantos, os negros da Angola e do Congo. São eles que mais profundamente deixarão as marcas sobre a nossa cultura. Mãe Senhora nos dá uma aula sobre os orixás, sobre o candomblé. Em suas crenças não há lugar para a maldade, para a vigilância e para a punição. Não se castiga ninguém. Há isso sim, uma magia toda particular, de cantos e saudações. Nesta altura do vídeo entra Gilberto Gil, declamando um poema, Oriki de Oyá - Iansã. Logo depois ele entoa o Oriki de Xangô. Com Jorge Amado aprendi a não entender dessas coisas, que isso é coisa de baiano.
Olha a mãe Senhora aí. E sabem com quem? Com Zélia Gattai, com Jean Paul Sarte, Simone de Beauvoir e Jorge Amado. Como são lindas estas mães do candomblé baiano. Religião sem pecado, sem culpa!

Vieram ainda outros negros que já tinham contatos com os árabes e, foram estes os que mais bravamente lutaram contra o serem transformados em meras máquinas do plantio e da colheita agrícola. Foram os que mais ferrenhamente lutaram contra a escravidão. François Neyt, nos fala de sua arte, a transcendência do real para o sobrenatural, para o invisível. Até nos apresenta estes valores como os que podem salvar o mundo em seu estágio atual de culto ao que é apenas visível, ao econômico. Neste seu mundo invisível está o mundo do coração, dos sentimentos, da criação e valorização do belo.
Pela arte, a transcendência, a busca não do real, mas do invisível. 

Mãe Senhora praticamente encerra o capítulo, numa fala inigualável. Mais ou menos o seguinte: Tudo aquilo que você tem e que sofreu para tê-lo, você passa a valorizar mais. Se a manutenção de tua cultura ancestral custou sacrifícios e sofrimentos, essa dor ancestral se torna presente e dá forças para lutar para mantê-la. Uma cultura sob permanente ameaça se torna muito mais forte.

Darcy, no encerramento fala que no encontro com os negros e com os índios, em sua miscigenação, eles deixaram de ser eles, para serem o povo brasileiro. A presença da força da ancestralidade é mostrada com um belo canto de Gilberto Gil, que descobri ser Babá Opalá. Lindíssima.

Uma palavra minha. A convivência com estas maravilhas fez do baiano Jorge Amado, cansado de ver a difamação, a perseguição e  a destruição destas manifestações religiosas, propor, como deputado constituinte de 1946, o artigo que garante a todos a liberdade de religião, artigo ainda inscrito na atual Constituição, a de 1988, tal qual foi escrito nos idos de 1946 pelo deputado da bancada comunista e contra ela, pois não cabe aos comunistas se ocuparem com questões de religião. Devemos muito a este homem lindo, em seu esplendor de humanidade. Ah, sim! Urgentemente a cultura africana nos currículos escolares. Imprescindível.

12 comentários:

  1. o povo brasileiro é um excelente livro

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  2. the robots will destroy you, human!!!!!!!!!1

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  3. Agradeço aos anônimos a sua contribuição. Antônio Cândido, quando apresenta os dez livros que melhor interpretam o Brasil, apresenta o livro do Darcy Ribeiro, como o livro - de uma introdução necessária. É um dos meus livros preferidos.

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  4. Nós estamos aprendendo Sobre isso e o Prof. passou as 3 principais histórias do Darcy, as quais foram as de mais cultura: Matriz Tupi,Matriz Lusa, e Matriz Afro.
    Iremos fazer uma prova hoje por isso estou aqui vendo e resumindo algumas coisas.
    me deseje sorte!! Obrigada

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  5. A boa sorte eu te desejo, mas o estudo é imprescindível. Imprescindível mesmo é o belo, importante e significativo livro do Darcy Ribeiro.

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  6. Muito bom! Parabéns!

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  7. Muito obrigado. Junto com o agradecimento eu remeto para a leitura do livro do Darcy.

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  8. obrigada tá me ajudando muito nos meus trabalhos academicos

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  9. Que bom Yara, se está ajudando. Mas não deixe o livro do Darcy de lado. É um livro cheio de amor ao povo brasileiro.

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  10. pra você qual matriz foi a principal pra produção do brasil nessa epoca

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  11. A riqueza se origina basicamente do trabalho.

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