quarta-feira, 29 de junho de 2022

Luís Gama (1830- 1882). Mãe negra - pai fidalgo. Livre, escravizado e abolicionista.

 Entre as vozes negras na luta pela abolição, seguramente, é a voz de Luís Gama que tem a história de vida mais singular. Uma história de cinema (que aliás, já existe. O Dr. Gama). Uma lenda. Ele nasceu livre, foi vendido pelo próprio pai para um traficante de escravos, alfabetizou-se junto a um amigo e, na qualidade de autodidata, ganhou notoriedade de intelectual respeitado. Como rábula ajudou na alforria de mais de 500 escravizados. A sua pena era temida e respeitada. Fundou e atuou na Loja Maçônica - América - da qual também foram membros Ruy Barbosa e Joaquim Nabuco. Na imprensa, a ironia, a sátira e o deboche sempre foram suas armas. Teria sido um novo Gregório de Matos?

Luís Gama (1830-1882). Um abolicionista radical. Sentiu na pele as dores da escravização.

No Brasil, pouco se sabe de Luís Gama. E, muito do que se sabe, se deve a Lígia Fonseca Ferreira. Na Sorbonne, em Paris, ela, mulher negra, fez seu doutorado. O tema de seus estudos foi a literatura negra no Brasil nos anos de 1887-1888. Foi então que ela entrou em contato com o autor e não mais o abandonou. Foi ela que descobriu a carta que ele enviara a Lúcio Mendonça, atendendo a um pedido deste. Lúcio Mendonça foi um dos idealizadores e fundadores da Academia Brasileira de Letras. A carta é autobiográfica e tinha finalidades de publicação. E isso foi feito. A pesquisadora encontrou os originais, que hoje estão sob custódia da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

Ela revela o teor e as polêmicas que envolvem a carta. De Lígia tomo as informações que prestarei, também auxiliado por Eduardo Nunomura, um estudioso de Lígia.  Lígia nos conta que Luís Gama nasceu em Salvador no ano de 1830, filho de mãe negra-africana e pai português, fidalgo. Nascera, portanto, livre. O pai, depois de arruinado, o vendeu como escravo para um traficante amigo, que não o conseguiu revender, ficando com ele. Nesta condição ele chega a São Paulo, onde permanecerá por 42 anos, até a sua morte, em 1882. Na abertura de seu texto, Lígia nos apresenta o único abolicionista que sofreu na sua própria pele as dores da escravidão. 

A sua obra se resume às Primeiras Trovas Burlesca de Getulino. Seus versos são os de um negro que denuncia os paradoxos políticos, éticos e morais da sociedade imperial. E, haja paradoxos. O seu sonho era - um Brasil americano, sem reis e sem escravos. Estão aí as duas grandes bandeiras de sua vida. Por elas fez versos, escreveu nos jornais e militou nos tribunais. Foi o advogado dos escravizados. Era autodidata, não tinha diplomas. Os desdenhava. "A inteligência repele os diplomas como Deus repele a escravidão", dizia, numa frase de efeito. Um de seus versos, Quem sou eu, verso das Primeiras trovas e a carta ao amigo, são as fontes para o estudo de sua biografia. Depois dessas considerações a pesquisadora apresenta o conteúdo, as características e os interesses deste documento.

Lúcio Mendonça é um amigo de Luiz Gama, mais novo e muito influente. Tinha interesse em divulgar o que lhe seria revelado. Ela, a carta, é resultado de uma solicitação. Portanto, consentiu ao escrevê-la. Biografias eram uma moda da época. Eles tinham muitas afinidades. Eram intelectuais, republicanos e abolicionistas. Ambos são fundadores do Partido Republicano (Itu - 1873). Luís Gama logo se afastará do Partido, pois nele haviam ingressado fazendeiros paulistas escravocratas. Eram as lavouras de café! Era considerado o terror dos fazendeiros, de advogados e de juízes corruptos. Era, ao mesmo tempo amado, odiado e temido. Ao tempo da carta, já era portador de uma saúde frágil, acometido de diabetes que logo, logo, dois anos após a carta, o vitimaria. 

O ponto de partida da carta é o seu nascimento e infância. Nasce em Salvador em meio as agitações das rebeliões negras da década de 1830-1840. Se apresenta como um típico brasileiro, fruto de um casamento entre Portugal e a África. Da mãe se diz herdeiro de uma indômita personalidade, que lhe permitiu enfrentar as idiossincrasias políticas de impiedosos tratamentos, reservados aos negros. Dá detalhes do nascimento, 21 de junho de 1830. Batizado, aos oito anos, na igreja matriz do Sacramento, de Itaparica. Filho natural de negra-africana livre, da Costa Mina (Nagô de nação), de nome Luiza Mahin, pagã, que sempre recusara o batismo e a fé cristã. A descreve como altiva, geniosa, insofrida e vingativa. Era laboriosa e ganhava a vida como quitandeira. Várias vezes foi presa, por envolvimento em rebeliões. Ela veio ao Rio de Janeiro, onde ele a procurou por três vezes. Por informações, soube de sua prisão e desaparecimento, provavelmente pelo exílio, pena aplicada aos negros amotinados.

Do pai, de quem se recusa dar o nome, também dá informações. Era um português, fidalgo e muito rico. Era extremoso e o criara em seus braços. Era apaixonado por caça e pesca, por cavalos e armas. Amava prodigamente súcias e divertimentos, esbanjando fortuna. Reduzido à extrema pobreza (1840) o vendeu ao amigo e hospedeiro Luiz Cândido Quintela. Estes relatos permitem especulações e lendas, conta a pesquisadora, especialmente com relação à mãe, alçada à condição de revolucionária e heroína.

Em 1848 empreende fuga e consegue reaver a liberdade. Se torna amigo de Lúcio Mendonça, para quem, em sua carta, omite dados, certamente, por supô-los sabidos. É o momento em que começa a sua vida ativa, especialmente a partir de 1860, com a sua vida pública de antimonarquista e antiescravista, com a sua escrita nos jornais e a sua voz nos tribunais. As Primeiras Trovas são do ano de 1859. A sua atividade lhe rendeu muitas perseguições. "Detesto o cativeiro e os senhores, especialmente o reis", bradava. Nos tribunais, com base na Lei de 1831, acordada com os ingleses, que aboliu o tráfico, ele alforriou mais de 500 escravizados.

Apresenta também as metamorfoses em sua vida. De criança livre  a escrava; de escravo a homem livre; de analfabeto a  homem de letras; de não cidadão a homo politicus e do anonimato à notoriedade. No campo das atividades passou de escravo doméstico a soldado, ordenança, copista, secretário, tipógrafo, jornalista, advogado e autoridade maçônica. E o inacreditável, de um ex escravizado a homem famoso, ainda mais, na então inexpressiva São Paulo, pouco dada à ascensão social. E o mais bonito, de posse da escrita, vedada aos escravos, rompe os laços da dominação, alcança a autonomia, se torna cidadão e voz influente na pólis, na comunidade das letras e, em suma, na sociedade branca.

A pesquisadora ainda destaca que em menos de duas mil palavras, que falam por si só, conquistou a imagem de sensível, decidido, pronto para o sacrifício e para o perdão. Além de mostrar-se seguro, modesto, intransigente, justiceiro, racional e portador de grande coragem moral. Levou uma vida de transgressões; da fuga e do aprender a ler e escrever, e o tornar-se figura pública incomum. Casou-se com Claudina Furtado Sampaio, com que já tivera um filho, nascido junto às Trovas. E exclama, "Oh! eu tenho lances doridos em minha vida, que valem mais do que as lendas sentidas da vida amargurada dos mártires". E encerra, "Eis o que te posso dizer, às pressas, sem importância e sem valor; menos para ti, que me estimas deveras".

E, como não poderia deixar de ser, deixamos aqui o seu verso autobiográfico famoso. Quem sou eu? (A bodarrada). O livro das Primeiras trovas também foi organizado pela pesquisadora Lígia Fonseca Ferreira.

Quem sou eu? que importa quem? 

Sou um trovador proscrito,

Que trago na fronte escrito

Esta palavra - "Ninguém".

Augusto Emílio Zaluar. Dores e Flores.


Amo o pobre, deixo o rico,

Vivo como o tico tico;

Não me envolvo em torvelinho,

Vivo só no meu cantinho:

Da grandeza sempre longe

Como vive o pobre monge.

Tenho mui poucos amigos,

Porém bons, que são antigos,

Fujo sempre à hipocrisia,

à sandice, à fidalguia;

Anjo Bento, antes trovões.

Faço versos, não sou vate,

Digo muito disparate,

Mas só rendo obediência

À virtude, à inteligência:

Eis aqui o Getulino

Que no plectro anda mofino.

Sei que é louco e que é pateta

Quem se mete a ser poeta;

Que no século das luzes,

Os birbantes mais lapuzes,

Compram negros e comendas,

Tem brasões, não - das calendas

E, com tretas e com furtos

Vão subindo a passos curtos; 

Fazem grossa pepineira,

Só pela arte do Vieira,

E com jeito e proteções,

Galgam altas posições!

Mas eu sempre vigiando

Nessa súcia vou malhando

Com semblante festival.

Dou de rijo no pedante

De pílulas fabricante,

Que blasona arte divina,

Com sulfatos de quinina,

Trabujanas, xaropadas

E mil outras patacoadas,

Que sem pingo de rubor, Diz a todos que é DOUTOR!

Não tolero magistrado, que do brio descuidado,

Vende a lei, trai a justiça,

- Faz a todos injustiça -

Com rigor deprime o pobre 

Presta abrigo ao rico, ao nobre,

E só acha horrendo o crime

No mendigo que deprime.

- Neste dou com dupla força.

Té que a manha perca ou torça.

Fujo às léguas do lojista,

Do beato e do sacrista -

Crocodilos disfarçados,

Que se fazem muito honrados

Mas que, tendo ocasião,

São mais feros que o Leão.

Fujo ao cego lisonjeiro,

Que, qual ramo de salgueiro,

Maleável, sem firmeza,

Vive à lei da natureza;

Que conforme sopra o vento

Dá mil voltas num momento.

O que sou, e como penso,

Aqui vai com todo o senso,

Posto que já vejo irados

Muitos lorpas enfunados,

Vomitando maldições,

Contra as minhas reflexões.

Eu bem sei que sou qual Grilo,

De maçante e mau estilo;

E que os homens poderosos

Desta arenga receosos

Hão de chamar-me de tarelo,

Bode, negro, Mongibelo;

Porém eu que não me abalo,

Vou tangendo o meu badalo

Com repinque impertinente

Pondo a trote muita gente.

Se negro sou, ou sou bode

Pouco importa. O que isto pode?

Bodes há de toda casta,

Pois que a espécie é vasta...

Há cinzentos, há rajados,

Baios, pampas e malhados,

Bodes negros, bodes brancos

E, sejamos todos francos,

Uns plebeus, e outros nobres,

Bodes ricos, bodes pobres

Bodes sábios, importantes,

E também alguns tratantes...

Aqui, nesta boa terra,

Marram todos, tudo berra;

Nobres Condes e Duquesas,

Ricas Damas e Marquesas

Deputados, senadores,

Gentis homens, veadores;

De nobrezas empantufadas,

Repimpados principotes,

Orgulhosos fidalgotes,

Frades, Bispos, Cardeais,

Fanfarrões imperiais,

Gentes pobres, nobres gentes,

Em todos há meus parentes 

Entre a brava militança -

Fulge e brilha alta bodança; 

Guardas, Cabos, Furrieis,

Brigadeiros, Coroneis,

Destemidos Marechais,

Rutilantes Generais,

Capitães-de-mar-e-guerra,

- Tudo marra, tudo berra -

Na suprema eternidade,

Onde habita a Divindade,

Bodes há santificados

Que por nós são adorados.

Entre o coro dos Anjinhos

Também há muitos bodinhos. -

O amante de Siringa

Tinha pelo e má catinga:

O deus Mendes, pelas costas,

Na cabeça tinha pontas;

Jove quando foi menino,

Chupitou leite caprino;

E, segundo o antigo mito,

Também Fauno foi cabrito.

Nos domínios de Plutão,

Nos lundus e nas modinhas

São cantadas as bodinhas;

Pois se todos tem rabicho -,

Para que tanto capricho?

Haja paz, haja alegria,

Folgue e brinque a bodaria;

Cesse pois a matinada, 

Porque tudo é bodarrada! -.

Creio que estes versos se constituem numa bela síntese do que são os versos das Primeiras trovas burlescas de Getulino. Ele não tolerava mesmo, os inúmeros Cresos, presentes na sociedade paulista, com que conviveu. Quando vi que Luiz Gama pertenceu a mesma Loja Maçônica que Joaquim Nabuco, a questão me intrigou. Por que um não faz referência ao outro em seus textos? A pesquisadora responde, apontando as diferenças entre eles. Nabuco de Araújo, o pai de Joaquim, fora presidente da Província de São Paulo. Fora, portanto, um homem do Império. Óbvio que haveria incompatibilidades. Além disso, Luiz Gama defendia a rebelião popular escrava, a sua insurreição. Já Joaquim Nabuco apostava na via parlamentar, na abolição empreendida pela ação do Estado, somando-se à abolição, uma série de reformas sociais que garantiriam a integração numa sociedade, que mais adiante, Florestan Fernandes definiria como sociedade de classes, de sociedade competitiva, em seu livro A integração do negro na sociedade de classes.

O que Luiz Gama e Joaquim Nabuco tinham em comum era a crença nos princípios políticos do Iluminismo, do Esclarecimento. A crença de que todos os homens seriam tratados com liberdade, Igualdade e Fraternidade. 

Referências: O texto de Lígia Fonseca Ferreira.A referência é: Lígia Fonseca Ferreira, "Luiz Gama por Luiz Gama: carta a Lúcio Mendonça". In Teresa, Revista de Literatura Brasileira da USP. [n. 8/9], São Paulo, p.300-321.

As Primeiras Trovas Burlescas são encontradas no  Portal Domínio Público.

Já o artigo de Eduardo Nunemura está na revista Pesquisa FAPESP, 219, Humanidades - História, de maio de 2014, páginas 72-75.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Memórias da Cantina da Lua. Clarindo Silva. Pelourinho Salvador.

13 de maio de 2022. Uma sexta feira. 13 de maio, data da abolição. Proclamei uma abolição meio particular, abolição da pandemia, abolição válida apenas para efeitos de viagem. Meu amigo Valdemar Reinert me convidou para assistirmos ao Show de Caetano Veloso "Meu Coco", no histórico Teatro Castro Alves, em Salvador. Ele já havia comprado os ingressos, sempre raros, num show de Caetano. Seria para o dia 21, sábado. Com alguns atrasos de voo, chegamos a Salvador ao final da tarde. Lá pelas 21h00 já estávamos em Santo Amaro da Purificação. E, desde já, lanço uma advertência, nunca chegue na cidade sem hotel reservado, ainda mais quando se trata de uma data histórica como o dia da abolição.

Memórias da Cantina da Lua. Clarindo Silva. Ele, na capa de seu livro.

Outro dia eu conto sobre Santo Amaro da Purificação, sobre a festa do Bembé do Mercado, sobre o "Lá em Carla", o restaurante de grandes conversas, sonhos, projetos e, por óbvio, de cervejas e sabores. A festa do mercado e dona Canô foram o tema de nossas conversas e maravilhamentos. Como lembrança, trouxe até o santo da Purificação. Ainda no Recôncavo, conhecemos Cachoeira e São Félix. Em Cachoeira, confesso, cometemos um pecado, que será preciso expiar, purificar. Não tomamos uma cerveja nos inúmeros bares ao longo do rio Paraguaçu, contemplando a ponte metálica que liga as cidades e entabularmos conversas sobre a história da cidade, berço da independência.

Costeando o Recôncavo e já noite, estávamos na ilha de Itaparica, mas sem ainda experimentarmos a rejuvenescedora água da "Fonte da Bica", nem  a casa do escritor famoso da ilha. Deu tempo sim, de tomar o saboroso caldinho de sururu. Mas não fomos a Salvador, o nosso destino, sem conhecermos as maravilhas e os sabores do Manguezal. Local de passar, dia inteiro.

O sábado e o show nos aguardavam. Depois de virar e revirar a cidade, na manhã deste sábado, resolvemos dar mais uma volta pelo Pelourinho. Valdemar estava à procura de um caixa eletrônico. "É ali", nos indicaram. Era um restaurante, e numa lateral estava o caixa. Na entrada, um senhor todo de branco e gravata cuidadosamente enfeitada. Rodeado de livros, a todos recebia com amplos sorrisos. Ao fundo do restaurante algumas faixas e cartazes. Um deles chamou particular atenção. "Palco do centenário de Riachão". Foi motivo suficiente para parar com as minhas preocupações de estômago e nos abancarmos. Estávamos num lugar épico e histórico e o senhor de terno branco era Clarindo Silva, o Dom Quixote do Pelourinho. Ali consumimos sabores e também o resto da tarde. Cada vez que você entabula uma conversa com alguém, é um mundo à parte que se abre. Clarindo nos abriu o livro de seus 80 anos de vida e setenta de trabalhos e de resistências. Estávamos na Cantina da Lua. 

"A Cantina da Lua fica numa esquina do Terreiro de Jesus, diante da Catedral Basílica, ao lado da Faculdade de Medicina, a primeira do país, tendo como vizinha a secular Igreja de São Pedro dos Clérigos. É, poderíamos dizer assim, a porta de entrada para o Pelourinho, na esquina da rua principal, que, descendo, vai dar no Largo do Pelô, onde estão localizadas a casa de Jorge Amado e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, ali onde ficam o Museu da Cidade, as sedes do Olodum, dos Filhos de Gandhy, a casa do Benin, mais embaixo, o acesso ao Taboão, a subida para o Carmo e o Além do Carmo". Isso nos é contado no livro Memórias da Cantina da Lua, o livro de Clarindo Silva. Além das memórias há os depoimentos. O registro acima é do jornalista zédejesusbarreto, à pagina 117.

O livro de Clarindo já está na sua sexta edição. Ele é dividido em três partes. Na primeira, Clarindo conta as suas memórias, que se confundem com as da Cantina da Lua e a sua luta pela preservação do Pelourinho, a segunda conta com depoimentos de frequentadores e amigos e a terceira é composta de um álbum de registros fotográficos.

Entre as memórias, Clarindo lembra de sua chegada, vindo de Conceição do Almeida, cidade do Recôncavo. Lembra de seus primeiros trabalhos, vendendo frutas da estação, até o primeiro emprego no Bazar Americano, até o arrendamento da Cantina da Lua, onde se estabeleceu no ano de 1971, para nunca mais sair. A pedagoga Kátia Melo nos conta que "a política baiana, a cultura local e a boemia se entrelaçavam na Cantina, que era e é hoje, uma espécie de caldeirão cultural de Salvador". Por aí passaram, o samba da Bahia, jornalistas, os escritores Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, os políticos e todos os que valorizaram a cultura. Clarindo, além da luta pela preservação da cultura e da restauração do Pelourinho também deu seus passos na política, meio desajeitados, em função de suas práticas, incompatíveis com o seu jeito de ser e de pensar. Política para ele era a defesa de causas e não o assistencialismo corruptor.

De Dóris Pinheiro tomo dois depoimentos; o do seu sonho do que seria a Cantina da Lua, antes de conhecê-la, e, uma definição de quem é Clarindo. "Eu me lembro que quando eu era garota e lá em casa se falava sobre a Cantina da Lua, que eu ficava imaginando que devia ser um lugar assim como aqueles livros do Jorge Amado, cheio de boêmios, intelectuais, jornalistas, artistas. Um lugar impregnado de Bahia, com comida gostosa, cerveja gelada, cachaça da boa, noites intermináveis de conversa e música. Homens charmosos, mulheres livres e bonitas". Clarindo, ela não imaginou, apenas conseguiu constatar. "Para mim Clarindo Silva é tipo um semi Deus afrobaiano, filho direto de um Orixá. E afilhado de santos católicos poderosos".

Este cartaz - Palco Centenário Riachão nos fez entrar na Cantina da Lua.

No álbum de fotos encontramos Clarindo com os amigos, com os jornalistas, e ele é um deles, com escritores, com políticos, com monsenhores e com Mãe Stella de Oxóssi, e sobretudo com os homens e mulheres da música, do samba. E lembrando, que em defesa do Pelourinho, Clarindo foi se queixar até para o Papa, entregando para João Paulo II, na Catedral Basílica, as reivindicações do povo baiano, denunciando também "a mortalidade infantil, o ódio racial, a esterilização da mulher negra, além de blanterar contra a degradação do Centro Histórico, enfatizando o abandono da primeira Escola dos jesuítas e da Igreja da Barroquinha", nos conta Germano Tabacof.

Para encerrar, deixo meio solto o jornalista zezédejesusbarreto, com as sua belas palavras na orelha da capa, misturando Clarindo com a Cantina. "Clarindo é negro, preto que se veste de branco pela força dos mistérios afrobaianos. Babá Funfun! Clarindo é magro, sutil como seu riso. Clarindo é um príncipe da cidade da Bahia, uma entidade do Terreiro de Jesus. Um cavaleiro, Quixote do Pelô! Um cavaleiro galante. Clarindo é um ícone de resistência, um signo de esperança, exemplo de perseverança. Sua negra figura esguia paramentada de brancura é fina grandeza, pura delicadeza. Bravura e brandura.

Uma coisa e outra, ou todas as coisas misturadas, assim como pimenta, dendê, leite de coco, marisco, pinga e melaço..., angu encubado, tempero verde de balaio de feira, moqueca, maniçoba, panelada do Recôncavo. Clarindo é uma cantina, lua cheia. Cantina da Lua que se fez morada, porto, festa, bênção, castelo, farol de São Salvador. A cantina da Lua, de Clarindo Silva, é um espaço de baianidade único, dia e noite, pois assim nasceu e foi criado, assim foi cuidado e se conserva, a despeito das ressacas e das marés. Dali daquelas janelas da esquina, encruzilhada do Terreiro, Clarindo viu e vê tudo, presenciou e foi agente em nosso Centro Histórico. Escravidão, fausto, puteiro. Capoeira, brega, tambores, malandragens, droga, poesia e procissão. Bênção e condenação".

À noite, o tão sonhado show do Caetano. Caetano é simplesmente Caetano. E, durante o show, um sonoro FORA BOLSONARO, do próprio artista. Por que será que "Meu coco" não vem para a desacreditada "República de Curitiba?".

E quando for a Salvador, um encontro com Clarindo. Nem precisa marcar. Como chegar? Está tudo bem explicado. Ah, sim! Ganhei autógrafo: "Ao amigo Elói. Um pouco da minha história de vida, recheada de depoimentos de celebridades que como você (muito obrigado - mesmo não sendo) visitaram a nossa Cantina da Lua, local de encontros e reencontros. Fé e resistência. Lua, 21.05.2022. Clarindo Silva.

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Meu muito querido Pedro. Fal Azevedo e Suzi Castelani.

"Nossos últimos anos não foram como eu gostaria. Aliás, os primeiros também não, sejamos francos. Porém eu o amei, Pedro, à minha própria maneira, e sempre lhe desejei o bem. Acima de tudo, amei e amo este país de todo coração. Cuide dele, permita que cresça forte, livre, independente. Não ceda a chantagens, não coloque nada acima dele. Com a minha partida, é sua, e apenas sua, a responsabilidade de cuidar do Brasil. E que Deus o ajude se não o fizer. Despeço-me, fraca demais para continuar. Sua, sempre, Leopoldina".

Meu muito querido Pedro. Fal Azevedo e Suzi Castelani. Drops Editora. 2021.

Assim termina Meu muito querido Pedro, livro assinado por Fal Azevedo e Suzi Castelani. Em uma espécie de apêndice, em que são apresentados dados biográficos de Leopoldina, lemos: "A doença que por fim vitimou D. Leopoldina levou-a ao delírio em várias ocasiões. Em seus delírios, suspeitava estar sendo envenenada pelos médicos, amaldiçoava o marido e a amante dele, Domitila". Uma forte expressão de seus sofrimentos. Lamentos em feminino.

Na contracapa do livro temos uma espécie de carimbo a nos dizer - VENCEDOR, com o seguinte esclarecimento: Prêmio de Incentivo à Publicação Literária. 200 anos de Independência. Os 200 anos de independência nos proporcionam uma bela oportunidade para conhecer melhor a conjuntura e os bastidores da mesma, pouco divulgados em nossos livros de história. O livro tem uma escrita primorosa, sob a forma de cartas, que Leopoldina escrevera para o seu marido, o muito querido Pedro. Querido. Nem tanto!

Na abertura do livro, logo após a apresentação da árvore genealógica de Maria Leopoldina, a Imperatriz do Brasil, temos o seguinte esclarecimento: "O diário a seguir foi encontrado pela pesquisadora e professora universitária, Dra. Daniela Hernandez, enquanto pesquisava antigas listas de livros adquiridos pela família real brasileira que agora se encontram sob os cuidados da Biblioteca Nacional. A Dra. Hernandez submeteu o original a especialistas que o estudaram por dois anos e autenticaram a veracidade de sua procedência".  É a forma do livro. Cartas escritas ao marido. E que cartas! Cartas de uma princesa austríaca, educada no Castelo de Schönbrunn e pertencente à família dos Habsburgos, remanescentes do Sacro Império Romano-Germânico. Além disso, mais para tormentos do que para glórias, foi cunhada de Napoleão Bonaparte.

Ela teve vida curta (1797-1826), apenas 29 anos e, grávida por nove vezes, com partos sem a devida assistência. O seu casamento obedeceu a um arranjo político, em meio a uma conjuntura geopolítica das mais complicadas. Afinal, são os tempos de Napoleão e da vinda da família real portuguesa ao Brasil. Além de ter Pedro como marido, teve ainda em Carlota Joaquina a sua sogra. Na página 100 do livro, encontramos uma indagação fundamental, que reflete toda a sua vida de angústias. Uma vida dedicada estritamente ao cumprimento de deveres é uma vida humana? E, a esses deveres, ela cumpriu resignadamente. 

Volto aos 200 anos da independência. Seus bastidores. Dona Leopoldina assistiu a tudo. Enquanto Pedro viajou para São Paulo em missão de pacificação, ela permaneceu no Rio de Janeiro, na qualidade de Princesa Imperial Regente. Sua atuação, junto com José Bonifácio, uma das poucas companhias esclarecidas que ela teve, foi decisiva para a Independência. Foram suas as cartas enviadas para Pedro em São Paulo. Essa atuação lhe fez valer o título de PALADINA da independência junto com o que foi conferido a José Bonifácio, como o seu PATRIARCA.

Mais do que ninguém, ela compreendeu a sua missão como imperatriz de um novo império, que era a de manter a unidade e a paz, ameaçada pelas rebeliões nas províncias. Pedro nem sempre compreendeu esta missão. Pedro estava mais preocupado com a sua Titília, que conhecera em sua missão pacificadora em São Paulo. A violência de Pedro para com Leopoldina era tal, a ponto da própria Domitila, a Titília, intervir pedindo para que ele parasse de bater. Eis uma reflexão sua: "Destruir meu corpo não foi difícil. Menos de dez anos foram suficientes para arrasá-lo. A alma, no entanto, ainda anseia por beleza, calma e conforto. Uma alma, fora do seu corpo, é capaz de voar"?

Enfim, eu diria, que se trata de um livro para curiosos e para os que apreciam uma boa escrita. Para os curiosos, para saberem dos bastidores da nossa independência e para conhecerem os tormentos dos casamentos que atendiam a fins geopolíticos. Pedro, como tive oportunidade de escrever no prefácio do livro, "se preocupava, e muito, com pândegas, rameiras e cavalos. Nutria-se cotidianamente dos mais primitivos instintos de um ser ainda a caminho do humano". Vejamos apenas uma de suas convicções, assim relatada numa das cartas: "Ouvi o senhor dizer, certa vez, que pobreza, doença e imoralidade andam de mãos dadas. Eu rezo muito para que este país um dia deixe de julgar os pobres culpados de sua condição". E reafirmo, o livro também se destina aos que apreciam uma boa escrita. Na orelha do livro, encontramos a expressão disso, na palavra de Pedrão Vitello: "Como uma valsa, numa narrativa de aproximação e afastamento, Fal e Suzi cuidam dos detalhes, dos olhares, da solidão, da incompreensão e da delicadeza - e nem sempre no bom sentido - das relações que tecemos com pessoas, cargos e países".

O livro é fruto de uma cuidadosa pesquisa e, ao final, temos a indicação de suas fontes, com a apresentação da bibliografia que possibilitou o mesmo. E reafirmo o meu orgulho e envaidecimento pela oportunidade de prefaciar o livro. Ele é uma publicação da Drops Editora, do ano de 2021. Um livro especial para presentear alguém por ocasião da efeméride dos 200 anos da nossa não tão "independência". Um livro que distingue e referencia a quem o dá e a quem o recebe.



quarta-feira, 9 de março de 2022

1922. A semana que não terminou. Marcos Augusto Gonçalves.

Aproveitando a efeméride do centenário do acontecimento, me propus a releitura de 1922 A semana que não terminou, do jornalista Marcos Augusto Gonçalves, quando me dei conta de que não o havia lido por inteiro. Eu explico. Em 2012 eu ainda me encontrava em sala de aula e tinha que dividir as aulas com as leituras. Mas tinha lido uma boa parte. Também guardo uma certa simpatia pela palavra "efeméride", pois, com ela eu garanti, no longínquo janeiro de 1971, uns pontinhos a mais no concurso que eu prestava para fazer parte do quadro próprio do magistério público do Estado do Paraná, na disciplina de História. Como não o havia lido por inteiro, repito, aproveitei a efeméride para a fazer, dessa vez em seu inteiro teor.


1922. A semana que não terminou. Marcos A. Gonçalves. São Paulo. Companhia das Letras. 2012. 

Como fazer a resenha de um evento tão significativo e tão controverso. Confesso não ser uma tarefa fácil. Junto ao sumário do livro tenho anotada a seguinte observação: "Ver o caráter elitista desta semana em ALMEIDA, Agassiz. A República das Elites. Ensaio sobre a ideologia das Elites e do Intelectualismo. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil. 2004. Cap.33. O elitismo e a semana da Arte Moderna". Já está aí levantada uma boa polêmica. Um movimento elitista.

Vou começar por dar a estrutura básica do livro. Ele tem 366 páginas e está dividido em três partes, sem especificação de títulos, mas num atrevimento meu, afirmo que na parte I - há um panorama dos antecedentes e do clima cultural vivido em São Paulo nesse início da década de 1920. Na parte II, há todo um relato histórico/jornalístico dos acontecimentos e dos personagens envolvidos e, na parte III, temos os detalhes dos três dias de apresentações. O livro termina com um posfácio, agradecimentos, notas, bibliografia e índice remissivo. As partes estão divididas em pequenos capítulos, num total de 24. Lembrando que a famosa semana ocorreu entre os dias 13 e 18 de fevereiro de 1922. Sendo que as apresentações ocorreram nos dias 13, 15 e 17. O local foi pura e simplesmente o Teatro Municipal de São Paulo.

Na parte I temos três capítulos: 1. Manifestação telúrica. Aqui é mantido o primeiro contato com os temas (artes, música e literatura), os principais nomes envolvidos e a grande finalidade do evento; 2. A coqueluche do grand monde. É anunciada a grande contenda do evento entre passadistas (Rio de Janeiro - monarquia) e futuristas (São Paulo e a República); 3. O vernissage. A pretendida grande exposição de arte na abertura da semana.

Na parte II, temos 17 capítulos. É certamente a razão de ser, o cerne do livro. Envolve todos os acontecimentos e personagens. 4. As cores da novidade. Reúne dados sobre Anita Malfatti. 5. O teatro da pauliceia. Apresenta um panorama da soberba São Paulo e a sua grande casa de cultura: O Teatro Municipal. 6. Da casa Mappin ao Meine. Continua a trajetória de Anita Malfatti, uma exposição sua na grande loja do Mappin e a sua ida aos Estados Unidos. Anteriormente já estivera na Europa. 7. Na terra do Saci. Um convite de Monteiro Lobato por uma arte que expresse o nacional. 8. A fúria do Jeca. Os primeiros passos em torno dos temas nacionais. O grupo em torno da arte moderna começa a se formar. 9.Mário de Maria. Uma pequena biografia de Mário de Andrade, um católico fervoroso. De Maria, deve ser uma menção ao congregado mariano que era. 10. Oswald da mamãe. Trechos biográficos de Oswald de Andrade. 11. Isadora e o furacão. A extraordinária frase de Oswald, que sintetiza este momento de sua vida: "O contrário do burguês é o boêmio". Os muitos amores de Oswald, incluindo Isadora Duncan. 12. Juca e Miramar. O encontro dos modernistas Menotti e Oswald. Os grandes jornais da época, que cobriram o evento eram O Estado de S. Paulo e o Correio Paulistano. 13. A realeza da República. Foi para mim o mais significativo capítulo do livro. São Paulo, pela sua pujança econômica, passa a ser o centro da irradiação de um novo sentimento de nacionalidade. Tem uma bela interpretação de Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde, sobre os centros irradiadores do Brasil e a sua época. Assim o século XVI foi de Pernambuco, o século XVII, da Bahia, o século XVIII, de Minas Gerais, o século XIX, do Rio de Janeiro e o século XX de São Paulo.

14. Eduardo e Paulo. É mostrada essa rica família paulistana dos Prado, desde a sua mansão em Paris e os encontros literários (Nabuco, Graça, Eça) até a necessidade da formação de uma consciência nacional, a partir de São Paulo. Paulo Prado é tido como o "fautor" da semana. 15. O Rodin brasileiro. Trata-se de Brecheret. São apresentados dados biográficos. 16. O estalo do desvario. O encontro dos desvairados, Mário de Andrade, Brecheret, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e os tempos de abundância proporcionados pelo café. 17. Máscaras no Trianon. O local do encontro dos modernistas. Menotti anuncia os princípios do modernismo. No ano do centenário da independência, deveria também ocorrer a independência mental. 18. Os bandeirantes vão à praia. Os novos "bandeirantes" fazem uma expedição ao Rio de Janeiro, em missão "civilizatória". Conversam com Manuel Bandeira e Villa-Lobos. 19. A visita do jovem senhor. Trata-se de Graça Aranha, que com Di Cavalcanti e Paulo Prado começam a planejar a semana. Paulo Prado aluga o Teatro Municipal. 20. Organizando a bagunça. A partir de novembro organizam o evento. Programação, custos, participantes.

Na parte III, com quatro capítulos, temos a descrição das três apresentações. 21. O leão e a pianista contrariada. Mostra a fala de abertura de Graça Aranha e o inconformismo de Guimar Novaes com parte do repertório. Villa-Lobos é bem recebido. A noite foi descrita como uma noite "comprida e chata". 22. Happening futurista. Para a semana ser efetivamente uma marca, deveria haver vaias, muitas vaias. Oswald de Andrade teria se encarregado da arregimentação. Menotti, Oswald e Mario falam. Também houve a hora da estrela, Guimar Novaes. Isso foi o segundo dia. 23. A consagração do maestro. A terceira noite foi toda de Villa-Lobos. Um grande sucesso, mas sem unanimidade. 24. Turma animada. A semana deveria ter continuidade. A semana foi o lançamento de um movimento. A sua continuidade viria com a revista Klaxon. Os envolvidos celebram a fama alcançada e a certeza de que os escritores envolvidos seriam lidos.

Ainda para destacar a importância da semana, deixo a síntese apresentada na contracapa do livro: "Na noite de fevereiro de 1922, curiosos, estudantes, figurões da política e sobrenomes de tradicionais famílias paulistas compareceram ao Teatro Municipal para a inauguração da Semana de Arte Moderna. Era um festival de artes plásticas, música e literatura, que provocava discussões nos jornais e prometia exibir o que havia de mais atual na estética da época. Iniciativa de representantes da elite de São Paulo e de talentos da nova geração, como o pintor Di Cavalcanti e os escritores Mário e Oswald de Andrade, a Semana, com o passar dos anos, transformou-se numa espécie de mito sobre a fundação da cultura moderna no Brasil. Graças à liderança triunfal da emergente e 'futurista' Pauliceia, o país teria descoberto, enfim, a luz elétrica da modernidade, deixando para trás a escura arte do passado. Mas será que foi isso mesmo o que aconteceu? Noventa anos depois (o livro teve a sua primeira edição em 2012), o jornalista Marcos Augusto Gonçalves mescla reportagem e relato histórico para revisitar os principais fatos e personagens da semana mais polêmica do Brasil".

Resta um olhar sobre a década brasileira de 1920, uma década que prenunciava grandes transformações, marcadas em profundidade pela industrialização e pela urbanização. Haveria transformações de ordem econômica, política e social, com a formação de uma sociedade plural e cosmopolita, em busca de representação e de identidade.


quinta-feira, 3 de março de 2022

5. A ditadura acabada. Elio Gaspari.

Cheguei ao fim. Quarta-feira de cinzas, 2 de março de 2022. Concluí a leitura do volume V, dos livros de Elio Gaspari sobre a ditadura militar brasileira, A ditadura acabada. Devo concordar com a afirmação de Heloísa Buarque de Holanda, contida na contracapa do Livro: "É como ouvir uma conversa proibida. Fiquei fascinada com a forma com que o Elio teve acesso a tudo". A obra, os cinco volumes, são de estarrecer e de se perguntar: Como conseguimos sair dessa? 

5. A ditadura acabada. Elio Gaspari. Intrínseca. 2016. O quinto e último dos cinco volumes.

Creio que responder a essa pergunta foi o objetivo e a razão fundamental pela qual Gaspari escreveu a sua obra. Ele nos conta que originalmente ele queria escrever um ensaio, algo em torno de cem páginas, contando do envolvimento de Geisel e de Golbery (o sacerdote e o feiticeiro) na arquitetura do golpe em 1964 e da abertura política, da volta à democracia, a partir de seu governo (1974-1979) e da decisiva participação na escolha de seu sucessor, o general Figueiredo. O governo de Figueiredo (1979-1985) é o tema do quinto volume da coleção. A sucessão de Figueiredo foi dramática e também é contada. Figueiredo articulara a sua própria continuidade, apesar de seu crítico estado de saúde e de não poder nem ver o seu vice, o civil Aureliano Chaves. Entram em cena Paulo Maluf, Tancredo Neves e José Sarney.

Ainda na contracapa do livro, Zuenir Ventura nos traça um panorama do volume V: "Obra-prima do jornalismo de reconstituição. Não há nada que se compare em termos de quantidade e qualidade de informações. A narrativa desliza pelos acontecimentos sem tropeços. Em A ditadura acabada, Gaspari examina o governo Figueiredo, uma época cheia de drama e comédia, tempo de campanha pela anistia, do atentado no Riocentro e das Diretas Já. A série de livros sobre a ditadura termina com um capítulo sobre 500 personagens que sobreviveram ao fim do regime militar. Talvez este quinto volume seja o mais interessante de todos, porque os acontecimentos estão mais próximos".

O livro, de 447 páginas, está dividido em cinco partes e mais um epílogo: Parte I. Geisel ganhou todas; Parte II. A explosão da economia; Parte III. A explosão do Planalto; Parte IV. A explosão da rua; Parte V. A construção de Tancredo. O explodir não nenhuma alusão a crescimento fora dos parâmetros, em sentido positivo do termo, mas explosão de destruição da economia, da política e, como reação, a manifestação das ruas. O epílogo, 500 vidas, é um acompanhamento de 500 pessoas de diferentes setores, que sobreviveram ao duro regime. Muitos ainda estão vivos e são hoje protagonistas dos acontecimentos.

A parte I, Geisel ganhou todas, aborda 14 episódios do final do governo Geisel. Ei-los: 1. Uma nova divisão. Esta divisão agora é comandada pelo general Hugo Abreu, que representa a continuidade do radicalismo militar, da turma do "porão"; 2. O fator Jimmy Carter. Geisel recebe o presidente, de quem ele nunca gostara. 3. Lula, o metalúrgico. Lula comanda o Novo Sindicalismo Brasileiro, com base na livre negociação e longe da influência ideológica dos partidos comunistas; 4. Sete dias de maio. Analisa as greves de 1978, comandadas pelo Novo Sindicalismo Brasileiro; 5. A costura de Petrônio. O senador do Piauí torna-se o interlocutor civil da abertura política, dialogando com a oposição e as instituições da sociedade civil; 6. A missa de Geisel. São os ensaios para a extinção do AI-5, por um projeto do poder legislativo; 7. O "futuro presidente". Trata da lapidação de Figueiredo para o exercício da presidência, por sinal, uma tarefa de difícil concretização.

8. A máquina de Figueiredo. Trata da máquina do SNI para alavancar as trambicagens de Figueiredo; 9. A anistia. É o começo das manifestações da rua. Os "apátridas" deveriam ser "repatriados". Therezinha Zerbini se transforma no grande nome do movimento; 10. Maluf derrota dois presidentes. Contra a vontade de Geisel e de Figueiredo, Paulo Maluf é o candidato a governador de São Paulo, escolhido em convenção da ARENA. Temiam a sua candidatura posterior a presidente; 11. A demolição de Euler. Euler Bentes Monteiro se transforma no anticandidato à sucessão. Um grande incômodo. A "anarquia militar se manifesta e Hugo Abreu recebe 20 dias de cadeia; 12. O ronco da "tigrada". 26 bombas foram detonadas pela "tigrada", depois do "eu prendo, eu arrebento" de Figueiredo para quem fosse contra a abertura; 13. O mar de lama. A "tigrada", na maior rebeldia da anarquia militar, acusa o governo Geisel de estar envolvido num mar de lama. A velha acusação de corrupção; 14. O vencedor. Após a erosão da base popular do governo, o "ganhador de todas" se retira do cenário político.

Na parte II, A explosão da economia, temos quatro capítulos: 1. O ministério "dialético". trata da formação do ministério do governo Figueiredo, no qual havia contradições; 2. Vila Euclides. Aqui é feita uma análise do que foram as greves de 1979. Elas eram vistas pelos trabalhadores como meio para melhorarem suas vidas; 3. Teerã e Washington. O capítulo é uma referência aos problemas econômicos enfrentados pelo governo por uma nova alta nos preços do petróleo e da elevação internacional das taxas de juros sobre o endividamento externo; 4. Um novo país. Existe no país um novo cenário político, com novos atores como protagonistas. Em compensação, temos um país quebrado e endividado. Há inflação, recessão e endividamento. Iniciamos a década de 1980, hoje tida como a década perdida.

Na parte III, a explosão do Planalto, tem três capítulos: 1. Bombas na rua. No governo Figueiredo a "tigrada" promove 12 atentados à bomba, sendo as da OAB, ABI e Riocentro os mais famosos; 2. Riocentro. Uma análise do mais triste episódio promovido pelo "porão", nesse período. A versão se tornara ainda pior do que o fato; 3. Baumgarten. É narrado o caso do assassinato do jornalista. Dissidências no interior da própria turma da "trigada".

Na parte IV, A explosão da rua, temos  cinco capítulos: 1. 1982, a eleição que muda tudo. Uma importante alteração na política, com o MDB governando os estados mais populosos e de maior PIB do país, em meio a ruína econômica, cada dia maior; 2. Tancredo. Uma análise do perfil da velha raposa mineira, que havia permanecido fiel a Vargas e Jango em seus momentos finais; 3. Ulysses. É a vez da raposa paulista ter feita a sua análise. Sempre fora um moderado e cultivava uma discreta rivalidade com Tancredo; 4. A rua vai ao Palácio. Novas reivindicações da sociedade civil, com a organização das Comunidades Eclesiais de Base e do surgimento dos movimentos contra a carestia e o desemprego. Surge também a Campanha pelas Diretas; 5. Figueiredo. O presidente trama a sua própria reeleição, querendo somar mais dois anos ao seu mandato de seis. Também entra em cena a análise da sucessão.

Na parte V, A construção de Tancredo, temos mais quatro capítulos: 1. Diretas Já. Em meio a campanha pelas eleições diretas temos as disputas internas pela sucessão entre Maluf, Aureliano e Andreazza. Na oposição se consolida o nome de Tancredo, com fortes apoios de dentro do regime; 2. A hora de Tancredo. Depois da derrota da Emenda Dante de Oliveira, Maluf ganha a condição de candidato da situação e Tancredo o de oposição; 3. Bruxarias militares. O "porão" volta a tramar, desta vez, contra Tancredo Neves. Fantasiados de comunistas, colam cartazes da candidatura de Tancredo, vinculando-o assim ao comunismo; 4. Uma festa e três problemas. A festa é pela vitória no Colégio Eleitoral: 480 contra 180. Já os três problemas são: crise econômica, o endividamento externo e um desconforto físico, que o levou à morte antes da sua posse como presidente. Sarney assume e o regime acabou. E acabou com um vexame. Figueiredo não passa a faixa presidencial. Sai pelas portas dos fundos, numa cena constrangedora que poria fim a esse terrível período, uma verdadeira trava em nossa história, em nossa luta por democracia e cidadania.

O epílogo, 500 vidas, é maravilhoso. Atende as nossas curiosidades, ao menos as mais elementares. Nele são rastreadas 500 vidas de personagens que foram protagonistas desse período. Eles são agrupados por seus campos de atuação e por instituições a que pertenciam. São listados os presidentes, os ministros, os generais, os expurgados de 1964, os cassados de Geisel, os empresários, a imprensa, os governadores, a elite parlamentar, o Ministério de Tancredo, os diplomatas estrangeiros, os diplomatas brasileiros, os personagens da dívida, a universidade, a Igreja, o SNI, CIE e o DOI, a "Casa da Morte" de Petrópolis, o CISA e o CENIMAR, o "porão", os "cachorros", ou os que mudaram de lado, os do Araguaia, a os da "Torre das Donzelas" do presídio Tiradentes (Dilma) e os exilados e banidos.

Aprendi muito. Muitos detalhes, buscados em exaustivas e complicadas pesquisas. Ao final de cada livro existe o registro de agradecimentos, especialmente àqueles que contribuíram, abrindo arquivos ou dando depoimentos, para além de notável pesquisa bibliográfica. Leitura obrigatória para as áreas de história e da ciência política  e, ainda, para todas as áreas do jornalismo. Fundamental para os que prezam a cidadania, a democracia e as liberdades. 

Deixo o link dos outros quatro volumes:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/1-ditadura-envergonhada-as-ilusoes.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/a-ditadura-escancarada-as-ilusoes.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/3-ditadura-derrotada-o-sacerdote-e-o.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/4-ditadura-encurralada-o-sacerdote-e-o.html

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Final dos anos 1970. Os partidos comunistas perdem a hegemonia. De: A ditadura encurralada. Elio Gaspari.

Ao ler a monumental obra de Elio Gaspari sobre a ditadura militar brasileira, encontramos em seu volume IV, A ditadura encurralada - O sacerdote e o feiticeiro, um importante ponto de inflexão em nossa história. Até o final da década de 1970, as causas populares, especialmente as do meio estudantil e operário, ficavam sob o comando dos partidos comunistas, obedecendo a uma tendência mundial. É um reflexo das "Internacionais" que chegam ao Brasil. O mais famoso deles foi o PCB, o Partidão, fundado em março de 1922. As dissidências são dos anos 1960. O trotskismo chega um pouco mais tarde.


A ditadura encurralada - O sacerdote e o feiticeiro. Elio Gaspari. Intrínseca. 2014. Esta passagem está no quarto volume.

Um dado muito interessante a observar, quando se estuda o golpe militar brasileiro de 1964, é o de que nenhuma força organizada, nem de direita, nem da esquerda, lutavam pela democracia. Queriam impor ditaduras. Mais uma vez, a força das influências internacionais. No caso brasileiro, as esquerdas muito se inspiraram na Revolução Cubana e nos ideais propagados por Che Guevara. As formas de combater a ditadura militar dividiram as forças da esquerda. As suas organizações foram praticamente exterminadas pela "turma do porão" ou da "trigada" da ditadura militar. Ao PCB, o Partidão, se soma agora o PCdoB.

Mas, não é esta a finalidade deste post. A finalidade deste é a de mostrar que, mais uma vez, a exemplo do que ocorre no mundo, também no Brasil ocorrerão grandes mudanças, especialmente a partir da exaustão das forças da ditadura militar, já tão prolongada. Se a ditadura conseguiu praticamente exterminar com as organizações de esquerda, jamais ela conseguiu arrefecer os seus ideais. Esses ficavam latentes, qual água buscando jeito, insistindo em brotar.

Elio Gaspari mostra essa nova realidade, a partir da parte III desse seu quarto volume, A cama de Alice, já em seu primeiro capítulo, com o título de A "surpresa de Alice". O nome de Alice aparece numa referência ao livro de Lewis Carroll, quando Alice, despertando em novas e diferentes camas, procura ou busca a sua identidade. Já na abertura do capítulo, Gaspari pergunta: "Quem era quem no final de 1976"? E, de imediato, nos dá uma primeira resposta: "Três anos de abertura haviam mudado a cena política. Como Alice, a ditadura e a oposição sentiam-se diferentes" (página 319).

As esquerdas que permaneceram no Brasil se reagrupam e as que estão no exílio clamam por anistia. A demografia também ajudou nas mudanças. O país já contava com 110 milhões de habitantes. Destes, 70 milhões habitavam nas cidades e sete milhões eram jovens. Havia um milhão de estudantes universitários. Para eles, vejam esta fina observação de Gaspari, "em 1968, uma parte da juventude estudantil divergira do PCB, mas tivera-o como aliado anacrônico. Em 1976, o Partidão, aliado ao MDB, era um suspeito para a militância radical, ativa e predominante das universidades (página 323)."

Mas, para além das universidades também houve uma grande mudança no mundo do operariado. Vejamos a narrativa: "Em 1977, no ABC paulista, militantes da Liga operária foram ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo pedir que os trabalhadores organizassem um protesto contra a prisão de três de seus quadros. Foram recebidos pelo presidente, eleito dois anos antes com 97% dos votos dos operários. Ele lhes dissera que não misturaria sindicato com socialismo". Quem era este presidente? Gaspari, de pronto nos responde:

"Chamava-se Luiz Inácio Lula da Silva. Tinha 31 anos, língua presa e sotaque nordestino. Descera de Garanhuns, com a mãe, num pau de arara. Chegaram a São Paulo em 1952, buscando o pai, que carregava sacos de café no porto de Santos. Vendera amendoim e doces nas ruas, e aprendera a ler aos dez anos. Tornara-se metalúrgico aos catorze, mas só entrara na sede do sindicato aos 22.  Vivera a expansão industrial paulista, durante a qual, num raro processo histórico, a classe operária triplicara. Em apenas dezoito anos, a indústria automobilística brasileira saíra da irrelevância para a lista das dez maiores do mundo. Em 1976, o ABC produzia perto de 1 milhão de veículos por ano. Para muita gente, o jovem presidente do Sindicato de São Bernardo ainda era o irmão do militante comunista José Ferreira da Silva, apelidado Frei Chico por conta de uma calva que parecia tonsura. Lula devera sua entrada na diretoria do sindicato ao irmão, mas era um personagem mais complexo, novo".(página325-326). Gaspari continua a sua narrativa, afirmando antes, que tudo isso parecia um sonho, em que as empresas disputavam os empregados nas portas das fábricas, oferecendo condições e salários melhores:

"A oferta de empregos para metalúrgicos em São Bernardo crescia  uma média de 8,3% ao ano. É dessa época a primeira viagem internacional de Lula. Vinte anos depois de ter vindo para o sul de caminhão, foi para o Japão de jato. Passou pelos Estados Unidos e deixou lembranças no programa de sindicalismo da Universidade Johns Hopkins. Conseguira que a justiça do Trabalho obrigasse as empresas a computar as horas extras no cálculo do 13º salário e das férias, e expandisse a estabilidade das gestantes por dois meses além do parto. Tivera o governador de São Paulo na posse e numa festa do sindicato. Afastava-se prudentemente do radicalismo esquerdista. Nessa articulação, a professora Maria Hermínia Tavares de Almeida já percebera que os operários de São Bernardo construíam uma 'nova corrente sindical'; algo próximo do 'sindicalismo de negócios' (business union) norte americano: combativo, 'apolítico', solidamente plantado na empresa, tecnicamente preparado para enfrentar e resolver os problemas gerais e específicos de seus representados" (página 327).

Bem, creio que o objetivo do post está concretizado. No meio estudantil e no meio operário há novas forças com novos princípios em sua organização. Aí já entramos nos anos 1980, cuja história acompanhamos mais de perto. São os anos da redemocratização. Quanto a trajetória de Lula, que coisa realmente extraordinária. Quanta percepção e que história. Como sugestão indico a recém lançada biografia sua, escrita pelo maior biógrafo brasileiro, Fernando Morais, que ainda não li. Compreender estas transformações é fundamental para compreender as mudanças em nosso processo histórico.

Deixo o post da resenha do volume IV. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/4-ditadura-encurralada-o-sacerdote-e-o.html 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

1974. Entre Gunnar Myrdal e Friedrich Hayek. Do livro 4. A ditadura encurralada. Elio Gaspari.

Antes de mais nada quero esclarecer o título dado a este post. Entre Gunnar Myrdal e Friedrich Hayek. Cheguei a ele pela leitura do volume IV, da coleção de cinco, de Elio Gaspari, sobre a ditadura militar brasileira A ditadura encurralada - O sacerdote e o feiticeiro. Ainda na primeira parte do livro (a crise de 1975), já no seu segundo capítulo (a ópera de Salzburgo) encontramos os dados para a sua elaboração. É uma abordagem que o autor faz, da relação do governo Geisel com o empresariado brasileiro. Ao longo do livro, Geisel é agraciado com três adjetivações: autoritarismo, estatismo e nacionalismo. Esses adjetivos soam bastante estranhos aos nossos ouvidos, nesses anos de 2022, já há um bom tempo. Observemos bem a data. 1975.


A ditadura encurralada - O sacerdote e o feiticeiro. Elio Gaspari. Intrínseca. 2014. Esta passagem está no quarto volume.

Por uma obsessão de professor, vamos contextualizar a data, mostrando acontecimentos de seu entorno. Crise do petróleo, os petrodólares e a guinada do mundo da economia com as eleições de Thatcher (1979), na Inglaterra, de Reagan (1980), nos EUA e Kohl (1982) na Alemanha.  Friedrich Hayek acaba de vencer Gunnar Myrdal, o economista sueco da social democracia. Os dois haviam empatado no ano de 1974, quando ambos foram agraciados com o Prêmio Nobel de Economia, com pensamentos opostos. Simplificando diríamos, que era um embate entre a social democracia, ou o Estado de bem-estar social versus o neoliberalismo, defendido por Kayek, já desde 1944, com o seu O caminho da servidão. 

De Gunnar Myrdal até comprei, na época, o seu livro Teoria econômica e regiões subdesenvolvidas, mas confesso que não entendi muita coisa. A minha formação superior básica foi a de seminário, numa faculdade de filosofia. Até tínhamos a cadeira de economia política. Mas o tema sempre me interessou muito, especialmente naquilo que dizia respeito à distribuição de renda e a sua aplicação à realidade brasileira. Na época fiz até uma especialização em desenvolvimento econômico e social brasileiro com o professor Hélio Duque, que depois foi brilhante deputado constituinte. Hoje não sei dele.

Mas, um contato mais sistematizado, fui ter apenas no mestrado, no curso nota sete, da PUC/SP. em História e Filosofia da Educação. As políticas públicas para a educação nos fizeram virar o tema até pelo avesso. Gunnar Myrdal já havia sumido do horizonte. Lembro de um livro sobre a social democracia, que até hoje considero a sua melhor referência. Trata-se de Capitalismo e social democracia  de Adam Przeworski, muito próximo de Estado, capitalismo e democracia na América Latina, de Atílio A. Boron. Pelo lado neoliberal, além dos livros de análise, Hayek e Milton Friedman estiveram presentes.

Mas voltemos ao livro de Gasperi. Geisel mudara a orientação triunfalista do milagre de Delfim Netto. Queria a centralização. Isso incomodava o empresariado, que queria a previsibilidade. A economia, sob Geisel se dividia entre Mário Henrique Simonsen e Reis Velloso, do II PND. Geisel estava convencido de que "a iniciativa privada não se interessa pelo real desenvolvimento do país", e, por isso, "o Estado tem que dirigir" (página 57). Nesse sentido tomou uma série de medidas envolvendo siderurgia e  petróleo. Mas vamos ao embate sugerido pelo título do post. Reproduzo a questão na sua quase integralidade. É um dos momentos de inflexão na história econômica mundial, em que são abandonadas as teorias que provocaram a chamada era de ouro do capitalismo e se envereda pelo caminho dos livres mercados da doutrina neoliberal. No Brasil estaremos longe dessas duas vias. Aqui dominava o "primeiro crescer para depois dividir" de Delfim Netto e o estatismo/nacionalismo de Geisel.

"Não houve na mobilização privatista a consistência ideológica que pressupunha conter. Nem oposição ao governo, muito menos ao regime. Eram apenas reclamações. Pena, porque foi entre 1974 e 1975, numa época de refluxo mundial do conservadorismo, que surgiram os primeiros sinas da revolução liberal  que haveria de varrer o final do século XX.

Um, simbólico, viera de Estocolmo, com a divisão do Prêmio Nobel de Economia entre o austríaco Friedrich von Hayek e o sueco Gunnar Myrdal. Este, socialista, era um dos pais da teoria do desenvolvimento econômico, e seu livro fora editado pelo ISEB em 1963. Em 1967 o Itamaraty desaconselhara a presença dele no Brasil para uma série de conferências. Hayek era um adorador da liberdade de mercado e considerava o planejamento econômico um "caminho para a servidão" (título do livro que publicara em 1944). Julgava-se subestimado pela comunidade acadêmica do pós-guerra. Vivia em Salzburgo, numa pequena casa que comprara com o dinheiro da venda de sua biblioteca. Tinha por vizinhos um bombeiro e um ferreiro aposentados. Myrdal era fava contada para o Nobel. A novidade estivera no reconhecimento de Hayek e na divisão da láurea entre duas concepções praticamente antagônicas. Ele e Myrdal mal se falaram durante a cerimônia de entrega do prêmio" (página 62).

A partir daí iniciam as ofensivas liberais contra "trinta anos de moda socialista", tanto na Inglaterra, quanto nos Estados Unidos. Enquanto isso "o empresariado e o conservadorismo brasileiros estavam noutra, a de atração de capitais e empréstimos externos. A campanha contra a estatização foi afogada num lance teatral. Chamou-se I Seminário Internacional sobre Investimentos no Brasil, ou Salzburg-75. Um sucesso. No final de maio baixaram na pequena cidade austríaca de Salzburgo 2 mil empresários e banqueiros americanos, europeus e japoneses. Um casal Matarazzo não achou quarto nos hotéis lotados e dormiu na casa do motorista. O maestro Herbert von Karajan teve de interromper seus ensaios da Filarmônica de Viena para liberar a sala da Konzerthaus. Todas as grandes casas bancárias do mundo mandaram diretores. Vieram os presidentes da Volkswagen, da Mercedes, da Brown Bovery e um Agnelli da Fiat. Mais o presidente da  agência de investimentos do Kuwait, e os ministros da economia  da Alemanha e de Finanças da Áustria. A conta foi rateada entre noventa entidades das classes produtoras brasileiras. A delegação nacional tinha três ministros e trezentas pessoas. O Banco do Brasil enviara onze representantes. A caravana incluía 33 jornalistas.

A ideia, a montagem e o espetáculo foram produto da imaginação e da agilidade do novo presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Automóveis, a Anfavea. Aos 37 anos, Mário Garnero chegara a posição pelo casamento com uma herdeira da família Monteiro de Carvalho, acionista da Volkswagen. Tinha vocação de palaciano, o gosto por eventos e a aparência dos grã-finos que sempre parecem ter saído do barbeiro... ". 

Na contramão da austeridade dos gastos públicos, o Brasil vive a farra dos empréstimos forjados com o endividamento externo. O texto continua: "Nada adiantaria que o ex-ministro Octávio Gouveia de Bulhões escrevesse a Geisel advertindo-o do 'endividamento da economia brasileira que impede acelerar o desenvolvimento e cria obstáculos ao desaceleramento inflacionário, com reflexos negativos sobre o equilíbrio do balanço de pagamentos'". E Gaspari conclui o seu texto: "Entre 1973 e 1975 a América Latina e o caribe duplicaram seu endividamento. O Brasil também" (Páginas 62 a 65). O preço que pagamos foi alto. 

Na América Latina e no Brasil a hegemonia neoliberal só se concretizou na década de 1990, após os ensaios de Collor e da consolidação sob Fernando Henrique Cardoso. O neoliberalismo é um sistema extremamente eficaz para produzir desigualdades sociais. Quando no Brasil, o governo assume a responsabilidade de estabelecer políticas públicas para combater estas desigualdades, vem os golpes de Estado, tão frequentes, como vimos ainda recentemente em 2016.

Acho que esse tema que estuda a política econômica e os investimentos públicos um tema fascinante e de repercussões fundamentais para o encaminhamento dos destinos da Nação. Até hoje assistimos, em nível mundial, essa briga de 1974, entre a social democracia de Gunnar Myrdal e o neoliberalismo de Hayek, com ampla vantagem para os neoliberais. No Brasil, a rigor, nem mesmo uma política de bem-estar social um dia tivemos. E... se tem tanto medo do comunismo. Que elite! 

Para melhor contextualização, deixo três links relativos ao tema. O primeiro sobre o liberalismo clássico, o segundo sobre a social democracia e o terceiro sobre o  neoliberalismo:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/11/temas-em-debate-i-o-liberalismo-uma.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/11/temas-em-debate-ii-social-democracia.html?m=1

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/11/temas-em-debate-iii-o-neoliberalismo.html


terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

4. A ditadura encurralada. O sacerdote e o feiticeiro. Elio Gaspari.

Este volume IV, da coleção de cinco, de Elio Gaspari sobre a Ditadura Militar é uma radiografia profunda do que foi o governo do general Ernesto Geisel. Ele tem por título A ditadura encurralada - O sacerdote e o feiticeiro. Então a pergunta óbvia a se fazer é: quem a encurralou? A resposta é longa e ocupa todas as 527 páginas do livro. Geisel não tem nenhum alívio ao longo de seus cinco anos de governo (1974-1979), a começar pela Opinião Pública, que se manifesta de forma devastadora com as eleições de 1974. Este fato reascende a "linha dura" e a "anarquia militar" que busca endurecer o governo contra os "comunistas" que atentam permanentemente contra a ordem. Só que eles, como organização, já haviam sido praticamente exterminados.

A ditadura encurralada - O sacerdote e o feiticeiro. Elio Gaspari. Intrínseca . 2014. O quarto volume da trilogia.

Se observarmos bem, na apresentação que Elio Gaspari faz de seus livros, ele nos conta que começou a escrever um ensaio que inicialmente deveria ter em torno de cem páginas. O tema central seria a atuação de Golbery e Geisel em 1964 e à frente do governo entre os anos de 1974 a 1979). O ensaio tinha até título O sacerdote (Geisel) e o feiticeiro (Golbery). Enquanto o volume III mostrou a ascensão da dupla ao poder, este volume IV mostra os dois, no exercício do poder. Creio que a principal observação a fazer é a de que Geisel efetivamente assumiu o poder, ele governou. Pouco deixou se influenciar. É, se o foi, por muito poucas pessoas. Muitos foram os seus adversários, pessoas poderosas, a começar pelo irmão Orlando e, especialmente, os promotores da "anarquia militar", que queriam endurecer o regime para nele se perpetuar. Geisel tinha a percepção clara de que teria que redemocratizar o país, pelo jogo do endurece e afrouxa, da sístole e da diástole, da forma lenta, gradual e segura com que se faria esse processo. Geisel, em seu governo, não abriu mão de governar sem os poderes conferidos pelo AI-5.

Quem mais atormentou o seu governo foi a "anarquia militar" e o "porão", que teve em Sylvio Frota, ministro do exército, o seu principal nome. A tortura como método de investigação, a tortura até a morte e a força de nomes de triste memória ganharam muita força, nomes como Brilhante Ustra, Fleury, Curió, Erasmo Dias, entre outros. No período existe um endurecimento das ditaduras militares na América Latina, onde, pela Operação Condor, se forma uma espécie de "esquadrão internacional da morte". Apontaria ainda dois momentos da conjuntura que mudaram bastante o cenário. No nível internacional, a eleição de Jimmy Carter e a sua defesa dos direitos humanos, enquanto que no cenário nacional, os partidos comunistas perdem a hegemonia nos movimentos populares. É o surgimento de um novo sindicalismo no ABC paulista. Também no meio estudantil as siglas comunistas perdem muito de sua influência. Mas a grande conclusão a que Elio Gaspari chega é a de que "Ernesto Geisel restabelecera a autoridade constitucional do presidente da República sobre as Forças Armadas". É esta a frase de encerramento do livro.

Mais uma vez, o livro é longo. São 527 páginas, divididas em quatro partes, a saber: Parte I. A crise de 1975; Parte II. O murro na mesa; Parte III. A cama de Alice; Parte IV. A hora de Ernesto Geisel. Embora eu tenha vivido intensamente esses fatos, devo reconhecer o quanto deles a gente estava afastado. Eram tempos de muita censura e cerceamento da liberdade de expressão. É impressionante o nível de fofocas que tomava conta das nossas Forças Armadas. O livro termina com uma breve nomenclatura militar, uma cronologia, fontes e bibliografia, créditos das imagens e agradecimentos. E mais uma vez, dois blocos de fotografias históricas aparecem em encartes.

A parte I, A crise de 1975, tem nove capítulos: 1. Recuo, rápido, gradual e seguro. É uma referência a uma trégua com a imprensa liberal, pelo abrandamento da censura prévia. Por outro lado, Sylvio Frota adota a posição de "patrono do porão". Esse fantasma acompanha todo o seu governo; 2. A ópera de Salzburgo. É um dos mais belos capítulos. Mostra a relação entre governo e empresários. Há mudanças na política econômica. Delfim será contido. Geisel mostra suas inclinações econômicas pró estatização. Há aqui uma bela referência às teorias econômicas internacionais, às quais dedicarei um post especial. Uma disputa entre a social democracia de Gunnar Myrdal (Nobel de economia - 1974, dividido com Hayek) e o neoliberalismo emergente de Friedrich Hayek. Salzburgo é uma referência a um encontro de empresários na cidade de Mozart, no país de Hayek. 3. O deslocamento de Golbery. É lançada a "novela da traição", que seria encabeçada por Golbery em favor do "comunismo internacional", numa trama da "turma do porão", contra a abertura política; 4. Uma zona de sombra. Golbery enfrenta sérios problemas de visão. Faz tratamento em Barcelona e perde uma das vistas. A "turma do porão" trama a sua morte. Geisel o mantém no Poder; 5. A comunidade da indisciplina. É uma relação à comunidade das informações que se transforma num sistema policialesco de controle interno. Impera a desordem e a indisciplina; 6. Com as tropas de Fidel. Aborda as relações internacionais no governo Geisel. Acordo nuclear com a Alemanha, a relação com as ex-colônias portuguesas na África, especialmente a complicada relação com o MPLA (Angola); 7. Mataram o Vlado. Uma referência ao jornalista Vladimir Herzog e seu suposto suicídio no DOI, do II Exército, ao ato ecumênico da Praça da Sé, ao discurso de Leite Chaves e a promessa de caça aos comunistas pelo coronel Erasmo Dias. Situação tensa. Vejam a frase do Senador paranaense "...Hitler, quando desejava praticar atos tão ignominiosos como os que estamos presenciando, não se utilizava do Exército, mas sim das forças da SS"; 8. "Merda! Merda!" Geisel reage a Sylvio Frota, que, em festa, recebe vivas ao futuro presidente. "Merda"! é a reação de Geisel ao seu ministro. 9. Mágica besta. Frota estará para Geisel, assim como Costa e Silva estivera para Castello Branco, um obstáculo para a abertura política. Ocorre uma outra morte no DOI do II Exército, o operário Manoel Fiel Filho, também acusado de suicídio. Haveria reações.

Na Parte II, O murro na mesa, temos cinco capítulos: 1. Uma noite de cão. É a noite passada por Geisel, após ficar ciente de nova morte sob a responsabilidade do II Exército. Teria que tomar providências. Ocorre a demissão do comandante do II Exército e do CIE, generais Ednardo Mello e Confúcio Avelino. Geisel encarava a situação, não pela violação dos direitos humanos mas como violação da disciplina militar. Muito triste; 2. A campanha do regresso. Embora Geisel estivesse comprometido com Figueiredo na sucessão presidencial, "o porão", insistia com a candidatura de Sylvio Frota. Pesam contra Figueiredo a sua saúde e a falta de uma estrela; 3. O terror de casa. É o recrudescimento da "direita explosiva". Os remanescentes dos tempos de Costa e Sila se insurgem e  tornam "o porão" extremamente agressivo, com bombas na OAB, ABI e novas agressões, sequestros e torturas. A indisciplina grassa solta nos quarteis e provocam o terrorismo militar de 1976; 4. O buraco negro. Diante da economia, Geisel realiza viagens internacionais (França e Inglaterra) e obtém financiamentos fáceis. Geisel promove uma centralização absurda em seu governo, se preparando para enfrentar novas eleições; 5. Abaixo a ditadura. A morte de expressivas personagens da política brasileira faz a população brasileira voltar a aspirar a democracia. São as mortes e os enterros de JK e Jango. É lançada a campanha da ANISTIA.

Na parte III, a cama de Alice, tem sete capítulos: 1. A surpresa de Alice. A partir do romance de Lewis Carroll, uma pergunta pela identidade. As oposições lançam o "Biotônico Vitalidade", que "não deve ser ministrado àqueles que propõem a morte como única forma de vida". Ocorrem significativas mudanças no mundo estudantil e operário brasileiro. Os partidos comunistas deixam de ser a bússola que os orientava. Surge um novo sindicalismo. Esta parte também merecerá um post à parte: 2. A tortura da pessoa jurídica. Também um belo capítulo, que por óbvio, pela força do título, mostra as relações do governo com o empresariado. São apresentadas três fortes características de Geisel: autoritarismo, estatismo e nacionalismo; 3. Um país empacotado. É o terrível "pacote de abril" de 1977, com a emergente figura do "senador biônico"; 4. Bye, bye, brother. Ao mesmo tempo em que recrudescem as ditaduras militares na América Latina, com a formação de um "esquadrão internacional da morte", com a Operação Condor, Jimmy Carter se elege presidente dos USA, com a bandeira da defesa dos direitos humanos. Carter manda sua mulher, Rosalynn, discutir política com Geisel. Imaginem a cena, qualificada como "70 minutos de desentendimentos"; 5. A rachadura do Planalto. A crise sucessória se agrava. Hugo Abreu se aproxima de Frota; 6. A geração de 1977 vai para a rua. São os novos movimentos estudantis nas universidades brasileiras. Geisel não usa o decreto-lei 477, o AI-5 da educação; 7. O jogo da tensão. Ela tem vários focos: a organização da campanha de Sylvio Frota e a divisão nas Forças Armadas, o reaparecimento do movimento estudantil e o áspero discurso e a cassação do deputado Alencar Furtado (as viúvas do talvez). Geisel, mais uma vez promete demitir o ministro.

Na parte IV, temos quatro capítulos: 1. Figa mostra um rosto. Sobre o "primitivo" general Figueiredo é construída uma imagem palatável de presidente da República; 2. Habeas Faoro. A "turma do porão" radicaliza a política na perseguição aos estudantes (PUC/SP). Faoro aparece para, em nome da OAB negociar a volta à democracia. 3. "Um dos dois vai ter que sair". E saiu o Sylvio Frota. Foi a forma de barrar o avanço de sua candidatura; 4. Um saiu. Foi no dia 12 de outubro de 1977. Em menos de cinco minutos de audiência a questão estava consumada. Frota não reagiu. A ele permaneceram fiéis apenas Brilhante Ustra e Curió). O caminho do general "primitivo" para a presidência estava aberto. É o que veremos no quinto e último livro da série.

Vejamos a resenha dos três volumes anteriores:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/1-ditadura-envergonhada-as-ilusoes.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/a-ditadura-escancarada-as-ilusoes.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/3-ditadura-derrotada-o-sacerdote-e-o.html

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Uma aula de política - de governabilidade. Do livro de Elio Gaspari. 3. A ditadura derrotada.

O volume III da coleção de Élio Gaspari sobre a ditadura militar - A ditadura derrotada - O sacerdote e o feiticeiro contém uma preciosidade em termos de política, de uma aula sobre a governabilidade, de como se manter no poder. Esse volume abrange, desde a escolha de Geisel para a sucessão de Médici, até o final de seu primeiro ano de exercício no poder, passando pelos preparativos e temores em assumir o governo. Tempos de encrencas e de dificuldades. No cenário internacional há o estouro dos preços do petróleo e no cenário interno as insatisfações com a economia começam a se manifestar. A "anarquia militar" volta a pressionar em favor do endurecimento do regime. Deixo o link da resenha: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/3-ditadura-derrotada-o-sacerdote-e-o.html

O que efetivamente me chamou a atenção nessa leitura, a tal da aula de governabilidade, apontada no título, está contido na parte II do livro (O caminho de volta), no capítulo que versa sobre as primeiras encrencas que Geisel enfrentaria ao assumir o governo, assumi-lo de verdade. Lembrando que Geisel, para governar, não abriu mão do poderoso e terrível instrumento do AI -5, que tinha prazo de validade por tempo indeterminado. Mesmo assim, Geisel tinha medo. Vejam essa expressão do seu medo: "O pior é que chega um dia em que o sujeito transige para não ser deposto".

A ditadura derrotada - O sacerdote e o feiticeiro. Elio Gaspari. Esta passagem está no terceiro volume.

Geisel tinha certeza absoluta de que chegara ao poder por forças excepcionais, jamais chegaria pelas vias normais, pela via da democracia, por um processo de eleições diretas; "Só num país como o Brasil na atual situação eu poderia chegar a presidente da República", afirma. Com relação à permanência no poder repetia uma frase de Rodrigues Alves: "Quem senta nesta cadeira não perde". Mesmo assim temia e temia muito.

As frases mais preciosas sobre esta situação estão na página 225, onde ele enuncia três possibilidades efetivas de perda do poder: "Ao assumir uma função dessas de presidente, a primeira principal preocupação é assegurar os cinco anos. [...] Quer dizer, não ser posto para fora. 

Um presidente perde o poder na esteira de três tipos de crise: uma incompatibilização total com a opinião pública (caso de Jango), um conflito decisivo com as forças políticas (em parte o caso de Jânio); mas essas duas coisas hoje em dia seriam difíceis; resta uma confrontação com as forças armadas, aí sim, pode acontecer". E... segue a frase que já destacamos: "O pior é que chega um dia em que o sujeito transige para não ser deposto". O temor lhe vinha por parte das próprias forças que o levaram ao poder (a anarquia militar). Quanto às forças políticas não precisaria ter nenhuma preocupação. Elas estavam completamente domadas.

Geisel era diferente de Médici. Médici deixou governar e Geisel queria efetivamente governar. Tinha medo do seu gênio, de sua irredutibilidade: "Há o risco de um grande fracasso. Eu não sou flexível o suficiente" (Página 227). Vejam bem, temores de governabilidade, mesmo com os poderes do AI- 5 em mãos. Governar exige uma habilidade excepcional.

Ao ler estas páginas me lembrei muito de 2.016, do golpe de Estado branco sofrido pela presidente Dilma Rousseff . Um golpe midiático (a incompatibilidade com a opinião pública, devidamente trabalhada pela mídia em consórcio com parte do Poder Judiciário, da operação da lava-jato), parlamentar (incompatibilidade com a classe política, dominada pelo Centrão e a sua maneira peculiar de agir, domadas  ou abastecidas com dinheiro público). As forças armadas devem ter ficado na surdina, espreitando a situação. Todas as instituições estavam contra uma presidente, que não cometeu improbidades, "com Supremo e com tudo". Ah, a inflexibilidade! Não transigir. E onde ficam os princípios?

Quantas possibilidades de análise política! E se o LULA não tivesse sido impedido para assumir a Casa Civil, a sua habilidade política, ou a sua capacidade de transigir, teria evitado o golpe? E agora, no atual cenário da sucessão de 2022, como explicar a aproximação que LULA está buscando com Geraldo Alckmin, como seu candidato a vice-presidente? Não é a tal da governabilidade que está em jogo? Ah Maquiavel. Vamos ler O Príncipe, e mais ainda Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. O exercício da política, e, acima de tudo, da tal da governabilidade é um ato de suprema habilidade na capacidade de transigir, de ser flexível e de fazer uma grande leitura da realidade em que se está inserido.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

3. A ditadura derrotada. O sacerdote e o feiticeiro. Elio Gaspari.

Santo Deus! Quanta encrenca. Creio que o tema deste terceiro volume foi a razão de ser dos cinco volumes publicados. Na apresentação do primeiro, Elio Gaspari nos conta de sua pretensão de escrever sobre Geisel e Golbery, sobre o sacerdote e o feiticeiro. O tema seria sobre o envolvimento deles com a "Revolução", em 1964 até a articulação para uma saída honrosa do golpe, a partir do governo em que foram os protagonistas. Tinham a clara percepção de que um golpe militar não se sustentaria por um longo tempo. Tal é a rede de intrigas, do fogo amigo, da chamada "anarquia militar". Deixo o link dos livros anteriores:http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/1-ditadura-envergonhada-as-ilusoes.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/a-ditadura-escancarada-as-ilusoes.html


A ditadura derrotada - O sacerdote e o feiticeiro. Elio Gaspari. Intrínseca. 2014.É o terceiro dos cinco volumes.

O terceiro volume, da coleção de cinco, dos livros de Gaspari, tem por título A ditadura derrotada - O sacerdote e o feiticeiro. O sacerdote seria uma referência a Geisel e o feiticeiro a Golbery. Na explicação que antecede os capítulos, o livro é apresentado em sua centralidade e delimitação: uma saída para a ditadura, que se agravara com o AI-5, os encontros de Geisel com Golbery, os seus desentendimentos com Costa e Silva, a indicação de Geisel para a presidência e a sua condução à frente do poder, em seu primeiro ano de governo. O volume termina com a grave crise política, com a perda das eleições em 1974 e com a crise militar, liderada pela turma da repressão, com a prisão da professora Maria da Conceição Tavares, sem o conhecimento da mais alta hierarquia militar.

O livro está dividido em quatro partes: Parte I: O sacerdote e o feiticeiro, sendo que cada um tem uma espécie de sub parte; Parte II. O caminho de volta, também dividido em duas partes: a costura e o poder; Parte III. No Planalto; Parte IV. A derrota. O livro também é longo, são 544 páginas. Mais uma vez tem dois blocos de fotografias históricas, a apresentação de uma nomenclatura militar, de uma cronologia, das fontes, crédito das imagens e agradecimentos.

A parte A, da parte I., com o título Geisel, o sacerdote, tem seis capítulos, a saber: 1. Moita, é o alemão. São contados os bastidores da indicação de Geisel na sucessão de Médici, além da apresentação de dados biográficos seus; 2. Uma dor que não acaba. Relata a morte do filho num acidente em linha de trem, em Quitaúna, região de Osasco, além de novos dados de sua biografia; 3. O perigo vermelho Mostra a continuidade da sua trajetória militar, com destaque para a eleição e a renúncia de Jânio Quadros. Mostra ainda o cenário da política internacional, com a Bipolaridade e a Guerra Fria, bem como o seu inconformismo com a intelectualidade toda ela pendendo para o lado comunista, como Picasso e Charles Chaplin e os brasileiros, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Drummond, Vinícius... Geisel defende o monopólio estatal da Petrobras, empresa da qual será presidente; 4. Um general da (i)legalidade. É relatada a crise política após a renúncia de Jânio e a posse de Jango, sob o regime parlamentarista. Os irmãos Geisel queriam o bombardeio do Palácio do Piratini, onde Brizola comandava a Rede da Legalidade. 5. 1964. Mostra a sua  atuação em relação ao golpe de 1964, do qual foi conspirador e defensor de seu aprofundamento. 6. O pijama togado. Volta à ativa quando já era considerado "fósforo riscado". Atua com dureza , como ministro do STM.

A parte B, da Parte I, com o título Golbery, o feiticeiro, tem cinco capítulos. 1. Criptocomunista. Trata-se de uma mini biografia, mostrando as suas origens na cidade de Rio Grande, a sua biblioteca de dez mil volumes e a sua aproximação com o marxismo-leninismo. Era uma leitor voraz. Mostra ainda o seu ingresso no exército; 2. O escriba. Com a Guerra Fria e a Bipolaridade ele muda de lado e se torna um dos idealizadores do 'festival de redundâncias", que foi a ESG. Parte para os estudos de geopolítica e se familiariza com termos como guerra global e permanente. Torna-se o intelectual do exército e o writher de seus principais manifestos; 3. Pés de veludo. É uma referência à sua forma de atuação discreta e sempre imperceptível. Isso o leva ao Serviço Nacional de Informações; 4. O paliteiro do IPÊS. Ele agrega e direciona o empresariado brasileiro para o anticomunismo, com a criação do IPÊS. Segundo Gaspari, os empresários estavam lá e o dinheiro era abundante. Também havia financiamento dos USA. Todos vinham comigo "palitar os dentes". 5. No Palácio. Isso ocorre pela terceira vez, agora com Geisel.

A parte II, O caminho de volta, foi para mim, a parte mais interessante do livro. Ela também se divide em duas partes: Parte A - A costura (a preparação para assumir o governo) e parte B - O poder (o seu primeiro ano no exercício do poder). A parte A tem cinco capítulos: 1. O peso do irmão. Orlando Geisel foi decisivo na sua indicação junto ao presidente Médici. Também o cacifava o seu posto na presidência da Petrobras; 2. A turma da Candelária. Uma referência ao local do escritório onde se reuniam, nas proximidades da famosa igreja. Aí se reunia a turma da "linha dura", que defendia o uso da repressão contra o "terror". Neste local começaram os preparativos para o governo. 3. Um voto, o voto. Eram três as pessoas decisivas no processo sucessório: os irmão Geisel e Médici, mas o decisivo era o Orlando; 4. Primeiras encrencas. São quase trinta páginas primorosas. Geisel teria que aprender a transigir para não ser deposto. Ele temia o fracasso de seu governo. O principal obstáculo era o fogo amigo, vindo das forças armadas. Este capítulo merece um post especial. É uma lição de política, de governabilidade, mesmo em tempos de pleno poder, sob o instrumento do AI-5, do qual ele não abriu mão; 5. A grande encrenca. Ela veio da conjuntura externa e afetou a economia. O estouro dos preços do petróleo.

A parte B, da parte II, sob o título O poder, tem três capítulos: 1. A equipe. Mostra o delicado processo da formação do ministério, que pretendia ser de notáveis; 2. Jogo de fichas. Mostra as duas surpresas na formação de seu ministério: a de Armando Falcão na Justiça e de Azeredo da Silveira, nas Relações Exteriores. Seriam os ministros indigestos. Tinha dois grandes problemas a lhe esperar: as liberdades individuais e a relação com a Igreja progressista; 3. "Esse troço de matar". É expressiva a frase de seu ministro do exército, Dale Coutinho: "Começou a melhorar quando começamos a matar". Uma sinalização clara de que a censura e a repressão continuariam. A abertura seria lenta.

A parte III, No Planalto, tem sete capítulos e tem, como um título geral, a seguinte afirmação: O regime é implacável. 1. A escolha essencial. Essa escolha é uma referência a João Batista Figueiredo; 2. Um mundo difícil. Trata-se de uma bela análise de conjuntura do panorama internacional (crise do petróleo, os problemas de Nixon e um panorama dos vizinhos latino americanos); 3. A costura da púrpura. A púrpura remete à relação com a Igreja, cada dia mais complicada São quatro descendentes de alemães em campos opostos: Os irmãos Geisel no governo e os primos Lorscheider na CNBB; 4. O porão intocado. Em outras palavras, a repressão (censura e tortura) continuam. O inimigo da vez é o Partidão. Surge também uma outra voz, no meio intelectual, o CEBRAP. Geisel é ameaçado pelo "porão"; 5. Interlúdio pessoal. Dois temas são abordados: a relação familiar e os próximos ao poder, ou seja, Geisel, Golbery, Heitor F. Aquino (a quem são devidos cadernos e mais cadernos de anotações) e a espécie de relação, quase filial, com Humberto Barreto; 6. O regime é implacável. Após o vencimento de dez anos das primeiras cassações Geisel age praticamente sozinho nas principais indicações para o governo, como também o afastamento de pessoas indesejáveis, como a de Delfim Netto, no governo de São Paulo; 7. O pé no acelerador. Entram em cena os petrodólares e o endividamento externo para dar continuidade ao processo de crescimento econômico. Entra em cena também o segundo PND, uma peça publicitária, de ficção, que não precisaria ser cumprida.

A parte IV, A derrota, é breve. Tem apenas dois capítulos: 1. "É isso e pronto". A censura e a repressão continuam correndo soltas. Há a proibição de abordar a crise de meningite em São Paulo e o deputado baiano, Chico Pinto é preso, por seis meses, por haver criticado o ditador chileno, Pinochet.; 2. A autonomia sepultada. À acachapante derrota eleitoral de 1974 se somam as insubordinações nos quarteis. Maria Conceição Tavares é presa sem haver comunicação às instâncias superiores do governo. Em suma, o povo está insatisfeito e essa insatisfação também está presente nos quarteis. Geisel está diante de uma encruzilhada. Terá que tomar atitudes perante a situação. O volume IV, nos aguarda.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

2. A ditadura escancarada. As ilusões armadas. Elio Gaspari

Seguramente um dos livres mais tristes e deprimentes que eu já li. O título foi muito bem escolhido. A ditadura escancarada. Isso ocorria de um lado, do lado oficial. Enquanto isso, do outro lado, havia as ilusões armadas. Militares que se transformaram em guerrilheiros e jovens estudantes sacrificaram  suas vidas pelos seus ideais, de verem um país socialmente justo. O marxismo lhes dava os fundamentos teóricos. São os anos de chumbo, que se iniciaram com o AI-5, de 13 de dezembro de 1968, e que perdurou por todo o governo do general Emílio Garrastazu Médici, indo além, durando a eternidade de dez anos. Médici simplesmente burocratizou a ditadura, normalizando-a. Esta ditadura foi acompanhada da tortura, pelo simples motivo de que ela funcionava, ela dava resultados. As torturas levavam às confissões, que facilitaram o combate ao "terror".


A ditadura escancarada. As ilusões armadas. Elio Gaspari. Intrínseca. 2014. É o segundo dos cinco volumes.

Os piores acontecimentos desse período foram, seguramente, o surgimento dos esquadrões da morte em São Paulo e as milícias no Rio de Janeiro. Uma aliança de militares e policiais com o crime organizado. Alguns nomes se tornaram triste e vergonhosamente célebres. Entre eles, o delegado Fleury, o coronel Brilhante Ustra, o capitão Guimarães e, ainda, na guerra do Araguaia, o major Curió. Estes nomes são idolatrados e há enormes esforços para que pessoas herdeiras das ideias do grupo retornem ao poder de forma ditatorial. Que triste momento histórico! O que não foi este Golpe de Estado "com Supremo e com tudo", de 2016? E esperanças... para 2022. Para uma sequência destes estudos deixo a resenha de "A República das milícias - dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/02/a-republica-das-milicias-dos-esquadroes.html

O livro é longo. Tem 526 páginas. Está dividido em quatro partes, mais apêndice, nomenclatura militar, cronologia, bibliografia, fontes e crédito de imagens. As imagens estão em dois blocos, com fotografias de imenso valor histórico. Lembrando que o Primeiro volume da coleção, termina com a chamada "Missa Negra" do AI-5. Deixo a resenha: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/1-ditadura-envergonhada-as-ilusoes.html

As quatro partes do livro vem precedidas de uma nota explicativa, em que diz que foram os "anos de chumbo", do aparecimento da TV em cores, da Copa de 1970, do "milagre econômico" e do pleno emprego. Ironicamente o autor diz que houve mais chumbo do que milagre. As quatro partes tem os seguintes títulos: Parte I. O choque; Parte II. A derrota; Parte III. A vitória; Parte IV. A gangrena. 

A primeira parte mostra o aparelhamento da ditadura e da sua normalização burocrática, por um Ato Institucional com prazo de validade indeterminado. Plenos poderes. Poderes ditatoriais. Poderes para matar. Esta primeira parte (O choque) está dividida em oito capítulos, a saber: 1. A praga (a corrosão das instituições) sob a justificativa que vem desde o tempo dos Romanos: "Contra a Pátria não há direitos". A tortura ganha os beneplácitos em todos os campos institucionais; 2. A dor (tortura). Ela é adotada porque funciona. O torturado fala. "Deus aqui - é nós". A certeza da impunidade; 3. A "tigrada" dá o bote. São mostradas as principais organizações que optaram pela luta armada, bem como os seus mecanismos de funcionamento; 4. A Operação Bandeirante, Oban. É organizada uma central de combate ao terror no II Exército, com amplo financiamento por parte da elite empresarial paulista. Também o DOPS e a Polícia Civil entram em cena, esta com o delegado Fleury; 5. O barítono se cala (a doença de Costa e Silva e o seu afastamento). A doença do general é tida como uma das maiores fraudes médicas da nossa história (Será que outra não poderá surgir?). Os ministros militares formam uma junta governamental, o mais folclórico dos governos, segundo o autor; 6. O grande golpe (o sequestre de Charles Elbrick, o embaixador americano); 7.Caos de estrelas. Depois da mais grave crise militar, Médici é anunciado como o novo general presidente; 8. Milito, Médice, Médici (Não podia ser Garrastazu por causa da rima). Ele foi o grande produto da anarquia militar. Teve em Orlando Geisel o seu fiel escudeiro.

A parte dois (A derrota) é mais breve. São cinco capítulos. A derrota do título se refere aos guerrilheiros da luta armada e a sua perseguição. 1. Marighella, início e fim. Sua história é contada. É mostrado o "mito" e o seu manual de guerrilha, bem como a sua relação com os dominicanos. Mostra ainda, Fleury e as diferentes versões da captura do "comandante"; 2. A história dos mortos. Relata a história de dois torturados até a morte: Chael Schreier e Mário Alves; 3. DOI. Nada ou tudo a ver com o verbo doer. É a sigla símbolo da dor infligida pela violência policial. Mostra a importância de Orlando Geisel com a repressão militar. Houve uma verdadeira delinquência com a soma de torturadores e contraventores. As mais sofisticadas técnicas mundiais de tortura foram trazidas da Europa (França - Argélia e Inglaterra - IRA).; 4. A ratoeira (A ratoeira armada por Médici). Mostra as 18 organizações da Luta Armada. Lutavam por governos populares revolucionários e não democracias; 5. O milagre e a mordaça. O milagre da economia e a mordaça da censura à imprensa. Os jornais "nanicos", com destaque para O Pasquim e Opinião.

A parte três (A vitória) tem seis capítulos. 1. Uma elite aniquilada. A ditadura, para se fortalecer, mutilou as mais diversas instituições, como o Parlamento, o Judiciário, as Universidades e todas as lideranças populares. Como oposição sobrou a Igreja Católica progressista (D. Hélder Câmara, D. Paulo Evaristo Arns e a CNBB). Mesmo assim houve grande disputa com a Igreja conservadora (D. Agnelo Rossi, cardeal Scherer). A ditadura passou a controlar os cárceres e os cofres das instituições patronais; 2. A soberba de Lúcifer. É a forma como a Igreja via a ditadura militar. A atuação da Igreja progressista é mostrada, bem como a prisão de frei Betto; 3. O Brasil difamado. São as diferentes campanhas contra a ditadura e a tortura no exterior, com grande destaque para a atuação de D. Hélder Câmara indicado, inclusive, ao Prêmio Nobel da Paz; 4. Para trás, Brasil. Mostra as cisões existentes no jornalismo e na Igreja e a aproximação dos EUA com o Porão da ditadura. O Brasil não seria uma nova Cuba. Seria uma nova China, diziam os estadunidenses; 5. Nada a fazer. São mostradas as ações da dupla Médici e Orlando Geisel, com torturas e desaparecimentos e a tolerância para com os avanços do Esquadrão da Morte. Também é mostrada uma nova ofensiva da Igreja católica sob a ação de D. Paulo Evaristo Arns; 6. A marcha de Cirilo. É a caça final a Lamarca, o Cirilo, no interior da Bahia. 

A parte quatro (A gangrena) mostra a deterioração completa e a perda de todos os valores éticos na atuação da ditadura. Anos de chumbo, de ditadura escancarada. Possui três capítulos: 1.A gangrena. Mostra a força das instituições criminosas no Rio de Janeiro e em São Paulo. As escuderias cariocas, Jason e Le Cocq e a ação do delegado Fleury em São Paulo. A tortura é instituída como política de Estado; 2. A matança. A ordem é matar a todos os que regressaram ao país, vindos de treinamentos no exterior. Mostra as casa de Tortura de Petrópolis e o cemitério de Perus. Também são mostradas as desavenças dentro da Luta Armada, cada dia mais enfraquecida; 3. A floresta dos homens sem alma. É uma longa narrativa dos desastres, sob todos os aspectos, da Guerrilha do Araguaia, organizada pelo PCdoB. Uma chacina, com decepação de cabeças, só comparável a Canudos e ao Contestado. Uma história de morte de homens em frangalhos.

Maria Adelaide Amaral nos dá, na contracapa do livro, uma imagem precisa deste segundo volume: "Os livros de Elio Gaspari sobre a ditadura formam o mais completo conjunto de obras sobre esse período histórico. Não existe nada comparável, com tal riqueza de fontes aliada a documentação até então inéditos. O autor nos dá acesso a informações privilegiadas. A ditadura escancarada trata do momento mais sombrio do regime, numa visão panorâmica que abarca desde o estabelecimento das organizações clandestinas até as movimentações de bastidores da Igreja, do Exército e da Polícia. É uma obra extraordinária".

Ufa! Sobrevivi. Que livro triste. O que foi feito com o povo brasileiro! A que custo foi mantida a "ordem" no Brasil? E que ordem que foi mantida?  O livro é tão triste quanto necessário. Estamos vivendo tempos muito perigosos, com o perigo da repetição. Marx já advertira no 18 Brumário: "A história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa". Creio que estão percebendo o momento de incertezas e de tentativas que estamos vivendo. E saber que um grande órgão de nossa imprensa escrita considerou esta ditadura como uma "ditadura branda", ou uma "ditabranda". Que vergonha! O segundo volume termina com a indicação de Ernesto Geisel, como o novo general presidente. Vamos a leitura!.