sábado, 15 de agosto de 2020

Carta aberta à juíza Inês Marchalek Zarpelon. Por Romeu G, de Miranda.

O espaço desse blog, no dia de hoje, está aberto para uma justa e necessária indignação. A indignação de quem sente na pele a dor deste agravo na pena em função da raça. A justa e necessária indignação é do meu amigo Romeu Gomes de Miranda que tem uma vida toda dedicada a causas humanistas e igualitárias. O agravo da pena aplicada em função da raça traz ao século XXI, o século XIX, na figura de Lombroso, que fazia esse tipo de acusação.
O fato também nos lembra a origem do Poder Judiciário brasileiro, remanescente dos tempos da escravidão, da sua legitimação. A condenação agravada pela sentença proferida pela juíza nos faz desacreditar até do próprio processo civilizatório. Mas vamos à expressão da indignação do nosso companheiro Romeu, que com certeza, expressa também o sentimento de todos nós:

Senhora Juíza.
Não utilizo aqui o tratamento dispensado aos juízes porque para nós, negros e negras do Paraná, a senhora já perdeu essa condição, ainda que a Corregedoria Geral da Justiça nenhuma penalização venha lhe aplicar.
Na decisão que condenou o réu Natan Vieira da Paz, a senhora, num dado momento, assim se expressou:
“Sobre sua conduta social nada se sabe. Seguramente integrante do grupo criminoso, em razão de sua raça, agia de forma extremamente discreta... “
Mais adiante, por duas outras vezes, a senhora, não satisfeita com a primeira afirmação racista, repete a mesma expressão “ seguramente integrante do grupo criminoso em favor de sua raça”.
Doutora Inês.
Sou negro, professor aposentado da rede pública estadual de Educação. Por mais de trinta anos ensinei em escolas públicas e privadas do Paraná e estou seguro de que prestei um bom serviço à população paranaense, fossem meus alunos descendentes de africanos, italianos, poloneses, árabes, alemães ou judeus. A cor de minha pele, minha “raça”, como diz a senhora, não me levou a integrar nenhum grupo criminoso. A senhora pra exercer a magistratura, deveria saber que etnia, não é fator condicionante de comportamento social. São as condições socio-econômico-educacionais que atuam sobre os indivíduos, na formação de seu comportamento e até na configuração de seu caráter. O povo negro literalmente carregou nas costas a economia do Brasil Colônia.
É do jesuíta André João Antonil a afirmação de que os negros foram as mãos e os pés dos senhores de engenho. Aqui, sob as mais cruéis condições, nosso povo trabalhou como escravizado, por mais de três séculos. Com a destrambelhada abolição da escravatura, e a importação de mão de obra europeia, diga-se de passagem, sob financiamento do Estado brasileiro, saímos para a “liberdade” sem sequer um pedaço de terra para sermos enterrados. Entretanto, paradoxalmente, os proprietários foram regiamente indenizados pela perda da mão de obra escrava. Das senzalas para os mocambos, cortiços e favelas foi o nosso destino. Mesmo assim continuamos lutando, continuamos trabalhando, produzindo pães e livros, elevando prédios e músicas, abrindo estradas e dignificando esportes, assentando portos e singrando os mares. O tom de nossa pele, nossa “raça” como escreveu a senhora em sua infeliz peça condenatória, não impediu que tivéssemos um Pixinguinha e Padre José Maurício, na música, irmãos Rebouças e Enedina Marques, na engenharia, Machado de Assis, Cruz e Souza, Lima Barreto, na literatura, Izaquias Queiroz na canoagem, Ademar Ferreira da Silva na Atletismo, etc, etc, etc.
Doutora: nem vou entrar no futebol porque são tantos Arantes do Nascimento que dignificam o nome do Brasil mundo afora, que a lista ficaria longa em demasia. Em resumo, doutora, nossa “raça” não nos leva a integrar grupos criminosos, como perversa e criminosamente a senhora afirmou. Apesar da histórica discriminação, da secular negação de direitos e oportunidades, temos dado ao país, o melhor de nossos braços, nossos cérebros e nossos talentos. Florestan Fernandes, que sugiro que a senhora leia e estude, disse no seu livro recentemente reeditado, (Significado do Protesto Negro); “não haverá democracia real enquanto o país não acertar contas com o racismo.”
Trago ainda, para seu conhecimento, um pequeno fragmento que retirei do livro Racismo Estrutural, de Silvio Luiz de Almeida, negro, advogado, filósofo, doutor e pós doutor em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo;- “ A Lei que criminaliza os corpos pretos e empobrecidos condiciona um enquadramento marcado pela construção dos comportamentos suspeitos. E se a Lei é o Estado, o suspeito “padrão” é também um suspeito para o Estado “.
E foi em um agosto de 1963, que Martin Luther King, na Marcha sobre Washington, pronunciou estas palavras:

“Eu tenho um sonho, que meus quatro pequenos filhos, um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo do seu caráter”.
Espero, ainda que cético, que a senhora reflita sobre estas palavras, doutora Inês Marchalek Zarpelon.
Curitiba, 13 de agosto de 2020
Prof. Romeu Gomes de Miranda.







quarta-feira, 12 de agosto de 2020

O jovem Törless. Robert Musil.

Continuo na leitura dos romances da Biblioteca Folha, de 2003. O livro da vez foi O jovem Törless, do escritor austríaco Robert Musil. A escolha, obviamente, foi por causa do escritor e o seu livro famoso, que ainda não li O homem sem qualidades, uma trilogia, publicada entre os anos de 1933 e 1945. Observem bem, por favor, o local e a data. Viena entre os anos de 1933 e 1945. Ascensão do nazismo e a anexação da Áustria. É de arrepiar. 
O jovem Törless, 2003. Biblioteca Folha. Tradução de Lya Luft.

O jovem Törless é de 1906 e é autobiográfico. Narra os episódios ocorridos num internato, em escola militar destinada aos filhos das elites burguesas da Áustria. Dá dó dos meninos, de todos eles. Sob esse aspecto pode ser considerado um romance de formação, embora a relação entre professores e alunos e o processo de aprendizagem seja pouco enfocado. Esse recai mais sobre a relação entre os alunos e os impactos que essas relações têm sobre a formação do indivíduo. Trata-se de um tema extraordinário e complexo.

Creio que uma passagem, já da parte final do livro, retrata bem a situação vivida pelo jovem Törless, que teve uma percepção bem particular dos fenômenos ocorridos, embora todos fossem jovens com mais ou menos a mesma idade: "De vez em quando tinha, porém, de pensar: e então assaltava-o uma profunda desesperança, uma vergonha fatigada e triste.

Mas também sobre essas coisas ele não pretendia prestar contas.

O motivo residia nas peculiares condições de vida no Internato. Com forças jovens e impetuosas retidas por trás de muros cinzentos, a fantasia multiplicava imagens sensuais que punham muitos dos rapazes fora de si.

Certo grau de devassidão passava até por ser uma qualidade viril e ousada; era como se conquistassem os prazeres proibidos. Especialmente quando se comparavam com a aparência melancolicamente respeitável de certos professores, a palavra 'moral' assumia uma conotação ridícula, ligada a ombros estreitos, barriguinha abaulada e pernas finas, por trás dos óculos uns inofensivos olhos de carneiro, como se a vida não passasse de um edificante prado florido.

Enfim, no Internato, Törless ainda não sabia da vida, com todos os seus grandes graus de perversidade e devassidão, de morbidez e grotesco, e que deixam os adultos repugnados quando se fala no assunto". 

Reiting e Banenberg, dois dos jovens protagonistas do romance ganham adjetivos como "perversos, grosseiros e vulgares". A sua vítima será outro jovem, Basini, inicialmente envolvido em pequenos furtos e depois, transformado em objeto sexual deles e também de Törless. Törless acompanha os fatos, meio distanciado, se envolvendo apenas parcialmente. Os graus de tortura infligidos ao jovem fogem até dos limites do imaginário. Torturas psicológicas e físicas, no limite da suportabilidade. Não as aguentando, busca ajuda, inicialmente com Törless e depois com a direção do Internato.

Esses quatro jovens são os protagonistas do romance. Basini é de constituição muito frágil, tanto física, quanto psicológica. Não consegue afirmar sua autonomia em momento algum. Reiting e Banenberg são mentes pervertidas e Törless vai para muito além dos problemas emergentes da idade como a sexualidade e a busca por solução de questões abstratas, ligadas à matemática e à vida. O seu professor de matemática o coloca frente a frente com Kant, apresentado como o filósofo que trata "dos fundamentos da nossa ação". Um falso moralismo perpassa todos os momentos da formação desses pobres jovens. Vida de internato e colégio militarizado é tudo o que deve ser evitado. Disciplina por disciplina só gera ódio e distanciamento.

Na contracapa do livro lemos o seguinte comentário, assinado pelo editor da Folha/Domingo: "As perturbações do aluno Törless é o título original da primeira obra do escritor, lançada em 1906. Traz a história de um rapazola da alta burguesia austríaca que é colocado num internato para que dê prosseguimento a sua educação, como ocorria nas melhores famílias. Longe da casa paterna, Törless será obrigado a amadurecer no meio de dois mundos aparentemente distintos. Na superfície, o internato expressa o puritanismo, a ordenação racional e a educação de feitio militarista da sociedade austro-húngara. Enquanto isso, nos sótãos e escurinhos da escola, Törless se defrontará pela primeira vez com a potência do sexo, da crueldade e do irracionalismo.

Seguimos a trajetória existencial do jovem com enorme interesse, pelo que traz  de descoberta das camadas mais escuras da psique. A escrita de Musil é sombria e envolvente, tanto mais precisa quanto mais profundo mergulha no interior do personagem. Os temas se acumulam, expressando as diferentes perturbações que acometem Törless - desde as dúvidas teológicas até os traumas da diferenciação sexual. Musil escreve numa época que acabara de decretar 'a morte de Deus' (Nietzsche) e descobrir o inconsciente (Freud).

Pode-se ler O jovem Törless também como um conto moral: o personagem encara sua temporada no inferno como aprendizado e superação de si. O enfrentamento solitário e a auto-compreensão do lado obscuro do desejo e da vida são uma espécie de garantia para que a parte irracional do indivíduo não se irradie em regra política coletiva, como viria a ocorrer no nazismo". Tempos de crise, tempos de monstros. O livro não é longo, tem 157 páginas e não tem divisão em capítulos.


segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Breve romance de sonho. Arthur Scnitzler.

Um livro muito louco. Um sonho e uma realidade ou uma realidade e um sonho. Ou tudo sonho. Continuando a temporada de leitura de livros comprados em 2003 e ainda não lidos, da coleção de 30 volumes da Biblioteca Folha, chegou a vez de ler, pela primeira vez, um livro do escritor austríaco Arthur Schnitzler, um médico vienense, a cidade onde nasceu a psicanálise. Trata-se do emblemático livro Breve romance de sonho. O tema é a sexualidade de um casal pequeno burguês.

Edição da Biblioteca Folha. 2003. Tradução de Sérgio Tellaroli.

Ah! a sexualidade! Ah! Viena. Ah! Freud. Ah! Schnitzler. Eu ainda organizo o meu curso de literatura erótica. Philip Roth será o meu guia seguro. A infinitude dos desejos humanos. Pulsões de vida ou dos perigos da morte. Desejos inconfessáveis, só de pensar todos já ficam corados. Haja moral e religião para abafar. São atingidos até os mais discretos e bem sucedidos casais pequeno burgueses. Scnitzler escreveu também, entre vários outros, "Anatol (1893) e Ronda, (1897), peças de teatro que descrevem a atmosfera de erotismo e melancolia da Viena do fim-de século. - e causaram escândalo quando encenadas. Como escritor e também como psicólogo, Schnitzler antecipou ideias do criador da psicanálise, Sigmund Freud".

Vamos contextualizar. Schnitzler nasceu em Viena em 1862 e, na mesma Viena, veio a morrer em 1931. Também o tema do anti-semitismo está presente em sua obra. Nessa época, o ambiente em Viena estava longe de ser dos melhores. E já que falamos do seu conterrâneo Freud, este nasceu na Tchéquia, em 1856, vindo a morrer em Londres em 1939. Viena, a essas alturas já era uma cidade proibida para os judeus. Ambos exerceram a profissão de médicos na cidade de Viena. Schnitzler por pouco tempo, vindo a dedicar-se à literatura em tempo integral.

Quanto ao Breve romance do sonho apresento os três parágrafos da orelha da capa: "Tudo vai bem na vida do dr. Fridolin e de sua mulher Albertine. Ambos são jovens, belos, prósperos e têm uma filhinha adorável. Pode-se dizer que, na Viena dos anos 1920, eles formam uma família burguesa exemplar. Até que, numa noite, depois de um baile de máscaras e vários goles de champanhe, Albertine decide confessar ao marido uma antiga fantasia erótica (na verdade, revela um sonho terrível e bem apimentado). Perturbado pela história secreta de sua mulher, o dr. Fridolin sai no meio da noite para atender um paciente em estado grave (na verdade, sai tranquilamente após o café da manhã, tomado em família).

A partir desse momento, tudo o que parecia dar sustentação ao mundo das personagens começa a entrar numa espécie de vertigem. Rapidamente o dr. Fridolin se vê enredado numa estranha aventura sexual, em que o desejo e o perigo de morte se auto-alimentam. Ao final da narrativa, o leitor fica com a impressão de que a volta à 'realidade de todos os dias' não será mais possível - não para os personagens que a vivenciaram.

Nesta pequena obra-prima de Arthur Schnitzler, as estruturas da vida psíquica e familiar são abaladas e expostas até os alicerces. Baseado nela, o cineasta norte-americano Stanley Kubrick fez, em 1999, seu filme de despedida: De olhos bem fechados, com Tom Cruise e Nicole Kidman nos papeis principais".

Sobre o livro, Mário César Carvalho, na contra-capa do livro, nos dá um pequeno roteiro: "Em Breve romance do sonho, um médico a quem a mulher relatara uma fantasia sexual fica dilacerado de ciúmes e vai visitar um paciente. Encontra-o morto, flerta com sua filha e, sem planejar, acaba a noite numa orgia de mascarados. Ali, o ideal de frenesi e sexo sem limites dos bacanais é substituído por melancolia e morte. Há um clima de delírio e terror íntimo, a invasão de um mundo fantástico e mutante, do qual nunca se sabe se é a narração de um sonho, pesadelo ou encenação, que parece aproximar Schnitzler do expressionismo alemão. Ou de um Kafka que tivesse olhos para o sexo".

O mesmo comentarista ainda traça um paralelo para diferenciá-lo de Freud. "Esqueça Freud e sua declaração de que evitava ler as obras de Arthur Schnitzler por temer que influenciassem o seu pensamento. Tratar o escritor austríaco como um duplo de Freud em registro ficcional, como virou clichê, é uma traição - ao escritor e ao criador da psicanálise. Scnitzler e Freud interessam-se por sexo e morte, mas acabam aí as confluências.

Enquanto Freud privilegiava as perversões, Schnitzler explora o nó que liga sexo e morte para jogar uma luz (bruxuleante que seja)  sobre a mediocridade da vida conjugal burguesa e as razões da infidelidade. Schnitzler não precisou de muito espaço para concretizar esse seu objetivo. O pequeno livro tem sete capítulos, delineados ao longo de noventa e cinco páginas.


sábado, 8 de agosto de 2020

Sargento Getúlio. João Ubaldo Ribeiro.

No ano de 2003 o grupo editorial Folha lançou a coleção Biblioteca Folha, num total de 30 volumes, misturando literatura universal e brasileira. Como na época eu estava em sala de aula, não li todos. Retomei alguns, agora. Entre eles, Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro. Sargento Getúlio é um dos maiores representantes da literatura regional brasileira. O livro é uma viagem de Paulo Afonso até Aracaju junto com o sargento, que de lá traz um preso. A história é bem simples.
Edição da biblioteca Folha. 2003.

Antes de falar do romance vamos falar um pouco do João Ubaldo. Ele nasceu na sua amada ilha de Itaparica em 1941 e veio a falecer no Rio de Janeiro no ano de 2014. Em Salvador formou-se em Direito, onde também, por um breve tempo, foi professor. Era um professor extremamente rigoroso. A sua vida foi dedicada à literatura e ao jornalismo. Passou alguns anos de sua infância e juventude no estado de Sergipe, onde seu pai fora chefe da polícia. Desse período, Moacyr Scliar, na contracapa do livro, nos conta o seguinte episódio:

"Sargento Getúlio, de 1971, é inspirado num episódio real: um homem conhecido como sargento Cavalcanti, gravemente ferido a tiros num atentado em Paulo Afonso, foi resgatado pelo pai de João Ubaldo, que então chefiava a polícia de Sergipe, e trazido com vida para Aracaju". Com a facilidade de narrar, João Ubaldo usou esse episódio como mote para o seu segundo grande romance. Nele o sargento Getúlio, de uma fidelidade mais do que canina, percorre o mesmo caminho, só que trazendo um preso, ajudado pelo seu amigo Amaro. Em meio ao caminho ele recebe ordem para não mais trazer o preso. Mas, como empenhara a palavra, ele cumpre a sua missão. A sua valentia resiste a todos os obstáculos, inclusive as tropas da polícia.

Creio que o romance cumpre dois grandes objetivos. O primeiro é o de traçar um perfil do homem nordestino desses anos anteriores a 1971, retrocedendo bastante no tempo, até os tempos do cangaço. A linguagem é toda ela impregnada de regionalismos, o que joão Ubaldo faz com rara maestria. O segundo objetivo é o de mostrar, que esse homem, acostumado à cega obediência, também é capaz de tomar consciência dos fatos e agir perante eles com plena autonomia. É o romance.

O romance é também uma viagem, tanto geográfica, quanto antropológica, pelo sertão nordestino, de Paulo Afonso até a cidade de Aracaju. Essa região fora fortemente influenciada pelo cangaço, tendo sido, inclusive, a região em que Lampião morreu numa emboscada. O sargento Getúlio, até lamenta o fato de não mais haver cangaço, pois, se ainda o houvesse, a ele se incorporaria. É um longo caminho percorrido, passando por hábitos regionais, comidas, vestimentas, padre, polícia e, acima de tudo, por seres humanos. Seres que não suportam desaforos. Getúlio, chamado de corno, provoca o decepar de uma cabeça com toda a normalidade e naturalidade.

Chegado em Aracaju entrega o serviço prestado e deixa recado: "É isso que eu quero fazer, e quero botar as vistas bem dentro das dele que é para ele dizer na minha cara que não mandou buscar e aí eu digo a ele: quem o senhor mandou em Paulo Afonso, que eu me lembro, aqui mesmo nessa sala, quem o senhor mandou em Paulo Afonso, numa noite, aqui nessa sala mesmo, eu, Getúlio Santos Bezerra, tomando um vermute vermelho aqui, quem o senhor mandou para Paulo Afonso para buscar esse criaturo, não foi nem eu. Possa ser que ele diga oxente Getúlio, mas você não recebeu o meu recado, que é isso, Getúlio, vá sentando aí e vamos resolver esse assunto, você é meus pecados, seu Getúlio. Uma coisa dessas. Eu digo: o senhor não entendeu o que eu falei. Eu falei que o homem que o senhor mandou em Paulo Afonso - me diga logo, mandou ou não mandou?". Um pouco mais adiante reflete sobre a sua missão e a sua vida:

"Tinha a minha missão, isso tinha. E fiz. Tinha minha vida, isso também, e vivi, e se me perguntasse quer viver uma vida comprida amofinado ou quer viver uma vida curta de macho, o que era que eu respondia? Eu respondia: quero viver uma vida curta de macho, sendo eu e mais eu e respeitado nesse mundo e quando eu morrer se alembrem de mim assim: morreu o Dragão. Que trouxe mortandade para os inimigos, que não traiu nem amunhecou, que não teve melhor do que ele e sangrou quem quis sangrar. Agora eu sei quem eu sou".

O livro se desenvolve ao longo de nove capítulos, acompanhando a viagem, cheia de percalços, pelo sertão. De Paulo Afonso até Aracaju. Da obra de Moacyr Scliar ainda tomo uma parte: "Na lacônica introdução a Sargento Getúlio, diz João Ubaldo: "'Nessa história, o Sargento Getúlio leva um preso de Paulo Afonso a Barra dos Coqueiros. É uma história de aretê'. A primeira frase contrasta com a segunda. A história não se restringe a esse modesto resumo; é muito mais do que isto, como está implícito na segunda frase. 'Aretê' é o termo grego para excelência, virtude. É está bem empregado, porque o que temos nesta sintética obra é uma tragédia grega transposta para o sertão nordestino".
Com o João Ubaldo Ribeiro, no Teatro Paiol.

Conheci João Ubaldo, num encontro realizado no Teatro Paiol, com direito a fotografia e tudo o mais. Um espaço pequeno em que, mesmo assim, sobraram alguns poucos lugares. Um mês depois, na FLIP, muita gente se acotovelou para vê-lo. É a força do glamour. João Ubaldo era maravilhoso. A sua fala era tão fácil e fluente quanto a sua escrita. Grande escritor e grande jornalista. Muito honrou o campo das letras, da democracia, do humor, da alegria e do humanismo.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Um inimigo do povo. Henrik Ibsen.

Há muito essa peça, ou esse livro estava no meu radar. Nos meus tempos de professor do curso de jornalismo da universidade Positivo os alunos sempre estavam empenhados nos ensaios, sob a coordenação da professora Marília, da peça Um inimigo do povo, de Henrik Ibsen. Lembro que o então aluno Manolo Ramires interpretava o Doutor Stockmann, o famoso "inimigo do povo". Agora, lendo alguns clássicos do teatro, o incluí em minha lista de leituras.
Um inimigo do povo, da L&PM, reimpressão de 2019. Tradução de Pedro Mantiqueira.

A primeira coisa que eu entendi foi a razão pela qual os alunos do curso de jornalismo se empenhavam na representação da peça. É que o jornalismo e a construção da formação da opinião pública é um dos núcleos centrais da peça. A peça se desenvolve ao longo de cinco atos, num crescendo extraordinário. O doutor Stockmann, rapidamente, passa de herói a inimigo mortal do mesmo povo. É uma ação dos poderes instituídos, a serviço do poder econômico.

Na peça, uma pequena cidade da Noruega conhece grande prosperidade com a sua transformação numa Estação Balneária. É nessa Estação que encontraremos os personagens da trama. O doutor Thomas Stockmann, médico, sua senhora, a filha Petra, professora e os filhos menores Eilif e Morten, o irmão Peter, que é o prefeito e presidente da Estação Balneária, Morten Kiil, dono do curtume e sogro do Dr. Stockmann e o povo do jornal A voz do povo: Hovstad, o editor, Billing, o subeditor e Aslaksen, o impressor. Temos ainda um amigo do doutor, Horster que é comandante de navio.

O primeiro ato se passa na casa do doutor, onde está reunido com o pessoal da Voz do povo, do qual ele também é articulista. O prefeito mostra a preocupação com o irmão, com relação às opiniões que emite em seus artigos. No momento estas preocupações dizem respeito a pesquisas sobre a questão das águas contaminadas do balneário pelos curtumes das proximidades. Os jornalistas consideram o doutor digno de homenagens e como uma espécie de salvador do balneário. 

O segundo ato se desenvolve no mesmo cenário e, inicialmente, no mesmo clima festivo. Esse clima muda com a chegada do dono do curtume e sogro do doutor, que começa a fazer algumas insinuações, insinuações essas que ficam bem claras com a chegada do irmão, o prefeito da cidade. As preocupações com a contaminação das águas arruinariam os planos econômicos do balneário. As mudanças que seriam exigidas com relação ao tratamento da água, além dos custos elevados, retardariam o projeto em, no mínimo, dois anos. Se trava uma luta, como a que estamos assistindo no Brasil, neste ano da pandemia de 2020. A luta entre o CPF e o CNPJ. As questões de saúde se confrontando com os interesses econômicos. As primeiras ameaças complementam o ato.

No terceiro ato o cenário muda para a redação do jornal A voz do povo. Ali os preparativos para a impressão do artigo do doutor Stockmann são interrompidos pela chegada do prefeito e a sua argumentação das implicações econômicas das denúncias contidas no artigo. A mudança de opinião dos jornalistas é rápida e, em vez da publicação do artigo, publicam uma nota de esclarecimento ditada pelo prefeito. O doutor sob protestos afirma que usará a sua voz, numa assembleia com o povo.

Essa assembleia é foco do quarto ato, realizada na casa de Horster, já que outros espaços haviam sido negados. Para dominar a reunião o prefeito faz eleger um presidente para a sessão, na pessoa de Aslasken, o impressor do jornal, o homem da "moderação". Ele impedirá que o doutor faça as denúncias contidas no artigo.Então o doutor, em vez de falar da contaminação das fontes da água passa a falar da contaminação das fontes da moral. Acusa os poderes da cidade na manipulação da maioria, transformada em massa amorfa a ser desenhada pela vontade dos poderosos. As vaias são generalizadas e, por meio de uma votação, Stockmann é declarado inimigo do povo, por unanimidade, com a exceção de um único voto, o voto de um bêbado, que já incomodara várias vezes ao longo da assembleia.

A parte mais sórdida da peça ocorrerá no quinto e último ato. Stockmann vê a sua casa apedrejada, desalojado e demitido de suas funções, assim como Petra, a filha. O prefeito lhe oferece reconciliação se ele se retratar e lhe fala do testamento de Morten Kiil em favor de seus filhos, mas adverte de que ele poderá ser modificado. Por fim chega o senhor Morten, anunciando a compra das ações da Estação Balneária, trama na qual acusaria o doutor de participação. O doutor Stockmann vendo-se só faz a sua proclamação final: "O homem mais poderoso do mundo é o que está mais só".

Vamos as necessárias contextualizações da peça. Ibsen nasceu em Skien, na Noruega em 1828, filho de prósperos comerciantes mas, a família ficou reduzida à pobreza depois do fechamentos da destilaria da família e o menino foi obrigado a trabalhar como assistente farmacêutico. A vida de escritor o acompanhou desde cedo, alçando-o ao mundo da fama. Irá morrer em 1906, na mesma Noruega, em Oslo, após uma série de derrames.

Na contracapa do livro, na edição da L&PM, lemos: "Um inimigo do povo foi publicado em Copenhague em 1882 e estreou no Teatro Nacional em Oslo em 13 de janeiro de 1883. Imediatamente foi traduzido para dezenas de línguas e encenado e publicado em quase toda a Europa, numa repercussão digna dos grandes autores franceses que monopolizavam a dramaturgia da época. A estreia em Paris foi marcada por grandes manifestações no teatro de apoio às ideias anarquistas. A enorme repercussão da peça motivou longos e apaixonados artigos do deputado socialista Jean Jaurès e do deputado esquerdista e grande intelectual de seu tempo Georges Clemenceau. Em 1898, voltou a ser apresentada em Paris em meio ao célebre processo Dreyfus, quando as sessões da peça eram seguidamente interrompidas com aclamações de protesto contra o Estado e de apoio a Ibsen e Zola, que pontificava na época com seu célebre J'accuse em favor de Alfred Dreyfus.

Um inimigo do povo é uma obra-prima sobre as contradições humanas e a falência do indivíduo frente à unanimidade. Mesmo diante  da vontade de praticar o bem comum, o dr. Stockmann entra em choque com os interesses mesquinhos da cidade. Vítima da maioria e da unanimidade, o homem que queria salvar a cidade torna-se o inimigo do povo. Estas ideias de Ibsen aproximavam-se muito das ideias anarquistas que tinham amplo apoio de importantes segmentos intelectuais e políticos da sociedade da época. A peça é uma impiedosa crítica às elites, aos governos, aos partidos e ao pensamento único".

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Discurso sobre a servidão voluntária. Étienne de la Boétie.

O que significa ler um livro escrito por um jovem passional, de menos de dezoito anos de idade, que adorava a liberdade, execrava a sujeição e a tirania e dava asas à imaginação para as suas utopias? Isso é ler Discurso sobre a servidão voluntária de Étienne de la Boétie. O livro, ou ensaio, foi escrito entre os anos de 1548 e 1551 e só veio a público em 1576, publicado pelo herdeiro de seus escritos, Michel de Montaigne. O ensaio também foi publicado sob o título O contra um, um título bem sugestivo.
Edição de O discurso sobre a servidão voluntária, da Edipro, 2019.

Para não perder o hábito, vamos para as contextualizações. Étienne de la Boétie teve uma vida muito curta. Nasceu em 1530 e morreu em 1563. Apesar da pouca idade, teve uma vida intelectual intensa, sendo o direito a sua área de estudos. Conhecia profundamente os clássicos gregos e romanos, que lhe serviram como fonte de inspiração. O seu tempo teve a marca das grandes transformações. A liberdade teimava em se afirmar e a servidão insistia em permanecer. Eram tempos do surgimento do Humanismo, do Renascimento e da Reforma Protestante. A liberdade era fortemente cerceada, o que explica que a sua obra foi publicada apenas postumamente e, mesmo assim, com muitos cuidados.

A pergunta básica a que o ensaio pretende responder é o que está contido em seu título: a servidão voluntária. Portanto, mais forte do que a coerção, sob todas as suas formas, existe esse fenômeno em que os seres humanos abrem mão daquilo que é a essência do humano, para, voluntariamente, se submeterem ou se sujeitarem. Vejamos: "Aquele que tanto vos domina não tem senão dois olhos, duas mãos e um corpo, e em nada difere do homem ordinário de nossas grandes e infinitas cidades, exceto pela vantagem que vós lhe concedeis em vos destruir. Donde ele tiraria os tantos olhos com que vos vigia se não consentísseis? Como dispõe de tantas mãos para vos injuriar se não as tomasse de vós? Os pés com que pisa em vossas cidades, donde ele os tira, se não vos pertencem? Como é possível que tenha algum poder sobre vós senão por meio de vosso consentimento? Como ousaria atacar-vos sem vossa cooperação? O que poderia fazer convosco se não fosseis receptores do ladrão que vos rouba, cúmplices do assassino que vos mata e traidores de si mesmos? Semeais vossos frutos para que ele os destrua; encheis vossas casas de móveis para fornecer objetos às pilhagens; criais vossas filhas para que ele possa saciar sua luxúria..." (Página 42).

Enquanto continua a sua catilinária, ele também oferece a pronta solução: "Sede resolutos em não servir mais, e estareis livres. Não peço que o derrubeis de seu posto, apenas que não o tolereis mais, e o vereis, como um grande colosso do qual se retirou a base, ruir sob o próprio peso" (Página 42).

Qual seria então o grande inimigo dessa inversão, de amor à submissão em detrimento da liberdade, abrindo mão de direitos que lhe são naturais? Ele explica: "Digamos, então, que ao homem todas as coisas parecem naturais, que delas ele se nutre e a elas se acostuma; mas o que é realmente nativo é só aquilo que a natureza simples e inalterada o impele a fazer: assim, o primeiro motivo por trás da servidão voluntária é o costume. Os homens são como os mais leais cavalos, que inicialmente mordem o freio e depois passam a apreciá-lo; que primeiramente escoiceiam e logo exibem altivos o seu arreio, pavoneando-se sob sua barda. Dizem que sempre foram subjugados, que seus pais viviam assim..." (Página 54).

No ensaio o autor também se refere às táticas empregadas pelos tiranos, que se julgam pré escolhidos por Deus. Distribuem benesses, como pão e diversões e o próprio povo inventa mentiras com as quais procuram se auto-convencer. Inventam as crenças e as hierarquias e os favorecidos do entorno. Depois de descrever cenas de ousadia da liberdade, de resistência a tiranos ele faz perguntas intrigantes: "Isso é ser feliz? Chama-se a isso viver? Há algo no mundo mais insuportável? E não digo apenas para um homem honrado, não digo apenas para um homem bem nascido, mas para qualquer um com bom senso ou, ao menos, com aparência de homem. Que condição é mais miserável do que viver assim, sem ter nada que lhe pertença, recebendo de outrem seu conforto, sua liberdade, seu corpo e sua vida"? (Página 72).

O livro que eu li é da Edipro, primeira edição, 1ª reimpressão, 2019. Conta com um prefácio de Leandro Karnal sob o título de A dor da liberdade e o amor da servidão e uma necessária introdução de Paul Bonnefon. O ensaio é relativamente curto. Ele ocupa as páginas 31 a 79 que podem ser lidas e relidas em apenas um dia, com um imenso proveito.

Eu fiquei imaginando as repercussões desse pequeno ensaio. Nele eu vi, sem maiores esforços, John Locke, a Declaração da independência dos Estados Unidos, a Revolução Francesa, Kant, Althusser e também a indústria cultural de Adorno. E para terminar, uma frase de a Montanha Mágica de Thomas Mann, mostrando o dilema entre a ordem e a liberdade. A cena se dá entre Hans Castorp e a encantadora jovem russa madame Chauchat. A russa diz ao alemão, diante de uma aproximação sua:  "Vocês, alemães, amam mais a ordem do que a liberdade. A Europa inteira sabe disso". Fulminante. Mais do que recomendo a leitura.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Guerra e Paz. Volume IV. Leon Tolstói.

O volume IV de Guerra e paz de Leon Tolstói, composto de mais 354 páginas de letras pequeninhas, completa a obra, que pela edição de bolso da L&PM, tem um total de 1491 páginas. Uma das obras mais longas da literatura universal. Mais do que uma obra apenas da literatura o livro é considerado como uma obra da arte universal, tal a sua grandiosidade.
Guerra e Paz. Volume IV.  pela capa, uma mostra da retirada da Rússia. É o grande tema.

Como é o livro de encerramento, os desfechos precisam ser feitos. Ele se divide em três partes, a décima segunda, décima terceira e décima quarta partes, mais um epílogo, este dividido em dois tempos. Tem ainda um apêndice, em que o autor faz interessantes considerações sobre a sua própria obra, que bem poderia ser o prefácio.

Na décima segunda parte o olhar se volta para Petersburgo, que nada sofrera com a guerra. Resta a pergunta - por que Napoleão não a atacou? A cidade continuava em festa, alheia às preocupações com Napoleão. As grandes festas não haviam sido interrompidas. De novidade, temos o falecimento de Helena, a esposa de Pedro mas com a qual ele não convivia. Apenas as milícias se preocupavam com a defesa da pátria. O termo milícias não tem o significado que nós lhe atribuímos. São os exércitos populares, montados fora da institucionalidade do exército.

Encontramos ainda Pedro como prisioneiro dos franceses sendo levado a julgamento e execução. Porém, no momento da sua vez, ele é beneficiado com um indulto, mas é mantido como prisioneiro. É o momento em que o autor introduz em sua obra um outro prisioneiro, um personagem fantástico, homem de extrema simplicidade e com o sugestivo nome de Platão Karataiev. Ele exerceu profundas influências sobre Pedro, sobre o seu pensar e sobre o modo de viver. Ele permanecerá em sua memória. Quero recuperar uma de suas frases e deixá-la aqui registrada, em especial para o povo adepto da chamada "República de Curitiba", da lava-jatista, justiceira e moralista república de Curitiba. Vejam a simplicidade e singeleza de sua afirmação: "Onde há justiça há injustiça". Os dois travam diálogos de profunda humanidade.

Na parte das famílias há a aproximação de Nicolau (Rostov) com Maria (Bolkonski) e a morte de André (Bolkonski). No início do volume I existe um quadro ilustrativo das grandes famílias protagonistas da obra, que convém ser constantemente consultada.

Na décima terceira parte ocorrem descrições da retirada de Napoleão e as chamadas "marchas de flanco" dos russos. "Tempo e paciência serão as duas grandes armas empregadas pelo general Kutuzov, o sereníssimo. Agora a terra prometida de Napoleão não era mais Moscou, mas sim, Paris. Os russos fustigam a retirada mas não a impedem. 

A décima quarta parte é muito peculiar. A guerra adquire novos contornos, fora das regras, fora da institucionalidade. É a guerra de guerrilhas. São as populações civis se movimentando e afugentando os franceses. A população age instintivamente. Cossacos e camponeses e o seu elevado moral  os alça à condição de heróis e protagonistas da parte final dessa absurda guerra. Ocorre ainda a libertação de Pedro e a morte do intrépido Pétia, o caçulinha da família dos Rostov.

No décimo quinto capítulo vemos as famílias russas voltando e reconstruindo Moscou, enquanto continua a fuga atabalhoada dos franceses, agora fazendo o caminho inverso, do oriente para o ocidente. As forças do seu exército estão literalmente em decomposição. Kutuzov recebe as maiores honrarias nacionais. Pedro se recompõe, recupera a sua saúde e se aproxima de Natacha. Tolstói volta agora a sua arte para a exaltação do povo russo, agora na reconstrução de Moscou e no afugentar das tropas francesas.

Na primeira parte do epílogo temos um avanço histórico de sete anos, após os fortes episódios de 1812. A diplomacia entra em cena. Alexandre exercerá fortes influências. O capítulo III dessa parte é uma análise sobre Napoleão, sua ascensão, sua queda e significados. Temos ainda os acertos afetivos entre as grandes famílias. Pedro casa com Natacha e Nicolau com Maria. Viverão felizes, retirados das grandes agitações de Moscou ou de Petersburgo. Consuma-se o fato de Pedro e Natacha serem os maiores personagens da obra. A segunda parte do epílogo é toda ela dedicada a reflexões de ordem política, histórica, filosófica e ética. A história e os seus personagens e as relações de poder ganham o maior destaque. A liberdade e a necessidade ganharão as suas contraposições e o livre arbítrio merecerá sentar-se no divã, posto sob análise.

O livro termina com um apêndice, que originalmente não fazia parte da obra, mas que perfeitamente poderia ser o seu prefácio. O autor fala de sua obra, escrita ao longo de cinco anos ininterruptos e de dedicação exclusiva. Faz seis grandes considerações em torno de sua obra, escrita ao longo dos anos 1865 e 1869. A contracapa dos quatro volumes tem a mesma apresentação, com a qual encerro o meu post.

"Publicado entre 1865 e 1869, Guerra e Paz é mundialmente aclamado como um dos maiores romances jamais escritos. Trata-se de um imenso e detalhado painel da sociedade russa durante o tumultuado período das guerras napoleônicas, de 1805 (ano da vitória de Napoleão na batalha de Austerlitz) a 1812 (quando ocorreram a célebre retirada dos franceses durante o inverno e o incêndio de Moscou). Como fio condutor, temos a vida, as misérias e os amores de duas grandes famílias aristocratas. Uma multidão de personagens retrata as diversas camadas do mundo russo, dos camponeses ao tzar, e os protagonistas parecem ter vida própria, tão admirável é a capacidade de Tolstói (1828-1910) de representar pessoas psicologicamente complexas e profundas. Por sua ambição e pelas técnicas utilizadas, Guerra e paz desafiou os parâmetros literários e a própria literatura de seu tempo.

Se em seu magnífico romance o autor mostrou o sacrifício, o patriotismo e a grandeza do povo russo, também construiu um monumento à paz. A obra-prima de Tolstói brilha como um livro maior entre os milhões de livros, deslumbra como só uma verdadeira obra de arte é capaz de deslumbrar e emociona como só as grandes histórias, contadas pelos grandes narradores, conseguem emocionar".

Deixo ainda a resenha de uma biografia do autor e a dos três outros volumes;

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/01/tolstoi-biografia-rosamund-bartlett.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/06/guerra-e-paz-leon-tolstoi-volume-i.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/07/guerra-e-paz-leon-tolstoi-volume-ii.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/07/guerra-e-paz-leon-tolstoi-volume-iii.html




sexta-feira, 24 de julho de 2020

Guerra e Paz. Leon Tolstói. Volume III.

Se o volume II de Guerra e paz de Leon Tolstói era mais centrado nas grandes famílias de Moscou e Petrogrado e nas relações diplomáticas entre a França de Napoleão e a Rússia de Alexandre, o terceiro volume é guerra pura. São mais 395 páginas para descrever os avanços de Napoleão, já em território russo, penetrando em seu coração. Napoleão conta com uma exército europeu de 800.000 homens e vai ocupando as cidades que estão no rumo de Moscou. Ocorre a tomada de Smolensk e as famosas batalhas de Chevardino e Borodino, esta praticamente decisiva, e a chegada a Moscou, encontrando a cidade abandonada.
Guerra e paz. L&PM. Volume III. Vejam na capa o incêndio de Moscou - 1812.

Este livro se divide em três partes: A nona se ocupa da entrada de Napoleão na Rússia (Smolnesk), a décima nos avanços em direção a Moscou, com um grande destaque para a descrição da batalha de Borodino e a décima primeira, sobre as estratégias dos dois lados, dos franceses para tomarem a cidade e a dos russos de a abandonarem e a incendiarem. Quanto aos personagens ganham grande destaque, Kutuzov, o sereníssimo, comandante geral do exército russo, Pedro, um personagem que continua absolutamente confuso e André e a sua luta entre a vida e a morte. A força do livro continua nas análises da guerra e na caracterização existencial, humana ou não, dos principais atores envolvidos na trama.

Na nona parte, como vimos, Napoleão já se encontra na Rússia. Tolstói faz uma detalhada análise dos motivos que levaram Napoleão para a tomada de Moscou e sobre os absurdos da guerra. Mas as intrigas nas grandes famílias também continuam. Lembram de André, que perdeu a sua noiva, Natacha, para Anatole? Ele parte para a vingança, mas a guerra altera completamente os planos. O imperador Alexandre vai ao front e troca mensagens com Napoleão. Este está irredutível. A Rússia havia obtido interessantes vitórias na guerra contra os  turcos e, agora, os seus soldados e comandantes reforçam as forças contra Napoleão. Um deles é Nicolau, o irmão de Natacha, que está muito mal, e por isso ele volta para Moscou. É o momento em que Tolstói faz um acerto de contas com os médicos e as suas charlatanices. A autor se torna extremamente ácido.

Na casa dos Rostov (Nicolau - Natacha) aparece Pedro. Pedro é tomado de ternura pela menina Natacha, que supera seus problemas de saúde. O imperador reúne um Conselho de Guerra e começam os recrutamentos militares para fazer frente a Napoleão. O Conselho equivale a uma convocação dos Estados Gerais, que se preocuparam mais com festas do que com a própria guerra.

A décima parte é uma das mais famosas de todo o conjunto do livro. A descrição da batalha de Borodino, a exaltação do valor do povo russo e sobre os significados dessa batalha, considerada decisiva. Foi aí que Napoleão se inflou e decidiu efetivamente a avançar sobre Moscou, embora todas as perdas sofridas na batalha. Esta parte inicia com uma brilhante descrição sobre esse momento da guerra, sobre suas causas, sobre os avanços de Napoleão e os recuos da Rússia. O autor ouve e dá voz aos historiadores, Thiers, em especial, que acompanhavam as tropas. Surge a grande interrogação sobre o matar e o morrer. 

Nas proximidades de Smolensk se situavam as propriedades de André, da poderosa família Bolkonski. O seu pai está, como vimos no volume anterior, se encontrava senil e efetivamente chega a morrer. Sônia, a irmã de André, para agravar a situação, enfrenta uma rebelião de camponeses que se recusam a transportá-la em fuga para Moscou. Nicolau, da família Rostov, passa por aí e restaura a ordem. Nicolau percebe a existência da princesa Maria.

Vários capítulos se ocupam de Borodino, a grande batalha que só teve derrotados. Ela afundou Napoleão no interior da Rússia e provocou a fuga dos russos e os levou à condição do abandono da cidade de Moscou. Tolstói exalta a superioridade moral das tropas russas. A mortífera batalha teve mais de 70.000 mortos.

A décima primeira parte se ocupa dos russos e a tomada da nada fácil decisão de abandonar Moscou e de incendiá-la, com os veementes protestos Rostoptchine, uma espécie de prefeito e os avanços de Napoleão sobre a cidade. A família Rostov ganha novos destaques em sua fuga e a tentativa de levar o máximo de bens possíveis. Estes, no entanto, tem que ficar em Moscou, para dar lugar aos feridos para serem tratados. Entre esses feridos está, entre a vida e a morte, o valoroso André. Natacha nada sabe. O livro termina com Pedro, que fora para a guerra, observando a batalha de Borodino e, agora, se recusando a abandonar a cidade e ainda praticar atos heroicos, antes de sua prisão pelos franceses. O quarto volume promete. Deixo ainda as resenhas dos volumes I e II.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/06/guerra-e-paz-leon-tolstoi-volume-i.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/07/guerra-e-paz-leon-tolstoi-volume-ii.html

sábado, 18 de julho de 2020

Guerra e Paz. Leon Tolstói. Volume II.

Antes de iniciar a resenha do volume II de Guerra e paz, de Leon Tolstói, creio ser necessário voltar à apresentação do livro (da L&PM) feita por Ivan Pinheiro Machado, sobre o teor do livro. Antes lembrando, que no volume II, são mais 378 páginas, divididas em cinco partes. Mas vamos ao comentarista:
Guerra e paz, volume II. L&PM. 

"Oficial do exército russo, veterano de várias batalhas, Tolstói conheceu os horrores e a irracionalidade da guerra. E todo o seu pacifismo e seu repúdio às guerras está registrado em Guerra e Paz. Tolstói é também meticuloso ao extremo no que diz respeito à verdade histórica; são absolutamente precisas as descrições das batalhas e as 'participações' de Napoleão, do tsar Alexandre I e do generalíssimo Kutuzov, comandante-geral das tropas russas. A trama ficcional se justapõe aos acontecimentos reais. A frivolidade de Ana Mikailovna, a bravura dos aristocratas André Bolkonski, Nicolau Rostov, a figura fascinante e controvertida do conde Pedro Bezukov, a apaixonante Natacha, a bela e pérfida Helena Bezukov, o ambiente de uma sociedade traumatizada pelo terror da guerra que a tudo destrói e separa os amantes - tudo está em Guerra e Paz, um livro que atravessa os séculos como um clássico humanista que, descrevendo a guerra de maneira magistral, faz a sua mais pungente e eterna condenação". O romance foi escrito entre os anos 1865 e 1869.

No volume II, a guerra dá uma trégua. É a paz de Tilsit. Lembrando que o primeiro volume termina com a vitória de Napoleão sobre a Áustria e a Rússia, na batalha de Austerlitz (1805). As relações entre Napoleão e Alexandre I chegam até a ser amistosas. Questões da diplomacia. Se a guerra está mais distante, ou se ela não ocorre porque as forças estão totalmente extenuadas em busca de recuperação, o segundo tema, o das grandes famílias ganha grande destaque. Vamos por etapas:

Na quarta parte (No primeiro volume são três partes), temos a volta dos heróis da guerra. Em primeiro lugar aparece Nicolau Rostov e o seu amigo Denissov. Mais adiante aparecerá André, da família Bolkonski, que partira para a guerra, deixando a esposa Lisa grávida. André era tido como morto, mas, de repente, ele surge, bem vivo. Boa parte do livro é destinada ao nascimento do filho e à morte de Lisa, a esposa.  O velho conde, um general, adoece gravemente e se desentende com toda a família (seria o Alzheimer?). Lautos jantares são oferecidos aos generais. Pedro, dos Bezukov se desentende com Dolokov e partem para duelo. Eles saem vivos e o caso é abafado. Pedro é muito poderoso.

Na quinta parte nos deparamos com os problemas de Pedro, um fantástico personagem, marcado pela inconstância, com picos de euforia e estados depressivos. Ele casa-se com Helena, da família Karaguine, desfaz o casamento mas volta a ela. Ela é bela e fútil. Pedro entra na maçonaria e com ela se encanta e se decepciona. Nessa parte são mostradas as deficiências do exército. Denissov assaltou o próprio exército em busca de alimentos para seus soldados famintos. O amigo Nicolau Rostov o encontra em um hospital (um lixo) e com ele acerta pedir clemência ao Imperador. É a parte do livro que é um libelo em favor da paz e uma procrastinação contra a guerra e o armamento dos exércitos.

A sexta parte é toda ela centrada em Pedro Bezukov e em André Bolkonski. Pedro continua em seus altos e baixos. Volta com Helena mas não convivem e passa a ter grandes decepções com a maçonaria. Nessa parte começa um dos pontos altos do livro, com o namoro entre André e Natasha, menina de 16 anos, de marcante beleza, pertencente à família dos Rostov. André ficara viúvo, mas não recebe o consentimento do pai para este casamento, ao menos para o momento. daqui a uma ano voltariam a conversar. Aí as coisas acontecem. Natacha se envolve com Anatole, irmão de Helena e cunhado de Pedro. Seguramente um personagem do mal.

A sétima parte é dedicada à família Rostov, em graves crises financeiras. Mas o centro das atenções será a filha Natacha. A crise financeira se resolve com a venda de patrimônio, mas a crise com Natacha só se agrava. Ela rompe com o príncipe André, por meio de carta, exatamente para se envolver com Anatole.

A oitava parte marca a continuidade. Natacha e Anatole ocupam a maior parte e a sua história certamente não terá um grande final.  André volta e continua a sua vida, não dando sinais de abatimento. O livro se encerra com Pedro procurando administrar os problemas de Natacha. Pedro se encanta com a ternura da menina, mas no horizonte passa um cometa, prenunciando os acontecimentos de 1812.

A força do livro está, obviamente, na descrição dos personagens. Pedro é hesitante. Anatole e Dolokov se definem como personagens do mal e Helena e Natacha vão configurando as famosas personagens femininas do escritor. Do livro selecionei uma passagem primorosa sobre a ociosidade no exército. Mas isso era naquele tempo! Eis a passagem:

"A tradição bíblica ensina-nos que a felicidade do primeiro homem antes da queda consistia na ausência de trabalho, isto é, na ociosidade. O gosto da ociosidade manteve-se no homem réprobo, mas a maldição divina continua a pesar sobre ele, não só por ser obrigado a ganhar o pão de cada dia com o suor do seu rosto, mas também porque a sua natureza moral o impede de encontrar satisfação na inatividade. Uma voz secreta diz ao homem que ele é culpado de se abandonar à preguiça. E, no entanto, se o homem pudesse achar um estado em que se sentisse útil e em que tivesse o sentimento de que cumpria um dever, embora inativo, nesse estado viria a encontrar uma das condições da sua felicidade primitiva. Esta condição de ociosidade imposta e não censurável é aquela em que vive toda uma classe social, a dos militares. Em tal ociosidade está e estará o principal atrativo do serviço militar" (Pág. 598).

E uma premonição, cá comigo. Nos dois próximos volumes, prestar muita atenção em Pedro, da família Bezukov e em Natacha, da família Rostov. E um adendo. A resenha do volume I. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/06/guerra-e-paz-leon-tolstoi-volume-i.html

sexta-feira, 10 de julho de 2020

A cor púrpura. Alice Walker.

Um livro na lista de espera desde 2012. Não sei exatamente as razões por ter ficado tanto tempo nessa lista. Certamente não devo ter gostado das suas primeiras páginas. Estou falando de um livro famoso, A cor púrpura, da conhecida escritora dos Estado Unidos, Alice Walker. O livro está escrito sob a forma de cartas, cartas de Celie para Deus - Querido Deus, de Celie para Nettie, querida Nettie e de Nettie para Celie, querida Celie.
A cor púrpura. José Olympio. Tradução: Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson.

O livro foi escrito em 1982 e já em 1983 ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção. Chegou ao Brasil em 1986 e tenho em mãos a 9ª. edição, da José Olympio. Steven Spielberg o levou ao cinema. O cineasta se entusiasmou com o livro, como lemos na contracapa: "Eu não consegui parar de ler... Um dos melhores livros que li em anos, uma leitura de muita força, emocional". Algum exagero? Certamente.

Já que estamos nas frases, na contracapa tem mais duas: "Uma saga de alegria e dor, humor e amargura (...) e um elenco de personagens que vivem, respiram e iluminam o mundo". Publishers Weekly. E: "Personagens maravilhosos (...) Alice Walker ousa dizer verdades sobre homens e mulheres, sobre pretos e brancos, sobre Deus e amor (...) Um dos grandes livros de nosso tempo". Essence Magazine. Essas, creio, bem mais condizentes.

A narradora é Celie, sua irmã é Nettie. Sinhô (Albert) tomou Celie por esposa e afastou-a da irmã Nettie. Shug Avery era amane do Sinhô e depois também de Celie. Estão aí os principais personagens do romance. Celie é apresentada como meio semi analfabeta. Vamos a dois parágrafos da orelha do livro:

"'Querido Deus': assim começa a maior parte das cartas escritas por Celie. Negra semianalfabeta, vivendo no sul dos Estados Unidos, subjugada a um homem que ela pensa ser seu pai, forçada a viver longe dos dois filhos e com um marido a quem não ama, Celie vive entre cuidar da família e planejar uma vida diferente da sua para a irmã, Nettie.

As duas irmãs passariam trinta anos sem notícias uma da outra, Celie confiando seus pensamentos a Deus, seu único correspondente. Até que sua amizade com Shug Avery, cantora de sucesso e amante de seu marido, lhe dá outra perspectiva da vida. Em oposição à solidão, pobreza, brutalidade e violência, Celie descobre novas maneiras de sentir: beleza, conforto, desejo, amor, saudade, esperança e consciência de si".

A maioria das cartas são bem pequeninhas, duas a três páginas. Existem também as que chegam a dez. A maioria das cartas era endereçada mesmo para Deus, as outras são cartas trocadas entre as irmãs. O sinhô ocultava as cartas de Celie por desentendimentos com ela. Até que um dia, encorajada por Shug Avery, encontram e leem todas elas. Como vimos, trinta anos separaram as duas irmãs. Nettie é meio adotada por um casal de missionários e vai para a Inglaterra e de lá para a África trabalhar em missões religiosas. Nessas cartas aparece um tema forte do livro. Os males do colonialismo. A impiedade dos colonizadores brancos.

As cartas de Celie trazem os outros temas fortes da escritora. O patriarcalismo está presente na relação que se estabelece entre os personagens masculinos e femininos. Bater em mulher era uma especie de obrigação, mostra de autoridade. É uma constante de todos os homens e a resistência de apenas algumas das mulheres. Outro componente é o racismo, também fortemente expresso nas cartas, tanto de Celie quanto de Nettie. As questões financeiras são tratadas meio a margem. Não havia maiores problemas, como a fome, por exemplo. Quanto ao tempo retratado, ele retorna aos meados do século. Há uma referência de que Nettie teria morrido num navio americano, afundado pelos alemães.

A cantora Shug Avery é a personagem emancipadora do livro. Ela tem poder de fala. Dá de dedo em todos os homens e os enquadra. Ela é a professora de Celie, de quem se torna amante. Esse amor tem volta, isto é, tem reciprocidade. Acima de tudo, ela lhe ensina fazer sexo, com ela e com o sinhô, 'mexer com o butonzinho', numa referência ao clitóris. Bebida e drogas também fazem parte do cardápio. O livro é relativamente longo. São 335 páginas.

Com relação ao título, já ao final do livro encontramos a seguinte referência, quando Celie aponta para Shug, que está de volta, o seu quarto: "Bom, é aqui, eu falei, parada na porta. Tudo no meu quarto é púrpura e vermelho a num ser o chão que tá pintado de amarelo vivo. Ela foi direto ao pequeno sapo púrpura que tava na minha prateleira. O que é isso? Ela perguntou. Ah, eu falei, uma lembrança que o Albert (o sinhô) fez para mim". A essas alturas já existe afetividade e ternura na relação, uma relação que atinge também o espírito. Eram outras pessoas, seres humanos.

Uma palavrinha sobre a escritora: "Alice Walker é internacionalmente conhecida por sua participação em movimentos pelos direitos civis, principalmente das causas negra e feminina. Além de romancista premiada, é também autora de contos, ensaios, poemas e vários livros infantis. Sua obra está traduzida para mais de vinte línguas. Nascida no estado da Geórgia, Alice Walker mora na Califórnia, Estados Unidos", lemos na orelha do livro. Dela temos também.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/07/rompendo-o-silencio-alice-walker.html

terça-feira, 7 de julho de 2020

Mozart - Sociologia de um gênio. Norbert Elias.

Dando sequência às minhas leituras em tempos de pandemia, faço mais uma releitura.O livro da vez foi Mozart - Sociologia de um gênio, de Norbert Elias. O livro, como indica o título, é mais do que uma simples biografia. É uma biografia acompanhada de uma análise sociológica da época em que o artista viveu. Como certamente sabem, Mozart teve vida curta. Foram apenas 35 anos. Ele nasceu em Salzburgo em 1756 e morreu em Viena, em 1791. Lembrando que em Paris, em 1789, ocorre a famosa Revolução Francesa, mais propriamente chamada de Revolução burguesa.
Uma edição Jorge Zahar, 1995.

Essa percepção da mudança histórica e de suas consequências é a essência da análise de Norbert Elias. Mozart fora um artista de corte, atuando na corte de sua terra natal, a cidade de Salzburgo. Mas Mozart sempre quis ser um artista autônomo, um artista burguês para atuar num, digamos, livre mercado. De artista artesão queria passar para a arte de um artista. O artista era mais livre do que o artesão. Este vivia sob as ordens de um senhor, no caso, do arcebispo de Salzburgo, o conde Colloredo.

O livro de Norbert Elias está muito bem estruturado. Ele foi organizado por um estudioso de sua obra, Michael Schröter. Está dividido em duas partes: Parte I. Reflexões sociológicas sobre Mozart e a parte II. A revolta de Mozart: de Salzburgo a Viena. Na primeira parte Mozart fica sob a tutoria do pai, já músico da corte, e do arcebispo de Salzburgo, que lhe concede emprego estável. Tanto o pai quanto o filho são funcionários da corte. Tem, portanto, vida estável. A que custos, no entanto, devemos perguntar. A segunda parte mostra a ruptura tanto com o pai, quanto com o bispo.

Na primeira parte encontramos os seguintes títulos: Ele simplesmente desistiu, onde é mostrado um panorama geral de sua vida; músicos burgueses na sociedade de corte; Mozart se torna artista autônomo; arte de artesão e arte de artista; o artista no ser humano (a indissociabilidade); os anos de formação de um gênio; a juventude de Mozart - entre dois mundos sociais.

Na segunda parte temos: A revolta de Mozart: de Salzburgo a Viena; completa-se a emancipação: o casamento de Mozart; o drama da vida de Mozart; uma cronologia sob a forma de notas. Por essa cronologia, uma espécie de síntese de sua vida, vemos as diferentes fases de sua vida. A apresento, ao menos em partes. Antes, porém, quero deixar registrada uma frase bem expressiva a respeito do genial e precoce artista. Ele foi cultivado como uma planta em estufa. O pai foi para ele o professor, o empresário, o amigo, o médico, o guia de viagens e o mediador de negócios. A ruptura veio aos 25 anos. O pai projetara os êxitos de sua vida na carreira do filho. Possivelmente Mozart se antecipou ao seu tempo. Não foi capaz de efetuar a transição de um tempo passado, com o qual se defrontava. Uma geração depois, Beethoven conseguiu os êxitos do artista de "mercado".

Mas vamos à cronologia em forma de notas: 

Ato I: 27 de janeiro de 1756 - setembro de 1777. Infância e juventude de um gênio; pai e filho. O desenvolvimento de uma relação; a busca infrutífera de postos nas cortes da Europa; mudança na voz  (em Nápoles) e a pressão crescente  da dominação do pai; o singular treinamento musical de Mozart. Relações com todos os músicos conhecidos e famosos da época (Bach, Gluck, Haydn, Johann Adolf Hasse, padre Martini). Tudo isso, além do treinamento intensivo pelo pai,

Ato II. Setembro de 1777 - 8 de junho de 1781. Primeira viagem sem o pai. Começo da emancipação e suas dificuldades: consciência. O primeiro caso amoroso (conhecido): sua prima (Bäsle), a mulher vulgar para Mozart. [...] A primeira grande briga com o pai; o humor fecal de Mozart. [...] Noção cada vez maior, de seu próprio valor. Noção cada vez maior, de sua vocação como compositor, especialmente de óperas. (Tempos de grande produção). Volta a Salzburgo [...]. Rompimento com o arcebispo.

Ato III. 8 de junho de 1781 - maio de 1788. Liberação da imaginação artística, individualização do padrão. Música de corte sob uma forma única, altamente individualizada. Para mencionar apenas as óperas: 16 de julho de 1782, primeira apresentação de O rapto do serralho ("Notas demais", disse o imperador). Primeira apresentação de Die Räuber (Os salteadores), de Schiller. 1º de maio de 1786, As bodas de Fígaro; recebida com críticas. 7 de maio de 1788, Don Giovanni. Medidas de economia em Viena, devido à guerra com os turcos.

Ato IV: 1788 - 5 de dezembro de 1791. Solidão crescente, decepções cada vez maiores. Se este ato fosse representado dramaticamente, ver-se-ia Mozart de pé, no palco, enquanto as pessoas conhecidas se vão embora, uma a uma. A esposa passa a maior parte do tempo nas estações de águas, as alunas nobres/patrícias que tinha anteriormente (são citadas) foram-se todas. Aumentam as dívidas e as preocupações com dinheiro. Os concertos por subscrição que ele anuncia fracassam redondamente. Don Giovanni  é recebido com frieza em Viena, embora saudado calorosamente em Praga. Suas cartas mostram-no num estado de desespero crescente, em parte devido aos problemas financeiros, em parte devido ao seu isolamento psicológico. As razões são diversas: - rejeição pela sociedade aristocrática de corte devido ao Fígaro, que provavelmente foi tido como sedicioso. - Suas obras são cada vez mais difíceis de entender. - Compõe cada vez mais para si mesmo, seguindo o impulso de sua própria imaginação. As três grandes sinfonias e outras obras são produzidas sem patronos, como artista autônomo. Mas, na época, as instituições de um mercado livre para obras musicais mal existiam.

Mais quatro parágrafos da orelha do livro: "Mozart foi educado na tradição da música de corte, numa sociedade que considerava os músicos como trabalhadores manuais, e de quem se esperava apenas que produzissem entretenimento para uma audiência cortesã. Ao longo de sua vida, esteve constantemente em busca de trabalho, porém o único emprego que conseguiu foi o de organista na pequena corte de Salzburgo.

Ao descrever como o compositor tentou levar em Viena uma vida de músico autônomo, Norbert Elias esclarece que só na geração seguinte - a de Beethoven - é que foram criadas condições necessárias para esse gênero de atividade. Mozart fracassou, argumenta ele, porque deu um passo no sentido da independência numa sociedade que ainda não estava preparada para tal. A rejeição da aristocracia de Viena, as dívidas cada vez maiores e nenhuma perspectiva de satisfazer seus desejos mais íntimos fizeram com que Mozart morresse com o sentimento de que sua existência social naufragara e de que sua vida se tornara vazia de significado.

Como mostra o autor, 'a situação de Mozart era muito peculiar. Embora fosse socialmente dependente e subordinado à corte de aristocratas, a consciência de seu extraordinário talento musical fez com que se sentisse igual, senão superior, a eles. Era, em suma, um gênio, um ser humano excepcionalmente talentoso e criativo, nascido em uma sociedade que ainda não conhecia o conceito romântico de gênio, e cujo cânone social não previa lugar para artistas originais em seu meio'.

Em Mozart, sociologia de um gênio, Elias aplica seu enorme poder de percepção a este caso de conflito trágico entre criatividade pessoal e uma sociedade que queria controlá-la. Um livro para estudiosos e pesquisadores da sociologia, da história europeia e da história da música, bem como para qualquer pessoa interessada na vida e na obra de Mozart". Nós, no caso. Maravilhoso livro - vida sofrida.

domingo, 5 de julho de 2020

Romeu e Julieta. Shakespeare.

Esses tempos de pandemia nos trazem desassossegos, mesmo com aparente sossego total. O fato de não sair de casa, de não rever os amigos, de não satisfazer pequenos caprichos propiciam um clima um tanto depressivo. O frio também colabora. Bem, assim procuro me ocupar com coisas mais leves, como livros menores, entenda-se - não tão longos, ou então, como no caso, de releituras. Foi assim que retomei Romeu e Julieta, do mestre maior William Shakespeare.

Romeu e Julieta não é apenas uma tragédia. São várias. Não são apenas Romeu e Julieta as vítimas, há também Teobaldo, Páris e a mulher do chefe dos Montéquio. E há também a história inconclusa do bom e prestativo frei Lourenço. E uma descoberta. O plano de frei Lourenço só não deu certo em função de uma pandemia. Uma barreira sanitária impediu que os freis mensageiros pudessem seguir de Verona para Mântua e entregar a Romeu a carta com as ações finais traçadas para salvar o famoso casal. E aí, haja tragédia!  

Bem, vamos a algumas contextualizações. Shakespeare nasce em 1564 e morre em 1616. Essa tragédia foi encenada pela primeira vez em 1594, no auge do chamado teatro elizabetano. É das peças de Shakespeare em que ele mais mostra as sua habilidades. Afinal de contas, histórias e mesmo tragédias de amor não são fatos tão raros. A genialidade está então na forma de narrar. Os jovens enamorados pertenciam a famílias rivais. Romeu era Montéquio e Julieta era Capuleto. O Príncipe tinha poderes e estes já eram respeitados. Ele era obedecido. Mas o ódio era maior e, com isso, as transgressões. A peça se desenvolve através de cinco atos.

No primeiro ato são mostradas as rivalidades entre as duas famílias e as advertências do Príncipe, que puniria com a morte as transgressões. Os Capuleto dão uma festa e o atrevido Romeu comparece. Julieta tem então 14 anos incompletos. Trocam beijos e as paixões se incendeiam. São seis cenas. No segundo ato entra em cena o pátio da casa dos Capuleto, hoje um dos lugares mais famosos, e conhecidos do mundo. Romeu pulara a cerca e se posta abaixo de sua janela. As juras de amor rompem a madrugada. Romeu busca conselhos com Frei Lourenço, certamente um grande co- protagonista da tragédia. A ama de Julieta servirá de pombo-correio entre os envolvidos. Quando Julieta vai se confessar com o frei Lourenço ele os casa em cerimônia simples. São mais seis cenas.

No terceiro ato começa propriamente a tragédia. As famílias se envolvem em confusão e Teobaldo (dos Capuleto) mata Mercúrio (dos Montéquio) Romeu mata Teobaldo, o primo de Julieta. Romeu é punido com o exílio, que deverá ser cumprido em Mântua. O frei Lourenço mediará as situações favoráveis aos noivos, enquanto que, na casa dos Capuleto se trama o casamento imediato da menina com Páris, parente do Príncipe. A ama de Julieta dá uma de grande sem vergonha. Hoje diríamos, uma moral líquida, de acordo com as conveniências. São mais cinco atos.

O quarto ato tem cinco cenas e o quinto três. Não vou entregar a narrativa para não tirar o suspense. Nesses atos temos, de um lado a movimentação de Romeu e de Julieta, articuladas pelo frei Lourenço e de outro a família dos Capuleto querendo apressar o casamento com Páris, preparando uma festa que deveria ser inesquecível. Como já citei, uma barreira sanitária frustrou as comunicações e a tragédia assumiu efetivamente proporções descomunais. Julieta tivera premonições do que poderia ocorrer.

Uma dica do enredo, a retiro da contracapa da edição da L&PM Pocket: "O amor apresenta-se à vida de Romeu e Julieta de modo traiçoeiro: ambos apaixonam-se instantaneamente, em uma festa - um baile de máscaras -, desconhecendo a identidade um do outro. Ele é filho dos Montéquio, e ela, dos Capuleto, duas das mais poderosas famílias de Verona, inimigas entre si. Desobedecendo às restrições familiares e políticas, eles vivem a sua paixão explosiva e desesperançada, naquela que se tornou a mais famosa história de amor da literatura ocidental, além de uma das mais populares tragédias shakespearianas".

Aproveito para fazer dois destaques dessas partes finais. A primeira se passa em Mântua quando Romeu suborna um pobre boticário para lhe comprar o veneno, apesar da proibição. Romeu entrega-lhe o dinheiro da encomenda: "Aqui está o ouro, o pior veneno para a alma humana, o que comete mais assassinatos nesse mundo detestável - mais que esses pobres compostos que o senhor está impedido de vender. Sou eu quem estou lhe vendendo veneno; o senhor não me vendeu nenhum. Adeus. Compre comida, e acrescente carnes a esse seu esqueleto. - Venha licor estimulante. Não és veneno. Vamos até a sepultura de Julieta, pois é lá que devo te usar".

A segunda é a fala do Príncipe, depois da tragédia consumada e esclarecida com a carta de frei Lourenço: "Esta carta corrobora as palavras do frei: o andamento do amor dos dois, a notícia da morte de Julieta, e aqui ele escreve que comprou veneno de um pobre boticário, depois do que veio até a cripta, para morrer e deitar-se com Julieta. - Onde estão os inimigos? - Capuleto! - Montéquio! - Vejam que maldição recaiu sobre o ódio de vocês, que até mesmo os céus encontraram meios de matar, com amor, as vossas alegrias! E eu, por fechar meus olhos às vossas discórdias, também perdi dois de minha família. Fomos todos punidos.
No pátio, abaixo da janela de Julieta.

Por fim temos a fala dos dois chefes das famílias, expressando arrependimento e mandando construir estátuas de ouro para as pobres vítimas dessas inimizades. Eu estive em Verona. Estive no pátio, abaixo da janela, onde Romeu e Julieta trocavam as suas juras de amor. Estive com o mais famoso casal de amantes infelizes, que o gênio de Shakespeare legou à humanidade, junto com uma mensagem de paz e de entendimento. E, sem nenhuma condenação moral.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Como me tornei estúpido. Martin Page.

Deste livro eu guardo a origem. Ele tem uma dedicatória. "Ao grande Pedro Elói. Que você continue  com essa cabeça privilegiada. Um abraço".Júlio Hey. Me lembro perfeitamente do Júlio, um aluno do curso de Publicidade e Propaganda. Ao Júlio, um duplo agradecimento; pelo livro e pelo elogio. O livro em questão é Como me tornei estúpido, do escritor francês Martin Page. A edição francesa data de 2001 e a brasileira, pela Rocco, é de 2005. A tradução é de Carlos Nougué.
Tornar-se estúpido não foi uma tarefa tão simples. Uma vez tocado pela consciência...

O livro tem uma bela frase em epígrafe. É uma citação de O crime de lord Arthur Savile, de Oscar Wilde. "Ele lhes enviava o que eles não conheciam". Seria isso uma coisa perigosa? Creio que sim. Esse perigo está expresso também através de uma citação do livro do Eclesiastes: "Quem tem a sua ciência aumentada, este também tem aumentada a sua dor". Bastariam essas duas frase para um belo tratado sobre educação. Mas, Antoine, o jovem do título do livro, não fora prevenido dos perigos do estudo. Vejamos: "Mas, não tendo tido jamais a felicidade de frequentar o catecismo com as outras crianças, não foi prevenido dos perigos do estudo. Os cristãos tem a sorte, quando jovens, de ser postos em guarda contra os perigos da inteligência; por toda a vida saberão distanciar-se dela. Bem-aventurados os pobres de espírito".

Quem era Antoine? Na orelha do livro encontramos uma explicitação: "Antoine, o protagonista deste romance, é um rapaz como muitos outros. Não gosta de explorações colonialistas, não gosta que lhe obriguem a estudar assuntos desinteressantes, odeia burocracia e todas as suas máscaras.

Traduzir do aramaico e conhecer a fundo o cinema de Sam Peckinpah e Franz Capra, no entanto, não o levaram muito longe. Por isso um belo dia, Antoine anuncia a seus amigos mais queridos - Ganja, Charlotte, Aslee e Rodolphe - um plano perfeito. Investir na idiotice, como forma de sobrevivência.

 Depois de tentar o alcoolismo e o suicídio, Antoine está convencido de que só a estupidez lhe permitirá ser plenamente aceito pela sociedade em que vive.

E o que pode ser mais estúpido que ganhar dinheiro, muito dinheiro, e gastar em bens de consumo inúteis?

Manipulando imagens nonsense deliciosas, verdadeira homenagem a mestres do surrealismo e do humor francês, como Boris Vian, Alfred Jarry e Eric Satie, Martin Page oferece a seus leitores um banquete para a inteligência. Um livro leve, fácil de ler, enganosamente simples, e rico, repleto de minuciosas citações e piadas ao pé do ouvido. Um livro feito sob medida para todos os Antoines que existem por aí.

Os dois capítulos da resistência à idiotia são extraordinários. A tentativa de se tornar um alcoólatra ou um suicida são dois capítulos de um humor extraordinário. Ele faz cursos, com salas apropriadas à finalidade. Creio que conseguem imaginar! Já o caminho para a idiotice foi fácil e no caso de Antoine, isso foi facilitado por um amigo de infância, que se tornara empreendedor, um rico corretor de valores, que em agradecimento por tê-lo lançado nos caminhos do sucesso, o acolhe. A idiotia lhe vem junto com o dinheiro. Vida vazia, vida burguesa, vida de bens de consumo fúteis e, por óbvio, belas mulheres, carrões, roupas de marca, Nikes e McDonalds. E nenhuma preocupação ambiental. Doses de Felizac não podem faltar. Antoine, no entanto, tem resistências e recaídas.

Nessa sua nova vida plena ele sofre um sequestro. São os seus amigos de infância. O valor do livro está, obviamente, na sua ironia. O drama da existência vazia de significados e de todas as imagináveis e inimagináveis fugas possíveis e impossíveis. O drama da existência humana, narrada por um jovem antropólogo.

Na orelha da contracapa lemos sobre o autor: "Martin Page nasceu em 7 de fevereiro de 1975 e estudou antropologia. Convencido de que a escrita não exige a convivência em ambientes hostis, Martin Page tenta, até hoje, e desesperadamente, levar uma vida tranquila". Na contracapa um elogio do Le Monde: "Martin Page fez um romance coberto de razões e que revela um escritor que domina seu estilo tão bem quanto seu humor fino e sutil". Seria essa sua escrita uma sessão de psicanálise?

quarta-feira, 1 de julho de 2020

O amante detalhista. Alberto Manguel.

Devo ter comprado O amante detalhista, de Alberto Manguel numa das liquidações das Livrarias Curitiba. Conhecia Alberto Manguel pelo seu maravilhoso livro Uma história da leitura, e isso, a referência ao autor e, mais a edição pela Companhia das Letras foram os motivos que levaram à compra. O livro é de 2005 e o comprei em 2011. Como eu ainda trabalhava nesse tempo, o livro ficou na lista de espera.
O amante detalhista. O livro de Alberto Manguel, com tradução de Jorio Dauster.

O livro está dividido em duas partes, a um e a dois. São os dois momentos da história de Anatole Vasanpeine, um personagem absolutamente peculiar, cuja história é narrada em "Le cas Vasanpeine", livro de Jean-Luc Terradilhos, de setembro de 1999. A essa narrativa Manguel faz os seus acréscimos. A narrativa ocorre na cidade de Poitiers, apresentando o seu retrato ao final do século XIX e início do XX.  Vasanpeine trabalha numa casa de banhos, no único emprego de sua vida. 

A narrativa de sua formação é muito interessante. O padre desiste de lhe ensinar o catecismo, em função de que o seu aluno não consegue enxergar as obras invisíveis de Deus. O padre chega a uma conclusão. Ele não está ali para ser questionado, ele está ali para ensinar. Um belo conceito de educação e que bem mostra que Vasanpeine era alguém um tanto diferente. Não aceitava facilmente as coisas. Méritos para o nosso personagem.

Vasanpeine terá um único emprego. Trabalhar na casa de banhos, cobrando ingressos. A história dos banhos, dos hábitos de higiene e o seu crescimento após a Revolução Francesa passam a ser relatados. A história de vida do nosso personagem muda quando um japonês monta na cidade um sebo, que além de livros trabalha também com fotografia. Anatole Vasanpeine se dedicará ao ofício, mas nunca se interessou por uma fotografia do objeto por inteiro, apenas por detalhes, como as mãos ou os dedos que lhe pagavam os ingressos. Está aí O amante detalhista. Sem ser um voyeur, passa a observar os frequentadores do estabelecimento. A sua câmara vai se aperfeiçoando com a evolução da técnica. Quando o japonês morre, já adquirira todas as técnicas da fotografia. Nunca fora flagrado em seu trabalho de observações.

Na parte dois, Vasanpeine se torna um ser normal e se apaixona por um ser, que passa a perseguir e a observar por inteiro. Segue-o pela cidade, até que ele cai de um posto de observação seu, com o disparo do flash de sua máquina. As intenções de Manguel com a história são complexas. Deixo o relato dos dois parágrafos finais do texto, quando ferido pela queda, está em seu quarto laboratório.

"Foi acordado pelos latidos do cachorro. Levantou-se e olhou a fotografia na luz intensa do meio-dia. Amassado e rasgado, um dos cantos dobrado, aquele pedaço de papel lustroso não era, ele sabia agora com absoluta certeza, a imagem da criatura amada. Não era nem mesmo a imagem de uma imagem. Era uma impostura, uma falsa recordação, um espantalho sem qualquer faísca do divino, sem qualquer conotação amorosa, em nada suscetível de espelhar a paixão ou o desejo que sentira. Tratava-se de algo vazio, frouxo, incapaz até de afugentar suas sensações doentias de vergonha e ridículo.  Ele fracassara, mas não como em todas as outras vezes. Agora fracassara para sempre.

O cachorro continuava a ladrar. Da gaveta da mesinha-de-cabeceira, Vasanpeine tirou a caixa de fósforos que guardava, junto com uma vela, desde os tempos de criança, antes que instalassem a eletricidade na casa. A colcha da cama era feita de algodão e pegou fogo com facilidade. O papel lustroso demorou um pouco mais, porém logo eclodiu em vivas chamas, emitindo um cheiro acre. As fotografias no chão queimaram a seguir, depois o tapete. O quarto se encheu de fumaça. Quando o fogo o atingiu, Vasanpeine havia tombado sobre a escrivaninha, misericordiosamente já inconsciente". É, o ser humano é realmente complexo, ainda mais no imaginário dos escritores. E uma dica final, da contracapa do livro.

"Logo após a Primeira Guerra Mundial, a pacata Poitiers torna-se laboratório para os experimentos de Anatole Vasanpeine, empregado da casa de banhos local. Com zelo e malícia, Alberto Manguel reconstrói o perfil desse personagem insatisfeito com as pessoas e seus corpos, que descobre na câmara fotográfica o veículo perfeito do amor que volta às partes do corpo. Fixados na imagem, dedos, unhas, comissuras e protuberâncias convertem-se em seres autônomos, livres de seus donos. Não se trata, porém, de um voyeur ou fetichista: Vasanpeine é um 'filósofo natural', sequioso de livrar o desejo da frustração e da melancolia que assediam o ato amoroso - até que uma criatura singular, fragmentária e indivisível, venha frustrar seu empenho e devolvê-lo ao tormento erótico".