terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

4. A ditadura encurralada. O sacerdote e o feiticeiro. Elio Gaspari.

Este volume IV, da coleção de cinco, de Elio Gaspari sobre a Ditadura Militar é uma radiografia profunda do que foi o governo do general Ernesto Geisel. Ele tem por título A ditadura encurralada - O sacerdote e o feiticeiro. Então a pergunta óbvia a se fazer é: quem a encurralou? A resposta é longa e ocupa todas as 527 páginas do livro. Geisel não tem nenhum alívio ao longo de seus cinco anos de governo (1974-1979), a começar pela Opinião Pública, que se manifesta de forma devastadora com as eleições de 1974. Este fato reascende a "linha dura" e a "anarquia militar" que busca endurecer o governo contra os "comunistas" que atentam permanentemente contra a ordem. Só que eles, como organização, já haviam sido praticamente exterminados.

A ditadura encurralada - O sacerdote e o feiticeiro. Elio Gaspari. Intrínseca . 2014. O quarto volume da trilogia.

Se observarmos bem, na apresentação que Elio Gaspari faz de seus livros, ele nos conta que começou a escrever um ensaio que inicialmente deveria ter em torno de cem páginas. O tema central seria a atuação de Golbery e Geisel em 1964 e à frente do governo entre os anos de 1974 a 1979). O ensaio tinha até título O sacerdote (Geisel) e o feiticeiro (Golbery). Enquanto o volume III mostrou a ascensão da dupla ao poder, este volume IV mostra os dois, no exercício do poder. Creio que a principal observação a fazer é a de que Geisel efetivamente assumiu o poder, ele governou. Pouco deixou se influenciar. É, se o foi, por muito poucas pessoas. Muitos foram os seus adversários, pessoas poderosas, a começar pelo irmão Orlando e, especialmente, os promotores da "anarquia militar", que queriam endurecer o regime para nele se perpetuar. Geisel tinha a percepção clara de que teria que redemocratizar o país, pelo jogo do endurece e afrouxa, da sístole e da diástole, da forma lenta, gradual e segura com que se faria esse processo. Geisel, em seu governo, não abriu mão de governar sem os poderes conferidos pelo AI-5.

Quem mais atormentou o seu governo foi a "anarquia militar" e o "porão", que teve em Sylvio Frota, ministro do exército, o seu principal nome. A tortura como método de investigação, a tortura até a morte e a força de nomes de triste memória ganharam muita força, nomes como Brilhante Ustra, Fleury, Curió, Erasmo Dias, entre outros. No período existe um endurecimento das ditaduras militares na América Latina, onde, pela Operação Condor, se forma uma espécie de "esquadrão internacional da morte". Apontaria ainda dois momentos da conjuntura que mudaram bastante o cenário. No nível internacional, a eleição de Jimmy Carter e a sua defesa dos direitos humanos, enquanto que no cenário nacional, os partidos comunistas perdem a hegemonia nos movimentos populares. É o surgimento de um novo sindicalismo no ABC paulista. Também no meio estudantil as siglas comunistas perdem muito de sua influência. Mas a grande conclusão a que Elio Gaspari chega é a de que "Ernesto Geisel restabelecera a autoridade constitucional do presidente da República sobre as Forças Armadas". É esta a frase de encerramento do livro.

Mais uma vez, o livro é longo. São 527 páginas, divididas em quatro partes, a saber: Parte I. A crise de 1975; Parte II. O murro na mesa; Parte III. A cama de Alice; Parte IV. A hora de Ernesto Geisel. Embora eu tenha vivido intensamente esses fatos, devo reconhecer o quanto deles a gente estava afastado. Eram tempos de muita censura e cerceamento da liberdade de expressão. É impressionante o nível de fofocas que tomava conta das nossas Forças Armadas. O livro termina com uma breve nomenclatura militar, uma cronologia, fontes e bibliografia, créditos das imagens e agradecimentos. E mais uma vez, dois blocos de fotografias históricas aparecem em encartes.

A parte I, A crise de 1975, tem nove capítulos: 1. Recuo, rápido, gradual e seguro. É uma referência a uma trégua com a imprensa liberal, pelo abrandamento da censura prévia. Por outro lado, Sylvio Frota adota a posição de "patrono do porão". Esse fantasma acompanha todo o seu governo; 2. A ópera de Salzburgo. É um dos mais belos capítulos. Mostra a relação entre governo e empresários. Há mudanças na política econômica. Delfim será contido. Geisel mostra suas inclinações econômicas pró estatização. Há aqui uma bela referência às teorias econômicas internacionais, às quais dedicarei um post especial. Uma disputa entre a social democracia de Gunnar Myrdal (Nobel de economia - 1974, dividido com Hayek) e o neoliberalismo emergente de Friedrich Hayek. Salzburgo é uma referência a um encontro de empresários na cidade de Mozart, no país de Hayek. 3. O deslocamento de Golbery. É lançada a "novela da traição", que seria encabeçada por Golbery em favor do "comunismo internacional", numa trama da "turma do porão", contra a abertura política; 4. Uma zona de sombra. Golbery enfrenta sérios problemas de visão. Faz tratamento em Barcelona e perde uma das vistas. A "turma do porão" trama a sua morte. Geisel o mantém no Poder; 5. A comunidade da indisciplina. É uma relação à comunidade das informações que se transforma num sistema policialesco de controle interno. Impera a desordem e a indisciplina; 6. Com as tropas de Fidel. Aborda as relações internacionais no governo Geisel. Acordo nuclear com a Alemanha, a relação com as ex-colônias portuguesas na África, especialmente a complicada relação com o MPLA (Angola); 7. Mataram o Vlado. Uma referência ao jornalista Vladimir Herzog e seu suposto suicídio no DOI, do II Exército, ao ato ecumênico da Praça da Sé, ao discurso de Leite Chaves e a promessa de caça aos comunistas pelo coronel Erasmo Dias. Situação tensa. Vejam a frase do Senador paranaense "...Hitler, quando desejava praticar atos tão ignominiosos como os que estamos presenciando, não se utilizava do Exército, mas sim das forças da SS"; 8. "Merda! Merda!" Geisel reage a Sylvio Frota, que, em festa, recebe vivas ao futuro presidente. "Merda"! é a reação de Geisel ao seu ministro. 9. Mágica besta. Frota estará para Geisel, assim como Costa e Silva estivera para Castello Branco, um obstáculo para a abertura política. Ocorre uma outra morte no DOI do II Exército, o operário Manoel Fiel Filho, também acusado de suicídio. Haveria reações.

Na Parte II, O murro na mesa, temos cinco capítulos: 1. Uma noite de cão. É a noite passada por Geisel, após ficar ciente de nova morte sob a responsabilidade do II Exército. Teria que tomar providências. Ocorre a demissão do comandante do II Exército e do CIE, generais Ednardo Mello e Confúcio Avelino. Geisel encarava a situação, não pela violação dos direitos humanos mas como violação da disciplina militar. Muito triste; 2. A campanha do regresso. Embora Geisel estivesse comprometido com Figueiredo na sucessão presidencial, "o porão", insistia com a candidatura de Sylvio Frota. Pesam contra Figueiredo a sua saúde e a falta de uma estrela; 3. O terror de casa. É o recrudescimento da "direita explosiva". Os remanescentes dos tempos de Costa e Sila se insurgem e  tornam "o porão" extremamente agressivo, com bombas na OAB, ABI e novas agressões, sequestros e torturas. A indisciplina grassa solta nos quarteis e provocam o terrorismo militar de 1976; 4. O buraco negro. Diante da economia, Geisel realiza viagens internacionais (França e Inglaterra) e obtém financiamentos fáceis. Geisel promove uma centralização absurda em seu governo, se preparando para enfrentar novas eleições; 5. Abaixo a ditadura. A morte de expressivas personagens da política brasileira faz a população brasileira voltar a aspirar a democracia. São as mortes e os enterros de JK e Jango. É lançada a campanha da ANISTIA.

Na parte III, a cama de Alice, tem sete capítulos: 1. A surpresa de Alice. A partir do romance de Lewis Carroll, uma pergunta pela identidade. As oposições lançam o "Biotônico Vitalidade", que "não deve ser ministrado àqueles que propõem a morte como única forma de vida". Ocorrem significativas mudanças no mundo estudantil e operário brasileiro. Os partidos comunistas deixam de ser a bússola que os orientava. Surge um novo sindicalismo. Esta parte também merecerá um post à parte: 2. A tortura da pessoa jurídica. Também um belo capítulo, que por óbvio, pela força do título, mostra as relações do governo com o empresariado. São apresentadas três fortes características de Geisel: autoritarismo, estatismo e nacionalismo; 3. Um país empacotado. É o terrível "pacote de abril" de 1977, com a emergente figura do "senador biônico"; 4. Bye, bye, brother. Ao mesmo tempo em que recrudescem as ditaduras militares na América Latina, com a formação de um "esquadrão internacional da morte", com a Operação Condor, Jimmy Carter se elege presidente dos USA, com a bandeira da defesa dos direitos humanos. Carter manda sua mulher, Rosalynn, discutir política com Geisel. Imaginem a cena, qualificada como "70 minutos de desentendimentos"; 5. A rachadura do Planalto. A crise sucessória se agrava. Hugo Abreu se aproxima de Frota; 6. A geração de 1977 vai para a rua. São os novos movimentos estudantis nas universidades brasileiras. Geisel não usa o decreto-lei 477, o AI-5 da educação; 7. O jogo da tensão. Ela tem vários focos: a organização da campanha de Sylvio Frota e a divisão nas Forças Armadas, o reaparecimento do movimento estudantil e o áspero discurso e a cassação do deputado Alencar Furtado (as viúvas do talvez). Geisel, mais uma vez promete demitir o ministro.

Na parte IV, temos quatro capítulos: 1. Figa mostra um rosto. Sobre o "primitivo" general Figueiredo é construída uma imagem palatável de presidente da República; 2. Habeas Faoro. A "turma do porão" radicaliza a política na perseguição aos estudantes (PUC/SP). Faoro aparece para, em nome da OAB negociar a volta à democracia. 3. "Um dos dois vai ter que sair". E saiu o Sylvio Frota. Foi a forma de barrar o avanço de sua candidatura; 4. Um saiu. Foi no dia 12 de outubro de 1977. Em menos de cinco minutos de audiência a questão estava consumada. Frota não reagiu. A ele permaneceram fiéis apenas Brilhante Ustra e Curió). O caminho do general "primitivo" para a presidência estava aberto. É o que veremos no quinto e último livro da série.

Vejamos a resenha dos três volumes anteriores:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/1-ditadura-envergonhada-as-ilusoes.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/a-ditadura-escancarada-as-ilusoes.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/3-ditadura-derrotada-o-sacerdote-e-o.html

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Uma aula de política - de governabilidade. Do livro de Elio Gaspari. 3. A ditadura derrotada.

O volume III da coleção de Élio Gaspari sobre a ditadura militar - A ditadura derrotada - O sacerdote e o feiticeiro contém uma preciosidade em termos de política, de uma aula sobre a governabilidade, de como se manter no poder. Esse volume abrange, desde a escolha de Geisel para a sucessão de Médici, até o final de seu primeiro ano de exercício no poder, passando pelos preparativos e temores em assumir o governo. Tempos de encrencas e de dificuldades. No cenário internacional há o estouro dos preços do petróleo e no cenário interno as insatisfações com a economia começam a se manifestar. A "anarquia militar" volta a pressionar em favor do endurecimento do regime. Deixo o link da resenha: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/3-ditadura-derrotada-o-sacerdote-e-o.html

O que efetivamente me chamou a atenção nessa leitura, a tal da aula de governabilidade, apontada no título, está contido na parte II do livro (O caminho de volta), no capítulo que versa sobre as primeiras encrencas que Geisel enfrentaria ao assumir o governo, assumi-lo de verdade. Lembrando que Geisel, para governar, não abriu mão do poderoso e terrível instrumento do AI -5, que tinha prazo de validade por tempo indeterminado. Mesmo assim, Geisel tinha medo. Vejam essa expressão do seu medo: "O pior é que chega um dia em que o sujeito transige para não ser deposto".

A ditadura derrotada - O sacerdote e o feiticeiro. Elio Gaspari. Esta passagem está no terceiro volume.

Geisel tinha certeza absoluta de que chegara ao poder por forças excepcionais, jamais chegaria pelas vias normais, pela via da democracia, por um processo de eleições diretas; "Só num país como o Brasil na atual situação eu poderia chegar a presidente da República", afirma. Com relação à permanência no poder repetia uma frase de Rodrigues Alves: "Quem senta nesta cadeira não perde". Mesmo assim temia e temia muito.

As frases mais preciosas sobre esta situação estão na página 225, onde ele enuncia três possibilidades efetivas de perda do poder: "Ao assumir uma função dessas de presidente, a primeira principal preocupação é assegurar os cinco anos. [...] Quer dizer, não ser posto para fora. 

Um presidente perde o poder na esteira de três tipos de crise: uma incompatibilização total com a opinião pública (caso de Jango), um conflito decisivo com as forças políticas (em parte o caso de Jânio); mas essas duas coisas hoje em dia seriam difíceis; resta uma confrontação com as forças armadas, aí sim, pode acontecer". E... segue a frase que já destacamos: "O pior é que chega um dia em que o sujeito transige para não ser deposto". O temor lhe vinha por parte das próprias forças que o levaram ao poder (a anarquia militar). Quanto às forças políticas não precisaria ter nenhuma preocupação. Elas estavam completamente domadas.

Geisel era diferente de Médici. Médici deixou governar e Geisel queria efetivamente governar. Tinha medo do seu gênio, de sua irredutibilidade: "Há o risco de um grande fracasso. Eu não sou flexível o suficiente" (Página 227). Vejam bem, temores de governabilidade, mesmo com os poderes do AI- 5 em mãos. Governar exige uma habilidade excepcional.

Ao ler estas páginas me lembrei muito de 2.016, do golpe de Estado branco sofrido pela presidente Dilma Rousseff . Um golpe midiático (a incompatibilidade com a opinião pública, devidamente trabalhada pela mídia em consórcio com parte do Poder Judiciário, da operação da lava-jato), parlamentar (incompatibilidade com a classe política, dominada pelo Centrão e a sua maneira peculiar de agir, domadas  ou abastecidas com dinheiro público). As forças armadas devem ter ficado na surdina, espreitando a situação. Todas as instituições estavam contra uma presidente, que não cometeu improbidades, "com Supremo e com tudo". Ah, a inflexibilidade! Não transigir. E onde ficam os princípios?

Quantas possibilidades de análise política! E se o LULA não tivesse sido impedido para assumir a Casa Civil, a sua habilidade política, ou a sua capacidade de transigir, teria evitado o golpe? E agora, no atual cenário da sucessão de 2022, como explicar a aproximação que LULA está buscando com Geraldo Alckmin, como seu candidato a vice-presidente? Não é a tal da governabilidade que está em jogo? Ah Maquiavel. Vamos ler O Príncipe, e mais ainda Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. O exercício da política, e, acima de tudo, da tal da governabilidade é um ato de suprema habilidade na capacidade de transigir, de ser flexível e de fazer uma grande leitura da realidade em que se está inserido.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

3. A ditadura derrotada. O sacerdote e o feiticeiro. Elio Gaspari.

Santo Deus! Quanta encrenca. Creio que o tema deste terceiro volume foi a razão de ser dos cinco volumes publicados. Na apresentação do primeiro, Elio Gaspari nos conta de sua pretensão de escrever sobre Geisel e Golbery, sobre o sacerdote e o feiticeiro. O tema seria sobre o envolvimento deles com a "Revolução", em 1964 até a articulação para uma saída honrosa do golpe, a partir do governo em que foram os protagonistas. Tinham a clara percepção de que um golpe militar não se sustentaria por um longo tempo. Tal é a rede de intrigas, do fogo amigo, da chamada "anarquia militar". Deixo o link dos livros anteriores:http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/1-ditadura-envergonhada-as-ilusoes.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/a-ditadura-escancarada-as-ilusoes.html


A ditadura derrotada - O sacerdote e o feiticeiro. Elio Gaspari. Intrínseca. 2014.É o terceiro dos cinco volumes.

O terceiro volume, da coleção de cinco, dos livros de Gaspari, tem por título A ditadura derrotada - O sacerdote e o feiticeiro. O sacerdote seria uma referência a Geisel e o feiticeiro a Golbery. Na explicação que antecede os capítulos, o livro é apresentado em sua centralidade e delimitação: uma saída para a ditadura, que se agravara com o AI-5, os encontros de Geisel com Golbery, os seus desentendimentos com Costa e Silva, a indicação de Geisel para a presidência e a sua condução à frente do poder, em seu primeiro ano de governo. O volume termina com a grave crise política, com a perda das eleições em 1974 e com a crise militar, liderada pela turma da repressão, com a prisão da professora Maria da Conceição Tavares, sem o conhecimento da mais alta hierarquia militar.

O livro está dividido em quatro partes: Parte I: O sacerdote e o feiticeiro, sendo que cada um tem uma espécie de sub parte; Parte II. O caminho de volta, também dividido em duas partes: a costura e o poder; Parte III. No Planalto; Parte IV. A derrota. O livro também é longo, são 544 páginas. Mais uma vez tem dois blocos de fotografias históricas, a apresentação de uma nomenclatura militar, de uma cronologia, das fontes, crédito das imagens e agradecimentos.

A parte A, da parte I., com o título Geisel, o sacerdote, tem seis capítulos, a saber: 1. Moita, é o alemão. São contados os bastidores da indicação de Geisel na sucessão de Médici, além da apresentação de dados biográficos seus; 2. Uma dor que não acaba. Relata a morte do filho num acidente em linha de trem, em Quitaúna, região de Osasco, além de novos dados de sua biografia; 3. O perigo vermelho Mostra a continuidade da sua trajetória militar, com destaque para a eleição e a renúncia de Jânio Quadros. Mostra ainda o cenário da política internacional, com a Bipolaridade e a Guerra Fria, bem como o seu inconformismo com a intelectualidade toda ela pendendo para o lado comunista, como Picasso e Charles Chaplin e os brasileiros, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Drummond, Vinícius... Geisel defende o monopólio estatal da Petrobras, empresa da qual será presidente; 4. Um general da (i)legalidade. É relatada a crise política após a renúncia de Jânio e a posse de Jango, sob o regime parlamentarista. Os irmãos Geisel queriam o bombardeio do Palácio do Piratini, onde Brizola comandava a Rede da Legalidade. 5. 1964. Mostra a sua  atuação em relação ao golpe de 1964, do qual foi conspirador e defensor de seu aprofundamento. 6. O pijama togado. Volta à ativa quando já era considerado "fósforo riscado". Atua com dureza , como ministro do STM.

A parte B, da Parte I, com o título Golbery, o feiticeiro, tem cinco capítulos. 1. Criptocomunista. Trata-se de uma mini biografia, mostrando as suas origens na cidade de Rio Grande, a sua biblioteca de dez mil volumes e a sua aproximação com o marxismo-leninismo. Era uma leitor voraz. Mostra ainda o seu ingresso no exército; 2. O escriba. Com a Guerra Fria e a Bipolaridade ele muda de lado e se torna um dos idealizadores do 'festival de redundâncias", que foi a ESG. Parte para os estudos de geopolítica e se familiariza com termos como guerra global e permanente. Torna-se o intelectual do exército e o writher de seus principais manifestos; 3. Pés de veludo. É uma referência à sua forma de atuação discreta e sempre imperceptível. Isso o leva ao Serviço Nacional de Informações; 4. O paliteiro do IPÊS. Ele agrega e direciona o empresariado brasileiro para o anticomunismo, com a criação do IPÊS. Segundo Gaspari, os empresários estavam lá e o dinheiro era abundante. Também havia financiamento dos USA. Todos vinham comigo "palitar os dentes". 5. No Palácio. Isso ocorre pela terceira vez, agora com Geisel.

A parte II, O caminho de volta, foi para mim, a parte mais interessante do livro. Ela também se divide em duas partes: Parte A - A costura (a preparação para assumir o governo) e parte B - O poder (o seu primeiro ano no exercício do poder). A parte A tem cinco capítulos: 1. O peso do irmão. Orlando Geisel foi decisivo na sua indicação junto ao presidente Médici. Também o cacifava o seu posto na presidência da Petrobras; 2. A turma da Candelária. Uma referência ao local do escritório onde se reuniam, nas proximidades da famosa igreja. Aí se reunia a turma da "linha dura", que defendia o uso da repressão contra o "terror". Neste local começaram os preparativos para o governo. 3. Um voto, o voto. Eram três as pessoas decisivas no processo sucessório: os irmão Geisel e Médici, mas o decisivo era o Orlando; 4. Primeiras encrencas. São quase trinta páginas primorosas. Geisel teria que aprender a transigir para não ser deposto. Ele temia o fracasso de seu governo. O principal obstáculo era o fogo amigo, vindo das forças armadas. Este capítulo merece um post especial. É uma lição de política, de governabilidade, mesmo em tempos de pleno poder, sob o instrumento do AI-5, do qual ele não abriu mão; 5. A grande encrenca. Ela veio da conjuntura externa e afetou a economia. O estouro dos preços do petróleo.

A parte B, da parte II, sob o título O poder, tem três capítulos: 1. A equipe. Mostra o delicado processo da formação do ministério, que pretendia ser de notáveis; 2. Jogo de fichas. Mostra as duas surpresas na formação de seu ministério: a de Armando Falcão na Justiça e de Azeredo da Silveira, nas Relações Exteriores. Seriam os ministros indigestos. Tinha dois grandes problemas a lhe esperar: as liberdades individuais e a relação com a Igreja progressista; 3. "Esse troço de matar". É expressiva a frase de seu ministro do exército, Dale Coutinho: "Começou a melhorar quando começamos a matar". Uma sinalização clara de que a censura e a repressão continuariam. A abertura seria lenta.

A parte III, No Planalto, tem sete capítulos e tem, como um título geral, a seguinte afirmação: O regime é implacável. 1. A escolha essencial. Essa escolha é uma referência a João Batista Figueiredo; 2. Um mundo difícil. Trata-se de uma bela análise de conjuntura do panorama internacional (crise do petróleo, os problemas de Nixon e um panorama dos vizinhos latino americanos); 3. A costura da púrpura. A púrpura remete à relação com a Igreja, cada dia mais complicada São quatro descendentes de alemães em campos opostos: Os irmãos Geisel no governo e os primos Lorscheider na CNBB; 4. O porão intocado. Em outras palavras, a repressão (censura e tortura) continuam. O inimigo da vez é o Partidão. Surge também uma outra voz, no meio intelectual, o CEBRAP. Geisel é ameaçado pelo "porão"; 5. Interlúdio pessoal. Dois temas são abordados: a relação familiar e os próximos ao poder, ou seja, Geisel, Golbery, Heitor F. Aquino (a quem são devidos cadernos e mais cadernos de anotações) e a espécie de relação, quase filial, com Humberto Barreto; 6. O regime é implacável. Após o vencimento de dez anos das primeiras cassações Geisel age praticamente sozinho nas principais indicações para o governo, como também o afastamento de pessoas indesejáveis, como a de Delfim Netto, no governo de São Paulo; 7. O pé no acelerador. Entram em cena os petrodólares e o endividamento externo para dar continuidade ao processo de crescimento econômico. Entra em cena também o segundo PND, uma peça publicitária, de ficção, que não precisaria ser cumprida.

A parte IV, A derrota, é breve. Tem apenas dois capítulos: 1. "É isso e pronto". A censura e a repressão continuam correndo soltas. Há a proibição de abordar a crise de meningite em São Paulo e o deputado baiano, Chico Pinto é preso, por seis meses, por haver criticado o ditador chileno, Pinochet.; 2. A autonomia sepultada. À acachapante derrota eleitoral de 1974 se somam as insubordinações nos quarteis. Maria Conceição Tavares é presa sem haver comunicação às instâncias superiores do governo. Em suma, o povo está insatisfeito e essa insatisfação também está presente nos quarteis. Geisel está diante de uma encruzilhada. Terá que tomar atitudes perante a situação. O volume IV, nos aguarda.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

2. A ditadura escancarada. As ilusões armadas. Elio Gaspari

Seguramente um dos livres mais tristes e deprimentes que eu já li. O título foi muito bem escolhido. A ditadura escancarada. Isso ocorria de um lado, do lado oficial. Enquanto isso, do outro lado, havia as ilusões armadas. Militares que se transformaram em guerrilheiros e jovens estudantes sacrificaram  suas vidas pelos seus ideais, de verem um país socialmente justo. O marxismo lhes dava os fundamentos teóricos. São os anos de chumbo, que se iniciaram com o AI-5, de 13 de dezembro de 1968, e que perdurou por todo o governo do general Emílio Garrastazu Médici, indo além, durando a eternidade de dez anos. Médici simplesmente burocratizou a ditadura, normalizando-a. Esta ditadura foi acompanhada da tortura, pelo simples motivo de que ela funcionava, ela dava resultados. As torturas levavam às confissões, que facilitaram o combate ao "terror".


A ditadura escancarada. As ilusões armadas. Elio Gaspari. Intrínseca. 2014. É o segundo dos cinco volumes.

Os piores acontecimentos desse período foram, seguramente, o surgimento dos esquadrões da morte em São Paulo e as milícias no Rio de Janeiro. Uma aliança de militares e policiais com o crime organizado. Alguns nomes se tornaram triste e vergonhosamente célebres. Entre eles, o delegado Fleury, o coronel Brilhante Ustra, o capitão Guimarães e, ainda, na guerra do Araguaia, o major Curió. Estes nomes são idolatrados e há enormes esforços para que pessoas herdeiras das ideias do grupo retornem ao poder de forma ditatorial. Que triste momento histórico! O que não foi este Golpe de Estado "com Supremo e com tudo", de 2016? E esperanças... para 2022. Para uma sequência destes estudos deixo a resenha de "A República das milícias - dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/02/a-republica-das-milicias-dos-esquadroes.html

O livro é longo. Tem 526 páginas. Está dividido em quatro partes, mais apêndice, nomenclatura militar, cronologia, bibliografia, fontes e crédito de imagens. As imagens estão em dois blocos, com fotografias de imenso valor histórico. Lembrando que o Primeiro volume da coleção, termina com a chamada "Missa Negra" do AI-5. Deixo a resenha: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/02/1-ditadura-envergonhada-as-ilusoes.html

As quatro partes do livro vem precedidas de uma nota explicativa, em que diz que foram os "anos de chumbo", do aparecimento da TV em cores, da Copa de 1970, do "milagre econômico" e do pleno emprego. Ironicamente o autor diz que houve mais chumbo do que milagre. As quatro partes tem os seguintes títulos: Parte I. O choque; Parte II. A derrota; Parte III. A vitória; Parte IV. A gangrena. 

A primeira parte mostra o aparelhamento da ditadura e da sua normalização burocrática, por um Ato Institucional com prazo de validade indeterminado. Plenos poderes. Poderes ditatoriais. Poderes para matar. Esta primeira parte (O choque) está dividida em oito capítulos, a saber: 1. A praga (a corrosão das instituições) sob a justificativa que vem desde o tempo dos Romanos: "Contra a Pátria não há direitos". A tortura ganha os beneplácitos em todos os campos institucionais; 2. A dor (tortura). Ela é adotada porque funciona. O torturado fala. "Deus aqui - é nós". A certeza da impunidade; 3. A "tigrada" dá o bote. São mostradas as principais organizações que optaram pela luta armada, bem como os seus mecanismos de funcionamento; 4. A Operação Bandeirante, Oban. É organizada uma central de combate ao terror no II Exército, com amplo financiamento por parte da elite empresarial paulista. Também o DOPS e a Polícia Civil entram em cena, esta com o delegado Fleury; 5. O barítono se cala (a doença de Costa e Silva e o seu afastamento). A doença do general é tida como uma das maiores fraudes médicas da nossa história (Será que outra não poderá surgir?). Os ministros militares formam uma junta governamental, o mais folclórico dos governos, segundo o autor; 6. O grande golpe (o sequestre de Charles Elbrick, o embaixador americano); 7.Caos de estrelas. Depois da mais grave crise militar, Médici é anunciado como o novo general presidente; 8. Milito, Médice, Médici (Não podia ser Garrastazu por causa da rima). Ele foi o grande produto da anarquia militar. Teve em Orlando Geisel o seu fiel escudeiro.

A parte dois (A derrota) é mais breve. São cinco capítulos. A derrota do título se refere aos guerrilheiros da luta armada e a sua perseguição. 1. Marighella, início e fim. Sua história é contada. É mostrado o "mito" e o seu manual de guerrilha, bem como a sua relação com os dominicanos. Mostra ainda, Fleury e as diferentes versões da captura do "comandante"; 2. A história dos mortos. Relata a história de dois torturados até a morte: Chael Schreier e Mário Alves; 3. DOI. Nada ou tudo a ver com o verbo doer. É a sigla símbolo da dor infligida pela violência policial. Mostra a importância de Orlando Geisel com a repressão militar. Houve uma verdadeira delinquência com a soma de torturadores e contraventores. As mais sofisticadas técnicas mundiais de tortura foram trazidas da Europa (França - Argélia e Inglaterra - IRA).; 4. A ratoeira (A ratoeira armada por Médici). Mostra as 18 organizações da Luta Armada. Lutavam por governos populares revolucionários e não democracias; 5. O milagre e a mordaça. O milagre da economia e a mordaça da censura à imprensa. Os jornais "nanicos", com destaque para O Pasquim e Opinião.

A parte três (A vitória) tem seis capítulos. 1. Uma elite aniquilada. A ditadura, para se fortalecer, mutilou as mais diversas instituições, como o Parlamento, o Judiciário, as Universidades e todas as lideranças populares. Como oposição sobrou a Igreja Católica progressista (D. Hélder Câmara, D. Paulo Evaristo Arns e a CNBB). Mesmo assim houve grande disputa com a Igreja conservadora (D. Agnelo Rossi, cardeal Scherer). A ditadura passou a controlar os cárceres e os cofres das instituições patronais; 2. A soberba de Lúcifer. É a forma como a Igreja via a ditadura militar. A atuação da Igreja progressista é mostrada, bem como a prisão de frei Betto; 3. O Brasil difamado. São as diferentes campanhas contra a ditadura e a tortura no exterior, com grande destaque para a atuação de D. Hélder Câmara indicado, inclusive, ao Prêmio Nobel da Paz; 4. Para trás, Brasil. Mostra as cisões existentes no jornalismo e na Igreja e a aproximação dos EUA com o Porão da ditadura. O Brasil não seria uma nova Cuba. Seria uma nova China, diziam os estadunidenses; 5. Nada a fazer. São mostradas as ações da dupla Médici e Orlando Geisel, com torturas e desaparecimentos e a tolerância para com os avanços do Esquadrão da Morte. Também é mostrada uma nova ofensiva da Igreja católica sob a ação de D. Paulo Evaristo Arns; 6. A marcha de Cirilo. É a caça final a Lamarca, o Cirilo, no interior da Bahia. 

A parte quatro (A gangrena) mostra a deterioração completa e a perda de todos os valores éticos na atuação da ditadura. Anos de chumbo, de ditadura escancarada. Possui três capítulos: 1.A gangrena. Mostra a força das instituições criminosas no Rio de Janeiro e em São Paulo. As escuderias cariocas, Jason e Le Cocq e a ação do delegado Fleury em São Paulo. A tortura é instituída como política de Estado; 2. A matança. A ordem é matar a todos os que regressaram ao país, vindos de treinamentos no exterior. Mostra as casa de Tortura de Petrópolis e o cemitério de Perus. Também são mostradas as desavenças dentro da Luta Armada, cada dia mais enfraquecida; 3. A floresta dos homens sem alma. É uma longa narrativa dos desastres, sob todos os aspectos, da Guerrilha do Araguaia, organizada pelo PCdoB. Uma chacina, com decepação de cabeças, só comparável a Canudos e ao Contestado. Uma história de morte de homens em frangalhos.

Maria Adelaide Amaral nos dá, na contracapa do livro, uma imagem precisa deste segundo volume: "Os livros de Elio Gaspari sobre a ditadura formam o mais completo conjunto de obras sobre esse período histórico. Não existe nada comparável, com tal riqueza de fontes aliada a documentação até então inéditos. O autor nos dá acesso a informações privilegiadas. A ditadura escancarada trata do momento mais sombrio do regime, numa visão panorâmica que abarca desde o estabelecimento das organizações clandestinas até as movimentações de bastidores da Igreja, do Exército e da Polícia. É uma obra extraordinária".

Ufa! Sobrevivi. Que livro triste. O que foi feito com o povo brasileiro! A que custo foi mantida a "ordem" no Brasil? E que ordem que foi mantida?  O livro é tão triste quanto necessário. Estamos vivendo tempos muito perigosos, com o perigo da repetição. Marx já advertira no 18 Brumário: "A história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa". Creio que estão percebendo o momento de incertezas e de tentativas que estamos vivendo. E saber que um grande órgão de nossa imprensa escrita considerou esta ditadura como uma "ditadura branda", ou uma "ditabranda". Que vergonha! O segundo volume termina com a indicação de Ernesto Geisel, como o novo general presidente. Vamos a leitura!.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

1. A ditadura envergonhada. As ilusões armadas. Elio Gaspari.

De uma forma ou de outra, creio que entendo o essencial do que foi o golpe militar/civil de 1964. Me afastei de um dos focos centrais, quando em 1968, eu me formava em filosofia no famoso Seminário Maior de Viamão, na Grande Porto Alegre. Já em 1969 eu me encontrava na distante Umuarama, longe de qualquer foco de agitação, ou, nem tanto. Vide José Dirceu em Cruzeiro do Oeste. Sempre acompanhei os fatos, pela via dos principais livros sobre o tema, pelos jornais e revistas da época.

O meu primeiro contato mais sistemático com o tema foi ao final dos anos 1990, quando na PUC de São Paulo, li a famosa trilogia, escrita por Maria Celina D'Araujo, Gláucio Ary Dillon Soares e Celso Castro, A memória militar sobre 1964 - Visões do golpe; A memória militar sobre a repressão - Os anos de chumbo e A memória militar sobre a abertura - A volta aos quarteis. Uma obra extraordinária. Em 2014, acompanhei de perto a literatura sobre o tema por ocasião dos cinquenta anos dessa triste história. Há muito queria ver Elio Gaspari.


1. A ditadura envergonhada - As ilusões armadas. É o primeiro dos cinco volumes.

Agora, numa promoção, comprei os cinco volumes e comecei a leitura. Apresento os cinco volumes que, inicialmente, era para ser apenas um ensaio, em torno de cem páginas, sobre os envolvimentos de Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, tanto com o golpe, quanto com a abertura. O artigo tinha até título: O sacerdote (Geisel) e o feiticeiro (Golbery). Os cinco livros tem os seguintes títulos: 1. A ditadura envergonhada. As ilusões armadas; 2. A ditadura escancarada. As ilusões armadas; 3. A ditadura derrotada. O sacerdote e o feiticeiro; 4. A ditadura encurralada. O sacerdote e o feiticeiro e 5. A ditadura acabada. O primeiro volume já está lido.

O título do primeiro volume é bem sugestivo. A ditadura envergonhada - As ilusões do golpe. Uma vergonha com relação ao golpe, pela forma atabalhoada de como ele se deu, bem como, os passos seguintes que foram dados. O golpe ocorreu muito mais em função de uma anarquia militar do que efetivamente uma ordem militar, com a finalidade de restaurar a "ordem democrática" no país. Sempre a "missão salvacionista"!  A ordem constitucional de 1946 sobrevivera aos trancos e barrancos. Getúlio, a posse de JK, a renúncia de Jânio Quadros, o Parlamentarismo e a derrubada de Jango. O golpe sempre pairara no ar.

O livro, depois de uma apresentação da segunda edição, de uma nota explicativa da mesma e de uma introdução, vai para o seu cerne ou para as suas três partes, a saber: Parte um - A queda. Parte dois - A violência e Parte três - A construção. O livro termina com um apêndice em que é apresentada uma nomenclatura militar, uma cronologia, fontes, créditos das imagens e agradecimentos.

A primeira - A queda - tem dois capítulos: 1. O exército dormiu janguista e 2. O exército acordou revolucionário. Os fatos são bastante conhecidos. Existe muita literatura a respeito. Creio que o termo revolucionário deveria ser substituído pelo de golpista.  Nesses dois capítulos é feita uma análise do governo Jango e suas contradições, que serviram de pretexto para o primeiro de abril de 1964, a partir das insurreições de Juiz de Fora.

A segunda parte - A violência - tem quatro capítulos: 1. O mito do fragor da hora; 2. Nasce o SNI; 3. Pelas barbas de Fidel; 4. A roda de Aquarius. No primeiro são examinadas as incertezas dos primeiros momentos, a anarquia militar, promovida pela "linha dura", que tenta desestabilizar o governo Castello Branco e a instalação dessa linha dura no governo, sob Costa e Silva. No segundo capítulo são mostradas todas as articulações da criação do poderoso instrumento pelo qual passaram os principais nomes da ditadura, qual seja, o Serviço Nacional de Informações, um verdadeiro "monstro", segundo os seus próprios criadores. No terceiro são mostradas as influências de Fidel, na inspiração das contraofensivas ao golpe e as sua intervenções nas ações dos movimentos insurrecionais. No capítulo 4 são apresentados os panoramas mundial e brasileiro, marcados por grandes transformações, com a produção de uma nova visão de mundo. Um capítulo bem significativo. O que me chamou muito a atenção neste capítulo foi o fato de que as forças contrárias ao golpe, que optaram pela luta armada, saíram quase todas dos quadros militares. Vide o exemplo de Marighella.

Na terceira parte, temos oito capítulos: 1. A esquerda se arma; 2. A direita se arma; 3. Costa e Silva: chega o barítono; 4. Y el cielo se encuentra nublado; 5. A provocação da anarquia; 6. A missa negra; 7 O fogo do foco urbano; 8. O exército aprende a torturar. Nesta parte são trilhados os caminhos do governo Costa e Silva até o 13 de dezembro de 1968, quando se celebrou a "Missa Negra" do AI-5. O foco está nas rebeliões estudantis, na opção da esquerda pela luta armada, pelos principais grupos dessas esquerdas e a reação das forças militares e a opção pelos caminhos da violência, da tortura e da formação dos esquadrões da morte. São os anos de chumbo. Esses atos terminaram com a absoluta falta de pudor, com a instituição do AI-5, um ato de ditadura escancarada, marcado por dez anos de vigência e com o mais terrível de seus instrumentos: o fim do habeas corpus. Tenho o seu registro na íntegra:

Deixo ainda o depoimento de Heloísa Buarque de Holanda, sobre o livro em sua contracapa: "Como num plot detetivesco, Elio persegue os caminhos e pistas de como foi armado o golpe de 1964 e de como, 21 anos mais tarde, foi desmontada a ditadura. A presença de Geisel e Golbery nas duas situações faz deles o centro do enredo tramado com talento indiscutível. A partir daí, começam a se abrir para o leitor várias senhas para o entendimento da lógica estrutural das políticas militares, das nuances do metabolismo que move corporações fechadas e, enfim, a voz, por tanto tempo silenciada, dos gestores da ditadura".

O livro tem também dois belos blocos de fotografias. Fotografias de valor histórico. E vamos para o segundo volume. A Ditadura escancarada - as ilusões armadas. O país sob a vigência do AI-5.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

A guerra do fim do mundo. Mário Vargas Llosa.

 Uma série de leituras sobre a América Latina me levou a Mário Vargas Llosa. mais precisamente, ao seu Conversas no catedral. Resolvi continuar com o autor, apesar de algumas ressalvas diante da posição política que ele adotou, especialmente a partir dos anos 1990, ano em que foi candidato a presidente da República de seu país, perdendo as eleições para Alberto Fujimori. Disputou a eleição abraçando as ideias do neoliberalismo. O livro com o qual me deparei agora foi A guerra do fim do mundo. É óbvio que também fui movido por toda a curiosidade que o tema de Canudos, de Antônio Conselheiro e dos primórdios da República brasileira, não tão republicana, envolvem.

A guerra do fim do mundo. Mário Vargas Llosa. Alfaguara. 2021. Tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman.

Creio ser necessário dizer que já tinha lido Os sertões, de Euclides da Cunha, um livro fundamental para entender a história desse nosso tão sofrido Brasil. A principal inspiração de Vargas Llosa para escrever A guerra do fim do mundo, foi Euclides da Cunha. À árida descrição jornalística acrescentou a força e o poder da escrita proporcionada pelo romance. A primeira edição do livro data do ano de 1980, publicado após exaustivas pesquisas em bibliotecas e nos sertões da Bahia e do Sergipe, palcos desses absurdos e inexplicáveis conflitos, ao menos sob um olhar oficial de nossa história. Vejamos antes a resenha de Os sertões. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/02/os-sertoes-euclides-da-cunha.html

O Livro de Vargas Llosa é longo. Muitos personagens, dos dois lados, foram inseridos. São ao todo 606 páginas, divididas em quatro partes, sem títulos, antecedidos de um prólogo, da dedicatória a Euclides da Cunha e Nélida Piñon e de uma simbólica frase em epígrafe. No prólogo nos revela que o livro foi escrito entre os anos de 1977 e o final de 1980. A epígrafe é a seguinte: "O antiCristo nasceu - Para o Brasil governar - Mas aí está o Conselheiro - Para dele nos livrar. Lembrando que o AntiCristo é a República. Deixo ainda alguns dados de contextualização. Euclides da Cunha nasceu em 1866 e morreu em 1909. Os sertões foi publicado em 1902 e a Guerra de Canudos ocorreu entre novembro de 1896 e outubro de 1897, no governo de Prudente de Morais, após quatro expedições.

A primeira parte de A guerra do fim do mundo tem sete capítulos. Neles são introduzidos os principais personagens, como o Conselheiro, Maria Quadrado, o fantástico anarquista Galileo Gall, João Grande, entre outros. Vai até a derrota da primeira expedição. A segunda parte é formada por três pequenos capítulos, com destaque para a entrada em cena dos jornalistas, em especial para um jornalista míope, que estará presente até o final do livro.

Da terceira parte eu tomo as questões que considero fundamentais no livro, como as causas do conflito, assim expressas por Beatinho, o segundo personagem em importância, logo após o Conselheiro, ao impor a João Grande o seguinte juramento para pertencer ao grupo: " -Juro que nunca fui republicano, que não aceito a expulsão do imperador, nem a sua substituição pelo AntiCristo - recitou Beatinho, - Que não aceito o casamento civil, a separação entre a Igreja e o Estado, nem o sistema métrico decimal. Que não responderei às perguntas do censo. Que nunca mais vou roubar nem fumar nem me embriagar nem apostar nem fornicar por vício. E darei a minha vida pela religião e pelo Bom Jesus. - Vou decorar, Beatinho - balbuciou João Grande (Página 228).

Pouco adiante temos uma fala de Moreira César o comandante militar derrotado numa das expedições contra Canudos sobre as obrigações da República: "...A República tem a obrigação de se defender daqueles que, por cobiça, fanatismo, ignorância ou astúcia atentam contra ela e servem aos apetites de uma causa retrógrada, interessada apenas em manter o Brasil no atraso para melhor explorá-lo". Logo após essa afirmação ele interroga aos jornalistas presentes se  esta mensagem chegará aos moradores da vila, ao que eles respondem que "tais palavras, proferidas em voz de trovão pelo pregoeiro, passam por esses seres silenciosos, atrás das sentinelas, como mero ruído" (Página 246). Eis as razões das ofensivas republicanas.

Também está expressamente manifesto um mal que assolou e continua assolando o país, a auto convicção da missão salvacionista do país por parte do poder armado do país, o poder militar. Vejamos um diálogo do coronel Moreira César com os chefes políticos da Bahia, que traduz essa posição:

"Há uma rebelião de pessoas que não aceitam a República e que derrotaram duas expedições militares - disse de repente o coronel, sem alterar sua voz firme, seca, impessoal. - Objetivamente, essas pessoas são instrumentos daqueles que, como o senhor, aceitaram a República apenas para traí-la melhor, apoderar-se dela e, trocando alguns nomes, manter o sistema tradicional. E estavam conseguindo, é verdade. Agora há um presidente civil, um regime de partidos que divide e paralisa o país, um Parlamento onde qualquer esforço para mudar as coisas pode ser atrasado e desvirtuado pelas artimanhas em que vocês são hábeis.  Já cantavam vitória, não é verdade? Falara-se até em reduzir à metade os efetivos do Exército, não é mesmo? Que vitória!. Pois bem, estão muito enganados. O Brasil não vai continuar sendo o feudo que vocês exploram há séculos. Para isto existe o exército. Para impor a unidade nacional, trazer o progresso, estabelecer a igualdade entre os brasileiros e construir um país moderno e forte..." (Página 241).

Dá para perceber que a questão era extremamente complexa, como mostra esta conversa entre os jornalistas que cobriam a guerra, entre eles, o jornalista míope, como Vargas Llosa se refere a Euclides da Cunha: "- Nós não entendemos o que está acontecendo em Canudos - responde ele. - É mais complicado do que eu pensava. - Bem, eu nunca acreditei que os emissários de Sua Majestade britânica tenham estado no sertão, se está falando disso - grunhe o jornalista mais velho. - Mas também não posso acreditar na conversa do padre de que só existe amor a Deus atrás de tudo isso. Há fuzis demais, estragos demais, uma tática bem concebida demais para que tudo seja obra de uns sebastianistas analfabetos" (Página 284).

A quarta parte, com seis capítulos, é a mais longa e de uma leitura um pouco mais cansativa. Tudo passa pelas batalhas, pelas táticas e estratégias dos povos que se juntam em torno do Conselheiro e das reações da República. O livro termina como efetivamente acabou Canudos. Com o dinamitar dos escombros, escombros do templo e dos escombros humanos, em meio a muitas vinganças e absurdos até para tempos de guerra. Creio que ainda é importante dizer que neste período histórico houve três grandes processos migratórios, conforme nos conta o livro: Para o norte, onde se desenvolvia o ciclo da borracha, para o sudeste, com a lavoura cafeeira e para o abrigo religioso de Canudos.

Deixo ainda as observações da orelha da contracapa: "Esse é um dos livros mais importantes de Mário Vargas Llosa, um épico latino-americano em que o autor de Travessuras da menina má reconta a Guerra de Canudos - conflito que está entre os mais importantes da história do Brasil -, com toda a genialidade que o consagrou como um dos grandes autores da íngua espanhola da atualidade.

A pesquisa para o livro demandou um esforço concentrado. Impressionado com a leitura de Os sertões, de Euclides da Cunha, Vargas Llosa se embrenhou em arquivos históricos do Rio de Janeiro e em Salvador, viajou pelo sertão da Bahia e de Sergipe e criou uma obra que, hoje, é reconhecida como seu tour de force. "Peregrinei por todas as vilas onde, segundo a lenda, o Conselheiro pregou", escreve ele, "e nelas ouvi os moradores discutindo ardorosamente sobre Canudos, como se os canhões ainda trovejassem no reduto rebelde e o Apocalipse pudesse acontecer a qualquer momento naqueles desertos salpicados de árvores sem folhas, cheias de espinhos".

Enfim, um grande livro. Monumental memo. Só me fica uma dúvida. Como um autor de tamanha envergadura,, que vivenciou tamanhas injustiças sociais, que tão vivamente sentiu as consequências da ausência do Estado, através de políticas públicas, conseguiu ser candidato a presidente da República em seu país pela banda dos pensadores neoliberais. Simplesmente, para dizer o mínimo, incompreensível. 

sábado, 8 de janeiro de 2022

A VERDADE e o espelho quebrado. Uma lenda africana.

A leitura de Na minha pele, de Lázaro Ramos, me colocou em contato com essa magnífica lenda africana, a lenda do espelho da VERDADE, ou do espelho quebrado. Ela aparece na página 65/66, sob o nome "O espelho da verdade". Como considero a VERDADE algo referencial e fundamental em qualquer trabalho de formação, optei por um post para contá-la. Em síntese, ela nos diz que o espelho da verdade foi quebrado e que o mundo da unidade da verdade passou a ter tantas verdades, quantas as partes quebradas do espelho. A partir de então cada um encontrou a sua verdade, na região em que caiu um pedaço desse espelho. A VERDADE seria então a busca pela reconstrução desse espelho, uma busca de enriquecimento, de somas e jamais de imposição.

Na minha pele. Lázaro Ramos. Aí encontramos a lenda "O espelho da verdade".

Como no livro de Lázaro Ramos existe uma adaptação dessa lenda, que, embora não prejudique a sua interpretação, a procurei em outras referências. A encontrei, num dos mais fantásticos programas de formação continuada de professores, instituída no estado do Paraná, no governo de Roberto Requião, no Programa de Desenvolvimento Educacional, o chamado PDE. A encontrei da seguinte forma, sem nela mexer:

"Outro conto Afro. Conta-se, na tradição oral de matriz africana, que no princípio havia uma única verdade no mundo. Entre o Orun (mundo invisível, espiritual) e o Aiyê (mundo natural) existia um grande espelho. Assim, tudo que estava no Orum se materializava e se mostrava no Aiyê. Ou seja, tudo que estava no mundo espiritual se refletia exatamente no mundo material. Ninguém tinha a menor dúvida em considerar todos os acontecimentos como verdades. E todo cuidado era pouco para não se quebrar o espelho da Verdade, que ficava bem perto do Orun e bem perto do Aiyê. Neste tempo, vivia no Aiyê uma jovem chamada Mahura, que trabalhava muito, ajudando sua mãe. Ela passava dias inteiros a pilar inhame. Um dia, sem querer, perdeu o controle do movimento ritmado que repetia sem parar e a mão do pilão tocou forte no espelho, que, então, espatifou-se pelo mundo. Desesperada, Mahura correu para se desculpar com Olorum, o Deus Supremo. Qual não foi a surpresa da jovem quando encontrou Olorum calmamente deitado à sombra de um iroko (planta sagrada, guardiã dos terreiros). Olorum ouviu as desculpas de  Mahura com toda a atenção, e declarou que, devido à quebra do espelho, a partir daquele dia não haveria mais uma verdade única para se observar, mas várias possibilidades de observação da verdade. E concluiu Olorum: “De hoje em diante, quem encontrar um pedaço de espelho, em qualquer parte do mundo, já pode saber que está encontrando apenas uma parte da verdade, porque o espelho reflete sempre a imagem do lugar onde ele se encontra”. Portanto, para seguirmos a vontade do Criador, é preciso, antes de tudo, aceitar que somos todos iguais, apesar de nossas diferenças. E que a Verdade não pertence a ninguém, pois não está em nenhum pedaço especificamente – do espelho, do mundo ou do pensamento –, mas na união de todos: lugares, ideias e pessoas. Há um pedacinho dela em cada lugar, em cada crença, dentro de cada um de nós. (Fonte: Conto de Tradição Oral)".

Como a lenda já está interpretada, essa tarefa me é dispensada, mas isso não me impede de fazer algumas considerações. A minha formação é de seminário católico (seminários de Bom Princípio, Gravataí e Viamão, todos no Rio Grande do Sul). Formação dogmática, portanto. 

Hoje, já com 76 anos de idade, devo dizer que sou socrático, no sentido de sempre fazer prevalecer a pergunta sobre a resposta e que as respostas obtidas, servem sempre, apenas, para a elaboração de novas perguntas. Também sou cartesiano, fazendo prevalecer a dúvida sobre a afirmação, normalmente, oriunda da fé. Assim, a fonte da busca da verdade é a dúvida e não a afirmação. 

Também recomendaria o livro O espelho do ocidente - o nazismo e a civilização ocidental, de Jean-Louis Vullierme. O nazismo brota da afirmação de verdade única, imposta e incontornável. Deixo a resenha deste livro: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/03/espelho-do-ocidente-o-nazismo-e.html. Recomendo ainda a palestra de rádio de Theodor Adorno, transcrita no livro, Educação e emancipação, sob o título de "Educação após Auschwitz". Adorno nos adverte que o nazismo é originário de verdades incondicionais e pré-estabelecidas. É o suficiente. Contra a arrogância do saber, a humildade de sua busca.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Na minha pele. Lázaro Ramos.

Dias após um encontro em que discutíamos trabalhos de formação, recebi via WhatsApp, de meu amigo Sebastião Donizete Santarosa, uma foto da página 33 do livro Na minha pele, de Lázaro Ramos, com o seguinte teor: "Na minha infância, não tinha esse papo de ancestralidade. Mais recentemente, numa conversa com o professor Muniz Sodré, percebi que, mais do que a filosofia e a ciência, o que traz mudança mesmo são as representações coletivas, e a ficção tem um papel fundamental nessa construção. 'A literatura sempre disse mais sobre o homem no Brasil que a sociologia - até hoje, muito preocupada apenas com a luta de classes. O cinema e a novela, com a força que têm hoje em nosso país, podem trazer um ataque forte aos preconceitos', me disse o Muniz em uma entrevista para o Espelho. Eu incluiria a literatura infantil e as biografias nesse rol e acho que ele concordaria comigo".

Na minha pele. Lázaro Ramos. Objetiva. 2021.

Foi o que bastou para eu comprar e ler com a devida atenção o livro do Lázaro Ramos. Em nossos trabalhos de formação, tanto o Sebastião, quanto eu, temos a preocupação de evitar todo e qualquer tipo de doutrinação, ao estilo da catequese. Por isso nossos trabalhos se centram na formação de leitores. Por essa razão, por óbvio, concordamos plenamente com as afirmações do Lázaro e do professor Sodré. Mas vamos ao belo e benfazejo livro Na minha pele.

O próprio Lázaro tem dificuldades em classificar o seu livro. Seria uma biografia ou um livro de memórias? Lázaro é muito novo para isso. Eu, seguramente, o classificaria como um livro de formação, de relatos biográficos, de pontos de inflexão e de rupturas em uma trajetória de vida. Nascido na ilha do Paty, no município de São Francisco do Conde, no recôncavo baiano, Lázaro teria poucas opções para seguir uma trajetória própria de vida, de uma autodeterminação de seu destino. Sua ilha tem apenas duzentos habitantes, todos com a marca da origem negra e indígena. Sair de sua ilha era fundamental, levando porém, as suas origens, sem nunca delas se apartar.

Creio que o traço fundamental na construção de seu ser singular foi o seu encontro com o teatro, ao se inserir no Bando de Teatro Olodum. Pelo teatro procurava superar um traço característico seu, partilhado com tantos jovens, que é a timidez. O Bando de Teatro Olodum o colocou em contato com as suas origens, com a sua ancestralidade. Na representação de uma peça sobre Zumbi dos Palmares que "estabelecia uma relação direta entre uma favela e os quilombos" ele se descobriu. Nessa peça, segundo seu relato ele "fazia um garoto com poucas falas, o que me deu mais tempo para assimilar as informações da pesquisa: a importância de Zumbi dos Palmares; que a história negra é repleta de lutas e que eu não devia chamar meus ancestrais de escravos, e sim de africanos escravizados; que a liberdade não veio de uma canetada da princesa imperial, mas após muita luta. Esse foi mais um salto na compreensão sobre de onde vim e para onde eu podia ir". Observem bem, um salto. Um salto na formação. Uma tomada de consciência.

Eu teria a acrescentar um outro relato seu. Eles mesmos escreviam as peças que representavam. Um trabalho de  práxis. Não representavam ou, especificando melhor, não aplicavam um trabalho escrito por outros. Ah, como isso me fez lembrar dos livros didáticos e a simples aplicação de aulas! Isso aconteceu quando Lázaro já tinha dezessete anos. E por aí vai o livro: seus trabalhos no teatro, na televisão e no cinema. O seu encontro com Taís Araújo e os filhos João Vicente e Maria Antônia. 

Considero o capítulo "Entre o laboratório e o palco" um dos mais bonitos do livro. É o seu desprender-se de amarras com o trabalho com carteira assinada, em sua opção pelo teatro e as opções que a vida lhe vinha proporcionando. Ele fala muito de seu trabalho na televisão, de seu programa Espelho, um programa de entrevistas, de relatos de vida. Essas entrevistas o colocaram em contato com muitas individualidades, das quais absorveu as diversidades, num belo e complexo campo de somas em sua formação. Foi aprendendo muito. Vejam o relato de uma conversa com Jaime Sodré, professor e doutor em história da cultura negra e ogã, após uma entrevista. É sobre filhos, Maria Antônia, em particular: "Você sabe que essa menina que está vindo aí é de Ogum, não é?".  Taís estava grávida de cinco meses da nossa filha, Maria Antônia. Eu disse: "Não sei, é?". Ele completou: "É. Crie ela livre. As vezes nós criamos nossos filhos cerceando a liberdade deles e isso cria seres atrofiados. O espírito dela é livre. Deixe-a ser plena".

Essa busca pela vida plena dá a tonalidade do livro. Na segunda parte ele aborda temas mais específicos como o empoderamento, a sororidade, o afeto e a autoestima. Analisa ainda as políticas públicas de ações afirmativas e da necessidade de criar um novo olhar que vise a potencialização do ser na sua realização humana, social e econômica, na busca de 'seres plenos'. Uma de suas reflexões finais é sobre o resistir e o existir. Apenas resistir é incompatível com o existir, com o viver em plenitude. E uma vida de muitos afetos, de afetos manifestos, como o simples fato de dizer constantemente que amamos! Ah, a minha ancestralidade germânica, tão ausente de dizeres, de afetos e de abraços.

Um livro belíssimo. Um livro repleto de belas intenções e de formas de sua concretização. Acima de tudo, um livro necessário. Um livro necessário para educadores, de educadores preocupados com a formação de seus alunos, de individualidades que vivem em grandes coletivos e que se preocupam com o viver bem, com a plenitude das potencialidades desenvolvidas. Afinal, não existe o viver, sem o conviver, pois viver é conviver. Grande Lázaro Ramos. O teu livro é uma verdadeira dádiva para os seus leitores. Ou, como diz o seu amigo Wagner Moura, na contracapa: "Na minha pele é um livro imenso, escrito por uma alma imensa, que nos oferece sua intimidade com coragem, generosidade e bom humor".

Antes de terminar, ainda duas questões. Voltarei ao livro em outro post, para contar uma lenda africana, a do "espelho quebrado" e a sua relação com a VERDADE. Belíssimo. E recomendações de leitura, tiradas do livro, duas em particular e que, eu mesmo as farei. A primeira é Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves e a segunda, O olho mais azul, de Toni Morrison, de quem eu já li Amada. Pelas informações contidas nesse post, o deixo aqui para acesso:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/05/amada-toni-morrison-primeira-negra.html


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Bagagem. Adélia Prado. Vestibular - 2022. UFRGS.

Mais uma vez, a indicação da leitura me vem pelos livros do vestibular de ingresso - 2022 - da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trata-se de Bagagem, um livro coletânea, da poetisa e escritora mineira, Adélia Prado. O livro, publicado com o apoio de outro poeta mineiro, Carlos Drummond de Andrade, é uma soma de seus primeiros versos. A publicação data do ano de 1976. A autora nasceu na cidade de Divinópolis no ano de 1935. Estes versos foram, portanto, escritos antes de ela completar os seus quarenta anos de idade e já mãe de quatro filhos, como lemos na orelha do livro.

Bagagem. Adélia Prado. Record. 2019.

Em outro livro, também do vestibular da mesma universidade, Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, apresentamos uma contextualização brasileira da época de sua escrita, o ano de 1973. Situamos o livro no contexto da ditadura militar, pelo Golpe de Estado de 1964, agravado em 1968 pelo AI-5 e, também marcado pela Guerra Fria e pela Bipolaridade. Porém isso não tem nada a ver com os poemas de Adélia. O que tem a ver sim, é uma outra característica desse tempo, que é a extrema religiosidade do povo brasileiro, ainda completamente dominado pelo catolicismo conservador, especialmente no que diz respeito aos costumes e à moralidade.

Adélia Prado é uma brasileira dessa época. E como brasileira dessa época, a marca maior de sua poesia é a religiosidade. Arriscaria até a dizer, e certamente muitos o dirão, até meio piegas. Toda a sua poesia está impregnada de religiosidade. Até mesmo, nas raras vezes em que ela se defronta com questões existenciais, tão presentes nessa época, ela encontra na religiosidade a sua saída ou a sua fuga. Poderíamos certamente dizer que a sua poesia é uma oração ou um canto de louvor a Deus, o sublime Criador de tudo.

Sobre o livro temos outras indicações. Numa espécie de apresentação, na orelha do mesmo, lemos: "Lido e recebido com empolgação por Carlos Drummond de Andrade - que indicou a publicação do livro -, Bagagem foi escrito num entusiasmo de fundação e descoberta. Emoções que, para a autora, são inseparáveis da criação, ainda que nascidas, muitas vezes, do sofrimento. Os poemas também mostram sua profunda religiosidade, que pode nascer do impacto da leitura de um texto sagrado, de um olhar amoroso sobre um personagem ou da observação das coisas simples da natureza.

Sobre o processo de criação do livro, Adélia esclarece: 'Os poemas praticamente irromperam, apareceram cargas e sobrecargas de poemas. Eu escrevia muito nesse período, e quando vi que o volume tinha uma unidade, que ele não era apenas uma coleção de poemas, pois tinha uma fala peculiar, dele próprio, entre outros títulos que me ocorreram, Bagagem era o que resumia, para mim, aquilo que não posso deixar ou esquecer em casa. A própria poesia"'.

Além da marca profundamente religiosa de sua poesia, das cenas comuns de seu cotidiano, dos fatos do dia a dia, da descrição da natureza que a cercava, também a sua condição de mulher, ganha algum destaque. Vejamos já no primeiro verso apresentado: Com licença poética: "Quando nasci um anjo esbelto, - desses que tocam trombeta, anunciou: - vai carregar bandeira. - Cargo muito pesado para mulher, - esta espécie ainda envergonhada [...]. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. -  dor não é amargura. - Minha tristeza não tem pedigree, - já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. - Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. - Mulher é desdobrável. Eu sou".

Destaco ainda três poemas de sua obra primeira. O primeiro expressa a sua condição religiosa. Saudação: Ave Maria! - Ave, carne florescida em Jesus. - Ave, silêncio radioso, - urdidura de paciência - onde Deus fez seu amor inteligível".

O segundo, creio que expressa uma visão sua mundo, do seu mundo. Uma parte do poema ganhou inclusive a contracapa do livro. O poema tem por título - Leitura. "Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras. -  As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha - de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas - fora do seu tempo desejadas. - Ao longo do muro eram talhas de barro. - Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo - que lá fora o mundo havia parado de calor. - Depois encontrei meu pai, que me fez festa - e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria, - os lábios de novo e a cara circulados de sangue, - caçava o que fazer pra gastar sua alegria: - onde está meu formão, minha vara de pescar, - cadê minha binga, meu vidro de café? - Eu sempre sonho que uma coisa gera, - nunca nada está morto. - O que não parece vivo, aduba. - O que parece estático, espera".

O terceiro, o considero bem autobiográfico. O título é.- Atávica. "Minha mãe me dava o peito e eu escutava, - o ouvido colado à fonte dos seus suspiros: -'O meu Deus, meu Jesus, misericórdia'. - Comia leite e culpa de estar alegre quando fico. - Se ficasse na roça ia ser carpideira, puxadeira de terço, - cantadeira, o que na vida é beleza sem esfuziamentos, - as tristezas maravilhosas. - Mas eu vim pra cidade fazer versos tão tristes - que dão gosto, meu Jesus misericórdia. - Por prazer da tristeza eu vivo alegre".

Ainda preciso dizer que não tenho grande familiaridade com a poesia. Devo dizer que tenho grande dificuldade em lê-la. Não aprendi a ler poesia. Tive até concursos de oratória em minha formação. Ela sempre foi mais voltada para a fé e para a racionalidade do que para a sensibilidade artística. Lacunas que não consegui suprir. Muitas coisas eu esqueci, outras nunca aprendi. Paciência.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

As meninas. Lygia Fagundes Telles. Vestibular 2022. UFRGS.

Mais um dos livros que me chega por indicação de vestibular. Nesta série, já é o terceiro. Os anteriores foram Caderno de memórias coloniais, de Isabela Figueiredo e Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo. Deixo a resenha ao final do parágrafo. Agora, o livro da vez foi As meninas, de Lygia Fagundes Telles. É o meu primeiro contato com a escritora. Lygia não é uma escritora fácil de se ler. Ah, a sua estrutura narrativa! As conversas das meninas! O real, o espontâneo, a ficção! Mas vamos aos links, antes de continuar.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/12/caderno-de-memorias-coloniais-isabela.html e

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/12/poncia-vicencio-conceicao-evaristo.html

As meninas. Lygia Fagundes Telles. Companhia das Letras. 2020.

Para a compreensão do livro ele precisa necessariamente de uma contextualização. A sua primeira edição data de 1973 e Lygia confessa que levou mais de três anos para escrevê-lo. O livro nos dá algumas pistas de que as conversas entre as meninas ocorreram no ano de 1969 (o empréstimo do carro da mãe de Lorena, a referência a Argélia, onde se encontrava o namorado de Lia), ano do recrudescimento do regime militar e da forma de combatê-la pela Luta Armada. Mas... vamos devagar. Primeiro, o romance conta a história de três meninas, bem caracterizadas. Lorena Vaz Leme, Lia de Melo Schultz e Ana Clara Conceição. A conversa entre elas se dá, tudo indica, na cidade de São Paulo e o cenário político é o da ditadura militar, regime instaurado em 1964 e aprofundado por um golpe dentro do golpe e a edição do Ato Institucional número 5, que limitou ou extinguiu as liberdades individuais. O poder simplesmente podia tudo.

As três meninas são internas de um pensionato de freiras, com o sugestivo nome de Nossa Senhora de Fátima, a mais anticomunista das Nossas Senhoras (Tempos de bipolaridade - da Guerra Fria). Não obstante, as freiras, sob o comando da madre Alix, são compreensivas e progressistas. É o tempo de ventos de papas progressistas (João XXXIII e Paulo VI) e da Teologia da Libertação. Embora não tenhamos nenhuma referência no livro, creio que o fenômeno mundial do maio de 1968 também deve ser levado em conta, ao menos, sob o estado de ânimo das meninas. Paira sobre elas um enorme vazio existencial. Ah, Jean Paul Sartre! Parece óbvio que as meninas tenham perfis diferentes.

Lorena é rica e culta. É a mais estabilizada entre elas. É herdeira de família rica e tradicional. Ela meio que namora um homem casado, um tal de M. N., Marcus Nimesius. Lia, a Lião, estuda ciências sociais e está envolvida na guerrilha contra a ditadura. Ela é baiana, filha de um alemão (Schultz) ex-nazista. Ana Clara (ou turva) é a mais perdida entre as meninas. É linda, namoradeira, consumidora de drogas e que, loucamente, busca a ascensão social.

Estes são os componentes do romance. A pauta dos costumes! Lorena preserva a sua virgindade, um valor da tradicional família católica brasileira. Eram tempos de desquite e não de divórcio. Tempos também de liberação sexual, com a qual Ana Clara conviveu sem dificuldades. Lia queria as transformações sociais, num mundo contraditório, em que o Leste Europeu dava sinais do esvaziamento do socialismo real (Primavera de Praga). O vazio existencial transpira em todos os fluxos do real e do imaginário. Marx, Lacan, Sartre, Simone de Beauvoir, são constantes nesses fluxos.

O livro, apesar de marcar um tempo curto da ocorrência dos fatos é relativamente longo. São 370 páginas, divididas em doze capítulos, mais posfácio, escrito por Cristóvão Tezza e outras pequenas referências ao livro, retiradas de edições anteriores. Recomendo muito o posfácio do professor Tezza. Nele, ele nos deixa uma indicação final muito interessante: "Naturalmente, esse é um olhar distanciado de hoje, três décadas depois (hoje já seriam cinco), mas o fato de o romance recriar os mecanismos éticos de sua tensão original em outro tempo é prova de sua permanência e vitalidade". Lygia é paulista, nascida em 1923. Escreveu este romance entre os seus 37 a 40 anos, na condição de atenta observadora de um mundo em profundas transformações.

Deixo ainda o primeiro parágrafo da orelha do livro da primeira edição (1973), escrito por Paulo Emílio Sales Gomes: "O que reúne As meninas - denominação dada por Lygia  Fagundes Telles a três moças de mentalidade definida e arrojada - é um daqueles antigos pensionatos religiosos, destinados a protegê-las contra os riscos da cidade. Contudo, as personagens que fazem parte do círculo de Lorena, Ana Clara e de Lia são tão frágeis e vulneráveis quanto elas próprias. porque o tal pensionato não é mais um casulo intocável - exposto como se encontra, como toda a sociedade do nosso tempo, às diferentes formas da fraternidade ou do medo: política, sexo, drogas. Porque o que une essas três jovens brasileiras não é apenas a amizade mas a circunstância de serem filhas do mesmo lugar e do mesmo tempo. A romancista as segue por fora e por dentro no relacionamento com os companheiros, com as freiras e com a família. Através do fato, da memória e da imaginação".

Este livro é mais uma bela indicação da notável universidade gaúcha. Esses temas devem fazer parte do mundo cultural de um jovem que queira ingressar na universidade de nossos tempos e também se engajar nas lutas, como a escritora se envolveu em seu tempo, em favor da democracia e contra todas as formas de regimes autoritários e de seus instrumentos de cerceamentos em todos os campos do viver. Afinal, o viver pulsa por mais viver. E a liberdade é a condição fundamental para tal. Ah, como eu vivi esses tempos! Me  formei em filosofia no ano de 1968, em Viamão, no Rio Grande do Sul e em 1969, iniciava a minha vida profissional em Umuarama, no Paraná. Eu vivia muito mais os valores do passado, pela forte influência católica em minha formação.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Ponciá Vicêncio. Conceição Evaristo. Vestibular 2022. UFRGS.

Continuando com as minhas leituras dos livros indicados para o vestibular de ingresso na Universidade Federal do Rio Grande Sul, me deparei com Conceição Evaristo e o seu livro Ponciá Vicêncio. Com certeza, mais uma bela escolha da Universidade Federal gaúcha. Isso, em função da escritora em si, por sua forma peculiar de escrita, mas principalmente pelos temas abordados, como a herança da escravidão, a sua permanência ao longo do tempo, tanto no campo quanto na cidade, o êxodo rural, as questões raciais, as injustiças sociais e, ainda, as relações familiares.

Ponciá Vicêncio. Conceição Evaristo. Pallas. 2017.

É o meu primeiro contato com a escritora. A conhecia apenas por entrevistas e sabia que era escritora, negra e engajada em causas populares. A sua história é uma bela história de superação. Nasceu em Belo Horizonte no ano de 1946, de família pobre e numerosa, moradora em favela. Após concluir estudos em Escola Normal, ela parte para Niterói, onde exercerá a função de professora e... não para mais de estudar. O seu campo sempre foi o da literatura, campo em que foi da licenciatura ao doutorado. Sua vida foi dividida entre a escrita e as aulas, estas dadas em várias universidades.

Na apresentação de Ponciá Vicêncio, ela conta um pouco de sua trajetória de escritora , de seu primeiro livro. Ponciá ganhou a sua primeira edição em 2003, com financiamento da própria autora. Em 2006 veio uma segunda edição, já com financiamento dividido com a editora. Depois veio uma edição de bolso, para atender demandas de vestibulares, fato que continua acontecendo, como é caso agora do vestibular da UFRGS. E, toda orgulhosa, ela nos conta: "E assim vai Ponciá. A moça que saiu de trem de uma cidadezinha qualquer, segue atravessando montanhas e mares. Hoje a história dela pode ser lida em língua inglesa [...], em francês [...] e em espanhol". Ponciá ganhou o mundo.

A estrutura do romance não é tão simples. Ela tem uma certa linearidade, da menina que sai do campo e se aventura pela cidade grande, mas em que o passado está sempre presente em suas memórias, lembranças, dores, afetos e desejos. Seriam fluxos de consciência? O desejo maior era o de reconstituir o que sobrara de sua família, ou seja: Maria Vicêncio, a mãe de Ponciá, a própria Ponciá e o irmão Luandi José Vicêncio. O avô Vicêncio também está onipresente. Ponciá é uma espécie de reencarnação sua. Merecem ainda algum destaque Nêngua Kainda, uma espécie de vidente, o bom soldado negro Nestor e a mulher-dama Biliza, a Biliza-estrela.

Vô Vicêncio é remanescente dos tempos da escravidão. Terras de brancos e o sufoco do trabalho foram vividos pelo pai de Ponciá e de seu irmão, mesmo ainda sendo criança. Ponciá e a mãe modelavam a argila. Eram verdadeiras artistas. A vida de emigrantes para a cidade grande lhes reservava serviços subalternos, como o de soldado e de empregada doméstica, ou ainda o da construção civil, trabalho do homem de Ponciá. Eram os herdeiros de um sistema que continuava, sob disfarces, escravocrata. O vazio da existência, aliada ao desespero e à desesperança levaram Ponciá praticamente à loucura.

Na apresentação do livro, a autora estabelece uma relação entre Ponciá e ela. Essa passagem aparece também na orelha do livro. Vejamos: "Às vezes, não poucas, o choro da personagem se confundia com o meu, no ato da escrita. Por isso, quando uma leitora ou um leitor vem me dizer do engasgo que sente, ao ler determinadas passagens do livro, apenas respondo que o engasgo é nosso. A nossa afinidade (Ponciá e eu) é tão grande, que, apesar de nossas histórias diferenciadas, muitas vezes meu nome é trocado pelo dela. Recebo o nome da personagem, de bom grado. Na con(fusão) já me pediram autógrafo, me abordando carinhosamente por Ponciá Evaristo e distraída quase assinei, como se fosse a moça, ou como se a moça fosse eu". Creio que muitas das pessoas da geração da escritora, como a da minha, viveram, de uma forma ou de outra, o fenômeno do êxodo rural, um fenômeno brasileiro dos anos 1960 - 1970, para a instituição de novos latifúndios para viabilizar o agronegócio.

O livro tem um posfácio assinado por Maria José S. Barbosa, da Universidade de Iowa. Dele destaco duas passagens. A primeira, para mostrar a obra e a sua complexidade. "O romance explora a fundo as sucessivas perdas de Ponciá (a morte do avô, do pai, dos sete filhos, a separação da mãe e do irmão), penetrando no 'apartar-se de si mesma'. Analisa tal fato como uma consequência de grandes abalos emocionais, de profundas ausências e vazios, mas também como o resultado de fatores sociais (extrema pobreza, desamparo e injustiças sociais) que levam a situações extremamente estressantes. A história se desenvolve com complexidade, mas sem atropelos. As imagens e as emoções são dados na dosagem certa, sem exageros e sem mutilações narrativas". A segunda  passagem, a destaco para marcar a natureza dos personagens:

"A ternura é a forma de redenção de quase todos os personagens. Conceição enfatiza os profundos laços de família a unir mãe e filhos, os gestos ternos e os abraços comovidos, e mostra como, neste romance, a solidariedade se estende muito além das relações familiares. É a pedra de toque da amizade do Soldado Nestor e de Luandi (o irmão de Ponciá) e se manifesta no carinho deste último pela prostituta Bilisa. A voz narrativa leva o leitor a compartilhar a profunda ternura que se estabelece entre o marido (também cansado, acabrunhado e sofrido) e Ponciá, quando esta se queda em si mesma".


Maria José termina o seu posfácio com uma saudação à força da palavra. "Ave palavra"! Isso me fez lembrar o prefácio, do professor Ernani Maria Fiori, ao maior livro da educação brasileira e um dos maiores da educação mundial, Pedagogia do oprimido, de Paulo Freire. Esse prefácio tem por título "Aprender a dizer a palavra". Em seu último parágrafo lemos: "Em regime de dominação de consciências, em que os que mais trabalham menos podem dizer a sua palavra e em que multidões imensas nem sequer podem dizer a sua palavra e em que multidões imensas nem sequer têm condições para trabalhar, os dominadores mantêm o monopólio da palavra, com que mistificam, massificam e
dominam. Nessa situação, os dominados, para dizerem a sua palavra, tem que lutar para tomá-la. Aprender a tomá-la dos que a detêm e a recusam aos demais, é um difícil, mas imprescindível aprendizado - é a 'Pedagogia do oprimido'".

O romance é uma narrativa de pessoas oprimidas, que encontram eco nas palavras de Conceição Evaristo para a libertação de seus múltiplos sufocos. Ave, palavra! Aliás, a alfabetização também está fortemente presente no livro. Um desejo incontido. O analfabetismo da época era uma das grandes chagas da nação brasileira, que continua sob a capa do analfabetismo funcional de ilustres letrados. Muitos deles, nossos governantes.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Caderno de memórias coloniais. Isabela Figueiredo. Vestibular 2022. UFRGS.

Uma das fontes para as minhas leituras. Procuro sempre ver o que está sendo solicitado nos vestibulares pelo Brasil afora. Creio que esta seja uma bela forma de me manter relativamente bem atualizado. Foi dessa maneira que entrei em contato com essa pequena maravilha - Caderno de memórias coloniais, de Isabela Figueiredo. Isabela nasceu em Lourenço Marques (Maputo), Moçambique, em 1963 e veio para Portugal em 1975, o ano da independência daquele país. Ela sentiu em seu corpo, em seu corpo, repito, as memórias coloniais.

Caderno de memórias coloniais. Isabela Figueiredo. Todavia. 2018.

Seu pai saíra de Portugal na década de 1950, quando o país estava sob o domínio da ditadura salazarista. Poucas oportunidades havia na metrópole. Uma fuga para as colônias poderia representar uma solução para a vida. Foi o que fez o pai de Isabela. Ele era eletricista. Sob pesado jugo sobre os negros construiu uma vida, que do ponto de vista econômico, diríamos próspera. A situação se altera com as mudanças trazidas pelo 25 de abril de 1974. A Revolução dos Cravos em Portugal. Isso significaria uma mudança com relação às suas colônias na África. Moçambique proclama a sua independência em 25 de julho de 1975. Ela foi precedida de muitas lutas, que começaram, já nos idos de 1964.

A exemplo do ocorrido em Angola, também em Moçambique, após a independência se instaurou o clima da Guerra Fria. O bloco de países socialistas apoiava as forças da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), comandadas por Samora Machel, enquanto os países capitalistas, capitaneados pela Rodésia e pela África do Sul, apoiavam a RENAMO (Resistência Nacional de Moçambique). A paz veio somente em 1992, depois de 17 anos de Guerra Civil. Esses são alguns dados de contextualização histórica para a melhor compreensão deste livro, que, como lemos na contracapa "é um grito".

O teor da obra, é então, fácil de imaginar, a realidade vivida em Moçambique antes e depois do domínio colonial português. A ênfase maior está no período colonial. Colonialismo, racismo e patriarcalismo são assim, os grandes temas do livro, descritos por quem os viveu e nunca se conformou com tal situação. Em meio a todo esse contexto político Isabela também crescia. Passou da infância para a adolescência, num mundo cheio de proibições. O livro consta as memórias vividas e, acima de tudo, sofridas por Isabela. A relação com o pai personifica o que foi a dureza do colonialismo português na África. Ao mesmo tempo, mantinha com o pai, uma bela relação de afetos e sentimentos e de autoridade patriarcal.

O livro também representa uma desmistificação do que fora o colonialismo português, dito como um colonialismo brando, perto do que havia sido o colonialismo praticado na África do Sul, com o seu mundialmente conhecido apartheid, ou com os horrores praticados pelos belgas, no Congo. Era mais ou menos uma versão como a de Gilberto Freyre, comparando a escravidão no Brasil com a dos Estados Unidos. Também a vida dos retornados é focada. É o caso dos colonizadores que voltam para a metrópole, após as condições de vida se tornarem impossíveis na ex-colônia. A condição de retornada de Isabel, foi ainda mais complicada. Ela, sozinha, irá conhecer a miséria junto a sua avó paterna em Lisboa. O analfabetismo absoluto grassava na família de seu tio.

O livro tem três apresentações: A primeira é uma introdução ao Caderno, escrita pela própria autora. A segunda, é de autoria de Paulina Chiziane, também moçambicana e escritora (autora de Niketche - uma história de poligamia). A sua apresentação é fantástica e aponta o colonialismo, o catolicismo e patriarcado como a razão para os grandes sofrimentos vividos pelos povos que foram vítimas do colonialismo português (Senti uma grande vontade de copiar toda a sua apresentação nesta resenha). A terceira é de José Gil, que apresenta o livro como o melhor de todos sobre o colonialismo português em Moçambique. Aí segue o livro, que consta de 51 pequenos capítulos e uma espécie de posfácio, "o meu corpo e o dele", da própria autora. Páginas memoráveis, 180 ao todo. Nelas lemos:

"Não me façam perguntas. Leiam-me apenas. Do que saiu recende um retrato brutal sobre o colonialismo. Era o que estava à minha volta. Eu não conseguiria narrar a minha infância sem a encaixar nesse décor que tudo dominava. O colonialismo respirava-se com a poeira do dia que o meu pai trazia na roupa, quando chegava em casa, ao final da tarde. Não era apenas o poder, mas o que dele transborda: subserviência e medo. Nasci e vivi nesse mundo convulso de racismo e discriminação de toda sorte. 'Grande novidade!', dirão. 'Bem-vinda ao mundo real" (Página 177). O livro termina com uma reflexão sobre a sua estada em Portugal, na casa da avó, sozinha e em condições absolutamente precárias, de retornada:

Isabela Figueiredo. A filha do colonizador a denunciar os horrores do colonialismo português.

"E arranjei-me. Os animais trazem instinto de sobrevivência. Amei o corpo de carne repetida  do meu pai, que confundo com o da terra. Abraço o meu corpo quando não a encontro, nem a ele nela. Eu e este livro estamos cheios de corpo e terra. Mas se os corpos se confundem, o que amei, afinal? Amei o colonialismo? Então é isso? Afinal, o que abracei eu, enquanto me abraçava chorando, no Maputo? De novo, a perturbação. Reflito e respondo-me honestamente, socorrendo-me da lucidez que nunca me abandonou: a construção ideológica e discursiva do meu pai sobre a necessidade de civilizar os negros esteve sempre errada aos olhos da criança que fui. Sempre foi evidente que o tratamento que ele designa como civilizador era castigador e paternalista. As crianças intuem a verdade sem precisar de palavras. A justiça e a matemática também coincidem nos resultados e, nesse caso, a equação colonial não tinha solução, apenas extinção. A idade adulta confirmou a intuição de criança: meu anti colonialismo não se alterou nem um milímetro. Esse foi, apesar de todos os dissabores, o curso certo da história. Não amei o colonialismo, mas não posso evitar ter conhecido a sua mancha.

Este livro é parte do meu corpo. E minha história, que não pode ser modificada em retrospecto, ficará para sempre ligada a ele" (Páginas 179-180).

Ainda, para dar uma melhor contextualização do livro, deixo o contido em suas orelhas: "Caderno de memórias coloniais foi publicado em 2009 em Portugal. Sucesso de público, foi imediatamente saudado como uma obra-prima. Houve quem dissesse que o livro de Isabela Figueiredo provocava um terremoto na vida literária lusitana. E com razão. Desfazendo o mito, frequentemente edulcorado, de que a experiência cultural portuguesa na África fora algo benéfico para as populações nativas (mascarando toda a carga de violência social, racial e até mesmo sexual), o texto expõe, com enorme força e vitalidade, uma outra história da colonização. Uma narrativa que poucos faziam questão de relembrar.

Mas não Isabela. Nascida em Lourenço Marques (atual Maputo), em Moçambique, filha de pais portugueses, viu desde a infância o tratamento reservado aos africanos. Exclusão social - as melhores praias, os restaurantes e as boas escolas eram destinadas aos brancos -, trabalhos subalternos e mal remunerados, o racismo a transpirar em cada gesto cotidiano. Tudo isso foi testemunhado pela autora, que ali viveu até a adolescência, quando teve que se estabelecer em Portugal com o processo de descolonização que sobreveio após a Revolução dos Cravos, em 1974.

Misturando memória, crônica  e ensaio com potência literária e testemunhal similar a textos de Primo Levi, Elias Canetti e Graciliano Ramos, este livro é um acerto de contas da autora com o passado colonial de Portugal, mas também com o seu próprio pai, um eletricista que em Moçambique obteve uma confortável condição social. O pai (evocado com iguais doses de crueza e carinho, saudade e alguma repulsa) parece personificar a metrópole: despreza e explora os nativos enquanto vive numa redoma de privilégios cercada de miséria, ignorância e brutalidade.

Tudo isso numa linguagem desassombrada e veemente, lírica e evocativa. Um triunfo literário e pessoal - daquela que já se impôs como uma das principais vozes do nosso idioma. E este seu livro devastador e apaixonante converteu-se numa das obras decisivas do nosso tempo". E parabéns para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul pela inclusão deste livro e de seus temas no vestibular de acesso aos seus cursos.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Sábado. Ian McEwan.

A vida de professor não é fácil. Compatibilizar o ofício de ministrar aulas com uma leitura mais ou menos sistemática é muito difícil, ainda mais, quando você é apenas um professor horista. Não sobra tempo para a leitura, ou então, você a faz em partes, nas raras horas de folga. Falo isso, ao rever em minha estante, livros ainda não lidos. Entre eles localizei um, comprado em 2006. Lembro que o livro era muito comentado em nosso círculo de conversas, da turma dos professores do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo. Trata-se de Sábado, romance de Ian McEwan.

Sábado. Ian McEwan. Companhia das Letras. 2005. Tradução: Rubens Figueiredo.

Terminei de lê-lo. É um belo romance, escrito para leitores atentos. Trata, como sugere o título, da vida desenvolvida ao longo de um sábado, geralmente um dia livre, livre do tripalium dos demais dias da semana. O dia começou cedo, ainda na madrugada, por uma crise de insônia e termina, apenas na madrugada de domingo, quando o personagem do livro dorme após um dia de exaustão física que chegara, praticamente, aos limites. Tem assunto, portanto, para um dia inteiro.

Quem são então os personagens desse Sábado. Henry Perowne, um médico neurocirurgião bem sucedido, é o personagem principal. O seu Sábado deveria ser um dia maravilhoso e raro em sua vida. Entre os seus afazeres para o dia, constava o preparo de um jantar todo especial, um jantar exclusivamente familiar. Dele participariam Rosalind, a esposa e advogada por profissão, Dayse, a filha, prestes a publicar um livro de poesia. Viria de Paris. Haveria ainda dois outros participantes: Theo, o filho músico e o avô, o pai de Rosalind, John Grammaticus, um poeta consagrado. Aparar arestas com a neta seria uma das finalidades do encontro. Questões entre poetas.

O dia será longo. Ele será descrito em cinco capítulos, dos quais eu não posso adiantar quase nada para não dar pistas da trama. É importante saber que o romance foi escrito no ano de 2005 (retratará um sábado do ano de 2003) e o cenário político do pós "torres gêmeas" e a iminente guerra contra o Iraque, de Saddam Hussein, estarão presentes nos fatos do dia. As ruas de Londres, a cidade onde se dão os fatos desse Sábado, serão tomada por multidões de manifestes em favor da paz. Com essa pequena contextualização, vamos aos capítulos: No primeiro, a família é apresentada, além das preocupações de Henry, em sua insônia da madrugada. No segundo, Perowne se desloca por ruas da cidade, com o seu Mercedes S500 e se envolve num pequeno acidente de trânsito. No terceiro aparecem as compras e o preparo para o jantar; no quarto ocorrerá um assalto e no quinto uma cirurgia de emergência.

A riqueza do romance não está, portanto, na narrativa da trama mas na força dos pensamentos e dos diálogos travados entre os personagens, com destaque para as reflexões de Perowne, sobre o significado da vida. Seus diálogos com a filha são fantásticos. O teor do desentendimento entre Grammaticus e Dayse é facilmente imaginável. O ambiente familiar é maravilhoso. Muitos fatos do passado, da memória, serão trazidos ao presente. Até destaquei um trecho, já do final do livro: "Chegará o tempo em que ele (Henry) vai operar menos e fará mais trabalho administrativo - eis outro tipo de vida - e Rosalind sairá do jornal para escrever o seu livro, e chegará o tempo em que não encontrarão mais forças para a praça, os drogados, o barulho do trânsito e a poeira. Talvez uma bomba em nome da jihad os leve para os subúrbios, junto com todos os demais corações fracos, ou até mais para o interior do país, ou para o castelo - o seu sábado se tornará um domingo" (Página 330).

Na contracapa do livro temos uma pequena apresentação do mesmo: "Sábado, 15 de fevereiro de 2003. O exímio neuro-cirurgião Henry Perowne aproveita o dia de folga para jogar squash e organizar um jantar festivo para a família em sua residência, num ponto elegante de Londres. Imbuído das certezas do homem de ciência e cercado pelo confronto de praxe em sua classe social, Perowne verá sua consciência passar por uma prova de fogo, depois de um incidente trivial numa rua da cidade. O pano de fundo é uma manifestação em que um milhão de londrinos desfilam contra a invasão iminente do Iraque. O trauma dos atentados de 11 de setembro em Nova York ainda é recente, e o temor de que ocorram atentados em Londres tira o sono de muita gente. Perowne está inquieto. Com a destreza de suas mãos, ele faz milagres em cirurgias cerebrais descritas aqui com precisão. Mas até que ponto poderá controlar as forças irracionais que rondam sua casa e sua família e ameaçam o mundo que ama?".

A edição brasileira, da Companhia das Letras, é de 2005. Tem tradução de Rubens Figueiredo e tem 336 páginas. O escritor, nascido em 1948, tem entre outros romances, o famoso Reparação, de 2002. Ian McEwan é dos mais consagrados escritores ingleses de sua geração.