quinta-feira, 7 de março de 2013

Città di Roma. Zélia Gattai.

Quando saí do porto de Gênova, numa excursão que fiz no ano passado, à Grécia e à  Itália, para ir a Porto Fino e Milão escrevi o seguinte: "Uma das cenas que mais me emocionou em toda esta viagem foi a saída de barco, do porto de Gênova. É fácil saber o motivo. Pelo porto de Gênova saíram os milhares de emigrantes italianos que vieram ao Brasil. A maioria abandou a região do Vêneto e saíram da Itália pelo porto de Gênova. Quantos corações partidos dali não saíram. Quantas lágrimas não foram ali derramadas, mas acima de tudo, quantas esperanças não foram ali acalentadas".
Città di Roma é o livro de Zélia Gattai, em que ela busca, na memória, seus nonnos, que embarcaram na Itália, no navio com este nome. Os Gattai eram anarquistas.

Pois bem, acabei de ler de um fôlego só o belo livro de memórias de Zélia Gattai, Città di Roma. Città di Roma era um desses navios que saíram deste porto. Nele navegavam duas famílias que não se conheciam. A família Gattai, da Toscana e anarquistas fervorosos e a família Da Col, do Vêneto, tão fervorosos quanto os Gattai, só que de outra crença, o catolicismo. Ambas tinham um problema em comum. Rezar para que a filha doente de cada uma dessas famílias, ao menos chegasse viva ao Brasil, não ser jogada ao mar e, ali então, ser enterrada. Foi o que aconteceu. Se o Nonno Gattai não rezava, por causa de sua fé anarquista, esta tarefa certamente coube a Dealma, a mãe zelosa.

Depois de chegarem a Santos e cada casal enterrar a sua filha, seguiram para destinos distintos. Enquanto    os Gattai vieram para Palmeira, no Paraná, para a famosa mas efêmera Colônia Cecília, os Da Col foram para Cândido Mota, no interior de São Paulo. Anos depois as famílias se conheceram, se encontrando em São Paulo e, quis o destino que suas vidas se cruzassem. Destas famílias saíram Ernesto e Angelina, os pais de Zélia.

Quando se fala da imigração italiana sempre surge uma grande curiosidade em torno da Colônia Cecília. Pois é. O Nonno Gattai veio para ela. Pouco tempo ficou. Ali até conceberam uma filha brasileira. A mudança no Brasil, de monarquia para república foi fundamental para que a experiência não desse certo. Zélia busca na memória. "A filha brasileira dos Gattai foi criada na Colônia até os dois anos de idade, quando o pai, não vendo mais perspectivas de sucesso, decidiu desistir da experiência". E revela os motivos:

"As terras que haviam sido doadas pelo imperador agora eram cobradas pelos republicanos. Onde arranjar dinheiro para pagar? Os pioneiros, chegados pelo Città di Roma, iam sendo substituídos por novas levas de imigrantes, atraídos pela aventura, gente de toda espécie, até criminosos, foragidos da justiça, dizem ter havido". os Gattai foram para São Paulo. A Colônia Cecília teve vida curta, na região de Palmeira. Inimaginável, uma colônia de anarquistas. Certamente haveria outras razões para o fracasso se não existissem esses.
Zélia Gattai
Zélia Gattai, a grande memorialista brasileira. No livro Città di Roma, as   aventuras e desventuras dos imigrantes italianos no Brasil.


A vida em São Paulo não foi nada fácil. Zélia vai relembrando, complementando basicamente o seu livro anterior Anarquistas Graças a Deus. Chama atenção o fato de as meninas não poderem estudar para além da escola primária. Estudar, para escrever bilhete para os namorados, não fazia sentido. O preparo para o casamento, isto sim era coisa séria e absorvia todas as tarefas. A oficina dos Gattai, o namoro e casamento da meninada, os parentes... vão preenchendo as páginas do livro. Este ganha grande intensidade no seu final.

A velha raiz anarquista da família traz desventuras para o seu Ernesto e, praticamente, o levam a morrer. As perseguições ocorrem após a ditadura Vargas, na caça aos comunistas, depois da Intentona de 1935 e da decretação do Estado Novo, em 1937. Como o anticomunismo serviu, e continua servindo, de pretexto para tanta coisa! O único envolvimento que o seu Ernesto tinha com os comunistas, eram velhos amigos italianos, que de vez em quando o visitavam. Um deles até levou para Zélia um livro de um escritor já muito famoso. Jorge Amado.

As palavras finais do livro são exatamente dedicadas a Jorge. Zélia passa por cima do primeiro casamento e apenas fala de Luiz Carlos, o neto que este casamento deu para a avó Angelina. O mais são conversas de Jorge com Angelina e os netos do casal Jorge e Zélia. Ela conta: "Dona Angelina adorava João Jorge e Paloma, meus filhos (com Jorge) e sentia um carinho muito especial pelo neto Luiz Carlos, filho de meu primeiro casamento, casamento sobre o qual prefiro não falar, não sinto prazer nisso. Trata-se apenas de uma página virada de minha vida". Maiores detalhes do encontro de Jorge com Zélia são dadas por Jorge no Navegação de Cabotagem.

Do livro, terminado em Salvador, em fevereiro de 2000, na famosa casa do Rio Vermelho, quero ainda apresentar a sua belíssima conclusão: "Aos oitenta e três anos, dona de imensa experiência de vida, de alegrias e tristezas, sucessos e decepções, chego a uma conclusão: só morrem, desaparecem de vez, as pessoas que não foram amadas, pessoas que, por terem sido más, não deixaram saudades na terra, não são lembradas. Dessas, mesmo em vida, esqueço seus nomes".


quarta-feira, 6 de março de 2013

Confissões - Darcy Ribeiro.

Pela lei da Anistia, de 1979, os brasileiros que haviam sido expatriados, finalmente puderam retornar ao seu país. Entre eles estava Darcy Ribeiro. Procurou retornar ao trabalho. Na FUNAI lhe deram uma aposentadoria ex-officio, mas a UFRJ o acolheu, por intervenção do ministro da educação, Eduardo Portela. Ali retomou a sua cadeira de antropologia, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. Darcy descreve esta sua volta:

"Passei imediatamente a dar aulas no IFCS, onde muita coisa me surpreendeu. Praticamente ninguém sabia nada de mim, senão como um político errado e como um subversivo. Nenhum aluno tinha lido nada meu. Até meus colegas, jovens antropólogos, achavam que eu era descartável. Percebi isso mais cruamente quando verifiquei que alunos que faziam mestrado em filosofia sobre Heidegger e outros sábios nunca tinham ouvido falar de Álvaro Vieira Pinto, o único filósofo ativo que nossa casa havia produzido. O veto ditatorial a todos nós exilados funcionou. [...] Uma raça nova, diante do vazio, se expande formidavelmente".
O belo livro de Confissões de Darcy Ribeiro. Companhia de Bolso. 535 páginas.

Darcy marcou época. Nem mesmo a ditadura militar conseguiu ofuscar completamente o seu nome. Se a continuidade democrática não tivesse sido interrompida no Brasil de 1964 e, com o trabalhismo continuando no poder (Jango) Darcy poderia ter chegado, inclusive à presidência da República. É admirável a sua paixão pelo povo brasileiro e o seu inconformismo ativo com a sua realidade, de um povo faminto e iletrado, oprimido por uma elite, caracterizada em seu livro, com o revelador título de O Mulo.

Em seus momentos finais de vida  ainda nos deixou dois livros. O Povo Brasileiro, em que reuniu seus estudos de antropologia sobre a formação do povo brasileiro e as suas vibrantes Confissões, um dos livros mais sinceros e explícitos que eu já li. Quem quiser conhecer Darcy, para um pouco além do "político errado e como um subversivo" tem com a leitura deste livro, uma excelente e agradável oportunidade.
Quem são os brasileiros? Esta questão está respondida no livro e no DVD, que a partir dele surgiu.

As Confissões são extraordinárias. Em mais de 500 páginas descreve desde a sua infância em Montes Claros (MG) e o seu destino para ser um fazendeirão da elite brasileira, até os seus momentos finais, ainda marcados e vividos em função da transformação da sociedade brasileira, passando por seus estudos de antropologia, por sua convivência com os índios, a sua militância política, se integrando ao trabalhismo, ocupando cargos e fundando a Universidade de Brasília. Passa também pelos dissabores causados pela ditadura militar, mais doída em manter o povo na opressão, do que os danos pessoais causados. Passa pelas suas doenças, pela volta à atividade política e pela sua vida de intelectual ativo, produtivo e engajado. Grande destaque é dado à sua paixão pelo povo, só não maior do que o seu amor pelas mulheres, fato de que reclama, por terem sido tão poucas.
Darcy também enveredou pelo romance. Maíra é o seu romance do tempo de convivência com os indígenas.

o livro é construído em um crescendo extraordinário. Começando pela sua vida de estudante em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Pela sua vida universitária, pelo abandono do curso de medicina e o seu deslumbramento com as ciências sociais e, em particular,pela antropologia. Extraordinária é a descrição de sua formação, das janelas que se abriram para olhar para o mundo, que foram as da literatura e do cinema. Estas janelas o tornaram a serpente, que troca de pele, para continuar vivendo. Assim foi se formando o seu mundo, distante dos limites de sua Montes Claros.

Depois veio a sua convivência com os índios. Dez anos vivendo com vários povos e produzindo a literatura básica brasileira sobre eles. Teve esta experiência extraordinária de conviver com outras culturas, de raízes diametralmente opostas, o que o fez ser um apaixonado pelos seus valores culturais. Descreve a riqueza do que foi conviver, tanto com os índios, quanto com os poucos defensores que eles tiveram, como Rondon e os irmãos Vilas Boas. Orgulha-se de sua participação, no convencimento de Vargas, para a criação do Parque Nacional do Xingu.

O melhor do livro, no meu entendimento, está contido em cerca de 200 páginas, que vão mais ou menos da página 200 a 400. Ali está narrada a sua aproximação com a educação, com Anísio Teixeira, a sua concepção de universidade, com a criação da universidade de Brasília, a sua relação com Jango, como seu chefe da Casa Civil e a derrocada do governo pelas tramas do golpe militar que estava se engendrando.É um documento para a história do Brasil, elaborado a partir de uma visão extremamente privilegiada. A sua visão sobre a conduta do general Assis Brasil na chefia da casa militar é um depoimento histórico valiosíssimo.

Depois vem os exílios. No Uruguai, descreve a sua relação com a Universidade da República e a sua produção teórica, quase toda ali elaborada. No Chile, com a vitória de Allende e a assessoria que lhe presta e no Peru, os trabalhos de assessoria ao General reformador, Velasco Alvarado. É também o seu tempo de andanças e reconhecimentos, mundo afora. Aí é relatado também a luta contra o câncer e, contra a ditadura, para poder fazer a cirurgia aqui no Brasil.

Segue descrevendo o seu mundo pós Anistia e a volta à atividade política, junto com Brizola, no trabalhismo, já no PDT, depois das urdidas de Golbery e Ivete Vargas no confisco da sigla do PTB, a grande sigla histórica. Aí entram as suas concepções de escola para o povo brasileiro com os CIEPS, as escolas de tempo integral, a organização dos espaços de festa do povo, com a construção do sambódromo, na verdade, segundo ele, um escolódromo, a sua candidatura para governador e a derrota para o Plano Cruzado e a sua eleição para o Senado.

Quem pensou que aí chegou ao fim, se depara com mais dois capítulos, cheios de sonhos, de esperanças e de poesia. Ele se abre para o mundo de seus gozos e privações e sobre louvações e dengos que recebeu. É esperança e poesia pura. Aí narra a sua infindável paixão pelas mulheres e as relações que com elas teve. Termina falando dos amigos, que obviamente não poderiam ficar de fora. Foram muitos. Posso dizer sem nenhum medo de errar. Um dos melhores livros de memórias que já li.

terça-feira, 5 de março de 2013

A Comissão da Verdade - Paraná.

Foi criada no dia 28 de janeiro de 2013, pelo decreto nº 7.128, do governador Beto Richa, a Comissão Estadual da Verdade, que deverá examinar e esclarecer as graves violações dos direitos humanos praticados no estado, no período de 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988. Ela trabalhará em conjunto com a Comissão Nacional, que foi instituída em maio de 2012.
Função principal da Comissão: - NO BRASIL - nem ditadura - nem tortura - NUNCA MAIS.

Ela deverá receber testemunhos, informações, dados e documentos de órgãos e entidades do poder público, mesmo os de caráter sigiloso. Deverá atuar em articulação e integração com os órgãos públicos, instituições e movimentos sociais, o Ministério Público, a OAB e as universidades do estado. Os prazos que a Comissão tem para apresentar o seu relatório são os mesmos do Comitê nacional, ou seja, o dia 14 de maio de 2014.

Os casos paranaenses de violação dos direitos mais conhecidos são os da Operação Marumbi, da Chácara do Alemão, do caso de Porecatu e do Massacre de Medianeira, entre outros. Os paranaenses já tem constituído o Fórum Paranaense de Resgate da Verdade, Memória e Justiça, que mantém um site muito produtivo. Entre os nomes mais lembrados, sempre estarão, entre inúmeros outros, os do advogado Cláudio Ribeiro e da jornalista Tereza Urban. O Fórum Paranaense é responsável pela indicação de seis, dos sete membros integrantes da Comissão Paranaense. No Paraná, os arquivos do DOPS já tinham sido abertos por uma iniciativa do governador Roberto Requião

No dia 12 de novembro houve uma audiência Pública da Comissão Nacional da Verdade, aqui em Curitiba, com a presença do Dr. Paulo Sérgio Pinheiro, o seu coordenador. Na ocasião foi muito lembrada a importância dos trabalhos dessa Comissão, primeiramente em função do restabelecimento da Verdade e também, e não menos importante, o estabelecimento da justiça para com as famílias das vítimas e acima de tudo para que - Ditadura e Tortura - Nunca Mais - ocorram neste país. Integrar esta comissão, é óbvio, é muito honroso, mas acima de tudo, é exercer uma função de muita responsabilidade diante do futuro.

Eis a lista dos integrantes da Comissão Paranaense da Verdade;

Ivete Maria Caribé da Rocha - Advogada e integrante do Comitê de Refugiados do Paraná.
Luiz Edson Fachin - Jurista e professor de direito da UFPR.
Márcio Mauri Kieller Gonçalves: - Bancário e vice-presidente da CUT no Paraná.
Neide de Azevedo Lima - Ex-presidente do Movimento Feminino pela Anistia.
Olympio de Sá Sotto Maior Neto - Ex-procurador geral de Justiça do Ministério Público do Paraná.
Pedro Bodê - Professor do setor de Ciências Humanas da UFPR e especialista em violência.
Vera Karan de Chueri - Professora e vice-diretora do Setor de Ciências Jurídicas da UFPR.


segunda-feira, 4 de março de 2013

As Mulheres e a Academia Brasileira de Letras.

Como estamos na semana em que se comemora o dia Internacional da Mulher, não poderíamos deixar de fazer uma referência a elas. Creio ser até desnecessário dizer do caráter machista da cultura ocidental, mas aproveito para dar uma palavrinha para Paulo Freire, para falar de sua luta pessoal contra a cultura macha em que estamos inseridos. O contexto da fala é sobre ética: "[...] Mas o que é preciso, é acabar com isso e, obviamente, com humildade. Eu não digo a ninguém que eu estou em processo de briga contra o meu machismo e, eu estou com setenta anos. Eu estou brigando para acabar com as marcas da herança, sobretudo eu, do nordeste, para acabar com isso. Eu tenho superado um bando de coisas, um bando. A linguagem está totalmente modificada. Não é mais linguagem macha, de jeito nenhum, de jeito nenhum".

Mas o que eu quero registrar mesmo é a luta das mulheres para que elas pudessem entrar na Academia Brasileira de Letras. Quem nos conta é um de seus acadêmicos, Jorge Amado. O seu relato está contido no Navegação de Cabotagem, sob um título do ano de 1977, O Robe de Ouro. O ano de 1977 e a referência ao robe remete à data em que a primeira mulher entrou para a Academia Brasileira de Letras. Foram oitenta anos de clube do bolinha. Jorge Amado culpa diretamente a Machado de Assis, o seu fundador, pela situação:
Jorge Amado nos conta neste seu livro, sobre a dificuldade que foi a entrada das mulheres na ABL.

"Essa história de exclusão das mulheres dos quadros acadêmicos foi uma das salafrarices cometidas por Machado de Assis quando fundou a chamada Ilustre Companhia, não foi a única, sujeitinho mais salafrário nosso venerado mestre do romance. Custou-lhe esforço chegar a branco e a expoente das classes dominantes, mas tendo lá chegado não abriu mão de nada a que tinha direito". Vejam o Jorge Amado. Sempre tão elegante. Afirma ainda que Machado impôs dois vetos: "Nem boêmios - Emílio de Menezes só pôde ser eleito após a morte de Machado - nem mulheres.

Jorge ainda conta que havia na época uma escritora, que se não fosse colocada entre os quarenta ilustres e se ela reclamasse, o escândalo estaria feito. Trata-se de Júlia Lopes de Almeida, cujos livros Jorge recomenda. Machado tirou a questão de letra. Nomeou o marido no lugar dela, isto devidamente, combinado com ela. Do marido se conheciam apenas livros de louvor e homenagem. Jorge também nos conta outro detalhe interessante: "Também vem de Machado a tradição das cadeiras reservadas aos candidatos das diversas categorias do poder, cadeiras cativas do Exército, da Igreja, do Judiciário, das letras médicas: a tradição dos expoentes perdura ainda hoje".

Conta ainda um detalhe dos debates em torno da nomeação da primeira mulher. Ele abre o voto do companheiro Hermes Lima (Foi primeiro ministro de Jango) de quem ele jamais esperava o voto contrário: "Voto contra". E se justificou: "Isso aqui não passa de um clube de homens, Jorge, no dia em que entrar uma mulher nem isso mais será: nossa paz se terminará, a fofoca substituirá a convivência". Que horror! E isso porque o homem era progressista.

Antes Jorge já havia defendido a poetisa Gilka Machado e, justifica: "Poetou sobre o desejo da mulher, a tesão pelo homem, o amor sem peias quando as outras reservavam o coito para os confessionários das igrejas: ousou quando a ousadia significava discriminação, repulsa, abjeção"

Rachel de Queiroz, a primeira mulher a entrar na ABL, depois de oitenta anos de instituição, em 1977.

Mas enfim, no ano de 1977, depois dos oitenta anos da instituição, a primeira mulher recebeu o fardão, ou o robe, como brinca Jorge. Trata-se de Rachel de Queiroz. Depois entraram também Dinah Silveira de Queiroz (1980), Lígia Fagundes Telles (1985), Nélida Piñon (1989), Zélia Gattay (2001) e Ana Maria Machado (2003). Me consta ainda, que também Cleonice Bernardelli a integra. A única mulher que a presidiu foi Nélida Piñon
                                             
Nélida Piñon, a única mulher que já presidiu a Academia Brasileira de Letras.

Salvo engano, o placar da Academia registra hoje a presença de 37 homens e de apenas três mulheres. Não resta dúvida de que este espaço ainda está aberto para a luta e para a conquista.

Como estamos em tempo de sucessão papal, que tal, - se esta instituição, em sua hierarquia, também se abrisse para a presença feminina. Ou será esta uma trincheira inexpugnável?

Um adendo. Em 30.01.2018. Do livro de memórias de Carolina Nabuco, 8 décadas, meio convidada para a Academia pela ação de amigos, como repercussão de seu livro sobre seu pai, Joaquim Nabuco  (A Vida de Joaquim Nabuco - 1929): "Ganhei com essa publicação grandes e novas amizades, entre elas a do poeta Alberto de Oliveira, que, logo que apareceu o livro, propôs na Academia Brasileira de Letras uma moção, unanimemente apoiada pelos colegas, de 'aplauso por obra que tanto realça as nossas letras e tão digna é da memória de nosso inesquecível consócio e glorioso patrício'.

Em seguida, o mesmo ilustre poeta Alberto de Oliveira movimentou-se para me fazer eleger para a Casa de Machado de Assis. Procurou-me em casa, juntamente com Aloísio de Castro, para me animar à tentativa, sobre a qual me diziam ter verificado que eu não correria riscos. Esses dois queridos amigos (Aloísio, antigo; Alberto, recente) estavam realmente empenhados e teriam sido incomparáveis cabos eleitorais. Não ocorreu a nenhum deles interpretar os estatutos como vedando a entrada de mulheres. Não me convenceram, porém, de inscrever-me. Além de recear que o caminho não fosse tão fácil quanto prometiam, eu não tinha, nem tenho, ambição de honras acadêmicas. Minha mãe associou-se ao meu desinteresse pelo assunto, mas Maurício reprova até hoje minha esquivança à boa vontade dos amigos.

Isso foi antes de a Academia estabelecer o fardão bordado a ouro. Creio que com a criação do uniforme a porta ficou definitivamente fechada a qualquer veleidade feminina". NABUCO, Carolina. 8 décadas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 2000. Página 113.

Adendo. 24 de maio de 2023. Ao final de A falência, tem uma nota: Tome nota. Eu a transcrevo:

"O romance A falência trata sobre a vida de adultério e de futilidades de Camila, mas também como esta mesma mulher pôde perceber que as mulheres não precisavam de amantes, maridos suicidas e filhos covardes, podendo cuidar de si mesmas e não somente de forma individual, mas coletivamente. O assunto para a autora é muito significativo, já que sua história pessoal é de luta pelas mulheres e de luta pela sua própria posição de escritora e intelectual. Embora tenha participado das reuniões e da organização da Academia Brasileira de Letras, foi seu marido quem foi nomeado para a cadeira 3, e não ela, por sua condição de mulher. Em entrevista a João do Rio, o marido de Júlia, Filinto de Almeida, confessa que era Júlia quem deveria estar na Academia, e não ele. E para você, as mulheres atualmente ainda passam por essa situação de terem suas conquistas ofuscadas pelos homens?".

Notem que há um comentário falando da autora. Entrei em contato com o livro pela sua indicação ao vestibular da UFPR para o vestibular de 2024. Deixo a referência: ALMEIDA, Júlia Lopes de. A falência. Principis (Ciranda cultural). 2019.

ADENDO. 8 de março de 2024. Com verdadeiro júbilo, ontem - vésperas do dia internacional da mulher - (07-03.2024) foi dada a notícia do ingresso de Lilia Moritz Schwarcz para receber o tal do "Robe de Ouro" da Academia Brasileira de Letras. Na minha modesta opinião - Lilia é hoje a maior representante da intelectualidade brasileira. Fiquei muito feliz.

sábado, 2 de março de 2013

Indignai-vos. Stéphane Hessel.

O final de fevereiro de 2013, no seu dia 27, nos revelou uma morte muito triste. A do pensador alemão francês Stéphane Hessel, que se tornou especialmente famoso com o seu Indignai-vos, um pequenino livro/manifesto. O vigor de seu pensamento não esmoreceu, mesmo com os seus 95 anos de idade. O seu livro/manifesto, lançado em 2010 (no Brasil em 2011) ganhou o mundo, com tradução para mais de trinta línguas.Como homenagem a este bravo, apresento aqui algumas ideias de seu Indignai-vos.
 Hessel com seu semblante tranquilo, pouco antes de sua morte, aos 95 anos de idade.

Hessel, de descendência judaica, nasceu em Berlim e foi atropelado pela Segunda Guerra Mundial. Integrou a Resistência Francesa, onde o seu pensamento foi forjado. Passou pelos campos de concentração de Buchenwald e de Dora-Mittelbau. Os princípios e valores da Resistência Francesa abrem o seu manifesto, em função de sua premente atualidade. O manifesto da Resistência fora concebido para modelar as sociedades democráticas do pós-guerra. Seus princípios e valores fundamentais eram: 
- construção de uma sociedade da qual nos possamos orgulhar e não da sociedade que temos;
- em que todas as pessoas sejam atendidas pela seguridade social, ou em outras palavras, cidadania para todos;
- que a riqueza pertencesse às Nações e não ao dinheiro especulativo;
- clamor por uma justa divisão da riqueza e da organização nacional da economia;
- liberdade de imprensa.
O livro/manifesto de Hessel. Uma conclamação para a construção de uma sociedade da qual nos possamos orgulhar.

Estes princípios precisam ser reafirmados, pois, a sociedade que temos, deles se afastou por completo. Este afastamento gera a indignação e pela indignação, nos transformamos em militantes do clamor por mais liberdade e mais justiça. A seguir, em seu manifesto, apresenta duas concepções de história e de progresso: a primeira que segue os caminhos de Hegel, fundados na liberdade e na razão e que gerariam uma sociedade governada pelo Estado democrático em sua forma ideal. A segunda, a concepção dos liberais, em que a liberdade se manifestaria pela competição e que trouxe como resultado um mundo em catástrofe, ou conforme fora designado por Walter Benjamin como "a progressão de catástrofe em catástrofe".
Quadro de Paul Klee. Representa um anjo horrorizado, de braços abertos, diante do modelo de progresso. Walter Benjamin, seu primeiro proprietário, via nele um anjo repelente, "a tempestade que chamamos de progresso".

Vê na indiferença o grande mal do século, porque afasta da indignação e da consequente ação. Exorta àqueles que não conseguem se indignar, para que olhem ao redor, pois, basta isso para encontrarem motivos mais do que suficientes. Mesmo assim, aos que ainda não conseguem, aponta para a grave distância entre ricos e pobres com tendência a aumentar em função dos ajustes econômicos, ditados pelo modelo de progresso fundado na competição e para os direitos humanos, ao seu desrespeito e, para o estado de destruição em que se encontra o planeta, por causa de sua subordinação à ordem econômica. Convoca a todos para atuarem em rede, para o atendimento dos princípios contidos em seu manifesto.

Um capítulo de sua indignação é dedicado à questão da Palestina, onde se desrespeita o artigo 15 da Declaração Universal de 1948, de que "toda pessoa tem direito a uma nacionalidade". Chama especial atenção para o relatório Goldstone, de setembro de 2009, elaborado pelo juiz sul-africano Richard Goldstone, judeu e sionista confesso, em que acusa o Exército israelense de ter cometido "atos comparáveis a crimes de guerra e, em certas circunstâncias, a crimes contra a humanidade. Refere-se a operação "Chumbo Fundido", de Israel contra a Faixa de Gaza.

Depois de fazer um balanço do que existe de mais negativo aponta também para os elementos que permitem ainda ter esperanças e convoca a todos para "uma verdadeira insurreição pacífica contra os meios de comunicação de massa, que, como horizonte para os nossos jovens, só sabem propor o consumo de massa, o desprezo aos mais fracos e à cultura, a amnésia generalizada e a competição desenfreada de todos contra todos". 

O livro/manifesto rapidamente ganhou o mundo e mudou até a própria vida de Hessel. Ele nos conta: "Este livro transformou totalmente minha vida. Eu era um pequeno diplomata aposentado que levava uma vida tranquila e agora não posso passear por Paris sem que alguém me pare na rua para agradecer. É maravilhoso". Como é um manifesto que mexe com os brios da gente e de fácil leitura, recomendo-o a todos. Que a semente continue germinando em terra fértil.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A Sucessão Papal. 6 - Vista pelo Cinema.

Se eu fosse um programador de cinema, colocaria em cartaz imediatamente o filme do italiano Nanni Moretti, Habemus Papam. Como estamos em tempo de forte apelo para o cinema, em virtude das escolhas para o Oscar e como estamos também em tempos de sucessão papal, creio que isso despertaria um grande interesse. Colocaria em cartaz o Habemus papam por ser um filme extraordinário, que aborda a questão, simultaneamente com delicadeza e humor, sem escracho. Com muito humor e sensibilidade aborda o tema da responsabilidade da tarefa de dirigir mentes e almas. 

As questões papais, aliadas as questões políticas do Estado do Vaticano sempre estiveram presentes no cinema, especialmente nos tempos mais recentes. O primeiro destes filmes que lembro é As Sandálias do Pescador. O filme é uma adaptação do livro de Morris West, lançado em 1963 e levado ao cinema em 1968. O cenário do filme envolve a sucessão papal e os bastidores do Vaticano, em meio ao auge da guerra fria. Anthony Quinn interpreta um papa vindo do bloco soviético.É tempo de rever. O filme é facilmente encontrável, coisa de Lojas Americanas... Saraiva.

Certamente o filme que causou maior furor, não em nível popular, foi o Poderoso Chefão, em sua terceira parte. O filme envolve o Vaticano, suas concessões (a ordem de San Sebastian) e relações com o crime organizado. O ponto mais picante do filme é o assassinato do papa João Paulo I, numa trama que envolve a máfia siciliana, o banco Ambrosiano, pertencente ao Vaticano e uma loja maçônica, P2. Também é boa horar de rever. A morte de João Paulo I é tida como uma morte natural, nos meios oficiais. É tema com forte teor explosivo.
Cartaz do filme O Poderoso Chefão, parte III, em que ocorre o assassinato de João Paulo I. 

Outro filme, envolvendo mais a questão religiosa do que propriamente a sucessão papal é o best seller de Dan Brown levado ao cinema. Me interessei pelo livro e depois vi o filme, interessado na abordagem que ele fazia do Concílio de Niceia. Toda a trama do filme conduz ao seu final para a revelação de que Jesus fora casado com Madalena e que teve outros irmãos. O filme ganhou um forte apelo promocional com a recomendação da Igreja ao boicote do filme.

Sem dúvida nenhuma que o melhor filme sobre o tema é Habemus Papam. O filme é de 2012 e é dirigido por Nanni Moretti, um dos maiores nomes do cinema italiano atual. Ele também interpreta o psicanalista que irá tratar do papa e entreter os cardeais, na infinitamente longa dúvida do papa em aparecer para a multidão concentrada na praça de São Pedro.


Cena do filme Habemus papam. O papa e as suas dúvidas diante das responsabilidades de sua função.

A trama envolve diretamente a sucessão papal. Após vários escrutínios é escolhido um cardeal francês ((interpretado por Michel Picolli), que não pensara na possibilidade de ser eleito. Atordoado no seu primeiro momento, aceita a missão, para no momento seguinte entrar em profunda crise de dúvida. Fico imaginando o horto das oliveiras... Afasta de mim esta responsabilidade... E o eleito não aparece na janela do Vaticano para a solene aclamação papal.

O inusitado e o inesperado é concebido no imaginário de Nanni Moretti, que lança mão do tratamento psicanalítico para o papa em dúvida e para os cardeais atônitos e colocados a anos luz de distância do mundo. Aos cardeais  oferece o entretenimento, mas aos problemas do papa e aos seus próprios, ele não consegue dar uma solução plausível. Diante das tremendas responsabilidades diante da missão, de ser mestre, indutor e condutor de almas e mentes ele estremece e opta pela renúncia. As dúvidas prevalecem sobre a verdade.

O filme é de um ateu, mas não ausente dos problemas deste mundo. Muito se tem falado das diferentes possibilidades de condução dos destinos do catolicismo. Se manter rígido na doutrina, abrir-se para os problemas da atualidade, chamar um novo concílio... O tempo o dirá.

Sobre a sucessão real, aquela que irá se realizar agora em março, encontrei uma frase extremamente significativa, que passo a partilhar. É de autoria de Fernando Altemeyer Jr. publicada na Folha. Depois de pedir a urgente canonização da irmã Dorothy Stang ele pede: "Um papa maestro de orquestra e não um virtuose solitário de um único instrumento". Ao mesmo tempo, Leonardo Boff clama por um papa "mais pastor que professor - não um homem da instituição Igreja, mas um representante de Jesus que disse 'Se alguém vem a mim eu não mandarei embora' (João 6, 37) podia ser um homoafetivo, uma prostituta, um transexual".

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A Sucessão Papal. 5 - Os Reais Motivos da Renúncia.

Passaram os primeiros impactos em que o mundo, atônito, recebeu a notícia da renúncia do papa Bento XVI. Ao longo da semana, especialmente os jornais italianos, começaram a revelar os reais motivos que levaram o papa a essa atitude quase extrema e praticamente inédita. Os fatos são estarrecedores e tem como principal fonte, as investigações policiais italianas.

Existem diferentes modos de olhar a instituição Igreja Católica e o Vaticano. Se a vejo com os olhos da própria fé católica, a vejo como uma instituição divina e, como tal infalível. O papa é o representante de Deus na terra e de acordo com a interpretação agostiniana ele é a única pessoa que lê e interpreta corretamente a palavra e os desígnios divinos. Por isso a sua palavra e as suas determinações dão origem à ortodoxia e, todos os erros que lhe são apontados, não passam de calúnias e difamações.

Outro modo de olhar é ver na instituição uma certa respeitabilidade histórica, mas lhe negar a legitimidade de seus poderes. Preservam uma visão religiosa, mas acreditam que a iluminação divina é dada a todas as pessoas. Esta visão é responsável pelos grandes cismas históricos que ocorreram, como a cisão da igreja ortodoxa (século XI) e da protestante (século XVI). Da mesma forma, certamente, ela é vista por outras confissões religiosas, não cristãs. 
A majestosa Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Também existe o olhar racional que a vê como uma instituição de poder qualquer e, que, por isso mesmo, obedece aos mesmos critérios das demais instituições. Neste sentido, ela é uma instituição social, histórica e cultural e sujeita a todas as vicissitudes das instituições humanas. É uma instituição de poder e, como tal, obedece a uma rede de intrigas e disputas, muito distantes das apregoadas virtudes cristãs. Assim, notícias que a envolvem em escândalos sexuais, de corrupção financeira e de intrigas políticas, não constituem nenhuma novidade e passam a ser vistos como absolutamente normais, inerentes às paixões humanas.

O Jornal italiano "La Repubblica" foi o primeiro a investigar e a publicar os fatos que efetivamente teriam levado o papa a renunciar. Segundo o jornal, Bento XVI teria recebido um relatório, de cerca de trezentas páginas, elaborado por três cardeais, da sua mais absoluta confiança, em que constavam os fatos que o levaram a abdicar do poder.  As principais acusações do relatório envolveriam malversação de dinheiro, intrigas e disputas internas de poder e relações sexuais homossexuais. E isto tudo, dentro dos limites do Vaticano, praticados por personagens da própria Cúria Romana. 

Este relatório deverá ser entregue ao próximo papa a ser eleito e, segundo o próprio Bento XVI, ele deverá "ser mais jovem, forte e santo para dar conta do trabalho que o espera". O relatório e a sua divulgação está recebendo o nome de Vatileaks, em alusão aos recentes episódios do Vitileaks.

  • Papa Bento XVI saúda multidão de fiéis presentes neste domingo durante a oração do Ângelus
Uma das últimas aparições de Bento XVI. Alguém mais "jovem, forte e santo" para enfrentar os problemas.

O "La Repubblica" ainda comenta caso ocorrido em 2010, em que um assessor de elite - Ângelo Balducci, um dos cavalheiros de sua santidade, que prepara a agenda de visitas importantes, teria sido flagrado pela polícia, dando instruções a um interlocutor sobre detalhes físicos de homens que gostaria que fossem levados a ele. Segundo a imprensa italiana este interlocutor era Thomas Ehiem, integrante do coral do Vaticano. Os dois foram afastados de suas funções. Ehiem ainda teria descrito um homem como tendo "dois metros, 97 quilos, 33 anos e completamente ativo". Em outro telefonema grampeado pela polícia, Balducci teria perguntado se ele "já falou com o seminarista", ao que ele (Ehiem) teria respondido: "Ele provavelmente está na missa ou algo assim".

As investigações da polícia italiana contra Balducci, com o grampeamento de seu telefone, ocorreram em função de uma investigação de corrupção contra ele, que não envolvia o Vaticano.Ainda de acordo com "La Repubblica" e tendo como fonte as investigações da polícia italiana, os encontros ocorriam em uma vila fora de Roma, em uma sauna, em um centro estético, no próprio Vaticano e em uma residência universitária.

Ontem (27.02) o papa em sua despedida oficial dos fieis na Praça de São Pedro, voltou a falar de problemas que ele teria enfrentado. Referindo-se aos oito anos de seu papado, referiu-se a "momentos de alegria e outros muito difíceis". O poder, por mais forte e majestoso que seja, ele sempre será uma teia de relações. Hoje, em reunião com os cardeais, o papa abdica do poder.

É evidente que, diante dessas revelações, cresce em muito a expectativa em torno do conclave que escolherá o novo papa e que ele seja realmente "mais jovem, forte e santo", para enfrentar os desafios que o esperam. Da minha parte, os augúrios da escolha de um novo papa, com o perfil de bondade e humildade, que caraterizaram João XXIII. Cinco cardeias brasileiros integram o colégio eleitoral deste conclave, composto de 119 eleitores. São eles:
D. Odilo Scherer, 63. Arcebispo de São Paulo.
D. Cláudio Hummes, 78. Ex arcebispo de São Paulo e Prefeito Emérito da Congregação para o clero.
D. Raymundo Damasceno, 76. Arcebispo de Aparecida e presidente da CNBB.
D. João Braz de Aviz, 64. Ex arcebispo de Brasília e hoje exercendo funções no Vaticano.
D. Geraldo Majella Agnello, 79. Ex arcebispo e bispo emérito de Salvador. 


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Quando UTI. vira caso de Polícia. - Uma Fuga Espetacular.

Quando soube da notícia de que uma médica do Hospital Evangélico estava envolvida em caso de morte na UTI. daquele hospital, imediatamente imaginei que se tratava de uma eutanásia caridosa que teria sido consumada. Fiquei simplesmente perplexo, quando vi que não se tratava, em absoluto, desta questão. Não tenho nenhum comentário a fazer a respeito. Lamentavelmente trata-se de um caso para a polícia resolver. Pelo volume das notícias e pelos envolvimentos múltiplos de acusação e defesa, dá para perceber que a questão não é pequena.

O que dá para imaginar é o que seja uma UTI. e o que se passa em seu interior. Seria uma ante-sala da morte? Em que situação já estão as pessoas que ali ingressam? Como é o cotidiano das pessoas que nela trabalham? Será que os seus condicionamentos psicológicos não são profundamente afetados pelo ambiente em que trabalham? Será que este tipo de trabalho também vira rotineiro e burocrático? É muito difícil fazer qualquer tipo de julgamento.
Darcy Ribeiro e as Confissões. Na parte final fala de suas doenças e sobre UTI. Chegou a fugir dela.

Quero trazer, isso sim, as palavras de Darcy Ribeiro, sobre uma fuga espetacular que ele fez de uma UTI e que, segundo a sua versão, ainda lhe manteve a vida por vários anos.É sabido que Darcy teve lances dramáticos em suas lutas contra o câncer. Primeiramente foi um pulmão que estava afetado e que este, depois de retirado, lhe permitiu ainda um longo tempo de vida e, diga-se de passagem, uma vida extremamente ativa. Posteriormente ele foi acometido de um câncer de próstata, numa situação mais grave, já em fase de metástase.

Do câncer no pulmão não se sabe exatamente o que o fez sofrer mais. Se foram os sentimentos trazidos pelo diagnóstico (dezembro de 1974) positivo, feito em Paris, ou a sua relação com a ditadura militar, que impedia que a cirurgia fosse feita no Brasil, como era de sua vontade. Darcy só foi autorizado a fazer a cirurgia no Brasil, depois que um hospital americano se prontificara a fazê-la. A cirurgia foi bem sucedida. Foi difícil metabolizar a reação da ditadura com relação a sua presença no Brasil que, mesmo nestas circunstâncias, mantinha sobre ele permanente vigilância. Vejam Darcy falando a respeito:

"O mais perturbador desse período foi a nota oficial do governo, comunicando o meu ingresso no país em razão de uma enfermidade grave, para ser submetido a uma cirurgia. O segredo do meu câncer, tão guardado até de mim, saía em letra de forma em toda a imprensa brasileira e foi repetido no estrangeiro, fazendo sofrer muita gente querida". Darcy fala do paradoxo da ditadura, que se arrogava de todo o poder do mundo e, ao mesmo tempo, morria de medo de uma criatura tão fragilizada como ele.

Em 1995, já como senador, recebe o diagnóstico de câncer na próstata. Ele mesmo comenta nas Confissões: "No Rio me entreguei aos médicos e soube logo depois que estava com câncer de próstata. Não dei bola. A próstata é um erro de Deus, que decidiu colocar no mesmo encanamento de esgoto a porra e a urina, coisas que nenhum engenheiro faria. Tinha mesmo que dar galho. Era só extirpar a dita para me livrar do câncer. O único inconveniente era que passaria a ejacular para dentro da bexiga, coisa que esconderia das mulheres" Vejam o humor, mesmo acometido pela doença. Este câncer o levou à UTI. Ele descreve as suas fantasias e alucinações no estado de terror que ali viveu. Culmina com uma descrição terrível, que, creio eu, enseja ponderadas reflexões:

"A ideia que tenho da UTI é do terror que me inspirava como casa da morte. Quem está ali, lá está para morrer. A meu lado, isso não era imaginação, dezenas de moribundos morriam sem parar. Todos enfermíssimos de doenças incuráveis, homens e mulheres, pelados. Deviam ser fétidos, mas isso eu não sentia, porque estava dopado. No quarteirão de uns seis leitos, entre os quais estava eu, mudavam sempre de doentes, quer dizer, os mortos saíam e entravam outros para morrer. Sobre todos nós reinava um grande computador pisca-pisca, escolhendo, matador, quem ia morrer". Terrível!

A fuga foi planejada. Contra a vontade dos médicos, conseguiu um dia de "folga", sob a ameaça de suicídio.Ordenou ao motorista do carro que o levava para casa, já substituído por gente de sua confiança, que em vez de ir ao seu apartamento, o levasse para a sua casa de praia em Maricá. Pelo caminho, como de hábito, mandou parar numa garapeira para tomar garapa com limão e... melhorou. Ele conta: "Tenho certeza de que a fuga da UTI, o canecão de caldo de cana com limão e o que Thereza me deu para comer lá na rede me salvaram a vida. Sem isso seria morte certa".

Assim Darcy adiou a vida até 17 de fevereiro de 1997, quando veio a falecer em Brasília. Aproveitou esse tempo, especialmente, para escrever o livro O Povo Brasileiro, reunindo seus estudos de antropologia e terminar as suas Confissões, donde extraímos as palavras aqui citadas.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A Sucessão Papal 4. Leonardo Boff.


Não é habitual um papa renunciar. É um fato raríssimo na história. Creio que todos buscam interpretações para este fato, da renúncia de Bento XVI. No caso brasileiro, um dos primeiros nomes que vem à lembrança, para a ilustração do fato é o de Leonardo Boff, em função da figura polêmica que ele representa e pelo convívio paradoxal que ele teve, tanto com o professor, quanto com o cardeal Ratzinger. Duas figuras diferentes, em sua opinião. Buscamos em suas entrevistas mais recentes, algo esclarecedor a respeito.

leonardo boff niemeyer veja idiota
O teólogo Leonardo Boff comenta o pontificado de Bento XVI e a sua renúncia.

As entrevistas mais recentes foram dadas à Agência Brasil e à Folha de S.Paulo. Ele reclamou bastante da Folha, pelo fato de ela não ter aproveitado quase nada de sua entrevista e por isso mesmo resolveu publicá-la na íntegra. As duas entrevistas se complementam. 

Ao falar do professor Ratzinger, ele o elogia muito. Gentil, inteligente e amigo são alguns dos adjetivos que aplica a ele. Destaca a sua qualidade como teólogo, bem como o seu desapego, como o demonstra o fato de doar metade de seu salário como professor, para os seus alunos da América Latina e da África. Pessoalmente, lembra o fato de que ele recebeu ajuda de um fundo, com a mediação do professor, de 14 mil marcos, para que pudesse publicar a sua tese.

A tonalidade da conversa, porém muda, quando fala do cardeal Ratzinger e do papa Bento VI. Os adjetivos passam a ser bem outros: autoritário, centralizador e sem misericórdia para quem discordasse de seu ponto de vista doutrinário.

Boff comenta que no papado de João Paulo II ele teve influência decisiva. Os dois moldaram a igreja em seu perfil conservador. Para dentro impuseram a rigidez e a repressão. Mais de cem teólogos foram punidos. Foram rígidos na doutrina, inflexíveis na moral sexual, na contracepção e com relação às questões homo-afetivas. Para fora apresentaram-se expansivos e procuraram o diálogo com as crianças e com os jovens. João Paulo II tinha carisma e gosto para fazer isso. Já Bento XVI, por sua profunda timidez, não tinha nenhuma familiaridade com as massas. 

Os problemas de Boff com a Igreja iniciaram em 1984, quando foi solicitado a comparecer ao Vaticano, perante a Congregação da Doutrina da Fé, ex inquisição, presidida pelo cardeal Ratzinger, a dar explicações sobre o seu livro Igreja Carisma e Poder. Por três horas se sentou na cadeira, onde antes já haviam se sentado Leonardo da Vinci e Giordano Bruno, para ser  inquirido. A pena que recebeu foi o chamado silêncio obsequioso, pelo qual ficava proibido de falar, escrever e publicar livros e de dar aulas. Foi um dos cem teólogos punidos.

A sua pena foi posteriormente anulada com a mediação do cardeal Arns. Deixou o sacerdócio, mas não rompeu com a Igreja. Continuou sendo professor na UERJ.

Com relação ao pontificado de Bento XVI faz a seguinte crítica: "Acho que o projeto dele era uma reforma da Igreja ao estilo do passado, voltada para dentro e tendo como objetivo político a reevangelização da Europa. Nós, fora de lá, consideramos este projeto como ineficaz e como opção pelos ricos. Projeto equivocado. Não é um papa que deixará marcas na história".
Leonardo Boff analisa os problemas enfrentados por Bento XVI ao longo de seu papado e comenta a sua renúncia.

Aponta como maiores dificuldades em seu papado a sua relação com a modernidade, no encontro com as outras culturas e religiões. Manteve o catolicismo como o único porta voz da verdade, o que em muito dificultou as suas relações com os judeus e com os muçulmanos. Outro problema remonta aos tempos de cardeal, aponta Boff, quando ele procurava interferir para que padres pedófilos, não fossem levados a julgamento nos tribunais civis. Atuou como cúmplice desses crimes.

Terminou cercado de inimigos por todos os lados, dos quais tinha que se defender, considera ainda o teólogo Leonardo Boff. Ele também fala de sua renúncia, num juízo brando: "Eu tinha certeza de que um dia, ele aproveitaria alguma ocasião sensata, como os limites físicos de sua saúde e menor vigor mental para renunciar. Embora mostrou-se um papa autoritário, não era apegado ao cargo de papa".

Também comenta sobre o futuro papa: "O perfil do próximo papa não deveria ser um homem do poder e da instituição. Onde há poder inexiste amor e desaparece a misericórdia. Deveria ser um pastor, próximo dos fiéis e de todos os seres humanos, pouco importa a situação moral, étnica e política".


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Os Vencedores do Oscar - 2013.

Enfim os filmes premiados com o Oscar. Primeiramente os resultados. Os comentários virão na sequência. Vamos conferir a lista;

Melhor Filme:Argo. Ben Afflek

Argo, o grande vencedor. Ver comentário postado em 03.12.2012.

Melhor Direção: Ang Lee. As Aventuras de Pi.
Melhor Ator: Daniel Day Lewis. Lincoln.
Melhor Atriz: Jennife Lawrance. O Lado Bom da Vida.
Melhor Ator Coadjuvante: Christoph Waltz. Django Livre.
Melhor Atriz Coadjuvante: Anne Hathaway. Os Miseráveis.
Melhor Roteiro Original: Django Livre. Quentin Tarantino.
Melhor Roteiro Adaptado: Argo. Chris Terrio.
Melhor Filme Estrangeiro: Amor. Michael Haneke.
Melhor Animação: Valente. Mark Andrews e Brenda Chapman.
Melhor Trilha Sonora: As Aventuras de Pi. Mychael Danna.
Melhor Canção Original: Skyfall. 007 - Operação Skyfall. Adele Adkins e Paul Epworth.
Melhor Fotografia: As Aventuras de Pi. Cláudio Miranda.
Melhor Figurino: Anna Karenina. Jacqueline Durran.
Melhor Documentário: Searching for Sugar Man.
Melhor Curta Documentário: Inocente.Sean Fine e Andrea Nix Fine.
Melhor Edição: Argo. William Goldenberg.
Melhor Maquiagem e Cabelo: Os Miseráveis. Lisa Westcott e Julie Dartnell.
Melhor Direção de Arte: Lincoln. Rick Carter e Jim Erickson.
Melhor Curta de Animação: Paperman. John Kahrs.
Melhor Curta metragem: Corfew. Shwan Christensen.
Melhor Edição de Som: 007 - Operação Skyfall. Per Halberg e Jaren Baker Landers e A Hora Mais Escura. Paul Ottoson. Houve empate entre os dois.
Melhor Mixagem de Som: Os Miseráveis.Andy Nelson, Mark Paterson e Simon Hayer.
Melhores Efeitos Visuais: As Aventuras de Pi. Erik-Jan De Boer e Ronald Elliott.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A Indomável Sonhadora. - É Hoje.

Hoje é o dia da revelação do Oscar. Muita expectativa acompanha o evento. Filmes muito bons e com bons esquemas promocionais fazem com que ninguém, que minimamente gosta de cinema, permaneça alheio ao evento. Já falei que todo o entorno aqui de casa espera pelo sucesso de Django Livre e já, antecipadamente, protestam pelo fato de que  Tarantino não conste da lista dos indicados como melhor diretor.

Na sexta feira fui assistir a mais um filme, que achei interessante, entre os listados a ganhar Oscar. A Indomável Sonhadora, título brasileiro, não imune de críticas.(Beasts of the shoutern Wild, no original). Ele tem um apelo muito forte, que é a atuação de uma criança, uma menina de seis a oito anos, no papel principal e com indicação para melhor atriz, a Hushpuppy, ou simplesmente Puppy, interpretada por Quvenzhané Wallis.
 Cena do filme em que a pequena Hushpuppy atua ao lado de seu pai, Wink.


Alguns pressupostos precisam ser colocados para melhor ver o filme. Ele mostra a visão de mundo de uma criança, o que não é uma tarefa fácil. O diretor, também um estreante, Benh Zeitlin, penetra no subjetivo da criança, povoada de mitos e imagens, para a partir dela mostrar o mundo em caos. O que trabalha é o imaginário da criança. O filme, por isso mesmo, não tem uma linearidade e vi algumas pessoas se retirarem do cinema durante a sua exibição.

O furacão Katrina sobre a cidade de Nova Orleans é outra referência necessária para a sua melhor compreensão. O filme trata da perda de pessoas e de lugares. Puppy sente constantemente a ausência de sua mãe e mostra uma convivência amorosamente complicada com o seu pai, Wink (Dwight Henry) um homem destinado a morrer, destinado a mais uma perda na vida da menina. Os programas de evacuação das áreas atingidas por uma grande tempestade (Katrina), põem os personagens diante da perda de seus espaços, em que teimam permanecer.

Duas grandes forças estão presentes ao longo de todo o filme: a força da natureza e a denúncia de sua deterioração, oferecendo assim, belas lições de ecologia e as dificuldades materiais daqueles que teimam em permanecer em seus espaços, a tal da Banheira. É neste momento que são mostradas as cenas mais humanas do filme, com muita ternura e carinho e acima de tudo muita solidariedade. Vivem entre restos de casa e de trailers, na mais absoluta miséria, porém irmanados.As filmagens foram feitas em uma loja de conveniência abandonada às margens de um rio, na Louisiana. Os personagens recorrem até à explosão de uma barragem para que as águas voltassem ao seu normal, e assim poderem permanecer no local.

Uma das cenas mais emocionantes é a da menina ganhando um colo e falando da necessidade deste colo, seja ele, de quem for. Queixa-se, na sua amargura infantil, de que nunca  tivera colo ao longo de toda a sua vida de infância.A atuação da menina impressionou muito toda a crítica, que não lhe poupou elogios. Quanto ao diretor, o maior questionamento ao seu trabalho é feito, com relação ao imaginário da criança, a lançar o seu olhar sobre o mundo. Não seria, por acaso, uma visão já adulta?
Benh Zeitlin

Benh Zeitlin, o jovem diretor de A Indomável Sonhadora, seu primeiro longa.

O diretor, filho de folcloristas, tem formação em cinema e é visto como uma das grandes promessas dos novos tempos do cinema americano. Confere muito de literatura aos seus personagens. O filme tem quatro indicações a Oscar: melhor filme, melhor direção, melhor roteiro adaptado e melhor atriz.

A concessão das estatuetas do Oscar tem em si muitas contradições. Uma delas, neste ano, está na escolha  da melhor atriz. Que critérios tem os eleitores para estabelecer comparações ou diferenças entre os trabalhos de Quvenhzané Wallis e de Emmanuelle Riva? Quais seriam os parâmetros de comparação e  de diferenciação? Tenho cá para mim que eles não existem. Tarefa difícil para decidir.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Brasileiros Votam na Escolha do Oscar?

O Oscar é um dos maiores eventos culturais do mundo. Ele vem acompanhado de muito charme e glamour e, muita publicidade, obviamente. Tudo começa com as indicações. Estas são feitas para 24 quesitos diferentes. Indicações são dadas para:
24 estatuetas deverão ser conferidas, em meio a um clima de muita festa.

-melhor filme. - geralmente dez indicações. Este ano são nove;
-melhor direção. Normalmente são cinco indicações para o restante dos quesitos;
-melhor ator e atriz;
-melhor ator e atriz coadjuvante;
-melhor roteiro original e adaptado;
-melhor animação;
-melhor filme estrangeiro. Também pode ser indicado como melhor filme;
-melhor trilha sonora;
-melhor canção original;
-melhor fotografia;
-melhor figurino;
-melhor documentário;
-melhor curta documentário;
-melhor edição;
-melhor maquiagem;
-melhor direção de arte;
-melhor curta animação;
-melhor curta metragem;
-melhor edição de som;
-melhor mixagem de som;
-melhores efeitos visuais.

O prêmio é concedido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, de Los Angeles, ou simplesmente Academia, que foi fundada em 1927, pelos homens do cinema. Ela é uma organização daqueles que lidam com ele, dominantemente americana, mas também aberta aos demais países. Hoje ela tem membros em 36 diferentes países. A instituição do prêmio, do Oscar, remonta ao ano de 1929. Existem várias interpretações sobre a origem do nome - Oscar.

Todas as pessoas indicadas a receber um Oscar passam a ser os eleitores para as suas escolhas futuras, dentro de suas áreas. Também podem ser escolhidas pessoas, a critério da Academia, que prestaram relevantes serviços ao mundo do cinema. Hoje o Colégio Eleitoral é composto por 5.800 eleitores. Neste ano de 2013, pela primeira vez estes eleitores puderam votar pela Internet. Imaginem o sistema de segurança que acompanha este processo de escolha. A lista dos eleitores não é disponibilizada.

As premiações ao Oscar 2013 já estão decididas. O processo eleitoral iniciou-se no dia 8 de fevereiro e encerrou-se na terça feira passada, 20 de fevereiro. Um forte esquema publicitário acompanha todo o processo. A Warner, responsável por Argo e a Disney, distribuidora de Lincoln, já teriam gasto dez milhões de dólares para promoverem os seus filmes. As nove indicações de melhor filme deste ano já faturaram mais de dois bilhões de dólares. É comum, entre os próprios membros da academia, a convicção de que nem sempre os melhores são os premiados. Neste ano a competição está mais acirrada nas escolhas de melhor filme (em meu círculo Django Livre é disparadamente o favorito), de melhor diretor e de melhor ator e atriz coadjuvante. Pelos temas abordados Argo e Lincoln despontam como reais favoritos.Coisas de americanos.
No meu entorno toda a preferência é dada para Django Livre, de Tarantino.

Mas, afinal de contas os brasileiros votam? Há brasileiros eleitores, sim! Vejam o critério. Quem já recebeu indicções é eleitor em potencial. Estão nesta condição, segundo consegui apurar, Walter Salles e Fernanda Montenegro, por Central do Brasil; Bruno Barreto, pelo Quatrilho e Fernando Meirelles por Cidade de Deus. Este filme também lançou Bráulio Mantovani (roteirista) e Daniel Rezende (editor), como eleitores. Bruno Barreto seria um duplo eleitor, pois também ganhou a indicação de melhor filme estrangeiro, com O que é Isso Companheiro, adaptado do livro de Fernando Gabeira.
O premiadíssimo filme brasileiro Cidade de Deus. Por ele três brasileiros teriam direito a voto para o Oscar.

Ocorre um porém. Para ser eleitor tem que estar em dia com a OAB, desculpem, com a Academia. A sua mensalidade gira em torno de duzentos e cinquenta dólares anuais, razão pela qual a maioria dos eleitores deixa de votar. Consta que entre os brasileiros o único a votar regularmente é o editor de Cidade de Deus, Daniel Rezende.

Quanto ao mais é só aguardar. Ontem teve estréia nacional de mais um dos filmes com indicações e com ineditismos. Trata-se de A Indomável Sonhadora, com quatro indicações: melhor filme, melhor direção, melhor roteiro adaptado e melhor atriz, Os ineditismos vão por conta da menininha, com seis (ou oito) anos de idade durante as filmagens, Quvenzané Wallis. É a mais nova pessoa, em termos de idade, com indicação a melhor atriz. O mesmo ocorre com o seu diretor, Ben Zeitlin, 30, também um novato. Aliás, no extremo oposto, concorre a atriz mais velha, Emmanuelle Riva, de Amour, com 85 anos. Proximamente estaremos comentando o filme. Por enquanto, vamos ficando nas expectativas e..., na torcida.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A Sucessão Papal 3. Dante Alighieri e a renúncia de celestino V.

Dante Alighieri (1265-1321) também era político. Era absolutamente a favor de que as pessoas assumissem posições com muita firmeza. Não cabia em sua mente a neutralidade. Envolveu-se profundamente nas brigas de seu tempo, que, por sinal, não eram pequenas. Viveu em tempos de crises profundas, em tempos de transição. O mundo moderno estava em seu alvorecer. O poder estava migrando - do poder espiritual/papal para o temporal, dos reis. Problemas de sucessão no Sacro Império Romano Germânico dividiram a Europa entre Guelfos (seguidores do papa) e Gibelinos (adeptos do poder temporal).
Busto em homenagem a Dante, na sua cidade de Florença, da qual viveu banido por quase toda a vida.

Dante, apesar de católico devoto era um fervoroso gibelino. Uma das coisas que ele mais odiava era a dita neutralidade. A leitura de A Divina Comédia é recomendada pela Igreja e posta em nível de igualdade com a leitura dos Evangelhos, pelos efeitos que ela produz sobre a alma de um cristão. Dante, no entanto, nunca foi proclamado como um santo da Igreja. Os motivos parecem óbvios.
A monumental obra de Dante Alighieri. Versão bilíngue da Landmark.

Creio que ninguém tem dúvidas sobre a superioridade da primeira parte da Comédia, em que é descrito o Inferno, sobre as demais partes, onde são descritos o Purgatório e o Paraíso, respectivamente. Assim como também, creio eu, ninguém tem dúvidas sobre o verso mais famoso desta primeira parte, bem como de todo o livro, é o início do canto terceiro, em que se encontra o verso inscrito no portal do inferno:

"Por mim vai-se à cidade que é dolente,
por mim se vai até a eterna dor,
por mim se vai à perdida gente. [...]
Deixai toda a esperança, vós que entrais".

Este "deixai toda a esperança, vós que entrais" é a frase terrível com a qual Dante, guiado por Virgílio, inicia a sua viagem pelo Inferno, numa graduação dos pecados, dos menores para os maiores. A primeira parte é dedicada ao Inferno, mas não àquele propriamente dito e que é dividido pelo poeta em duas partes: o vestíbulo e já o primeiro círculo, o limbo. A estas partes são dedicados o terceiro e o quarto cantos. Nele iremos encontrar os ignaros (no ante-inferno, ou no seu átrio) e os virtuosos anteriores a Cristo e as crianças não batizadas (O limbo foi abolido pela Igreja, através de um documento da Comissão Teológica Internacional da Igreja e a sua publicação - e consequente validade - foi autorizada pelo papa Bento XVI, em 2007). Entre os virtuosos estão todos os grandes nomes da antiguidade clássica, inclusive o seu guia Virgílio. A escolha de Virgílio como guia, se dá em função da admiração que Dante lhe devota e por causa da Eneida, especialmente ao canto VI, Eneias no mundo das sombras, uma espécie de viagem precursora.
Em revista sobre a Divina Comédia, a apresentação dos primeiros círculos do Inferno e o seu vestíbulo, onde colocou o papa Celestino V, por ter renunciado ao pontificado.

O posicionamento político de Dante faz com que os seus personagens do Inferno tenham nomes. São os seus inimigos políticos. Pois bem. É aqui que entra a história do papa que renunciou. Trata-se de Celestino V, um monge da região do Abruzzo, de nome Pietro da Morrone, que através de uma série de manipulações dos cardeais, é eleito papa, sem nenhuma vocação para tal, renunciando cinco meses depois. Isso ocorre no ano de 1294. O mais grave disto, do ponto de vista de Dante é que isso proporcionou a ascensão do guelfo Bonifácio VIII ao papado, considerado por ele, como causa de todos os males que afligiam a Dante e a sua Florença. Dante coloca a Celestino V, nem no Paraíso e nem no Inferno. Não o quis Deus e nem o demônio. A renúncia ou a omissão fez com que não interessasse nem ao Bem e nem ao Mal. Não vai nem mesmo para o inferno, ficando na sua ante-sala.

Mas vamos ao papa rifiuto. Dante não é nada  generoso com o renunciante. Não o coloca no inferno propriamente dito, mas muito menos no Paraíso. Vamos aos versos do entorno,  Versos 33 ao 68.
"E co a cabeça de erros só cingida,
eu disse: Mestre, que ouço? pela dor, 
que gente é esta agora assim vencida?
E ele a mim: 'É o mísero valor
daquelas almas tristes em seu choro
que foram sem infância e sem louvor.
Vão misturadas ao molesto coro
dos anjos que não foram nem revéis
nem fieis a Deus, senão ao próprio foro.
Por mor beleza, o céu expulsa-os; eis
que a acolhê-los o inferno não se atreve:
seriam glória aos réus de eternas leis.
E eu: Ó mestre, o que é que tanto deve
neles pesar em tal lamento forte?
E ele disse: Te dou resposta breve.
Esperança não tendo em si de morte,
trazem tão baixa e cega a vista baça,
que têm inveja a toda a demais sorte.
Da fama não lhes fica ao mundo traça;
misericórdia justa os já despreza:
mas não falemos deles: olha e passa.
E uma bandeira vi, com tal surpresa,
que girava correndo em veloz jeito,
e à qual indigna pausa era defesa;
e atrás lá vinha longa fila a eito
de gente que eu jamais teria crido
que a morte tanta houvesse já desfeito.
Depois de haver alguns reconhecido,
vi, conheci, da sombra a lividez
que por vileza a mor escusa há tido.
Logo entendi e certo se me fez
ser a seita dos maus que são nocivos
a Deus e aos inimigos de uma vez.
De tão abjectos nunca foram vivos,
estavam nus e os bem espicaçavam
só vespas e moscardos, como crivos.
O rosto com o sangue lhes regavam,
e o sangue e mais as lágrimas, no chão,
lá repugnantes vermes os tragavam (Tradução de Vasco Graça Moura - Landmark - 2005)

Vejam o julgamento do renunciante nas palavras do próprio Dante: "Logo entendi e certo se me fez - ser a seita dos maus que são nocivos - a Deus e aos inimigos de uma vez".
A biografia de Dante, de R.W.B. Lewis, da Objetiva e a revista Livros - Entre Clássicos, dedicada a Dante.

Não posso terminar este post, sem mencionar a renúncia de Bento XVI. É evidente que o julgamento de Dante não se aplica a ele. Em primeiro lugar porque o julgamento de Dante tem tempo e espaço definidos. Um papa que renunciou por uma ato de fraqueza e que proporcionou a ascensão do inimigo. É muito mais um lamento do que uma condenação, embora como condenação, pesadíssima. No dia de hoje(22.02.2013) repercutem no Brasil os dados publicados pelo jornal "La Repubblica" sobre os reais escândalos que teriam levado Bento XVI à renúncia. Oportunamente comentaremos.

É mais do que visível a debilidade física de Bento XVI. Li que ele tem sérios problemas de visão, de audição e de locomoção. Abdicar ao papado, nestas circunstâncias é acima de tudo um ato de humanidade e que assim deve ser entendido por todos. A longevidade de nossos tempos traz também as suas consequências. A sua renúncia, apesar de termos uma figura nova, um ex-papa, é plenamente justificável. Amanhã falaremos de Leonardo Boff.


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A Sucessão Papal 2. A Guinada Conservadora.

O Concílio Vaticano II praticamente ficou inconcluso. Temas como o celibato clerical, a contracepção e a participação feminina na hierarquia passaram em branco e até hoje são temas absolutamente polêmicos. Com a inesperada e aparentemente inexplicável morte de João Paulo I e a eleição de João Paulo II, a igreja volveu-se à direita. As questões sociais, se não ficaram ausentes, passaram a ocupar uma posição absolutamente secundária. Os teólogos da teologia da libertação foram praticamente sufocados e alijados da hierarquia. Dioceses com bispos democráticos e progressistas foram divididas, como aconteceu com a arquidiocese de São Paulo. Esta divisão nos é narrada pelo próprio Cardeal Arns, em seu belo livro de memórias Da esperança à Utopia - Testemunho de uma vida. Cerca de 100 teólogos foram punidos, entre eles, o brasileiro Leonardo Boff.

Sempre que abordei questões de religião em minhas aulas, sempre as fiz do ponto de vista cultural e nunca pelo da religião e da fé. Normalmente estas abordagens integravam um capítulo sobre a cultura ocidental, profundamente cristã e capitalista. A partir daí recompúnhamos a sua origem. O cristianismo sob este ponto de vista é possivelmente a mais sofisticada construção histórica e cultural que existiu. Do judaísmo herdou o monoteísmo e a Bíblia, como a palavra de Deus; dos gregos recebeu a racionalidade e a concepção individual. O mundo das idéias de Platão rapidamente se transformou no mundo das idéias divinas e, - dos romanos, com a fusão das heranças anteriores, foi acrescida a organização. Entre nomes e fatos apontaria São Paulo e o Concílio de Jerusalém, O Concílio de Niceia (Constantino e a ortodoxia) e Santo Agostinho, como aqueles, e com os quais, os pilares fundamentais da doutrina estavam lançados. No século IV e V, quando viveu Santo Agostinho, o cristianismo já tinha praticamente a sua configuração atual. É a primeira doutrina que visa a universalidade. Um enorme projeto de poder, portanto. E como tal, foi um enorme sucesso.
Um belo livro do historiador Paul Johnson, História do Cristianismo. Imago, 677 páginas.

Deixo aqui como recomendação de leitura, para quem se interessar mais de perto pelo tema, o extraordinário livro do conservador historiador inglês, Paul Johnson - História do cristianismo, uma publicação da Imago.

Para entender bem o espírito do cristianismo, na sua guinada conservadora, eu recorro a um texto, retirado do livro de João Paulo II, intitulado Memória e Identidade, que eu considero profundamente ilustrativo. Ele está no capítulo 2 - Ideologias do mal - Então, qual foi a origem das ideologias do mal? Quais são as raízes do nazismo e do comunismo? Como se chegou à sua queda?

A partir desta apresentação começa a interpretação papal. Vou assinalar a parte do texto que considero fundamental. Quem não o considera suficiente, recomendo o livro inteiro. É uma publicação da Objetiva. Vejamos. O que quero destacar está escrito na quarta página do capítulo. As anteriores são de introdução ao tema proposto:
Livro de João Paulo II, onde se encontra o texto transcrito abaixo.

[...] "A fim de ilustrar melhor este fenômeno, é preciso remontar ao período anterior ao Iluminismo, sobretudo à revolução operada no pensamento filosófico por Descartes. Aquele seu "cogito, ergo sum - penso logo existo" desencadeou uma reviravolta no modo de fazer filosofia: no período pré-cartesiano, a filosofia - e por conseguinte o cogito ou melhor, o cognosco - estava subordinado ao esse, que era visto como primordial. Aos olhos de Descartes, por sua vez, o esse aparecia secundário, enquanto ele considerava primordial o cogito; deste modo realizava-se não só uma mudança de direção no filosofar, mas decididamente abandonava-se o que tinha sido até então a filosofia e, mais concretamente, a filosofia de Santo Tomás de Aquino: a filosofia do esse. Antes tudo era interpretado na perspectiva do esse e procurava-se uma explicação de tudo dentro dessa ótica: Deus, Ser plenamente auto-suficiente (Ens subsistens), era considerado o suporte indispensável para todo o ens non subsistens, ens participatum, isto é, para todos os seres criados e, por conseguinte, também para o homem. O cogito, ergo sum implicava uma ruptura com essa linha de pensamento: tudo o que for esse - tanto o mundo criado como o Criador - permanece no campo do cogito como conteúdo do conhecimento humano. A filosofia ocupa-se dos seres enquanto conteúdo do conhecimento, e não como existentes fora dele".

Mais explícito é impossível. É a mais pura renovação da subordinação agostiniana, da razão à fé, da razão como uma serva da teologia. A razão é uma dádiva que os homens receberam de Deus, para melhor entender a palavra de Deus e, - nunca para suscitar dúvidas ou afastamento. E aí se encerra a discussão. Ou você crê ou não crê.É um pacote pronto, onde também está incluída a questão da infalibilidade do papa. Creio que isso é fundamental para entender as dificuldades que Bento XVI teve com os temas relacionados ao ecumenismo. Qualquer interpretação diferente disso será dar superioridade ao racional - o que é a inversão entre o esse, o ens subsistens e o cogito, o ens non subsistens. Não existe espaço para o diálogo. A doutrina é hermeticamente fechada. Não existe espaço para nenhum tipo de concessão. Temas novos são tratados  com a velha doutrina imutável.
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A foto de João Paulo II. Para dentro, a doutrina rígida, para fora, uma aproximação carismática.

Isto gera crises? É óbvio que sim. Isso é a fonte de toda a autoridade e poder intolerante, contra o qual não há argumentos. Ainda bem que vivemos em tempos mais abertos, em que foi se construindo uma sociedade mais aberta, mais plural e que caminhou a passos largos na consolidação de direitos civis, políticos e sociais. Amanhã continuarei com o tema.