sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Paulo Freire e um colunista da Gazeta do Povo.

Um jornal precisa de sustentação financeira e de credibilidade. Esses dois fatores jamais podem ser dissociados. A parte financeira, ele a busca com os seus anunciantes e com a venda do seu produto. A credibilidade é conquistada pelo seu número de leitores e especialmente pelos seus assinantes. Creio não errar, ao afirmar que hoje em dia, cada assinante de um jornal de um certo porte, é um formador de opinião. É para cumprir esses dois fatores que o jornal monta uma estrutura que, convenhamos, não é pequena.
Há um bom tempo sou assinante da Gazeta do Povo e, embora muitas vezes discordando, especialmente de artigos de colunistas, nada havia no sentido de me desfazer de sua assinatura. Aprecio muitos de seus colunistas, como o Cristóvão Tezza, o Veríssimo, o Élio Gaspari, o José Carlos Fernandes, o Belmiro, entre outros. Reconheço igualmente o mérito de muitos de seus editores e repórteres.
Inclusive, me senti muito honrado, quando numa certa oportunidade, compus uma mesa com os premiados repórteres dos "Diários Secretos". Também no jornal trabalham vários dos meus ex alunos, que sempre se situaram entre os melhores. Inúmeras vezes usei a Gazeta na abertura de minhas aulas para pautar os temas em evidência e, a partir deles, fazer análises de conjuntura.
No entanto, na semana passada, mais precisamente numa quinta feira, dia 18, havia uma chamada de primeira página para o artigo de um de seus colunistas, sobre o mais renomado educador brasileiro, Paulo Freire. O artigo desmerece o educador e o culpa como o grande responsável pelo atual fracasso da educação brasileira.
Aí o jornal mexeu com um dos "meus santos". Paulo Freire é um monumento vivo da emancipação humana. E isso está evidenciado já no título de suas principais obras: Educação como Prática da Liberdade; Pedagogia do Oprimido; Conscientização; Pedagogia da Autonomia e Pedagogia da Esperança. Paulo Freire era muito querido mundo afora. Talvez até mais por lá do que por aqui, uma vez que a ditadura não suportou o seu trabalho de alfabetização, vinculado ao projeto de emancipação e conscientização e o baniu do país. "A leitura de mundo precede a leitura da palavra".
Paulo Freire tem reconhecimento universal. Possui 41 títulos de Doutor honoris causa. Entre as universidades que lhe concederam tal laurel, está simplesmente aquela que é considerada a melhor do mundo: a universidade de Harward. O reconhecimento de seu trabalho emancipatório através da alfabetização, o levou, inclusive, a ser indicado por inúmeras instituições para o Prêmio Nobel da Paz.
E quem o ataca? Um desconhecido. Ao menos ao longo dos meus 43 anos de carreira acadêmica, nunca vi - uma citação sequer - do tal achacador. Melhor fariam certas pessoas se ficassem recolhidas em sua insignificância, ou então lessem, se dedicassem, que estudassem, para também se referenciarem e aí sim, poderem participar de debates em alto nível.
Recordo uma frase de Romário. Sim, o nosso jogador e hoje deputado, quando ele falava de um certo jogador de futebol. "Quando ele cala, ele é um poeta"!
Quando eu vi o "meu santo" achincalhado, imediatamente liguei para a Gazeta do Povo para fazer o cancelamento da minha assinatura. Finalmente, no dia de ontem, consegui o meu intento. Com Paulo Freire aprendi a ser radical (de raiz - pensamento enraizado, fundamentado) para combater os sectários que procuram com a sua intransitividade, impedir os passos de uma sociedade que, apesar de tudo, ainda está em trânsito.  O tempo é tridimensional! Quem leu Paulo Freire sabe do que estou falando.
Sinto por todos os bons profissionais que a Gazeta tem em seus quadros, mas me sinto no sagrado dever de não contribuir para dar sustentação e voz, àqueles que profundamente contrariam as minhas convicções.
A indignação me levou a tomar essa atitude.

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