sábado, 31 de agosto de 2013

1988 -2013. 25 anos do 30 de agosto. Algumas Reflexões.

A primeira coisa que fiz para participar da comemoração dos 25 anos do 30 de agosto foi me reinserir no seu contexto e na sua história. Revi o material produzido pelo sindicato. Fui dirigente da APP-Sindicato por três gestões, na qualidade de presidente do Núcleo Sindical de Umuarama e depois, membro da diretoria estadual por duas gestões. Também integrei várias comissões de negociação, inclusive aquela que gerou os acordos com o governo, que o novo governante descumpriu e que motivou a greve que levou ao lamentável desfecho provocado pelo ato intempestivo do então governador, qual seja, o do uso da violência do Estado.

O principal acordo que tínhamos celebrado com o governo anterior, com o João Elísio Ferraz de Campos, era o do pagamento de um piso salarial no valor de 3 salários mínimos e com um avanço para 3,2 no decurso de mais alguns meses. Quando Dias assumiu o governo ele até cumpriu alguns itens do acordo, fato que mereceu, inclusive, alguns elogios. O tempo era de inflação elevada. Álvaro usou um estratagema do governo federal, do então presidente Sarney, que na época criou dois salários mínimos: um de referência e outro real. Álvaro passou então a corrigir os salários dos professores, não mais pelo salário mínimo real, mas pelo de referência, que não era reajustado. Esse estratagema anulou todas as negociações salarias feitas com o governo anterior, que representaram bons avanços. Este foi o primeiro ato de violência cometido pelo então governador. O resto foi extensão e aprofundamento desta violência.

O rompimento dos acordos levou ao movimento de nova greve, legitimamente construída pela categoria, através de assembleias. As negociações não andavam e a greve estava para completar já um mês. Não havia nenhum sinal de esmorecimento da greve, como o então governador costuma maldosamente insinuar. O sindicato conduzia o movimento com firmeza e jamais houve infiltrações vindas de São Paulo, como também insinua o ex governador, com maldade sem par, inclusive, ainda no dia de hoje (30 de agosto de 2013 - página 8 da  Gazeta do Povo). A condução da greve continua merecendo elogios da categoria até os dias de hoje e, a então presidenta, professora Isolde, recebe toda a veneração da categoria. As aleivosidades contra ela proferidas, jamais afetaram o seu reconhecimento e a sua imagem.

A manhã de hoje, apesar de fria, começou bonita. O calor tomou conta, sob todos os aspectos. A praça Santos Andrade foi tomada de gente, que chegava por todos os lados. A passeata foi linda e extremamente ordeira, como são as manifestações da classe trabalhadora. Quando existe violência em passeatas de trabalhadores ela não é provocada por eles. Aí sim existem infiltrados, quando ela não é praticada pelos próprios contingentes policiais. A estas alturas conclamo Brecht, para junto com ele fazer uma pequena reflexão sobre a violência, com uma pergunta instigante: "É violenta a água revolta e agitada das corredeiras de um rio, ou é violenta a calma e tranquila margem que comprime as águas". É uma questão de ação e reação. Quanto ao transtorno no trânsito, pedimos aos que se sentiram prejudicados, que debitem os transtornos, ao hoje senador, ou ao então governador. Se ele não tivesse soltado os cavalos em cima dos professores há vinte e cinco anos, nada teria acontecido hoje.

A passeata chegou ao palco da violência da época. Ela foi reproduzida em encenação. Imagens de cavalos foram postados contra professores e os cavalos foram derrotados, ou simbolicamente, a violência foi derrotada. E uma palavra sobre o significado do trinta de agosto e, especialmente, a sua comemoração anual como dia de luta e de luto. A repetição do ato, a cada ano, tem a finalidade para que tal ato jamais se repita. E creio que está nisso, uma das maiores contribuições que os professores do Paraná deram para o povo do Paraná. A violência não mais se repetiu. Podem ter existido atos violentos, de exacerbação, cometidos individualmente, mas nunca mais pela ordem intempestiva de um governante, ou então atos sorrateiros, na calada da noite ou em madrugadas, longe das vistas da população. Este é o nosso orgulho. Isso move a nossa autoestima e é isto que faz com que repitamos todos anos, com tanto entusiasmo e galhardia este ato, para manter viva a memória de que não mais sejam cometidos atos de violência de um governante contra os seus governados. É impressionante também, o quanto aquele ato de violência real se transformou em violência simbólica e é assimilado pelas novas gerações de professores. Aquele ato continua repercutindo e doendo em todas as professoras e professores.

Uma mensagem final a quem interessar possa. A tomo de jorge Amado, que dá voz a Tieta do Agreste, que lembra as palavras de seu marido Felipe, recentemente falecido:"Felipe costumava dizer que para se viver feliz era preciso antes de tudo abolir a consciência" (pág. 555), para logo depois voltar ao tema: "Para se viver bem, repetia Felipe, homem sábio, é necessário antes de tudo abolir a consciência. A merda é que nem sempre se consegue" (pág.568). Felicidades. Aquele ato do dia 30 de agosto de 1988 não foi uma brincadeira.

2 comentários:

  1. É Professor Pedro, quantos aboliram suas consciências...

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  2. Eliane, você tocou no ponto fundamental. Hoje parece mais fácil, este abolir consciências. Agradeço a sua observação.

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