sábado, 10 de agosto de 2013

Tieta do Agreste. Jorge Amado.

Este talvez seja o mais longo dos romances de Jorge Amado. O romance foi escrito entre 1976-7, na Bahia e em Londres. Além do livro, também obteve enorme sucesso no cinema e na televisão. Se Gabriela Cravo e Canela rendeu a Jorge Amado a sua casa no Rio Vermelho, os direitos autorais de Tieta possibilitaram a Jorge a compra de seu apartamento em Paris. O próprio Jorge é que conta isso.
Tieta do Agreste em sua nova edição. Companhia das Letras. 2012.

A história se ambienta no interior baiano, no litoral norte, já na divisa com Sergipe. Santana do Agreste é o seu cenário, junto com a paradisíaca praia de Mangue Seco e seus coqueirais. É óbvio que Tieta, Antonieta ou ainda a madame Antoinette será o personagem central. Tieta é mais uma das famosas mulheres descritas por Jorge Amado. A sua força é tão grande que a madame francesa Antoinette é nascida na Martinica, igual a Josefina, a poderosa esposa de Napoleão.

Tieta é uma moça pobre mas cheia de vida e de natureza. O bode Inácio incendeia o seu imaginário e mirando-se nele e nas cabras, muito cedo se inicia nas atividades sexuais, numa cidade muito conservadora. Isto lhe vale uma boa surra e a expulsão de casa pelo seu pai, o Zé Esteves. Tieta tem duas irmãs, Perpétua, a rainha da sacristia e Elisa, que ficam morando em Santana do Agreste e formam os outros personagens importantes do romance.
Edição de lançamento de Tieta do Agreste em 1977.

Depois de um certo tempo chega regularmente, ou melhor, mensalmente uma carta que tem como remetente Tieta e uma certa caixa postal de São Paulo. Tieta, a remetente, nunca dá pistas de seu endereço e muito menos da vida que leva no sul progressista. A história ganha novos componentes, a partir de um atraso considerável na chegada da correspondência de São Paulo, o que faz Perpétua ir à agência dos correios diariamente. Ali se fazem as mais diversas conjecturas sobre o que poderia ter acontecido. Morte e herança são os temas mais comentados. Uma das personagens mais bem construídas no imaginário de Jorge é Dona Carmosina, a agente dos correios e, em função disso, conhecedora de todos os fatos que ocorrem na cidade. Por ela chegam as notícias e por ela saem as cartas e os telegramas. Ela ajuda neste ofício da escrita, quase um monopólio seu, o que lhe possibilita um amplo conhecimento sobre tudo o que acontece na cidade. A agência dos correios é tida como o areópago da cidade.

Um mistério inicial está construído. Quem é Tieta agora, o que faz, a tal ponto, de poder ajudar a família mensalmente, por que oculta o seu endereço e por que a carta está atrasando tanto?  O mistério começa a se desfazer com a chegada de Tieta na jardineira de seu Jairo, que liga Santana do Agreste a Esplanada, acompanhada de uma bela enteada, Leonora. Mas o mistério em torno de Tieta aumenta. Quem é ela afinal de contas?
Capas de Tieta do Agreste, mundo afora.

Santana do Agreste parou no tempo e vive um período de decadência. A cidade é governada pelo secretário da prefeitura, já que o prefeito não tem mais condições para o exercício do cargo.  Ascânio Trindade é o seu nome. Será um dos personagens mais emblemáticos da sociedade de Agreste. Está profundamente preocupado com o progresso da cidade. Após um dia de viagem, voltando para a cidade, desabafa de um insucesso seu, na tentativa de trazer a energia elétrica de Paulo Afonso para a cidade. Até desfeitas lhe fizeram. Tieta, ao saber do ocorrido, toma as suas providências. Ela, que já impressionara com os ricos presentes que havia trazido para os familiares e para a igreja, irá agora demonstrar muito mais poder, enviando um telegrama para São Paulo sobre a questão da energia elétrica. Em poucos dias chega a resposta positiva, da alteração de todos os planos da hidrelétrica e da contemplação da cidade com a sua energia. A energia ou a luz de Tieta. Ela se torna a benfeitora da cidade, enquanto a curiosidade em torno dela só aumenta.

A trama continua com Ascânio Trindade e as notícias sobre a instalação de uma indústria nos coqueirais de Mangue Seco, uma indústria altamente poluidora, de dióxido de titânio. Este fato, literalmente, divide a cidade. Ascânio também se envolve num caso amoroso com Leonora, a enteada de Tieta. Dá para imaginar o desfecho deste romance. Em Ascânio, Jorge deposita todos os preconceitos e o machismo existente nas nossas conservadoras cidades interioranas. Nesse tempo, Tieta já estava envolvida com o seu sobrinho, o seminarista Ricardo, filho da beata Perpétua. Perpétua tudo tolera pensando no futuro econômico de seu filho. Por Ricardo um outro personagem fantástico é introduzido na trama, frei Timóteo, um padre ligado à teologia da libertação.
Jorge Amado tratando com Cacá Diegues a versão cinematográfica de Tieta do Agreste, com interpretação de Chico Anysio, como Zé esteves, o pai de Tieta. Tieta é interpretada por Sônia Braga.

A parte final do romance começa com os desvelamentos. Leonora conta para Ascânio sobre a sua vida de mulher dama em São Paulo, no Refúgio dos Lordes, casa comandada por Tieta. Tieta chega a proprietária desta casa pela ação do rico industrial e comendador do papa, Felipe Cantarelli, de quem ficara viúva. Ascânio rejeita Leonora e a notícia se espalha por toda a Santana do Agreste. Os xingamentos entre Tieta e Perpétua são memoráveis. O comportamento de Elisa também. Simultaneamente, a Brastânio anuncia a desistência da construção da sua fábrica em Mangue Seco. A paz, aparentemente, volta a Agreste com a partida de Tieta e Leonora, levando mais uma cabra colhida no local, a sua concorrente na disputa pelo amor do seminarista Ricardo, Maria Imaculada. O resto fica por conta da imaginação dos leitores.
Gostaria de destacar duas frases do romance, ditas por Tieta:  Felipe costumava dizer que para se viver feliz era preciso antes de tudo abolir a consciência". Depois volta ao mesmo tema: "Para se viver bem, repetia Felipe, homem sábio, é necessário antes de tudo abolir a consciência. A merda é que nem sempre se consegue". Outra frase memorável dela, repetida várias vezes é a de que "de amor não se morre, de amor se vive". O romance é um belo retrato do Brasil da época: a tranquilidade da vida no interior e os agitos de um tempo de milagre econômico, de abertura para as multinacionais, da chegada da poluição e da ditadura militar, como nos mostra Lilia Moritz Schwarcz, em seu belo posfácio.

4 comentários:

  1. Muito bom, me ajudou demais.

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  2. Que bom que ajudou. Eu gosto demais, quando Tieta cita Felipe: "Para se viver bem, repetia Felipe, homem sábio, é necessário antes de tudo abolir a consciência. A merda é que nem sempre se consegue".

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  3. Amei,gostei demais.Amo as frases ditas por Tieta.

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  4. Bela percepção Deia Shine. Esta frase - de abolir a consciência realmente é demais. Não se consegue. Já a usei inúmeras vezes. Muito obrigado pelo seu gentil comentário.

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