terça-feira, 13 de agosto de 2013

Diário de uma Viagem. Vila Viçosa - Alter do Chão - Almourol e Tomar.

De Évora saímos bem cedo, pois, o dia nos reservava muitas atrações. Nossa primeira parada seria em Vila Viçosa, também no Alentejo. A viagem se deu, por um longo tempo, quase costeando a divisa com a Espanha, o que também enche a região de história. A cidade é antiga e conserva bem os seus muros medievais. Historicamente a cidade está ligada à Restauração do império português, em 1640 e, já em 1646 a cidade, e Portugal inteiro, são consagrados a Nossa Senhora da Conceição, que sempre ostenta a Coroa do Império. Consta que depois que Nossa Senhora foi coroada rainha e padroeira de Portugal, a Coroa Lhe é monopólio. Nenhum soberano mais a usou. A igreja, a Ela consagrada, é muito bonita.
Igreja de Nossa senhora da Conceição, coroada como rainha de Portugal. Em Viçosa.

Por ocasião de nossa visita, uma zeladora muito preocupada nos admoestava, especialmente através de nosso guia, para que fizéssemos o necessário silêncio para não perturbar as solenidades da reza da missa. No pátio da  igreja existe uma oliveira majestosa. O Alentejo é também grande produtor de azeite de oliva. Em frente, no local de entrada para a igreja, se conserva um pelourinho, que não era para castigar escravos negros desobedientes, mas para punir os infiéis.
O Palácio Ducal. Em frente a estátua equestre de D. João IV. Vila Viçosa é a cidade dos Orleans de Bragança.. Hoje o Palácio foi transformada numa pousada.

Outra atração histórica e turística é o Palácio Ducal, construído no século XIV, por D. Dinis. Em frente ao Palácio existe uma estátua equestre que homenageia D. João IV. Viçosa foi a cidade muito prestigiada pela família dos Orleans de Bragança, que ali fixaram residência até a proclamação da República portuguesa em 1910. Com a república a cidade entrou em decadência, uma vez que os símbolos da monarquia precisavam ser apagados. Hoje o Palácio abriga apenas uma pousada explorada privadamente. Outro título que Viçosa ostenta é a de ser a capital do mármore.

De volta ao ônibus, o guia nos fala sobre o mármore produzido na região e simultaneamente nos mostrava as suas enormes pedreiras. É famoso pelos seus mármores brancos, que são lapidados na Itália. O guia, misturando lamento, ironia e nostalgia, nos contava dos italianos que, não satisfeitos com o roubo do santo, agora também lhes roubam o mármore. Referia-se a Santo Antônio de Lisboa, que virou Santo Antônio de Pádua, a cidade italiana e, à lapidação do mármore em cidades italianas, ganhando assim, status de produto italiano. Nas proximidades estão as cidades de Extremoz e Borba, famosas pelos seus azeites, vinhos e mármores. Também nos falou de aguardente, a bagaceira, e de licores. Nos falou especialmente da famosa marca Beirão, que segundo dizem, recompõem as ideias. O licor Beirão é um dos mais típicos produtos portugueses.
Pedreiras de mármore. Portugal produz mármores brancos, que são lapidados na Itália.

A parada para o almoço foi em Alter do Chão, passando antes por Cabeço de Vide, famosa por suas águas termais. Em Alter do Chão o guia nos recomendou comer pernil de porco, que na verdade era o joelho de porco. A carne de porco está muito presente na cozinha portuguesa. Para acompanhá-lo, vinho, pois ainda estávamos no Alentejo. A cidade é muito pequena. Menos de três mil habitantes. É famosa pelo seu Castelo, historicamente ligado a expulsão dos mouros da Península Ibérica.

Um outro Castelo marcaria a nossa próxima parada para uma visita ao Castelo de Almourol, numa das ilhas do rio Tejo. Por muitos anos, este rio marcou a separação entre cristãos e árabes. A sua história também está relacionada à reconquista, a luta pela expulsão dos mouros de Portugal e da Península Ibérica. D. Afonso Henriques o confiou aos Templários, encarregados de povoar a região, especialmente com finalidades de defesa, perante as ameaças dos árabes. Os Templários e os seus sucedâneos, a Ordem de Cristo, tem toda uma história a ser contada, pois foram de uma importância fundamental. O Castelo fica numa ilha do rio Tejo e só é alcançável pelo rio. Fomos até as suas proximidades, num belo passeio de barco. É famoso também pelos reflexos que ele projeta na água, mas infelizmente, este fenômeno nós não o flagramos. Foi um passeio de encher os olhos.
O castelo de Almourol, numa ilha do rio Tejo.

Mas a surpresa do dia ainda estava por acontecer. A visita ao Convento de Cristo, na cidade de Tomar, declarado patrimônio da humanidade, pela Unesco. Tomar está totalmente voltada aos Templários, a ordem religiosa militar, criada em 1118 na cidade de Jerusalém. Os Cavaleiros da Ordem do Templo foram criados para proteger os peregrinos cristãos em visita ao templo de Salomão e à terra santa. O seu poder, dois séculos depois, fez com que a monarquia francesa solicitasse a extinção da ordem, o que foi feito pelo papa Clemente V, em 1312. Este tema dos templários, ainda hoje, preenche os nossos livros e as nossas telas nos cinemas.
Uma vista do Convento de Cristo, em Tomar. Tudo está ligado aos Templários e a Militar Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo

Em Portugal, em substituição aos templários, D. Dinis exigiu do papa a criação da Militar Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, para quem foi transferida toda a riqueza dos templários. O envolvimento de Tomar com os templários começou com a rainha D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, que fez as primeiras doações à ordem e, logo depois, D. Afonso a eles confiou a região, como ponto estratégico para a expulsão dos mouros e marco de defesa da Península. Foi então que começou a construção do castelo. A sua construção é histórica, tendo praticamente cada rei português contribuído com a sua construção, recebendo assim diferentes características, peculiares de cada época.
Possivelmente a coisa mais preciosa e rica do Convento de Cristo, a janela manuelina.

O seu envolvimento com as navegações se deve à nomeação do infante D. Henrique, em 1420, como Regedor da ordem, pelo papa. O infante usou a riqueza e o poder da ordem em favor das navegações e todos os navegadores portugueses, bem como Colombo, pertenceram a esta ordem religiosa. O castelo é realmente grandioso e impressionante e uma grande demonstração de poder. É uma cidade. São quase 40 hectares de terras muradas, com magníficas construções e muito luxo. É uma das expressões do Renascimento em Portugal. A ordem dos cavaleiros de Cristo, apesar de extinta, foi recomposta e existe até hoje. De toda a viagem foi a visita ao Convento de Cristo, uma das coisas que mais me impressionou e despertou curiosidade. Deixo aqui um pouco de sua história.Ali se celebra, de dois em dois anos, a festa dos tabuleiros. Ainda teríamos que chegar  em Fátima. 

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