segunda-feira, 24 de março de 2025

CÂNDIDO OU O OTIMISMO. Voltaire. 1759.

Impressionante! Grande Voltaire! Retomando os livros da coleção Os Imortais da Literatura Universal, tomei em mãos o livro de número 40 - Contos, de Voltaire. O livro tem em seu total 672 páginas e contém seus principais contos. Voltaire usou os chamados contos filosóficos para debater e expor os seus posicionamentos e contestar os seus adversários. A ironia será sempre a sua principal arma. E que ironia! Comecei a minha leitura pelo seu conto mais famoso: Cândido ou o otimismo - Traduzido do alemão do senhor doutor Ralph. Com os aditamentos encontrados no bolso do doutor, por ocasião da sua morte em Minden, no ano da graça de 1759. Eis o título completo do conto.

Contos. Voltaire. 1972. Tradução: Mário Quintana. Páginas: 149-238.

Vamos a algumas contextualizações. Creio, que, antes de ler Voltaire, necessariamente precisamos conhecer alguns dados biográficos seus e ver com quem ele estabelecia os diálogos e quais eram as suas concepções de mundo. Para o caso específico de Cândido, é fundamental saber sobre o panorama da filosofia na Europa, neste período da segunda metade do século XVIII. Os filósofos em evidência são os alemães Leibniz (1646-1716) e Wolff (1679-1754). Eles professavam que vivemos no melhor possível dos mundos. Não precisamos entrar em detalhes, uma vez que no conto tudo isso estará bem explicitado.

O primeiro fato que é necessário ter em conta para interpretar Cândido é o de que Pangloss, um dos personagens fundamentais, é Leibniz. Será ele o preceptor de Cândido. Será ele que infundirá no seu jovem discípulo um otimismo insofismável. O conto começa na Alemanha, na Vestfália, onde encontraremos os primeiros personagens: Pangloss, Cândido, Cunegundes e o barão, seu pai. As desventuras que ali ocorrem, os levam a percorrer o mundo. Assim o conhecerão, não por imaginação ou descrição, mas por experiência. Lembrando ainda, que Cândido alimenta uma paixão doentia pela bela jovem Cunegundes. Casar com ela e ser feliz é o grande sonho de sua vida. Será a felicidade no melhor dos mundos.

O conto é cheio de viagens, de conflitos e de guerras, de mortes e ressurreições, de fugas e de encontros com sábios e com o povo. Esses contatos os põem em contato com a realidade do mundo. Conhecem a Europa e conhecem a América. Os personagens principais se desencontram e outros entram em cena. Experiências fantásticas são vividas e a questão que os acompanha está onipresente: Que mundo é este? Assim como também a visão de felicidade de Cândido, em ver o seu amor por Cunegundes ser correspondido, embora todas as suas submissões que afetaram a sua dignidade.

A passagem pela América merece um destaque maior. Depois de passarem por Buenos Aires, onde Cunegundes permanecerá presa, e pelo império dos jesuítas no Paraguai, Cândido e o seu amigo Cacambo chegam ao Eldorado. Este sim, é o reino onde, sob a concordância de todos, não há males. Apenas Cândido permanecerá infeliz por causa da ausência de sua grande paixão. Dois destaques nesta visita ao Eldorado: as grandes riquezas e a discussão com um sábio sobre a religião. A Deus nada pedimos. Apenas agradecemos, lhes confidencia o sábio. São agraciados com presentes que tornam sua riqueza inesgotável. Outra passagem notável ocorre no Surinam, onde Cândido encontra o sábio Martinho  e a visão que tem da escravidão na lavoura canavieira. "É o preço do açúcar na Europa". Um encontro direto com o Mal. Pangross, não está presente nessa discussão. Ele fora vítima da inquisição.

Cândido fica sabendo que Cunegundes está em Veneza e ele então empreende todos os esforços para ir à cidade. Acompanhado de Martinho, contratam viagem. São logrados por todos, mas como vimos, agora são portadores de fortuna que não acaba. Passam pela França, pela Inglaterra e chegam a Veneza, onde tem uma passagem fantástica, a visita que fazem ao Sr. Pococurante. Cunegundes ainda não chegara. Nos países visitados só horrores e males e a conclusão de que a única terra sem males é mesmo  Eldorado.

Em Veneza sabem que Cunegundes está em Constantinopla, trabalhando como escrava, velha e feia. Será para lá que se dirigirão. E, já na parte final do conto, os personagens se reencontram. Cândido perde o seu encanto por Cunegundes, mas diante do não consentimento do barão, o pai da noiva, no casamento, ele desafia a ordem.  Pangloss dá seu consentimento, Martinho quer lançar o barão ao mar e Cacambo quer fazer voltá-lo às galés. 

O trigésimo e último capítulo do conto é dedicado a conclusões. Vejamos os diálogos finais: "Também sei - disse Cândido - que é preciso cultivar nosso jardim (antes um sábio turco lhe falara sobre o trabalho que evita os males do tédio, do vício e da necessidade).

- Tens razão - disse Pangloss -, pois, quando o homem foi posto no jardim do Éden, ali foi posto ut operaretur eum, para que trabalhasse; o que prova que o homem não nasceu para o repouso.

- Trabalhemos sem filosofar - disse Martinho; - é a única maneira de tornar a vida suportável.

Todo o grupo se compenetrou desse louvável desígnio. A pequena propriedade rendeu bastante. Cunegundes estava, na verdade, muito feia, mas tornou-se uma excelente doceira. Paquette bordava. A velha costurava. Nem mesmo o irmão Giroflée se furtou ao trabalho; revelou-se um bom marceneiro; e até se tornou honesto (o happy end de Pangloss).

- Todos os acontecimentos - dizia às vezes Pangloss a Cândido - estão devidamente encadeados no melhor dos mundos possíveis; pois, afinal, se não tivesse sido expulso de um lindo castelo, a pontapés no traseiro, por amor da Srta. Cunegundes, se a Inquisição não te houvesse apanhado, se não tivesses percorrido a América a pé, se não tivesses mergulhado a espada no barão, se não tivesses perdido todos os teus carneiros da boa terra de Eldorado, não estarias aqui agora comendo doce de cidra e pistache.

- Tudo isso está muito bem - respondeu Cândido - mas devemos cultivar nosso jardim".

Mas antes, diante de suas próprias desgraças, Panglos já havia afirmado para Cândido: " - Mantenho a minha primitiva opinião - respondeu Pangloss -, pois, afinal, sou filósofo; não me convém desdizer-me, visto que Leibniz não pode incorrer em erro, e a harmonia preestabelecida é a mais bela coisa do mundo, bem como o todo e a matéria sutil". Questões de filosofia.

 

domingo, 23 de março de 2025

A ROMANA. Alberto Moravia. 1947.

A minha última leitura foi A pele, de Curzio Malaparte. Um instigante livro sobre Nápoles, sobre a Itália e a Europa do pós Segunda Guerra Mundial. Por óbvio, Malaparte traçou um panorama profundamente depressivo e desolador. O que ler depois? Resolvi continuar na Itália, com o mesmo tema e a mesma época. E, um livro da mesma coleção - Os Imortais da Literatura Universal. A Itália do pós guerra. O livro da vez então foi A Romana, de Alberto Moravia. Adriana, a romana do título, é a personagem principal, que junto a todos os outros personagens, tem um encontro com as suas vidas, vidas absolutamente desencontradas. Enfrentam ambientes psicológicos destituídos de perspectivas. Deixo o link da resenha de A pele. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/03/a-pele-curzio-malaparte-1949.html

A romana. Alberto Moravia. Abril. 1972. Tradução: Marina Colasanti.

O livro é do ano de 1947. Tempo de reconstrução. Reconstrução de sonhos? Quais as razões para tantas angústias diante do destino? Vejamos primeiramente algo sobre o autor. Moravia nasce no ano de 1907. O sonho familiar era destiná-lo para a diplomacia. Uma doença, no entanto, impede a realização desse sonho. Era portador de uma tuberculose óssea (infecção grave que afeta ossos e articulações, me diz uma rápida consulta ao Google), que o obrigou a uma vida reclusa. Segundo ele próprio, este foi um dos fatores determinantes em sua vida. Outro seria a ascensão do regime fascista, iniciado em 1922, sob o comando de Mussolini. Um encontro permanente com o autoritarismo e a censura. 

O seu primeiro romance - Gli Indifferenti - lhe marca as características que o acompanhariam ao longo de sua vida de escritor. As ácidas críticas à decadente burguesia de Roma e às instituições a ela vinculadas, como o tradicionalismo, o casamento, a falsidade moral e o apego à propriedade. O sucesso despertou a censura e o livro foi proibido a partir de sua quinta edição. O livro de biografias que acompanha a coleção, lhe aponta uma segunda característica, de fundamental importância: "Outro traço do romance de estreia de Moravia é o perfil das personagens, cujos sentimentos básicos (tédio, indiferença, desatenção, náusea) permeiam toda a obra. Por isso, mais tarde, Gli Indifferenti seria considerado o primeiro romance existencialista europeu, escrito dez anos antes que Sartre e Camus, filosoficamente mais conscientes do que Moravia, dessem corpo ao existencialismo como corrente literária". Precursor do existencialismo.

A romana, livro de 1947, repetiria o êxito popular de seu romance de estreia. Ao livro incorpora novos personagens que conhecera ao longo de uma fuga e refúgio no norte da Itália, já sob a dominação nazista, pouco antes do final da Segunda Guerra: "O refúgio do estábulo dera-lhe a ideia de outro tipo de personagem, mais simples, preocupado basicamente em ganhar a vida", como lemos no livro de biografias. A romana começa a ser escrito no ano de 1945.  Adriana será a protagonista. E uma característica toda especial do livro. Será ela a narradora de sua vida, tudo em primeira pessoa. Me lembrei muito de Madame Bovary, quando Gustave Flaubert afirma ser ele a dita madame.

A respeito dessa sua tática de escritor, ele mesmo comenta: "... Essa técnica, essencialmente fotográfica, tem a vantagem de levar o leitor a uma intimidade maior com as situações do romance: 'Adriana, a romana, falando na primeira pessoa, poderia referir-se com mais liberdade, a qualquer coisa de Roma do que eu próprio, também romano, poderia fazê-lo'. Entretanto, a técnica trazia também problemas, colocados pela linguagem necessariamente restrita da personagem, cujo perfil simples e popular limita o vocabulário, obriga ao uso do dialeto romano e não pode ultrapassar, com suas explicações, o limitado universo cultural de que faz parte". Eu, da minha parte, devo dizer que esta estratégia tornou a sua leitura extremamente agradável.

E o romance? Adriana é uma menina de muitos sonhos, os dela e os de sua mãe. Sua beleza seria o meio para a realização desses sonhos, sempre instigada pela mãe. Torna-se modelo para pintores. Posa nua. Se envolve em relacionamentos, todos muito complicados. Chamaria atenção para quatro deles: Gino, um motorista casado, Mino, um estudante e militante político, Astarita, um policial do sistema fascista e Sonzogno, um criminoso. O seu envolvimento com esses personagens faz o romance ter uma fluência maravilhosa e a leitura ser agradável. A ingenuidade de Adriana, bem como a de sua mãe, a torna uma personagem que gera certa empatia, uma torcida para que tudo dê certo em sua vida. Mas isso seria o oposto do romance. O romance também mereceu o furor dos católicos, que o colocaram no INDEX, o índice de livros proibidos.

O livro é dividido em duas partes, as duas fases da vida de Adriana. A primeira consta de nove capítulos e a segunda de onze. Ao todo, soma 415 páginas. "... A ideia de outro tipo de personagem, mais simples, preocupado basicamente em ganhar a vida". É Adriana. e... Adeus aos sonhos românticos. Vejamos o parágrafo final da obra:

"Sozinha, senti minha dor quase aliviada pelo que tinha dito aos dois (ex companheiros de Mino). Pensei em Mino e depois pensei no meu filho. pensei que nasceria de um assassino e de uma prostituta; mas todo homem pode matar um dia e toda mulher pode entregar-se por dinheiro. O que mais importava era que nascesse bem e crescesse forte e sadio. E decidi que, se fosse homem, chamar-se-ia Giácomo (Mino), em lembrança de Mino. Mas, se fosse mulher, Letícia,, pois queria que, ao contrário do que se dera comigo, tivesse uma vida alegre e feliz, e tinha certeza de que, com a ajuda da família de Mino, assim haveria de ser". Olha a réstea de esperança... A caixa de Pandora.





terça-feira, 18 de março de 2025

A PELE. Curzio Malaparte. 1949.

Em julho de 2012 eu, definitivamente, me aposentei da sala de aula. Foi uma decisão muito difícil deixar este local onde sempre me senti muito bem. Junto com a aposentadoria, eu mesmo me presenteei com uma viagem de trinta dias pelos locais fundadores da cultura ocidental. Assim me vi em Roma, em Delfos, em Atenas, na Sicília, em Nápoles e Pompeia. Estive na Ponte Vechio e percorri os trajetos de Dante na sua amada Florença, vi a poderosa Milão e, em Gênova, saí do porto, assim como milhares de emigrantes em busca de novos destinos. Em Verona fiz uma visita a Romeu e Julieta, andei de gôndola na Sereníssima República de Veneza, fui a Assis e na estrangeira República de San Marino. De volta a Roma, ainda com tempo para pedir uma bênção ao papa, voltamos ao Brasil.

A pele. Curzio Malaparte. Abril. 1972. Tradução: Alexandre O'Neill.

Mas, por que estou contando isso? Por um motivo muito simples. Estando em Nápoles, fomos visitar a famosa ilha de Capri, onde moram as sereias. Lá fizemos uma viagem de barco ao redor da bela ilha. E, me lembro bem, que o guia que nos acompanhava nos apresentou uma casa. Era a casa do escritor Curzio Malaparte. Ele nos falava da maravilha dessa casa e dos grandes encontros que nela se realizavam. Lembro que fiquei bastante intrigado com essa apresentação. Mas ficou por isso, diante de tantos encantos que as paradisíacas paisagem nos ofereciam.

Agora a ligação dos fatos. Tenho em casa, em minha modesta biblioteca, a coleção de Livros da Abril - Os imortais da literatura universal. Entre eles, o de número 46, A pele, de Curzio Malaparte. Me impus a tarefa de ler os que ainda não lera e reler os maiores clássicos. Assim tomei em mãos, tanto o livro, quanto o livro de biografias e contextualizações, que acompanha a coleção. Fui à biografia, antes da leitura do livro. Ele me encheu de curiosidades e com uma imensa vontade de ler uma biografia melhor trabalhada sobre o autor. Uma vida cheia de conturbações e de mudança de posições. Dou alguns dados, mas antes quero dizer que Curzio Malaparte é o pseudônimo de Kurt Erich Suckert. O Malaparte é em oposição a Napoleão, que era Bonaparte.

Do livro de biografias tomo a apresentação do escritor: "Ilha de Capri, 1943. Kurt Erich Suckert (1898 - 1957), escritor e jornalista, volta as costas para a Europa de chamas e ruínas, e olha para o mar.

Ondas e gaivotas. Estranhos os sons semi-sonolentos do oceano a contrastarem com os ruídos incisivos que haviam acompanhado Suckert nos últimos quatro anos: palavras, gritos de homens irados, eco de passos marciais sobre o asfalto, uivo de obuses, próximos e distantes, latir nervoso de armas automáticas, riso cruel de metralhadoras, botas apressadas sobre a lama. E o som do sangue, alto e agudo, sangrando lento das veias do continente moribundo.

Quatro anos de guerra. A Europa tuberculosa expectora balas de ferro. Mas os canhões cansados já denunciam a agonia do paciente. Esmagado, arruinado, destruído.

Como político, como correspondente de guerra, como ser humano, Kurt Erich Suckert esteve nas várias frentes de decisões: Alpes franceses, Polônia, Rússia, Finlândia, Alemanha, Itália.

Escombros e ruínas de cidades e homens. Assim Suckert viu a Europa. E, se na ilha de Capri, lhe volta as costas, não há nesse ato indiferença. Era como o filho único de um camponês doente e solitário, que abandona o leito paterno para observar a estrada por onde deve vir o socorro. 

Os olhos no mar perscrutam ao longe. Esperam a frota anglo-americana de invasão que iria libertar a Itália e a Europa do terror nazi-fascista.

Na guerra, na invasão, o remédio para a guerra, para as invasões. E Suckert, antigo ideólogo do Partido Fascista Italiano, espera tropas estranhas, vindas de outro continente, para a elas juntar-se na luta contra seus antigos amigos.

Na sua atitude não há, porém, traição ou contradição. As posições que defende são conhecidas; rompeu com o fascismo oito anos antes de Hitler (1889-1945) invadir a Polônia. Quanto à guerra, considera-a não um mal em si mesmo, mas a consequência do impasse, da decadência a que chegara a velha civilização. Acha preferível lutar, destruir, a aceitar passivamente o mundo paralítico da década de 30. Por isso escreveu: 'Saiba-se que prefiro esta Europa destruída à Europa de ontem, e à de há vinte, de há trinta anos. Prefiro que tudo esteja por refazer a ter de aceitar tudo como herança imutável'".

É o livro. Não só A pele, mas também Kaputt. São os seus dois livros sobre os horrores da Segunda Guerra Mundial. Em Kaputt a guerra e em A pele, o pós-guerra.

O cenário de A pele, é a cidade de Nápoles (próxima a ilha de Capri e do Vesúvio). O ano é o de 1943. O fato é a chegada dos exércitos aliados para a libertação da Itália e da Europa. O livro é um constante diálogo entre o escritor e os comandantes do exército dos Estados Unidos. Como recebê-los, como tratá-los. um encontro entre vencidos e vencedores.  Ou dos vencidos à espera dos vencedores, em nome da liberdade. As descrições são muito vivas, fortes e algumas até inspiram asco, o asco das consequências de uma guerra, da ausência de qualquer dignidade na busca pela sobrevivência. Vidas ao sabor dos soldados do exército dos vencedores, inclusive o da prostituição das mulheres e das crianças, em troca de um dólar ou de um pedaço de pão.

Salvar a alma ou salvar a pele? Eis a grande questão. Nos diálogos há o encontro da história, dos valores culturais, da arte com a riqueza de um novo continente. O encontro de Malaparte com os oficiais vencedores se dá num tom de cordialidade, entremeada de muita sutileza e fina ironia. A ingenuidade dos oficiais é exposta. O livro é, inclusive, dedicado aos vencedores Vejamos a dedicatória: "A memória afetuosa do Coronel Henry H. Cumming, da Universidade de Virgínia, e de todos os bravos, os bons, os honestos soldados americanos, meus companheiros de armas de 1943 a 1945, mortos inutilmente pela liberdade da Europa". 

Deixo as frase finais do livro (de doze capítulos e 369 páginas), um dialogo entre o escritor e Jimmy, um alto oficial do exército vencedor:

"Estou cansado de viver entre os mortos - tornou Jimmy. - Sinto-me contente por voltar para casa, por voltar à América, por voltar a viver entre os homens vivos. Porque não vens tu também para a América? és um homem vivo. A América é um país rico e feliz.

- Sei muito bem, Jimmy, que a América é um país rico e feliz. Mas não irei, devo ficar aqui. Não sou um covarde, Jimmy. E depois, também a miséria, a fome, o medo, a esperança são coisas maravilhosas. Mais que a riqueza, mais que a felicidade.

- A Europa é um monte de lixo - disse Jimmy, um pobre país vencido. Vem conosco. A América é um país livre.

- Não posso abandonar os meus mortos, Jimmy. Vocês levam os seus mortos para a América. Todos os dias partem para a América navios carregados de mortos. Morreram ricos e felizes, livres. mas os meus mortos não podem pagar o bilhete para a América, são pobres demais. Nunca chegarão a saber o que é a riqueza, a felicidade, a liberdade. Viveram sempre na escravidão; sofreram sempre a fome e o medo. Serão sempre a fome e o medo. Serão sempre escravos, sofrerão sempre a fome e o medo, mesmo mortos. É o destino que lhes coube, Jimmy. Se soubesses que Cristo jaz entre eles, entre esses mortos, ias abandoná-lo?

Não queres com certeza que eu acredite  - ponderou Jimmy - que também Cristo perdeu a guerra.

- É uma vergonha ganhar a guerra - disse eu em voz baixa".

O livro de biografias nos conta sobre o final de sua vida. Nela permaneceram as contradições que o acompanharam ao longo de toda a vida. Ao visitar a China, tornou-se comunista e ao final converteu-se ao catolicismo. Morre em Roma (19 de julho - 1957) e nos deixa uma espécie de pequeno testamento: "Que os tempos novos sejam tempos de liberdade e de respeito para todos; inclusive para os escritores (os seus livros figuraram no Índice de livros proibidos, o famoso Index) É que só a liberdade e o respeito à cultura poderão salvar a  Itália e a Europa daqueles dias cruéis de que fala Montesquieu: 'Assim, no tempo das fábulas, após inundações e dilúvios, saíram da terra homens armados que se exterminaram'".

"Saíram da terra homens armados que se exterminaram". Uma definição do que é uma guerra.


terça-feira, 11 de março de 2025

MOBY DICK. Herman Melville. 1851.

Um livro muito diferente. Seguramente, muito diferente. Estou falando de  Moby Dick, do escritor dos Estados Unidos, Herman Melville (1819-1891). O livro foi lançado no ano de 1851. Não há contextualizações a fazer. Trata-se de um livro sobre baleias, de caça às baleias, de uma raça, em particular, entre elas, a dos cachalotes. E entre os cachalotes, uma de maneira toda especial, Moby Dick. O livro é um tratado, uma espécie de ensaio sobre baleias, à sua caça e o seu enorme valor comercial, a época. Seu óleo e, mais uma vez, em especial o espermacete, abundante nos cachalotes, pela sua qualidade e valor comercial bem mais elevado. Era usado no fabrico de velas e iluminação. Vejam bem, estamos no ano de 1851.

Moby Dick. Herman Melville. Abril. 1972. Tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos.

Como falei, o livro é uma espécie de ensaio e, por isso mesmo, aprendi muito sobre as baleias. Desde a baleia bíblica, a que engolira o profeta Jonas, até sobre a cidade de Nantucket e Bedford (Massachusetts), os grandes centros pesqueiros de baleia dos Estados Unidos. Aprendi sobre os baleeiros, sobre os navios baleeiros, sobre as diferentes espécies de baleias, sobre o seu peso e tamanho,(trinta metros- até noventa toneladas) sobre a sua valentia e dificuldades de ser abatida, sobre os hábitos dos caçadores, assim como os do enorme mamífero, sobre as infindáveis viagens, sobre os diferentes valores comerciais e assim por diante. As descrições são minuciosas e longas. O livro tem 135 capítulos, estendidos ao longo de 668 páginas. A edição que eu li foi o da coleção Os imortais da literatura universal, da Abril cultural, numa publicação do ano de 1972.

Ao longo da leitura, uma curiosidade me acompanhou. O que levaria um escritor a escrever um tratado sobre baleias. A coleção dos livros é acompanhada de mini biografias e pequenas contextualizações das obras. Creio que na leitura da biografia do autor encontrei segura resposta. Uma vida de dificuldades financeiras o levou aos navios baleeiros. E nesse sentido, o seu livro pode ser até considerado como um diário de bordo.

As suas dificuldades passaram pela falência e morte prematura do pai e de estar entre oito irmãos. Depois de alguns empregos insignificantes, meteu-se pelos mares. Era o ano de 1841 e o navio era o Acushnet: "Era um veleiro de três mastros, com 36 toneladas e 35 metros de comprimento, equipado com oficina mecânica, carpintaria, sala de costura, e repleto de provisões. Tripulavam-no 26 homens comandados pelo capitão, que era o único responsável pela escolha dos locais de caça e autoridade máxima durante todo o tempo de permanência no mar. Logo abaixo do capitão vinham os imediatos, os arpoadores, alguns marujos experientes e, por fim, os aventureiros. Todos eles participavam da caça à baleia, trabalho perigoso e emocionante.

Para realizar sua tarefa, esses homens utilizavam as chalupas, pequenos barcos de madeira leve, com cerca de seis metros de comprimento por dois de largura, um pequeno mastro para vela auxiliar e uma caixa que ia à frente com mais de quinhentos metros de corda presa ao arpão.

A operação era comandada pelos imediatos, que tinham sob suas ordens cinco remadores. A um dos remadores cabia a difícil missão de arpoar a baleia. Como nessa época não existiam ainda dispositivos mecânicos para arpoar, o caçador atirava sua arma com a mão, bem de perto e com toda a força. Podia errar o alvo, e perder a presa. Podia atingir o animal, porém isso não era ainda uma vitória. Muitas vezes, a baleia ferida afundava e se perdia no oceano. Ou saía nadando velozmente e arrastava o pequeno barco. Somente quando ela se cansava é que a chalupa podia aproximar-se; então o imediato a feria mortalmente, atravessando-lhe o corpo seguidas vezes, com uma lança metálica. Depois, ela era arrastada para perto do navio, onde se fazia a extração do óleo - trabalho que chegava a demorar umas cinquenta horas". Vou parar por aqui, senão dou o spoiler do livro. Observem o ano.

Depois continuou navegando, dando aulas e escrevendo, mas não se encontrava. Com a ajuda do sogro, compra uma fazenda e aí encontra o ambiente para escrever a sua grande obra, que ganha, de acordo com a síntese biográfica, um belo sub título Moby Dick ou o homem e seu destino. Vejamos como a obra é apresentada: "Foi ali, entre plantas, árvores e animais, que começou a elaborar Moby Dick: a estória do capitão Acab, comandante do "Pequod", contra Moby Dick, a baleia branca. Acab tinha vivido uma vida de solidão durante quarenta anos (belíssimas reflexões - capítulo CXXXII - A sinfonia). Casara-se muito tarde e em seguida partira para o mar. Seu maior desejo era vingar-se da baleia que lhe arrancara uma perna". (A caça a Moby Dick, ocupa os três capítulos finais do livro). É a narrativa de suas experiências no Acushnet. 

Mas o livro é muito mais. O livreto de biografias explicita o subtítulo que lhe atribuiu: "No entanto, o sentido mais profundo da obra é a eterna procura do homem, o intenso combate contra as forças do mal, o anseio de pureza, e por fim a amarga desilusão: a terra não é nem nunca virá a ser um paraíso". 

O livro foi um fracasso editorial. Ele foi efetivamente descoberto apenas ao longo do século XX, quando se compreenderam as complexas inter-relações filosóficas e religiosas de sua obra. Ainda, do livro de biografias deixo duas críticas. David Herbert Lawrence, apresenta a obstinação de Acab como "o instinto vital em luta contra o intelecto que o mata", enquanto que o renomado escritor e filósofo Albert Camus assim se refere ao escritor e ao livro: "Esse livro incessantemente reescrito, essa infatigável peregrinação através do arquipélago dos sonhos e dos corpos, sobre o oceano 'onde cada vaga é uma alma', essa odisseia sob um céu vazio, faz de Melville o Homero do Pacífico".

Deixo também o registro da extrema erudição do autor, de seu conhecimento da cultura clássica, bem como o da Bíblia, especialmente sobre o Antigo Testamento, donde retira precisas ilustrações. Suas observações religiosas são extremamente pertinentes, especialmente sobre os protestantes dos Estados Unidos. O narrador da epopeia do "Homero do Pacífico" é um marinheiro sobrevivente, como vemos no apêndice do livro.

Um adendo. Em 24.05.25. Do livro O Diário de H. L. Mencken, com edição de Charles A. Fecher. Apontamento do dia 10 de fevereiro de 1941. "Na semana passada, li, pela primeira vez, o romance Moby Dick, de Herman Melville. Fiquei realmente surpreso com a má qualidade. Nos últimos anos, foi enaltecido com tanta eloquência por muitos homens que deveriam conhecer melhor o assunto e, assim, criei grande expectativa. Achei um escrito extremamente dispersivo e flatulento. No final, o melodrama simplesmente malogra, e a vingança como motivação, várias vezes, beira perigosa à comicidade". Página 208.

Um novo adendo. Em 16.06.2026. De - Como e por que ler, de Harold Bloom (Objetiva 2001). "Limitei a minha leitura de Moby Dick a uma breve análise do Capitão Ahab, sendo ele o antepassado de todos os norte-americanos que estão sempre em busca de algo, alguns dos quais serão analisados no presente capítulo. Mas não poso deixar para trás o épico de Melville, livro que venero desde a infância, sem antes elogiar-lhe a extraordinária energia narrativa. Somos arrebatados por Ahab, ao mesmo tempo em que lhe rechaçamos a monomania. Ahab é norte-americano até os ossos, obstinado em seu desejo de vingança, mas sempre - estranhamente - livre, talvez, porque nenhum norte-americano assim se considere, de fato, a não ser que se sinta interiormente só" (Página 231).

 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

O NOME DA ROSA. Umberto Eco.

Continuo com as minhas releituras. O livro da vez foi O nome da rosa, de Umberto Eco, um monstro, no melhor e grandioso sentido da palavra. Terminei a sua primeira leitura no ano de 2011, quando ainda estava em sala de aula. Lembro como era difícil conciliar a leitura com o preparo das aulas. Ainda mais com livros como este, que exige concentração e foco total. Um livro de extrema complexidade e pressuposição de muitos conhecimentos acumulados. Vou fazer algumas contextualizações para estabelecer uma aproximação com a obra, especialmente com a época dos acontecimentos narrados, ou seja, o ano de 1327. O lançamento do livro ocorreu em 1980. Umberto Eco nasceu em Alessandria, na Itália, no ano de 1932 e morreu em Milão no ano de 2016. Sem favor nenhum, Eco foi um dos maiores e mais ativos intelectuais ao longo de sua história intensamente vivida.

O nome da rosa. Umberto Eco. Biblioteca Folha.

O livro que eu li e reli é da Biblioteca Folha (2003), com tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Na orelha da contracapa lemos algo sobre o autor. Considero absolutamente relevante saber que ele era "ensaísta de renome mundial, dedicou-se a temas como a estética, semiótica, filosofia da linguagem, teoria da literatura e da arte e sociologia da cultura", como lemos nesta pequena indicação. Somente alguém com este estofo seria capaz de escrever uma obra de tamanha envergadura. Vamos começar a nossa contextualização pelo ano dos acontecimentos narrados, o ano de 1327.

No campo da filosofia necessariamente devemos apontar para o doutor da Igreja, Tomás de Aquino (1225 - 1274 - Itália) e para o cientista e frade inglês, que lançou as bases para o mundo da ciência moderna, Roger Bacon (1220 - 1292). Ambos estão sempre presentes na obra de Eco. É a presença de Aristóteles chegando com muita força na cultura ocidental. Eles serão a força norteadora de Guilherme de Baskerville, o frade franciscano que é o personagem protagonista da obra.

No campo religioso - político vamos encontrar as divisões dentro da Igreja. É o tempo dos papados em Roma e do cisma de Avignon (1309 - 1377) e com intensas disputas e alianças com o poder temporal. E este poder temporal começa a se impor sobre o poder espiritual, de ordem divina dos imperadores e dos papas. É também o tempo de constantes inquisições e de acusações de heresia e de disputas entre as ordens religiosas, que surgiram ao longo da Idade Média e se intensificaram muito neste período histórico retratado. Na obra estão muito presentes os franciscanos, fundados por Francisco de Assis no ano de 1209 e os dominicanos, fundados por S. Domingos de Gusmão em 1216. Os monges oscilavam entre a VERDADE e a heresia, entre o céu e o inferno, entre a santidade e a excomunhão.

Creio que um outro dado, não presente no livro, mas que ajuda a esclarecer as lutas desse período é examinar A Divina Comédia (escrita entre os anos 1304 e 1321), de Dante Alighieri (1265 - 1321). Na época a grande luta se travava entre os guelfos e os gibelinos. Os guelfos eram partidários do papa, enquanto os gibelinos apoiavam o imperador, na época do Sacro Império Romano-Germânico. Dante, partidário dos gibelinos, não hesitava em colocar seus adversários nas piores camadas do inferno. São tempos de afirmação do poder temporal.

Vamos ao romance. Recorro mais uma vez ao próprio livro, orelha e contracapa. Vamos à orelha: "Ficção de estreia de um dos mais respeitados teóricos da semiótica, O nome da rosa transformou-se em prodígio editorial logo após seu lançamento em 1980.

Tamanho sucesso não parecia provável para um romance cuja trama se desenrola em um mosteiro italiano na última semana de novembro de 1327. Ali, em meio a intensos debates religiosos, o frade franciscano inglês Guilherme de Baskerville e seu jovem auxiliar, Adso, envolvem-se na investigação das insólitas mortes de sete monges, em sete dias e sete noites. Os crimes se irradiam a partir da biblioteca do mosteiro - a maior biblioteca do mundo cristão, cuja riqueza ajuda a explicar o título do romance: 'o nome da rosa', era uma expressão usada na Idade Média para denotar o infinito poder das palavras.

Narrado com a astúcia e graça de quem apreciou (e explicou) como poucos as artes do romance policial, O nome da rosa encena discussões de grandes temas da filosofia europeia, num contexto que faz desses debates um ingrediente a mais da ficção. O livro de Eco é ainda uma defesa da comédia - a expressão do homem livre, capaz de resistir com ironia ao peso de homens e livros". Em torno de um livro de Aristóteles, Poética, (sobre riso e comédia), gira todo o enredo do romance. Aristóteles, como vimos, é o filósofo em ascensão.

Já na contracapa temos mais informações: "Em novembro de 1327, Guilherme de Baskerville, um frade franciscano inglês muito parecido com Sean Connery e com Sherlock Holmes, chega a um mosteiro italiano que contém a maior biblioteca do mundo cristão. É acompanhado pelo jovem Adso, que, por sua vez, é parecido com o dr. Watson e com Sancho Pança. Adso, anos mais tarde, narra a história.

Guilherme tem a missão complicada de permitir um encontro, no mosteiro, entre uma delegação do papa e o frade teólogo Michele de Cesena, para quem Cristo e seus apóstolos não tinham bens de espécie alguma, cabendo aos cristãos (a começar pela Igreja) parecer-se com eles. Esta proposta era francamente mal vista.

No meio de um debate perigoso, em que as ideias custam excomungações e suplícios variados, eis que pipocam cadáveres de monges assassinados.

Fiquem de olho em Jorge de Burgos, o bibliotecário espanhol e cego, que seria muito parecido com nosso quase contemporâneo Jorge Luís Borges, se este, no fim de sua vida, tivesse se tornado dono da biblioteca de Babilônia.

Muitíssimos anos depois, Umberto Eco, um acadêmico italiano respeitado por seus sérios tratados de semiologia, estética e filosofia medieval, pensa, provavelmente, como Guilherme. Ou seja, pensa que o mundo é povoado por signos que deveriam nos orientar, mas, de fato, nos desorientam; que a pretensão das verdades absolutas é irrisória e, sobretudo, que o conhecimento sem alegria é uma idiotice. Dessa estranha coincidência entre o espírito de Guilherme e o de Eco nasce O Nome da Rosa, o romance moderno que conta a história da razão enlouquecida (de tanto se levar a sério) e a aventura do frade que saiu à procura do bom humor perdido". Este texto da contracapa tem a assinatura do colunista da Folha, Contardo Calligaris.

O romance é longo. São 479 páginas. Os sete assassinatos se transformam nos sete dias que formam as sete partes do livro. Ele tem o seu formato de um romance policial, que vem num crescendo de  suspense extraordinário, entremeado de profundos debates filosófico religiosos. Ele termina numa ecpirose. Da parte final em tomei algo que considero fundamental dentro da obra:

"'Era a maior biblioteca da cristandade', disse Guilherme. 'Agora', acrescentou, 'o anticristo está realmente próximo porque nenhuma sabedoria vai barrá-lo mais. Por outro lado vimos seu vulto esta noite'.

'O vulto de quem?' perguntei aturdido.

'De Jorge, digo. Naquele rosto devastado pelo ódio à filosofia, vi pela primeira vez o retrato do Anticristo, que não vem da tribo de Judas, como querem seus anunciadores, nem de um país distante. O Anticristo pode nascer da própria piedade, do excessivo amor a Deus ou da verdade, como o herege nasce do santo e o endemoninhado do vidente. Teme, Adso, os profetas e os que estão dispostos a morrer pela verdade, pois de hábito levam à morte muitíssimos consigo, frequentemente antes de si, às vezes em seu lugar. Jorge cumpriu uma obra diabólica porque amava tão lubricamente a sua verdade, a ponto de ousar tudo para destruir a mentira. Jorge temia o segundo livro de Aristóteles porque este talvez ensinasse realmente a defrontar o rosto de toda verdade, a fim de que não nos tornássemos escravos de nossos fantasmas. Talvez a tarefa de quem ama os homens seja fazer rir da verdade, fazer rir a verdade, porque a única verdade é aprendermos a nos libertar da paixão insana pela verdade'". Página 470. 

Um adendo. Em 17.06.2025. Do livro - infinito em um junco - a invenção dos livros no mundo antigo, de Irene Vallejo. "... Umberto Eco, brincando com os clichês do gênero, pisca o olho para os amantes das letras de todas as épocas substituindo a habitual femme fatale por um livro fatídico que tenta, perverte e mata quem ousa lê-lo. E o leitor se pergunta, naturalmente, que perigosos segredos esconde esse texto proibido que tem, conforme dizem, 'o poder mortífero de cem escorpiões'. Um evangelho oculto e subversivo, profecias catastróficas de algum Nostradamus medieval, necromancia, pornografia, blasfêmias, esoterismo, missas satânicas? Não, nenhuma dessas pequenezas. Quando Guilherme de Baskerville junta as peças do quebra-cabeça, descobrimos que se trata - oh, céus - de um ensaio de Aristóteles.

Sério? Alguém poderia se sentir ludibriado. Afinal de contas, Aristóteles não é exatamente um escritor radical nem alguém conhecido por suas ideias subversivas. Atualmente é difícil imaginar o teórico da justa medida, o enciclopedista minucioso, o fundador do Liceu escrevendo um livro maldito. Ainda assim, Umberto Eco conjectura os perigosos significados de uma obra aristotélica que nunca leremos: o tratado perdido sobre a comédia, a lendária segunda parte da Poética, ou seja, o ensaio que - como sabemos por alusões do próprio Aristóteles - mergulhava  no universo revolucionário do riso.

[...] 'Este livro eleva o riso à condição de arte, transformando-o em objeto de filosofia e de pérfida teologia. O riso liberta o aldeão do seu medo ao diabo, porque na festa dos tolos o diabo também parece pobre e tolo, e, portanto, controlável. Mas este livro poderia ensinar que se libertar do medo é um ato de sabedoria. Quando ri, com o vinho gorgolejando na garganta, o aldeão se sente amo, porque inverteu as relações de dominação; mas este livro poderia ensinar os doutos a legitimar essa inversão. Deste livro poderia sair a faísca luciferiana que acenderia uma nova chama em todo o mundo. Se algum dia, entregue ao testemunho indestrutível da escrita, a arte do riso chegasse a ser aceitável... então não teríamos armas para deter a blasfêmia, porque ela apearia para as forças sombrias da matéria corpórea, forças que se afirmam no peido e no arroto - e então o peido e o arroto se dariam o direito de soprar onde quisessem'" (páginas 207-8).


Por ser um livro maravilhoso, deixo aqui sua capa e referências.

Infinito em um junco - A invenção dos livros no mundo antigo. Irene Vallejo. intríseca. 2022.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

GERMINAL. EMILE ZOLA. 1885.

Meu tempo de releituras! A lembrança de uma leitura, entre as que mais impacto me causaram, me levou de volta para Germinal, a grande obra de Emile Zola. Seguramente é uma das obras mais importantes de todos os tempos. Como não é fácil fazer a resenha, começo falando algo do autor e de sua obra. Vamos aos dados de sua vida. Ele nasce no ano de 1840 e morre em 1902, asfixiado pelo gás do aquecimento. Morte estúpida. O livro é do ano de 1885. Mas vamos aos acontecimentos, aos fatos históricos do entorno de sua vida.

Germinal. Emile Zola. Abril. 1972.

Mais longinquamente vamos ao ano de 1789, o ano da Revolução burguesa na França, do fim da monarquia e dos ensaios da instauração da República. Tempos de Revolução, com as suas permanentes agitações. Tempos de interpretação de um novo mundo que surgia. Tempos de industrialização e urbanização. Tempos de proletariado e de burguesia. Tempos de Darwin (1809-1882), de Marx (1818-1883) e de Bakunin (1814-1876). Tempos de organização da luta dos trabalhadores, da fundação da Primeira Internacional (Londres - 1864). Tempos de Guerra, como a Franco- prussiana (1870-1871) e tempos de abalo das estruturas tradicionais de poder, como a famosa Comuna de Paris (18 de março a 28 de maio de 1871). E na literatura, tempos de naturalismo e de realismo.

Eram, sobretudo, tempos de esperança. Um novo calendário, instituído após a Queda da Bastilha, substituiu as datas cristãs por fenômenos da natureza. O início da primavera fora batizado com o nome de GERMINAL. Este seria o tempo das sementes germinarem, evoluírem, florirem e gerarem frutos, ou melhor, gerarem os novos tempos. Tempos de evolução, de razão, de ciência e de progresso. Tempos em que o novo insistia em se afirmar. Eram tempos em que estudos e lutas deveriam estimular as condições para a germinação e frutificação. 

A edição de Germinal que eu li foi a da Editora Abril - Clássicos da Literatura Universal, do ano de 1972, com tradução de Francisco Bittencourt. Esta coleção é acompanhada por mini biografias dos autores e contextualizações das obras. Na contextualização de Germinal, obra que expõe a situação dos trabalhadores das minas de carvão, vemos que Zola foi viver a situação desses mineradores. Vejamos essa descrição:

"Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar uma vagoneta por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles tem de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve dos operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas". Eis a obra.

Eu ainda acrescentaria que é também uma análise das crises do capitalismo, as crises provocadas pelo seu caráter autofágico de acumulação. Vide a pequena empresa de Deneulin, sufocada e engolida pela concorrência. Da mesma forma também mostra a podridão moral dos personagens burgueses, pequenos (Maigrat) e grandes (Hennebeau). E, cenas de luta de classes e de confusões teóricas de sustentação dessas lutas. Há os marxistas, os anarquistas e os conciliadores (Etiénne, Suvarin e Rasseneur). O clima das tentativas do imperativo do final do Manifesto Comunista - Proletários do mundo inteiro - uni-vos. A Organização Internacional dos Trabalhadores. Deixo aqui uma resenha dessas diferentes tentativas. A Primeira delas (1864) está muito presente na obra. (Agrupei num único post as quatro tentativas):

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/02/proletarios-de-todos-os-paises-uni-vos.html

Chamo atenção, ainda, para os principais personagens. O livro é a saga da família Maheu, avô (Boa-Morte), o pai, a mãe, sete filhos e um hóspede, que será o personagem principal, Etiénne. Uma família mutilada pela fome, pelo sofrimento e pela morte. São mais de cinquenta anos de mineração. Desta família também merece destaque a pequena Catherine, dividida entre seus princípios morais, amores pré-adolescentes e a violência da fome e de homem selvagem. Etiénne vive o drama da liderança, entre aclamações e cusparadas na cara. 

A narrativa de todo este sofrimento dos trabalhadores é longa e doída. Provoca o envolvimento do leitor. Diria que é um livro de formação de consciência, um livro que certamente integraria a lista de livros proibidos, a serem queimados, nessa nova onda mundial de ascensão da extrema direita. O livro está divido em sete partes, cada uma com cinco ou seis tópicos, num crescendo de agradável aprisionamento do leitor à sua leitura. Ao todo são 537 páginas.

Ao final da obra encontramos Etiénne a caminho de Paris, refletindo sobre a longa greve de dois meses e meio de duração. Teria valido a pena, tanta violência e sofrimento? Eis algumas de suas reflexões: "Sem dúvida tinham sido derrotados, pois haviam deixado dinheiro e mortos, mas Paris não esqueceria os tiros da Voreux (a mina), o sangue do império também correria por aquela ferida incurável. E, se a crise industrial chegasse ao fim, se as fábricas reabrissem uma a uma, não tinha importância, o estado de guerra continuaria, a paz agora era impossível. Os mineiros já sabiam quantos eram, já conheciam sua força, tinham sacudido com seu grito de justiça os operários da França inteira. A derrota deles não trazia segurança para ninguém [...]. Eles compreendiam que a revolução renasceria sem descanso, talvez mesmo amanhã, com a greve geral, a união de todos os trabalhadores resultando em caixas de socorros que os levariam a aguentar por muitos meses comendo pão. Desta última vez, fora um empurrão dado na sociedade em ruínas, e tinham sentido perfeitamente o chão fugindo sob seus pés, sentiam formarem-se novas convulsões, sempre outras, até que esse velho edifício abalado desmoronasse, tragado como a Voreaux, sorvido pelo abismo".

E, numa referência ao título, conclui: "Do flanco nutriz brotava a vida, os rebentos desabrochavam em folhas verdes, os campos estremeciam com o brotar da relva. Por todos os lados as sementes cresciam, alongavam-se, furavam a planície, em seu caminho para o calor e a luz. Um transbordamento de seiva escorria sussurrante, o ruído dos germes expandia-se num grande beijo. E ainda, cada vez mais distintamente, como se estivessem mais próximos da superfície, os companheiros cavavam. Aos raios chamejantes do astro rei, naquela manhã de juventude, era daquele rumor que o campo estava cheio. Homens brotavam, um exército negro, vingador, que germinava lentamente nos sulcos da terra, crescendo para as colheitas do século futuro, cuja germinação não tardaria em fazer rebentar a terra". Páginas 535 a 537.

O mundo ainda ficaria muito agradecido ao grande escritor por sua intervenção no caso Dreyfus, com o seu famoso J'accuse, de 1898. Foi o personagem central de reparação de uma grave injustiça.

Tenho em casa também a coleção - Grandes Livros no Cinema -. Foi lançado pela Folha de S.Paulo. Entre eles está Germinal, com a fantástica atuação de Gérard Depardieu. Na contracapa do livreto da coleção lemos o que segue:

"As péssimas condições de vida e de trabalho de mineiros exploradores de carvão numa vila na França no século 19 culmina em revolta, massacre e morte quando um casal lidera uma greve reivindicando tratamento mais humano. Com 'Germinal', o escritor Emile Zola expôs, na linguagem crua e dura do naturalismo, a injustiça social e defendeu o espírito de revolta num momento em que os lemas revolucionários de liberdade, igualdade e fraternidade haviam voltado a não ser mais que uma utopia do passado. Claude Berri filmou o romance em 1993 como uma superprodução valorizada pela presença de Gérard Depardieu à frente do elenco de grandes intérpretes do cinema francês". 151 minutos de duração.

sábado, 8 de fevereiro de 2025

PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, UNI-VOS. As quatro Internacionais.

Ao reler Germinal, a fantástica obra de Emile Zola, de 1885, lembrei de meus posts sobre as quatro grandes tentativas da construção da prerrogativa de Marx, do final de Manifesto comunista, de 1848, da unificação da classe trabalhadora de todo o mundo. O Proletarier aller Lände, vereinigt euch. E como a Primeira Internacional (1864) está muito presente na obra de Zola, resolvi agrupar os quatro posts, numa página só, para anexar na resenha da obra. 

Uma recordação que recebi dos trabalhadores alemães da DGB (Deutscher Gewerkschaftsbund), a poderosa central sindical alemã, quando lá participei de seminários de formação sindical, em 1995. São cartões postais das festividades alusivas ao primeiro de maio, o dia do trabalhador, instituído pela Segunda Internacional.


A Primeira Internacional. 1864. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/11/a-primeira-internacional-associacao.html

A Segunda Internacional. 1889. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/11/a-segunda-internacional-associacao.html

A Terceira Internacional. 1919. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/11/a-terceira-internacional-o-komintern.html

A Quarta Internacional. 1938. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/11/a-quarta-internacional-trotski.html

E da Segunda Internacional deixo ainda um post sobre o hino da Internacional. É a chamada oração leiga dos trabalhadores. A tirei do livro A greve de 1917, de José Luiz Del Roio. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/06/a-internacional-oracao-leiga-dos.html

E ainda, a resenha da greve brasileira de 1917, que poderia ser considerada a grande greve brasileira, comparável a da narração de Emile Zola. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/06/a-greve-de-1917-os-trabalhadores-entram.html

Creio que presto um bom serviço para quem estiver a procura de fontes para pesquisar sobre este tão apaixonante, atual e necessário tema.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Em busca do tempo perdido. 1. No caminho de Swann. Marcel Proust.

Confesso inicialmente a enorme dificuldade que tive para escrever este post. Isso se deve a vários motivos. No caminho de Swann, de Marcel Proust é apenas o primeiro livro de uma série de sete. Os sete volumes tem um título geral: Em busca do tempo perdido. Destes, li, apena agora, o primeiro desses livros. É uma leitura difícil, lenta, com muito poucos acontecimentos que te prendam à leitura, muita erudição, o que pode provocar uma dificuldade de concentração e uma fuga de interesses. Confesso que demorei bastante na sua leitura. Não é daqueles livros que te prendem e te levam a uma leitura quase ininterrupta. Mas vamos a contextualizações do autor e da obra.

No caminho de Swann. Marcel Proust. Biblioteca Folha. 2003. Tradução: Fernando Py.

Marcel Proust nasceu em 1871 e morreu em 1922. A mãe é de influente família judaica (Weil) e o pai é católico e professor de medicina em Paris. A família é de muitas posses, fato que permitiu a Marcel nunca precisar de um trabalho, tipo emprego fixo, com horários delimitados. Nunca lhe faltou dinheiro para viajar. O ambiente de infância era o de uma intensa vida cultural, junto a seus familiares. A sua saúde sempre fora muito frágil, sofrendo de crises asmáticas.

Olhando para as datas que delimitam a sua vida (1971-1922), eu destacaria três importantes fatos históricos que muito o influenciaram: A Guerra franco prussiana (1870-1871) com humilhante derrota dos franceses para os alemães, a queda da monarquia e a instauração da Terceira República; a Comuna de Paris (18 de março a 28 de maio de 1871) e uma Paris extremamente conturbada e com inúmeras e graves consequências e a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Tempos de novo declínio da nobreza e ascensão burguesa. Tempos de muitas intrigas. Em busca do tempo perdido são essencialmente tempos de memória. Em rápidas buscas, os temas mais presentes são os temas humanos: amor, ciúmes (quase todo o longo capítulo 2, do primeiro volume - Um amor de Swann), da homossexualidade, (especialmente o volume 4 - Sodoma e Gomorra), os temas existenciais da vida.

Antes de entrar na resenha do primeiro livro, deixo ainda os títulos dos sete livros e os anos de sua publicação. Os livros de Em busca do tempo perdido receberam muitas publicações, de muitas diferentes editoras, com tradutores famosos. Por isso, pode haver pequenas diferenças nos títulos. Vejamos os apresentados pela Editora Relógio d'Água: 1. Do lado de Swann, 1913; 2. À sombra das raparigas em flor, 1919; 3. O caminho de Guermantes, dois volumes - 1920 e 1921; 4. Sodoma e Gomorra, dois volumes - 1921 e 1922; 5. A prisioneira, publicação póstuma de 1923; 6. A fugitiva - Albertine desaparecida, publicação póstuma de 1927; 7. O tempo reencontrado, publicação póstuma de 1927. O tempo em que os livros foram escritos foram os dos anos entre 1913 e 1922. Ao todo somaram mais de 3.500 páginas.

Agora podemos ir ao primeiro volume - No caminho de Swann, título da Ediouro, com tradução de Fernando Py. O livro que eu li foi o da coleção Biblioteca Folha, livro número 25, uma publicação do ano de 2003. São as memórias mais remotas do escritor, as de sua infância, vivida junto aos pais, os avós, as tias, seus vizinhos, Swann em particular, e Gilberte, a filha desse vizinho Swann. Ela, se observarem, será o tema do livro de número seis. O livro é dividido em três partes, as duas primeiras bem longas e a terceira bem curta. Os títulos das partes são: Parte um - Combray, cidadezinha que divide com Paris, as memórias de sua infância; Parte dois - Um amor de Swann. Charles Swann é o personagem título do livro, o vizinho da família do escritor, com o qual eles tem restrições por causa de seu perdido amor pela bela cortesã, Odette de Crécy. Swann é um homem culto, rico e refinado. A descrição de seus ciúmes são memoráveis; Parte três: Nomes de lugares: o nome. O grande destaque vai para Albertine, a filha de Swann, coleguinha do escritor e um primeiro arrastar de asas.

Na contracapa da edição da Folha de S.Paulo, Jorge Coli, assim apresenta o livro: 'Há o fascínio pelo mundo, pelas mulheres e homens, pelas artes. Há o gosto pelas conversas inesperadas e vivas, com duelos emocionais que os personagens travam. Há um desejo constante de compreender e analisar todos os sinais do mundo, animados ou inanimados, inteligentes ou obtusos, indiferentes ou apaixonados. Há uma intuição, assustadora e silenciosa, da maneira oculta como esses sinais se cruzam, determinando com isto, de modo imprevisto, o destino de tudo. Há a experiência do cotidiano, garantias muito frágeis, mas únicas, daquilo que cada um é, ou antes, vai sendo. Há também muita ironia e muito humor em Proust, que sabe criar passagens hilariantes. Há muito sexo também, que pode atingir extremos de perversão.

No caminho de Swann é o primeiro de sete outros livros. Eles formam a saga denominada Em busca do tempo perdido. Proust fixou o tempo, que escapa, nessa obra que é ela mesma movente e fugidia. Teceu uma rede que nos apanha: corresponde aos limites da 'humana condição'. Mas Proust também descerra nossos olhos, fazendo-nos compreender, não sem angústia, os alcances e as fronteiras da consciência a partir das sensações, do vivido e da experiência.

Existem os grandes autores, existem os autores que amamos. São raros, porém, aqueles de fato capazes de transformar o leitor. Não se sai incólume da leitura de Proust".

Já na orelha da capa os editores assim apresentam o livro: "'Cessara de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria?' Com estas duas frases, o narrador de Em busca do tempo perdido registra o momento de epifania que o fará reconstruir toda sua vida, desde a remota infância até a maturidade. A cena é aquela em que a personagem mergulha um pedaço de bolo - a famosa Madaleine - numa xícara de chá e, a partir daí, se deixa transportar pela memória. Está no começo de No caminho de Swann, volume inicial do mais importante ciclo romanesco do século XX.

Lançado por Marcel Proust em 1913, depois de ter sido recusado pelas principais editoras francesas, este livro se concentra no período de formação do protagonista: o amor intenso pela mãe e a pouca simpatia pelo pai; o ambiente familiar dominado por mulheres; os sentimentos precoces de ódio e de culpa; as temporadas na provinciana Combray, com suas histórias locais; os primeiros contatos com pessoas que iriam viver, envelhecer e desaparecer sob os olhos do narrador.

Entre as muitas figuras que povoam o mundo de Proust, neste volume se destacam o rico sr. Charles Swann e a jovem e sedutora Odette de Crécy (casal interpretado no cinema por Jeremy Irons e Ornella Muti, numa adaptação do diretor alemão Volker Schlöndorff). O capítulo 'Um amor de Swann' é quase um romance à parte: um magistral estudo sobre o ciúme, talvez o melhor que a literatura já produziu".

Para destacar e demonstrar  a beleza poética e a erudição do texto eu selecionei uma passagem, um diálogo humano, não entre humanos, mas entre instrumentos musicais: "Que belo diálogo Swann ouviu entre o piano e o violino no princípio do último trecho! A supressão das palavras humanas, longe de deixar reinar ali a fantasia, como se poderia crer, eliminara-a; nunca a linguagem falada foi tão inflexivelmente fatal, não conheceu a esse ponto a pertinência das perguntas, a evidência das respostas. Primeiro o piano solitário se queixava, como um pássaro abandonado pela companheira; o violino o ouviu, respondeu-lhe como de uma árvore vizinha. Era como no começo do mundo, como se só existissem eles dois sobre a terra, ou melhor, naquele mundo fechado a tudo o mais, construído pela lógica de um criador, e onde só os dois existiriam para todo o sempre: aquela sonata. Era um pássaro, era a alma incompleta ainda da pequena frase, era uma fada aquele ser invisível e lastimoso cuja queixa o piano a seguir repetia com ternura? Seus gemidos eram tão repentinos que o violinista deveria se precipitar sobre seu arco para recolhê-los. Maravilhoso pássaro! O violinista parecia querer encantá-lo, aprisioná-lo, captá-lo. Já havia passado para sua alma, já a pequena frase evocada agitava, como a de um médium, o corpo verdadeiramente possuído do violinista. ...". Página 341.

Adendo. Em 15.06.2026. De Como e por que ler - de Harold Bloom (Objetiva 2001). "Hoje em dia 'como ler um romance' traduz-se, para mim, em como ler Proust, esplendor do romance clássico. O que fazer diante da extrema inventividade de Em busca do tempo perdido?

O vasto romance (3.300 páginas) de Proust é narrado pelo quase inominado Marcel, um retrato do romancista (principalmente) quando jovem, relatando emaranhadas recordações da sociedade francesa, desde a última década do século XIX até 1922 (ano da morte de Proust). Os grandes temas do romance, listados em ordem alfabética, incluem amizade, beleza, bordéis, o Caso Dreyfus (e a imersão no anti-semitismo), ciúme (acima de tudo!), costumes, esteticismo, indumentária, inversões  (homossexualismo masculino e feminino), literatura e a gradual evolução do narrador-romancista, mar, memória (tão prevalente quanto o ciúme), mentira, os mortos (anexos aos vivos), sadomasoquismo, sono e tempo (tão onipresente quanto ciúme e memória)" (Páginas 174-175). 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

A ÉTICA PROTESTANTE e o ESPÍRITO DO CAPITALISMO. Max Weber.

Uma releitura mais do que necessária. Estou falando de A ética protestante e o espírito do capitalismo, de Max Weber. Acima de tudo a sua releitura é uma questão de tempo, de amadurecimento de compreensão. A releitura sempre será uma leitura com maior atenção, de maior acumulação de conhecimento histórico, de fatores que ampliam a capacidade de entendimento de fenômenos, especialmente de fenômenos tão complexos, como o são as da compreensão do desenvolvimento histórico. 

A ética protestante e o espírito do capitalismo. Max Weber. Bibl. Pioneira de Ciências Sociais. 1992.

O livro é um ensaio do entrelaçamento, como diz o título, da formação do espírito capitalista com as teorias religiosas, profundamente repensadas a partir da reforma protestante, da ruptura da visão única ou uniforme de cristianismo, até este momento da história. Já o espírito capitalista, a grosso modo representa uma ruptura com o mundo da autossuficiência e limites da economia feudal, num mundo em grande expansão, fenômeno dos séculos XV e XVI. Já as implicações das relações são típicas dos séculos XVII ao XIX.  Para a melhor compreensão das análises desse ensaio ´são necessários os respectivos conhecimentos históricos que produziram o que chamamos de mundo moderno. E também o mundo medieval, mundo do qual a modernidade buscava o afastamento.

Antes de entrar na análise dos fatos, algo sobre o autor, sobre Max Weber. Ele nasceu em Erfurt (1864) e morreu em Munique (1920). Direito, religião e economia foram seus temas de predileção. Foi um dos fundadores e consolidadores da sociologia como ciência. Qual teria sido o principal fato ocorrido na Alemanha em seus anos de vida? Creio que a resposta necessariamente nos leva à unificação alemã (1871) e a consolidação dessa unificação com a formação do Império alemão, na sua estruturação burocrática. Um período de intensa industrialização e competição, fatos que implicaram na Primeira Guerra Mundial. Formou-se pelas universidades de Heidelberg e Berlim e foi professor em Freiburg, Heidelberg, Viena e Munique. Os temas por ele vividos e observados são os temas de suas principais obras, sendo A ética protestante e o espírito do capitalismo, a mais importante.

Ela é dividida em duas partes: I. O problema e II. A ética vocacional do protestantismo ascético. A primeira parte está dividida em três capítulos, a saber: 1. Filiação religiosa e estratificação social. 2. O "espírito" do capitalismo. 3. A concepção de vocação de Lutero, tarefa da investigação. Já a segunda parte tem dois capítulos: 4. Fundamentos religiosos do ascetismo laico: A. O calvinismo; B. O pietismo; C. O metodismo; D. As seitas batistas. 5. A ascese e o espírito do capitalismo.

Max Weber também foi professor de metodologia. Digo isso por causa da evidência do método em seu trabalho. O seu ensaio é um verdadeiro exercício de dedução. Vejamos: a. Os fundamentos éticos do protestantismo são os ideais ascéticos. b. o espírito do capitalismo está impregnado de princípios ascéticos. c. Os valores ascéticos de ambos se encontraram e se encaixaram na formação do capitalismo moderno. Daí decorre a explanação dessas constatações.

Da primeira parte o destaque vai para os capítulos 2 e 3. Neles são expostos a visão do "espírito" capitalista, retirado essencialmente da autobiografia de Benjamin Franklin, sendo que o conceito de vocação é retirado das obras de Lutero. No primeiro capítulo são mostradas as nações que aderiram ao protestantismo e as que permaneceram no catolicismo e os motivos para tal.

Benjamin Franklin foi filho de pai calvinista. Fez fortuna na Nova Inglaterra. Suas máximas eram as da laboriosidade e da frugalidade e o não desperdício de tempo e de dinheiro. Agora, ganhar dinheiro, longe de uma satanização, se transforma numa virtude, sob as bênçãos divinas. Tudo obedece a uma racionalização da vida. Vejamos uma breve descrição: "A situação idílica anterior desmorona sob a pressão de uma luta amarga competitiva, fortunas respeitáveis são feitas e não emprestadas a juros, mas sempre reinvestidas no negócio. A velha atitude de lazer e conforto para com a vida deu lugar à rija frugalidade que alguns acompanharam e com isso subiram, porque não desejavam consumir mas ganhar, enquanto outros, que conservavam o antigo modo de vida, viram-se forçados a reduzir o seu consumo". Ascese, poupança, sacrifícios são condições para a acumulação/ investimento. Uma vida de contenção.

Já o conceito de vocação está ligada à ocupação. Ocupação em um mundo em transformação. A industrialização trará a divisão do trabalho. O trabalho será secular e profissional, sob os desígnios da Providência e da obediência a Deus. Calvino e o puritanismo e, como se verá mais adiante, seus seguidores falarão mais dessa secularização da profissão e do espírito de dedicação total no trabalho, na profissão. Tudo deverá ser feito para a maior glorificação de Deus.

O primeiro capítulo da segunda parte é de fundamental importância. Ajuda mais na compreensão das diferenças entre as designações religiosas derivadas do calvinismo e as implicações práticas que elas tiveram. Assim são expostos os fundamentos ascéticos do calvinismo, (predestinação - tudo é vontade divina e tudo deve ser direcionado para a glória de Deus - não existe mediação de sacramentos ou pessoas na busca da salvação - vida virtuosa e autoconfiança de estar entre os eleitos), do qual os presbiterianos são os maiores seguidores, do pietismo, do metodismo e das seitas batistas. Como chegar à salvação e racionalização e a emotividade são as maiores diferenças.

O último capítulo é o das correlações, o modo como esses dois fatores históricos se encontraram, se relacionaram e se influenciaram reciprocamente e se metabolizaram na formação do chamado capitalismo moderno, ao menos até os tempos em que o autor pode observar sua constituição, contradições e o despregar-se das influências religiosas, para simplesmente se transformar no sistema capitalista. Um livro valioso e necessário.

Vejamos um dos parágrafos finais desse capítulo: "Desde que o ascetismo começou a remodelar o mundo e a nele se desenvolver, os bens materiais foram assumindo uma crescente, e, finalmente, uma inexorável força sobre os homens, como nunca antes na História. Hoje em dia - ou definitivamente, quem sabe - seu espírito religioso safou-se da prisão. O capitalismo vencedor, apoiado numa base mecânica, não carece mais de seu abrigo. Também o róseo caráter de sua risonha sucessora; a Aufklärung parece estar desvanecendo irremediavelmente, enquanto a crença religiosa no 'dever vocacional', como um fantasma, ronda em torno de nossas vidas. Onde a 'plenitude vocacional' não pode ser relacionada diretamente aos mais elevados valores culturais - ou onde, ao contrário, ela também deve ser sentida como uma pressão econômica - o indivíduo renuncia a toda tentativa de justificá-la. No setor de seu mais alto desenvolvimento, nos Estados Unidos, a procura da riqueza, despida de sua roupagem ético-religiosa mundanas, que frequentemente lhe dão o caráter de esporte".

E uma observação final. O que dizer da teologia da prosperidade? Sobrou alguma coisa da ética protestante ou sobrou apenas o espírito capitalista? E a mediação da salvação pelo dinheiro? Sobrou ainda alguma coisa de espiritualidade?

Ainda, relativo ao tema, a resenha do instigante livro - Os demônios descem do norte.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/12/os-demonios-descem-do-norte-delcio.html

  

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

LARANJA MECÂNICA. Anthony Burgess. 1962.

Antes do término de 2024, mais uma releitura. Nem me lembrava de sua leitura. Isso tem uma explicação: a força das imagens do filme de Stanley Kubrick, de 1972. Elas se sobrepuseram às imagens do livro, que teve a sua primeira publicação no ano de 1962. Estou falando de Laranja mecânica, de Anthony Burgess. Adquiri o livro em 2007 e chamo atenção para uma parte que eu sublinhei. Ela está na terceira parte do livro, em seu capítulo 4, quando alguém acode Alex, o jovem submetido às experiências de regeneração:

Laranja mecânica. Anthony Burgess. Aleph - editora. 2006.

"Eles transformaram você em alguma coisa que não um ser humano. Você não tem mais o poder de decisão. Você está comprometido com atos socialmente aceitáveis, uma maquininha capaz de fazer somente o bem. E vejo isso claramente: essa questão sobre os condicionamentos de marginais. Música e o ato sexual, literatura e arte, tudo agora deve ser uma fonte não de prazer, mas de dor". E, Alex, o narrador, continua: "Eles sempre vão longe demais - ele disse, secando um prato meio distraído. - Mas a intenção essencial é o verdadeiro pecado. Um homem que não pode escolher deixa de ser um homem". (Página 158). É o livro.

Anthony Burgess, o autor, fora sentenciado à morte pelos médicos. Teria ainda, no máximo, um ano de vida. Aí desembestou a escrever. A sentença não se cumpriu e ele pode retomar, com todo o cuidado, a escrita de Laranja mecânica. O livro é narrado por Alex, um jovem londrino envolvido na violência urbana da cidade, no início da década de 1960. Ele é o chefe de uma quadrilha muito violenta. A polícia reage com ainda maior violência e busca, por meio de experiências da ciência, soluções para o problema. É o Método Ludovico, que consta do uso de drogas e condicionamentos pavlovianos para a recuperação dos jovens das gangues. Eles sentiriam repugnância diante de atos violentos. E assim estariam curados, podendo retornar à sociedade.

O livro tem uma particularidade. Ele usa a linguagem Nadsat, a linguagem das gangues londrinas. Ao final do livro, tem até um pequeno dicionário, apresentando o significado das palavras empregadas. Para apresentar a essência do livro, recorro primeiramente à orelha da capa do livro, para depois apresentar a sua estrutura: "Alex é o líder de uma gangue futurista. Junto com os amigos adolescentes Georgie, Pete e Tosko, pratica assaltos, espancamentos e estupros livremente pelas ruas de uma Londres decadente, cujos habitantes têm medo de sair à noite e preferem se distrair com programas de televisão.

Um dia Alex vai longe demais e, involuntariamente, comete um assassinato. Preso, sua única chance de sair da reclusão é participar como cobaia de uma experiência de engenharia social desenvolvida para eliminar tendências criminosas. Uma experiência extremamente dolorosa e tão desumana quanto a ultraviolência que o próprio Alex costumava praticar.

Narrada pelo personagem principal, esta brilhante e perturbadora história cria uma sociedade futurista em que a violência atinge proporções gigantescas e provoca uma resposta igualmente agressiva de um governo capitalista, porém totalitário. O clássico de Anthony Burgess frequentemente nos choca ao explorar o verdadeiro significado da liberdade e o conflito entre o bem e o mal. A estranha linguagem utilizada por Alex - soberbamente engendrada pelo autor - empresta uma dimensão quase lírica ao texto e é, talvez, seu maior atrativo.

Ao lado de 1984, de George Orwell, e Adorável mundo novo, de Aldous Huxley, Laranja mecânica é um dos ícones literários da alienação pós-industrial que caracterizou o século XX. Adaptado com maestria ao cinema em 1972 por Stanley Kubrick, é uma obra marcante: depois de sua leitura, você jamais será o mesmo".

O livro é dividido em três partes. Cada uma tem sete capítulos. Isso tem uma razão. Vejamos Fábio Fernandes no prefácio: "Burgess construiu cuidadosamente essa estrutura de 21 capítulos porque, na cultura anglo-americana, a idade adulta só é plenamente atingida aos 21 anos, e Laranja mecânica, antes de tudo, é o que os alemães chamam de bildungsroman: um romance de formação. A trajetória de Alex da adolescência nada inocente até a maturidade e o início de uma possível compreensão das responsabilidades adultas só se completa efetivamente no vigésimo primeiro capítulo. A divisão de cada parte em sete capítulos é baseada no monólogo clássico de Shakespeare sobre as sete idades do homem na peça As You Like It". As sete idades são as seguintes: idade infante, escolar, amante, soldado, juiz, pantalão e a velhice.

Confesso que o último capítulo me deixou um tanto confuso: Como é possível que uma distopia termine em regeneração. Nele, Alex se encontra com Pete, um dos companheiros de quadrilha da adolescência, casado e com filhos. Passara dos 21 anos. Seria isso uma regeneração natural alcançada pela idade?

Mas vamos às três partes: Na primeira são narrados os atos violentos da gangue, assaltos e estupros, até o ato extremo de uma morte, que leva Alex ao sistema prisional. A segunda parte é dedicada à descrição dos métodos de cura, os condicionamentos psíquicos de horror à violência. E na parte final, Alex, devidamente condicionado é devolvido à sociedade, perfeitamente adaptado à ela. Todos procuram tirar proveito da situação, exaltando as virtudes do método ou fazendo a sua crítica. Devo dizer que, no mínimo, o livro é extremamente instigante. Um libelo contra o autoritarismo e contra o  behaviorismo e uma afirmação pela autoafirmação e autodeterminação do ser humano. A liberdade. Marcou época.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

O ideal grego da educação individualista. Na ILÍADA de Homero.

Em meus já longos anos de estudos sempre busquei os fundamentos. Os fundamentos dominantes em nossa cultura. Nela estão assentados os princípios que norteiam a vida e afirmam os valores que dão sentido e significado à existência. São eles que nos conduzem a uma harmonização de vidas ou então o seu contrário. São eles que fundamentam o comportamento humano, contidos nos princípios morais e éticos da convivência humana. Para encontrá-los, nada melhor do que ler e estudar os clássicos.

Iliada. Homero.

Nesse sentido, estou numa releitura de clássicos: Ilíada, Odisseia e Eneida. Uma observação de Marcos Reis Pinheiro, contida no prefácio da Odisseia, da Editora Nova Fronteira, me chamou particular atenção. Ela diz assim: "Homero criou a Grécia histórica, tendo sido então de influência tão profunda e duradoura como a Bíblia, Dante e Shakespeare em fases subsequentes da cultura ocidental. O verso 208 do Canto VI da Ilíada, na fala de Glauco, resume o ideal grego da educação individualista, do agon, na luta, em que o preceptor desperta no aluno o espírito de competição levada ao extremo, educando-o.

para ser sempre o primeiro e de todos os mais distinguir-me". 

Já a definição de Agon, segundo a Wikipédia nos diz que era "era um daemon (espírito orientador) que personificava os concursos, desafios e disputas solenes nos jogos olímpicos, nas peças teatrais e também nos debates e discussões filosóficas". Quem teve a felicidade de conhecer a cidade de Olímpia teve a oportunidade de conhecer esse espírito. Lutar ao lado de vencedores, muitas vezes elevados à condição de semideuses. Portanto, um direcionamento do imaginário, tão presente nos cursos motivacionais de nossos tempos. Seja sempre o primeiro e nada te impede que você o seja!. O problema, na modernidade, são as tais das condições materiais.

A minha grande referência para os estudos da educação grega sempre foi o livro Paideia, a formação do homem grego, do alemão Werner Jaeger. Já no primeiro capítulo, lugar dos gregos na história da educação, depois de falar desses fundamentos da civilização grega, ele faz a sua aplicação aos princípios educacionais. Vejamos uma parte dessa apresentação: "Colocar esses conhecimentos como força formativa a serviço da educação e formar por meio deles verdadeiros homens, como o oleiro modela a sua argila e o escultor as suas pedras, é uma ideia ousada e criadora que só podia amadurecer no espírito daquele povo de artista e pensador. A mais alta obra de arte que seu anelo se propôs foi a criação do Homem vivo. Os gregos viram pela primeira vez que a educação tem de ser também um processo de construção consciente. 'Construído de modo correto e sem falha, nas mãos, nos pés e no espírito', tais são as palavras pelas quais um poeta grego dos tempos de Maratona e Salamina descreve a essência da virtude humana mais difícil de adquirir. Só a este tipo de educação se pode aplicar a palavra formação, tal como a usou Platão pela primeira vez em sentido metafórico, aplicando-a à ação educadora".(Página 13). O alemão chama a isso de Bildung e a diferencia de Erziehung, a educação escolar formal.

Jaeger, já antes, fala da inspiração grega na formação do mundo moderno e lhe aponta estas características de formação individual: "O mundo grego não é só o espelho onde se reflete o mundo moderno na sua dimensão cultural e histórica ou um símbolo da sua autoconsciência racional. O mistério e deslumbramento originário cerca a primeira criação de seduções e estímulos em eterna renovação". Um pouco mais adiante ele reafirma e reforça esse princípio: "Dissemos que a importância universal dos gregos como educadores deriva da sua nova concepção do lugar do indivíduo na sociedade. E, com efeito, se contemplamos o povo grego sobre o fundo histórico do antigo Oriente, a diferença é tão profunda que os Gregos parecem fundir-se numa unidade com o mundo europeu dos tempos modernos. E isto chega ao ponto de podermos sem dificuldade interpretá-los na linha da liberdade do individualismo moderno" (Página 9).

Paideia. A formação do homem grego. Werner Jaeger. Martins Fontes.

A educação está umbilicalmente ligada à palavra caminho, meios, processos. Isto é, a promoção da inserção do indivíduo na sociedade. Inserção do indivíduo na sociedade. Ela é dinâmica e está em constante processo de transformação. O mesmo ocorre com as estruturas da sociedade. E é esta a razão de sua complexidade e de suas polêmicas. Outras palavras entram na análise. O coletivo, o comum, o conviver, modelos de sociedade. Hoje ela é um renhido campo de disputas. Isso a leva a controles, que chegam ao grau de insensatez. Seus objetivos muitas vezes são reduzidos a treinamentos utilitários, as avaliações são massivamente padronizadas e a atuação docente é limitada ao uso de plataformas, eliminando a práxis do trabalho docente. E onde fica a formação do indivíduo?

Tenho recomendações a fazer, de dois grandes educadores brasileiros. De Dermeval Saviani Escola e democracia e de Paulo Freire, Educação como Prática da Liberdade, Pedagogia do Oprimido e Pedagogia da autonomia - saberes necessário à prática pedagógica. Entre esses dois autores, compreendo as diferenças, mas neles vejo mais aproximações do que distanciamentos. Uma educação voltada para a formação da consciência, consciência de classe. 

Também tenho comigo um texto do memorável Milton Santos. Um texto do qual eu não desgrudo. Os deficientes cívicos, publicado na Folha de S.Paulo de 19 de janeiro de 1999. Eu o considero como um testamento seu, que ele nos legou. Ele nos fala da redução da educação nos tempos da globalização, termo pelo qual, na época, era denominado o neoliberalismo. Ele afirma e reafirma que a educação, entendida como formação, como Bildung, nunca pode dissociar-se da formação filosófica e da formação profissional. Nunca o pêndulo pode pender mais fortemente, apenas para um dos lados sob a pena de formar deficientes cívicos. A sua tese principal é a de formar indivíduos fortes e cidadãos íntegros. 

Este texto é um texto para blog, chamativo para o debate. Isso implica em limites de todos os tamanhos. Mas com certeza, serve para a reflexão e o debate, com algumas linhas necessariamente presentes, sempre quando se debate a educação. Pena que hoje se debata tão pouco e se imponha tanto. Tempo de governos neoliberais. Tempos em que o neoliberalismo deixou de ser mera doutrina econômica para ser uma visão de mundo, que enxerga tudo sob uma ótica de unidimensionalidade. A ótica da mercadoria, do lucro e da acumulação. O ser humano é plural e complexo, fruto da relacionalidade e da riqueza da pluralidade, das trocas. Jamais um pensamento uniforme, padronizado e imposto.

Que a educação tenha sempre a perspectiva da expansão e não da contenção. Termino com uma frase em que é definida a criança, no seu sentido mais pleno. Ela se encontra no livro A resistência, de Ernesto Sábato. Diz assim: "Toda a criança é um artista que canta, dança, pinta, conta histórias e constrói castelos". É tarefa da educação ajudar a expandir este artista e, pela Bildung, formar um ser humano "construído de modo correto e sem falha nas mãos, nos pés (mundo trabalho) e no espírito (o mundo da filosofia, da política, da cidadania). Ajudar a criança na inserção no mundo e não na adaptação ao mundo. Hoje, creio também, que em função do hiperindividualismo, a palavra emulação é melhor do que a palavra competição.

Deixo o texto do Milton Santos. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/03/os-deficientes-civicos-milton-santos.html e também um texto sobre a fundação do pensamento humanista, contido na Ilíada.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/01/iliada-homero-uma-definicao-do-humano.html


quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

ILÍADA. Homero. Uma definição do humano.

Ilíada é uma obra que retrata a cultura grega, atribuída a Homero e que, junto com a Teogonia (Hesíodo) e a Odisseia (também de Homero), é peça fundante da literatura e da cultura universal. Ela é uma compilação da tradição oral, datada do século IX ou VIII a. C.. Ela retrata o último ano da Guerra de Troia, ocorrida no século XII a. C.. Alguns até lhe fixam os dez anos de duração com os anos de 1194 a 1184 a. C.. Homens valorosos, super-homens e deuses se envolveram nessa guerra, motivada por elementos profundamente humanos. Ela envolveu as cidade gregas contra a poderosa Troia, situada na Ásia Menor. Ambas as cidades tiveram os seus heróis. Os heróis troianos foram exaltados mil anos após, por Virgílio em Eneida, dedicada a Eneias. Uma exaltação ao fundador de Roma e do Império Romano.

Ilíada. Homero. Nova Fronteira.

Bem, a finalidade deste post é mostrar a presença do humano, os valores que o constituem e exaltados por Homero, especialmente, ao final da obra. Vamos, por isso retomar esta parte da obra, para nos fixarmos no canto XXIV, o canto final. Ele trata do resgate do cadáver de Heitor, para lhe oferecer as devidas honras fúnebres. Na Eneida encontramos uma descrição precisa sobre a importância do funeral nessas culturas fundantes. Sibila, a guia de Eneias no mundo das sombras, assim fala ao herói troiano: "Toda essa multidão aqui é constituída de pobres que ficaram sem sepultura. Não lhes será permitido atravessar o rio antes que seus restos repousem nas tumbas ou seus corpos sejam cremados nas piras. Se tal não acontecer, aqui ficarão vagando cem anos e até duas vezes cem anos, antes que deles se condoa o triste Caronte".

Afirmada esta importância, voltamos à Ilíada. O troiano Heitor é morto por Aquiles, que assim vinga a morte de seu grande amigo Pátroclo, morto por Heitor. Aquiles, tomado de ódio, não se satisfaz apenas com a morte de seu inimigo. Também lhe profana o corpo, mantendo-o insepulto. Príamo, o rei de Troia e pai de Heitor, procura meios, grandes e simbólicas riquezas, para resgatar o filho junto a Aquiles, e lhe prestar as honras funerais. É nesse momento que os ódios que envolvem os personagens são superados pelos valores. Cenas comovedoras são apresentadas. Demos atenção a elas: Príamo fala a Aquiles:

"Sem pelos outros ser visto, entra o grande monarca, e de Aquiles // aproximando-se, abraça-lhe os joelhos e beija as terríveis // mãos homicidas, que muitos dos filhos lhe haviam matado.

Como se dá quando algum criminoso exilado da pátria // busca, vencido da angústia, refúgio em mansão opulenta // de potentado estrangeiro, deixando os presentes atônitos: // do mesmo modo o terrível Pélida se assombra ao ver Príamo. 

Todos os mais se entreolharam, tomados de pasmo como ele. // Súplice, Príamo, então, começou de falar, e lhe disse: // "lembra-te, Aquiles, igual a um dos deuses, teu pai venerável é // da mesma idade que a minha e, portanto, como eu, assim velho. //É bem possível que esteja cercado por fortes vizinhos, // cheio de angústia, sem ter quem lhes sirva  de amparo e defesa; // mas, só de ouvir que estás vivo, alegria indizível lhe invade // o coração, dia a dia esperando poder ante os olhos ter a figura do filho glorioso, de volta de Troia.

Muito mais triste é o meu fado, que, após tantos filhos ter tido, // de comprovado valor, nem um só na velhice me resta. // Vivos, cinquenta floriam no tempo em que os Dânaos chegaram; // da mesma mãe, dezenove guerreiros me foram brindados; // os outros todos diversas mulheres nos paços tiveram. // De muitos dele as forças dos joelhos tirou Ares forte; // e o único herói que restava, dos muros amparo e de todos, // a combater pela pátria, não há muito tempo mataste, // o meu Heitor, cujo corpo aqui venho insistente pedir-te, // às naus aquivas trazendo resgate de preço infinito.

Sê reverente aos eternos, Aquiles; de mim tem piedade; // pensa em teu pai, também velho, bem mais infeliz sou do que ele, // pois chego agora a fazer o que nunca mortal fez na terra: // beijo-te as mãos, estas mãos que a meus filhos a Morte levaram".

Grande saudade do pai no Pelida o discurso desperta; // toma das mãos do monarca, afastando-o de si com brandura. //Ambos choravam; o velho, lembrando de Heitor valoroso, // num soluçar convulsivo, de Aquiles aos pés enrolado, // que, ora o pai velho chorava, ora a perda do amigo dileto, // Pátroclo; o choro dos dois pela tenda bem-feita ressoava.

Logo que Aquiles divino saciado ficou de gemidos // e os membros todos e o peito sentiu libertados da angústia, //do belo trono se ergueu, pela mão toma o velho monarca, // de branca barba condoído, condoído da nívea cabeça, // e, começando a falar, lhe dirige as palavras aladas:

"Quanta amargura, infeliz, não suportas ao peito sofrido! // Como pudeste vir só aos navios dos fortes Aquivos // e apresentar-te entre os olhos de quem foi a causa da perda // de tantos filhos valentes? Tens férreas entranhas, decerto. // Vamos, assenta-te agora no trono; apesar de angustiados, // é conveniente deixar as tristezas no peito se aplaquem.

Nada o homem lucra em deixar-se invadir pelo gélido pranto. // Sempre viver em tristeza, eis a sorte que os deuses eternos // de descuidada existência aos mortais infelizes dotaram. // Sobre os umbrais do palácio de Zeus dois tonéis se acham postos, // de suas dádivas; um só de males; de bens outro cheio. // Se, misturando-as, Zeus grande, senhor dos trovões, as derrama, // quem as recebe ora goza, ora males por sorte lhe tocam; // mas o que dele recolhe somente infortúnios, escárnio // vivo se torna; em extrema miséria, na terra divina, // é condenado a vagar, desprezado por homens e deuses. //

Ao nascimento, também, de Peleu os eternos lhe deram // dons inefáveis; riquezas sem conta, dos homens a estima, // e o incontestado governo dos fortes guerreiros Mirmídones. // Mais: apesar de mortal, como esposa uma deusa lhe cedem. // Grande infortúnio, porém, concederam-lhe os deuses, negando-lhe // filhos que o mando pudessem herdar-lhe no belo palácio; // a mim somente gerou, destinado a morrer muito cedo. // Longe a pátria, não posso cercar de cuidados o velho, // pois me acho em Troia, causando-te, e aos filhos, desditas sem conta.

Tu, também, velho, já foste feliz, pelo que me contaram. // Quantos guerreiro existem de Lesbo, na sede de Mácar, // té para o norte da Frígia, nos lindes do vasto Helesponto, // já dominaste, abençoado com filhos e bens infindáveis. // Mas, desde o instante em que os deuses celestes tal praga te enviaram, // guerra, somente, e homicídios em torno dos muros te soam.

Vamos, suporta! Não deves à dor excruciante entregar-te. // Nada consegues chorando teu filho com tantos encômios; // não ressuscita, e, além disso, outro mal poderias causar-te" (Versos 476-549).

Vamos retomar a fala de Aquiles, quando fala dos dois tonéis. O que não está dito?  Vamos dar voz a Carlos Alberto Nunes, responsável pela introdução, apresentada à editora Nova Fronteira. A mesma também pode ser encontrada na edição da Melhoramentos: 

"Na resposta de Aquiles é que vamos encontrar a muito famosa e para sempre célebre imagem dos dois tonéis do limiar no Olimpo, de males e de bens, as dádivas de Zeus. Se, ao nascimento, alguém recebe uma mistura desses dons, atravessa, de acordo, a existência: ora a sofrer, ora com fases de relativa felicidade. Mas, se recebe apenas males, torna-se desprezado por todos e ludíbrio permanente dos homens e dos deuses. É de notar que Aquiles não menciona a terceira possibilidade: de receber algum mortal, ao nascimento, apenas dádivas do tonel de bens, pois a condição humana é incompatível com essa disposição".

Eis revelada a condição humana. Os dois reis, valorosos guerreiros, viveram momentos profundamente humanos, valores humanos, que se impuseram ao desumano das guerras. Literatura e cultura fundante.