sexta-feira, 26 de abril de 2019

Relato de um certo oriente. Milton Hatoum. Vestibular UFPR.

Cheguei a este livro pela via de uma lista de livros para o vestibular. No caso, tratava-se do vestibular da Universidade Federal do Paraná. O livro indicado é Relato de um certo oriente, de Milton Hatoum, o hoje consagrado escritor, nascido em Manaus e descendente de libaneses. Aí já estão os primeiros elementos necessários para a compreensão deste complexo livro. Trata-se de seu primeiro romance, datado de 1989.
Edição da CompanhiaDeBolso, 9ª. reimpressão. 2018.

A complexidade do livro está na sua estrutura narrativa, desenvolvida ao longo de oito capítulos que se interligam. A narradora é uma filha de Manaus, que se distanciara de sua cidade natal, morando em São Paulo por vinte anos e que decide voltar à cidade de seu passado e lá ter um reencontro com os personagens de sua infância e primeira socialização. Por adoção, Emilie será a sua mãe e também a personagem central da recomposição de sua viagem de regresso e incursão nas memórias de seu passado.

É a oportunidade que o escritor tem para mostrar as peculiaridades de uma família de imigrantes, libaneses no caso, em busca de fazer a vida, numa cidade tão peculiar, quanto é a cidade de Manaus, uma cidade eminentemente fluvial. A ocupação da família, por óbvio, será o comércio. Ela é a proprietária da loja Parisiense. As relações familiares não vão bem. Um pai silencioso, sempre com o livro ao alcance, uma mãe muito presente e o desencontro com os filhos e deles entre si. Já no primeiro capítulo, quando a narradora chega à cidade e é recebida por uma filha de Anastácia, uma velha criada da casa, ela faz a seguinte descrição: "Talvez (ela) já soubesse da existência dos quatro filhos de Emilie: Hackim e Samara Délia, que passaram a ser nossos tios, e os outros dois, inomináveis, filhos ferozes de Emilie, que tinham o demônio tatuado no corpo e uma língua de fogo" (Página 9).

Já no sétimo capítulo teremos uma referência explícita a esta situação familiar, quando Emilie tentou reconciliar, sem sucesso, os inomináveis com Samara Délia, que praticamente assumira os negócios da Parisiense e que lhes garantia o sustento material. Um deles assim se dirige à sua mãe: "A senhora deu à luz a uma mulher da vida; a senhora devia se odiar e mais que ninguém entender o ódio" Página 136). Samara Délia, como vimos na fala do filho, fora uma mulher da vida. O pai, pelo livro que sempre o acompanhava, a acolhia com o seu perdão. Mas a intriga estava plantada na família. Uma semana após esse incidente Emilie morre. Às vésperas desta morte é que a narradora chega a cidade.

Incidentes trágicos serão os que mais emergem neste mergulho no passado, como o desaparecimento de Emir, irmão de Emilie, por um afogamento suicida e o atropelamento de Soraya Ângela, a filha de Samara Délia. A relação Emilie, Samara Délia e Soraya Ângela ganha belíssimas páginas, evocando sentimentos de ternura e de culpa, já ao final do quinto capítulo, o mais longo de todos. Também Dorner, um fotógrafo alemão entra em cena e na memória aparecem também os alemães ao longo da guerra e os seus mecanismos de defesa, como se fossem os culpados pelos acontecimentos ocorridos na Alemanha. 

Outro ponto forte do livro é a descrição das relações sociais estabelecidas. Especialmente as que Emilie travava com Anastácia, a empregada/lavadeira da casa. As relações eram absolutamente verticalizadas e incluíam castigos físicos. As relações sociais eram um simples prolongamento ou extensão dos tempos da escravidão. A fome e a miséria, além das precárias condições de higiene e as condições de insalubridade provocadas pelo clima também são vivamente descritas. A fuga era impossível, pois, significava morte certa, em virtude das muitas doenças tropicais. Da mesma forma ganham destaque também as ervas e as curas.

A beleza do romance chega ao seu auge no capítulo final. Ele trata da solidão, quando as pessoas, especialmente, na figura de Emilie, alcançam a velhice e são excluídas do diálogo, tornando-se "corpos sem fala" e buscando refúgio no bordar. Que imagem! Introspeção e existencialismo tomam conta das páginas finais. Nela a narradora tenta, em carta, sintetizar os fatos envolvendo a morte e os funerais de Emilie para o seu irmão, que mora em Barcelona. Praticamente esta carta dá a estrutura narrativa para o romance. Transcrevo os seus dois últimos parágrafos.

"Quantas vezes recomecei a ordenação de episódios, e quantas vezes me surpreendi ao esbarrar no mesmo início, ou no vaivém vertiginoso de capítulos entrelaçados, formados de páginas e páginas numeradas de forma caótica. Também me deparei com um outro problema: como transcrever a fala engrolada de uns e o sotaque de outros? Tantas confidências de várias pessoas em tão poucos dias como um coral de vozes dispersas. restava então recorrer à minha própria voz, que planaria como um pássaro gigantesco e frágil sobre as outras vozes. Assim, os depoimentos gravados, os incidentes e tudo o que era audível e visível passou a ser norteado por uma única voz, que se debatia entre a hesitação e os murmúrios do passado. E o passado era como um perseguidor invisível, uma mão transparente acenando para mim, gravitando em torno de épocas e lugares situados muito longe da minha breve permanência na cidade. Para te revelar (numa carta que seria a compilação abreviada de uma vida) que Emilie se foi para sempre, comecei a imaginar com os olhos da memória as passagens da infância, as cantigas, os convívios, a fala dos outros, a nossa gargalhada ao escutar o idioma híbrido que Emilie intentava todos os dias.

Era como se eu tentasse sussurrar no teu ouvido a melodia de uma canção sequestrada, e que, pouco a pouco, notas esparsas e frases sincopadas moldavam e modulavam a melodia perdida". Páginas 147-148.

O livro exige uma leitura extremamente atenta e que dificilmente se revelará, por inteiro, já na sua primeira leitura. Na contracapa do livro se lê a seguinte breve apresentação: "Após um longo período de ausência, uma mulher regressa a Manaus, cidade de sua infância. Deseja encontrar Emilie, a extraordinária matriarca de uma família libanesa há muito radicada ali. Encontra a casa desfeita - como desfeitas para sempre estão as casas da infância. Situado entre o Oriente e o Amazonas, este relato é a busca de um mundo perdido, que se reconstrói nas falas alternadas das personagens, longínquos ecos da tradição oral dos narradores orientais".



quinta-feira, 25 de abril de 2019

Fake news, crise epistêmica e epistemologia tribal. Wilson Gomes. CULT nº 244.

Estes dias, numa roda informal de conversa, discutíamos o atual momento desolador da política brasileira. A questão era ver se já houve, na história deste país, algo semelhante ao que estamos passando hoje. Óbvio que nos referíamos ao surto de ignorância que assolou o país com a eleição do mais ignorante dos candidatos a presidente já registrados ao longo de toda a nossa história. E o mais incrível, ele venceu. Disso se deduz...
A capa da revista Cult nº 244, onde se encontra a coluna de Wilson Gomes.

A minha ponderação foi que, embora tivéssemos tido governos conservadores e, mesmo ditaduras, nunca tivemos um governo nitidamente antiintelectual, como já ocorrera na história dos Estados Unidos. O governo Bolsonaro seria o primeiro. Confesso que eu não havia percebido todo o alcance da questão. O atual momento vivido é muito pior, infinitamente pior. Está  praticamente fora do alcance da imaginação. Me dei conta disso, ao ler a coluna de Wilson Gomes, na revista Cult, nº 244, de abril de 2019, sob o título de Fake news, crise epistêmica e epistemologia tribal. É estarrecedor. Vivemos uma crise epistêmica, não provocada pela dúvida cartesiana, mas simplesmente, a negação do conhecimento, bem como todos os caminhos traçados ao longo de sua construção, os caminhos da racionalidade ocidental. Além da negação desta racionalidade, são negados e vilipendiados também todos os espaços e agentes de sua construção, como as escolas, universidades e agências de pesquisa científica e tecnológica. O mesmo ocorre com os órgãos de informação e dos espaços culturais e artísticos. Esta é a razão da existência de tanto ódio.

"À raiz de tudo", afirma Wilson Gomes, "está o fato de que uma parcela cada vez maior de pessoas no mundo acredita surpreendentemente em um monte de histórias malucas, usando-as para tomar decisões políticas (escolhas eleitorais, apoios à políticas públicas) ou para fomentar a guerrilha política permanente entre lados e facções". E numa espécie de síntese de seu texto, em destaque lemos: "Como os grupos ultraconservadores promovem a confusão entre o verdadeiro e o falso e buscam desacreditar o conhecimento intelectual e científico".

O mundo sempre foi bom em inventar mentiras, afirma Gomes, mas a diferença está hoje, na possibilidade de sua rápida propagação pela, cada vez maior, digitalização da vida. Ainda na abertura de seu texto elenca algumas da fake news, como o pizzagate, pelo qual se alardeou que os democratas tocavam uma rede de prostituição infantil a partir de uma pizzaria de Washington, ou ainda, que os mesmos democratas estavam envolvidos com uma organização internacional de tráfico de crianças, que Hilary Clinton contava com vários assassinatos em sua biografia e que Obama, de fato, era muçulmano e que não nascera em território estadunidense. Ou ainda, que Trump teve roubados milhares votos e que um movimento antifascista desejava iniciar uma guerra civil, promover a derrubada Trump, matar brancos e implantar uma ditadura socialista. Vejam bem, isto tudo nos Estados Unidos e sempre envolvendo os conservadores. Esta nova realidade é uma invenção conservadora.

Um pouco a frente, Gomes se volta ao Brasil e aponta o sucesso do Kit Gay e da mamadeira de piroca na campanha eleitoral de Bolsonaro, alertando para os perigos que o PT representava no  estímulo a uma iniciação sexual precoce, para a homossexualidade ou para se levar uma vida devassa. Outras fakes ainda diziam que Jean Wyllys havia contratado Adélio Bispo para matar Bolsonaro e que ele fora o coordenador da campanha de Dilma Rousseff, em sua reeleição. E ainda, que o mesmo Jean Wyllys teria apresentado um PL propondo uma revisão da Bíblia. Já Manuela D'Ávila teria profetizado o fim do cristianismo e que "somos mais populares que Jesus Cristo neste momento". E, ainda, mais outra afirmação de Jean Wyllys de que "a pedofilia é uma prática normal em diversas espécies de animais, anormal é o seu preconceito". Outras aberrações foram mais corriqueiras, como não acreditar no aquecimento global, que a terra seja redonda ou no valor das vacinas.

O objetivo disso tudo é claro. Confundir o povo. Muitos já não tem condições de diferenciar o falso do verdadeiro e o certo do errado. O mais grave é que os critérios e as referências fundamentais em que o mundo se firmava estão sendo removidos. É a isso que Gomes chama de crise epistêmica. Contra os critérios e referenciais históricos estão sendo apresentadas as chamadas verdades tribais, que simplesmente são afirmadas. Outros termos já consagrados são os de "morte da verdade", ou as "falsidades da era Trump".

O autor ainda observa que não se trata efetivamente de uma crise epistemológica, mas o tratamento como se assim o fosse. Trata-se de um movimento para desacreditar as instituições tradicionais que lidam com o conhecimento e assentar em seu lugar blogueiros conservadores ou os digital influencers. Esse expediente foi largamente usado na eleição de Trump, na campanha do Brexit, e no caso brasileiro, a eleição de Bolsonaro.

O último aspecto abordado por Gomes em sua coluna, é sobre a atuação dos difusores desta nova situação. Cita David Roberts, que afirma que essas instituições são "de direita para a direita", e que as categorias de objetividade e de neutralidade não mais fazem sentido. Sobrou apenas o Nós e o Eles, sempre em competição. O critério para a verdade é simplesmente o que é bom para nós e, consequentemente, ruim para eles. Vale o que é bom para a tribo. Isso ocorre porque todas as instituições epistêmicas foram corrompidas pela esquerda. Por esquerda se entende tudo o que, e quem, contraria os seus interesses: os comunistas, os ambientalistas, os globalistas, os gayzistas, as feministas, os marxistas culturais,os ateístas e gente que o valha.

Daí decorre a hostilidade a professores, cientistas, intelectuais, jornalistas, artistas, e, ultimamente, até os "impolutos" juízes do STF, quando esporadicamente contrariam algum de seus muitos interesses. Em suma, um novo conhecimento está em processo de construção, sob a garantia de Olavo de Carvalho, Rush Limbaugh, Steve Bannon, discípulos e assemelhados. A coluna termina com uma leve alfinetada na esquerda: "Que, enfim, há também, e em abundância, epistemologia tribal em movimentos identitários de esquerda".

É. E uma constatação final minha. O momento que estamos vivendo é bem pior do que eu imaginava. É o mundo sob o domínio absoluto da ignorância promovida pelo grande capital, a liquidar qualquer princípio de democracia, cidadania, autonomia, de humanidade e de princípios civilizatórios.
A impressionante experiência da participação no processo eleitoral do Rio Janeiro, como candidata a governadora nas eleições de 2018.

Um adendo (25 de setembro de 2019). "A verdade não é um valor há tempos". TIBURI, Márcia. Delírio do Poder. São Paulo e Rio de Janeiro. Record. 2019.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Henry Ford. Fascista e antissemita?

No livro Espelho do Ocidente - o nazismo e a civilização ocidental li que Hitler admirava Henry Ford. O admirava a tal ponto que mantinha sobre a sua estante uma única estatueta e esta era de Henry Ford. Quis saber mais e fui buscar. Encontrei muita coisa na ficção de Philip Roth, Um complô contra a América. Depois da ficção, ao final do livro há um post-scriptum, em que nos apresenta os fatos e os personagens envolvidos em seu mundo real. Tomo deste pós escrito os dados sobre Ford, sem tecer comentários. Não há necessidade.
Da Companhia de Bolso. Complô contra a América.

HENRY FORD - 1863-1947.

"1903- 1905. O primeiro automóvel Ford, o Model A de dois cilindros e oito cavalos, projetado por Henry Ford e fabricado pela recém-criada Ford Motor Company, é lançado em 1903, ao preço de oitocentos e cinquenta dólares. Modelos mais caros aparecem nos anos seguintes.

1908. Projetado para o meio rural, surge no mercado o Ford Model T; único modelo fabricado pela empresa até 1927, ele torna Ford o maior fabricante de automóveis do país, realizando seu plano de 'fazer um carro para as multidões'.

1910-1916. Com seus sócios, cria um processo de fabricação por meio de produção em sequência e divisão do trabalho, resultando na linha de produção contínua - considerada o maior progresso na indústria desde o advento da Revolução Industrial - e possibilitando a produção em massa do Model T. Em 1914, Ford anuncia o salário básico  de cinco dólares para uma jornada de oito horas; na verdade, essa oferta só se aplica a parte dos empregados de Ford. Não obstante, graças ao 'dia de cinco dólares', Ford é elogiado e ganha fama como um empresário esclarecido, ainda que não como um pensador esclarecido. 'Não gosto de ler livros', ele explica. 'Eles confundem minha cabeça'. Afirma também: 'A história é, de modo geral, uma bobagem.

1916-1919. Seu nome é proposto como candidato à Presidência na Convenção Nacional Republicana, e recebe trinta e dois votos no primeiro escrutínio. Consegue ter o apoio absoluto sobre todas as empresas Ford. Em 1916, a companhia já produz dois mil carros por dia; o total da produção do Model T até esse ano chega a um milhão. Quando eclode a Primeira Guerra Mundial, atua como militante pacifista contra o conflito.. Numa reunião de funcionários da Ford afirma: 'Eu sei quem causou a guerra. Os banqueiros judeu-alemães. Tenho as provas aqui. São fatos. Os banqueiros judeu-alemães causaram a guerra'. Quando os Estados Unidos entram na guerra, promete 'atuar sem lucrar um centavo' nos contratos com o governo, mas não cumpre o prometido. Por insistência do presidente Wilson, concorre ao Senado como democrata - embora anteriormente se identificasse como republicano - e é derrotado por pequena margem de votos. Atribui sua derrota aos 'interesses' de Wall Street e aos 'judeus'.

1920. Em maio, o Dearborn Independent - um hebdomadário local comprado por Ford em 1918 - publica o primeiro de uma série de noventa e um detalhados artigos cujo tema é 'O judeu internacional: problema mundial'; em números subsequentes, publicam em folhetim os apócrifos Protocolos dos sábios de Sião, afirmando que o documento - que revela um plano judaico para dominar o mundo - é autêntico. A circulação do hebdomadário alcança quase trezentos mil exemplares em seu segundo ano de publicação; os revendedores de produtos Ford são obrigados a fazer assinaturas, e os artigos de cunho fortemente antissemita são depois reunidos numa edição em quatro volumes: The International Jew: The World's Foremost Problem ('O judeu internacional: o principal problema mundial').

Década de 1920. Em 1921, a Ford atinge cinco milhões de carros produzidos; o Model T responde por mais da metade dos automóveis vendidos no país. Ford constrói a imensa fábrica de River Rouge e uma cidade industrial em Dearborn. Adquire florestas, minas de ferro e carvão para abastecer sua empresa com matérias-primas. Diversifica a linha Ford. Em 1922, sua autobiografia, My Life and Work, torna-se um best-seller na categoria não ficção; o nome e a lenda de Ford ganham fama no mundo todo. Pesquisas de opinião mostram que ele é mais popular do que o presidente Harding, e seu nome começa a ser sugerido como ideal para uma possível candidatura à Presidência pelo Partido Republicano; no outono de 1922, pensa em se candidatar. Adolf Hitler, numa entrevista em 1923, afirma: 'Consideramos Heinrich Ford um líder do crescente movimento fascista nos Estados Unidos'. Em meados da década, um advogado judeu de Chicago o processa por difamação, e o caso é encerrado com um acordo extrajudicial; em 1927, retira seus ataques aos judeus, resolve interromper suas publicações de material antissemita e fecha o deficitário Dearborn Independent, que já lhe custara quase cinco milhões de dólares. Quando Lindbergh vai a Detroit em agosto de 1927 no Spirit of St. Louis, encontra-se com Ford no aeroporto Ford e o leva a voar pela primeira vez no famoso avião. Lindbergh desperta o interesse de Ford na produção de aviões. Os dois se reúnem posteriormente muitas vezes, e numa entrevista concedida em 1940, em Detroit, Ford observa: 'Quando Charles vem aqui, nós só conversamos sobre os judeus'.

1931- 1937. A concorrência da Chevrolet e da Plymouth, mais o impacto da Depressão, trazem grandes prejuízos à Ford, apesar da inovação representada pelo motor V-8. Surgem dificuldades nas relações com os empregados na fábrica de River Rouge, causadas pela aceleração do ritmo de trabalho, insegurança no emprego e espionagem industrial. Quando o sindicato United Auto Workers tenta fazer campanha na Ford, tal como na General Motors e na Chrysler, Ford reage com violência e intimidação; grupos paramilitares de Detroit espancam sindicalistas em River Rouge. As políticas trabalhistas da Ford Company são condenadas pelo Conselho Nacional de Relações Trabalhistas e consideradas as piores da indústria automobilística.

1938. Em julho, ao completar setenta e cinco anos, aceita a Cruz de Serviço da Águia Alemã oferecida pelo governo nazista de Hitler num jantar comemorativo de seu aniversário em Detroit, para o qual foram convidados mil e quinhentos cidadãos importantes. (Quando a mesma medalha é concedida a Lindbergh em cerimônia realizada na Alemanha em outubro, o secretário do Interior, Ickes afirma numa reunião da Sociedade Sionista de Cleveland, em dezembro: 'Henry Ford e Charles A.Lindbergh são os dois únicos cidadãos livres de um país livre que, com subserviência, aceitaram essas homenagens desprezíveis numa época em que aquele que as concedeu considera perdido o dia em que não cometeu nenhum novo crime contra a humanidade'). Sofre o primeiro de seus dois derrames.

1939-1940. Quando tem início a Segunda Guerra Mundial, passa a defender, com seu amigo Lindbergh, o isolacionismo e o Comitê América em Primeiro Lugar. Pouco depois de Ford ingressar na Comissão Executiva do movimento, Lessing J. Rosenwald, diretor judeu da Sears, Roebuck and Company, renuncia por causa da reputação antissemita de Ford. Durante algum tempo, tem encontros regulares com o padre Coughlin, que faz pronunciamentos antissemitas no rádio; Roosevelt e Ickes acreditam que Ford o esteja financiando. Dá apoio financeiro ao demagogo antissemita Gerald L.K. Smith, pagando seus programas radiofônicos semanais e suas despesas cotidianas. (Anos depois, Smith reedita The International Jew; na década de 1960, ainda afirma que Ford 'nunca mudou sua opinião a respeito dos judeus). 

1941-1947. Sofre o segundo derrame. A companhia passa a produzir artigos bélicos à medida que a guerra se aproxima; durante o conflito, produz o bombardeiro B-24 na imensa fábrica de Willow Run, onde Lindgergh é contratado como assessor. Por motivo de saúde, Ford não consegue mais dirigir a empresa e se aposenta em 1945. Morre em abril de 1947; uma multidão de cem mil pessoas comparece ao velório. A maior parte da imensa fortuna em ações da empresa vai para a fundação Ford, que em pouco tempo se torna a mais rica fundação privada do Mundo".

ROTH, Philip. Complô contra a América. São Paulo, Companhia das Letras, 2015. Páginas 420-423.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Complô contra a América. Philip Roth.

A leitura de Complô contra a América marca um retorno meu à obra de Philip Roth. Quem me levou a esta volta foi o grande livro de Jean-Louis Vullierme Espelho do Ocidente. O nazismo e a civilização ocidental. A referência mais específica foi em relação a Henry Ford e o seu envolvimento com o nazismo. O tema me interessou de imediato. Há tempos eu me propunha a investigar. Deixo aqui a resenha do Espelho do Ocidente. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/03/espelho-do-ocidente-o-nazismo-e.html .
A tragédia do nazismo vista por dentro. Dentro dos Estados Unidos.


O livro de Roth é uma ficção, mas, poderíamos dizer, uma ficção meio real. Sabemos que o presidente Roosevelt foi presidente de 1933 até 1945, quando acabara de se reeleger para o seu quarto mandato, quando então veio a morrer. Mas não pensem que teve vida fácil. Primeiro instituiu a política do New Deal, na terra do "livre mercado" e, depois, teve que enfrentar o problema da Segunda Guerra Mundial, em meio a uma forte pregação de isolacionismo e de francas simpatias pelo regime de Hitler, entre os meios empresariais e, até por parte de alguns judeus, especialmente, entre os mais ricos, como nos conta o grande escritor. 

Roth altera a história. O herói da aviação americana Charles Lindbergh se elege presidente, contando com a sua enorme popularidade e o apoio do Partido Republicano, sob a pregação de que os Estados Unidos não deveriam se imiscuir nas guerras que diziam respeito, exclusivamente, a Europa. O ataque de Hitler a União Soviética provocava verdadeira histeria eufórica entre muitos americanos. A ficção de Roth se estende de junho de 1940, até outubro de 1942. Os ataques dos japoneses a Peral Harbour, no final do ano anterior, não dão mais sustentação a sua narrativa. Os acontecimentos ao longo do ano de 1942, já são desdobramentos dos acontecimentos anteriores. A ficção é narrada em nove capítulos, ao longo de 437 páginas. Também tem um post-scriptum, onde relata a história verdadeira dos fatos e dos principais personagens envolvidos. A tradução é de Paulo Henriques Britto.

Do lado político os envolvidos são obviamente o presidente Roosevelt, mas o personagem principal será o fictício presidente Charles Lindbergh, um hitlerista convicto e que, com ele mantinha pactos de que não se envolveria na guerra. Henry Ford integrou o seu ministério. Chegou a recepcionar von Ribbentrop, o ministro das relações exteriores de Hitler. Um dos convidados para esta recepção foi o rabino Lionel Bengelsdorf, casado com Evelyn, a tia de Philipp, o narrador. Também ganha destaque um jornalista, muito popular,  Walter Winschell, que será o candidato anti-Lindbergh, pelos democratas. Ele  será assassinado em um atentado, fato que provocará pogroms, assassinatos em série e muitas desordens.

Bem, vamos ao núcleo narrativo, de quem observa todos estes acontecimentos. Será o menino Philipp, que na ocasião tinha algo em torno de sete anos. Uma criança muito atenta, sem muita compreensão das razões dos acontecimentos mas que o abalam profundamente, na medida exata em que uma criança inocente pode ser abalada. Philip é o filho mais novo de Herman e Bess Roth. Uma família de origem judaica. Eles constituem uma família pobre, sendo ele um corretor de seguros, em meio a grande depressão dos anos 1930.Tem ainda um irmão mais velho, chamado Sandy. Um primo, tornado órfão, de nome Alvin, é assumido pela família mas se alista no exército canadense para  ir a Europa combater os nazistas. Volta com uma perna mecânica e uma pequena pensão do exército canadense. Já Sandy se alistara nos programas do governo Lindbergh de integração ou assimilação de imigrantes judeus. Foi trabalhar nas plantações de fumo de Kentucki.

A tia Evelyn também ganha grande destaque. Ela se casa com um rabino famoso, sr. Bengelsdorf, que exercerá grande influência sobre a esposa do presidente Lindbergh. Passa a ser considerado uma espécie de Rasputin do governo. A intriga está sendo introduzida dentro da família Roth. Já Alvin, certamente em função dos traumas da guerra e da perda de parte de uma perna se torna um desajustado e cai numa espécie de marginalidade, no mundo do jogo. Afronta abertamente ao senhor Roth, cuspindo-lhe na cara. Estes incidentes levaram ambos a um hospital. Além disso, também o tio Monty faz parte da história. Ele se transformou num rico comerciante de frutas e verduras, chegando a ostentar o título de rei do tomate. A família contava agora com três posições diferentes com relação aos acontecimentos. A adesão de tia Evelyn, a oposição tenaz do senhor Roth e a absoluta indiferença de tio Monty. Este vivia em função do dinheiro.

O romance ganha as dimensões de tragédia, após o assassinato de Winchel e do desaparecimento do presidente Lindbergh. Nas novas eleições, Roosevelt vence, mas no governo provisório do vice, Burton Wheeler, ocorrem as políticas abertamente anti semitas e de apoio a Hitler. (Nos anos 1950 ele se tornará um dos grandes aliados do senador McCarthy). Era grande o temor de um confronto com o Canadá, já envolvido na guerra, ao lado dos aliados. Cenas de rara sensibilidade ocorrem com relação a senhora Selma Wishnow e o seu filho Seldon. A família Roth ampara Seldon, que já era órfão de pai, vítima de suicídio e que agora perde também a mãe, morta nos atentados anti judaicos. A senhora Bess ampara a este menino com muita bondade e generosidade.

A ficção de Roth não é uma mera ficção. Ao final do livro, num Post-scriptum, de esclarecimento ao leitor, lemos: "Este post-scriptum tem o propósito de fornecer referências aos leitores interessados em saber até onde vão os fatos históricos e onde tem início a imaginação histórica". Segue quase uma página de referências, entre dissertações e teses, a respeito do tema.

Philip Roth costuma, em seus livros, atacar amargamente a cultura e os costumes dos Estados Unidos.  A crítica, desta vez, não atinge o núcleo familiar e, o pequeno Philip até se dá muito bem com o seu pai e a sua mãe. Mas o entorno... Sobra para a tia, o tio, o sobrinho e, especialmente, para o marido da tia, um rabino nazista. Consegue imaginar a figura? Mas a costumeira acidez de Roth com relação a América está fortemente presente, ao constatar que os Estados Unidos não são efetivamente a América para todos os seus filhos e que estes, absolutamente, não são tratados com igualdade.

Quero ainda deixar a resenha de mais dois livros lidos recentemente. O livro de Richard Hofstadter, Antiintelectualismo nos Estados Unidos. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/01/antiintelectualismo-nos-estados-unidos.html e o livro que decorreu de uma palestra de Umberto Eco, na universidade de Colúmbia, em 1995, sobre o fascismo eterno. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/03/fascismo-eterno-umberto-eco.html. Tudo a ver. Creio não ser necessário estabelecer relações com o Brasil pós golpe de 2016 e o atual governo, pela primeira vez, explicitamente antiintelectual.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Os Demônios. Fiódor Dostoiévski.

Ler é acima de tudo contextualizar. Isto se torna verdade, ainda maior, quando estamos diante de obras complexas, como é o caso de Os Demônios de Fiódor Dostoivski (1821- 1881). A Rússia, ao longo de todo o século XIX, passa pelas convulsões sociais e políticas que a Europa ocidental passara no século anterior. É a era das revoluções burguesas a marcar o fim do tsarismo, como era denominado o absolutismo na Rússia. Tomo como data referência o ano de 1861, ano da abolição do regime de servidão. Na Rússia estas convulsões atingem o seu auge, apenas no século seguinte, com as revoluções de 1917, sob o comando de Kerensky e de Lênin.
Para muitos, a obra prima do autor.

Quando mais jovem, Dostoiévski participou ativamente de grupos revolucionários socialistas, fato que o levou à prisão em 1849 e à condenação à morte. Pouco antes de ser cumprida esta sentença de morte, ela foi comutada pela prisão perpétua na Sibéria, acrescida da prática de trabalhos forçados. Dostoiévski cumpriu parte da pena e foi, mais uma vez beneficiado por indulto, experimentando  de novo a liberdade. A prisão tornou-o um homem mais paciente e profundamente observador, além de  mudar radicalmente as suas convicções.

Tornou-se profundamente conservador e extremamente católico. Para a prisão, conta-se, levara um único livro, o Evangelho. A observação rigorosa e detalhada forneceu personagens exemplares para o escritor. As memórias destes anos de infortúnio estão registradas na Memória da casa dos mortos, com relatos impressionantes. O grande escritor estava sendo forjado. Deixo a resenha deste memorável livro. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/12/memorias-da-casa-dos-mortos-fiodor.html

Confesso que tive enorme dificuldade para ler Os demônios.  Além dos nomes, o russo sempre usa três, dois pré nomes e o sobrenome. Vejamos, como exemplo, Piotr o personagem principal Piotr Stiepánovitch Vierkhoviénski. Ora ele é chamado pelo nome, pelos dois nomes, ou então pelo sobrenome. E os personagens do romance/crônica são inúmeros. Além disso, você precisa de toda uma contextualização da história e dos movimentos político/culturais russos deste período para se localizar. Não gosto de ler resenhas antes da leitura de um livro, porém, neste caso específico, recorri a esse expediente, além de elaborar uma relação com os nomes completos de todos os principais personagens. Facilitou bastante.

O próprio livro que eu li, da editora 34 com tradução direta do russo de Paulo Bezerra, tem dele também, ao final do livro, dez páginas de um pequeno ensaio/resenha, contextualizando a obra. Usarei deste texto para trazer elucidações sobre o complexo livro. O tempo histórico é de formação de grupos, sob orientação externa, com as mais diferentes tendências revolucionárias. No caso específico serão as ideias de Bakunin, bem ou mal assimiladas.

Paulo Bezerra nos relata que no dia 21 de novembro de 1869 ocorreu o assassinato de um jovem estudante por um quinteto de uma organização clandestina intitulada Justiça Sumária do Povo. Este quinteto era comandado por Nietcháiev. O jovem assassinado queria deixar a organização. Este assassinato é seguido por outros e também por outros atos terroristas, como o incêndio de um bairro por operários de uma fábrica. Os relatos ocorrem, não na capital, mas em província distante. Havia na Rússia da época milhares destes quintetos. Paulo Bezerra observa que Os demônios é o primeiro romance que aborda o tema do terrorismo. Nietcháiev ganha o nome de Piotr Stiepánovitch Vierkhoviénski e em seu entorno se constrói o cerne da crônica de época ou o famoso romance.

As descrições tem forte carga nas tintas. O escritor não poupa a ação dos grupos e mostra suas contradições, especialmente, a enorme distância entre aquilo que pregam e o que fazem. Quem tem um pouco de prática em militância política sabe do que o escritor está falando. Dostoiéski relata em carta, que quis dar ao livro um caráter panfletário, nem que comprometesse a estética de sua obra.  Mas também nisso ele foi genial. Ganhou a crônica política e a história. Também inovou na forma narrativa. Demorei um pouco para descobrir quem era o narrador. Paulo Bezerra assim descreve a trajetória do romance: Do 'panfleto' á obra prima. Um crítico de esquerda qualificou o escritor como possuidor de um talento cruel. Sob o regime de Stálin a obra ficou por muito tempo proibida.

As críticas são ácidas, especialmente no que diz relação às principais categorias da política como a liberdade, a igualdade e a identidade. Existe uma forte aproximação com Nietzsche. Mas voltamos ao tradutor para definir os objetivos do grupo e os meios para consegui-los: "Seu objetivo final é conseguir transformações anarcorrevolucionárias de toda a Rússia. Para atingir tais fins, são indispensáveis a subordinação irrestrita e incondicional de todos à direção do movimento, o uso de todos os meios, a espionagem mútua, o derramamento de sangue para cimentar a unidade dos participantes".

Mais adiante mostra as contradições dos dirigentes dos quintetos: "Dostoiévski o vê (Nietscháiev ou Piotr) em seu contraditório movimento interior e mostra em Os demônios como grandes e generosas ideias, uma vez manipuladas por indivíduos desprovidos de consciência cultural e princípios éticos, podem se transformar na sua negação imediata, assim como a utopia da liberdade e da felicidade do homem pode  degenerar na sua negação, no horror, na morte, na destruição. Grandes ideias, quando geridas por tipos intelectualmente broncos, acabam em farsa ou paródia. É o que ocorre com Piotr Stiepánovitch, que em diálogo com Stavróguin declara cinicamente que é 'um vigarista e não um socialista'". Paulo Bezerra segue falando que para o escritor é "impossível alguém liderar à altura uma grande causa sem compreender a essência profunda da natureza humana e sem prezar a liberdade do homem". Dostoiévski, apesar de, agora conservador, não abdicara de nobres sentimentos humanos, com o seu sonho de uma Idade de Ouro.

Paulo Bezerra continua mostrando  como o escritor detona o líder e os membros do quinteto: "Não os censura pelas ideias em si (e isso ele declara em várias oportunidades), mas pelo inacabamento de suas teorias, pelas lacunas aí deixadas, que acabaram degenerando na sua negação, no simulacro, na sua impostura. O simulacro, o quinteto de Piotr Stiepánovitch, é a redução das várias tendências de um movimento à sua caricatura grotesca sob a égide de indivíduos possuídos pela ideia do poder pelo poder, que, querendo autoafirmar-se a qualquer custo, ultrapassam todos os limites, obliteram todas as objeções teóricas e obstáculos morais e criam uma engrenagem que transforma em 'salvadores' e 'vanguarda' da humanidade indivíduos sem consistência moral e ideológica nem condição cultural para tais papéis".

Para terminar, uma passagem narrada por um dos membros do quinteto, Nikolai Stavróguin: "Na época, mantive durante certo tempo três apartamentos. Em um deles eu mesmo morava com cama e criadagem, e na ocasião morava também Mária Lebiádkina, hoje minha legítima esposa. Aluguei os outros dois apartamentos por mês para amoricos". Do que você se lembrou? Eu lembrei de um asqueroso personagem brasileiro que dizia usar o auxílio moradia de deputado para "comer gente". Digo isso também para emparelhar com os movimentos de direita.

Deixo ainda a frase em epígrafe: "Ora, andava ali, pastando no monte, uma grande manada de porcos; rogaram-lhe que lhes permitisse entrar naqueles porcos. E Jesus o permitiu. Tendo os demônios saído do homem, entraram nos porcos, e a manada precipitou-se despenhadeiro abaixo, para dentro do lago, e se afogou. Os porqueiros, vendo o que se passara, e foram ter com Jesus. De fato acharam o homem de quem saíram os demônios, vestido, em perfeito juízo, assentado aos pés de Jesus; e ficaram dominados pelo terror. E algumas pessoas que tinham presenciado os fatos contaram-lhes também como fora salvo o endemoninhado". Lucas, 8, 32-6. Também é citada várias vezes a passagem do Apocalipse sobre o quente, o frio e o morno. Dostoiévski abominava a neutralidade.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Homens imprudentemente poéticos. Valter Hugo Mãe.

Confesso, antes de mais nada, que é extremamente prazeroso ler Valter Hugo Mãe. Mas confesso também, que isso não é uma tarefa fácil. Os seus romances tem uma estrutura complexa e a cada momento estamos diante do inusitado, de um poético e de um simbólico que sempre perpassa toda a obra. Com Alberto Manguel aprendi que um dos segredos da leitura é sempre se por diante da pergunta: O que o autor efetivamente quis dizer.
Que maravilha. Imprudentemente poéticos. Morte e suicídio.

Dito isso, vou buscar, no final de Homens imprudentemente poéticos, uma nota do próprio autor sobre o seu livro. Entre vários agradecimentos ele nos diz: "Ao encontrar os fios ainda frescos dos suicidas que entram a floresta no sopé do monte Fuji, estratégia de Ariadne, o calafrio traz a dúvida de saber se na sua extremidade, ao centro do labirinto, alguém medita desesperadamente acerca do fim. Por ser ocidental, a cultura da culpa, a base cristã e a inteira obrigação para a vida impelem-me à salvação de cada pessoa. Como se a morte fosse sempre pior do que prosseguir na deriva tantas vezes cruel de existir. Para os japoneses o suicídio reveste-se de complexa nobreza. O morto nobre, na floresta do monte Fuji, sobra nas árvores como a devolver-se à mutante natureza. A natureza é, de todo modo, o único futuro viável, a única perenidade".

Está claro que Valter Hugo Mãe nos quer falar da morte e, mais precisamente, sobre a morte em sua pior forma, dentro dos parâmetros da cultura ocidental, qual seja, a forma suicídio. Lembro da minha Harmonia, minha pequenina e católica cidade natal. Os suicidas e os não cumpridores dos mandamentos da igreja, aqueles cinco, lembra, eram enterrados ao lado do cemitério e não na sua parte principal. Assim, além da danação eterna, vista pelos olhos da fé, recebiam também olhares reais nada complacentes e bondosos, da companheirada da comunidade. Triste e apavorante.

Então a poesia imprudente do poeta escritor busca uma outra cultura, com outra visão sobre a morte e com outra visão sobre o suicídio. Numa visão cósmica, pela morte ingressamos no universo da natureza. Isso já é imprudentemente poético e, muito benfazejo. Liberta da danação, do fogo eterno, dos demônios do mundo simbólico e do real.

Dois japoneses moram ao sopé da montanha ou do parque dos suicidas. Itaro era um artista que pintava leques. Vivia em companhia da criada Kame e da menina Matsu, a irmã. Matsu era cega e com isso alargou a visão com outras formas de enxergar. Itaro vivia muito perturbado. Ao lado morava o oleiro Saburo e o quimono de Fuyu. Pelos movimentos, ao vento, ela continuava ao lado de Saburo. O oleiro cultivava um bem cuidado jardim, passagem obrigatória no caminho dos suicidas. Este jardim, a muitos fez retroceder em suas intenções. Itaro e Saburo eram pessoas boas, porém, se odiavam de morte.

O romance é a trajetória percorrida por Itaro, Kame e Matsu. Kame, a criada eventual da família, tronou-se a mãe/perto da pequena cega. Itaro buscou a sabedoria do japão profundo, a mando de um sábio. Já a trajetória de Saburo era a de viver as flutuações do quimono, dos cuidados com o forno e do jardim e das implicações com o vizinho. Os momentos mais imprudentemente poéticos são os da menina cega, que tem o olhar alargado da visão para compensar a deficiência física do enxergar. Itaro também alargou a sua visão.

O último capítulo do livro se volta ao título da obra: A imprudência poética. Nele lemos: A senhora kame explicava: "É um algodão a chegar da floresta. É lindo. Itaro sentia que era lindo.

Os três se deixaram assim. O oleiro sabia um poema acerca da vetusta cerejeira da noite de Guion. O artesão pediu: faça-nos ouvir, por favor. faça-nos ouvir.

O perfume das impossíveis cerejeiras inebriava os inimigos que, distraídos pela poesia, adiavam todas as decisões. A vida, subitamente, era sem pressa. Planeariam combater-se mais adiante, se ainda fosse interessante matarem-se um ao outro.

Depois, Saburo voltou a dizer: vou cuidar dos incómodos das flores. Mas o cego sabia que o jardim perecera e que o oleiro se deixara daquela delicadeza. A ausência do quimono da senhora Fuyu abandonara o oleiro à realidade. E a realidade era sem maior fantasia. Vinha o inverno. O frio bastava para que se quisessem ocupar de mudar tudo. Pela primeira vez mudar tudo.

Calmamente, como num pensamento maduro, Itaro decidia que haveria de se prostrar no chão junto ao castelo de Nijó, o mais cerca do palácio de Ninomaru que lhe fosse possível. De rosto caído. A honra inteira na palma da mão a pedir. Como se explicasse à bondade de cada homem que o espírito divino o honrara com aquela situação. Enfrentava a contagem da míngua e a arte de mendigar. Sabia que os mendigos eram teatrais. Estavam longe de mentir. Apenas ilustravam o desespero com talento.

Falaria de amor. Diria: o que se opõe ao amor se afeiçoa à morte. O artesão haveria de mendigar por obrigação de alegria".  É... o que se opõe ao amor se afeiçoa à morte. Absolutamente - imprudentemente poético.




segunda-feira, 18 de março de 2019

o remorso de baltazar serapião. valter hugo mãe.

Um enigma. Tive dificuldade enorme em ler este livro, o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe. Recorro ao curto prefácio de José Saramago, que nos dá pistas, além do elogio à forma linguística, à abolição dos "sinais de trânsito", que nos levam a dirigir com redobrada atenção e cuidado. Ou seria, a exigência de muito maior atenção na sua leitura? Saramago qualifica a obra como um verdadeiro tsunami, um "ímpeto arrasador e ao mesmo tempo construtor".
O tsunami literário de valter hugo mãe.


Mas vamos ao que Saramago fala da obra em si, para além de sua forma de apresentação: "A época que se reconstitui, embora não se possa falar exactamente de reconstituição, é uma certa Idade Média que está ausente dos livros que dela falam e das ficções que sobre esta época se armaram. Nós gostamos muito, nós os portugueses, gostamos da Idade Média, não se sabe porquê, talvez por causa d'A dama pé-de-cabra ou d'O bispo negro, dessa espécie de Idade Média desinfectada, limpa como se houvesse detergentes de todo tipo, mas o que acontece é que aquilo cheirava mal, era feio. Foi aqui dito que o livro cava um diálogo que não tem fim entre o feio e o belo, mas eu creio que é preciso ter muita esperança na vida para achar que aquele belo vai ganhar a batalha, e a prova é que não a ganhou".

Confesso que a uma certa altura da leitura, imaginei que se tratava, não de um romance que retratava a Idade Média, mas sim, o futuro da humanidade, enrodilhado em desespero e desesperança. Uma verdadeira distopia. A leitura me causava um certo desconforto.

Na contracapa encontramos mais uma explicitação bem esclarecedora: "Estirpe e jugo são os elementos brutos com os quais a poderosa linguagem de Valter Hugo Mãe narra a história da sarga, "nascidos de pai e vaca" e de seu primogênito, que dá nome ao livro: baltazar, camponês miserável e de passividade bestial, cujas vida e jovem esposa são exploradas por dom afonso, senhor das 'almas e coisas' daquela terra. E põe bestialidade nisso. Também são profundamente esclarecedoras as imagens, os desenhos ou as representações que aparecem no começo e ao final do livro. São desenhos de seres humanos misturados com animais, com detalhes sobre os temas enfocados ao longo do livro.

Como ilustração e chamativo para a leitura, deixo os mistérios e enigmas do último capítulo, o de número vinte e oito: "apercebi-me de se levantarem já tão ágeis pelo hábito quanto pela perda progressiva da razão. apercebi-me do mugido súbito da sarga por coisa que na noite rondou a sua calma. uma qualquer presença incómoda que a pôs em sobressalto. e eu nem me levantava, nem me acusava de atitude alguma. ergui a cabeça lentamente e ao pé da fogueira estavam o aldegundes e o dagoberto uma vez mais torcendo a minha ermesinda, e mais a sarga se incomodava, mais a ermesinda se inquietava, mais a ermesinda bulia debaixo deles, esticada por um e por outro para corresponder em formas às entradas que eles queriam fazer. e ela atrapalhava-se respirando com maior dificuldade. coisa que dava à sarga era proporcional à coisa que lhe dava também. mas eu demorei a decidir ideia válida de fazer. ali estava, em nova permissão. abdicando de tudo, já nem por manter a sensatez da educação da minha mulher senão para permitir que, com mais dois, fôssemos quatro como casal de deus. eu sentiria até ali o remorso dos bons homens. como havia pensado, remorso duro de tão dignamente administrar a educação da minha ermesinda. mas até ali, pensei, até ali, por que naquele momento, mais do que a condenação de restarmos os quatro encurralados para todos os avios, ocorreu-me a falha grave do meu espírito. e tão amargamente me foi claro que, por piedade ou compreensão com os meus companheiros, e talvez por ausência da voz da minha mulher, passara para lá do limite. o remorso dos bons homens já não me assistia, senão só a burrice e ignorância de quem abdicara de sua mulher.

ainda pensei, talvez fosse só da chuva que caía, talvez fosse só da avidez dos dois traidores, com ganas de alívio maiores do que o costume, ou talvez fosse por pressentir o apelo da minha indefesa amada, ali disposta para banquete de homens que não eram o seu marido, sim, talvez fosse por isso que a sarga estava diferente. e a minha ermesinda mais se tentou debater e mais lhe custava a respirar, mais eles se afligiam com controlá-la para, mais que não fosse, voltarem aos seus lugares e esperarem que se acalmassem, as duas, ela e a vaca. e foi como me levantei. aproximei-me dos dois, grande e imbatível como uma pedra de ódio construída no exercício do meu bom amor, e que me pus diante deles tão pequenos. afastaram-se de minha ermesinda que, imóvel, respirou menos, respirou menos, respirou menos, não respirou. a sarga mugiu de modo lancinante. e eu abati-me sobre os dois abrindo lado a lado os braços de punhos fechados. um só golpe certeiro com a violência da pedra mais furiosa do mundo. sobraram no chão como mais nada ali estivesse.

depois ergui-me, aqueci, tive a percepção fatal de que o meu corpo não suportaria nem o caminho até ao pé da sarga. na escuridão contínua, a sarga talvez tentasse chegar a mim também". E voltamos a Saramago: o remorso de baltazar serapião é um tsunami linguístico, estilístico,semântico,sintáctico".

sábado, 16 de março de 2019

O enraizamento do nazismo na cultura ocidental. Seus componentes e suas profundas raízes.

Um dos livros mais densos e esclarecedores que li ultimamente foi Espelho do ocidente - O nazismo e a civilização ocidental. A autoria é de Jean-Louis Vullierme. O objetivo do livro está assim descrito pelo seu autor, no prólogo do livro: "Sempre me pareceu fundamental entender aquele que constitui o acontecimento mais destruidor da história moderna, identificando suas raízes para procurar extirpá-las".
Identificar as raízes do nazismo para procurar extirpá-las. A tese do livro.

Já na introdução, lemos: Essa ideologia (o nazismo), que não nasceu na Alemanha, mas nela foi aplicada furiosamente, é tao real quanto são fantásticos suas justificações e seu objeto. Ela não é isolada, inserindo-se em uma temática que encontrou no nazismo sua interpretação mais ampla até hoje. Os componentes do sistema coerente ao qual pertence, cada um deles perigosamente, já se haviam combinado antes de maneira parcial, mas nunca inofensiva. E podem, a qualquer momento, ser novamente combinados.

Sua lista, tal como me proponho a descrevê-la aqui, poderia ser inicialmente formulada da seguinte maneira, sem uma ordem especial: supremacismo racial, eugenismo, nacionalismo, antissemitismo, propagandismo, militarismo, burocratismo, autoritarismo, antiparlamentarismo, positivismo jurídico, messianismo político, colonialismo, terrorismo de Estado, populismo, juvenilismo, historicismo, escravagismo. Devem ser acrescentados dois elementos essenciais que não tem nome. Os neologismos que sugiro no caso são 'anempatismo' e 'acivilismo', designados, respectivamente, à educação que não concede nenhum sentimento ao sofrimento do outro e à ausência de qualquer proteção especial às populações civis nas operações militares ou policiais". Sobre o livro de Vullierme veja: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/03/espelho-do-ocidente-o-nazismo-e.html

Neste último parágrafo está a nota explicativa de número 9, onde são explicitados os conceitos relativos às palavras destacadas. O livro tem mais de 100 páginas de notas explicativas, que são as fontes onde o pesquisador bebeu. São uma preciosidade. E segue a explicitação:

O supremacismo racial considera que os seres humanos são repartidos em espécies biológicas distintas, chamadas "raças", em rivalidade pela dominação, uma das quais dispondo de superioridade natural que a destina a levar a melhor.

O eugenismo político atribui aos poderes públicos a missão de melhorar a espécie humana pela eliminação das características consideradas não adaptativas, por meio da seleção, da criação, da eutanásia ou da esterilização.

O nacionalismo é a ideia de que os homens adquirem sua identidade primordial pela filiação a grupamentos históricos e territoriais, apresentados como substanciais e designados como "Nações", às quais eles devem dar prioridade em detrimento de qualquer outro tipo de agrupamento, se necessário sacrificando seus próprios interesses.

O antissemitismo visa submeter ou afastar as pessoas de tradição judaica e aquelas que lhes são aparentadas mediante todos os dispositivos discriminatórios de ordem privada ou pública, o acantonamento, a expulsão ou a eliminação física.

O propagandismo é a utilização sistemática dos meios de comunicação, inclusive pela seleção e distorção das informações transmitidas, com vistas a realizar um consenso político de acordo com os interesses de seus mandantes.

O militarismo é a ideia de que, prevalecendo os objetivos militares sobre quaisquer outras considerações de ordem jurídica ou moral, a sociedade e o exército devem tender a se confundir em uma organização única para alcançá-los.

O burocratismo é o controle administrativo de uma população, por meio de uma organização hierárquica isenta de recursos jurídicos eficazes.

O autoritarismo é a convicção de que toda esta organização eficaz está sujeita a um princípio de comando hierárquico, que seria debilitado por retroações não solicitadas da parte dos executantes ou pelo pluralismo.

O antiparlamentarismo é a afirmação de que toda eleição  que não seja plebiscitária constitui um fator de divisão da sociedade.

O positivismo jurídico identifica como fonte única do direito a vontade de um legislador, à qual as jurisdições devem submeter-se, sem ponderá-la com outras fontes, como a doutrina, a jurisprudência, os costumes ou a equidade.

O messianismo político é o apoio ou a espera de um indivíduo dotado de qualidades extraordinárias que lhe permitem resolver as principais dificuldades políticas enfrentadas por uma população.

O colonialismo autoriza os países mais poderosos no momento em questão a assumir, direta ou indiretamente, o controle econômico e político dos países menos poderosos.

O terrorismo de Estado é a ideia de que é legítimo que um governo iniba pelo terror a resistência de seus adversários, especialmente pela espionagem da vida privada, a tortura, o encarceramento arbitrário ou o assassinato.

O populismo é a afirmação de que o interesse de certos grupos desfavorecidos justifica medidas extraordinárias contra uma parte das elites.

O juvenilismo é a ideia de que o poder político e econômico deve ser prioritariamente atribuído a jovens adultos.

O historicismo atribui à História um sentido estritamente orientado, justificando o combate contra pessoas designadas como obstáculos à sua realização.

O escravagismo é a ideia de que certas pessoas, pelo fato de uma suposta inferioridade substancial ou em virtude do direito de guerra, do fato de pertencerem a um grupo adverso, de uma condenação judiciária ou de uma transação comercial, podem ser legitimamente submetidas pela força ao trabalho ou à sujeição sexual.
Neste livro encontramos a fala Educação após Auschwitz.

Ao post acrescento uma parte do primeiro parágrafo da fala de Adorno em Educação após Auschwitz: "A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. Não consigo entender como até hoje mereceu tão pouca atenção. Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda monstruosidade ocorrida. Mas a pouca consciência existente em relação a essa exigência e as questões que ela levanta provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas, sintoma da persistência da possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das pessoas. Qualquer debate acerca das metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta. Que Auschwitz não se repita". Retirado do livro Educação e Emancipação. 


sexta-feira, 15 de março de 2019

Espelho do Ocidente. O nazismo e a civlilização ocidental. Jean-Louis Vullierme.

Uma frase me perturba há muito tempo. É a frase da abertura da fala de Adorno, em Educação após Auschwitz: "A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la". A fala é de 1965. Ao que tudo indica, o desesperado apelo de Adorno caiu em meio ao pedregulho e não apavorou ninguém.

Recentemente li, de Umberto Eco, O fascismo eterno. O livrinho é uma palestra por ele proferida na Universidade de Colúmbia, em 1995 e publicada no Brasil em 2018. Por que será, apenas em 2018? Nesta conferência ele apresenta 14 características do Ur-fascismo, o fascismo eterno. Vejam o autor apresentando a primeira destas características:

"A primeira característica de um Ur-fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho que o fascismo. Foi típico também do pensamento contrarreformista católico depois da Revolução Francesa, mas nasceu no final da idade helenística como uma reação ao racionalismo grego clássico. Na bacia do Mediterrâneo, povos de religiões diversas (todas aceitas pelo Panteão romano) começaram a sonhar com a revelação recebida na aurora da história humana. Essa revelação permaneceu longo tempo escondida sob o véu de línguas então esquecidas. Havia sido confiada aos hieróglifos egípcios, às runas dos celtas, aos textos sagrados, ainda desconhecidos, das religiões asiáticas. [...] (Formou-se um sincretismo, logo transformado em verdade absoluta). E como consequência, continua Eco, "não pode haver avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem". Em outras palavras, a verdade está dada e não pode ser contestada. A ela todos devem se submeter. A cultura ocidental contém em si o germe de todos os autoritarismos.
Um livro que mergulha fundo na formação do pensamento e da cultura ocidental.

Esta é a tese de Espelho do ocidente - o nazismo e a civilização ocidental. O autor é Jean-Louis Voullierme, doutor em Direito e Ciências Políticas e professor de Filosofia nas Universidades Paris I e II. "Ele explora as raízes do mal", como lemos na contracapa do livro. A razão do livro está assim explicitada no Prólogo do livro, escrito pelo próprio autor:

"Sou de família que lutou contra o nazismo e foi parcialmente destruída por ele. Isso já seria suficiente para me interessar pelo assunto mais que os outros, mas não é a razão principal. Sempre me pareceu fundamental entender aquele que constitui o acontecimento mais destruidor da história moderna, identificando suas raízes para procurar extirpá-las. Eu também considerava que a memória dos mortos exigia no mínimo que se soubesse porque haviam sofrido tanto. Ora, essa compreensão não me era imediatamente acessível" Daí a razão da pesquisa.

No anúncio do livro eu lia sobre as contribuições de Henry Ford na construção do nazismo. Este fato foi, para mim, determinante para a compra e leitura do livro. Sabe aquela imagem de fundo que você tem de um autor... O operário de minha fábrica, deve, no mínimo, receber uma remuneração que permita comprar os produtos da empresa... Longe portanto dos empresários brasileiros preocupados em que os seus operários recebam o mínimo possível e que seus direitos sejam totalmente abolidos da legislação, como se verificou no último processo eleitoral. Contra esta imagem, pesa, no entanto, um livro seu. Ele é autor de um livro, com o título O judeu universal. Hitler cultivava a imagem de Ford e o seu livro era para ele, o seu livro de cabeceira.

Mas vamos ao livro de 363 páginas, divididas em duas partes, prólogo, introdução e conclusão. As duas partes tem os seguintes títulos: Primeira parte: A ideologia do extermínio e Segunda parte: Sair da ideologia do extermínio. A primeira parte tem seis capítulos, a saber: 1. Comentários sobre um mistério (O anti semitismo); 2. Um modelo americano (escravidão - Ford - a busca de espaço e a expansão para o oeste); 3. A revolução nacionalista (o nacionalismo e a civilização); 4. Colonialismo e brutalidade (ganha força o termo Anempatia, o oposto de empatia); 5. A ação histórica (o historicismo como o triunfo da vontade); 6. O antagonismo (o cultivo do inimigo - o anti e o instrumento da propaganda). Um mergulho na cultura e na história do ocidente.

A segunda parte é formada por dois capítulos: 7. Terapias cognitivas (Há alternativas dentro da própria cultura ocidental - humanismo) e 8. Construções míticas, perspectivas concretas (extirpar o "adubo ideológico" do fundo de nossa cultura). O que está entre as páginas 239 e 346 é dedicado à notas explicativas, que basicamente indicam as fontes da pesquisa e dão explicações de contextualização. São mais de cem páginas de muita riqueza. Uma preciosidade. É óbvio que o desvendar é mais fascinante que o propor, embora o propor seja o fundamental. Digo isso para evidenciar a primeira parte do livro. Um livro de extrema erudição.

Apresento ainda os três parágrafos da orelha que apresentam o livro: "É comum acreditar que o nazismo é produto de geração espontânea, fruto de mentes doentias e desmoralizadas, e que nasceu a partir da ideologia antissemita e do revanchismo em relação às consequências da Primeira Guerra Mundial. No entanto, suas origens são muito mais amplas e profundas.

A receita para a ascensão e o sucesso de Adolf Hitler não deriva de uma realidade isolada: tal intenção exterminadora, mesmo dissimulada, era compartilhada por um bom número de intelectuais e empresários, incluindo Henry Ford. Estava no próprio cerne da civilização ocidental.

Em Espelho do Ocidente, Jean-Louis Vullierme identifica as raízes do episódio mais arrasador da história, analisando sistematicamente o modo de pensar e operar dos nazistas, assim como o vigor com que o extermínio foi empregado como solução. Fruto de ampla pesquisa, este livro rico em fundamentos é polêmico e preocupante; o ponto de partida para uma abrangente discussão sobre os problemas que rondam o mundo".

Também considero interessante uma das notas da contracapa: "Neste ensaio, o autor tenta mostrar a origem intelectual do nazismo e do Holocausto. Hitler não é apresentado como um louco, nem a Alemanha como uma ilha negra em uma Europa iluminada; antes se apresenta tudo como uma inevitabilidade num continente que já antes gerara tanta maldade".

E para concluir: Eco acertou na mosca. A raiz está nos primórdios da formação do pensamento ocidental e a preocupação de Adorno com a repetição de Auschwitz, está cada vez mais distante, à medida que nos afastamos do horripilante fato. Tudo o que causou Auschwitz, continua sendo cultivado, até diria, com doses bem mais elevadas. Anempatia e antagonismo dominam mentes e corações neste mundo cada mais desumano.

sábado, 9 de março de 2019

Fascismo eterno. Umberto Eco.

Cheguei a este livro pela via da própria compra. Sabe, aquele aviso: quem compra estes livros também tem interesse em comprar... Gostei da ideia e não tive dúvida. A conjunção do tema - fascismo e Umberto Eco, autor consagrado, eliminou qualquer dúvida. Trata-se de O fascismo eterno. Umberto Eco usa muito a expressão Ur, comum a várias línguas, para a designação de eterno. A primeira coisa que eu fui verificar, foi a ano da edição brasileira. 2018. Por que será? A edição italiana é de 1997. O livro, um pequeno livro, é uma palestra do autor, realizada na Universidade de Colúmbia, no ano de 1995.
O livro é uma conferência proferida na Universidade de Colúmbia, em 1995.

Estes dados dão especificidade ao tema, pois, neste ano de 1995 ocorreu o maior atentado terrorista interno nos Estados Unidos, o atentado de Oklahoma, responsável pela morte de 168 pessoas. Ele veio junto com a descoberta de que existiam organizações militares de extrema direita nos Estados Unidos, nos alerta o autor, em nota introdutória ao livro. A conferência e o teor do livro tem, portanto, um destinatário específico. Os jovens estudantes dos Estados Unidos. Mas o tema é necessariamente universal.

A conferência começa pela memória dos fatos. Eco se reporta ao ano de 1942, ano em que ele responde positivamente a uma pergunta feita para todos os alunos, na escola em que estudava, nas proximidades de Milão: "Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália? Como o autor nasceu em 1932, ele devia estar em torno de seus dez anos. Apenas por curiosidade, Eco nasceu na cidade de Alexandria. A fala continua com o evocar de suas memórias. Já neste tempo, afirma, começou a distinguir entre liberdade e libertação e o significado que tem as palavras e o  discurso. Notável. As memórias continuam com a evocação dos movimentos de Resistência, os Partigiani, e o contato com os soldados americanos. E, também, o primeiro chiclete.

A conferência passa a situar historicamente os movimentos fascistas do século XX, precedidos pelo fascismo de Mussolini, com bases teóricas em Giovanni Gentili, mas que "refletia uma noção hegeliana tardia do 'estado ético absoluto'". Este fascismo se propaga por toda a Europa e pela América do Sul. Eco atenta para as diferenças fundamentais destes sistemas e aponta, inclusive, inúmeras contradições entre eles. Mas a centralidade da palestra está na identificação de traços comuns, encontrados em todas as suas diferentes manifestações. São 14 diferentes faces que ele nos apresenta. É impressionante a facilidade com que podemos aplicar estas características ao triste momento histórico vivido pelo Brasil do presente. Mas vamos às características, de forma bem sintética. Para quem quiser mais, remetemos para o livro.

1. O culto da tradição: O tradicionalismo é mais velho do que o próprio fascismo. No Mediterrâneo formou-se um sincretismo religioso que não mais admitia contestações. A verdade estava posta e não poderia ser contestada. A cultura ocidental. Não poderá mais haver avanço no saber.

2. A recusa da modernidade: A modernidade significa um não aos valores tradicionais. São de extrema hostilidade ao iluminismo e à idade da razão, vistos como perversões da modernidade. Admitem apenas a evolução da técnica. Os fatores vão se somando.

3. O irracionalismo da ação pela ação: A ação é bela em si e carece de qualquer reflexão. Por isso o desprezo pela cultura e pela universidade. Eco lembra uma frase atribuída a Goebbels: "Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola. Tem a marca profunda do antiintelectualismo.

4. A não aceitação da crítica: Ela gera distinções e distinções são marcas da modernidade e geram os avanços, avanços estes que ferem as tradições. Estar em desacordo é sempre uma traição.

5. A não aceitação da diversidade: o sistema não tolera o desacordo e a diversidade. Expressa um ódio profundo às diferenças e ao diverso, aos intrusos. Daí o seu fundamento racista.

6. Tem a sua raiz em alguma frustração individual ou social: Esta é uma das razões ao apelo às classes médias frustradas em função de uma crise ou humilhação política, assustados pela pressão de grupos sociais subalternos. Aqueles do medo proletário são sempre o seu auditório preferido.

7. São privados de qualquer identidade social: Tem em comum apenas o fato de terem nascido no mesmo país. Daí um nacionalismo meio sem sentido, com obsessão pelo inimigo. Daí a perigosa raiz da xenofobia. Mas, para além dos inimigos externos, também existem os internos.

8. Humilhação diante da riqueza e da força do inimigo: Mas conseguem ser convencidos de que conseguem vencer o inimigo. Isso impede a possibilidade de avaliações objetivas.

9. Não há luta pela vida mas vida a serviço da luta: Por isso o pacifismo é conluio com o inimigo. O pacifismo é incompatível com a grandeza de objetivos. A vida é uma guerra permanente. Vive-se em permanente estado de beligerância. A situações exigem uma "solução final".

10. Elitismo e aristocracia são elementos constituintes: Este fenômeno ocorre simultaneamente com o desprezo pelos mais fracos. Não existem patrícios sem os plebeus. As massas tem a necessidade de um dominador. O poder é obtido pela imposição da força.

11. Ser herói é uma norma: O maior heroísmo, no entanto, está na morte e não na vida. A morte é a recompensa para uma vida heroica. Porém sua impaciência, geralmente, provoca a morte dos outros.

12. A transferência de sua vontade de poder para a sexualidade: Mas como o poder e o jogo do sexo são difíceis de ser jogados, refugia-se no machismo. "Seus jogos de guerra se devem a uma invidia penis permanente.

13. Indivíduos enquanto indivíduos estão destituídos de direitos: Os seres humanos se realizam apenas como "vontade comum". Isso faz com que sintam a necessidade de um líder, condutor, o seu intérprete. Apenas assumem o papel de povo. Odeiam os parlamentos. Um dos primeiros sintomas.

14. Falam a novilíngua: Os textos escolares devem ter um léxico simples e uma sintaxe elementar para jamais permitirem raciocínios críticos e complexos.

No encerramento, Eco volta às suas memórias. 27 de julho de 1943. O fascismo caíra e Mussolini fora preso. A mãe mandou-o comprar jornais. Os jornais diziam coisas diferentes e diferentes partidos políticos assinavam um manifesto conjunto. "A mensagem celebrava o fim da ditadura e o retorno à liberdade: liberdade de palavra, de imprensa, de associação política. Estas palavras "liberdade", "ditadura" - Deus meu ! - Era a primeira vez em toda a minha vida que eu as lia. Em virtude dessas novas palavras renasci como homem livre ocidental". Simplesmente maravilhoso.

Estas características tem muitas afinidades com as pesquisas de Adorno, do ano de 1950, sobre a personalidade autoritária http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/01/sociedade-sem-lei-pos-democracia.html  e as teorias individualistas desenvolvidas por Nietzsche.

Estou lendo agora - Espelho do Ocidente. O nazismo e a civilização ocidental, de Jean-Louis Vullierme, que simplesmente desanca a cultura ocidental. É dentro dela que o nazismo fez o seu ninho.
Mais ou menos de acordo com o item de número 1. Com aprofundamentos.


quinta-feira, 7 de março de 2019

COMUM. Ensaio sobre a revolução no século XXI. Pierre Dardot e Christian Laval.

Recomendado pelo livro A Nova Razão do Mundo, ensaio sobre a sociedade neoliberal, dos pesquisadores franceses Pierre Dardot e Christian Laval, cheguei ao novo livro destes autores - Comum - Ensaio sobre a Revolução no século XXI. Haja fôlego. Devo dizer, antes de tudo, que este é um livro para especialistas, recomendado especialmente para historiadores, sociólogos e, ainda mais em particular, para as pessoas que lidam com o Direito. A palavra Comum é estudada em toda a sua profundidade, ao longo da história. O livro pretende ser, essencialmente, uma alternativa real e positiva ao mundo do neoliberalismo.
Recuperar a condição de seres humanos, na superação do mero capital humano.


O livro é longo, 647 páginas, divididas em três partes, além da introdução e de um post-scriptum. E, é óbvio, uma rica relação bibliográfica. Com a finalidade de por os leitores em contato com livro, apresento os temas da introdução, dos capítulos e do post-scriptum. A introdução nos apresenta o comum como um princípio político. É extraordinária a busca pelas raízes etimológicas da palavra, "comum" ou "em comum", de Munus - dívida e dádiva. Reciprocidade. Ela nos é apresentada sob o título de: O comum, um princípio político

A primeira parte é dedicada à Arqueologia do Comum, com os seguintes capítulos: 1. O surgimento do comum; 2. A hipoteca comunista, ou o comunismo contra o comum; 3. A grande apropriação e o retorno dos "comuns"; 4. Crítica da economia política dos comuns e 5. Comum, renda e capital.

A segunda parte é dedicada ao Direito e Instituição do Comum, com estes capítulos: 6. O direito de propriedade e o inapropriável; 7. Direito do comum e "direito comum"; 8. O "direito consuetudinário da pobreza"; 9. O comum dos operários: entre costume e instituição; 10. A práxis instituinte.

A terceira parte é dedicada à Proposições políticas. São nove as propostas: 1. É preciso construir uma política do comum; 2. É preciso contrapor o direito de uso à propriedade; 3. O comum é o princípio da emancipação do trabalho; 4. É preciso instituir a empresa comum; 5. A associação deve preparar a sociedade do comum; 6. O comum deve fundamentar a democracia social; 7. Os serviços públicos devem ser instituições do comum; 8. É preciso instituir os comuns mundiais; 9. É preciso instituir uma federação dos comuns.

É impressionante a erudição dos autores. Eles parecem estar brincando com os autores que se dedicaram, tanto ao tema do comum, quanto ao seu termo oposto, qual seja, a propriedade privada. Com isso, todos os grandes temas da política, da pólis, são abordados. Desde os clássicos, passando pelo Direito Romano e germânico, pelo cristianismo primitivo, pelo medieval, pela retomada do tema na idade moderna com a instituição do capitalismo e seus construtores, com destaque para Calvino e John Locke, entre outros, bem como os seus contestadores, com destaque para Proudhon e Marx. 

O comunismo de Estado merece duras críticas, como nos mostra o título do capítulo 2, da primeira parte: "A hipoteca comunista, ou o comunismo contra o comum". O pós comunismo, porém, é o merecedor das maiores críticas com a contestação maior ao comum, pelas chamadas doutrinas neoliberais. Negri e Hardt e David Harvey são os autores mais usados nesta crítica. Enfim, volto a repetir, é um livro para especialistas e não para o leitor comum.  Não me detive na análise e viabilidade das propostas.

O livro tem a seguinte apresentação, em três parágrafos na orelha do livro: "Em Comum, Laval e Dardot respondem ao desafio de encontrar um modo eficiente de enfrentar o neoliberalismo. No livro anterior, A Nova razão do mundo, eles conceituam o neoliberalismo como uma forma de governo que suplementa a subsunção do trabalho ao capital por meio da universalização do princípio da concorrência mercantil. Não se trata, portanto, apenas de uma ideologia ou de um receituário de política econômica, mas de uma racionalidade que pretende estruturar a mentalidade e, assim, o comportamento, tanto dos governantes quanto dos governados, de dominadores e de dominados. Ela quer que todos assumam, por vontade própria, a condição de mero 'capital humano'. Na medida em que a imposição dessa forma de subordinação total ao valor que se valoriza for bem sucedida, o capitalismo conseguirá perpetuar-se.

Os autores querem mostrar, entretanto, que há alternativa ao neoliberalismo e, assim, ao capitalismo - e a base dela é o princípio político do comum. A prática social anticapitalista já tem mostrado que as lutas sociais visam e devem visar a instituição de 'comuns', isto é, à disponibilidade para as pessoas dos meios materiais necessários as suas atividades coletivas - não portanto, como propriedade privada ou como propriedade estatal. O princípio do comum radicaliza a democracia ao instituir o autogoverno das pessoas, que, assim, realizam a própria libertação, seja da dominação explícita do Estado, seja da dominação abstrata do sistema econômico vigente.

O livro Comum quer 'refundar de maneira rigorosa o conceito de comum'. Quer, assim, responder a um anseio generalizado por novas formas de vida em que mulheres e homens se realizem como humanos num mundo ecologicamente preservado. Essas formas já estão nascendo, por meio das lutas travadas pelos movimentos ambientais e sociais no mundo.  Há um caminho mau, que mantém as pessoas na alienação e desemboca no 'reino tirânico e cada vez mais absoluto do capital'. Há, porém, um caminho bom, que pode ser percorrido por uma revolução democrática e anticapitalista. É por esta última senda que os autores convidam a trilhar". Esta apresentação é de autoria de Eleutério Prado. Os autores são professores da Universidade de Paris-Ouest Nanterre-La Defense.

Remeto ainda ao livro anterior dos autores - A Nova Razão do Mundo - Ensaio sobre a sociedade neoliberal. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/02/a-nova-razao-do-mundo-ensaio-sobre.html


sábado, 2 de março de 2019

A Galinha dos ovos de ouro. Metáfora da ganância.

Em 2018 o Brasil teve um processo eleitoral totalmente atípico. As forças minimamente civilizadas perderam o terreno quase por completo.  Um cio de fera, isto é, de animal em estado de natureza, explicando ainda melhor, sem nenhum revestimento de pudor, imposto pela moral ou pela civilização, tomou conta de grande parte do empresariado brasileiro, vislumbrando ganhos imediatos. Com o tal do coiso, as relações de  trabalhado "deveriam beirar a informalidade", sem nenhuma proteção social legal. O furor deste cio fez com que, praticamente, obrigassem os funcionários a vestirem camisetas nojentas e os forçaram sob pesadas ameaças a votarem no indecente coiso.

A essa elite ralé, antiintelectualista por excelência, escravocrata e predatória por herança, dedico esta fábula, lembrando-lhes que viverão as consequências do encolhimento do mercado interno e a consequente retração de seus negócios. Certamente não lhe faltarão ovos de ouro, uma vez que estes já estão devidamente acumulados, sabe Deus a qual custo. E por falar em Deus, junto a Ele poderão aplacar as dores de suas consciências, oferecendo caridosas esmolas aos milhares de pobres e miseráveis que ajudaram a produzir fartamente. Que a consciência lhes seja pesada. E, ainda uma última observação: Estes homens ricos são os verdadeiros pobres, uma vez que eles possuem apenas o dinheiro. Não possuem o entendimento do humano e da humanidade. Falta-lhes o conhecimento. Então, para eles - segue a fábula:


Era uma vez um casal sem filhos que vivia numa pequena cidade do interior. Eles eram conhecidos por serem muito avarentos e nunca estarem satisfeitos com nada. Se estava sol, queixavam-se do calor; se estava frio e chuva queixavam-se de viver num sítio onde nem sequer podiam sair de casa... Para além do mais, eram capazes de tudo por uma moeda de ouro!

Um dia, um duende brincalhão que por ali passava ouviu o que se comentava na cidade sobre o casal, e decidiu provar se era verdade tudo aquilo que se dizia sobre eles.

Numa tarde em que o marido vinha da floresta carregado com lenha, o duende apareceu-lhe de dentro do tronco de uma árvore e disse-lhe: "Olá bom homem! Sentes-te bem? Pareces cansado e triste... Será que estás com fome ou doente?

O homem, um pouco assustado com a presença do duende, respondeu: "Não...não estou doente nem cansado, e também não tenho fome... nada de mal se passa comigo. Só estou triste porque eu e minha mulher somos pobres e não conseguimos ter muitas coisas boas como gostaríamos de ter... 

Então o duende respondeu: "Se não tens fome nem frio nem estás doente, então alegra-te porque não és pobre!" Mas o homem insistiu: "Sou sim. Um homem que não tem ouro é pobre !"

O duende riu-se e respondeu: "Olha que estás enganado. Eu se quiser posso ter todo o ouro do mundo, pois como sou duende sei onde se escondem todos os tesouros. Mas a mim o que me faz falta é a luz do dia, ter o que comer e uma casa quentinha onde possa dormir descansado. Além disso preciso de ter saúde e ser forte para poder caminhar e apreciar tudo o que me rodeia. E como tenho tudo isso sou muito rico e feliz!

"Disparate!" Disse o homem, e insistiu "Ser pobre quer dizer que não se tem ouro. E como eu não tenho ouro não posso ser feliz".

"Tenho muita pena de ti homem", disse-lhe o duende "E para que sejas feliz como achas que deves ser, vou dar-lhe uma galinha que todos os dias porá um ovo de ouro. Só terás de esperar e recolher todos os dias um ovo. Não tarda nada, terás todo o ouro que sempre desejaste ter e tu e a tua mulher serão felizes para sempre".

Do tronco onde estava o duende saiu uma galinha que cacarejava alegremente. O homem, espantado, colocou-a rapidamente debaixo do braço e desatou a correr ladeira abaixo direitinho a casa, enquanto o duende ria às gargalhadas. Assim que entrou em casa mostrou à sua esposa a galinha e contou-lhe tudo o que tinha acontecido.

Marido e mulher ficaram toda a noite à espera que a galinha pusesse o tão desejado ovo de ouro. De manhã cedo, a galinha começou a cacarejar e, pouco depois, surgiu debaixo dela um enorme e brilhante ovo de ouro!

Ao verem o ovo, o casal ficou radiante mas, minutos depois, a mulher comentou: "Que chatice... teremos de esperar até amanhã para termos outro ovo de ouro!" Ao que o marido respondeu: "Pois é...que azar. Terão de passar muitas semanas até termos ovos suficientes para sermos os mais ricos da cidade. Devia ser por isso que o duende se ria às gargalhadas quando me deu a galinha".

Então a mulher lembrou-se: "Sempre ouvi dizer que as galinhas já tem dentro delas todos os ovos que vão pôr... Se isso é verdade, porque é que não matamos agora a galinha e tiramos todos os ovos de ouro de uma vez? Seremos bem mais espertos do que o duende pensa!" 

O homem concordou, e sem hesitar, pegaram na pobre galinha e abriram-na para assim poderem tirar todos os ovos. Mas qual não foi o espanto do casal ao ver que dentro da galinha não havia nenhum ovo de ouro...Marido e mulher começaram a praguejar e a chorar, lamentando-se da sua sorte, pois por ganância tinham perdido para sempre a galinha dos ovos de ouro.

Espreitando pela janela, o duende ria-se e abanava a cabeça, pensando que a verdadeira felicidade não está em ter ou não ter ouro mas está no coração de cada um.

Também, neste mesmo sentido, recomendo, do rico folclore gaúcho a lenda da Salamanca do Jarau. Nela, o dinheiro, ou o ouro, só tinha valor quando era para atender a uma necessidade real, que não a da acumulação.