sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Princípios básicos de uma vida. Enunciados por Clara. Personagem de "Como poeira ao vento" de Leonardo Padura.

Ao ler um livro, costumo fazer páginas e páginas de anotações num caderno que sempre acompanha as minhas leituras. Isso não foi diferente com o romance Como poeira ao vento, de Leonardo Padura. Uma dessas anotações é referente a Clara, uma das protagonistas do romance. Personagem fantástica, aglutinadora e apresentada como o ímã de um clã de amigos que se formou em Havana, por jovens estudantes que se encontraram nos anos 1990, no maravilhoso bairro de El Vedado e continuaram se encontrando em Fontanar, na casa de Clara. Na resenha que fiz desse livro, eu o apresentei, como o mais cubano dos livros de Padura. Ele versa sobre a última década do século XX e as duas primeiras do XXI da história cubana, na continuidade dos ganhos e perdas de sua Revolução. Deixo a resenha.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2023/09/como-poeira-ao-vento-leonardo-padura.html

O romance apresenta a diáspora cubana, a partir dos personagens reunidos no clã, na casa de Clara, em Fontanar, bairro nas proximidades do aeroporto José Martí, de Havana. Clara é aglutinadora e extremamente generosa. Vamos procurar conhecê-la, ela e o seu pensar, um pouco mais de perto:

Como poeira ao vento. Leonardo Padura. Boitempo 2022.

"Clara não se considerava um ser político, como talvez tivesse sido Elisa (filha de um político ligado ao governo e, outra protagonista do romance), nem uma filósofa essencial, como Horácio (um físico), tampouco uma bala de um alvo preciso, como Darío (marido de Clara e que tinha por alvo o seu doutorado em neurologia em Barcelona, cidade na qual passou a viver uma vida burguesa), nem sequer uma mística como o novo Bernardo (livre do álcool e, agora, depois do novo, companheiro de Clara, que antes fora marido de Elisa). Talvez por isso a dramática complexidade da conjuntura histórica que lhes coubera por destino viver, no momento em que alcançavam sua maturidade vital e profissional, justificasse para ela todas aquelas decisões e as tornasse igualmente respeitáveis.

E, pensava, aquele devia ser o princípio básico da liberdade essencial da espécie que criara o universo social: o direito pessoal de respeitar as escolhas dos outros, a liberdade de ter voz e dizer o que se pensa (a favor ou contra), a exigência de que fossem aceitas as decisões de cada um, com um limite único e inviolável marcado pela fronteira onde a vontade de uns não se transformasse na falta de opção de outros, em que um bem individual ou social não derivasse no mal individual e social de outros. Isso era exigido pelos vetustos Dez mandamentos entregues no monte Sinai e pelo Contrato Social que regulava (ou pretendia regular) a lei do mais forte, a lei do mais poderoso e os protegia delas.

Tudo podia ser simples assim? Não, não era simples assim e pelo visto nunca seria. Porque sempre haveria outros, aqui ou ali, antes e agora, alegando que sua fé era a única verdadeira ou porque detinham o poder por causa de seu dinheiro, ou de sua força, ou de seu ódio, atacariam de uma trincheira ou de outra, de dentro ou de fora, quem não visse o mundo da mesma perspectiva. Sempre haveria os videntes encarregados de exigir que a sociedade se entendesse a partir de seu prisma ou que os demais fossem cegos, surdos, mudos. E esses supostos iluminados se dedicariam, como se dedicavam (aqui e ali, é claro), a agredir, macular, desqualificar os heterodoxos, a dividir o universo em certos e equivocados, em fiéis e traidores, em ganhadores e perdedores históricos.

Ao fim, sim, veja que coisa. Pois na verdade tudo era simples assim: ou você me segue e apoia, ou eu te ataco. Ou aceita o que eu digo, ou se condena com sua negação. Mais elementar ainda, maniqueísta, como dizia Bernardo: ou você está comigo, ou está contra mim, com a razão ou com a loucura, com o bem ou com o mal, com os tírios (cidade de Tiro) ou com os troianos. Aqui e também ali. A isso se chegara e, para os fundamentalismos dominantes entre os que estavam vivendo, os demais caminhos possíveis eram inconcebíveis, puramente inadmissíveis. Ser ou não ser: essa era a máxima que quase todos aplicavam, em todas as partes, para dominar os que constituíam o objeto de sua aplicação.

Dessa maneira inquietante, Clara o pensou e entendeu em 1996". As reflexões de Clara. Apenas para refletir. O itálico foi uma opção minha. Essas reflexões são encontradas nas páginas 325-326.

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

COMO POEIRA AO VENTO. Leonardo Padura.

Dust in the wind -All we are is dust in the wind... - Poeira ao vento/Tudo o que somos é poeira ao vento. Dessa canção nasceu o título do novo romance de Leonardo Padura, que ele concluiu em Mantilla, o seu bairro na cidade de Havana, em abril de 2020 e que iniciara dois anos antes. "Tudo o que somos é poeira ao vento". É uma definição da vida. Poeira ao vento.

Como poeira ao vento. Leonardo Padura. Boitempo. 2022.

(Clara) "remexeu a bolsa, tirou suas chaves, abriu a porta e entrou na casa em que a receberam a solidão, o silêncio e suas lembranças. Clara e seu caracol". É a frase final do romance. A casa em que ela entrou é uma casa no bairro de Fontanar, um  bairro nas proximidades do aeroporto José Martí, da cidade de Havana. Nessa casa se reuniram, a partir dos anos 1990, um grupo de jovens, amigos desde os tempos universitários e que formaram uma espécie de CLÃ. O ÍMÃ desse clã era Clara, uma das protagonistas, senão a protagonista do romance. Clara teve dois filhos, Ramsés e Marcos, que por sua vez tiveram seus filhos (netos de Clara), um nascido na França e outro nos Estados Unidos. É a diáspora cubana.

"A poeira ao vento", ou seja, a vida dos diferentes personagens que se reuniam na casa de Fontanar (há uma foto de uma dessas reuniões), é o teor do romance. Da casa de Fontanar, os personagem irão se espalhar pelos Estados Unidos (Nova York, Miami, Hialeah), Madri, Barcelona, San Juan, Buenos Aires, Toulouse, e outros recantos do mundo. Em suas vidas carregam as marcas de uma Revolução e os diplomas universitários que adquiriram no país que se esmerou em lhes dar uma formação universitária de elevadíssima qualidade, mas que lhes exigiu também muitas perdas. Para mim, a maior riqueza do romance é a construção desses personagens. As sua reflexões sobre perdas e ganhos em suas vidas. Reflexões filosóficas, profundamente existenciais.

Mas, vejamos o teor do livro, por sua contracapa: "Um encontro amoroso entre Adela, jovem nova-iorquina de ascendência cubana, e Marcos, rapaz cubano recém chegado aos Estados Unidos. O Clã: grupo de amigos que estudaram na mesma época em El Vedado, Havana, e mantiveram uma forte amizade e uma intrigante cumplicidade. Os destinos dos integrantes do Clã e a vida de Marcos e Adela se entrelaçam surpreendentemente e resultam neste novo romance de Leonardo Padura. Num enredo cheio de suspense, encontros, desencontros e reencontros, o autor acompanha a vida de cada um dos personagens, todas buscando soluções para as difíceis circunstâncias que se abateram sobre o povo cubano no fim do século XX e no início do século XXI. É a história de uma Cuba e de muitos destinos".

Na orelha, encontramos mais informações: "Uma fotografia captura o momento em que amigos aparentemente inseparáveis aparecem juntos. Estão alegres e sorriem. Parece que continuarão unidos pelo resto da vida. A partir de então, porém, tudo começa a mudar. As trajetórias pessoais, marcadas pelos tropeços da história cubana recente, se transformam em meio a despedidas, paixões, traições e reencontros. Perguntas que ficaram no ar ou sonhos que não se realizaram. Feridas que vieram com as decepções e por surpresas que encontraram no caminho. Todas, no fundo, remetendo de modo dramático e nostálgico àquela imagem.

Como poeira ao vento é um romance escrito em forma de coro. Aos poucos, vamos conhecendo cada um dos integrantes do chamado Clã. Cada amigo encarna, de certa forma, as diferentes reações humanas à diáspora cubana, numa cadeia temporal que se inicia nos anos 1990 e viaja até nossos dias.

Por meio de uma narrativa envolvente, Leonardo Padura nos leva a um país complexo, em que as coisas são muito mais que o preto e branco que a polarização política dos últimos anos nos faz crer.

Há personagens que saem da ilha, outras que nascem fora de lá, as que desejam voltar, as que retornam e não se reencontram de nenhuma maneira e as que permanecem e resistem. Ainda que sejam pessoas diferentes, todas parecem refletir parte das emoções do próprio autor.

Embora a trama nos leve também aos Estados Unidos, à Europa e à América do Sul, todos os lugares surgem desenhados pelas linhas que a citada diáspora neles contorna, assim como hoje o fenômeno da imigração vem transformando tantos cantos do mundo, consolidando-se como tema urgente.

Escritor cubano que segue vivendo na casa em que nasceu e cresceu, Padura reafirma sua posição de observador atento a cada característica do caráter cubano: a sensualidade, a música, o amor, a gastronomia, as paixões políticas.

Fazendo referência à canção "Dust in the Wind" (Kansas), o autor convida a refletir sobre a vida e a amizade. De forma incisiva, também questiona os comportamentos geracionais dos cubanos: tanto o discurso muitas vezes duplo da geração que fez a Revolução como a dos que saíram da ilha.

Uma boa história de ficção é aquela que nos faz mirar a realidade e compreendê-la em todas as suas dimensões. É justamente a esse gênero literário que pertence Como poeira ao vento". O texto da orelha é assinado por Sylvia Colombo.

Mas creio que a mais preciosa indicação nos vem do próprio escritor em - nota e agradecimentos. Vejamos o seu primeiro parágrafo: "Como poeira ao vento é um romance e deve ser lido como tal. Os acontecimentos históricos a que se faz referência no livro aconteceram na realidade, mas sua presença no romance é assumida sob a perspectiva da ficção. Muitas das conjunturas sociais invocadas também foram extraídas da realidade e da experiência pessoal e geracional, embora seu tratamento tenha sido mediatizado pelos interesses ficcionais. Os personagens e suas histórias são inspirados em indivíduos reais, às vezes em somas de várias pessoas concretas, mas suas biografias são fictícias. Em contrapartida, os lugares pelos quais se move a trama - desde o bairro havanês de Fontanar até um haras nos arredores de Tacoma, no noroeste dos Estados Unidos - são locais com existência real, e transformei-os na medida do necessário para adequá-los aos fins dramáticos do relato. A obra da imaginação foi apenas convocar todos os elementos históricos, humanos e físicos de uma época e diversos espaços, para lhes dar forma de romance. Como escritor, eu me alimento da realidade, mas não sou responsável por ela para além de meus avatares individuais e de meu comportamento civil, como cidadão e como testemunha com voz, que pretende apenas deixar um testemunho pessoal de meu tempo humano".

O romance é longo. São 542 páginas que comportam dez capítulos. Neles, de uma maneira geral, os diferentes personagens do Clã são apresentados. Dou como exemplo, o capítulo sete. A mulher que amava os cavalos. Nele é retratada Elisa ou Loreta, a mãe de Adela. Ela é veterinária e uma personagem extremamente complexa e complicada. Está sempre em fuga. Mas, como já afirmei, o ponto alto do livro é a construção dos personagens. Vejamos Adela e Marcos, os personagens que abrem o livro. Adela é filha de Loreta Fitzberg, a veterinária cubana, o seu pai, ao menos no início do romance é um psicanalista argentino, judeu, exilado na qualidade de vítima da ditadura militar argentina. E Marcos é filho de Clara, possivelmente a mais generosa e aglutinadora dos personagens e de Dario, possivelmente o personagem da mais humilde origem e que, na qualidade de neurocirurgião, título que conseguiu revalidar em Barcelona, permaneceu nesta cidade, levando uma vida burguesa e, aparentemente, sem traumas de consciência com as suas origens.

Com Leonardo Padura. Capela Santa Maria. Curitiba. Agosto - 2019.

Outro ponto forte do livro é a abordagem que o Padura faz sobre o desenraizamento dos personagens. Sobre o que significa viver no exílio. Tem personagens que simplesmente não conseguem sair do país, ou que, em todos os momentos tem o seu sentimento voltado e comprometido com as suas raízes e com o recebido pelo regime originário da Revolução cubana. Eu tive a oportunidade de assistir uma palestra do escritor, na Capela Santa Maria, aqui de Curitiba. Dizia-se sitiado de água por todos os lados e que não conseguia escrever fora de sua amada ilha. Um sentimento de cubanidade, de pertencimento. E isso está fortemente traduzido no romance. Outra coisa. Um relato sincero sobre a situação dramática que Cuba viveu na última década do século XX e nas duas primeiras do século XXI. Há perdas e ganhos. Creio que este seja o mais "cubano" dos livros do escritor.

Deixo aqui a resenha dos livros anteriores de Padura, já lidos e resenhados, começando pelo O homem que amava os cachorros.  http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/05/o-homem-que-amava-os-cachorros-leonardo.html . Continuando com Hereges. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/10/hereges-leonardo-padura.html. Com O romance da minha vida.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/11/o-romance-da-minha-vida-leonardo-padura.html. E Água por todos os lados.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/08/agua-por-todos-os-lados-leonardo-padura.html


sexta-feira, 8 de setembro de 2023

O MAL RONDA A TERRA. Um tratado sobre as insatisfações do presente. Tony Judt.

Ao ler Realismo capitalista - é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?, me lembrei de um outro livro, com o qual praticamente encerrei as minhas atividades docentes no ensino superior, no ano de 2012. Trata-se de O mal ronda a Terra - um tratado sobre as insatisfações do presente, de Tony Judt. O livro foi escrito em 2010, e já no ano seguinte, chegava ao Brasil. Antes de entrar em sua análise, deixo a resenha de Realismo capitalista. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2023/09/realismo-capitalista-mark-fisher.html

Ao reler o livro, me deparei com os agradecimentos. Eles davam o indicativo de que o autor passava por sérias dificuldades em sua vida. Isso me levou a uma consulta ao Google e à própria leitura da orelha da contracapa do livro. Neles constatei que o ano de 2010 (6 de agosto) foi também o ano de sua morte. Ele nascera em 1948. O livro equivale, praticamente, a um testamento seu, a uma despedida. Ele tem um destinatário privilegiado: os jovens. São reflexões que, fundadas no passado, implicam no futuro da humanidade. Diria que o livro é uma forte defesa da Social Democracia, também conhecida como Estado Democrático de Direito, de Estado Previdenciário ou Estado de bem-estar social. Ele vigorou no pós Segunda Guerra, especialmente na Europa Ocidental, entre os anos 1945-1975.  Ao final dos anos 1970 e início dos anos 1980 ela foi demonizada pelo neoliberalismo, pela exaltação ao livre mercado, globalizado e absolutamente desregulamentado. Seria ele o causador de o mal que ronda a Terra?

O mal ronda a terra. Tony Judt. Objetiva. 2011.

Vou iniciar este post com a orelha da capa, que dá uma ideia curta, porém precisa do teor do livro. É um parágrafo retirado do próprio livro: "Há algo profundamente errado na maneira como vivemos hoje. Ao longo de trinta anos a busca por bens materiais visando o interesse pessoal foi considerado uma virtude [...] Sabemos o preço das coisas, mas não temos ideia de seu valor. Não mais fazemos perguntas sobre uma decisão judicial ou um ato legislativo: é bom? É adequado? É correto? Ajudará a melhorar o mundo ou a sociedade? Essas costumavam ser as questões políticas, mesmo que suas respostas não fossem fáceis. Devemos mais uma vez aprender a fazê-las".

O teor da contracapa vai, mais ou menos, na mesma direção: "Há algo de errado na maneira como vivemos e pensamos o presente. Tony Judt, um dos mais importantes historiadores e pensadores da atualidade, cristaliza com maestria nosso grande desconforto coletivo.

O mal ronda a Terra oferece a linguagem de que precisamos para lidar com as necessidades comuns, rejeitando o individualismo niilista da extrema direita e o socialismo deturpado do passado. O autor argumenta que devemos olhar para nosso passado recente e mais uma vez colocar o respeito à igualdade de direitos acima da mera eficiência.  Em vez de ter uma fé cega no mercado - como fizemos nos últimos trinta anos -, temos de confrontar os males sociais e assumir responsabilidades pelo mundo em que vivemos.

Arrebatador, sensato, lúcido, humano e perspicaz, O mal ronda a terra ocupará um lugar de destaque entre os grandes textos políticos de nossa ou de qualquer outra época".

O livro tem uma frase em epígrafe, especialmente apropriada: "O mal ronda a Terra, presa de desgraças crescentes. Onde a riqueza acumula e vivem homens decadentes". Me parece óbvio, que homens decadentes sentem e espalham ao seu redor um profundo mal estar. A frase é de Oliver Goldsmith, em Aldeia abandonada, do ano de 1770.

O livro de Judt, tem seis capítulos, além de introdução e conclusão. Tudo isso está condensado ao longo de 212 páginas. Eu dou os títulos. Introdução: um guia para os perplexos; capítulo um: o modo como vivemos hoje; capítulo dois: o mundo que perdemos; capítulo três: a insuportável leveza da política; capítulo quatro: adeus a tudo isso?; capítulo cinco: o que deve ser feito?; capítulo seis: a história do futuro; conclusão: o que vive e o que morreu na social democracia. 

Na introdução, a temática do livro é apresentada. O mal que ronda a Terra, a partir dos anos 1980. O que teria provocado esse mal, ou melhor, esse mal-estar? A resposta é simples. O final dos anos 1970 e início dos anos 1980 marca o abandono dos princípios da social democracia e o início dos tempos do neoliberalismo, com o endeusamento do livre mercado e a demonização de todas as políticas centradas no Estado. Tudo isso marcado pela ascensão dos indivíduos, a diminuição das esferas do coletivo e do público e da acumulação de riquezas e do crescimento das desigualdades. Keynes perdeu o jogo para Hayek e Friedman.

No primeiro capítulo ocorre a descrição desse mundo surgido a partir desses princípios. É o tempo de Thatcher, de Reagan e de Kohl. Logo a seguir de Toni Blair - Gordon Brown - Clinton. As esquerdas capitularam. As desigualdades corroeram as instituições. A desregulamentação mostrou-se amarga e a muitos excluiu dos benefícios do progresso e dos avanços da história. A pobreza foi estigmatizada como a marca de Caim. Uma marca moral que culpabiliza os excluídos. São os próprios culpados pelos seus infortúnios. E uma nostalgia. Houve tempos diferentes. Adam Smith também teve pruridos morais.

No segundo capítulo é mostrada a recuperação do mundo após as catástrofes das guerras e dos regimes totalitários dos períodos entre guerras. Recuperou-se a crença no Estado e nas instituições. Houve forte regulamentação da economia. Esta obedecia a determinações políticas. Criou-se o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Houve até solidariedade na reconstrução do mundo. Nos países desenvolvidos os direitos fundamentais foram universalizados. No horizonte se mirava a prosperidade. Falava-se em planejamento e incentivos fiscais, indutores do desenvolvimento. Tempos de seguridade social. Foram os anos de ouro do bem-estar social. De repente, perdeu-se a fé no sistema. Seus custos eram muito elevados. A acumulação, objetivo maior do capitalismo, não se concretizava.

No terceiro capítulo, mostra-se, que com a relativa prosperidade, perdeu-se o gosto pela participação na política. Outros atores, os austríacos, pensam a política. As esquerdas sofrem os baques do socialismo real, já na década de 1950 (1956) e 1960 (1968). Cultua-se o mercado, as privatizações e a eficiência da racionalidade instrumental e concorrencial. Sacraliza-se a ideologia da meritocracia, culpabiliza-se a pobreza. Os vínculos sociais não cabem mais na economia. No mercado há ganhadores e perdedores. O mal ronda a Terra.

No quarto capítulo, a grande questão é apresentada: Dizemos adeus a tudo isso? Uma nova realidade político econômica é apresentada a partir dos fatos de 1989 e 1991, com a Queda do Muro de Berlim e da dissolução da URSS. Não há alternativas. A história chegou ao fim de seu percurso. Se não há alternativas, sobra apenas a rendição. Duas (agora já três) décadas já se passaram e os mesmos princípios continuam dominantes. Nem mesmo a crise de 2008 (o maior socorro público a bancos - grandes demais para quebrarem) estremeceu os princípios do livre e desregulamentado mercado. O "não há alternativas" comprometeu o imaginário das esquerdas. O imaginário sobreviverá? 

Se ao final do quarto capítulo já há indicativos para a necessidade de alternativas, estas passam a ser o cerne do quinto capítulo. Uma frase de Keynes abre a perspectiva de que o conformismo com a realidade tem um preço a pagar: "Em vez de usar seus recursos técnicos e materiais ampliados para erguer uma cidade admirável, os homens do século XIX construíram cortiços... que 'passaram' no teste do lucro da iniciativa privada, enquanto que uma cidade admirável seria, pensavam, um ato de delirante extravagância que acabaria por 'hipotecar nosso futuro', no imbecil jargão em voga... A mesma regra autodestrutiva de cálculo econômico governa todos os setores da vida. Destruímos a beleza do campo porque os esplendores da natureza não apropriados carecem de valor econômico. Seríamos capazes de apagar o sol e as estrelas, pois eles não pagam dividendos". Afinal, fazer o bem não foi sempre um desejo humano? É preciso imaginar alternativas.

O sexto capítulo nos mostra mais um pouco do real existente e a perspectiva diante do futuro. O que já temos? Terroristas, o medo de imigrantes em massa, o desemprego, a criminalidade. O que já paira no horizonte? Mudanças climáticas, generalização de guerras regionalizadas... No entanto, a fé nos mercados continua inabalável. "Com Clinton e Blair, o mundo atlântico estagnou de forma presunçosa".

E, o parágrafo final, já da conclusão: "Ao escrever este livro tentei oferecer alguma orientação aos que - especialmente jovens - buscam articular suas objeções a nosso modo de vida. Contudo, isso não é o bastante. Como cidadãos de uma sociedade livre, temos o dever de analisar criticamente nosso mundo. Mas, se acreditamos saber o que está errado, devemos agir a partir desse conhecimento. Os filósofos, como notoriamente já observado, até agora apenas interpretaram o mundo de várias maneiras; a questão é mudá-lo".

sábado, 2 de setembro de 2023

REALISMO CAPITALISTA. Mark Fisher. A eternização do presente e o tolher do imaginário.

Cheguei ao Realismo capitalista - é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?, do britânico Mark Fisher (1968 - 2017), por indicação de amigos. Confesso que, embora o ponto de interrogação contido no subtítulo, não fiquei tão entusiasmado com o livro. Achei o título um tanto imobilizante, mas se o é, é exatamente para sair do imobilismo. O livro é formado por uma série de textos, originariamente publicados no blog k-punk, que o autor mantinha. Assim os textos tem um formato, que não é o de um longo e tedioso ensaio. Uso o tedioso propositadamente. Ele é um dos elementos de análise contidos no livro.

Realismo capitalista. Mark Fisher. Autonomia literária. 2023. Primeira edição - 2009.

Os textos são uma reflexão sobre as novas formas adquiridas pelo capitalismo, na sua passagem do fordismo para o pós-fordismo, ou das mudanças de ordem política, com a ascensão da doutrina neoliberal e o rechaçar das doutrinas da social democracia ou do estado de bem-estar. Fisher aponta para a greve dos mineradores da Inglaterra, nos anos de 1984 e 1985 como o grande marco simbólico da afirmação do conceito de "realismo capitalista", além dos fatos históricos como a queda do Muro de Berlim (9 para 10 de novembro de 1989) e da dissolução da URSS (dezembro de 1991), e ainda o surgimento do artigo de Francis Fukuyama O fim da história e o último homem (1989).

Dois conceitos de Thatcher são fundamentais para se cravar o termo "realismo capitalista". O primeiro é o de que não há alternativas (TINA) ao sistema capitalista e o segundo, uma frase que transcrevo literalmente: "Eles estão endereçando seus problemas à sociedade. E, você sabe, essa coisa de sociedade não existe. O que existe são homens e mulheres individuais, e famílias. E nenhum governo pode fazer nada, exceto através das pessoas, e as pessoas devem cuidar primeiro de si mesmas". Está aí o conceito da responsabilização individual para o sucesso ou para o fracasso. É uma escolha sua.

Ele usa um referencial teórico daqueles que estudaram os fenômenos correlatos, como a mudança sofrida do mundo das relações do trabalho, do fordismo para o pós-fordismo, marcada pelo fim das estabilidades, substituídas pela flexibilização, terceirização e precarização. É a pós-modernidade. As análises acontecem a partir de Frederic Jameson (Pós-modernismo - a lógica cultural do capitalismo tardio - 1999) e de Deleuze e Guattari, e seus estudos sobre capitalismo e esquizofrenia. Também Richard Sennett (A corrosão do caráter - consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo - 1999) tem forte presença. Ah, a saúde! A saúde mental. A depressão é o problema mais tratado pelos sistemas de saúde. Uma consequência do "viver sempre na corda bamba". O sistema passa por uma postergação indefinida, por uma ansiedade perpétua, por uma culpa que sempre paira no ar, uma auto depreciação e um autoflagelo sem fim. A burocratização kafkiana da vida. As metas fixadas pela burocracia!

Fisher foi professor universitário. Isso lhe proporcionou muitas reflexões sobre a educação. Entre elas, a burocratização pelas plataformas. Um caminho seguro para a redução do imaginário. Elas prescindem da voz e da escrita. Eu sublinhei uma frase a esse respeito: "A escrita nunca foi o forte do capitalismo. O capitalismo é profundamente iletrado", afirmaram Deleuze e Guattari no Anti-Édipo. "A linguagem eletrônica não passa pela voz ou pela escrita: o processamento de dados se dá perfeitamente sem ambas". Pelo uso massivo das plataformas, os professores passam por um difícil processo de equilibrar-se ao lidarem com alunos e a sua subjetividade numa sociedade do pós letramento.

A edição brasileira do livro de Mark Fisher é de 2020. Ela mantém o conteúdo original do livro, que é de 2009. Além disso ele contém vários apêndices, com textos posteriores e um ilustrativo posfácio, de autoria de Victor Marques e Rodrigo Gonsalves, que traçam a trajetória intelectual de Fisher. Como os capítulos são posts de seu blog, são curtos e por isso vários. Passo a dar os títulos e quando eles não são auto explicativos eu faço uma breve ilustração: Vejamos:

1. É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Aqui é apresentado o conceito de realismo capitalista e os fatos históricos que marcaram o seu surgimento. Ele se confunde com o pós-fordismo, com o pós-moderno e com o neoliberalismo. Ele é uma construção ideológica.

2. E se você convocasse um protesto e todo mundo comparecesse. O título contém ironia. É sobre os protestos contra o capitalismo - mas que o procuram legitimar. O capitalismo é um tipo de pai avarento, hiper abstrato, que se mantém, apesar de protestos e de ações protelatórias de filantropia.

3. O capitalismo e o real. Depois de duras críticas, ele apresenta três aporias do sistema. A questão ecológica, a saúde mental como epidemia e a burocratização kafkiana da vida. E a educação é apresentada como o seu grande laboratório.

4. Impotência reflexiva, imobilização e comunismo liberal. É uma referência à impotência reflexiva, à redução do imaginário e ao empobrecimento da linguagem. Já os comunistas liberais seriam os capitalistas filantropos como Bill Gates e George Soros. Isso cria o conformismo que permite o realismo capitalista por falta de alternativas. Ah, as esquerdas!

5. 6 de outubro de 1979. Não se apegue a nada. Essa data marcaria o passagem do fordismo para o pós-fordismo. Da passagem da vida tediosa da mesmice para o da desproteção, da instabilidade e da insegurança que acompanha as terceirizações. Os tratamentos de saúde mental inerentes engordam os lucros da indústria farmacêutica.

6. Tudo que é sólido se desmancha em relações públicas: stalinismo de mercado e antiprodução burocrática. Nesse capítulo Kafka é apresentado como o profeta da burocracia, que no "realismo capitalista", já atingiu a sua fase de metástase (os professores que o digam). A burocracia stalinista foi copiada pelo "realismo capitalista".

7. "Se pudéssemos observar a sobreposição de realidades distintas": o realismo capitalista como trabalho onírico e distúrbio de memória. Aqui é apresentada a corrupção das subjetividades. As pessoas se dão à adaptabilidade. Flutuam de acordo com os interesses e não de acordo com princípios. Passam por flexibilizações. O capítulo é dedicado a Tony Blair e Gordon Brown, os reformadores do trabalhismo inglês ao neoliberalismo e, dessa forma, ao "realismo capitalista". Muito triste.

8. "Não há operadora central". Não há mais o Estado a socorrer ninguém. Tudo deve ser buscado no mercado. Todas as responsabilidades são atribuídas ao indivíduo, não à sociedade. O Estado se resumiria a militares e a policiais.

9. Supernanny marxista. A compensação da ausência dos pais pela permissão total aos filhos. Um paternalismo sem os pais. Também há aqui, a apresentação de saídas, para a superação do realismo capitalista.

Os apêndices, em número de quatro, tem os seguintes títulos; Não prestar para nada; como matar um zumbi: elaborando estratégias para o fim do neoliberalismo; Não falhar melhor: lutar para ganhar e ninguém está entediado, tudo é entediante. Chamo o atenção para o primeiro desses posts. É uma autobiografia do autor, de uma vida inteira de luta contra a depressão. Em meu caderno de notas eu escrevi: A depressão como um projeto de classe. Você é capaz de tudo, basta querer. No entanto, na vida, só tropeços e fracassos. A morte de Mark Fisher foi por uma escolha sua. 

O posfácio é simplesmente imperdível. Apresenta as quatro fases de sua vida, os conceitos fundamentais que desenvolveu e os autores que mais o influenciaram. Também apresentam as suas angústias permanentes para que o futuro não fosse abolido. Para que nossos sonhos continuassem grandiosos e para que vislumbrássemos alternativas, frutos de uma construção humana coletiva. O grande antídoto para o realismo capitalista, a sempre - consciência de classe.

Deixo os dois últimos parágrafos do posfácio: "Essa não é uma tarefa para um indivíduo (a superação do realismo capitalista): 'nenhum indivíduo pode mudar nada, nem mesmo a si mesmo'. A ideologia individualista da autoajuda é puro 'voluntarismo mágico', invocado para nublar as causas estruturais da miséria real. O desejo pelo futuro, que poderia exercer mais atração libidinal do que a 'revolta na ordem' niiliberal', precisa ainda se encarnar em um 'novo tipo de agente coletivo'. Fisher, fiel que era de um 'destino secular', via sinais de que essa recomposição já estaria em curso; uma onda ascendente de política experimental, com as pessoas comuns redescobrindo a consciência de grupo e a potência do coletivo.

De todo modo, gostemos ou não, a política está de volta. A história começou a se mover novamente. A desintegração é uma abertura perigosa, e nada está garantido - mas, como diz Fisher, 'a vitória da direita só é inevitável se nós pensarmos que é".

E, para terminar. Seria essa uma definição de realismo capitalista?: "...para mostrá-lo como realmente ele é' (o realismo capitalista): uma guerra hobbesiana de todos contra todos, um sistema de perpétua exploração e de criminalidade generalizada. No hip-hop, Reynolds escreve, 'cair na real' é confrontar o estado de natureza, onde cão come cão, onde você é vencedor ou perdedor, e onde a maioria vai perder". Página 21. Um livro imperdível.

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

VIVA O POVO BRASILEIRO. João Ubaldo Ribeiro.

Tenho com o livro Viva o povo brasileiro uma relação muito antiga. O livro foi lançado no ano de 1984 e, já em 1985, ainda morando em Umuarama, eu o adquiri, na Livraria Universitária, daquela cidade. Para a sua leitura haveria uma longa espera. Depois, já em Curitiba, acompanhei João Ubaldo Ribeiro( 1941 - Itaparica - 2014 - Rio de Janeiro), mais pelas sua crônicas na imprensa do que pelos seus livros. O meu primeiro contato com o escritor foi através do incrível  A casa dos budas ditosos, um livro sobre a luxúria, livro que lhe fora encomendado para compor uma coleção sobre o tema dos pecados capitais. Li também Sargento Getúlio.

Viva o povo brasileiro. João Ubaldo Ribeiro. Editora Nova Fronteira. 1984.

Em 2011 João Ubaldo ganhou grande evidência ao ser o homenageado da FLIP, a Feira de Livros da cidade de Paraty, no Rio de Janeiro. Antes, aqui em Curitiba, ele fora convidado para uma roda de conversa que se realizou no Teatro Paiol. Lembro até que sobrou uma meia dúzia de lugares. Já depois, em Paraty, os lugares seriam disputados, como se diz, a tapas. Um raro privilégio foi ter participado dessa fala. Lembro dessa sua fala sobre A casa dos budas ditosos e também sobre Viva o povo brasileiro, romance com o qual ele provara que também sabia escrever um romance longo. Também falou de seu rigor como professor. Até guardo uma fotografia do evento.

Também, em duas oportunidades estive na ilha de Itaparica, sua querida ilha natal, imortalizada e transformada em personagem de Viva o povo brasileiro. Quando fui pela primeira vez, fui em excursão e só passamos em frente da casa em que ele morou, sendo avisados disso pelo guia. Fui novamente a Itaparica em maio de 2022, dessa vez ficando três dias, procurando sorver a magia da ilha e beber de sua água milagrosa, na Fonte da Bica, capaz de preservar a eterna juventude, fonte há muito conhecida e utilizada, com inauguração da atual conformação em sete de janeiro de 1973, ano do sesquicentenário da independência do Brasil, data assim festejada na ilha. Quem leu ou for ler o romance, sabe o porquê de estar acentuando este sete de janeiro. Ali mesmo, na ilha, em frente à casa em que João Ubaldo morara, fiz a solene promessa de que dessa vez eu leria o livro.


A Fonte da Bica. Ilha de Itaparica.

De volta a Curitiba, tomei o livro em mãos, mas diante das 673 páginas, em letras miudinhas, eu me assustei. E mais uma vez adiei esse projeto. Só o fiz agora e me veio um grande arrependimento: "Como eu não li este livro muito antes". Um livro absolutamente necessário para quem minimamente quer conhecer um pouco do Brasil, de sua história e de seu povo maravilhoso e exclamar junto com João Ubaldo Viva o povo brasileiro.

Considero que o maior valor do livro é a visão que João Ubaldo Ribeiro tem do povo. Um povo bom mas dominado por uma elite contrária aos interesses desse mesmo povo, que ele mesmo ajudou a formar e cheio de preconceitos que eles disseminam e propagam, como se isso apontasse para qualquer tipo de solução. Outro valor extraordinário do livro é a fina ironia que perpassa o livro todo. É um fio tênue que sempre opõem os interesses, as angústias e as infelicidades da elites e a alegria e a esperança, apesar de tudo, de nosso povo. 

Mas qual é a essência desse livro? A essência é a nossa própria história, o nosso próprio povo e as suas raízes históricas e as suas tradições que ele procura, a todo custo, preservar. São trezentos anos de história, a partir da ilha de Itaparica, da cidade de Salvador, da Baía de Todos os Santos e do Recôncavo Baiano. É a história da escravidão no Recôncavo, que para além da lavoura canavieira e do fumo, tem também na caça à baleia um de seus esteios econômicos. A partir de Itaparica se conta a história do Brasil: a partir da invasão holandesa e de sua expulsão, as lutas pela independência, com as datas de sete de janeiro (Itaparica), e dois de julho (Salvador), da Guerra do Paraguai (com a intervenção de vários orixás em favor dos voluntários da pátria da ilha), da abolição da escravatura, que não trouxe a liberdade ao povo escravizado, da Proclamação da República, do trucidar do povo do sertão pelo exército da República, até chegar à Revolução de 1964, que salvou o Brasil do comunismo, feito heroico, mesmo com todos os sofrimentos impostos à classe trabalhadora.

Os  principais personagens são o Barão de Pirapuama, o seu 'honesto' contador Amleto, que lhe surrupiou quase toda a fortuna, seus descendentes, com destaque para Bonifácio Odulfo, que formarão a elite e Leléu, Vevé e Maria da Fé, a raiz desse mesmo povo, unido em seus ideais, tradições e irmandades. Amleto Ferreira deixou vasta descendência e fortuna. Um de seus filhos, Patrício Macário, de tantos desgostos que lhe deu, foi encaminhado para o exército, à espera de correção em seu modo de vida. Ele se transforma num dos grandes personagens do livro, com o seu destino não seguindo os rumos desejados. Ele sofre as transformações de um grande amor, que o fez buscar o "espírito do homem". Em suma, são tantos personagens, tão ricos e diferentes, que efetivamente deram a possibilidade para João Ubaldo escrever o seu longo romance. E o exército brasileiro! Sempre lutando contra o seu próprio povo! E as instituições...!

Da minha parte, eu selecionei duas passagens que me falaram alto. A primeira é a visão de Maria da Fé. Ela é descendente direta do barão, fruto de um estupro dele contra a sua mãe e que, mais tarde, morreu assassinada por jovens inconsequentes, sem nada poder fazer em sua defesa. Maria da Fé, assim vê a abolição da escravidão. Ela ensina ao povo a ter amor próprio:

"Veio a libertação dos escravos, ela pregou que aquilo não libertava escravo nenhum e que o povo nada podia esperar que fosse dado de cima e, se deram essa tal liberdade aos cativos, era porque interessava a eles e boa coisa não era para o povo. Veio a República e ela pregou que tanto fazia como tanto fez, que nem rei nem presidente estava pensando no povo e podiam esperar até vida pior. Como de fato foi o que se viu depois, a seca piorando, as terras sendo tomadas dos pobres, a escravidão pior do que antes, o coronel mandando mais que o Imperador de Roma, o povo de cabeça baixa, os despossuídos cada vez mais despossuídos e os possuídos cada vez mais possuídos, por isso se dizendo que a República trouxe a lei do Cão". E Maria da Fé foi pregar no sertão... (Páginas 519-520).

Outra passagem é a de uma carta do monsenhor Clemente André, filho de Bonifácio Odulfo, toda marcada de pessimismo: "A abolição, como eu temia, revelou-se um grande mal. Não estavam, como não estão, os negros, preparados para a liberdade. Obtusos, broncos, analfabetos, pouco asseados, viciados mesmo, agora exercem, livremente, sua influência deletéria e corruptora, sobre os costumes e a raça. Não procede a alegação de que são vagabundos e vadios, porque não há trabalho. Trabalho há, sempre houve, para quem quer e, para quem não quer, por indolência e fraqueza de caráter, nunca há. Mas não se tomam, por incrível que pareça, medidas para conter, eficazmente, essa vadiagem. Quando despertarem, os governantes, será tarde demais, para delir tal chaga social e moral, que ameaça fazer desabar tudo o que se vem tentando, laboriosamente, construir, ao longo dos séculos de dedicação e sofrimento. Vivemos uma crise de autoridade, uma crise de comando, uma crise de valores, uma crise mortal, da mais profunda gravidade e não nos damos conta dela, não fazemos nada, para debelá-la. O sentimento religioso vai esboroando-se..." (Página 536). Ah, as instituições! A Igreja!

Deixo ainda, uma parte do parágrafo final do livro, que aponta para a esperança: "O (vento) sudeste bateu, juntou as nuvens, começou a chover em bagas grossas e ritmadas, todos os que ainda estavam acordados levantaram-se para fechar suas janelas e aparar a água que viria das calhas. Ninguém olhou para cima e assim ninguém viu, no meio do temporal, o Espírito do Homem, erradio mas cheio de esperança, vagando sobre as águas sem luz da grande baía". Isso se passou no dia em que Patrício Macário, general do exército brasileiro, morreu na ilha, no dia da celebração de seu aniversário em que completou cem anos. Um general raro, porque, ao lado do povo brasileiro.

Deixo ainda as orelhas do livro, para uma melhor identificação do mesmo, no sentido de provocar para o desejo de sua leitura. 

"Ao contrário da impressão que o título pode causar à primeira vista, Viva o povo brasileiro não é uma espécie de saga da nação brasileira, nem uma tentativa de construir uma 'história secreta', em contraposição à 'história oficial'. Este extraordinário romance, seguramente destinado a deixar sua marca em nossa literatura, é antes a história - história exuberante, encantada, cheia de vida - de uma busca de identidade que talvez até hoje ainda escape, em sua inteireza, à consciência do povo brasileiro, tão agredido em suas raízes culturais. É também, de certa forma, uma história do surgimento dessa consciência e de sua luta por afirmação.

Para desfiar sua narrativa, que abrange mais de três séculos, o autor se valeu de um recurso ao mesmo tempo metafórico e explícito. Metafórico porque o povo do Recôncavo Baiano, principal personagem do romance, pode ser visto como metáfora do povo brasileiro em geral. Explícito porque com isso se evidencia para o leitor um dos mais belos 'motivos' deste romance: a visão do sentimento de identidade entre os brasileiros, mesmo entre os que só sabem da existência de seus irmãos distantes de uma maneira vaga e nebulosa, toldada pelo desconhecimento e pela ignorância.

Transcendendo em muito o universo narrativo escolhido (que terminou por gerar um tratamento do tempo ficcional de grande originalidade, embora enganosamente simples), Viva o povo brasileiro, pelo seu brilho técnico, seu prodigioso cabedal de informações sobre a vida e a cultura do povo, seu apuro de linguagem, sua altíssima qualidade literária, enfim, credencia-se como um acontecimento de primeira linha no panorama da literatura brasileira contemporânea. Senhor de carpintaria literária como poucos, de rara competência de utilização de um acervo de recursos narrativos aparentemente inesgotável, dono de uma sensibilidade apaixonada e ao mesmo tempo satírica, João Ubaldo Ribeiro é hoje reconhecido como um dos escritores mais significativos da América Latina, com traduções em mais de dez idiomas, em todo o mundo. [...] Neste romance inesquecível, ele proporciona ao leitor uma experiência enriquecedora, um mergulho num Brasil que é 'o nosso', o de todos, o Brasil do nosso inconsciente coletivo, mitológico, misterioso, vibrante, escondido - atraente porque distante e, ao mesmo tempo, fascinantemente próximo".

Com João Ubaldo Ribeiro. Teatro Paiol. Curitiba. 2011.

Quero fazer ainda uma última observação. A leitura de Viva o povo brasileiro equivale a uma síntese de quase todos os ensaios produzidos sobre a formação do povo brasileiro, de sua identidade e cultura, das  visões pessimistas e otimistas, preconceituosas ou não, que a intelectualidade desse país produziu.



quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Discurso sobre o colonialismo. Aimé Césaire.

Ao ler Os condenados da terra, de Frantz Fanon, escrito no ano de 1961, me lembrei de um outro livro em que o mesmo tema do colonialismo e do racismo também é diretamente abordado. Trata-se de Discurso sobre o colonialismo, de Aimé Césaire. Além do tema comum, eles também tem em comum o fato de ambos terem nascido em Martinica, um conjunto de pequenas ilhas do Caribe francês. O livro de Césaire é anterior ao de Fanon. Ele é datado do ano de 1950, ainda sob o calor do pós Segunda Guerra Mundial. Deixo a resenha de Os condenados da terra. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2023/03/os-condenados-da-terra-frantz-fanon.html

A edição do Discurso sobre o colonialismo que tenho em mãos é da Letras Contemporâneas (2010), com tradução de Anísio Garcez Homem e apresentação de Cláudio Antônio Ribeiro, dois aguerridos militantes da resistência da esquerda em Curitiba. O livrinho me chegou às mãos por meio de uma querida aluna minha, a Viviane, do curso de jornalismo. Aproveitei o momento para fazer a devida releitura. O tratei como livrinho pelo seu tamanho, que com a apresentação, chega ao total de 85 paginas. Trata-se de um discurso.

Discurso sobre o colonialismo. Aimé Césaire. Letras Contemporâneas. 2010.

Cláudio Ribeiro, em sua apresentação, nos lembra um pouco a história do Haiti, que segundo Eduardo Galeano, teria cometido "o delito da dignidade", quando os negros escravizados proclamaram a sua independência no ano de 1803, uma independência primeira. Essa ousadia lhes teria trazido uma certa "maldição histórica", como eu li numa crônica de Luis Fernando Veríssimo, por ocasião do terremoto de 2010. Cláudio Ribeiro destaca que o livro de Césaire "nos acorda para o fato de que não passa de um velho truque ideológico desumanizar os povos a quem o imperialismo quer saquear as riquezas, tornando-os bestas-feras para melhor justificar a violência e o genocídio".

O pequeno livro tem seis capítulos, ou seis abordagens. No primeiro, das páginas 15 a 19, a abordagem foca os duzentos anos da burguesia europeia, e os classifica como decadentes, feridos e moribundos. E como justificativa apresenta-se sob a forma de hipocrisia e desfaçatez, afirmando que neles, o cristianismo representa a civilização e o paganismo a selvageria. Afirma ainda que o intercâmbio entre os povos é bom, mas nunca ele pode ser realizado pelo colonialismo, no qual nada, simplesmente nada há de positivo.

 o segundo tópico é um pouco mais longo e ocupa as páginas 19 a 36. Nele Césaire faz a listagem das virtudes do colonialismo, como o embrutecimento do colonizador e a assimilação dos valores como a cobiça e o instilar de uma gangrena putrefata da regressão moral, além da prática da tortura. Em suma, foi o responsável por todos os males, que tiveram a sua culminância na figura trágica de Hitler, o seu resultado final. Logo, logo o perdoaram e esqueceram, recomeçando tudo de novo. Não trouxe a prometida igualdade mas a dominação, acompanhada de saques e de destruição. Afirmaram a superioridade racial, o racismo e o trabalho forçado. Instituíram um odioso racismo e mantiveram a velha desigualdade.

No terceiro tópico, da página 36 a 46, é apresentado o mundo após Hitler e monstros semelhantes. Eles se apresentam como burgueses honestos e afirmam que a superioridade racial quando não é cultivada, ela desaparece. A escravização para eles é comparável a doma de um animal selvagem. O racismo é cultivado e cultuado. 

O quarto tópico, mais uma vez, é um pouco mais longo. Nele são apresentados os ideólogos do colonialismo, os seus justificadores. Entre eles estão Mannoni, o psicólogo que apresenta o colonizado sob a necessidade da dependência, o geógrafo Gourou, com a geografia da maldição dos países tropicais e o cristão missionário belga Tempel, que apresenta uma inferioridade ontológica dos povos colonizados, isto é, não europeus. Apresenta a França dos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial como o vômito de Hitler.

O quinto tópico, das páginas 64 a 78, é basicamente destinado a Roger Caillois (1913-1978). Para ele toda a história, antropologia, invenções e todo o progresso é branco. Os demais povos em nada contribuíram para o progresso da humanidade. Apresenta ainda o conceito de governar o mundo como um pesado fardo que os brancos precisam suportar, numa tarefa altamente humanística. É um fardo que acrescenta muitas responsabilidades. A igualdade se apresenta apenas como um direito abstrato e nunca como um fato.

Finalmente, no sexto tópico, das páginas 79 a 85, apresenta o seu conceito final. O perigo das nacionalidades. Tudo não passa de uma repetição da história, da forma como foi construído o Império Romano, num rastro de destruição de tudo o que é diferente e diverso. E apresenta a nova nação colonizadora, o grande perigo do futuro da humanidade sob a dominação dos Estados Unidos.  

Em suma, um libelo condenatório da civilização europeia, ou ocidental e de seus grandes males, que ele jamais conseguiu debilitar, como apontou Cláudio Ribeiro na introdução: "o problema do proletariado e o problema colonial". E por falar no Haiti, coube ao Brasil comandar nesse país uma "missão de paz". Os seus "missionários da paz" se tornaram depois nos grandes auxiliares do desastroso governo Bolsonaro. Que missão salvacionista foi essa?!

Se eu estabeleci uma relação entre o Discurso sobre o colonialismo com o livro de Franz Fanon Os condenados da terra, por suas temáticas semelhantes, Cláudio Ribeiro estabeleceu uma relação do Discurso com o J'Accuse de Émile Zolá, pela importância da repercussão histórica desses documentos.  




segunda-feira, 7 de agosto de 2023

GRANDES ESPERANÇAS. CHARLES DICKENS.

Do Facebook: Mais ou menos assim: Em matéria de ciência sempre leia os livros mais novos, os mais atualizados. Em matéria de romances, de literatura, leia os mais antigos. Nem é preciso retroceder até Homero para conferir essa verdade. Estou escrevendo isso para dizer que eu li Grandes esperanças, de Charles Dickens. O livro foi escrito entre os anos de 1860-1861. O grande escritor britânico nasceu em 1812 e morreu em 1870. Ao término da leitura me sobrou uma exclamação: Que pena que a leitura terminou!. Em literatura, recorra aos mais antigos!

Grandes esperanças. Charles Dickens. Penguin & Companhia das Letras. 2022.
 

A minha edição do livro é da Penguin & Companhia das Letras, da coleção clássicos, com tradução de Paulo Henriques Britto, décima impressão, de 2022. O livro tem uma bela introdução, a cargo de David Trotter, além de uma nota sobre o texto, em que é mostrada a forma de sua publicação. Ele foi publicado por trechos semanais na revista All the Year Round, entre os anos de 1860 e 1861. Eu consigo imaginar a expectativa dos leitores em torno da ansiedade da espera do próximo capítulo. Eu tive uma experiência dessas com a minha mãe, nos anos 1950. Em Porto Alegre, naquele tempo circulava um jornal, com o título - A Nação -, basicamente destinado às colônias alemãs do Rio Grande do Sul. Ele publicava romances, nessa modalidade de folhetins. A próxima edição sempre era esperada com muita ansiedade e eu tinha que lê-la para a minha mãe. Este foi, inclusive, o meu primeiro contato com as letras e a alfabetização.

Mas deixando o saudosismo de lado, vamos para  As grandes esperanças. O que seriam essas grandes esperanças? E aí mais uma vez me volta o saudosismo, lembrando das minhas aulas de filosofia com o inesquecível professor Dom Antônio Cheuiche, na época, o simples frei Antônio. Ele dizia que o século XIX era o século das grandes esperanças, movidas pela ideia do progresso indefinido, motivado pelo avanço das ciências e pela capacidade de entendimento entre os humanos, com o fim do absolutismo político trazido pelo Iluminismo. Os conflitos seriam negociados pela mediação da racionalidade. O futuro seria determinado pelo progresso e pela paz. Tudo isso desmoronou já na segunda década do século XX, com a irrupção da Primeira Guerra Mundial e o que se seguiu.

Uma observação semelhante me levou à compra e à leitura do livro. Li, em algum lugar, que Charles Dickens era um cronista de sua época, colocando em sua obra os grandes temas e problemas da época do avanço da industrialização no Reino Unido. Tempos de progresso da Revolução Industrial e de problemas com a industrialização e a urbanização caótica. Do autor já tinha lido Um conto de natal, um clássico em que aparece Scrooge, personagem que inspirou o surgimento do famoso Tio Patinhas. Dele também tenho, mas ainda não li, As aventuras do Sr. Pickwick (1837), mas as letrinhas minúsculas da coleção - Os Imortais da Literatura Universal, ainda não me deram ânimo para a sua leitura. Mas vamos à obra, a sua grande obra derradeira.

O menino PIP é o grande personagem da obra. Sem pretender dar um spoiler, recorro a David Trotter, o autor da introdução da presente edição do livro, para um primeiro contato com a obra. Vejamos: "A característica mais imediata de Grandes esperanças é ser uma história de redenção moral. O protagonista, um órfão criado num lar humilde, nas primeiras décadas do século XIX, herda uma fortuna, e imediatamente rejeita os familiares e os amigos. Quando a fortuna perde o brilho, e depois desaparece por completo, ele é obrigado a assumir sua própria ingratidão, e aprende a amar o homem que o elevou e também o destruiu. A história é narrada pelo próprio protagonista..." Joe Gargery, e a irmã de PIP, a sra. Joe Gargery, além de Biddy são as personagens desse bloco da narrativa. Depois, o viver em Londres, entra em cena. Os personagens são múltiplos. Os movimentos da consciência de PIP se constituem no fundamental da obra. Um drama profundamente humano.

Nas palavras de Trotter, os grandes temas da obra são apresentados: "Questões de peso permeiam todo o romance, de todos os lados, deixando marcas em cada detalhe de descrição, cada lance da narrativa. À medida que vamos lendo, acompanhamos por dentro, por assim dizer, as formas que elas moldaram por fora. Tudo aquilo que o romance tem a dizer sobre a bondade (Joe e Biddy), sobre a culpa e o desejo (Pip), sobre a natureza do capitalismo (questões ligadas à herança..., a falsidade e a reverência ao dinheiro) e nenhuma dessas questões poderia ser deixada de lado numa introdução ao livro - ele o faz pela maneira como mede a pressão de cada uma e como lhes distribui os pesos". Swinburne, citado por Trotter, assim definiu o livro: "Os defeitos são quase tão imperceptíveis quanto manchas no sol ou sombras num mar ensolarado", passagem várias vezes presente no livro. Os entre parênteses são acréscimos meus.

O volumoso livro é dividido em três volumes. O primeiro com 19 capítulos; o segundo com 20 e o terceiro, também com vinte capítulos. O total de páginas é de 702. Ao final de sua leitura, um grande lamento: Que pena que terminou! Quero ainda ressaltar, em acordo com o autor da introdução, a presença da culpa na consciência de Pip, o menino querido, protagonista de todo o romance. Sem dúvida um grandioso tema - profundamente humano, que recebe sempre um merecido castigo.

Deixo ainda a contracapa do livro: "Considerado por muitos críticos o principal romance de Charles John Huffman Dickens (1812-1870) Grandes esperanças conta a história de Pip, um órfão de família humilde que ao receber uma herança renega o passado e muda-se para Londres para tentar inserir-se na alta sociedade. Saudado por autores como Bernard Shaw e G.K. Chesterton pela perfeição narrativa, este romance discute, na figura do protagonista, a imoralidade, a culpa, o desejo e a desilusão.

Esta edição traz o final considerado definitivo, escolhido por Dickens após ceder às críticas de que o primeiro era triste demais, e também um apêndice com o original, preferido por parte dos leitores (691-692).

A introdução de David Trotter, especialista em literatura britânica do século XIX, contextualiza o livro em sua época, revelando as ideias de reforma social defendidas pelo autor". Antes de terminar, uma questão sobre Grandes esperanças. Quais seriam elas? Um vida no fausto da riqueza mas de falsidades ou a vida simples mas autêntica vivida entre as pessoas simples e pobres. Um grande romance. Leitura atualíssima.

Adendo: Em 15.06.2026. De - Como e por que ler - Harold Bloom (Objetiva - 2010). "Como ler Grandes esperanças? Com os recursos mais profundos de nossos próprios medos, afetos e expectativas, como se pudéssemos voltar a ser criança. Dickens a tanto nos convida, e a tanto nos possibilita; talvez seja o seu maior talento. Grandes esperanças não nos conduz ao Sublime, como o fazem Shakespeare e Cervantes. A história pretende fazer-nos retornar às origens, por mais doridas e culpáveis que sejam. O apelo feito pelo romance à nossa infantil necessidade de amar, ao resgate do eu, é quase irresistível. O porquê da leitura é, portanto, evidente: voltar para casa e curar a dor" (Página 159).



sexta-feira, 21 de julho de 2023

Água funda. Ruth Guimarães. Vestibular 2024. UFRGS.

Na retomada das leituras sugeridas para vestibular chegou a vez de Água funda, da escritora paulista, a primeira mulher negra a ingressar na Academia Paulista de Letras, Ruth Guimarães. A sugestão partiu da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O romance regional tem como cenário as fazendas do Vale do rio Paraíba, entre os estados de São Paulo e de Minas Gerais. O ano de publicação foi o de 1946, pela editora Globo, de Porto Alegre. A maior riqueza do livro é a sua linguagem, uma espécie de prosa poética, dando voz ao povo simples e humilde daquele tempo e daquela região. Isso ela conhecia muito bem.

Água funda. Ruth Guimarães.  Editora 34. 2023.

Ruth Guimarães nasceu em Cachoeira Paulista, mas desde cedo andou por cidades da região do Vale do Paraíba, e também por cidades de Minas Gerais, situadas nas proximidades. Em São Paulo fez a maior parte de seus estudos, passando pela sua grande universidade. A fortuna não a acompanhou. Trabalhou para se sustentar, bem como a dois irmãozinhos menores. Numa entrevista contou que sua avó era contadora de histórias. Dela certamente herdou a arte. Se ela não teve fortuna, muito menos os seus personagens da Água funda. Eles tinham dificuldades de entender as amarguras que a vida lhes reservava. Tudo era culpa do destino. Não havia valentia que com ele pudesse.

A edição que tenho em mãos é da Editora 34. É caprichada. Tem prefácio de Antônio Cândido. Aliás, dois. O oficial data de 2003. Nele ele faz referência às notas que escrevera para a edição de 1946, que ele perdera. A editora as recupera e as põem ao final do livro. Uma preciosidade. Trata-se de Antônio Cândido, o de Os parceiros do Rio Bonito. Também tem outras críticas e trechos de entrevistas por ela concedidas. São de Brito Broca, Álvaro Lins e Nelson Vainer. De Antônio Cândido, de sua versão de 1946, tomo a apresentação do livro:

"A melhor qualidade do romance de estreia da sra. Ruth Guimarães, Água funda, é o tom pessoal. Num momento em que as nossas ficcionistas não resistem ao fascínio do livro de sucesso, à costumeira história neorrealista e sentimental, a jovem escritora ouviu apenas a sua vocação e, sem preocupar-se com moda ou tendências do público, escreveu uma obra que percebemos impulsionada por nítida exigência interior. Água funda, graças a esta impressão, refresca agradavelmente a nossa sensibilidade e revela uma escritora que poderá atingir um nível literário de primeira ordem. [...]

A sra. Ruth Guimarães conta duas histórias, saborosamente entremeadas de pequenos casos e embelezadas por um rico acervo de comparações sertanejas: a história dos fazendeiros primitivos dos Olhos D'Água e a história de Joca, caboclo que vive na mesma fazenda, meio século depois". Conta-nos a aventura amorosa de Dona Carolina com o moço de outra fazenda, posto para fora dela pelo proprietário, o seu pai. A história de Joca se complementa com a de Curiango. O destino lhes apronta das suas. Histórias de dor e de sofrimento.

A história da fazenda Água funda remonta aos tempos da escravidão. Ruim como só ela era a Dona Carolina. Mas a ruindade não acabara com a escravidão. Nem com a modernização e a mecanização. Até levavam gente para outras terras, sob um milhão de promessas, para voltarem sem absolutamente nada. Da vida tinham pouca compreensão. Crendices e superstições lhes davam direção. Por elas conseguem a sublimação. Das orelhas do livro, tomo ainda três parágrafos:

"Inspirado no pensamento caipira, cujo cerne é o medo, a autora formula não só o tema, mas o próprio estilo literário de Água funda. Há uma literatura residual, fragmentária e arcaica no misticismo popular e nos causos que o expressam. Mário de Andrade, amigo de Ruth, foi um dos garimpeiros dessas permanências inspiradoras do saber rústico.

Ela não se ateve aos arcaísmos da fala e do pensamento. Desvendou neles o mistério e as metamorfoses, a permanência do que se acaba, a poderosa Sinhá Carolina, enganada e desaparecida, retorna caduca e mendiga. A fazenda escravista se torna empresa em mãos alheias, transfigura todos que a tocam, é o instrumento da praga, da maldição que a todos suga para dentro do círculo dos andantes, os condenados a uma busca sem fim.

A peculiar ordenação do tempo do pensar e do narrar fazem desse livro de Ruth Guimarães, de 1946, uma obra tão original quanto Sagarana, de Guimarães Rosa, do mesmo ano. Além do que, Água funda é obra precursora e antecipadora do realismo fantástico latino-americano de autores como Manuel Scorza, Gabriel García Márquez, Juan Rulfo". Deixo ainda a parte final da obra:

"Pois essa praga caiu. Veja: o Bugre morreu de morte feia. Esse desconfio que não foi por causa de praga, pois não devia nada. Seu Pedro é que vive dizendo que aquela cobra foi mandada. 'Era um urutu preto, que nem um pecado. Pra mim foi mandada. Pois cobra mordeu o homem tanta vez e não aconteceu nada, como é que daquela ele foi'? O Santana morreu matado. O Antônio Olímpio matou a mulher e foi parar na cadeia. Aquele morre lá. O Pais encrencou com o patrão e foi embora com u'a mão adiante, outra atrás. Luís Rosa bebe de cair. Anda andando por essas estradas, com uns olhinhos de piaco-piaco. Com o Bebiano aconteceu o que aconteceu, no desastre da usina. Um dia está aqui, outro dia não se sabe dele. Aquele sossega só com a morte. Assim mesmo, não sei. Até em Curiango a praga acertou, de ricochete. Enquanto o pai foi vivo, foi um cabresto para ela, mas depois que morreu... Não pode contar com o marido e não é mulher pra ficar sozinha. É moça demais e é bonita demais. Tudo no diacho dessa mulher faz a gente lembrar de correnteza. Tem o andar bamboleado e macio de veio d'água. Tem uma risada de passarinho nascido perto de cachoeira. E o lustro daqueles olhos pretos é ver lustro de jabuticaba bem madura, molhada de chuva.

Agora que fechou a volta, a praga pode subir a serra, atrás de quem a rogou. A troco de que tudo isso aconteceu, não sei. E é um pecado. Curiango estar pagando o que não fez. Ê mundo errado!..

Bom. Não sei não. Não sei... Deus sabe o que faz, e a gente não sabe o que diz.

Cala-te, boca!

Se aconteceu, é porque era bom que acontecesse".

Ruth Guimarães nasceu no ano de 1920 e morreu em 2014, nascimento e morte na cidade de Cachoeira Paulista. Ingressou na Academia Paulista de Letras, em 2010. Que tempos!

terça-feira, 18 de julho de 2023

LISÍSTRATA. A greve do sexo. Aristófanes. Vestibular 2024 - UFRGS.

Retomei nesta semana a leitura de obras indicadas para vestibular. São sempre grandes indicações. Não é por acaso que um livro é indicado para tal. Recomecei com uma peça de fino humor, uma comédia. Trata-se de Lisístrata - A greve do sexo, de Aristófanes. A comédia data do ano de 411 a.C.. A comédia não tinha a mesma posição das tragédias, mas também contava com financiamentos públicos para a sua produção. Participavam também de competições. Lisístrata é uma indicação para o vestibular - 2024 - da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Lisístrata - a greve do sexo. Aristófanes. L&PM 2023. Tradução: Millôr Fernandes.

Lisístrata chama mais a atenção pelo seu subtítulo - A greve do sexo. Lisístrata é o nome da mulher que organizou e liderou esta famosa greve e o motivo pareceu muito mais do que justo. A Grécia, depois de derrotar os persas nas chamadas Guerras Médicas, travou inúmeras lutas entre as próprias cidades gregas, as chamadas guerras do Peloponeso (431 a 404 a.C.). A participação dos maridos nessas guerras os afastava de seus lares e, em consequência, também de suas esposas, estando elas em plena fase de desejos. E, quais eram os motivos para essas guerras? Enriquecerem pelos saques e pilhagens das riquezas das cidades vizinhas. Era demais!

Aristófanes, tudo faz constar, tinha refinada educação filosófica e musical. A produção de uma peça exigia de seu autor ser também o seu produtor, responsável também pela parte musical. Ele tinha que cuidar de tudo. Também vemos Aristófanes participar de O Banquete de Platão. Em seu discurso busca explicar as origens do amor, mas não deixa de mostrar também a sua profunda ironia com relação à sexualidade, ou à masculinidade dos políticos atenienses - "desinteressados pela família e voltados exclusivamente para as relações com os jovens" -, como lemos na introdução de O Banquete, escrita por J. Cavalcante de Souza, da editora DIFEL. Está aí, o tema, ou melhor, o motivo da greve. "Desinteressados pela família".

As protagonistas da peça são as mulheres das diferentes cidades gregas: Lisístrata, Cleonice, Mirrina e Lampito. Também participam um coro de velhos e de mulheres, soldados, marido e comissário. A força da peça está nos diálogos provocantes, refinados de ironia e sarcasmo e também fortes conotações de refinado erotismo. As mulheres, antes do ato da greve e usando de seus atributos de sedução, deixavam os maridos em total estado de pane, à beira de incontidas explosões. Resta dizer que as mulheres serão as vencedoras, a greve é bem sucedida e tem um final feliz. A tão desejada paz.

A peça termina numa grande confraternização. Vejamos o encerramento da comédia, num convite à festa, por um espartano e uma admoestação final de Lisístrata: " Venham todos depressa que a dança é bela, a música contagia, nossas donzelas são lírios a serem colhidos pelas mãos mais hábeis. Nossas mulheres estão lindas. Nunca foram tão lindas! Batem no chão com os pés velozes, lançam ao vento as longas cabeleiras; e as bacantes ondeiam o corpo sensual, em louca tentação, estimuladas pelo Deus do Vinho. Evoé! Evoé! Venham todos dançar e cantar em honra da vitória da mulher!"

Lisístrata: "E agora, basta! partam todos que eu também tenho direito ao meu descanso (risos, alegres, palmas, concordância). A comemoração pública terminou. Que cada um, agora, aproveite bem o seu prazer particular. Cada homem recolhe sua mulher e volta para casa. Mas atenção: os espartanos, as suas, os atenienses, as deles. Cada um deve se contentar com o que tem. Que ninguém se engane de propósito, trocando sua mulher por outra melhor, pois isso pode começar uma nova guerra".

Quanta atualidade está contida nessa comédia de 411  anos a. C.. O tema do machismo, proeminência masculina nos debates públicos, mulher e finalidades de procriação e afazeres domésticos, a ganância humana, desejos de riqueza fácil pela pilhagem das riquezas dos outros, a busca pela paz e a aversão à guerra, ainda mais quando se trata de uma guerra entre cidades de um mesmo país. Uma outra coisa também não passa despercebida. Eles não eram tão moralistas como os moralistas de hoje. As hipocrisias do tempo presente. Não é por nada que uma das grandes características dos conservadores extremistas (fascistas) é a sua preocupação com o comportamento sexual dos outros.

O livro que eu li é da L&PM Pocket (2023). A tradução é de Millôr Fernandes. Ao final existe uma nota - sobre a peça. Na parte final lemos o seguinte: "Em meio a tal panorama de perigo iminente e de surda guerra civil foi encenada Lisístrata. Neste libelo pacifista, pró união dos estados gregos, as mulheres - que na vida real sequer eram consideradas cidadãs atenienses - reúnem-se, deliberam sobre o futuro de sua sociedade e dos seus, ameaçado pela guerra, e tomam uma atitude drástica. O caráter satírico dos gêneros cômicos facilitava com que se invertessem os costumes e fossem colocadas em cena mulheres com papéis importantes (o que também acontece com outras peças do autor). A obra de Aristófanes é recheada de recursos cênicos satíricos, por vezes absurdos e burlescos, e o tom obsceno do enredo - como as megaereções dos maridos das grevistas - provém, em parte, das origens mágicas e ritualísticas do teatro e das relações deste com os cultos pagãos e humanistas à fecundidade e à fertilidade.

Embora fizessem parte do caráter carnavalesco das comédias os mais diversos disparos contra as instituições e os cidadãos ilustres, Aristófanes usa e abusa de acusações e referências críticas a políticos, administradores da época e demais cidadãos (depois da encenação de Os babilônios, chegou a sofrer um processo judiciário devido aos ataques contidos na peça). A despeito do tom cômico, em Lisístrata - assim como nas outras obras do comediógrafo - há seriedade no trato de alguns sentimentos: o amor pela paz, a nostalgia pelos primórdios da democracia ateniense, ataques aos sofistas e aos seus novos princípios educativos, a ode ao campo e a denúncia dos perigos da cidade, local de perdição e corrupção.

Aclamado pelo público e desprezado pelos eruditos, mesmo assim o gênero da comédia antiga se desenvolveu e sua chama perdura até hoje, nas incontáveis formas cômicas que são suas herdeiras. Mas daquela comédia dramática antiga, que tanto sucesso obtinha, apenas peças de Aristófanes chegaram até nós". Uma notável indicação de leitura.

Um adendo. Em 17.06.2025. De Infinito em um junco - A invenção dos livros no mundo antigo, de Irene Vallejo. "De índole parecida (Chaplin), os personagens de Aristófanes tentam parar a guerra mediante uma greve sexual, ocupam a Assembleia ateniense para decretar a comunhão de bens, debocham de Sócrates ou planejam curar a miopia do deus da riqueza para que distribua melhor os patrimônios. Depois de uma série de andanças e artimanhas estapafúrdias, todas as obras acabam num banquete pantagruélico, multitudinário e festivo". Um pouco mais adiante, a autora cita Andrés Barba:

"'Para nós, Aristófanes inaugurou uma outra via, estabelecida e criada pela magia do teatro: chegar à paz por meio do riso, à liberdade por meio do riso, à ação política por meio do riso'". E a autora continua; "Esse tipo de comédia, a chamada comédia antiga, durou tanto quanto a democracia ateniense contra a qual investiu. 

O humor de Aristófanes não teve sucessor. Poderíamos dizer que acabou, mais do que com ele, antes dele. No fim do século V a. C., Atenas foi derrotada por Esparta, que apoiou um golpe de Estado oligárquico na cidade. Seguiram-se décadas de turbulência política e ânimos abalados pela derrota. O tempo da crítica desbocada havia passado. O próprio Aristófanes continuou a escrever comédias, mas elas se tornaram cautelosas, com argumentos cada vez mais alegóricos, sem alusões pessoais nem sátira aos governantes.

Na geração seguinte, os gregos foram anexados ao império de Alexandre e aos reinos de seus sucessores. Esses monarcas não toleravam piadas" (Páginas 211-212).

Mais um adendo. Em 17.06.2025. Há tempos eu queria fazer o registro de que Lisístrata também faz parte da história do Brasil. É inacreditável mas faz. Trago o fato por um relato de Elio Gaspari ocontido em seu livro - As ilusões armadas 1. A ditadura envergonhada. Vejamos parte do relato: "No dia 2 de setembro (1968), durante aquele horário sonolento da manhã que na Câmara se denomina pinga-fogo, no qual os parlamentares ocupam a tribuna para tratar de assuntos irrelevantes, o deputado Márcio Moreira Alves tomou a palavra para condenar uma invasão policial que acontecera dias antes na Universidade de Brasília". O discurso passou praticamente despercebido dos noticiários. Gaspari continua a nos dar detalhes do discurso e do episódio:

"Impressionado com a greve de mulheres proposta pela ateniense Lisístrata na peça de Aristófanes, que assistira havia pouco em São Paulo, Moreira Alves voltou à tribuna e sugeriu que, durante as comemorações da Semana da Pátria, houvesse um boicote às paradas. 'Esse boicote', acrescentou, 'pode passar também (...) às moças, às namoradas, àquelas que dançam com os cadetes e frequentam os jovens oficiais'".

Este episódio fez explodir uma grave crise no governo. Ela culminou com o fechamento do Congresso, que não concordara com o pedido de julgamento do deputado e com o ato mais terrível da ditadura civil-militar, com a edição do AI-5, de 13 de dezembro de 1968. Estes episódios estão narrados a partir da página 316.




sexta-feira, 14 de julho de 2023

O HOMEM REVOLTADO. Albert Camus. Nobel - 1957.

O homem revoltado ficou na minha estante desde 2001 para ser lido por inteiro. Não foi por falta de tentativas anteriores. Falta de fôlego e outras ocupações me fizeram desistir, ao menos em duas oportunidades. Confesso que não terminar a leitura de um livro não é uma característica minha. Ler O homem revoltado, de Albert Camus não é uma tarefa fácil. Trata-se, com certeza, de um dos livros mais eruditos que eu já li. Trata-se de um ensaio que analisa o ser humano em seu inconformismo ao longo de toda a história.

O homem revoltado. Albert Camus. Record. 1999.

Albert Camus é franco argelino. Nasceu na Argélia em 1913 e morreu na França em 1960, num acidente automobilístico, nas proximidades de Paris. Sobre este acidente pairam dúvidas de que foi um assassinato comandado a partir de Moscou. Haveria motivos para tal? Se considerarmos a possibilidade do sim, certamente - O homem revoltado - deverá ser apontado como uma das principais causas. Um dos temas preferidos do filósofo, escritor e jornalista era o totalitarismo soviético sob o comando do stalinismo. Assassinatos em série, em nome de uma causa, era um grande absurdo que ele reafirmava constantemente.

Albert Camus era um menino pobre a quem a primeira guerra fez órfão prematuramente. Viver, para ele, passou a ser um imperativo do sobreviver. Desde cedo, professores atentos perceberam o seu gênio e o ajudaram, até mais tarde, em seus estudos universitários. Certamente toda essa trajetória de dificuldades pessoais, das injustiças do colonialismo francês sobre a Argélia e o viver ao longo de duas guerras o transformaram, ele próprio, em um homem revoltado. A revolta o levou à militância. Causas não lhe faltaram.

Abri este post falando que O homem revoltado é uma obra de rara erudição. Quem é o homem revoltado? Quais são as suas características? Quando ele efetivamente existiu? Este é o tema deste monumental ensaio. A análise começa pelos gregos e não tem um término. Só acabará efetivamente com a morte do último homem. A revolta acompanha o ser humano em sua luta contra o seu destino, desde os gregos, passando por todos os grandes seres humanos que tiveram consciência do seu existir: filósofos, literatos, ideólogos, pintores, políticos. O homem revoltado se defronta com os temas comuns à filosofia: a revolta, a insubordinação, a revolução, justiça, injustiça, liberdade, igualdade, sofrimento, racionalidade, irracionalidade, autoritarismo, ideologias, alienação, massas e por aí vai, passando também pelos principais pensadores.

O livro teve a sua publicação no ano de 1951, e como lemos na orelha da capa, ele lhe rendeu um verdadeiro linchamento: "Quando foi publicado pela primeira vez em 1951 O homem revoltado valeu a Albert Camus um verdadeiro linchamento promovido por intelectuais franceses encabeçados pelo romancista e filósofo Jean-Paul Sartre". E qual teria sido o motivo? Continuamos, na mesma orelha: "O ataque a Camus aos crimes perpetrados em nome da revolta repercutiu mal, e ele ainda foi acusado de defender a liberdade  de forma simplista, privilegiando a questão individual. Foi assim que, por várias décadas, a complexidade de seu pensamento foi reduzida a uma tese de direita". A explicação continua:

"Stálin ainda vivia, muita gente começava a se desentender com o Partido Comunista, mas apesar disso Camus não podia ser perdoado ao criticar igualmente a violência e o totalitarismo de direita e esquerda. Não se podia aceitar uma crítica tão forte contra as prisões e os assassinatos perpetrados em nome da revolução. O novo humanismo de Camus - talvez por vezes contraditório, mas certamente sincero - era repudiado radicalmente". 

A descrença no mundo do socialismo real, aquele que efetivamente existiu, ou o stalinismo entrou em decadência, em favor de um socialismo democrático, após 1956, com a realização do XX Congresso do Partido Comunista (XX - PCUS), quando Nikita Krushchov tornou públicos os crimes cometidos pelo regime stalinista. A partir de então, os próprios partidos comunistas, sob orientação da Terceira Internacional perdem terreno em favor dos partidos socialistas, que defendem o socialismo com democracia. (Citaria como exemplo, aqui do Brasil, o caso da ascensão de Lula e do PT e a queda do Partidão na luta hegemônica dos ideais socialistas). Este será o tempo da reabilitação de Camus e do seu O homem revoltado. Vejamos a parte final da apresentação do livro, agora já na orelha da contracapa.

"Mais de cinquenta anos depois de sua primeira publicação, com as disputas ideológicas e os questionamentos existenciais da humanidade radicalmente deslocados de seus eixos, o livro adquire uma dimensão especial. Não é possível mais ignorar crimes contra a humanidade seja quais forem seus pretextos revolucionários. A revolta não desculpa tudo. É assim que o humanismo proposto por Camus revela-se fundamental para aqueles que preferem defender os seres humanos antes de defenderem sistemas teóricos abstratos. E é por isso e muito mais que O homem revoltado é um dos livros mais importantes do século (XX)".

Em algum lugar, nas consultas que eu fiz ao longo da leitura, eu li que as polêmicas entre Sartre e Camus em torno de O homem revoltado se transformaram na "Guerra Fria Cultural" desse período. Muito apropriado. Já localizei. Trata-se de uma observação que fiz na primeira página do livro. Tem outra, que remete ao livro de Tony Judt, O mal ronda a terra, de que o livro promoveu a ruptura de Camus com o seu próprio passado.

O ensaio é longo. São, no total, 351 páginas divididas entre uma introdução, sob o título de - o absurdo e o assassinato -, e cinco capítulos: I. O homem revoltado; II. A revolta metafísica; III. A revolta histórica; IV. Revolta e arte; V. O pensamento mediterrâneo. A introdução merece um destaque todo especial. O seu primeiro parágrafo também aparece na contracapa como apresentação do livro. Vejamos:

"Há crimes de paixão e de lógica. O código penal distingue um do outro, bastante comodamente, pela premeditação. Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos não são mais aquelas crianças desarmadas que invocam a desculpa do amor. São, ao contrário, adultos, e seu álibi é irrefutável: a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes". Albert Camus recebeu o Prêmio Nobel de Literatura do ano de 1957.


sexta-feira, 7 de julho de 2023

Tempo de reportagem. Histórias que marcaram época no jornalismos brasileiro. Audálio Dantas.

Dia de festa. Jantar na casa de Regina e Valdemar. Levo um livro (Padura) e um vinho. Lá também se encontrava o Pai Firmino, o venerável da sátira e do humor. Pai Firmino e a excelentíssima também trouxeram livros. Ganhei um. Devo dizer que meus olhos brilharam quando vi que o livro era de autoria do Audálio Dantas. Tempo de reportagem - histórias que marcaram época no jornalismo brasileiro. Era um encontro/celebração no moderno Jardim de Epicuro, numa de suas melhores versões.

Tempo de reportagem. Audálio Dantas. LeYa. 2012.

De Audálio Dantas eu sabia apenas o essencial, até o dia em que eu li, As duas guerras de Vlado Herzog - da perseguição nazista à morte sob tortura no Brasil. A partir daí, virei admirador incondicional. O que eu mais apreciei no livro e que eu agora localizei com facilidade, porque devidamente sublinhado, é a história de um jovem que estivera na Praça da Sé, por ocasião do culto ecumênico, na Catedral da Sé, em memória de Vlado, sétimo dia. O jovem tinha por nome Márcio José de Moraes. O que eu sublinhei estava num entre parênteses: "(Três anos mais tarde, iniciando sua carreira na magistratura, o jovem Márcio tomaria uma decisão que teria tudo a ver com a história que estava sendo contada naquela praça, acrescentando-lhe um novo capítulo - a sentença que condenou a União pela prisão ilegal, tortura e morte de Herzog -, o qual marcaria sua vida e a própria história do país"). Por ocasião da leitura fiz um post especial.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/01/a-sentenca-de-condenacao-da-uniao-pela.html

Agora eu li atentamente o livro com o qual eu fui agraciado. É uma preciosidade. São treze reportagens selecionadas e comentadas por Audálio, publicadas originalmente na Folha da Noite, revista O Cruzeiro, revista Realidade e, uma delas, na Playboy. A revista Realidade tem toda uma história singular no jornalismo brasileiro. Foi uma das que mais sofreu na ditadura militar brasileira. Ela simplesmente trombou com os "anos de chumbo". Eu falo das reportagens:

1. Diário de uma favelada: a reportagem que não terminou. Esta reportagem, desnecessário dizer, se transformou no famoso livro Quarto de despejo, da escritora favelada Carolina Maria de Jesus. A favela era o quarto de despejo da maior e mais rica metrópole brasileira. A dor da fome é a nova escravidão, ou a escravidão remanescente, a indenização permanente pela abolição. A reportagem foi publicada pela Folha da Noite, em maio de 1958, sob o título: O drama da favela escrito por uma favelada.

2. O circo do desespero. O fato narrado, um verdadeiro horror. Um concurso carnavalesco de resistência de dança. Das 15h00 de sábado até as 9h00 de terça-feira, com breves intervalos, controlados por rigorosos e empolados juízes. Uma promoção da TV Record, com patrocínio de um produto de limpeza. O local do surreal espetáculo era o Ibirapuera. Haja frevo, a dança que mais cansava os participantes. A premiação era uma merreca em dinheiro, necessidade primordial dos participantes. Profundamente desumano. A reportagem foi publicada na revista O Cruzeiro, em março de 1963, sob o título: O circo do desespero.

3. Nossos desamados irmãos loucos. Uma reportagem de inimaginável sofrimento humano. Mostra como eram tratados os "loucos", nessa época. Trata-se do hospital psiquiátrico do Juqueri, em Franco da Rocha, em São Paulo. É a descrição do "espetáculo" da miséria humana. Hoje o Juqueri está em toda parte. Nossos amados irmãos loucos foi publicada na revista O Cruzeiro, em março de 1963.

4. A nova guerra de Canudos. Possivelmente seja a mais impactante das reportagens. A nova guerra e a nova destruição é uma referência à construção de uma barragem no rio Vaza-Barris, soterrando a área do conflito. A história da primeira guerra também é recontada, por um menino sobrevivente, o menino Bruega, agora o velho Bruega. Nada, ou muito pouco, mudou. A nova guerra de Canudos foi publicada na revista O Cruzeiro, em dezembro de 1964.

5. Oh, Minas Gerais! Uma reportagem sobre o jeito mineiro de ser. Narra a chegada da minissaia na terra da Tradicional Família Mineira. Uma revolução nos costumes. Um desnudar de hipocrisias. Minas Gerais se industrializa Surge uma Belo Horizonte moderna. Oh, Minas Gerais! é uma publicação da revista Realidade, de janeiro de 1970.

6. Doença de menino. A mais triste das reportagens. A doença descrita é a mortalidade infantil. O cenário é o estado de Pernambuco, o bairro de Beberibe, no Recife e a cidade de Amaraji, na rica Zona da Mata-sul, em meio aos canaviais. Uma vida nada doce. A doença de menino é simplesmente naturalizada. É a vontade de Deus se cumprindo! (Pensei muito no SUS, criado junto com a Constituição de 1988. Não canso de dizer, em todas as minhas falas, que o SUS é o maior patrimônio do povo brasileiro). Doença de menino foi publicada na revista Realidade em fevereiro de 1970.

7. Povo caranguejo. Reportagem sobre a captura de caranguejos nos mangues da foz do rio Sanhauá, na Paraíba. Nessa reportagem, além de mostrar as aflições dos caçadores de caranguejo, da captura até a venda, ele também interpreta a subjetividade dos coitados dos bichinhos, em busca da manutenção de sua liberdade. Povo caranguejo foi publicada na revista Realidade, de março de 1970.

8. Chile 1970. É uma reportagem sobre a cobertura das eleições chilenas do ano de 1970, que levaram Salvador Allende à presidência da República. O antes e o depois, com todos as suas tensões. Na volta, muitos amigos o esperavam no aeroporto em São Paulo, em função de boatos de sua prisão. Tempos da ditadura. Três anos depois o Chile sofreria o sanguinário golpe do general Pinochet. Chile 1970 foi publicada na Realidade, de novembro de 1970.

9. Oh, Canadá!. Mais uma reportagem internacional. É a tensão no pacífico e próspero país, causada pela sua dualidade na colonização. A parte francesa de Quebec queria se tornar independente do resto, de colonização inglesa. Audálio chegou a entrevistar o primeiro ministro Trudeau, que tinha um pé nas duas origens históricas. Em Toronto teve um encontro com Florestan Fernandes, então ali exilado. Oh, Canadá! foi publicada em Realidade, em dezembro de 1970.

10. Joaquim Salário Mínimo. Nessa reportagem, além de contar a história do salário mínimo, conta também as dificuldades de quem o recebe e dele tem que viver. Reportagem difícil de fazer, pois, pelo medo da censura, o governo deveria estar totalmente isento de culpa, embora fosse ele a fixar o seu preço. A Vila Guilherme, na cidade de São Paulo é o cenário dessa reportagem. É lá que morava o Joaquim Salário Mínimo. Reportagem publicada em Realidade, no mês de janeiro de 1971.

11. O prédio. Outra reportagem de cunho social. O "personagem" da vez é o edifício Martinelli. De seu esplendor até a sua mais degradante decadência. É um relato do que se passava nesse verdadeiro antro da esplendorosa São Paulo. Tem muito da história de São Paulo, de um dos seus centros de maior efervescência, sob todos os aspectos, no triângulo traçado entre as ruas São João, São Bento e Líbero Badaró. O edifício sobrevive, sendo a Prefeitura de São Paulo, a proprietária. O Prédio foi publicada em Realidade, em abril de 1971.

12. À margem. Belíssima reportagem descrevendo as margens do rio São Francisco, o rio da integração nacional. Quanta miséria e quanta tristeza. Personagens únicos. Essa reportagem me proporcionou um reencontro. Nos meus tempos de filosofia, em Viamão, RS., nossos olhares de reverência estavam voltados para um estudante, já da teologia. Era Carlos Moraes, tido por todos como a maior inteligência que já passara por Viamão. Sabíamos, por boatos, que ele estava encrencado com a ditadura e que fora trabalhar na revista Realidade. Nunca mais tinha ouvido falar. Ele era da diocese de Bagé. As dioceses circunscreviam a geografia do imenso seminário de Viamão. Já encomendei livros seus. Faleceu em São Paulo, onde foi jornalista e escritor, em 2019. Carlos propôs o Nobel da Paz para o rio São Francisco. Ele teve que interromper sua participação nessa reportagem por ordem militar, vinda da cidade de Bagé. Os horrores da ditadura militar. Reportagem da Realidade, março de 1972.

13. A maratona do beijo. Uma reportagem semelhante a de O circo do desespero, o concurso sobre a resistência de dançar no carnaval. Agora era o tempo da maior duração de beijo. Uma maratona de sessenta dias, com os intervalos mínimos possíveis e necessários. Reportagem para a Playboy, de agosto de 1993. Na apresentação dessa reportagem é contado um pouco de sua história à frente do Sindicato dos jornalistas, em 1975.

São estas as treze reportagens, mas o livro não acaba ali. Ele tem um apêndice, tão precioso quanto o próprio livro. Uma entrevista/ homenagem, conduzida por Claudiney Ferreira, com a participação de Eliane Brum e Ricardo Kotscho. A reconstituição de sua vida, desde Tanque d'Arca (AL), até a sua trajetória de vida e resistência em São Paulo. Audálio traz em sua vida um prêmio da ONU, por sua atuação em defesa dos Direitos Humanos. O livro teve a sua publicação no ano de 2012, numa publicação da LeYa. O livro é prefaciado pelo amigo Fernando Moraes. Deixo ainda a resenha do livro sobre Herzog, com um adendo.

As duas guerras de Vlado Herzog. Audálio Dantas. Civilização Brasileira. 2012.


http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/01/as-duas-guerras-de-vlado-herzog-audalio.html