terça-feira, 20 de outubro de 2020

História do medo no Ocidente - 1300-1800. Jean Delumeau.

 No rastro da leitura de A Civilização do Ocidente Medieval, de Jacques Le Goff e de História do Riso e do Escárnio, de Georges Minois, o livro da vez foi História do Medo no Ocidente - 1300-1800, de Jean Delumeau. Um livro impressionante. Que força e poder tem o tal do medo, especialmente, quando se está diante de um período histórico em que se desenvolveram a Guerra dos Cem Anos (1337-1453 - entre a Inglaterra e a França), duas reformas religiosas (a protestante - Lutero - 1517) e a contra reforma (Concílio de Trento 1535-1563) e a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648 - entre católicos e protestantes). Deixo o link dos dois livros:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/10/a-civilizacao-do-ocidente-medieval.html  e

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/10/historia-do-riso-e-do-escarnio-georges.html

O notável livro de Jean Delumeau, História do medo no ocidente - 1300-1800. Tradução de Maria Lúcia Machado.

Na contracapa do livro encontramos uma síntese quase perfeita do livro: "Ao tomar como objeto de estudo o medo, Jean Delumeau parte da ideia de que não apenas os indivíduos mas também as coletividades estão engajadas num diálogo permanente com a menos heroica das paixões humanas. Revelando-nos os pesadelos mais íntimos da civilização ocidental do século XIII ao XVIII - o mar, os mortos, as trevas, a peste, a fome, a bruxaria, o Apocalipse, Satã e seus agentes (o judeu, a mulher, o muçulmano -, o grande historiador francês realiza uma obra sem precedentes na historiografia do Ocidente".

Vejamos isso de uma forma mais organizada através dos doze capítulos do livro, precedidos de uma introdução e sucedidos por conclusão e pela referência bibliográfica das inúmeras notas. Tudo isso ocupa 471 páginas. O livro se divide em duas partes: Parte um: "Os medos da maioria", com cinco capítulos e a Parte dois, " A cultura dirigente e o medo", com mais sete capítulos. 

Os capítulos da primeira parte, com os respectivos subtítulos são: 1. Onipresença do medo. "Mar variável onde todo temor abunda"; o distante e o próximo; o novo e o antigo; hoje e amanhã; malefícios e adivinhação. 2. O passado e as trevas. Os fantasmas; o medo da noite. 3.Tipologia dos comportamentos coletivos em tempo de peste. Presença da peste; imagens de pesadelo; uma ruptura inumana; estoicismo e desregramentos - desalento e loucura; covardes ou heróis; de quem é a culpa. 4. Medo e sedições I. Objetivos, limites e métodos de investigação; o sentimento de insegurança; medos mais precisos; o temor de morrer de fome; o fisco: um espantalho. 5. Medo e sedições II. Os rumores; as mulheres e os padres nas sedições; o iconoclastismo; o medo da subversão.

Os capítulos da segunda parte, também com os respectivos subtítulos são: 6. "A espera de Deus". Medos escatológicos e nascimento do mundo moderno; duas leituras diferentes das profecias apocalipticas; os meios de difusão dos medos escatológicos; um primeiro tempo forte dos medos escatológicos: o fim do século XIV e o começo do século XV; um segundo tempo forte: a época da reforma; um Deus vingador e um mundo envelhecido; a aritmética das profecias; geografia dos medos escatológicos. 7. Satã. Ascensão do satanismo; satanismo, fim do mundo e mass media da Renascença; O "príncipe deste mundo"; as "decepções" diabólicas. 8. Os agentes de Satã. I. Idólatras e muçulmanos. os cultos americanos; a ameaça muçulmana. 9. Os agentes de Satã. II. O judeu, mal absoluto. As duas fontes do antijudaísmo; papel do teatro religioso, dos pregadores e dos neófitos; as acusações de profanações e assassinatos rituais; converter; isolar; expulsar; uma nova ameaça: os convertidos. 10. Os agentes de Satã. III. A mulher. Uma acusação que data de longe; a diabolização da mulher; o discurso oficial sobre a mulher no final do século XVI e no começo do século XVII; uma produção literária frequentemente hostil à mulher; uma iconografia frequentemente hostil à mulher. 11. Um enigma histórico: A grande repressão da feitiçaria I. O dossiê. A escalada de um medo; uma legislação de inquietude; cronologia, geografia e sociologia da repressão. 12. Um enigma histórico: a grande repressão da feitiçaria II. Ensaio de interpretação. O universo da heresia; o paroxismo de um medo; uma civilização da blasfêmia; um projeto de sociedade.

Como podem ter notado, o cristianismo perpassa praticamente todo o livro. Para mim dois capítulos se revestiram de maior significado, talvez porque chegaram muito fortemente até os nossos tempos, o capítulos 9 e 10, sobre os agentes de Satã, o judeu como o mal absoluto e a mulher. Na década de 1960, eu ainda rezava na sexta feira da Paixão "Oremos etiam pro perfidis judeis". Essa oração foi abolida pelo Concílio Vaticano II (1962-1965). E sobre a mulher então, nem falar. Capítulos muito ilustrativos e cuja leitura eu recomendo muito.

Ainda três parágrafos das orelhas do livro: "'Não temos história do amor, da morte, da crueldade, da alegria...' Essa queixa de Lucien Fabvre em 1948, tão repetida desde então, foi como um manifesto, que definiu o programa de trabalho da disciplina que se chamou a história das mentalidades. Uma das lacunas que o fundador da escola dos Annales deplorava é preenchida é preenchida por este livro de Jean Delumeau: a história dessa paixão primordial que é o medo. Paixão pouco estudada, porque não é nada honrosa. Quem de nós, perguntava Roland Barthes (em 1973), confessa seu medo? Sabemos que a filosofia clássica dividiu, em linhas gerais, as paixões em positivas e negativas: amor e ódio, coragem e medo. É claro que as paixões positivas são mais bem vistas, mas dentre as negativas, a mais vil sempre foi o medo (em suas formas brandas - temor, receio, timidez - ou excessivas: covardia, pusilanimidade). E no entanto, se paixão é pathos, se antes que o século XIX identificasse paixão a amor-paixão ela esteve mais ligada à passividade, ao que sofremos (nos dois sentidos do termo, descritivo e doloroso), o medo talvez seja a paixão em que mais sofremos, isto é, a paixão por excelência.

Que estudo pode, assim, ser mais oportuno que o medo? É um dos grandes temas recalcados de nossa cultura (voltamos a lembra Roland Barthes). Apesar disso, ou por isso mesmo, ele se destaca na estratégia das paixões. Como ler sem notar, no romance, na poesia, no teatro, a força do medo? Como pensar a política sem ver, não só o que os homens deixam de fazer por covardia, mas também o que fazem por medo? Como, enfim, pensar a condição humana sem estes pares primordiais, não só os que mencionei acima, mas ainda outro que vem desde os Antigos, medo e esperança?

Thomas Hobbes, que nasceu de parto prematuro quando o pais fugiam, em 1588, da temida Armada de Felipe II, escreveu na velhice: 'Minha mãe pariu gêmeos, eu e o medo'. Esta frase se entendeu como significando: o gêmeo do medo se identifica com esta paixão; Hobbes seria o filósofo do pavor. Mas, se os gêmeos são e foram, não dois medos, mas medo e esperança (the old Twins, Hope and Fear, dizia John Donne por essa época) - então muda o sentido de toda a sua filosofia política. E este exemplo vale para a história que faz Delumeau. Conhecer o medo, devassar seus arcanos não é só entender a uma curiosidade particular. É ampliar nossas consciências para reconhecer um fantasma, cuja força está em ser inconfesso". Estes parágrafos são de Renato Janine Ribeiro.


sexta-feira, 9 de outubro de 2020

História do Riso e do Escárnio. Georges Minois.

Ao terminar de ler Jacques Le Goff, A Civilização do Ocidente Medieval, decidi continuar na leitura de livros de história. Optei por Georges Minois, História do Riso e do Escárnio. Não é simplesmente um livro de história. É um senhor livro. São 653 páginas de uma memorável pesquisa e que exigiram de seu autor um profunda dedicação e muita erudição. Esta pesquisa passa diversas vezes por toda a história, se detendo, especialmente, nos campos religioso, filosófico, histórico e literário. Também do leitor é exigido bastante. Não é um livro para principiantes.

História do Riso e do Escárnio. Georges Minois. UNESP - 2003. Tradução de Maria Elena Ortiz Assumpção.

O livro começa pelos gregos, passa pelos latinos, pela alta e baixa Idade Média, chegando ao Renascimento, ao Esclarecimento, passando pelas reformas religiosas, pelas revoluções, pelas guerras, até chegar ao século XX, parando por aí, uma vez que o livro foi publicado no ano de 2003. Todos os grandes nomes da teologia, da filosofia, da literatura, do teatro e do cinema merecem a análise do autor. Ao todo são 15 capítulos, além da introdução e da conclusão. Depois dou os títulos desses capítulos. O riso e o escárnio é visto em todas as suas formas, quer as maléficas, quer as benéficas. A palavra com a qual mais vezes eu me detive foi a palavra "derrisão". Seria esse o efeito maior provocado pelo riso?

Na orelha da capa lemos a seguinte apresentação: "O ser humano tem duas características que o diferenciam de outros animais: é o único que sabe que vai morrer e que ri. Será que o riso não existe exatamente para consolá-lo dessa amarga tristeza? Essa perspicaz indagação é apenas uma das importantes questões apontadas neste livro pelo historiador francês Georges Minois.

O autor esquematizou a história do riso em três períodos: o riso divino, o diabólico e o humano. No primeiro, associado à Antiguidade clássica, o riso está ligado à suprema liberdade dos deuses. É, portanto, vinculado à recriação do mundo, seja nas sátiras escritas pelo grego Aristófanes seja nas críticas sociais dos comediógrafos latinos Plauto e Terêncio.

O cristianismo, na Idade Média, opõe-se a essa visão. Prega que o homem deve temer o inferno, regido pelo diabo, rei do riso, da zombaria e do escárnio, atitudes toleradas apenas em festas pagãs como o Carnaval. A partir do Renascimento, com o progressivo abalo de todas as crenças, o riso renasce, penetrando nas fissuras do absoluto para questionar a religião, no século XVIII, a monarquia, no século XIX, e o autoritarismo, no século XX.

Em pleno século XXI, para Minois, o ser humano, infelizmente, teria domesticado o poder derrisório do riso. No atual mundo do "politicamente correto", o seu componente agressivo estaria desvitalizado. Embora pareça estar por toda parte - na publicidade, na televisão, nos jornais, nas transmissões esportivas -, o riso não passaria, mais do que nunca, de uma máscara para esconder a profunda agonia do existir".

Na contracapa do livro lemos um parágrafo que certamente pretende ser uma provocação para a leitura: "Estudado durante séculos pelas mais diferentes disciplinas, o riso ainda guarda um grande mistério. Da gargalhada solta dos carnavais medievais à fina ironia dos romancistas vitorianos, a história do riso pode revelar os dilemas de cada época. Neste trabalho de fôlego, Georges Minois enfrenta com bom humor a grande tarefa de criar uma história para o que os antigos gregos consideravam uma das maiores virtudes humanas doadas pelos deuses".

Vamos, para dar uma ideia aproximada dos temas, aos títulos do 15 capítulos: 1. O riso inextinguível dos deuses - os gregos arcaicos e o mistério do riso; 2. A humanização do riso pelos filósofos gregos - Da ironia socrática à zombaria de Luciano; 3. O riso unificado dos latinos - O risus, satírico e grotesco; 4. A diabolização do riso na Alta Idade Média - Jesus nunca riu; 5. O riso unânime da Festa Medieval - A paródia a serviço dos valores; 6. Rir e fazer rir na Idade Média - Humor sagrado e humor profano; 7. O riso e o medo na Baixa Idade Média - o retorno do diabo; 8. A gargalhada ensurdecedora do Renascimento - o mundo rabelaisiano e suas ambiguidades; 9. Acabou-se o riso - a grande ofensiva político-religiosa do sério (séculos XVI-XVIII); 10. O riso amargo do burlesco - a era da desvalorização cômica (primeira metade do século XVII); 11. Do riso polido à zombaria - o poder ácido do espírito (séculos XVII e XVIII); 12. O riso e os ídolos no século XIX - o escárnio nos combates políticos. sociais e religiosos; 13. Filosofia do riso e riso filosófico no século XIX - os debates sobre o riso, do grotesco ao absurdo; 14. O século XX, morrer de rir - a era da derrisão universal; 15. O século XX: a morte do riso? - a desforra póstuma do riso.

Um livro que, creio eu, se destina mais para pesquisadores do que para leitores propriamente ditos. Sei que ele é bastante usados nos cursos de pós graduação em Linguística. Está dada a dica. Valeu muito a leitura. Por razões muito particulares, deixo o link de uma postagem a partir do livro sobre o padre São João Maria Vianney, o padroeiro dos padres seculares. É que eu fui seminarista, lá nos anos 1950-60. https://www.blogger.com/blog/post/edit/2400511981612982468/7887219725086152243


quinta-feira, 8 de outubro de 2020

São João Vianney - padroeiro dos padres seculares. No livro de Georges Minois.

Nasci no dia 21 de setembro de 1945, em Harmonia, então terceiro distrito de Montenegro, no Rio Grande do Sul. Nasci sob a unidimensionalidade da religião católica. O cônego Oscar Mallmann foi o pastor, de algo em torno de duas mil almas, por mais de cinquenta anos. Terra de padres e de bispos. Ao redor, muitos seminários. Em Salvador do Sul e em Pareci Novo, os dos jesuítas e em Bom Princípio, o dos padres seculares. O cônego Mallmann tinha espírito de jesuíta, mas, ele me destinou para os padres seculares e lá me fui, ainda na tenra infância para o Seminário Menor São João Maria Vianney de Bom Princípio.

São João Maria Vianney, o cura de Ars, é o padroeiro dos padres seculares, destinados a trabalharem nas paróquias, sem formarem uma ordem religiosa, como, por exemplo, os padres jesuítas. Obedecem diretamente ao bispo diocesano. Não fazem o voto de pobreza, apenas os de obediência e castidade, embora a pratiquem. No seminário, pouco ouvimos falar dele. Nenhuma biografia nos foi recomendada. A única coisa que eu lembro, que nos era falada pelos padres, é a de que ele não se distinguiu pela inteligência, mas pela sua grande fé. Era um padre vigário exemplar.

História do Riso e do Escárnio. UNESP. 2003. Tradução de Maria Elena O. Ortiz Assumpção.


Agora me deparei com ele na leitura do monumental livro de George Minois, História do Riso e do Escárnio. Ele não entra na história pelos seus amplos sorrisos, pelo seu bom humor, mas por ser seu feroz combatente. O encontro com o santo se dá no capítulo 12, sob o título de "O riso e os ídolos no século XIX", num subtítulo de "A igreja do século XIX contra o riso", que eu passo a transcrever. Mas antes, duas informações: A primeira, São João Vianney (1786-1859) foi proclamado santo no ano de 1925, por Pio XI. A segunda. Ele inspirou um outro santo, o santo Josemaria Escrivá (1902-1975. Este se tornou santo em 2002, sob o pontificado de João Paulo II. Escrivá é o fundador da poderosa Opus Dei. Santo Deus! Como eu mudei. Mas vamos à descrição:

"... Mas Lamennais não é a Igreja. Então voltemo-nos para um contemporâneo seu, que foi canonizado: Jean-Marie Vianney, o 'cura de Ars'. Um dos sinais de sua santidade, segundo o processo de canonização, é o fato de ter recebido 'o dom das lágrimas', e há numerosos testemunhos que o mostram chorando por qualquer coisa. Não é bom divertir-se em sua paróquia: 'É a corda com que o demônio lança o maior número de almas para o inferno', diz ele. Ao ver o anúncio de um charivari, sai do presbitério e dispersa todo mundo. Bailes e festas profanas são proscritos, e o bom cura faz reinar um verdadeiro terrorismo moral em sua paróquia: 'Eu o ouvi uma tarde', diz o abade Pelletier no processo de canonização, 'levantar-se com veemência contra a feira de Willefranche, onde a multidão tinha o costume de entregar-se à tentação dos divertimentos profanos. O auditório ficou apavorado'. Os banquetes de casamento são proibidos; quanto às tentativas de tocar instrumentos, ouvir música e rir depois dos trabalhos agrícolas, são execradas no púlpito. Jean-Marie Vianney esforça-se para colocar culpa em seu mundo. Na sexta feira santa, em 1830, alguns dançarinos e músicos se apresentam; ninguém ousa sair. 'Na prece da tarde, o senhor cura fez sua homilia habitual. Ele chorou. Choramos com ele. E vários de nossos jovens desmiolados compreenderam sua idiotice ao ver sua mãe e irmãs chegar com os olhos vermelhos de tanto chorar'.

O cura de Ars controla, igualmente, o vestuário das pessoas. Ele impõe às moças uma horrível touca que esconde melhor seus cabelos. 'Nós tínhamos a aparência de pequenas velhas', revela uma delas. Ele não poupa ironias impiedosas ao mais inocente sinal de coquetismo. 'Um dia', diz Marthe Miard, 'ele me encontrou um pouco mais bem vestida que o comum' (ela usava um vestido de musselina de cor forte). Em vez de me dizer, como sempre, 'Bom dia, minha filha', ele me fez um cumprimento longo acrescentando: ' Bom dia, senhorita'. Eu fiquei com vergonha'.

'A pequena Jeanne Lardet exibia orgulhosamente uma bela gola nova. 'Quer me vender sua gola?', perguntou-lhe o abade Vianney, rindo. 'Eu lhe dou cinco centavos por ela'. 'Para que a deseja, senhor cura?' 'Para colocá-la no seu gato'. A pobre garota também ficou envergonhada.

Durante quarenta anos, o cura tiraniza sua paróquia. Além disso, ele é obcecado pelo diabo, que acredita ver em todos os cantos da rua e até em sua cama. O riso é banido. Contudo, é atribuída a ele uma ' malícia delicada'. Mas em sua boca, diz o abade Trouchu, a própria zombaria é santificada. 'Essas tiradas não ferem ninguém [!], porque a malícia branca que elas encerram é temperada pelo tom cheio de regozijo e pela expressão graciosa do rosto.

Há milhares de de curas de Ars, no século XIX, para quem rir é um crime ou, ao menos, uma presunção de culpa. Eis um caso revelador: em 1883, em Taulé, o reitor Kervennic solicita a troca de seu vigário, o abade Bramoullé. Motivo: ele ri, é alegre, tem sempre um ar de contentamento. Trata-se de uma conduta eminentemente suspeita para um jovem padre de trinta anos a quem foi ensinado, no seminário, ter sempre um ar triste. Ele sorri até dando a comunhão! O reitor comunica ao bispo seu espanto e suas suspeitas, em uma carta que revela muito sobre a mentalidade paroquial da época: 'Percebo que, quanto mais exijo dele (como me substituir perante os doentes, dar uma instrução ou um sermão), quanto mais os fiéis, em grande número, o retêm no confessionário, mais ele fica alegre e contente: nada parece capaz de diminuir seu zelo nem desanimá-lo. ... Ele está sempre contente por pregar, deseja fazer mais do que lhe é pedido; isso não seria vaidade, presunção, vontade desmedida de aparecer? Ele está sempre feliz por assistir meus doentes. ... Isso o faria crer que todo mundo o admira. Daí vem, parece-nos, essa grande necessidade de se produzir... suas maneiras sempre joviais e muito familiares com os fiéis e as muitas palavras indiscretas que diz. Já cansei de dizer que gostaria que ele fosse mais tímido, mais reservado e mais prudente".

Santo Deus! Como eu mudei. Eu não gostaria de ter como padroeiro este São João Maria Vianney. Texto extraído de: MINOIS, George. História do Riso e do Escárnio. São Paulo. UNESP. 2003. Páginas 500-502.

UM ADENDO. Em 01.11.2025. Retirado do livro: História do cristianismo de Paul Johnson. "O padre Vianney foi representativo de uma nova tendência a exaltar o trabalho do sacerdote e de seu contato com as massas católicas. Veuillot, o astuto populista, reforçava esse pendor no L'Univers. Quase todos os párocos costumavam comprá-lo; era vendido na porta das igrejas, aos domingos. O jornal refletia e ampliava suas opiniões simples a respeito da religião: a piedade devota, o culto ao pontificado e, oculto por trás de uma grossa camada de emocionalismo e sentimentalismo, o cristianismo mecânico da Idade Média, o clima de credulidade em que o triunfalismo populista poderia florescer. Ozanam disse, sobre Veuillot e seus amigos: 'eles não vão tentar converter descrentes, mas instigar as paixões dos crentes. O objetivo final de uma sociedade total cristã não foi abandonado, mas subordinado à organização dos fiéis para fins de exercício de poder'" (Página 476).



domingo, 4 de outubro de 2020

Dois "Pai Nossos" do fim do século XIV. Paródias sarcásticas. Georges Minois.

 Todo o poder que extrapola os seus limites vira chacota, mesmo quando se trata das coisas tidas como as mais sagradas. É o que podemos verificar com o cristianismo medieval. No século XIV, o cristianismo já estava consolidado em toda a Europa ocidental e em virtude de seus absurdos abusos começou a ser contestado. Como as formas mais explícitas de contestação não eram permitidas, os fatos começam a ocorrer pelas beiradas. Pela ironia, pela sátira e pelas paródias. É o que encontramos na narrativa do fantástico livro História do Riso e do Escárnio, de Georges Minois.

Como exemplo trago a paródia de dois "Pai nossos". Eles são assim apresentados: "Deus não é poupado pelo riso, nesse fim de Idade Média. A tradição das missas, preces e sermões parodísticos certamente não é nova; mas, nesse caso, também o tom muda. Diante da aparente inércia divina perante as catástrofes, o riso torna-se acusador. Sobretudo, não levanta o dedinho para socorrer-nos. Vós que tudo podeis e que nos amais tanto! Olhai-nos sofrer! Esse é o sentido das preces parodísticas que vêm à luz no século XV. Desta vez, a blasfêmia não está longe, como o testemunham dois Pater Noster do fim do século XIV que, com nuance trocista, felicitam Deus por ficar tranquilamente no céu, enquanto males de toda espécie se abatem sobre a terra e o clérigo furta suas ovelhas. Ninguém sabe o que os homens fizeram para semelhante sorte, mas o Senhor tem toda a razão em ficar longe dela. Essa é a lição do Pater Noster em quartetos:

História do Riso e do Escárnio. Georges Minois. UNESP. 2003. Tradução: Maria Helena O. Ortiz Assumpção.

Pater Noster que és bem sábio,                                                                                                                   

tu és digno de todos os louvores,

porque lá em cima fizeste tua morada 

e bem no alto te escondeste - In celis.

Em nosso presente o mal abunda,

Cada um é cheio de orgulho e de ira.

Não há, neste mundo, alguém

de quem se possa dizer - Sanctificetur.

Porque, nos tempos que ora ocorrem,

Aquele que menos sabe

é o que mais pode vangloriar-se na corte

e blasfemar contra ti e desprezar - Nomen tuum.

... Por isso se queres aceitar meu conselho,

Em cima, bem alto, deves ficar,

no paraíso, em nobre glória,

e nunca aqui embaixo descerás - Et in terra.

Eu me admiro e me maravilho

Porque estamos em tal perigo

por aqueles que usam veste vermelha

e só fazem tomar e comer - Panem Nostrum.

Não há uma única vez,

porque não há dia de semana,

em que eles não nos pilhem de tal forma

que mal podemos sobreviver - Cotidianum.

Ora não sei o que fizemos

Nem se pensas que isso vai durar, 

Porque não acredito que exista

Ninguém no mundo que a tanto resista - Sicut et nos.

(Manuscrito da Biblioteca da Universidade de Genebra).

Essa ironia se encontra também no Paternostre de Lombardia, que data da mesma época. 'Lombard' é, então, mais ou menos sinônimo de 'rapace', 'opressor'. A agressividade é patente. 'Não és louco, Pai Nosso, Te escondeste lá em cima, enquanto os diabos nos tomam panem nostrum:

Pater noster tu não és louco,

porque te colocas em grande repouso,

que subsiste alto in celis:

porque, agora, neste país,

não há ninguém que seja sanctificetur

nem que pense no tempo futuro

nem que invoque nomen tuum.

... Só pensas no mal noite e dia

Ora, cuida-te bem in celo

sem te deixar, eu te louvo;

porque os diabos sabidos reinam

e tudo revolvem e tudo tomam

e é inferno et in terra

E são espertos ingleses

que roubam panem nostrum

e nos dão muita pancada.

E aqueles que nos deveriam guardar

Só fazem atormentar-nos

Com sua gula quotidianum,

tiram o nosso sem razão

e nem dizem: da nobis.

... Fazes muito bem ficando aí

porque aqueles que mantêm a guerra

não o fazem por nenhuma terra,

mas só para ter a nostra

Ora, não acredites nisso,

porque se cá em baixo estivesses

e não soubesses te defender,

eles te fariam sicut et nos.

(Biblioteca Santa Genoveva). 

Texto extraído de MINOIS, Georges. História do Riso e do Escárnio. São Paulo: UNESP. 2003. Páginas 253-255.

E hoje em dia, que paródias seriam feitas diante de tantos abusos religiosos existentes. Nunca houve tantos lobos vestidos em pele de cordeiro como nos dias de hoje. O que dizer das chamadas teologias da prosperidade (tanto entre católicos, quanto entre os evangélicos), que pregam virtual e fisicamente 24 horas por dia para recolher o panem nostrum, obtido com o suor de nossos rostos.



quinta-feira, 1 de outubro de 2020

A Civilização do Ocidente Medieval. Jacques Le Goff.

 A curiosidade em torno desse livro, A civilização do ocidente medieval, de Jacques Le Goff, veio de uma espécie de diletantismo em torno do tema da afirmação do cristianismo como ideologia dominante no mundo ocidental, e de um grupo de estudos a respeito do tema. Já tenho três posts sobre o tema neste blog. O primeiro se refere ao ato fundador, com São Paulo, no denominado Concílio de Jerusalém. O segundo se refere ao cristianismo como religião de Estado, através de Edito de Milão e do Concílio de Niceia e o terceiro, já retirado deste livro, sobre a expansão por toda a Europa sob o império de Carlos Magno. 

LE GOFF. A civilização do ocidente medieval. EDUSC, 2005. Tradução: José Rivair de Macedo.


Bem, mas vamos ao livro de Le Goff, numa bela edição da EDUSC, a editora da Universidade do Sagrado Coração, sediada em Bauru. Como introdução ao tema, eu citaria a própria introdução que Le Goff escreve para o seu livro, algo em torno de 5 ou seis páginas. Le Goff centraliza a sua obra entre os séculos 10º a 13, período que ele denomina como Idade Média Central. Da introdução tomo os dois últimos parágrafos, perfeitamente ilustrativos, em que aponta para duas realidades:

"A primeira relaciona-se com a própria natureza do período. A Igreja desempenhou aí um papel central, fundamental. Mas é preciso ver que o cristianismo aí funcionou sob dois níveis: como ideologia dominante, apoiada num poder temporal considerável, e como religião propriamente dita. Negligenciar um destes papéis levaria à incompreensão e ao erro. Além disso, no último período da Idade Média, que ao meu ver começa após a Peste Negra, a Igreja teve consciência de que seu papel ideológico passara a ser contestado, o que a levou ao endurecimento que se exprimiu na caça às bruxas e de modo mais geral na difusão do 'Cristianismo do medo'. Mas a religião cristã jamais esteve reduzida apenas a este papel ideológico e de defensora da ordem estabelecida. Foi na Idade Média que nasceu o impulso para a paz, para a luz, a elevação heroica, um humanismo em que o homem peregrino, feito à imagem e semelhança de Deus, esforça-se na busca de uma eternidade que não está no passado, e sim no futuro.

A segunda realidade é de caráter científico e intelectual.  Provavelmente não há domínio da história mais fragmentário no ensino universitário tradicional, na França com certeza, e em vários outros países. Da história geral propriamente dita foi extraída a história da arte e a arqueologia (esta última em pleno desenvolvimento), a história da literatura (seria preferível falar de literaturas neste mundo bilíngue em que as línguas vernáculas se desenvolvem ao lado do latim dos clérigos), a história do direito (também aqui os direitos, pois o canônico foi se constituindo paralelamente ao direito romano renascente). Ora, nenhuma sociedade, nenhuma civilização nutriu paixão tão intensa pela globalidade, pela totalidade, quanto a Idade Média. Para o melhor e para o pior, ela foi totalitária. Reconhecer sua unidade é antes de tudo restituir sua globalidade".

Em suma, um mundo fechado, que insiste em permanecer fechado, mas que é pressionado por todos os lados para as devidas aberturas, especialmente, no campo da economia e das ciências. É o processo histórico em marcha.

Apresento ainda a orelha da capa do livro, que também foca nessa realidade: "Entre a lenda negra de uma 'idade das trevas' e a lenda dourada da 'belle époque' medieval, existe a realidade de um mundo de monges, clérigos, guerreiros, camponeses, artesãos e mercadores que oscilou entre a violência e a aspiração da paz, entre a fé e a revolta, entre a fome e a expansão. Uma sociedade marcada pela obsessão da sobrevivência que conseguiu dominar o espaço e o tempo e que desbravou as florestas, que se aglomerou em torno das aldeias, castelos e cidades, que inventou a máquina, o relógio, a universidade e a nação.

Este mundo rude e conquistador foi o da infância do Ocidente, um mundo 'primitivo' em que as pessoas atuavam na terra com os olhos voltados para o céu, um mundo que introduziu a razão no universo simbólico, que encontrou o equilíbrio na relação entre a palavra e a escrita, que inventou o purgatório entre o inferno e o paraíso.

Da Escandinávia ao Mediterrâneo, do mundo celta ao eslavo, o sistema feudal coloca em evidência as estruturas, as mentalidades, as contradições, os dinamismos e as inércias que a Cristandade latina legou à sociedade e à civilização ocidental contemporânea".

O livro se divide em duas partes. Na primeira, é mostrado o percurso do mundo antigo à cristandade medieval e na segunda é mostrada a civilização medieval. A primeira parte compreende quatro capítulos, a saber: 1. A instalação dos bárbaros (séculos 5º - 7º); 2.A tentativa de organização germânica (séculos 8º-10º); 3. A formação da cristandade (séculos 14-15). A segunda parte, bem mais longa, é formada por uma introdução, sob o título de gênese e mais quatro capítulos: 5. Estruturas espaciais e temporais (séculos 10º-13); 6. A vida material ( séculos 10º-13); 7. A sociedade cristã (séculos 10º-13); 8. Mentalidades, sensibilidades, atitudes (séculos 10º-13). Seguem ainda orientações e referências bibliográficas. Tudo isso ocupa 399 páginas. Leitura indispensável para compreender a história como um processo construído pelos humanos em suas mais diversas movimentações.

Que é Jacques Le Goof? Le Goff nasceu na cidade de Toulon, em 1924, e desde os tempos do colegial sempre se sentiu atraído pelo estudo da história, lemos na orelha da contracapa. Aí também encontramos a informação de que ele é um dos maiores medievalistas e integra a lista dos grandes historiadores franceses. Sua formação e atividades profissionais se desenvolveram na Escola Normal Superior de Paris. Faleceu no ano de 2014.


sábado, 26 de setembro de 2020

Sobre a mentira. Jacques Le Goff.

 Como a mentira se tornou contumaz, vejamos algo a respeito.

As considerações sobre a mentira e o seu caráter de gravidade e perversidade eu as tomo do livro do medievalista Jacques Le Goff, A civilização do ocidente medieval. O trecho é curto mas certeiro. A mentira é um dos piores atributos que se pode aplicar ao ser humano. O demônio é o pai da mentira, mas agora está em processo de competição com o triste e vergonhoso presidente brasileiro. Vejamos Le Goff, sob o título: A falsidade e a mentira:

A Civilização do Ocidente Medieval.  Jacques Le Goff. EDUSC. 2005.


"Antes de chegar lá, os homens da Idade Média tiveram que lutar contra uma impressão generalizada de insegurança, e o combate não tinha chegado ao fim no século 13. Sua grande perturbação provém de que os seres e as coisas não são realmente o que parecem. O que a Idade Média mais detesta é a mentira. O epíteto natural de Deus é 'aquele que nunca mente'. Os maus são mentirosos. 'Vós sois um mentiroso, Fernando de Carrion', diz Pero Bermuez na cara de um infante, e Martin Antolinez, outro companheiro do Cid, joga na cara do segundo infante: 'Fechais vossa boca, mentiroso, boca-sem-verdade'. A sociedade é feita de mentirosos. Os vassalos são traidores, félons (vassalo traidor) que renegam seu senhor, êmulos de Ganelão (traidor famoso dos francos), e, depois dele, do grande protótipo de todos: Judas. Os mercadores são fraudadores que só pensam em enganar e roubar. Os monges são hipócritas, tal Falso-Semblante, personificado no Roman de la Rose por um franciscano. O vocabulário medieval é de extraordinária riqueza para designar os inumeráveis tipos de mentira e as infinitas espécies de mentirosos. Até os profetas podem ser falsos profetas, e os milagres, falsos milagres, obras do Diabo. É que o domínio do homem medieval sobre a realidade é tão fraco que ele deve valer-se da astúcia para levar a melhor. Pode-se pensar que aquela sociedade belicosa tudo ganhava ao atacar. Grande ilusão. As técnicas eram tão medíocres que a resistência quase sempre prevalecia sobre a ofensiva. Mesmo no domínio militar, os castelos e as muralhas eram quase impenetráveis. Quando o invasor os forçava, era quase sempre pela astúcia. A totalidade de bens colocados à disposição da humanidade medieval era tão insuficiente que para viver era preciso 'se arranjar'. Aquele que não tinha força ou astúcia estava quase que com certeza fadado a perecer. O que é seguro e quem é seguro? Da imensa obra de Santo Agostinho, a Idade Média deu atenção especial ao tratado De Mendacio (Da mentira)".

Texto extraído de: LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Bauru, EDUSC, 2005. Páginas 354-355.

Que feio, presidente.



sexta-feira, 25 de setembro de 2020

O imaginário medieval do Diabo. Jacques Le Goff.

Uma das coisas que efetivamente aprendi na vida é a de que nenhuma ideologia se impõe, se paralela a ela, não se criar um poderoso e temível inimigo. Isso não foi diferente dentro da construção do cristianismo medieval. Lendo o belo livro A civilização do ocidente medieval, de Jacques Le Goff, encontrei uma bela passagem referente a esse fenômeno: a construção do demônio no imaginário medieval. Essa passagem tem por título: "O além: O diabo. Vejamos.

A civilização do ocidente medieval. Jacques Le Goff. EDUSC. Tradução de José Rivair de Macedo.

"Um poderoso personagem disputa com Deus o seu poder no céu e sobretudo na terra: o Diabo.

Na Alta idade Média, Satã não tem papel de primeiro plano, nem muito menos uma personalidade de destaque. Ele aparece com nossa Idade Média, e se afirma no século 11, sendo uma criação da sociedade feudal. Com seus sequazes, os anjos rebeldes, ele é a própria imagem do vassalo pérfido, do traidor. O Diabo e o Bom Deus, eis o par que domina a vida da Cristandade medieval, cuja luta, aos olhos dos homens da Idade Média, explica todos os pormenores dos acontecimentos.

Segundo a ortodoxia cristã, sem dúvida Satã não é igual a Deus, mas sim sua criatura, um anjo decaído. A grande heresia da Idade Média foi, sob formas e nomes diversos, o maniqueísmo. Pois o maniqueísmo professava a crença em dois deuses, um do bem e outro do mal, criador e senhor deste mundo. Para a ortodoxia cristã, o grande erro do maniqueísmo era por Deus e Satã, o Diabo e o Bom Deus, em pé de igualdade. Não obstante, todo o pensamento e o comportamento dos homens da Idade Média eram dominados por um maniqueísmo mais ou menos consciente, mais ou menos sumário. Para eles, de um lado estava Deus e de outro o Diabo. Esta grande divisão dominava a vida moral, a vida social  e a vida política. A humanidade encontrava-se dividida entre estes dois poderes divergentes e irreconciliáveis. Se um ato fosse bom, provinha de Deus; se fosse mau, vinha do Diabo. No Juízo Final os bons irão para o Paraíso e os maus serão lançados no Inferno. Só muito tardiamente a Idade Média veio a tomar conhecimento do Purgatório, do fim do século 12, que lhe permitiria dosar melhor um julgamento durante muito tempo inspirado por seu maniqueísmo latente e intolerante. A iconografia resistiu à ideia do purgatório no século 13, ignorando o julgamento individual pos-mortem, e durante muito tempo, na cena do Juízo Final, continuou a representar apenas a divisão da humanidade em eleitos e condenados. A bipartição da humanidade nos tímpanos das catedrais é a imagem implacável desta intolerância.

Os homens da Idade Média estavam, pois, constantemente divididos entre Deus e Satã.  Este era tão real quanto o outro, e até aparecia mais em carne e osso. É certo que a iconografia podia figurá-lo sob uma forma simbólica: ele era a serpente do pecado original, aparecendo entre Adão e Eva; era o Pecado., pecado da carne ou do espírito, separados ou juntos; era o símbolo do apetite intelectual e do apetite sexual. Mas aparecia principalmente com variada aparência antropomórfica. Podia se manifestar a qualquer instante aos homens, o que provocava uma terrível angústia. Todos sabiam que viviam constantemente espreitados pelo 'antigo inimigo do gênero humano'.

Ele aparecia sob dois aspectos, resíduo talvez de uma dupla origem. Como sedutor, revestia-se de aparência enganadora e aliciante. Como perseguidor, aparecia sob seu aspecto terrificante.

Em seu disfarce mais comum, ele se vale da aparência de uma jovem de grande beleza, mas a Legenda Aurea está repleta de narrativas de peregrinos ingênuos ou fracos de fé que sucumbem ao Diabo que lhes aparece como um falso Santiago.

O Diabo perseguidor geralmente se recusa a disfarçar. Mostra-se às suas vítimas sob seu aspecto repugnante. No início do século 11 ele foi visto pelo monge Raul Gabler, 'numa noite antes do ofício das matinas', no mosteiro de Saint-Léger de Champeaux: 'Vi aparecer ao pé de meu leito uma espécie de homenzinho horrível de se ver. Tanto quanto pude apreciar, era de estatura mediana, com pescoço fino, rosto macilento, olhos muito negros, fronte rugosa e franzida, narinas delgadas, boca grande, lábios grossos, queixo fugidio e muito estreito, barba de bode, orelhas peludas, cabelos eriçados e emaranhados, dentes de cão, crânio pontudo, peito inchado, tinha uma corcunda nas costas, nádegas frementes e vestimenta sórdida'.

As infelizes vítimas femininas e masculinas de Satã costumam ser a presa do ímpeto sexual dos demônios conhecidos como íncubos e súcubos.

As vítimas de elite  são constantemente assediados por Satã, que se vale de todas as astúcias, de todos os disfarces, de todas as tentações, de todas as torturas. A mais célebre dessas vítimas heroicas do Diabo foi Santo Antônio.

Objeto de uma disputa terrena entre Deus e o Diabo, também na morte o homem era objeto de uma derradeira e decisiva disputa. A arte medieval representou à saciedade o momento final da existência terrestre, em que a alma do morto era disputada por Satã e São Miguel antes de ser levada pelo vencedor ao Paraíso ou ao Inferno. Notemos ainda aqui que, para não cair no maniqueísmo, o adversário do Diabo não é Deus em pessoa, mas seu lugar-tenente. Mas sublinhemos sobretudo que esta imagem do encerramento da vida do homem medieval acentua a passividade de sua existência, sendo a mais alta e surpreendente expressão de sua alienação.

Os poderes sobrenaturais não estavam reservados exclusivamente a Deus e Satã. Alguns homens eram dotados deles em certa medida. Uma camada superior da humanidade medieval era constituída de indivíduos munidos de dons sobrenaturais. O trágico disto é que o indivíduo comum, da massa, tinha dificuldade em distinguir entre os bons e os maus, sendo constantemente enganado ao participar deste teatro de ilusões e equívocos que foi a Idade Média. Jacopo de Varaze lembra na Legenda Aurea as palavras de Gregório Magno: 'Os milagres não fazem o santo, são apenas o seu sinal', e esclarece: 'Pode-se fazer milagres sem ter o Espírito Santo, pois os próprios maus já puderam se vangloriar de ter feito milagres'.

Os homens da Idade Média não duvidam que o Diabo pudesse realizar milagres - sem dúvida com a permissão de Deus, mas isso não muda nada o efeito produzido sobre o homem. Esta faculdade era também associada a mortais, e podia ser utilizada para o bem ou para o mal. Daí advém toda a dualidade equívoca da magia negra e da magia branca, que o vulgo tinha dificuldade de distinguir. É a dupla antitética de Simão o Mago e de Salomão o Sábio. De um lado, a gente maléfica dos feiticeiros, de outro o grupo bendito dos santos. O problema é que os primeiros apresentam-se em geral como santos disfarçados, pertencendo à grande família dos falsos profetas enganadores. Sem dúvida que podem ser desmascarados e opostos em fuga com um sinal de cruz, uma invocação oportuna, uma prece adequada. Mas como desmascará-los? Uma das tarefas essenciais dos verdadeiros santos é precisamente reconhecer e expulsar os preparadores de falsos, ou melhor, de maus milagres, isto é, os demônios e seus cúmplices terrestres, os feiticeiros. Neste aspecto São Martinho era um especialista. Segundo a Legenda Aurea, 'Ele brilhava por sua habilidade em reconhecer demônios, e os descobria sob todos os seus disfarces'. A humanidade medieval estava cheia de possuídos, vítimas infelizes de Satã que se escondia em seus corpos, ou de malefícios de magos. Somente os santos podiam salvá-los, obrigando seus perseguidores a soltá-los. O exorcismo era função essencial dos santos. A humanidade medieval excluía uma massa de possuídos de fato e em potencial, atormentada entre uma minoria de maus e uma elite de bons feiticeiros. Notemos ainda que embora 'os bons feiticeiros' fossem recrutados essencialmente no grupo dos clérigos, alguns leigos eminentes podiam também entrar nesta categoria. É o caso, do qual voltaremos a falar, dos reis milagreiros, dos reis taumaturgos".

Texto retirado de: LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Bauru, EDUSC. 2005. Páginas 153-156.


Adendo: Em 19.10.2020. Impressionante relato sobre a invenção do demônio no imaginário ocidental é encontrado no livro de Jean Delumeau - História do medo no Ocidente 1300-1800. O capítulo 7, das páginas 239 a 259 é dedicado a Satã. Uma história de horrores, seguramente.

sábado, 19 de setembro de 2020

História do cristianismo. Parte 3. A tentativa de organização germânica. Jacques Le Goff.

 Em 2018, sob inspiração e coordenação do professor Sebastião Donizete Santarosa, participei de um curso que denominamos de "Formação do pensamento Ocidental". Como o cristianismo é um dos componentes fundamentais desse pensamento ou cultura, o tema foi trabalhado. Buscamos, na época, mais os seus momentos fundadores e, dois textos foram trabalhados mais especificamente. O primeiro, de Paul Johnson, sobre o que se poderia chamar de ato fundador, retirado de seu belo livro História do cristianismo, em que relata o Concílio de Jerusalém, sob o comando do apóstolo Paulo. Dou o link: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/05/historia-do-cristianismo-parte-um.html O segundo texto foi retirado de outro belo livro Uma história da leitura, de Alberto Manguel e que versa sobre o Edito de Milão e o Concílio de Niceia, quando o cristianismo se transformou em religião oficial. Também dou o link: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/05/o-edito-de-milao-e-o-concilio-de-niceia.html

Agora, retomando o tema em um grupo mais restrito, por uma espécie de diletantismo, insiro no blog um terceiro texto, do livro do medievalista Jacques Le Goff A civilização do ocidente medieval, onde se mostra como o cristianismo praticamente se torna a religião de toda a Europa sob o império de Carlos Magno. Do livro, tomo da sua parte I, o início do capítulo 2, sob o título: "A tentativa de organização germânica (séculos 8º - 10º). Essa primeira parte do livro tem por título "Do mundo antigo à cristandade medieval. Vamos ao texto de Le Goff: "O Ocidente Carolíngio":

A civilização do Ocidente Medieval. EDUSC. 2005. Tradução de José Rivair de Macedo.

"A retomada inscreveu-se, em primeiro lugar, no espaço. A reconstituição da unidade ocidental pelos Carolíngios realizou-se em três direções: para o sudeste, na Itália; para o sudoeste, rumo à Espanha; e no leste, na Germânia.

Aliado do papa, Pepino o Breve introduz a política carolíngia na Itália, conduzindo uma primeira expedição contra os Lombardos em 754 e uma segunda em 756. Por fim Carlos Magno captura o rei Didier em Pavia no ano de 774, tomando-lhe a coroa da Itália, mas tem de lutar para se impor no norte da Península, e acaba perdendo os ducados lombardos de Spoleto e Benevento.

No sudoeste foi também Pepino quem deu o primeiro passo ao retomar Narbonne dos muçulmanos no ano de 759. Na lenda, entretanto, a reconquista da cidade estará ligada ao nome de Carlos Magno. Mais tarde, em 801, aproveitando-se das guerras internas dos muçulmanos, Carlos Magno tomará Barcelona. Foi então criada uma Marca da Espanha desde a Catalunha até Navarra, graças sobretudo ao conde Guilherme de Toulouse - que viria a se tornar o herói das canções de gesta do ciclo de Guilherme de Orange. Mas nem sempre os Carolíngios tiveram êxito na luta contra os muçulmanos e contra os povos pirenaicos. Em 778 Carlos Magno tomou Pampeluna mas não atacou Saragoça, tomou Huesca, Barcelona e Gerona e, abandonando Pampeluna depois de arrasá-la, retomou o caminho do norte. Montanheses bascos armaram uma emboscada contra a retaguarda dos Francos para apropriar-se de seus pertences. Em 15/8/778, no Desfiladeiro de Ronscesvales, os Bascos massacraram as tropas comandadas pelo senescal Eggiharde, o conde palatino Anselmo e o prefeito da Marca da Bretanha chamado Rolando. Os Anais Reais carolíngios não mencionam uma palavra a respeito da derrota; um dos compositores dos anais anota para 778: 'Neste ano o senhor rei Carlos foi à Espanha e sofreu um grande desastre'.  Os vencidos foram transformados em mártires e os seus nomes perpetuaram-se. A revanche dos francos foi La Chanson de Roland.

No leste, Carlos Magno deu início a uma tradição de conquista em que massacre e conversão misturavam-se - a cristianização pela força que a Idade Média iria praticar por muito tempo. Ao longo do Mar do Norte, de 772 a 803 os Saxões foram conquistados com muito custo, numa série de campanhas em que alternavam vitórias aparentes e revolta de pretensos vencidos - da qual a mais espetacular foi liderada por Widukind em 778. Ao desastre sofrido pelos Francos no Süntal seguiu-se uma repressão feroz: Carlos Magno mandou decapitar quatro mil e quinhentos revoltados em Verden.

Auxiliado por missionários - todo e qualquer ferimento cometido contra algum deles e toda ofensa à religião cristã eram punidos com a morte segundo uma capitular editada com o fim de ajudar a conquista -, e conduzindo ano após ano os guerreiros para o interior do território, batizando uns, pilhando outros, queimando, massacrando e efetuando deportações em massa, Carlos acabou por subjugar os Saxões. Bispados foram criados em Bremen, Münster, Paderborn, Verden e Minden.

O horizonte germânico, especialmente o Saxão, atraiu Carlos Magno para o leste. Ele trocou o Vale do Sena, em que os Merovíngios tinham se fixado em Paris e seus arredores, pelas regiões do Mosa, do Mosela e do Reno. Sempre itinerante, frequentava preferencialmente as cidades reais de Heristal, Thionville, Worms e sobretudo Nijmeegen, Ingelheim e Aix-la Chapelle, onde mandou construir três palácios. O de Aix ganhou certa preeminência devido ao tipo particular de sua arquitetura, o número de vezes que Carlos Magno lá esteve, e a importância dos acontecimentos de que foi palco.

A conquista da Baviera foi a de um território já cristianizado e que, teoricamente, era vassalo dos francos desde os tempos merovíngios.

A nova província bávara permanecia exposta às incursões dos Ávaros, povo de origem turco-mongol proveniente das estepes asiáticas, como os Hunos, e que ao dominar um certo número de povos eslavos criara um império que englobava as duas margens do Danúbio Médio, da Caríntia à Panônia. Saqueadores profissionais, tinham acumulado enorme butim de seus reides em seu quartel general que conservava ainda a forma redonda das tendas mongóis: o Ring. Este acabou nas mãos de Carlos Magno em 796, e o soberano Franco anexou a parte ocidental do Império ávaro - entre o Danúbio e o Drave.

Mas o Estado carolíngio mal tocara o mundo eslavo. Expedições conduzidas ao curso inferior do Elba e além, depois da conquista da Saxônia, tinham repelido ou englobado certas tribos eslavas. Com a vitória sobre os Ávaros, Eslovenos e Croatas passaram a fazer parte do mundo franco.

Carlos Magno lançou-se, enfim, contra os gregos. Mas este foi um conflito muito particular, cujo significado prende-se a um acontecimento que, em 800, conferiu novas dimensões à empresa carolíngia: a coroação do rei franco como imperador pelo papa em Roma.

O restabelecimento do Império no Ocidente não parece ter sido ideia carolíngia, mas sim pontifical. Carlos Magno tinha interesse de consagrar a divisão do antigo Império romano num Ocidente em que seria o chefe e num Oriente que não ousava disputar ao basileus bizantino, mas recusava-se reconhecer a este o título imperial que evocava uma unidade desaparecida.

Mas em 799 o papa Leão III viu uma tripla vantagem em dar a coroa imperial a Carlos Magno. Aprisionado e perseguido por seus inimigos em Roma, ele precisava ver sua autoridade restaurada de fato e de direito por qualquer um que pudesse impor autoridade a todos sem contestação: um imperador. Chefe de um Estado temporal, o Patrimônio de São Pedro, ele desejava ver esta soberania temporal corroborada por um rei superior a todos os demais - tanto em título quanto de fato. Enfim, junto com uma parte do clero romano, pensava em fazer de Carlos Magno um imperador para todo o mundo cristão, incluindo Bizâncio, a fim de lutar contra a heresia iconoclasta e de estabelecer a supremacia do pontífice romano sobre toda a Igreja. Carlos Magno se deixou convencer e coroar em 25/12/800. Mas só se defrontou com Bizâncio para obter reconhecimento de seu título e de sua igualdade. O acordo foi firmado em 814, alguns meses antes de sua morte. Os francos devolveram Veneza, mantendo as terras do norte do Adriático e o Basileus reconheceu o título imperial de Carlos Magno.

Carlos Magno teve a preocupação de administrar com eficácia este vasto espaço. Embora as determinações de governo fossem em geral orais, o uso da escrita veio a ser estimulado, e um dos principais objetivos do renascimento cultural de que se falará adiante foi o aperfeiçoamento profissional dos oficiais reais. Carlos Magno esforçou-se sobretudo para estender sua autoridade a todo reino franco aperfeiçoando os textos administrativos e legislativos e multiplicando enviados pessoais, quer dizer, representantes do poder central.

O instrumento escrito era constituído pelas capitulares ou ordenações, algumas particulares, destinadas a uma região, como as capitulares dos saxões, e outras gerais, como a capitular de Herstal (ou Heristal) sobre a reorganização do Estado (779), a capitular De Villis, sobre a administração dos domínios reais e a capitular De litteris colendis, sobre a reforma da instrução. O instrumento humano era constituído pelos missi dominici, pessoas importantes de proveniência laica ou eclesiástica enviadas anualmente para fiscalizar os representantes do soberano - condes e, nas fronteiras, marqueses ou duques - ou reorganizar a administração. Acima, os mais importantes membros da aristocracia eclesiástica e laica do reino reuniam-se anualmente, ao fim do inverno, numa Assembleia Geral com o soberano. Esta espécie de parlamento aristocrático - a palavra populus  que os designa não deve nos enganar - que garantia a Carlos Magno a obediência de seus súditos viria, ao contrário, impor a seus fracos sucessores a vontade dos grandes do reino.

Com efeito, no decurso do século 9º, a grandiosa construção carolíngia viria a se desorganizar rapidamente sob os golpes conjugados de inimigos externos - novos invasores - e de fatores internos de desagregação". LE GOFF, Jacques. A civilização do mundo ocidental. Florianópolis, Edusc. 2005. Páginas 43- 46.



quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O Processo. Franz Kafka.

Mais uma vez me deparo com Franz Kafka. Dessa vez, pela retomada dos livros da Biblioteca Folha, pelo livro de número 17, O Processo. Lembro de Kafka pelo cinema e pela leitura, em 2007, quando cheguei até o terceiro capítulo (o livro da L&PM Pocket). O preparo de aulas e outros focos de interesse serviram de pretexto para a interrupção. No filme, que passou tarde da noite, houve a interrupção pelo sono. Tudo se justifica. O livro não é de leitura fácil, embora o título dos capítulos te dê as pistas sequenciais da descrição.
O Processo. Biblioteca Folha. 2003. Primeira edição em 1925. Tradução de Modesto Carone.

A primeira das frases sintetiza bem o livro: "Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum". Esse é o começo de um enorme emaranhado de circunstâncias sem saída e de um envolvimento cada vez mais complicado, com juízes, tribunais, cartórios, advogado, sacerdote, pintor, meninas, num enrendar cada vez mais comprometedor. Como o mais importante de uma obra literária é entender o que o autor quis dizer e como se trata de uma das mais importantes obras da literatura universal, recorro à voz de dois especialistas.

O primeiro é Modesto Carone, autor de um belo posfácio, para a edição da Biblioteca Folha. O seu posfácio tem sete tópicos dos quais tomo o de número cinco, sobre as possíveis interpretações da obra. Lembrando que a obra foi escrita a partir de 1914, com interrupções e publicada postumamente em 1925, por Max Brod, amigo e testamenteiro literário. Kafka teve uma problemática e curta vida (1883- 1924). Deixo o link de uma biografia sua. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/08/franz-kafka-por-louis-begley.html  Mas vamos a Carone:

"Esses pormenores (dados biográficos, influências e contextualizações) ajudam a localizar algumas circunstâncias de caráter histórico e pessoal capazes de alimentar o impulso de fabulação do romancista na época em que estava gestando O Processo. Mas é evidente que nenhum deles pretende ou pode dar conta da obra enquanto generalização artística da experiência. A esta tarefa se lançam, com assiduidade, as interpretações do romance, cujo número, nas mais variadas vertentes (teológicas, filosóficas, socio-políticas, psicanalíticas, estético-formais etc.), aumenta à medida que se amplia a posição de Kafka como um clássico da Weltliteratur. É compreensível que as notas de um posfácio não comportem nem mesmo um sumário dessas exegeses, mas isso não impede que sejam citados alguns exemplos interessantes.

Na linha teológico-existencial, há um grupo bem numeroso de intérpretes que veem no romance a representação da culpa do homem contemporâneo, já que o livro não trata de um processo criminal que se desenrole diante de uma corte de justiça convencional. Outros, pela mão contrária, descartam qualquer viés alegórico desse tipo e afirmam, baseados na História, que nada é mais real (ou realista) que O Processo, pois o entrecho reflete a desumanização burocrática da Monarquia do Danúbio. Os que não concordam com esta tese, entretanto, argumentam que a administração austro-húngara nada tinha em comum com as imagens de O Processo, além do que a avaliação da burocracia, feita pelo Kafka funcionário público, não era a de um súdito impotente diante de uma máquina impessoal e aniquiladora. Mas há críticos que consideram de outra natureza o realismo de Kafka - para eles um escritor habilitado a oferecer, a partir do seu ângulo específico de observação histórica, uma visão esteticamente eficaz e nada metafísica do que ainda estava por acontecer; por isso, O Processo pode ser concebido como uma profecia do terror nazista, em que a detenção imotivada, os comandos de espancamento, as decisões incontrastáveis das esferas de poder e o assassínio brutal faziam parte do cotidiano. Seguindo uma linha análoga de raciocínio, que procura por em evidência a lucidez de um autor 'desengajado' (e podado pelo stalinismo), constam também da bibliografia análises que percebem no romance o esforço bem-sucedido de mapear por dentro a alienação encoberta do dia-a-dia através das peripécias de K. pelas instâncias reificadas do mundo administrado. Vistos desse ângulo 'protocolos herméticos' como O Processo desvendam a gênese social da esquizofrenia; ou então um universo sem esperanças, de onde foi banido o mito da salvação. Com menos sutileza, existe quem perceba, nesta como em outras narrativas de Kafka, a expressão do 'vanguardismo decadente' de um pequeno-burguês angustiado, que hipostasiou o medo ao invés de superá-lo pela análise concreta.  Já na vertente psicológica ou psicanalítica, o leitor encontra afirmações no sentido de que a ação romanesca de O Processo reflete um caso de neurastenia, ou então que as desventuras objetivas de K. são apenas um sonho, quando não a imagem delirante de um indivíduo entregue ao isolamento e à exaustão. Uma vez porém que a história é narrada da perspectiva do personagem, não faltam os que reconhecem, nos acontecimentos do livro, ora um mundo de aparência, ora um mero 'processo de pensamento' de Josef K.

O contraste entre essas teses dá uma ideia do que ocorre na fortuna crítica do romance - a tal ponto que soa plausível pretender, como fazem alguns estudiosos, que as questões relativas ao 'sentido' da obra continuam em aberto. Mesmo os trabalhos centrados na organização formal do romance acabam por tratá-lo como uma espécie de 'metáfora absoluta', que remete aos seus próprios termos, retirando-lhe assim a dimensão do conhecimento. Mas é evidente que, agindo desse modo, essas análises se transformam no avesso vazio das interpretações que se propõem como definitivas".

Já a edição da L&PM Pocket tem um prefácio assinado por Marcelo Backes, em que apresenta o autor e a obra. Marcelo apresenta a obra da seguinte maneira:

"A obra de Kafka já foi analisada por todos os ângulos, e o volume de sua fortuna crítica encheria bibliotecas inteiras. O desespero do homem moderno em relação à existência, a eterna busca de algo que não está mais à disposição, a pergunta por aquilo que não tem resposta são as características mais marcantes de seus livros. Seus personagens são vítimas de um enigma insolúvel - a própria vida. Com sua obra, Kafka escreve o evangelho da perda, assinala a ausência de luz no fim do túnel. Ele é o escritor do lusco-fusco, o poeta da penumbra, a literatura em seu próprio crepúsculo.

O realismo de Kafka é mágico, mas sóbrio ao mesmo tempo; seu humor às vezes é grotesco, outras vezes, irônico, mas, no fundo, sempre carregado de seriedade. Sua prosa é dura, seca e despojada. Kafka reduz a riqueza da língua alemã a trezentas palavras, e mesmo assim é um dos maiores estilistas da prosa alemã. O que Kafka escreve é ele mesmo, o ser em si. Sua literatura é seu 'eu' feito letra; seu estilo é marcante, embora uma de suas maiores características seja a impessoalidade. É como se o autor não necessitasse da muleta do estilo - em seu aspecto subjetivo - para fazer brotar seu eu, sua individualidade. Kafka não trata de ânimos ou ambientes, nem de experiências ou psicologias. Ele fala do fundamento da existência em si, do qual a parábola é o melhor modelo. Num dos fragmentos de seus Diários está escrito: 'Escrever como forma de oração', e Kafka fez de sua arte sua reza.  Em outra passagem o autor diria: 'Um livro tem de ser o machado para o mar congelado do nosso interior'. O Processo - e toda a obra de Kafka - é um exemplo perfeito disso.

George Lukács, marxista ortodoxo, viu em Kafka apenas a decadência tardia do mundo burguês. Theodor Adorno, marxista tardio, teórico da Escola de Frankfurt, disse: 'os protocolos herméticos de Kafka contêm a gênese social da esquizofrenia', e assinalou em Kafka a essência do mundo moderno".



sábado, 5 de setembro de 2020

O caso Morel. Rubem Fonseca.

Mais um livro da coleção Biblioteca Folha (2003). É uma coleção de 30 livros, contemplando literatura brasileira e universal. O livro da vez foi o de número 7, O caso Morel, de Rubem Fonseca. (1925- 2020). É o terceiro livro que leio desse escritor, recentemente falecido. Anteriormente li Agosto, um bom livro e O seminarista, do qual não gostei. Também tive dificuldades em ler O caso Morel. Questões de gosto.
O caso Morel. 2003. Biblioteca Folha.


Creio que todos sabem que a especialidade de Rubem Fonseca é o romance policial. Ele mesmo foi comissário de polícia no início de sua vida profissional, conhecendo bem, portanto, o seu novo campo de trabalho, abraçado posteriormente, o da literatura. O caso Morel é o seu primeiro romance. Também enveredou pelo campo do cinema. O livro é datado do ano de 1973, no auge do regime civil/militar, instaurado pelo golpe de 1964.

O romance, como o título indica, é um típico caso policial. Paul Morel é um artista e como tal é uma pessoa bem articulada na elite econômica e social do Rio de Janeiro. O romance ganha valor à medida em que ele é uma crônica do cotidiano da vida pobre dessa gente rica. Sexo, em todas as formas possíveis, e morte perpassam todo o romance. As práticas sado/masoquistas ganham grande destaque. Heloísa Wiedecker adorava apanhar enquanto tinha relações sexuais. Paul Morel lhe satisfazia esses desejos até seus limites extremos. Essa relação é a essência do Caso Morel. Heloísa aparece morta na praia e começam as investigações. Essas se misturam com a escrita de Morel.

A insatisfação do ser humano está onipresente. Freud estava certo. O desejo e a sexualidade movem o ser humano. Morel é um eterno insatisfeito, assim como as mulheres que frequenta. Ele, inclusive, inventou uma nova relação familiar. Se não for nova, a palavra harém também pode designar a sua invenção. José Geraldo Couto, colunista da Folha, dá informações precisas sobre o livro, na sua contracapa:

"O artista de vanguarda Paul Morel, preso por um crime violento que ele próprio não sabe se cometeu, resolve escrever um livro contando sua vida. Para isso, pede ajuda ao escritor e ex-delegado Vilela, a quem entrega trechos do manuscrito à medida que vai escrevendo.

O caso Morel intercala o relato do prisioneiro - repleto de orgias e de reflexões irônicas sobre a arte e a cultura de nosso tempo - com seus desencantados diálogos com Vilela, uma espécie de alter ego de Rubem Fonseca, que havia surgido em A coleira do cão (1965) e reapareceria depois em vários contos e romances do escritor, especialmente em A grande Arte (1983).

Publicado em 1973, O caso Morel é o primeiro romance de Rubem Fonseca e contém todos os elementos que fariam dele um dos escritores mais influentes da literatura brasileira das últimas três décadas. A narrativa veloz, incisiva, a observação aguda do lado mais obscuro do comportamento humano, o hábil domínio dos diálogos, a presença da violência sob todas as sua formas - física, psicológica, moral -, o trânsito frequente entre o registro culto e o popular, o exame implacável das contradições sociais, tudo isso faz deste livro um dos grandes romances policiais de nossa época e uma das obras mais fortes de um autor obcecado pelas pulsões básicas do homem: sexo e morte".

O livro é narrado em 22 pequenos capítulos e um FIM. Desse Fim tomo uma informação interessante sobre a ilustração do crime. Além de Morel, também um ladrão era suspeito do mesmo.

"Um ladrão é considerado um pouco mais perigoso do que um artista. 
Matos foi visitar Morel, contou para ele os últimos acontecimentos: a morte de Félix, a reabertura do inquérito, as perspectivas de liberdade imediata.
No entanto ele não parecia muito satisfeito".



quarta-feira, 2 de setembro de 2020

A consciência de Zeno. Italo Svevo.

Se o grande romance é aquele que mais consegue expor o ser humano em suas diferentes dimensões, não haverá dúvidas de que A consciência de Zeno, de Italo Zvevi, contempla esse quesito e, com certeza, frequenta a lista dos grandes romances da literatura universal. O livro foi lançado na Itália no ano de 1923 e traz dentro de si profundos reflexos da primeira guerra mundial. O cenário do romance é a hoje cidade italiana de Trieste, que na época pertencia ao império austro húngaro. O último capítulo do livro tem quatro datas, três de 1915 e uma de 1916. O livro demorou um pouco para ser publicado.
A consciência de Zeno. Biblioteca Folha. 2003. Tradução de Ivo Barroso.

Italo Zvevo é o pseudônimo de Ettore Schmitz, nascido em Trieste no ano de 1861. Morreu em Motta de Livenza (Itália) em 1928, num acidente de carro. As dificuldades financeiras o levaram cedo ao trabalho em banco mas, já neste período, se dá a sua iniciação no campo da literatura. O sucesso só lhe veio quando James Joyce apresentou A consciência de Zeno a críticos literários franceses, que se encantaram com o escritor e recomendaram sua publicação na França. Zvevo foi aluno de inglês de Joyce e este passou a ser um grande admirador seu. 

Em 1915, com a guerra, que o levou à inatividade, iniciou a sua carreira de escritor. A fama lhe veio com esse livro, após a recepção favorável pela crítica. Na orelha de capa do livro encontramos dois parágrafos bem ilustrativos da obra:

"Já no fim da vida, Zeno Cosini, um bem-sucedido empresário de Trieste (norte da Itália), decide fazer um balanço de suas experiências no divã de um analista. Ali, deitado no estreito sofá, ele começa a dar conta de que toda a sua história, passada e presente, se compõe de pequenos fracassos: o casamento com uma mulher que ele não escolheu, o trabalho que não lhe agradava, as tentativas falhadas de parar de fumar ou de simplesmente mudar de rumo, ter outro destino. A lenta escavação dos fatos e das impressões pela memória é então submetida à visão implacável, irônica e às vezes hilariante de Zeno - que assim, de certa forma, consegue libertar-se da 'doença', mas não de suas neuroses.

Imediatamente aclamada por autores do porte do romancista James Joyce e do poeta Eugênio Montale, esta obra-prima de Italo Svevo (1861-1928) põe do avesso as distinções entre sanidade e loucura, sucesso e derrota, ao mesmo tempo em que expõe ao ridículo os valores da moral burguesa. Valendo-se de recursos próprios da psicanálise, como a livre associação de ideias, o romance faz ainda uma sátira da ciência criada por Freud - de quem Svevo, aliás, foi tradutor. É assim que Zeno chega à conclusão de que sua vida, afinal 'foi mais bela do que a dos assim chamados sãos'. Italo Svevo morreu cinco anos depois de alcançar a consagração literária com este romance".

O seu relato, profundamente autobiográfico, é relativamento longo. São 383 páginas de letra bem miudinha. Estou falando da edição da Biblioteca Folha (2003). Ele está dividido em seis capítulos, após um pequeno prefácio e preâmbulo. Nos capítulos são relatados os seus problemas: no primeiro o seu vício com o fumo; no segundo, a morte prematura de seu pai; no terceiro, a história meio trágico-cômica de seu casamento; no quarto, conta a história de sua relação com a amante, que assim como o cigarro, um milhão de vezes prometeu largar; no quinto, o mais trágico de todos conta as desventuras de uma sociedade comercial que manteve com o seu cunhado, que ao final das trapalhadas consegue cometer o suicídio. Já o sexto e último capítulo é dedicado a psicanálise.

Fiz algumas anotações no capítulo da psicanálise, o mais irônico de todos: A primeira é geral, sobre o tratamento. "Minha cura devia acabar porque minha doença fora descoberta. Era a mesma que em seu tempo o falecido Sófocles diagnosticara em Édipo: eu amava minha mãe e queria matar meu pai". A segunda reflete a sua decepção, quando procura um médico e não mais o psicanalista: "Dr. Paoli examinou minha urina em minha presença. A mistura coloriu-se de negro e o médico ficou pensativo. Era finalmente uma análise de fato, não uma psicanálise". Por fim ele diz que foi curado pelo comércio.

As últimas páginas, dentro do capítulo sobre a psicanálise, são dedicadas ao estouro da primeira guerra e a uma análise de seu tempo. Selecionei uma passagem, altamente profética sobre o futuro: "A vida atual está contaminada até as raízes. O homem usurpou o lugar das árvores e dos animais, contaminou o ar, limitou o espaço livre. Mas o pior está por vir. O triste e ativo animal pode descobrir e pôr a seu serviço outras forças da natureza. Paira no ar uma ameça deste gênero. Prevê-se uma grande riqueza... no número de homens. Cada metro quadrado será ocupado por ele. Quem se livrará da falta de ar e de espaço? Sufoco só de pensar nisso! E infelizmente não é tudo".

E uma última observação, que tomo de Bernardo Ajzenberg, contida na contracapa da edição da Biblioteca Folha: "O romance de Italo Svevo, não por acaso, é um daqueles nos quais o protagonista mais se desnuda. Ele expõe, a um tempo, com ironia e detalhes surpreendentes de tão ínfimos, não apenas o desencontro público e privado de um indivíduo sem eixo, mas também a decadência da classe e do período histórico que ele, sem saber, representa". Super recomendo.

domingo, 23 de agosto de 2020

Uma escola para o povo. Maria Teresa Nidelcoff.

Participando de trabalhos de organização de cursos de formação me veio à memória um livro que marcou muito a minha formação e que também utilizei muito em minhas atividades docentes. Falo do livro da educadora argentina Maria Teresa Niedelcoff, sob o título de Uma escola para o povo. Devo ter adquirido o livro no ano de 1982. A obra foi publicada originalmente na Argentina em 1975 e no Brasil em 1978. Foi mais ou menos nessa época que eu também entrei em contato com a obra de Paulo Freire.
Capa do livro Uma escola para o povo.  Tradução João Silvério Trevisan.

Quando eu falo que este livro marcou a minha formação eu me detenho numa interrogação fundamental - a de - como eu me formei como educador? A minha formação original é a de seminário e a minha faculdade de filosofia foi muito ligada a questão da formação religiosa, alguns rudimentos de história da filosofia e de algumas questões de lógica e epistemologia. Já na docência, o livro didático era o grande guia para as aulas. Em alguns livros, lembro, eu interferi bastante. Sempre utilizei também dados da atualidade. Sempre fui assinante de jornais e de revistas. Lembro particularmente de um jornal editado pela PUC de Porto Alegre, Mundo Jovem. Assim, a minha formação foi sendo forjada ao longo do trabalho. A minha atividade sindical também foi o grande elemento da minha formação.

Na contracapa do livro lemos: "Maria Teresa Nidelcoff, educadora argentina, inicia um diálogo com mestres, educadores e professores; coloca e distingue a questão do 'mestre-policial' ou 'mestre-povo' e a polêmica existente entre uma atitude 'policialesca e castradora' de ensino ou uma criativa de 'engajamento' na cultura do educando. É um trabalho consciente das atuais mudanças nos relacionamentos professor/aluno do ensino de primeiro grau (terminologia da época - hoje ensino fundamental) dos setores menos privilegiados. Livro dirigido principalmente àqueles que atuam em favelas, bairros operários e periferia, questiona os métodos de ensino vigentes".

Quando me lembrei desse livro estávamos procurando bibliografia referente a tomada de consciência do educador, de sua identidade de classe e compromissos decorrentes. Identidade, compromissos e coerência de vida na prática docente. O educador precisa ter convicções em seu trabalho. Sempre me acompanha uma afirmação de Jean-Claude Forquin, de seu livro Escola e cultura - as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar de que "ninguém pode ensinar verdadeiramente se não ensina alguma coisa que seja verdadeira ou válida a seus próprios olhos". Aliás, o subtítulo do livro de Forquin é mais ou menos o tema do livro da educadora argentina, as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar. Então vamos ao livro.

Como ficou claro no relato da contracapa - existem fundamentalmente dois tipos de professor: o professor-policial e o professor-povo, ou no original espanhol, "maestro pueblo o maestro gendarme". O professor policial assume o compromisso da manutenção da ordem social existente, atuando em favor de quem domina essa ordem. Já o professor-povo assume as dores de uma ordem social injusta e se engaja na luta para a transformação das estruturas injustas. Assume um compromisso de classe e a consciência de pertencimento a uma delas. Assim o educador se transforma num parceiro de seus alunos e de seus pais.

Esta é a tônica do livro, apresentada em seus seis capítulos, depois de uma pequena apresentação: 1. Que caminho escolher; 2. Com que objetivos trabalhamos; 3. Conteúdos que são transmitidos na escola; 4. Como trabalhamos; 5. A avaliação e seus problemas; 6. Nossas relações com os pais dos alunos. Segue uma pequena e rica bibliografia, em que são citados os primeiros livros de Paulo Freire (Educação como prática da liberdade e Pedagogia do oprimido), Freinet, Makarenko e o monumental livro dos alunos da escola de Barbiana Cartas a uma professora. Deixo o link desse livro.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/04/carta-uma-professora-pelos-rapazes-da.html


Toda o livro está na diferenciação da perspectiva do professor que assumiu a identidade e compromisso de classe e o professor que repete um ritual burocrático e insosso de atividades engajadas na manutenção de uma escola que não toma partido, numa mecânica de reprodução das estruturas de uma sociedade injusta, sob o manto da neutralidade. O livro é farto de exemplos da realidade argentina, em nada diferente da realidade brasileira e latino americana. Assim são tratadas as atividades de planejamento escolar, as questões curriculares, a metodologia, a avaliação e - tudo permeado pela questão do uso de uma linguagem apropriada.

Como a atividade de formação que preparávamos se destina a formação de quadros dirigentes para a atividade sindical de educadores, deixo a última frase do livro: "No nível do professor sindicalista, ele será professor-povo' na medida em que não se isole nas reivindicações meramente salariais, e não apenas entre educadores; antes dos salários, deve reivindicar a escola do povo e integrar sua ação nas lutas da classe trabalhadora".

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

A linha de sombra. Joseph Conrad.

Continuo com a leitura dos livros da coleção Biblioteca Folha. Agora foi a vez do fantástico livro de Joseph Conrad, A linha da sombra. A escolha do livro se deu fundamentalmente pelo seu escritor. Conheci Joseph Conrad pelo seu Coração das trevas, livro de 1899, que relata uma viagem sua para o Congo belga, mostrando os horrores do colonialismo. A mesma edição do Coração das trevas, da Companhia das Letras, também contem Um posto avançado do progresso. Coração das trevas serviu de inspiração para o Apocalipse Now de Coppola. Deixo o link, tanto do livro como do filme:

Joseph Conrad me impressionou muito. A linha da sombra teve um título anterior no imaginário do escritor - Primeiro Comando. Faz todo o sentido, pois,  trata-se de uma viagem sua, uma viagem de navio, a primeira na condição de comandante. Esta obra só cabe no imaginário de um experiente marinheiro, conhecedor profundo dos segredos da navegação. Vejamos alguns dados biográficos do escritor, retirados da orelha da contracapa do livro.
A linha da sombra. Biblioteca Folha. 2003. Tradução de Maria Antonia Van Acker.

"Józef Teodor Konrad Korzeniowski nasceu em 1857, em Berditchev (Ucrânia), numa família de patriotas empenhados em libertar a Polônia do domínio russo. Acompanhando o exílio de seus pais (na própria Rússia), teve seu primeiro contato com a língua inglesa enquanto seu pai traduzia autores como Shakespeare e Victor Hugo. Antes de completar 12 anos, ficou órfão; sua educação foi confiada a um tio materno.

Adolescente, entediou-se com a escola e escolheu a vida no mar. Aos 17 anos tornou-se aprendiz de marinheiro em Marselha, França. Em 1878, mudou-se para a Inglaterra, onde seguiu carreira na Marinha e ganhou cidadania inglesa, com o nome de Joseph Conrad". Aos 38 anos abandona a vida de marinheiro e começa a sua vida de escritor. É considerado um dos maiores estilistas da língua inglesa, língua da qual nunca dominou a fala.

Bem, esse dado biográfico é necessário para entender A linha da sombra. O inexplicável abandono da vida de marinheiro o fez pedir a aposentadoria. Esse plano, porém, não se concretizou. Sob a influência de um capitão amigo, enceta a sua última viagem, na qualidade de comandante de um navio. O livro é do ano de 1917. Vejamos o relato contido na orelha da capa do livro:

"Sem nenhum motivo aparente, um jovem da marinha mercante inglesa resolve abandonar a vida no mar. Está decidido a partir do distante porto oriental onde se encontra para regressar ao país de origem. Mas surge uma última missão e o jovem assume o comando de um velho navio atracado em Bancoc (Tailândia), cujo capitão morrera recentemente em circunstâncias misteriosas.

Sofrendo com as tempestades, a tripulação doente e uma ameaçadora sensação de aniquilamento, o protagonista tenta conduzir o navio a seu destino, ao mesmo tempo em que se deixa levar pelas estranhas histórias de seu imediato, consumido pela febre.

Com domínio total da psicologia das personagens e da situação-limite que vivem, Joseph Conrad (1857-1924) reflete nesta novela, a partir de elementos de sua própria biografia, sobre o rito de passagem entre a juventude e a idade madura - passagem que ele mesmo experimentou ao abandonar a relativamente autônoma vida marítima pela incerta experiência literária".

O romance, ou novela, tem seis capítulos, que num crescendo vão dando os relato diário de uma aventura tocada entre os limites do humano e as forças sobrenaturais. Depois de 17 dias, praticamente sem avançar, detido por calmarias, ele consegue aportar, em "uma navio sem tripulação". Esta fora consumida pela doença, pois se encontrava sem remédios a bordo. A sua façanha termina sem nenhum morto a bordo e por um único convalescente, o sr. Burns, o auxiliar do comandante falecido. É emocionante a dedicação do cozinheiro, Ransome, ao capitão. Ele só adoece com o navio já aportado. O livro tem uma fantástica "Nota do autor", explicativa do ocorrido, nos limites das forças humanas.

O livro é maravilhoso, com o destaque para três personagens. O comandante e a sua responsabilidade, o cozinheiro e a sua leal e sobre-humana dedicação e os delírios do primeiro auxiliar do ex-comandante falecido. Com todas as minhas recomendações. 

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O amante. Marguerite Duras.

Continuo as minhas leituras da Biblioteca Folha. O livro da vez, agora foi O amante, de Marguerite Duras. O livro nos leva para a cidade de Saigon e desvenda muitos dos mistérios que envolveram a colonização francesa no sudeste asiático. O livro foi escrito em 1984 e, com ele, ela ganhou o mais importante prêmio da literatura francesa, o Prêmio Goncourt. O livro marca um encontro da escritora com o seu passado, vivido em Saigon e proximidades. Vamos situar um pouco o romance e a escritora.
O amante. Biblioteca Folha. 2003. Tradução de Aulyde Soares Rodrigues.

Marguerite Duras é o pseudônimo de Marguerite  Donnadieu. Ela nasceu em Gia Dihn, no Vietnã, onde passou a infância e a adolescência. A vida não lhe foi nada fácil. Lá perde o pai e a mãe ganha uma concessão de terras no Camboja, também de colonização francesa, que quase levou a família à falência. Esses tempos são a memória profunda da escritora e o tema do presente livro. Ela virá a morar em Paris por volta dos dezoito anos. Essa viagem de navio que a traz de volta a Paris ocupa as últimas páginas do livro. No Vietnã, a menina tem um amante chinês, mais velho e muito rico.A relação foi muito louca e evidencia um mundo de preconceitos, os preconceitos de raça sempre presentes nas histórias que envolvem o colonialismo.

Marguerite Duras é conhecida no mundo da literatura pela exposição de sua vida em suas obras. Vejamos o parágrafo final do livro: "Anos depois da guerra, depois dos casamentos, dos filhos, dos divórcios, dos livros, ele foi a Paris com a mulher. Telefonou-lhe. Sou eu. Ela reconheceu a voz. Ele disse: queria apenas ouvir sua voz. Ela disse: sou eu, bom dia. Ele estava intimidado, com medo, como antes. Sua voz começou a tremer de repente. E, com esse tremor, subitamente ela reencontrou o sotaque da China. Ele sabia que ela começara a escrever, soubera pela mãe, com quem se encontrou em Saigon. E também sobre o irmãozinho, ficara triste por ela. E depois não soube mais o que dizer. E depois lhe disse. Disse que continuava como antes, que a amava ainda, que jamais poderia deixar de amá-la, que a amaria até a morte". 

O livro é a narrativa desse louco amor, ou melhor, dessa louca paixão, praticamente imposta pela necessidade do dinheiro. A escritora, na época era uma menininha.  A narrativa envolve ainda a mãe e dois irmãos, sendo o mais velho absolutamente pervertido e o mais novo terá uma morte precoce. A escritora tornou-se famosa com os seus roteiros para o cinema, entre eles Hiroshima Mon Amour. Vamos ver um pouco sobre ela, pela orelha da capa do livro:

"Nascida nos arredores de Saigon (Vietnã) pouco antes do estouro da Primeira Guerra, Marguerite Duras tornou-se um dos mais influentes nomes da literatura francesa a partir da década de 1940, escrevendo romances e roteiros para cinema (Hiroshima Mon Amour, é o mais famoso deles). Mas foi só aos 70 anos de idade que Duras ganhou projeção internacional, com a novela O amante,  vencedora do Prêmio Goncourt de 1984 e traduzida para mais de 40 idiomas.

Filtrada por uma memória ao mesmo tempo autobiográfica e ficcional, a narrativa (que se passa em 1929) reconstitui os embates de uma adolescente que mantém uma relação com um oriental dez anos mais velho que ela. Intensamente lírico e erótico, O amante acompanha com rara felicidade a descoberta e o esgotamento da sexualidade, consumida em fogo lento pela escrita corrosiva de Duras.

Em 1991 o livro ganhou versão para o cinema pelo diretor francês Jean-Jacques Annaud.

Vamos ainda aos quatro parágrafos de Bernardo Carvalho, colunista da Folha, na contracapa do livro: "O amante  conta a descoberta do amor e do sexo por uma adolescente, filha de uma família de colonos falidos na Indochina francesa, nos anos 30. O amor proibido da menina branca, sua entrega a um jovem chinês rico, dez anos mais velho do que ela, é também uma forma de escapar à claustrofobia e à derrocada da família, o seu 'envelhecimento' precoce, a descoberta da sua solidão. É também a história da própria escritora.

Duras ergueu uma ponte impensável entre fotonovela e literatura de vanguarda. Seu amante, nesse sentido, é um príncipe encantado que faz da menina adolescente uma prostituta aos olhos dos outros e que a faz descobrir ao mesmo tempo a solidão de seu próprio desejo, e por consequência a vocação para a literatura. Em troca, e à imagem da prostituta, a menina faz o amante apaixonado sofrer de amor.

É a coragem ou a loucura de avançar sobre um fio tênue entre a originalidade e o grotesco que fez de Duras uma verdadeira escritora - sabendo que corria o risco de escorregar, de resvalar no ridículo, e ainda assim preferindo o risco à repetição. Razão de sua obra muitas vezes ser tão vulnerável e dependente dos bons olhos do leitor.

A obra de Duras é essa vulnerabilidade, essa exposição ao leitor, sem a cumplicidade do qual pode não restar nada além do escárnio. Há quem a odeie por isso. Mas foi também essa entrega e essa exposição que lhe garantiram uma legião de fãs, que reconheceram a coragem (ou a loucura) de uma escritora determinada a criar uma língua e um estilo próprios. Duras passou a viver a obra, incorporou o estilo à própria vida. E é o que faz do relato autobiográfico de O amante também um texto ficcional, um romance por denegação: 'A história da minha vida não existe'".