sábado, 19 de setembro de 2020

História do cristianismo. Parte 3. A tentativa de organização germânica. Jacques Le Goff.

 Em 2018, sob inspiração e coordenação do professor Sebastião Donizete Santarosa, participei de um curso que denominamos de "Formação do pensamento Ocidental". Como o cristianismo é um dos componentes fundamentais desse pensamento ou cultura, o tema foi trabalhado. Buscamos, na época, mais os seus momentos fundadores e, dois textos foram trabalhados mais especificamente. O primeiro, de Paul Johnson, sobre o que se poderia chamar de ato fundador, retirado de seu belo livro História do cristianismo, em que relata o Concílio de Jerusalém, sob o comando do apóstolo Paulo. Dou o link: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/05/historia-do-cristianismo-parte-um.html O segundo texto foi retirado de outro belo livro Uma história da leitura, de Alberto Manguel e que versa sobre o Edito de Milão e o Concílio de Niceia, quando o cristianismo se transformou em religião oficial. Também dou o link: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/05/o-edito-de-milao-e-o-concilio-de-niceia.html

Agora, retomando o tema em um grupo mais restrito, por uma espécie de diletantismo, insiro no blog um terceiro texto, do livro do medievalista Jacques Le Goff A civilização do ocidente medieval, onde se mostra como o cristianismo praticamente se torna a religião de toda a Europa sob o império de Carlos Magno. Do livro, tomo da sua parte I, o início do capítulo 2, sob o título: "A tentativa de organização germânica (séculos 8º - 10º). Essa primeira parte do livro tem por título "Do mundo antigo à cristandade medieval. Vamos ao texto de Le Goff: "O Ocidente Carolíngio":

A civilização do Ocidente Medieval. EDUSC. 2005. Tradução de José Rivair de Macedo.

"A retomada inscreveu-se, em primeiro lugar, no espaço. A reconstituição da unidade ocidental pelos Carolíngios realizou-se em três direções: para o sudeste, na Itália; para o sudoeste, rumo à Espanha; e no leste, na Germânia.

Aliado do papa, Pepino o Breve introduz a política carolíngia na Itália, conduzindo uma primeira expedição contra os Lombardos em 754 e uma segunda em 756. Por fim Carlos Magno captura o rei Didier em Pavia no ano de 774, tomando-lhe a coroa da Itália, mas tem de lutar para se impor no norte da Península, e acaba perdendo os ducados lombardos de Spoleto e Benevento.

No sudoeste foi também Pepino quem deu o primeiro passo ao retomar Narbonne dos muçulmanos no ano de 759. Na lenda, entretanto, a reconquista da cidade estará ligada ao nome de Carlos Magno. Mais tarde, em 801, aproveitando-se das guerras internas dos muçulmanos, Carlos Magno tomará Barcelona. Foi então criada uma Marca da Espanha desde a Catalunha até Navarra, graças sobretudo ao conde Guilherme de Toulouse - que viria a se tornar o herói das canções de gesta do ciclo de Guilherme de Orange. Mas nem sempre os Carolíngios tiveram êxito na luta contra os muçulmanos e contra os povos pirenaicos. Em 778 Carlos Magno tomou Pampeluna mas não atacou Saragoça, tomou Huesca, Barcelona e Gerona e, abandonando Pampeluna depois de arrasá-la, retomou o caminho do norte. Montanheses bascos armaram uma emboscada contra a retaguarda dos Francos para apropriar-se de seus pertences. Em 15/8/778, no Desfiladeiro de Ronscesvales, os Bascos massacraram as tropas comandadas pelo senescal Eggiharde, o conde palatino Anselmo e o prefeito da Marca da Bretanha chamado Rolando. Os Anais Reais carolíngios não mencionam uma palavra a respeito da derrota; um dos compositores dos anais anota para 778: 'Neste ano o senhor rei Carlos foi à Espanha e sofreu um grande desastre'.  Os vencidos foram transformados em mártires e os seus nomes perpetuaram-se. A revanche dos francos foi La Chanson de Roland.

No leste, Carlos Magno deu início a uma tradição de conquista em que massacre e conversão misturavam-se - a cristianização pela força que a Idade Média iria praticar por muito tempo. Ao longo do Mar do Norte, de 772 a 803 os Saxões foram conquistados com muito custo, numa série de campanhas em que alternavam vitórias aparentes e revolta de pretensos vencidos - da qual a mais espetacular foi liderada por Widukind em 778. Ao desastre sofrido pelos Francos no Süntal seguiu-se uma repressão feroz: Carlos Magno mandou decapitar quatro mil e quinhentos revoltados em Verden.

Auxiliado por missionários - todo e qualquer ferimento cometido contra algum deles e toda ofensa à religião cristã eram punidos com a morte segundo uma capitular editada com o fim de ajudar a conquista -, e conduzindo ano após ano os guerreiros para o interior do território, batizando uns, pilhando outros, queimando, massacrando e efetuando deportações em massa, Carlos acabou por subjugar os Saxões. Bispados foram criados em Bremen, Münster, Paderborn, Verden e Minden.

O horizonte germânico, especialmente o Saxão, atraiu Carlos Magno para o leste. Ele trocou o Vale do Sena, em que os Merovíngios tinham se fixado em Paris e seus arredores, pelas regiões do Mosa, do Mosela e do Reno. Sempre itinerante, frequentava preferencialmente as cidades reais de Heristal, Thionville, Worms e sobretudo Nijmeegen, Ingelheim e Aix-la Chapelle, onde mandou construir três palácios. O de Aix ganhou certa preeminência devido ao tipo particular de sua arquitetura, o número de vezes que Carlos Magno lá esteve, e a importância dos acontecimentos de que foi palco.

A conquista da Baviera foi a de um território já cristianizado e que, teoricamente, era vassalo dos francos desde os tempos merovíngios.

A nova província bávara permanecia exposta às incursões dos Ávaros, povo de origem turco-mongol proveniente das estepes asiáticas, como os Hunos, e que ao dominar um certo número de povos eslavos criara um império que englobava as duas margens do Danúbio Médio, da Caríntia à Panônia. Saqueadores profissionais, tinham acumulado enorme butim de seus reides em seu quartel general que conservava ainda a forma redonda das tendas mongóis: o Ring. Este acabou nas mãos de Carlos Magno em 796, e o soberano Franco anexou a parte ocidental do Império ávaro - entre o Danúbio e o Drave.

Mas o Estado carolíngio mal tocara o mundo eslavo. Expedições conduzidas ao curso inferior do Elba e além, depois da conquista da Saxônia, tinham repelido ou englobado certas tribos eslavas. Com a vitória sobre os Ávaros, Eslovenos e Croatas passaram a fazer parte do mundo franco.

Carlos Magno lançou-se, enfim, contra os gregos. Mas este foi um conflito muito particular, cujo significado prende-se a um acontecimento que, em 800, conferiu novas dimensões à empresa carolíngia: a coroação do rei franco como imperador pelo papa em Roma.

O restabelecimento do Império no Ocidente não parece ter sido ideia carolíngia, mas sim pontifical. Carlos Magno tinha interesse de consagrar a divisão do antigo Império romano num Ocidente em que seria o chefe e num Oriente que não ousava disputar ao basileus bizantino, mas recusava-se reconhecer a este o título imperial que evocava uma unidade desaparecida.

Mas em 799 o papa Leão III viu uma tripla vantagem em dar a coroa imperial a Carlos Magno. Aprisionado e perseguido por seus inimigos em Roma, ele precisava ver sua autoridade restaurada de fato e de direito por qualquer um que pudesse impor autoridade a todos sem contestação: um imperador. Chefe de um Estado temporal, o Patrimônio de São Pedro, ele desejava ver esta soberania temporal corroborada por um rei superior a todos os demais - tanto em título quanto de fato. Enfim, junto com uma parte do clero romano, pensava em fazer de Carlos Magno um imperador para todo o mundo cristão, incluindo Bizâncio, a fim de lutar contra a heresia iconoclasta e de estabelecer a supremacia do pontífice romano sobre toda a Igreja. Carlos Magno se deixou convencer e coroar em 25/12/800. Mas só se defrontou com Bizâncio para obter reconhecimento de seu título e de sua igualdade. O acordo foi firmado em 814, alguns meses antes de sua morte. Os francos devolveram Veneza, mantendo as terras do norte do Adriático e o Basileus reconheceu o título imperial de Carlos Magno.

Carlos Magno teve a preocupação de administrar com eficácia este vasto espaço. Embora as determinações de governo fossem em geral orais, o uso da escrita veio a ser estimulado, e um dos principais objetivos do renascimento cultural de que se falará adiante foi o aperfeiçoamento profissional dos oficiais reais. Carlos Magno esforçou-se sobretudo para estender sua autoridade a todo reino franco aperfeiçoando os textos administrativos e legislativos e multiplicando enviados pessoais, quer dizer, representantes do poder central.

O instrumento escrito era constituído pelas capitulares ou ordenações, algumas particulares, destinadas a uma região, como as capitulares dos saxões, e outras gerais, como a capitular de Herstal (ou Heristal) sobre a reorganização do Estado (779), a capitular De Villis, sobre a administração dos domínios reais e a capitular De litteris colendis, sobre a reforma da instrução. O instrumento humano era constituído pelos missi dominici, pessoas importantes de proveniência laica ou eclesiástica enviadas anualmente para fiscalizar os representantes do soberano - condes e, nas fronteiras, marqueses ou duques - ou reorganizar a administração. Acima, os mais importantes membros da aristocracia eclesiástica e laica do reino reuniam-se anualmente, ao fim do inverno, numa Assembleia Geral com o soberano. Esta espécie de parlamento aristocrático - a palavra populus  que os designa não deve nos enganar - que garantia a Carlos Magno a obediência de seus súditos viria, ao contrário, impor a seus fracos sucessores a vontade dos grandes do reino.

Com efeito, no decurso do século 9º, a grandiosa construção carolíngia viria a se desorganizar rapidamente sob os golpes conjugados de inimigos externos - novos invasores - e de fatores internos de desagregação". LE GOFF, Jacques. A civilização do mundo ocidental. Florianópolis, Edusc. 2005. Páginas 43- 46.



quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O Processo. Franz Kafka.

Mais uma vez me deparo com Franz Kafka. Dessa vez, pela retomada dos livros da Biblioteca Folha, pelo livro de número 17, O Processo. Lembro de Kafka pelo cinema e pela leitura, em 2007, quando cheguei até o terceiro capítulo (o livro da L&PM Pocket). O preparo de aulas e outros focos de interesse serviram de pretexto para a interrupção. No filme, que passou tarde da noite, houve a interrupção pelo sono. Tudo se justifica. O livro não é de leitura fácil, embora o título dos capítulos te dê as pistas sequenciais da descrição.
O Processo. Biblioteca Folha. 2003. Primeira edição em 1925. Tradução de Modesto Carone.

A primeira das frases sintetiza bem o livro: "Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum". Esse é o começo de um enorme emaranhado de circunstâncias sem saída e de um envolvimento cada vez mais complicado, com juízes, tribunais, cartórios, advogado, sacerdote, pintor, meninas, num enrendar cada vez mais comprometedor. Como o mais importante de uma obra literária é entender o que o autor quis dizer e como se trata de uma das mais importantes obras da literatura universal, recorro à voz de dois especialistas.

O primeiro é Modesto Carone, autor de um belo posfácio, para a edição da Biblioteca Folha. O seu posfácio tem sete tópicos dos quais tomo o de número cinco, sobre as possíveis interpretações da obra. Lembrando que a obra foi escrita a partir de 1914, com interrupções e publicada postumamente em 1925, por Max Brod, amigo e testamenteiro literário. Kafka teve uma problemática e curta vida (1883- 1924). Deixo o link de uma biografia sua. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/08/franz-kafka-por-louis-begley.html  Mas vamos a Carone:

"Esses pormenores (dados biográficos, influências e contextualizações) ajudam a localizar algumas circunstâncias de caráter histórico e pessoal capazes de alimentar o impulso de fabulação do romancista na época em que estava gestando O Processo. Mas é evidente que nenhum deles pretende ou pode dar conta da obra enquanto generalização artística da experiência. A esta tarefa se lançam, com assiduidade, as interpretações do romance, cujo número, nas mais variadas vertentes (teológicas, filosóficas, socio-políticas, psicanalíticas, estético-formais etc.), aumenta à medida que se amplia a posição de Kafka como um clássico da Weltliteratur. É compreensível que as notas de um posfácio não comportem nem mesmo um sumário dessas exegeses, mas isso não impede que sejam citados alguns exemplos interessantes.

Na linha teológico-existencial, há um grupo bem numeroso de intérpretes que veem no romance a representação da culpa do homem contemporâneo, já que o livro não trata de um processo criminal que se desenrole diante de uma corte de justiça convencional. Outros, pela mão contrária, descartam qualquer viés alegórico desse tipo e afirmam, baseados na História, que nada é mais real (ou realista) que O Processo, pois o entrecho reflete a desumanização burocrática da Monarquia do Danúbio. Os que não concordam com esta tese, entretanto, argumentam que a administração austro-húngara nada tinha em comum com as imagens de O Processo, além do que a avaliação da burocracia, feita pelo Kafka funcionário público, não era a de um súdito impotente diante de uma máquina impessoal e aniquiladora. Mas há críticos que consideram de outra natureza o realismo de Kafka - para eles um escritor habilitado a oferecer, a partir do seu ângulo específico de observação histórica, uma visão esteticamente eficaz e nada metafísica do que ainda estava por acontecer; por isso, O Processo pode ser concebido como uma profecia do terror nazista, em que a detenção imotivada, os comandos de espancamento, as decisões incontrastáveis das esferas de poder e o assassínio brutal faziam parte do cotidiano. Seguindo uma linha análoga de raciocínio, que procura por em evidência a lucidez de um autor 'desengajado' (e podado pelo stalinismo), constam também da bibliografia análises que percebem no romance o esforço bem-sucedido de mapear por dentro a alienação encoberta do dia-a-dia através das peripécias de K. pelas instâncias reificadas do mundo administrado. Vistos desse ângulo 'protocolos herméticos' como O Processo desvendam a gênese social da esquizofrenia; ou então um universo sem esperanças, de onde foi banido o mito da salvação. Com menos sutileza, existe quem perceba, nesta como em outras narrativas de Kafka, a expressão do 'vanguardismo decadente' de um pequeno-burguês angustiado, que hipostasiou o medo ao invés de superá-lo pela análise concreta.  Já na vertente psicológica ou psicanalítica, o leitor encontra afirmações no sentido de que a ação romanesca de O Processo reflete um caso de neurastenia, ou então que as desventuras objetivas de K. são apenas um sonho, quando não a imagem delirante de um indivíduo entregue ao isolamento e à exaustão. Uma vez porém que a história é narrada da perspectiva do personagem, não faltam os que reconhecem, nos acontecimentos do livro, ora um mundo de aparência, ora um mero 'processo de pensamento' de Josef K.

O contraste entre essas teses dá uma ideia do que ocorre na fortuna crítica do romance - a tal ponto que soa plausível pretender, como fazem alguns estudiosos, que as questões relativas ao 'sentido' da obra continuam em aberto. Mesmo os trabalhos centrados na organização formal do romance acabam por tratá-lo como uma espécie de 'metáfora absoluta', que remete aos seus próprios termos, retirando-lhe assim a dimensão do conhecimento. Mas é evidente que, agindo desse modo, essas análises se transformam no avesso vazio das interpretações que se propõem como definitivas".

Já a edição da L&PM Pocket tem um prefácio assinado por Marcelo Backes, em que apresenta o autor e a obra. Marcelo apresenta a obra da seguinte maneira:

"A obra de Kafka já foi analisada por todos os ângulos, e o volume de sua fortuna crítica encheria bibliotecas inteiras. O desespero do homem moderno em relação à existência, a eterna busca de algo que não está mais à disposição, a pergunta por aquilo que não tem resposta são as características mais marcantes de seus livros. Seus personagens são vítimas de um enigma insolúvel - a própria vida. Com sua obra, Kafka escreve o evangelho da perda, assinala a ausência de luz no fim do túnel. Ele é o escritor do lusco-fusco, o poeta da penumbra, a literatura em seu próprio crepúsculo.

O realismo de Kafka é mágico, mas sóbrio ao mesmo tempo; seu humor às vezes é grotesco, outras vezes, irônico, mas, no fundo, sempre carregado de seriedade. Sua prosa é dura, seca e despojada. Kafka reduz a riqueza da língua alemã a trezentas palavras, e mesmo assim é um dos maiores estilistas da prosa alemã. O que Kafka escreve é ele mesmo, o ser em si. Sua literatura é seu 'eu' feito letra; seu estilo é marcante, embora uma de suas maiores características seja a impessoalidade. É como se o autor não necessitasse da muleta do estilo - em seu aspecto subjetivo - para fazer brotar seu eu, sua individualidade. Kafka não trata de ânimos ou ambientes, nem de experiências ou psicologias. Ele fala do fundamento da existência em si, do qual a parábola é o melhor modelo. Num dos fragmentos de seus Diários está escrito: 'Escrever como forma de oração', e Kafka fez de sua arte sua reza.  Em outra passagem o autor diria: 'Um livro tem de ser o machado para o mar congelado do nosso interior'. O Processo - e toda a obra de Kafka - é um exemplo perfeito disso.

George Lukács, marxista ortodoxo, viu em Kafka apenas a decadência tardia do mundo burguês. Theodor Adorno, marxista tardio, teórico da Escola de Frankfurt, disse: 'os protocolos herméticos de Kafka contêm a gênese social da esquizofrenia', e assinalou em Kafka a essência do mundo moderno".



sábado, 5 de setembro de 2020

O caso Morel. Rubem Fonseca.

Mais um livro da coleção Biblioteca Folha (2003). É uma coleção de 30 livros, contemplando literatura brasileira e universal. O livro da vez foi o de número 7, O caso Morel, de Rubem Fonseca. (1925- 2020). É o terceiro livro que leio desse escritor, recentemente falecido. Anteriormente li Agosto, um bom livro e O seminarista, do qual não gostei. Também tive dificuldades em ler O caso Morel. Questões de gosto.
O caso Morel. 2003. Biblioteca Folha.


Creio que todos sabem que a especialidade de Rubem Fonseca é o romance policial. Ele mesmo foi comissário de polícia no início de sua vida profissional, conhecendo bem, portanto, o seu novo campo de trabalho, abraçado posteriormente, o da literatura. O caso Morel é o seu primeiro romance. Também enveredou pelo campo do cinema. O livro é datado do ano de 1973, no auge do regime civil/militar, instaurado pelo golpe de 1964.

O romance, como o título indica, é um típico caso policial. Paul Morel é um artista e como tal é uma pessoa bem articulada na elite econômica e social do Rio de Janeiro. O romance ganha valor à medida em que ele é uma crônica do cotidiano da vida pobre dessa gente rica. Sexo, em todas as formas possíveis, e morte perpassam todo o romance. As práticas sado/masoquistas ganham grande destaque. Heloísa Wiedecker adorava apanhar enquanto tinha relações sexuais. Paul Morel lhe satisfazia esses desejos até seus limites extremos. Essa relação é a essência do Caso Morel. Heloísa aparece morta na praia e começam as investigações. Essas se misturam com a escrita de Morel.

A insatisfação do ser humano está onipresente. Freud estava certo. O desejo e a sexualidade movem o ser humano. Morel é um eterno insatisfeito, assim como as mulheres que frequenta. Ele, inclusive, inventou uma nova relação familiar. Se não for nova, a palavra harém também pode designar a sua invenção. José Geraldo Couto, colunista da Folha, dá informações precisas sobre o livro, na sua contracapa:

"O artista de vanguarda Paul Morel, preso por um crime violento que ele próprio não sabe se cometeu, resolve escrever um livro contando sua vida. Para isso, pede ajuda ao escritor e ex-delegado Vilela, a quem entrega trechos do manuscrito à medida que vai escrevendo.

O caso Morel intercala o relato do prisioneiro - repleto de orgias e de reflexões irônicas sobre a arte e a cultura de nosso tempo - com seus desencantados diálogos com Vilela, uma espécie de alter ego de Rubem Fonseca, que havia surgido em A coleira do cão (1965) e reapareceria depois em vários contos e romances do escritor, especialmente em A grande Arte (1983).

Publicado em 1973, O caso Morel é o primeiro romance de Rubem Fonseca e contém todos os elementos que fariam dele um dos escritores mais influentes da literatura brasileira das últimas três décadas. A narrativa veloz, incisiva, a observação aguda do lado mais obscuro do comportamento humano, o hábil domínio dos diálogos, a presença da violência sob todas as sua formas - física, psicológica, moral -, o trânsito frequente entre o registro culto e o popular, o exame implacável das contradições sociais, tudo isso faz deste livro um dos grandes romances policiais de nossa época e uma das obras mais fortes de um autor obcecado pelas pulsões básicas do homem: sexo e morte".

O livro é narrado em 22 pequenos capítulos e um FIM. Desse Fim tomo uma informação interessante sobre a ilustração do crime. Além de Morel, também um ladrão era suspeito do mesmo.

"Um ladrão é considerado um pouco mais perigoso do que um artista. 
Matos foi visitar Morel, contou para ele os últimos acontecimentos: a morte de Félix, a reabertura do inquérito, as perspectivas de liberdade imediata.
No entanto ele não parecia muito satisfeito".



quarta-feira, 2 de setembro de 2020

A consciência de Zeno. Italo Svevo.

Se o grande romance é aquele que mais consegue expor o ser humano em suas diferentes dimensões, não haverá dúvidas de que A consciência de Zeno, de Italo Zvevi, contempla esse quesito e, com certeza, frequenta a lista dos grandes romances da literatura universal. O livro foi lançado na Itália no ano de 1923 e traz dentro de si profundos reflexos da primeira guerra mundial. O cenário do romance é a hoje cidade italiana de Trieste, que na época pertencia ao império austro húngaro. O último capítulo do livro tem quatro datas, três de 1915 e uma de 1916. O livro demorou um pouco para ser publicado.
A consciência de Zeno. Biblioteca Folha. 2003. Tradução de Ivo Barroso.

Italo Zvevo é o pseudônimo de Ettore Schmitz, nascido em Trieste no ano de 1861. Morreu em Motta de Livenza (Itália) em 1928, num acidente de carro. As dificuldades financeiras o levaram cedo ao trabalho em banco mas, já neste período, se dá a sua iniciação no campo da literatura. O sucesso só lhe veio quando James Joyce apresentou A consciência de Zeno a críticos literários franceses, que se encantaram com o escritor e recomendaram sua publicação na França. Zvevo foi aluno de inglês de Joyce e este passou a ser um grande admirador seu. 

Em 1915, com a guerra, que o levou à inatividade, iniciou a sua carreira de escritor. A fama lhe veio com esse livro, após a recepção favorável pela crítica. Na orelha de capa do livro encontramos dois parágrafos bem ilustrativos da obra:

"Já no fim da vida, Zeno Cosini, um bem-sucedido empresário de Trieste (norte da Itália), decide fazer um balanço de suas experiências no divã de um analista. Ali, deitado no estreito sofá, ele começa a dar conta de que toda a sua história, passada e presente, se compõe de pequenos fracassos: o casamento com uma mulher que ele não escolheu, o trabalho que não lhe agradava, as tentativas falhadas de parar de fumar ou de simplesmente mudar de rumo, ter outro destino. A lenta escavação dos fatos e das impressões pela memória é então submetida à visão implacável, irônica e às vezes hilariante de Zeno - que assim, de certa forma, consegue libertar-se da 'doença', mas não de suas neuroses.

Imediatamente aclamada por autores do porte do romancista James Joyce e do poeta Eugênio Montale, esta obra-prima de Italo Svevo (1861-1928) põe do avesso as distinções entre sanidade e loucura, sucesso e derrota, ao mesmo tempo em que expõe ao ridículo os valores da moral burguesa. Valendo-se de recursos próprios da psicanálise, como a livre associação de ideias, o romance faz ainda uma sátira da ciência criada por Freud - de quem Svevo, aliás, foi tradutor. É assim que Zeno chega à conclusão de que sua vida, afinal 'foi mais bela do que a dos assim chamados sãos'. Italo Svevo morreu cinco anos depois de alcançar a consagração literária com este romance".

O seu relato, profundamente autobiográfico, é relativamento longo. São 383 páginas de letra bem miudinha. Estou falando da edição da Biblioteca Folha (2003). Ele está dividido em seis capítulos, após um pequeno prefácio e preâmbulo. Nos capítulos são relatados os seus problemas: no primeiro o seu vício com o fumo; no segundo, a morte prematura de seu pai; no terceiro, a história meio trágico-cômica de seu casamento; no quarto, conta a história de sua relação com a amante, que assim como o cigarro, um milhão de vezes prometeu largar; no quinto, o mais trágico de todos conta as desventuras de uma sociedade comercial que manteve com o seu cunhado, que ao final das trapalhadas consegue cometer o suicídio. Já o sexto e último capítulo é dedicado a psicanálise.

Fiz algumas anotações no capítulo da psicanálise, o mais irônico de todos: A primeira é geral, sobre o tratamento. "Minha cura devia acabar porque minha doença fora descoberta. Era a mesma que em seu tempo o falecido Sófocles diagnosticara em Édipo: eu amava minha mãe e queria matar meu pai". A segunda reflete a sua decepção, quando procura um médico e não mais o psicanalista: "Dr. Paoli examinou minha urina em minha presença. A mistura coloriu-se de negro e o médico ficou pensativo. Era finalmente uma análise de fato, não uma psicanálise". Por fim ele diz que foi curado pelo comércio.

As últimas páginas, dentro do capítulo sobre a psicanálise, são dedicadas ao estouro da primeira guerra e a uma análise de seu tempo. Selecionei uma passagem, altamente profética sobre o futuro: "A vida atual está contaminada até as raízes. O homem usurpou o lugar das árvores e dos animais, contaminou o ar, limitou o espaço livre. Mas o pior está por vir. O triste e ativo animal pode descobrir e pôr a seu serviço outras forças da natureza. Paira no ar uma ameça deste gênero. Prevê-se uma grande riqueza... no número de homens. Cada metro quadrado será ocupado por ele. Quem se livrará da falta de ar e de espaço? Sufoco só de pensar nisso! E infelizmente não é tudo".

E uma última observação, que tomo de Bernardo Ajzenberg, contida na contracapa da edição da Biblioteca Folha: "O romance de Italo Svevo, não por acaso, é um daqueles nos quais o protagonista mais se desnuda. Ele expõe, a um tempo, com ironia e detalhes surpreendentes de tão ínfimos, não apenas o desencontro público e privado de um indivíduo sem eixo, mas também a decadência da classe e do período histórico que ele, sem saber, representa". Super recomendo.

domingo, 23 de agosto de 2020

Uma escola para o povo. Maria Teresa Nidelcoff.

Participando de trabalhos de organização de cursos de formação me veio à memória um livro que marcou muito a minha formação e que também utilizei muito em minhas atividades docentes. Falo do livro da educadora argentina Maria Teresa Niedelcoff, sob o título de Uma escola para o povo. Devo ter adquirido o livro no ano de 1982. A obra foi publicada originalmente na Argentina em 1975 e no Brasil em 1978. Foi mais ou menos nessa época que eu também entrei em contato com a obra de Paulo Freire.
Capa do livro Uma escola para o povo.  Tradução João Silvério Trevisan.

Quando eu falo que este livro marcou a minha formação eu me detenho numa interrogação fundamental - a de - como eu me formei como educador? A minha formação original é a de seminário e a minha faculdade de filosofia foi muito ligada a questão da formação religiosa, alguns rudimentos de história da filosofia e de algumas questões de lógica e epistemologia. Já na docência, o livro didático era o grande guia para as aulas. Em alguns livros, lembro, eu interferi bastante. Sempre utilizei também dados da atualidade. Sempre fui assinante de jornais e de revistas. Lembro particularmente de um jornal editado pela PUC de Porto Alegre, Mundo Jovem. Assim, a minha formação foi sendo forjada ao longo do trabalho. A minha atividade sindical também foi o grande elemento da minha formação.

Na contracapa do livro lemos: "Maria Teresa Nidelcoff, educadora argentina, inicia um diálogo com mestres, educadores e professores; coloca e distingue a questão do 'mestre-policial' ou 'mestre-povo' e a polêmica existente entre uma atitude 'policialesca e castradora' de ensino ou uma criativa de 'engajamento' na cultura do educando. É um trabalho consciente das atuais mudanças nos relacionamentos professor/aluno do ensino de primeiro grau (terminologia da época - hoje ensino fundamental) dos setores menos privilegiados. Livro dirigido principalmente àqueles que atuam em favelas, bairros operários e periferia, questiona os métodos de ensino vigentes".

Quando me lembrei desse livro estávamos procurando bibliografia referente a tomada de consciência do educador, de sua identidade de classe e compromissos decorrentes. Identidade, compromissos e coerência de vida na prática docente. O educador precisa ter convicções em seu trabalho. Sempre me acompanha uma afirmação de Jean-Claude Forquin, de seu livro Escola e cultura - as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar de que "ninguém pode ensinar verdadeiramente se não ensina alguma coisa que seja verdadeira ou válida a seus próprios olhos". Aliás, o subtítulo do livro de Forquin é mais ou menos o tema do livro da educadora argentina, as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar. Então vamos ao livro.

Como ficou claro no relato da contracapa - existem fundamentalmente dois tipos de professor: o professor-policial e o professor-povo, ou no original espanhol, "maestro pueblo o maestro gendarme". O professor policial assume o compromisso da manutenção da ordem social existente, atuando em favor de quem domina essa ordem. Já o professor-povo assume as dores de uma ordem social injusta e se engaja na luta para a transformação das estruturas injustas. Assume um compromisso de classe e a consciência de pertencimento a uma delas. Assim o educador se transforma num parceiro de seus alunos e de seus pais.

Esta é a tônica do livro, apresentada em seus seis capítulos, depois de uma pequena apresentação: 1. Que caminho escolher; 2. Com que objetivos trabalhamos; 3. Conteúdos que são transmitidos na escola; 4. Como trabalhamos; 5. A avaliação e seus problemas; 6. Nossas relações com os pais dos alunos. Segue uma pequena e rica bibliografia, em que são citados os primeiros livros de Paulo Freire (Educação como prática da liberdade e Pedagogia do oprimido), Freinet, Makarenko e o monumental livro dos alunos da escola de Barbiana Cartas a uma professora. Deixo o link desse livro.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/04/carta-uma-professora-pelos-rapazes-da.html


Toda o livro está na diferenciação da perspectiva do professor que assumiu a identidade e compromisso de classe e o professor que repete um ritual burocrático e insosso de atividades engajadas na manutenção de uma escola que não toma partido, numa mecânica de reprodução das estruturas de uma sociedade injusta, sob o manto da neutralidade. O livro é farto de exemplos da realidade argentina, em nada diferente da realidade brasileira e latino americana. Assim são tratadas as atividades de planejamento escolar, as questões curriculares, a metodologia, a avaliação e - tudo permeado pela questão do uso de uma linguagem apropriada.

Como a atividade de formação que preparávamos se destina a formação de quadros dirigentes para a atividade sindical de educadores, deixo a última frase do livro: "No nível do professor sindicalista, ele será professor-povo' na medida em que não se isole nas reivindicações meramente salariais, e não apenas entre educadores; antes dos salários, deve reivindicar a escola do povo e integrar sua ação nas lutas da classe trabalhadora".

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

A linha de sombra. Joseph Conrad.

Continuo com a leitura dos livros da coleção Biblioteca Folha. Agora foi a vez do fantástico livro de Joseph Conrad, A linha da sombra. A escolha do livro se deu fundamentalmente pelo seu escritor. Conheci Joseph Conrad pelo seu Coração das trevas, livro de 1899, que relata uma viagem sua para o Congo belga, mostrando os horrores do colonialismo. A mesma edição do Coração das trevas, da Companhia das Letras, também contem Um posto avançado do progresso. Coração das trevas serviu de inspiração para o Apocalipse Now de Coppola. Deixo o link, tanto do livro como do filme:

Joseph Conrad me impressionou muito. A linha da sombra teve um título anterior no imaginário do escritor - Primeiro Comando. Faz todo o sentido, pois,  trata-se de uma viagem sua, uma viagem de navio, a primeira na condição de comandante. Esta obra só cabe no imaginário de um experiente marinheiro, conhecedor profundo dos segredos da navegação. Vejamos alguns dados biográficos do escritor, retirados da orelha da contracapa do livro.
A linha da sombra. Biblioteca Folha. 2003. Tradução de Maria Antonia Van Acker.

"Józef Teodor Konrad Korzeniowski nasceu em 1857, em Berditchev (Ucrânia), numa família de patriotas empenhados em libertar a Polônia do domínio russo. Acompanhando o exílio de seus pais (na própria Rússia), teve seu primeiro contato com a língua inglesa enquanto seu pai traduzia autores como Shakespeare e Victor Hugo. Antes de completar 12 anos, ficou órfão; sua educação foi confiada a um tio materno.

Adolescente, entediou-se com a escola e escolheu a vida no mar. Aos 17 anos tornou-se aprendiz de marinheiro em Marselha, França. Em 1878, mudou-se para a Inglaterra, onde seguiu carreira na Marinha e ganhou cidadania inglesa, com o nome de Joseph Conrad". Aos 38 anos abandona a vida de marinheiro e começa a sua vida de escritor. É considerado um dos maiores estilistas da língua inglesa, língua da qual nunca dominou a fala.

Bem, esse dado biográfico é necessário para entender A linha da sombra. O inexplicável abandono da vida de marinheiro o fez pedir a aposentadoria. Esse plano, porém, não se concretizou. Sob a influência de um capitão amigo, enceta a sua última viagem, na qualidade de comandante de um navio. O livro é do ano de 1917. Vejamos o relato contido na orelha da capa do livro:

"Sem nenhum motivo aparente, um jovem da marinha mercante inglesa resolve abandonar a vida no mar. Está decidido a partir do distante porto oriental onde se encontra para regressar ao país de origem. Mas surge uma última missão e o jovem assume o comando de um velho navio atracado em Bancoc (Tailândia), cujo capitão morrera recentemente em circunstâncias misteriosas.

Sofrendo com as tempestades, a tripulação doente e uma ameaçadora sensação de aniquilamento, o protagonista tenta conduzir o navio a seu destino, ao mesmo tempo em que se deixa levar pelas estranhas histórias de seu imediato, consumido pela febre.

Com domínio total da psicologia das personagens e da situação-limite que vivem, Joseph Conrad (1857-1924) reflete nesta novela, a partir de elementos de sua própria biografia, sobre o rito de passagem entre a juventude e a idade madura - passagem que ele mesmo experimentou ao abandonar a relativamente autônoma vida marítima pela incerta experiência literária".

O romance, ou novela, tem seis capítulos, que num crescendo vão dando os relato diário de uma aventura tocada entre os limites do humano e as forças sobrenaturais. Depois de 17 dias, praticamente sem avançar, detido por calmarias, ele consegue aportar, em "uma navio sem tripulação". Esta fora consumida pela doença, pois se encontrava sem remédios a bordo. A sua façanha termina sem nenhum morto a bordo e por um único convalescente, o sr. Burns, o auxiliar do comandante falecido. É emocionante a dedicação do cozinheiro, Ransome, ao capitão. Ele só adoece com o navio já aportado. O livro tem uma fantástica "Nota do autor", explicativa do ocorrido, nos limites das forças humanas.

O livro é maravilhoso, com o destaque para três personagens. O comandante e a sua responsabilidade, o cozinheiro e a sua leal e sobre-humana dedicação e os delírios do primeiro auxiliar do ex-comandante falecido. Com todas as minhas recomendações. 

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O amante. Marguerite Duras.

Continuo as minhas leituras da Biblioteca Folha. O livro da vez, agora foi O amante, de Marguerite Duras. O livro nos leva para a cidade de Saigon e desvenda muitos dos mistérios que envolveram a colonização francesa no sudeste asiático. O livro foi escrito em 1984 e, com ele, ela ganhou o mais importante prêmio da literatura francesa, o Prêmio Goncourt. O livro marca um encontro da escritora com o seu passado, vivido em Saigon e proximidades. Vamos situar um pouco o romance e a escritora.
O amante. Biblioteca Folha. 2003. Tradução de Aulyde Soares Rodrigues.

Marguerite Duras é o pseudônimo de Marguerite  Donnadieu. Ela nasceu em Gia Dihn, no Vietnã, onde passou a infância e a adolescência. A vida não lhe foi nada fácil. Lá perde o pai e a mãe ganha uma concessão de terras no Camboja, também de colonização francesa, que quase levou a família à falência. Esses tempos são a memória profunda da escritora e o tema do presente livro. Ela virá a morar em Paris por volta dos dezoito anos. Essa viagem de navio que a traz de volta a Paris ocupa as últimas páginas do livro. No Vietnã, a menina tem um amante chinês, mais velho e muito rico.A relação foi muito louca e evidencia um mundo de preconceitos, os preconceitos de raça sempre presentes nas histórias que envolvem o colonialismo.

Marguerite Duras é conhecida no mundo da literatura pela exposição de sua vida em suas obras. Vejamos o parágrafo final do livro: "Anos depois da guerra, depois dos casamentos, dos filhos, dos divórcios, dos livros, ele foi a Paris com a mulher. Telefonou-lhe. Sou eu. Ela reconheceu a voz. Ele disse: queria apenas ouvir sua voz. Ela disse: sou eu, bom dia. Ele estava intimidado, com medo, como antes. Sua voz começou a tremer de repente. E, com esse tremor, subitamente ela reencontrou o sotaque da China. Ele sabia que ela começara a escrever, soubera pela mãe, com quem se encontrou em Saigon. E também sobre o irmãozinho, ficara triste por ela. E depois não soube mais o que dizer. E depois lhe disse. Disse que continuava como antes, que a amava ainda, que jamais poderia deixar de amá-la, que a amaria até a morte". 

O livro é a narrativa desse louco amor, ou melhor, dessa louca paixão, praticamente imposta pela necessidade do dinheiro. A escritora, na época era uma menininha.  A narrativa envolve ainda a mãe e dois irmãos, sendo o mais velho absolutamente pervertido e o mais novo terá uma morte precoce. A escritora tornou-se famosa com os seus roteiros para o cinema, entre eles Hiroshima Mon Amour. Vamos ver um pouco sobre ela, pela orelha da capa do livro:

"Nascida nos arredores de Saigon (Vietnã) pouco antes do estouro da Primeira Guerra, Marguerite Duras tornou-se um dos mais influentes nomes da literatura francesa a partir da década de 1940, escrevendo romances e roteiros para cinema (Hiroshima Mon Amour, é o mais famoso deles). Mas foi só aos 70 anos de idade que Duras ganhou projeção internacional, com a novela O amante,  vencedora do Prêmio Goncourt de 1984 e traduzida para mais de 40 idiomas.

Filtrada por uma memória ao mesmo tempo autobiográfica e ficcional, a narrativa (que se passa em 1929) reconstitui os embates de uma adolescente que mantém uma relação com um oriental dez anos mais velho que ela. Intensamente lírico e erótico, O amante acompanha com rara felicidade a descoberta e o esgotamento da sexualidade, consumida em fogo lento pela escrita corrosiva de Duras.

Em 1991 o livro ganhou versão para o cinema pelo diretor francês Jean-Jacques Annaud.

Vamos ainda aos quatro parágrafos de Bernardo Carvalho, colunista da Folha, na contracapa do livro: "O amante  conta a descoberta do amor e do sexo por uma adolescente, filha de uma família de colonos falidos na Indochina francesa, nos anos 30. O amor proibido da menina branca, sua entrega a um jovem chinês rico, dez anos mais velho do que ela, é também uma forma de escapar à claustrofobia e à derrocada da família, o seu 'envelhecimento' precoce, a descoberta da sua solidão. É também a história da própria escritora.

Duras ergueu uma ponte impensável entre fotonovela e literatura de vanguarda. Seu amante, nesse sentido, é um príncipe encantado que faz da menina adolescente uma prostituta aos olhos dos outros e que a faz descobrir ao mesmo tempo a solidão de seu próprio desejo, e por consequência a vocação para a literatura. Em troca, e à imagem da prostituta, a menina faz o amante apaixonado sofrer de amor.

É a coragem ou a loucura de avançar sobre um fio tênue entre a originalidade e o grotesco que fez de Duras uma verdadeira escritora - sabendo que corria o risco de escorregar, de resvalar no ridículo, e ainda assim preferindo o risco à repetição. Razão de sua obra muitas vezes ser tão vulnerável e dependente dos bons olhos do leitor.

A obra de Duras é essa vulnerabilidade, essa exposição ao leitor, sem a cumplicidade do qual pode não restar nada além do escárnio. Há quem a odeie por isso. Mas foi também essa entrega e essa exposição que lhe garantiram uma legião de fãs, que reconheceram a coragem (ou a loucura) de uma escritora determinada a criar uma língua e um estilo próprios. Duras passou a viver a obra, incorporou o estilo à própria vida. E é o que faz do relato autobiográfico de O amante também um texto ficcional, um romance por denegação: 'A história da minha vida não existe'".

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

A revolução dos bichos. George Orwell.

Continuo com a leitura dos livros da coleção da Biblioteca Folha. São 30 romances divididos entre a literatura brasileira e universal. Dessa vez o meu olhar recaiu sobre uma das mais conhecidas obras, especialmente, em função de ter sido transformada em uma peça publicitária do anticomunismo, nos tempos da chamada "Guerra Fria". Trata-se de A revolução dos bichos, de George Orwell, o pseudônimo de Eric Arthur Blair. A obra é do ano de 1945, o ano em que as forças aliadas derrotam o regime nazista alemão, com grande proeminência da atuação do Exército Vermelho da União Soviética.
A revolução dos bichos. Biblioteca Folha2003. Tradução de Heitor Ferreira.

Alguns dados sobre o autor. George Orwell nasceu em Bengala, em 1903, na Índia, filho de um funcionário do governo britânico, e de mãe francesa. Sua vida tem idas e vindas entre a Inglaterra e a Índia, somados a uma vida de internato na Inglaterra. Chegou a ter aulas com Aldous Huxley. Conheceu a extrema pobreza, beirando a mendicância. Mesmo assim, dividia o seu tempo entre Londres e Paris.

Na condição de socialista convicto, participa da Guerra Civil Espanhola, junto às Brigadas Internacionais. Acompanha muito de perto os movimentos da Segunda Guerra Mundial, na qualidade de correspondente da BBC. Orwell se tornou especialmente famoso por duas obras suas: A revolução dos bichos e 1984. Ambas são obras primas contra a tirania. 1984 é uma distopia, uma previsão sobre a vida sob controle nas tiranias do futuro. A grande pergunta a ser feita seria sobre os motivos que o levaram a escrever essa obra, aparentemente contra o socialismo, que ele livremente professava. Para  responder a essa questão, é fundamental saber que ele era um socialista democrata e o que ele condena e ironiza em sua parábola ou metáfora é o que hoje chamamos de "socialismo real", aquele que realmente existiu na União Soviética, sob o regime stalinista.

Observem a data da publicação da obra. 1945. O ano do fim da Segunda Guerra Mundial. Todos sabem que Berlim foi ocupada pelo Exército Vermelho, fato que deu enorme prestígio ao regime soviético, alimentando a crença de sua superioridade sobre o sistema capitalista. Intelectuais do mundo inteiro apoiavam o sistema, como lemos no belo livro de memórias de Jorge Amado, um prêmio Stálin de Literatura, Navegação de cabotagem. A descrença no regime soviético veio mais tarde, com a realização do XX Congresso do PCUS, em 1956, em que Kruschev denuncia a tirania stalinista.

O que é preciso saber para bem entender a parábola de Orwell. Que no socialismo implantado na Rússia em 1917, após a morte de Lenin, houve uma divisão entre Stálin e Trotski; que todas as dificuldades do regime foram atribuídas a Trotski; que houve violentos expurgos, punidos com julgamentos sumários por parte do stalinismo e que foi montada uma burocracia dirigente, formada por lideranças do partido e de militares. Um forte culto à personalidade do chefe foi instituída, com grandes festas cívico-militares. Depois de amainados os momentos de tensão maior da Guerra Fria, uma "Convivência Pacífica" foi instituída entre as grandes potências.

Pois bem, vamos à parábola, contada ao longo de nove capítulos e em apenas 96 páginas. Na parábola, são os animais que estão cansados da exploração do trabalho feita pelos humanos. Na granja do sr. Jones, isso era particularmente forte, de sorte que foi relativamente fácil fazer-se o processo revolucionário. Os bichos haviam tomado consciência da exploração e alimentavam a crença de que a libertação era possível. Depois da Revolução, uma nova ordem se estabelece, com mandamentos, hino e muita liturgia laica. No meu livro tenho anotados três nomes: Napoleão, Garganta e Bola-De-Neve. São os três porcos do novo comando. Napoleão e Bola-De-Neve não se entendem e Bola-De-Neve é expulso da granja. Garganta é o porta-voz do novo sistema sem exploração. Os comandantes criam um inimigo comum, a quem acusam de traidor e causador de todas as suas dificuldades. Bola-De-Neve. Existe ainda Moisés, um corvo que anuncia uma montanha de açúcar, para depois da vida, para os que tinham comportamentos adequados à nova ordem,

Os trabalhos até aumentaram. Mas o trabalho é por uma causa. As dificuldades enfrentadas tem uma causa, sempre bem explicada por Garganta e compreendida pelos bichos. O cavalo Sansão é o bicho exemplar do sistema. De maneira geral os bichos aceitam o sistema. Não se esforçam por entender as coisas e pouco se dedicam a aprender a ler. São coisas muito difíceis. Aos poucos as coisas mudam.

Napoleão e outros porcos mudam-se para a casa que pertencia a Jones e passam até a dormir em sua cama. Se alimentam melhor e tomam até bebidas alcoólicas. O progresso exige mais e mais sacrifícios. Napoleão cria uma guarda especial para a defesa, não contra os inimigos externos, sempre orientados por Bola-De-Neve, mas contra os inimigos internos, que começam a perceber os desmandos na nova ordem dos bichos. Cães amestrados formam essa guarda. Também eles serão merecedores de regalias especiais. O camarada Napoleão merece, dizem. Assim o novo regime vai se degradando. Uma reforma da previdência é efetivada e Sansão, depois de esgotado para o trabalho, é vendido para um matadouro de cavalos. Garganta sempre encontra explicações. Todos os vícios humanos são incorporados pelos bichos - sob a máxima de que "Todos os animais são iguais - Mas alguns animais são mais iguais que os outros". Até o vício da jogatina aprendem e na jogatina, também o roubo, além de tentarem andar eretos, sob as patas traseiras.

Na propaganda capitalista a obra foi até transformada em literatura infantil. Imaginem a obra sob o macarthismo dos anos 1950. É importante ressaltar que Orwell não escreveu essa obra para difamar o socialismo, mas para corrigir os erros que ele tomou em sua forma histórica, ao ser instituído. Orwell morre na Inglaterra, em 1950, em consequência de uma tuberculose.

Deixo ainda os três parágrafos da contracapa da Biblioteca Folha, escritos pelo editor Fernando de Barros e Silva: "George Orwell publicou A revolução dos bichos numa época em que, por conivência ou desconhecimento parcial de suas atrocidades, o comunismo soviético ainda gozava de enorme prestígio nos meios progressistas. Impulsionado pela atmosfera da "Guerra Fria" - expressão, aliás, atribuída a Orwell -, o livro fez sucesso instantâneo. Ninguém, depois dele, teria o direito de ainda ser inocente.

Poucas obras seriam tão instrumentalizadas à revelia de seu autor. Crítico precoce do stalinismo, Orwell sempre se definia  como um socialista de convicções profundamente democráticas. Os Estados Unidos transformaram seu livro numa peça de propaganda do anticomunismo e a CIA chegou a providenciar uma versão em desenho animado, distribuída no mundo inteiro, com a cena final adulterada. Morto em 1950, aos 46 anos, Orwell provavelmente teria morrido uma segunda vez, de desgosto, ao ver sua obra desvirtuada pelas engrenagens do macarthismo.

O comunismo, pelo menos na forma que o conhecemos, pertence hoje ao cemitério da história. A revolução dos bichos, porém, sobreviveu à experiência que a tornou possível. A fábula dos animais que se rebelam contra o tirano que os explorava e, em nome de ideais igualitários, constroem uma sociedade ainda mais opressiva, preserva seu interesse e para em pé mesmo sem referência imediata à história. A linguagem quase simplória e as alegorias transparentes fazem do livro uma delícia para crianças. Mas não só. Sua máxima moral, de que 'todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros', talvez nunca traduza, para o bem e para o mal, uma das poucas verdades ancestrais acerca da dominação, da idade do bronze aos dias que correm".

Por fim, uma observação que sempre faço em minhas falas e escritos. O socialismo é tão odiado e temido, não pelo seu passado, mas pelos vislumbres que ele projeta sobre o futuro da humanidade. Uma sociedade mais igualitária e justa, em que os fundamentos da sua organização sejam os da democracia, obviamente, que não os da democracia burguesa.

Não é difícil encontrar semelhanças com outra parábola ou fábula, a de Brecht, que também compara os animais aos seres humanos. Se os tubarões fossem homens. 


sábado, 15 de agosto de 2020

Carta aberta à juíza Inês Marchalek Zarpelon. Por Romeu G, de Miranda.

O espaço desse blog, no dia de hoje, está aberto para uma justa e necessária indignação. A indignação de quem sente na pele a dor deste agravo na pena em função da raça. A justa e necessária indignação é do meu amigo Romeu Gomes de Miranda que tem uma vida toda dedicada a causas humanistas e igualitárias. O agravo da pena aplicada em função da raça traz ao século XXI, o século XIX, na figura de Lombroso, que fazia esse tipo de acusação.
O fato também nos lembra a origem do Poder Judiciário brasileiro, remanescente dos tempos da escravidão, da sua legitimação. A condenação agravada pela sentença proferida pela juíza nos faz desacreditar até do próprio processo civilizatório. Mas vamos à expressão da indignação do nosso companheiro Romeu, que com certeza, expressa também o sentimento de todos nós:

Senhora Juíza.
Não utilizo aqui o tratamento dispensado aos juízes porque para nós, negros e negras do Paraná, a senhora já perdeu essa condição, ainda que a Corregedoria Geral da Justiça nenhuma penalização venha lhe aplicar.
Na decisão que condenou o réu Natan Vieira da Paz, a senhora, num dado momento, assim se expressou:
“Sobre sua conduta social nada se sabe. Seguramente integrante do grupo criminoso, em razão de sua raça, agia de forma extremamente discreta... “
Mais adiante, por duas outras vezes, a senhora, não satisfeita com a primeira afirmação racista, repete a mesma expressão “ seguramente integrante do grupo criminoso em favor de sua raça”.
Doutora Inês.
Sou negro, professor aposentado da rede pública estadual de Educação. Por mais de trinta anos ensinei em escolas públicas e privadas do Paraná e estou seguro de que prestei um bom serviço à população paranaense, fossem meus alunos descendentes de africanos, italianos, poloneses, árabes, alemães ou judeus. A cor de minha pele, minha “raça”, como diz a senhora, não me levou a integrar nenhum grupo criminoso. A senhora pra exercer a magistratura, deveria saber que etnia, não é fator condicionante de comportamento social. São as condições socio-econômico-educacionais que atuam sobre os indivíduos, na formação de seu comportamento e até na configuração de seu caráter. O povo negro literalmente carregou nas costas a economia do Brasil Colônia.
É do jesuíta André João Antonil a afirmação de que os negros foram as mãos e os pés dos senhores de engenho. Aqui, sob as mais cruéis condições, nosso povo trabalhou como escravizado, por mais de três séculos. Com a destrambelhada abolição da escravatura, e a importação de mão de obra europeia, diga-se de passagem, sob financiamento do Estado brasileiro, saímos para a “liberdade” sem sequer um pedaço de terra para sermos enterrados. Entretanto, paradoxalmente, os proprietários foram regiamente indenizados pela perda da mão de obra escrava. Das senzalas para os mocambos, cortiços e favelas foi o nosso destino. Mesmo assim continuamos lutando, continuamos trabalhando, produzindo pães e livros, elevando prédios e músicas, abrindo estradas e dignificando esportes, assentando portos e singrando os mares. O tom de nossa pele, nossa “raça” como escreveu a senhora em sua infeliz peça condenatória, não impediu que tivéssemos um Pixinguinha e Padre José Maurício, na música, irmãos Rebouças e Enedina Marques, na engenharia, Machado de Assis, Cruz e Souza, Lima Barreto, na literatura, Izaquias Queiroz na canoagem, Ademar Ferreira da Silva na Atletismo, etc, etc, etc.
Doutora: nem vou entrar no futebol porque são tantos Arantes do Nascimento que dignificam o nome do Brasil mundo afora, que a lista ficaria longa em demasia. Em resumo, doutora, nossa “raça” não nos leva a integrar grupos criminosos, como perversa e criminosamente a senhora afirmou. Apesar da histórica discriminação, da secular negação de direitos e oportunidades, temos dado ao país, o melhor de nossos braços, nossos cérebros e nossos talentos. Florestan Fernandes, que sugiro que a senhora leia e estude, disse no seu livro recentemente reeditado, (Significado do Protesto Negro); “não haverá democracia real enquanto o país não acertar contas com o racismo.”
Trago ainda, para seu conhecimento, um pequeno fragmento que retirei do livro Racismo Estrutural, de Silvio Luiz de Almeida, negro, advogado, filósofo, doutor e pós doutor em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo;- “ A Lei que criminaliza os corpos pretos e empobrecidos condiciona um enquadramento marcado pela construção dos comportamentos suspeitos. E se a Lei é o Estado, o suspeito “padrão” é também um suspeito para o Estado “.
E foi em um agosto de 1963, que Martin Luther King, na Marcha sobre Washington, pronunciou estas palavras:

“Eu tenho um sonho, que meus quatro pequenos filhos, um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo do seu caráter”.
Espero, ainda que cético, que a senhora reflita sobre estas palavras, doutora Inês Marchalek Zarpelon.
Curitiba, 13 de agosto de 2020
Prof. Romeu Gomes de Miranda.







quarta-feira, 12 de agosto de 2020

O jovem Törless. Robert Musil.

Continuo na leitura dos romances da Biblioteca Folha, de 2003. O livro da vez foi O jovem Törless, do escritor austríaco Robert Musil. A escolha, obviamente, foi por causa do escritor e o seu livro famoso, que ainda não li O homem sem qualidades, uma trilogia, publicada entre os anos de 1933 e 1945. Observem bem, por favor, o local e a data. Viena entre os anos de 1933 e 1945. Ascensão do nazismo e a anexação da Áustria. É de arrepiar. 
O jovem Törless, 2003. Biblioteca Folha. Tradução de Lya Luft.

O jovem Törless é de 1906 e é autobiográfico. Narra os episódios ocorridos num internato, em escola militar destinada aos filhos das elites burguesas da Áustria. Dá dó dos meninos, de todos eles. Sob esse aspecto pode ser considerado um romance de formação, embora a relação entre professores e alunos e o processo de aprendizagem seja pouco enfocado. Esse recai mais sobre a relação entre os alunos e os impactos que essas relações têm sobre a formação do indivíduo. Trata-se de um tema extraordinário e complexo.

Creio que uma passagem, já da parte final do livro, retrata bem a situação vivida pelo jovem Törless, que teve uma percepção bem particular dos fenômenos ocorridos, embora todos fossem jovens com mais ou menos a mesma idade: "De vez em quando tinha, porém, de pensar: e então assaltava-o uma profunda desesperança, uma vergonha fatigada e triste.

Mas também sobre essas coisas ele não pretendia prestar contas.

O motivo residia nas peculiares condições de vida no Internato. Com forças jovens e impetuosas retidas por trás de muros cinzentos, a fantasia multiplicava imagens sensuais que punham muitos dos rapazes fora de si.

Certo grau de devassidão passava até por ser uma qualidade viril e ousada; era como se conquistassem os prazeres proibidos. Especialmente quando se comparavam com a aparência melancolicamente respeitável de certos professores, a palavra 'moral' assumia uma conotação ridícula, ligada a ombros estreitos, barriguinha abaulada e pernas finas, por trás dos óculos uns inofensivos olhos de carneiro, como se a vida não passasse de um edificante prado florido.

Enfim, no Internato, Törless ainda não sabia da vida, com todos os seus grandes graus de perversidade e devassidão, de morbidez e grotesco, e que deixam os adultos repugnados quando se fala no assunto". 

Reiting e Banenberg, dois dos jovens protagonistas do romance ganham adjetivos como "perversos, grosseiros e vulgares". A sua vítima será outro jovem, Basini, inicialmente envolvido em pequenos furtos e depois, transformado em objeto sexual deles e também de Törless. Törless acompanha os fatos, meio distanciado, se envolvendo apenas parcialmente. Os graus de tortura infligidos ao jovem fogem até dos limites do imaginário. Torturas psicológicas e físicas, no limite da suportabilidade. Não as aguentando, busca ajuda, inicialmente com Törless e depois com a direção do Internato.

Esses quatro jovens são os protagonistas do romance. Basini é de constituição muito frágil, tanto física, quanto psicológica. Não consegue afirmar sua autonomia em momento algum. Reiting e Banenberg são mentes pervertidas e Törless vai para muito além dos problemas emergentes da idade como a sexualidade e a busca por solução de questões abstratas, ligadas à matemática e à vida. O seu professor de matemática o coloca frente a frente com Kant, apresentado como o filósofo que trata "dos fundamentos da nossa ação". Um falso moralismo perpassa todos os momentos da formação desses pobres jovens. Vida de internato e colégio militarizado é tudo o que deve ser evitado. Disciplina por disciplina só gera ódio e distanciamento.

Na contracapa do livro lemos o seguinte comentário, assinado pelo editor da Folha/Domingo: "As perturbações do aluno Törless é o título original da primeira obra do escritor, lançada em 1906. Traz a história de um rapazola da alta burguesia austríaca que é colocado num internato para que dê prosseguimento a sua educação, como ocorria nas melhores famílias. Longe da casa paterna, Törless será obrigado a amadurecer no meio de dois mundos aparentemente distintos. Na superfície, o internato expressa o puritanismo, a ordenação racional e a educação de feitio militarista da sociedade austro-húngara. Enquanto isso, nos sótãos e escurinhos da escola, Törless se defrontará pela primeira vez com a potência do sexo, da crueldade e do irracionalismo.

Seguimos a trajetória existencial do jovem com enorme interesse, pelo que traz  de descoberta das camadas mais escuras da psique. A escrita de Musil é sombria e envolvente, tanto mais precisa quanto mais profundo mergulha no interior do personagem. Os temas se acumulam, expressando as diferentes perturbações que acometem Törless - desde as dúvidas teológicas até os traumas da diferenciação sexual. Musil escreve numa época que acabara de decretar 'a morte de Deus' (Nietzsche) e descobrir o inconsciente (Freud).

Pode-se ler O jovem Törless também como um conto moral: o personagem encara sua temporada no inferno como aprendizado e superação de si. O enfrentamento solitário e a auto-compreensão do lado obscuro do desejo e da vida são uma espécie de garantia para que a parte irracional do indivíduo não se irradie em regra política coletiva, como viria a ocorrer no nazismo". Tempos de crise, tempos de monstros. O livro não é longo, tem 157 páginas e não tem divisão em capítulos.


segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Breve romance de sonho. Arthur Scnitzler.

Um livro muito louco. Um sonho e uma realidade ou uma realidade e um sonho. Ou tudo sonho. Continuando a temporada de leitura de livros comprados em 2003 e ainda não lidos, da coleção de 30 volumes da Biblioteca Folha, chegou a vez de ler, pela primeira vez, um livro do escritor austríaco Arthur Schnitzler, um médico vienense, a cidade onde nasceu a psicanálise. Trata-se do emblemático livro Breve romance de sonho. O tema é a sexualidade de um casal pequeno burguês.

Edição da Biblioteca Folha. 2003. Tradução de Sérgio Tellaroli.

Ah! a sexualidade! Ah! Viena. Ah! Freud. Ah! Schnitzler. Eu ainda organizo o meu curso de literatura erótica. Philip Roth será o meu guia seguro. A infinitude dos desejos humanos. Pulsões de vida ou dos perigos da morte. Desejos inconfessáveis, só de pensar todos já ficam corados. Haja moral e religião para abafar. São atingidos até os mais discretos e bem sucedidos casais pequeno burgueses. Scnitzler escreveu também, entre vários outros, "Anatol (1893) e Ronda, (1897), peças de teatro que descrevem a atmosfera de erotismo e melancolia da Viena do fim-de século. - e causaram escândalo quando encenadas. Como escritor e também como psicólogo, Schnitzler antecipou ideias do criador da psicanálise, Sigmund Freud".

Vamos contextualizar. Schnitzler nasceu em Viena em 1862 e, na mesma Viena, veio a morrer em 1931. Também o tema do anti-semitismo está presente em sua obra. Nessa época, o ambiente em Viena estava longe de ser dos melhores. E já que falamos do seu conterrâneo Freud, este nasceu na Tchéquia, em 1856, vindo a morrer em Londres em 1939. Viena, a essas alturas já era uma cidade proibida para os judeus. Ambos exerceram a profissão de médicos na cidade de Viena. Schnitzler por pouco tempo, vindo a dedicar-se à literatura em tempo integral.

Quanto ao Breve romance do sonho apresento os três parágrafos da orelha da capa: "Tudo vai bem na vida do dr. Fridolin e de sua mulher Albertine. Ambos são jovens, belos, prósperos e têm uma filhinha adorável. Pode-se dizer que, na Viena dos anos 1920, eles formam uma família burguesa exemplar. Até que, numa noite, depois de um baile de máscaras e vários goles de champanhe, Albertine decide confessar ao marido uma antiga fantasia erótica (na verdade, revela um sonho terrível e bem apimentado). Perturbado pela história secreta de sua mulher, o dr. Fridolin sai no meio da noite para atender um paciente em estado grave (na verdade, sai tranquilamente após o café da manhã, tomado em família).

A partir desse momento, tudo o que parecia dar sustentação ao mundo das personagens começa a entrar numa espécie de vertigem. Rapidamente o dr. Fridolin se vê enredado numa estranha aventura sexual, em que o desejo e o perigo de morte se auto-alimentam. Ao final da narrativa, o leitor fica com a impressão de que a volta à 'realidade de todos os dias' não será mais possível - não para os personagens que a vivenciaram.

Nesta pequena obra-prima de Arthur Schnitzler, as estruturas da vida psíquica e familiar são abaladas e expostas até os alicerces. Baseado nela, o cineasta norte-americano Stanley Kubrick fez, em 1999, seu filme de despedida: De olhos bem fechados, com Tom Cruise e Nicole Kidman nos papeis principais".

Sobre o livro, Mário César Carvalho, na contra-capa do livro, nos dá um pequeno roteiro: "Em Breve romance do sonho, um médico a quem a mulher relatara uma fantasia sexual fica dilacerado de ciúmes e vai visitar um paciente. Encontra-o morto, flerta com sua filha e, sem planejar, acaba a noite numa orgia de mascarados. Ali, o ideal de frenesi e sexo sem limites dos bacanais é substituído por melancolia e morte. Há um clima de delírio e terror íntimo, a invasão de um mundo fantástico e mutante, do qual nunca se sabe se é a narração de um sonho, pesadelo ou encenação, que parece aproximar Schnitzler do expressionismo alemão. Ou de um Kafka que tivesse olhos para o sexo".

O mesmo comentarista ainda traça um paralelo para diferenciá-lo de Freud. "Esqueça Freud e sua declaração de que evitava ler as obras de Arthur Schnitzler por temer que influenciassem o seu pensamento. Tratar o escritor austríaco como um duplo de Freud em registro ficcional, como virou clichê, é uma traição - ao escritor e ao criador da psicanálise. Scnitzler e Freud interessam-se por sexo e morte, mas acabam aí as confluências.

Enquanto Freud privilegiava as perversões, Schnitzler explora o nó que liga sexo e morte para jogar uma luz (bruxuleante que seja)  sobre a mediocridade da vida conjugal burguesa e as razões da infidelidade. Schnitzler não precisou de muito espaço para concretizar esse seu objetivo. O pequeno livro tem sete capítulos, delineados ao longo de noventa e cinco páginas.


sábado, 8 de agosto de 2020

Sargento Getúlio. João Ubaldo Ribeiro.

No ano de 2003 o grupo editorial Folha lançou a coleção Biblioteca Folha, num total de 30 volumes, misturando literatura universal e brasileira. Como na época eu estava em sala de aula, não li todos. Retomei alguns, agora. Entre eles, Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro. Sargento Getúlio é um dos maiores representantes da literatura regional brasileira. O livro é uma viagem de Paulo Afonso até Aracaju junto com o sargento, que de lá traz um preso. A história é bem simples.
Edição da biblioteca Folha. 2003.

Antes de falar do romance vamos falar um pouco do João Ubaldo. Ele nasceu na sua amada ilha de Itaparica em 1941 e veio a falecer no Rio de Janeiro no ano de 2014. Em Salvador formou-se em Direito, onde também, por um breve tempo, foi professor. Era um professor extremamente rigoroso. A sua vida foi dedicada à literatura e ao jornalismo. Passou alguns anos de sua infância e juventude no estado de Sergipe, onde seu pai fora chefe da polícia. Desse período, Moacyr Scliar, na contracapa do livro, nos conta o seguinte episódio:

"Sargento Getúlio, de 1971, é inspirado num episódio real: um homem conhecido como sargento Cavalcanti, gravemente ferido a tiros num atentado em Paulo Afonso, foi resgatado pelo pai de João Ubaldo, que então chefiava a polícia de Sergipe, e trazido com vida para Aracaju". Com a facilidade de narrar, João Ubaldo usou esse episódio como mote para o seu segundo grande romance. Nele o sargento Getúlio, de uma fidelidade mais do que canina, percorre o mesmo caminho, só que trazendo um preso, ajudado pelo seu amigo Amaro. Em meio ao caminho ele recebe ordem para não mais trazer o preso. Mas, como empenhara a palavra, ele cumpre a sua missão. A sua valentia resiste a todos os obstáculos, inclusive as tropas da polícia.

Creio que o romance cumpre dois grandes objetivos. O primeiro é o de traçar um perfil do homem nordestino desses anos anteriores a 1971, retrocedendo bastante no tempo, até os tempos do cangaço. A linguagem é toda ela impregnada de regionalismos, o que joão Ubaldo faz com rara maestria. O segundo objetivo é o de mostrar, que esse homem, acostumado à cega obediência, também é capaz de tomar consciência dos fatos e agir perante eles com plena autonomia. É o romance.

O romance é também uma viagem, tanto geográfica, quanto antropológica, pelo sertão nordestino, de Paulo Afonso até a cidade de Aracaju. Essa região fora fortemente influenciada pelo cangaço, tendo sido, inclusive, a região em que Lampião morreu numa emboscada. O sargento Getúlio, até lamenta o fato de não mais haver cangaço, pois, se ainda o houvesse, a ele se incorporaria. É um longo caminho percorrido, passando por hábitos regionais, comidas, vestimentas, padre, polícia e, acima de tudo, por seres humanos. Seres que não suportam desaforos. Getúlio, chamado de corno, provoca o decepar de uma cabeça com toda a normalidade e naturalidade.

Chegado em Aracaju entrega o serviço prestado e deixa recado: "É isso que eu quero fazer, e quero botar as vistas bem dentro das dele que é para ele dizer na minha cara que não mandou buscar e aí eu digo a ele: quem o senhor mandou em Paulo Afonso, que eu me lembro, aqui mesmo nessa sala, quem o senhor mandou em Paulo Afonso, numa noite, aqui nessa sala mesmo, eu, Getúlio Santos Bezerra, tomando um vermute vermelho aqui, quem o senhor mandou para Paulo Afonso para buscar esse criaturo, não foi nem eu. Possa ser que ele diga oxente Getúlio, mas você não recebeu o meu recado, que é isso, Getúlio, vá sentando aí e vamos resolver esse assunto, você é meus pecados, seu Getúlio. Uma coisa dessas. Eu digo: o senhor não entendeu o que eu falei. Eu falei que o homem que o senhor mandou em Paulo Afonso - me diga logo, mandou ou não mandou?". Um pouco mais adiante reflete sobre a sua missão e a sua vida:

"Tinha a minha missão, isso tinha. E fiz. Tinha minha vida, isso também, e vivi, e se me perguntasse quer viver uma vida comprida amofinado ou quer viver uma vida curta de macho, o que era que eu respondia? Eu respondia: quero viver uma vida curta de macho, sendo eu e mais eu e respeitado nesse mundo e quando eu morrer se alembrem de mim assim: morreu o Dragão. Que trouxe mortandade para os inimigos, que não traiu nem amunhecou, que não teve melhor do que ele e sangrou quem quis sangrar. Agora eu sei quem eu sou".

O livro se desenvolve ao longo de nove capítulos, acompanhando a viagem, cheia de percalços, pelo sertão. De Paulo Afonso até Aracaju. Da obra de Moacyr Scliar ainda tomo uma parte: "Na lacônica introdução a Sargento Getúlio, diz João Ubaldo: "'Nessa história, o Sargento Getúlio leva um preso de Paulo Afonso a Barra dos Coqueiros. É uma história de aretê'. A primeira frase contrasta com a segunda. A história não se restringe a esse modesto resumo; é muito mais do que isto, como está implícito na segunda frase. 'Aretê' é o termo grego para excelência, virtude. É está bem empregado, porque o que temos nesta sintética obra é uma tragédia grega transposta para o sertão nordestino".
Com o João Ubaldo Ribeiro, no Teatro Paiol.

Conheci João Ubaldo, num encontro realizado no Teatro Paiol, com direito a fotografia e tudo o mais. Um espaço pequeno em que, mesmo assim, sobraram alguns poucos lugares. Um mês depois, na FLIP, muita gente se acotovelou para vê-lo. É a força do glamour. João Ubaldo era maravilhoso. A sua fala era tão fácil e fluente quanto a sua escrita. Grande escritor e grande jornalista. Muito honrou o campo das letras, da democracia, do humor, da alegria e do humanismo.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Um inimigo do povo. Henrik Ibsen.

Há muito essa peça, ou esse livro estava no meu radar. Nos meus tempos de professor do curso de jornalismo da universidade Positivo os alunos sempre estavam empenhados nos ensaios, sob a coordenação da professora Marília, da peça Um inimigo do povo, de Henrik Ibsen. Lembro que o então aluno Manolo Ramires interpretava o Doutor Stockmann, o famoso "inimigo do povo". Agora, lendo alguns clássicos do teatro, o incluí em minha lista de leituras.
Um inimigo do povo, da L&PM, reimpressão de 2019. Tradução de Pedro Mantiqueira.

A primeira coisa que eu entendi foi a razão pela qual os alunos do curso de jornalismo se empenhavam na representação da peça. É que o jornalismo e a construção da formação da opinião pública é um dos núcleos centrais da peça. A peça se desenvolve ao longo de cinco atos, num crescendo extraordinário. O doutor Stockmann, rapidamente, passa de herói a inimigo mortal do mesmo povo. É uma ação dos poderes instituídos, a serviço do poder econômico.

Na peça, uma pequena cidade da Noruega conhece grande prosperidade com a sua transformação numa Estação Balneária. É nessa Estação que encontraremos os personagens da trama. O doutor Thomas Stockmann, médico, sua senhora, a filha Petra, professora e os filhos menores Eilif e Morten, o irmão Peter, que é o prefeito e presidente da Estação Balneária, Morten Kiil, dono do curtume e sogro do Dr. Stockmann e o povo do jornal A voz do povo: Hovstad, o editor, Billing, o subeditor e Aslaksen, o impressor. Temos ainda um amigo do doutor, Horster que é comandante de navio.

O primeiro ato se passa na casa do doutor, onde está reunido com o pessoal da Voz do povo, do qual ele também é articulista. O prefeito mostra a preocupação com o irmão, com relação às opiniões que emite em seus artigos. No momento estas preocupações dizem respeito a pesquisas sobre a questão das águas contaminadas do balneário pelos curtumes das proximidades. Os jornalistas consideram o doutor digno de homenagens e como uma espécie de salvador do balneário. 

O segundo ato se desenvolve no mesmo cenário e, inicialmente, no mesmo clima festivo. Esse clima muda com a chegada do dono do curtume e sogro do doutor, que começa a fazer algumas insinuações, insinuações essas que ficam bem claras com a chegada do irmão, o prefeito da cidade. As preocupações com a contaminação das águas arruinariam os planos econômicos do balneário. As mudanças que seriam exigidas com relação ao tratamento da água, além dos custos elevados, retardariam o projeto em, no mínimo, dois anos. Se trava uma luta, como a que estamos assistindo no Brasil, neste ano da pandemia de 2020. A luta entre o CPF e o CNPJ. As questões de saúde se confrontando com os interesses econômicos. As primeiras ameaças complementam o ato.

No terceiro ato o cenário muda para a redação do jornal A voz do povo. Ali os preparativos para a impressão do artigo do doutor Stockmann são interrompidos pela chegada do prefeito e a sua argumentação das implicações econômicas das denúncias contidas no artigo. A mudança de opinião dos jornalistas é rápida e, em vez da publicação do artigo, publicam uma nota de esclarecimento ditada pelo prefeito. O doutor sob protestos afirma que usará a sua voz, numa assembleia com o povo.

Essa assembleia é foco do quarto ato, realizada na casa de Horster, já que outros espaços haviam sido negados. Para dominar a reunião o prefeito faz eleger um presidente para a sessão, na pessoa de Aslasken, o impressor do jornal, o homem da "moderação". Ele impedirá que o doutor faça as denúncias contidas no artigo.Então o doutor, em vez de falar da contaminação das fontes da água passa a falar da contaminação das fontes da moral. Acusa os poderes da cidade na manipulação da maioria, transformada em massa amorfa a ser desenhada pela vontade dos poderosos. As vaias são generalizadas e, por meio de uma votação, Stockmann é declarado inimigo do povo, por unanimidade, com a exceção de um único voto, o voto de um bêbado, que já incomodara várias vezes ao longo da assembleia.

A parte mais sórdida da peça ocorrerá no quinto e último ato. Stockmann vê a sua casa apedrejada, desalojado e demitido de suas funções, assim como Petra, a filha. O prefeito lhe oferece reconciliação se ele se retratar e lhe fala do testamento de Morten Kiil em favor de seus filhos, mas adverte de que ele poderá ser modificado. Por fim chega o senhor Morten, anunciando a compra das ações da Estação Balneária, trama na qual acusaria o doutor de participação. O doutor Stockmann vendo-se só faz a sua proclamação final: "O homem mais poderoso do mundo é o que está mais só".

Vamos as necessárias contextualizações da peça. Ibsen nasceu em Skien, na Noruega em 1828, filho de prósperos comerciantes mas, a família ficou reduzida à pobreza depois do fechamentos da destilaria da família e o menino foi obrigado a trabalhar como assistente farmacêutico. A vida de escritor o acompanhou desde cedo, alçando-o ao mundo da fama. Irá morrer em 1906, na mesma Noruega, em Oslo, após uma série de derrames.

Na contracapa do livro, na edição da L&PM, lemos: "Um inimigo do povo foi publicado em Copenhague em 1882 e estreou no Teatro Nacional em Oslo em 13 de janeiro de 1883. Imediatamente foi traduzido para dezenas de línguas e encenado e publicado em quase toda a Europa, numa repercussão digna dos grandes autores franceses que monopolizavam a dramaturgia da época. A estreia em Paris foi marcada por grandes manifestações no teatro de apoio às ideias anarquistas. A enorme repercussão da peça motivou longos e apaixonados artigos do deputado socialista Jean Jaurès e do deputado esquerdista e grande intelectual de seu tempo Georges Clemenceau. Em 1898, voltou a ser apresentada em Paris em meio ao célebre processo Dreyfus, quando as sessões da peça eram seguidamente interrompidas com aclamações de protesto contra o Estado e de apoio a Ibsen e Zola, que pontificava na época com seu célebre J'accuse em favor de Alfred Dreyfus.

Um inimigo do povo é uma obra-prima sobre as contradições humanas e a falência do indivíduo frente à unanimidade. Mesmo diante  da vontade de praticar o bem comum, o dr. Stockmann entra em choque com os interesses mesquinhos da cidade. Vítima da maioria e da unanimidade, o homem que queria salvar a cidade torna-se o inimigo do povo. Estas ideias de Ibsen aproximavam-se muito das ideias anarquistas que tinham amplo apoio de importantes segmentos intelectuais e políticos da sociedade da época. A peça é uma impiedosa crítica às elites, aos governos, aos partidos e ao pensamento único".

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Discurso sobre a servidão voluntária. Étienne de la Boétie.

O que significa ler um livro escrito por um jovem passional, de menos de dezoito anos de idade, que adorava a liberdade, execrava a sujeição e a tirania e dava asas à imaginação para as suas utopias? Isso é ler Discurso sobre a servidão voluntária de Étienne de la Boétie. O livro, ou ensaio, foi escrito entre os anos de 1548 e 1551 e só veio a público em 1576, publicado pelo herdeiro de seus escritos, Michel de Montaigne. O ensaio também foi publicado sob o título O contra um, um título bem sugestivo.
Edição de O discurso sobre a servidão voluntária, da Edipro, 2019.

Para não perder o hábito, vamos para as contextualizações. Étienne de la Boétie teve uma vida muito curta. Nasceu em 1530 e morreu em 1563. Apesar da pouca idade, teve uma vida intelectual intensa, sendo o direito a sua área de estudos. Conhecia profundamente os clássicos gregos e romanos, que lhe serviram como fonte de inspiração. O seu tempo teve a marca das grandes transformações. A liberdade teimava em se afirmar e a servidão insistia em permanecer. Eram tempos do surgimento do Humanismo, do Renascimento e da Reforma Protestante. A liberdade era fortemente cerceada, o que explica que a sua obra foi publicada apenas postumamente e, mesmo assim, com muitos cuidados.

A pergunta básica a que o ensaio pretende responder é o que está contido em seu título: a servidão voluntária. Portanto, mais forte do que a coerção, sob todas as suas formas, existe esse fenômeno em que os seres humanos abrem mão daquilo que é a essência do humano, para, voluntariamente, se submeterem ou se sujeitarem. Vejamos: "Aquele que tanto vos domina não tem senão dois olhos, duas mãos e um corpo, e em nada difere do homem ordinário de nossas grandes e infinitas cidades, exceto pela vantagem que vós lhe concedeis em vos destruir. Donde ele tiraria os tantos olhos com que vos vigia se não consentísseis? Como dispõe de tantas mãos para vos injuriar se não as tomasse de vós? Os pés com que pisa em vossas cidades, donde ele os tira, se não vos pertencem? Como é possível que tenha algum poder sobre vós senão por meio de vosso consentimento? Como ousaria atacar-vos sem vossa cooperação? O que poderia fazer convosco se não fosseis receptores do ladrão que vos rouba, cúmplices do assassino que vos mata e traidores de si mesmos? Semeais vossos frutos para que ele os destrua; encheis vossas casas de móveis para fornecer objetos às pilhagens; criais vossas filhas para que ele possa saciar sua luxúria..." (Página 42).

Enquanto continua a sua catilinária, ele também oferece a pronta solução: "Sede resolutos em não servir mais, e estareis livres. Não peço que o derrubeis de seu posto, apenas que não o tolereis mais, e o vereis, como um grande colosso do qual se retirou a base, ruir sob o próprio peso" (Página 42).

Qual seria então o grande inimigo dessa inversão, de amor à submissão em detrimento da liberdade, abrindo mão de direitos que lhe são naturais? Ele explica: "Digamos, então, que ao homem todas as coisas parecem naturais, que delas ele se nutre e a elas se acostuma; mas o que é realmente nativo é só aquilo que a natureza simples e inalterada o impele a fazer: assim, o primeiro motivo por trás da servidão voluntária é o costume. Os homens são como os mais leais cavalos, que inicialmente mordem o freio e depois passam a apreciá-lo; que primeiramente escoiceiam e logo exibem altivos o seu arreio, pavoneando-se sob sua barda. Dizem que sempre foram subjugados, que seus pais viviam assim..." (Página 54).

No ensaio o autor também se refere às táticas empregadas pelos tiranos, que se julgam pré escolhidos por Deus. Distribuem benesses, como pão e diversões e o próprio povo inventa mentiras com as quais procuram se auto-convencer. Inventam as crenças e as hierarquias e os favorecidos do entorno. Depois de descrever cenas de ousadia da liberdade, de resistência a tiranos ele faz perguntas intrigantes: "Isso é ser feliz? Chama-se a isso viver? Há algo no mundo mais insuportável? E não digo apenas para um homem honrado, não digo apenas para um homem bem nascido, mas para qualquer um com bom senso ou, ao menos, com aparência de homem. Que condição é mais miserável do que viver assim, sem ter nada que lhe pertença, recebendo de outrem seu conforto, sua liberdade, seu corpo e sua vida"? (Página 72).

O livro que eu li é da Edipro, primeira edição, 1ª reimpressão, 2019. Conta com um prefácio de Leandro Karnal sob o título de A dor da liberdade e o amor da servidão e uma necessária introdução de Paul Bonnefon. O ensaio é relativamente curto. Ele ocupa as páginas 31 a 79 que podem ser lidas e relidas em apenas um dia, com um imenso proveito.

Eu fiquei imaginando as repercussões desse pequeno ensaio. Nele eu vi, sem maiores esforços, John Locke, a Declaração da independência dos Estados Unidos, a Revolução Francesa, Kant, Althusser e também a indústria cultural de Adorno. E para terminar, uma frase de a Montanha Mágica de Thomas Mann, mostrando o dilema entre a ordem e a liberdade. A cena se dá entre Hans Castorp e a encantadora jovem russa madame Chauchat. A russa diz ao alemão, diante de uma aproximação sua:  "Vocês, alemães, amam mais a ordem do que a liberdade. A Europa inteira sabe disso". Fulminante. Mais do que recomendo a leitura.