sábado, 23 de julho de 2022

Um banquete no trópico. 33. Sobrados e mucambos. Gilberto Freyre.

Este o trigésimo terceiro trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da resenha feita por Brasílio Sallum Jr., professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, de Sobrados e mucambos, de Gilberto Freyre. A resenha encontra-se em Introdução ao Brasil - um banquete no trópico, volume II, nas páginas 327 a 356, livro organizado por Lourenço Dantas Mota. Sobrados e mucambos analisa o processo de urbanização do Brasil e a decadência do patriarcalismo que se formou nos três primeiros séculos de nossa colonização. Além disso o livro desfaz o mito de que a miscigenação seria um fator impeditivo para o nosso desenvolvimento. A primeira publicação data do ano de 1936.

No volume II, a resenha de Sobrados e mucambos. 


O livro teve boa recepção mas não chegou a repetir os êxitos de Casa-Grande&Senzala. Na segunda edição o livro veio com acréscimos e reformulações. É um livro contra as crenças da época, de que clima, raça e a incivilidade dos portugueses seriam um impedimento para o nosso processo civilizatório. A partir da destruição desses pilares foi possível uma nova visão, uma visão positiva para o Brasil. O livro também louva a miscigenação, que se refletiu numa maior adaptabilidade, ao contrário da rigidez calvinista dos ingleses. O livro, nesse sentido, representa uma continuidade de Casa-Grande&Senzala ao romper com os complexos de inferioridade e afirmar possibilidades de grandeza para Brasil. O livro tem como foco a organização patriarcal da sociedade brasileira. Vejamos as palavras do resenhista: "Com efeito, no período colonial brasileiro, a família patriarcal arraigada no meio rural fora a forma de organização social mediante a qual os processos de miscigenação cultural e racial se desenvolveram, amortecendo as oposições inerentes às relações entre brancos e escravos de cor".

O subtítulo de Sobrados e mucambos também entrega o teor do livro: decadência do patriarcado rural e o desenvolvimento do urbano. O fenômeno do urbano passa a ocorrer com maior intensidade a partir do final do século XVIII e ao longo do século XIX. A vinda da família real ao Brasil (1808) foi decisiva para tal fator. O livro está estruturado em torno de doze capítulos, escritos em forma de espiral, com idas e vindas.

Raça, classe e região se constituem no âmago do livro. O patriarcado colonial brasileiro foi muito mais do que a simples família e agregados. Foi uma verdadeira instituição, um complexo econômico, social e político, com inúmeras variações, ocorridas ao longo de quatro séculos. Foi uma espécie de organização feudal da economia, com toda a rigidez da inflexibilidade da mobilidade social, permitida apenas por pequenas brechas, possíveis graças ao pastoreio e o cultivo de alguns produtos para a auto suficiência da Casa-Grande. Apesar de toda a rigidez da estrutura, a miscigenação aconteceu com a fusão racial e cultural entre portugueses, negros africanos e as populações indígenas nativas. Vejamos este fato nas palavras do próprio Freyre:

"Até o que havia de mais renitentemente aristocrático na organização patriarcal de família, de economia e de cultura foi atingido pelo que sempre houve de contagiosamente democrático ou democratizante e até anarquizante, no amalgamento de raças e culturas e, até certo ponto, de tipos regionais, dando-se uma espécie de despedaçamento das formas mais duras, ou menos plásticas, por excesso de trepidação ou inquietação dos conteúdos".

Essa estrutura patriarcal rural começa a ruir com o fenômeno da urbanização, em que a cidade se volta contra o engenho e o Estado começa a intervir na estrutura da família. A Coroa e a cidade entram em conflito com a aristocracia rural. A urbanização, que já iniciara em Pernambuco e em Minas Gerais se acentua com o estabelecimento da família real no Rio de Janeiro. A vida urbana se adensava. Todos queriam estar sob o olhar do rei. Freyre aponta para o surgimento do urbano. Ocorreu "uma diminuição da distância não só física como social entre a gente senhoril e atividades mecânicas, comerciais, industriais que começaram a desenvolver-se, nas mesmas cidades, em relativa independência dos senhores de sobrados, embora, principalmente, para seu uso e conveniência". E o resenhista acrescenta. "A serviço dos sobrados surgiram marcenarias e carpintarias, boticas e drogarias, sorveterias onde também vendiam-se doces finos; lojas de miudezas ou de ferragens, armazéns de secos e molhados, alfaiatarias, casas de pianos e de música, colégios, bancos, etc.".

Começam então também os enormes contrastes urbanos, mas em formas diferentes da organização patriarcal. Se acentuam as polarizações sociais. Vejamos duas citações em referência. "... os jardins, os passeios chamados públicos, as praças sombreadas de gameleiras, e, por muito tempo, cercadas de grades de ferro semelhantes às que foram substituindo os muros em redor das casas mais elegantes, se limitavam ao uso de gente de botina, de cartola, de gravata, de chapéu-de-sol [...] [Limitavam-se] ao uso e gozo do homem de certa situação social - mas do homem, a mulher e o menino conservando-se dentro de casa, ou, no fundo do sítio, quando muito na varanda, no postigo, no palanque do muro, na grade do jardim". Por outro lado, a exclusão.

"Não só os negros de pé no chão [...] como aos próprios caixeiros  de chinelo de tapete e cabelo cortado à escovinha e até aos portugueses gordos de tamanco e cara raspada estavam fechados aqueles jardins e passeios chamados públicos, aquelas calçadas e ruas nobres, por onde os homens de posição, senhores de barba fechada ou de suíças, de botinas de bico fino, de cartola, de gravata, ostentavam todas essas insígnias de raça superior, de classe dominadora, de sexo privilegiado, à sombra de chapéus-de-sol de quase réis".

Com a urbanização surgiram outras vozes, para além do patriarca, como a da Igreja, do governo, do banco, do colégio, da fábrica, da oficina, da loja, do médico, do juiz, da polícia. Tudo isso significou redução do poder patriarcal. A praça voltara-se contra a roça, o Estado contra a família e o governo contra o Patriarca. Um dos mais belos capítulos, com certeza, é o que trata das relações familiares, marido e mulher, pais e filhos. Constata-se o minar do poder do Pater familias, pela diminuição da distância entre os seus membros. Ventos de emancipação individual. É o capítulo terceiro que trata da relação pai e filho. Dissolvem-se as chamadas pedagogias sádicas da violência, da imposição pela força. Da mesma forma mudaram as relações marido e mulher, que sob o patriarcado eram relações mórbidas.

Freyre mostra a origem dessas mudanças: "muito menos devoção religiosa que antigamente. Menos confessionário. Menos conversa com as mucamas. menos história da carrochinha contada pela negra velha. E mais romance. O médico da família mais poderoso que o confessor. O teatro seduzindo a mulher elegante mais que a igreja. O próprio "baile mascarado" atraindo senhoras de sobrado". Mas no geral, os espaços femininos ainda se limitavam aos espaços domésticos. Mas de uma maneira geral, os fenômenos sociológicos começaram a se impor aos fatores biológicos.

Outro fenômeno observado por Freyre é a volta da europeização com a urbanização. Com a abolição do tráfico, as influências orientais trazidas pela cultura africana se fragilizam e, com a vinda da família real, se acentuam as influências europeizantes. O mesmo ocorre com a ida dos filhos da aristocracia às universidades europeias. Na volta trazem junto os hábitos adquiridos ao longo de suas permanências. As influências inglesas e francesas passam a ser totalmente preponderantes. Para isso também contribui a chamada revolução tecnológica, fenômeno que também mexeu na rigidez da estrutura social, permitindo possibilidades de ascensão. As relações sociais se burocratizam. A urbanização também permite a ascensão do bacharel e do mulato. Ocorre inclusive, o chamado fenômeno do bacharelismo, fenômeno esse acusado de tantos males, por motivo de transposições culturais das instituições europeias, alheias à realidade brasileira. O bacharelismo se acentua com a criação dos cursos de Direito no Recife e em São Paulo.

Em suma, Freyre destaca o elemento da miscigenação em nossa formação como altamente positivo. "O característico mais vivo do ambiente social brasileiro parece-nos hoje o da reciprocidade entre as culturas; e não o marcado pelo domínio de uma sobre a outra, ao ponto da de baixo nada poder dar de si, conservando-se como em outros países de miscigenação, num estado de quase permanente crispação ou de recalque".

Por fim, os dois parágrafos finais da análise do resenhista, destacando os valores da miscigenação, biológica e social: "E acrescenta, incluindo os imigrantes no argumento: 'Biológica e sociologicamente mestiça. Pois consideráveis grupos de populações meridionais do Brasil, cuja situação de filhos de italianos, poloneses, alemães, sírios, japoneses assemelha-se psicologicamente e sociologicamente - embora não culturalmente - à de mestiços, dão extensão à caracterização da massa brasileira como massa mestiça'. Isso permitiria entender por que há, ao invés, incompreensão entre a massa brasileira e os líderes de tipo 'europeu'.

Essas e outras questões, que dizem respeito ao surgimento no Brasil de uma sociedade ao mesmo tempo mestiça, diversificada, na sua composição étnica e cultural e predominantemente individualista na sua organização familiar, não são tratadas com mais minúcia em Sobrados e mucambos. São deixadas para o próximo volume da série, Ordem e progresso".

Deixo ainda a resenha de Casa-Grande&Senzala.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/04/um-banquete-no-tropico-10-casa-grande.html 

E, como de hábito, o trabalho anterior, Populações meridionais do Brasil, de Oliveira Viana.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/05/um-banquete-no-tropico-32-populacoes.html


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