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cultura, política e viagens __________________________________________________________________ "A mente que se abre a uma nova idéia jamais volta ao seu tamanho original" Albert Einstein
terça-feira, 5 de novembro de 2024
A condição humana (1933). André Malraux.
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quarta-feira, 30 de outubro de 2024
MADAME BOVARY. Gustave Flaubert.
quarta-feira, 23 de outubro de 2024
O HORROR ECONÔMICO. Viviane Forrester. 1996.
O ano de 1997 marca a minha chegada a um endereço famoso: rua Monte Alegre, em Perdizes, São Paulo. Depois de minha aposentadoria, como professor da escola pública do estado do Paraná, eu chegava a PUC, para iniciar os meus estudos de mestrado, no renomado programa de História e Filosofia da Educação, sempre laureado com uma nota sete. Foram os anos de aprimoramento da minha formação teórica. Oportunidade rara na vida. Chegava, portanto, ao curso de mestrado, ao final do século XX, num período de grandes transformações, tanto na ordem política, quanto na econômica. Um mundo de novos livros se colocava à frente de meus olhos. Avidamente eu os comprava nas livrarias que rodeavam o famoso endereço. Cada dia mais, aprendia a ler o mundo.
O horror econômico. Viviane Forrester. UNESP. 1997. Tradução: Álvaro Lorencini.No campo econômico os termos mais citados eram os do neoliberalismo, da mundialização, dos livres mercados, agora globalizados. Revendo as minhas anotações, me deparo com estes termos, ainda hoje em pleno vigor. Anotações de aula da professora Nereide Saviani: desestatização - desnacionalização - globalização; desregulamentação - desconstitucionalização; desuniversalização - desproteção. Entre os autores, apenas os mais citados: David Harvey, Frederic Jameson, Atílio Borón, Perry Anderson, Adam Przeworski, além dos teóricos do liberalismo e do neoliberalismo. Depois veio o Fórum Social Mundial de Porto Alegre, onde entramos em contato direto com muitos desses autores.
Me lembro de um livro, em particular. O tomei para uma releitura. Um pequeno livro que causou profundo impacto. O horror econômico, de Vivane Forrester (1925-2013). O livro surgiu em 1996. Não poderia haver um título melhor para a realidade descrita: O horror econômico provocado pelo fim do mundo do trabalho e dos empregos, categorias estruturantes do sistema capitalista. Vejamos os dois primeiros parágrafos do livro: "Vivemos em meio a um engodo magistral, um mundo desaparecido que teimamos em não reconhecer como tal e que certas políticas artificiais pretendem perpetuar. Milhões de destinos são destruídos, aniquilados por esse anacronismo causado por estratagemas renitentes, destinados a apresentar como imperecível nosso mais sagrado tabu: o trabalho.
Com efeito, deformado sob a forma perversa de 'emprego', o trabalho funda a civilização ocidental, que comanda todo o planeta. Confunde-se a tal ponto com ela que, ao mesmo tempo em que se volatiliza, seu enraizamento, sua evidência jamais são postos em causa, menos ainda sua necessidade. Não é ele que, em princípio, rege toda distribuição e, portanto, toda sobrevivência? Os emaranhados de intercâmbios que daí decorrem parecem-nos tão indiscutivelmente vitais quanto a circulação do sangue. Ora, esse trabalho, tido como nosso motor natural, como a regra do jogo que serve à nossa passagem para esses lugares estranhos, de onde cada um de nós tem vocação a desaparecer, não passa hoje de uma entidade desprovida de substância" (Página 7).
Está aí anunciado o teor do livro. A explanação e análise se dá ao longo de 12 pequenos capítulos, no decurso de 154 páginas. Nesse novo mundo cabem apenas os seres úteis aos objetivos do sistema, isto é, os que auferem lucros. Para os excluídos, medidas paliativas de "alívio à pobreza", termo tão ao gosto do Banco Mundial, que junto ao FMI e a OCDE, são os gestores do sistema, os formuladores de suas políticas. E não há alternativas. Todos precisam se adaptar ao único sistema viável. É domínio do 'pensamento único". Lembremos da sra. Tatcher, a conhecida sra. TINA. (There Is Not Alternative). Fim do trabalho e pensamento único aprisionam a todos. Não resisto à tentação de transcrever um pequeno texto de Perry Anderson, que descreve esse mundo, no belo livro Pós neoliberalismo, livro organizado por Emir Sader e Pablo Gentili. Usei este texto à exaustão em trabalhos de formação:
"O remédio, então, era claro: manter um Estado forte, sim, em sua capacidade de romper o poder dos sindicatos e no controle do dinheiro, mas parco em todos os gastos sociais (as medidas paliativas de alívio à pobreza, medidas compensatórias à ausência dos empregos) e nas intervenções econômicas. A estabilidade monetária deveria ser a meta suprema de qualquer governo. Para isso seria necessária uma disciplina orçamentária (Teto de gastos - arcabouço fiscal), com a contenção dos gastos com o bem-estar social, e a restauração da taxa 'natural' de desemprego, ou seja, a criação de um exército de reserva de trabalho para quebrar os sindicatos. Ademais, reformas fiscais eram imprescindíveis, para incentivar os agentes econômicos. Em outras palavras, isso significava redução de impostos sobre os rendimentos mais altos e sobre as rendas" (Página 11).
Viviane Forrester também estava enfronhada com o mundo da literatura e dela retira alguns personagens para ilustrar as suas análises e aplicar a elas um tom de ironia mordaz. Aos economistas a serviço desse sistema e pregadores de seus dogmas, ela evoca o personagem do senhor Homais, o farmacêutico flibusteiro do livro de Flaubert, Madame Bovary. Um pseudocientista que ditava os dogmas que infelicitavam os seus atingidos. Era ele que detinha o veneno do envenenamento da madame. Genial e perfeitamente aplicável aos economistas de nossa mídia, a serviço do capital.
Entre os parágrafos finais, selecionei este para a conclusão do post: "Não se trata de chorar sobre o que não existe mais, de negar e renegar o presente. Não se trata de negar, de recusar a mundialização, o surto das tecnologias, que são fatos, e que poderiam ser animadores não só para as 'forças vivas'. Trata-se, pelo contrário, de levá-los em consideração. Trata-se de não ser mais colonizado. De viver com conhecimento de causa, de não mais aceitar tacitamente as análises econômicas e políticas (de homens inescrupulosos como o senhor Homais) que passam por cima dos fatos, que só os mencionam como elementos ameaçadores, obrigando a medidas cruéis, as que se tornarão ainda piores se não forem aceitas com toda a submissão" (Página 144).
Carlos Heitor Cony, sob o título O novo holocausto, apresenta o livro em suas orelhas: "Depois da exploração do homem pelo homem em nome do capital, o neoliberalismo e seu braço operacional, que é a globalização, criaram, mantêm e ampliam, em nome da sacralidade do mercado, a exclusão de grande parte do gênero humano. O próximo passo seria a eliminação? Caminhamos para um holocausto universal, quando a economia modernizada terá repugnância em custear a sobrevivência de quatro quintos da população mundial? Depois de explorados e excluídos, bilhões de seres humanos, considerados supérfluos, devem ser exterminados?
O raciocínio é bem mais do que uma hipótese. É um desdobramento lógico do horror econômico fabricado no laboratório dos economistas neste final de século. Horror - este sim - globalizado pelos governos que buscam resultados contábeis e condenam a ação social como jurássica.
A massa de excluídos em todo o mundo constituirá um formidável dinossauro que a economia modernizada eliminará como inviável no Estado neoliberal. Não se trata de um apocalipse, mas de um novo eixo da história. Só os melhores, os economicamente arianos, deverão sobreviver. Os não arianos formarão o gueto - e como a manutenção de um gueto é um paradoxo econômico (para quê produzir para quem não pode produzir?), a solução a médio ou a longo prazo será o extermínio em massa. Menos custo e mais benefício para os balanços de governos e empresas.
Viviane Forrester, romancista e ensaísta, autora de um belo livro sobre Van Gogh (um excluído que nunca vendeu um quadro) e outro sobre Virgínia Wolf, analisa com lucidez e lógica a decomposição dos valores humanísticos e sociais que se tornaram a besta-negra dos guarda-livros que se investiram na função de Sumos Sacerdotes, somente eles capazes de penetrar no Santo dos Santos do templo globalizado.
Ela prefere Rimbaud e Pascal aos economistas do neoliberalismo. O horror econômico denuncia o jargão e as siglas que estão fabricando o abominável mundo novo em gestação. Seu livro é um momento da consciência humana".
Na atualização de leituras sobre o tema, creio que este é o livro que mais aprofundou o tema. Deixo aqui a sua resenha:
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/02/a-nova-razao-do-mundo-ensaio-sobre.html
quinta-feira, 17 de outubro de 2024
AS VINHAS DA IRA. John Steinbeck. Nobel de Literatura - 1962,
Neste meu ciclo de releituras chegou a vez de As vinhas da ira. Muitas vezes sou solicitado para fazer indicações, tipo os dez mais, dos melhores livros que já li. Sempre resisti a isso. Não gosto de estabelecer hierarquias, especialmente em campos tão diversos, como o é o dos livros. Mas, se o fizesse, não teria dúvidas em incluir As vinhas da ira nessa lista. O livro é uma verdadeira aula magna, tanto no campo da sociologia, quanto da história, um retrato vivo do sistema capitalista em seu processo duplo, da geração da acumulação, de um lado e o do espalhar a miséria, do outro. Me lembro de uma frase de que a única coisa que o sistema capitalista efetivamente democratiza é a generalização da miséria. John Steinbeck foi Nobel de Literatura de 1962, após oito indicações para tal.
As vinhas da ira. John Steinbeck. Abril. 1972. Tradução. Ernesto Vinhaes e Herbert Caro.
O ano da publicação é o de 1938. Na minha mania de professor, vamos à contextualização. Qual é o fato histórico mais importante próximo a esta data? Por óbvio que no âmbito mundial é a aproximação da Segunda Grande Guerra. Estamos às vésperas. Mas como o cenário do romance é o dos Estados Unidos, vamos retroceder um pouco, ao ano de 1929, o ano da grande crise econômica, da quebra da bolsa de valores e da crise econômica que se segue. É também o momento em que a Revolução Industrial chega com mais intensidade ao campo. O trator, cada vez mais, substituirá os trabalhadores. E estes, endividados, vão em busca de novas fronteiras para o trabalho. Nos Estados Unidos isso representa uma grande marcha para o oeste, para a Califórnia, que fora tomada aos mexicanos.
Este é o caso da família Joad, uma família de pequenos arrendatários de terras no Oklahoma, que trabalhavam no cultivo do algodão. Endividados, são obrigados a se porem em movimento, num velho caminhão, em que tem que caber as treze pessoas da família e os pertences que lhes restaram. A família se compunha do avô e da avó, do pai e da mãe, dos filhos Tom, Al e Noah, de Rosa e o marido Connie, das crianças Ruth e Wienfield, tio John e Casy, o ex pregador, incorporado à família. Esta começa a se desintegrar já na partida, uma vez que Muley se recusa a partir. Saem de Sallisaw, tomam a famosa rota 66, no rumo da Califórnia, levando muitos sonhos e pouquíssimos dólares. Já na viagem ocorrem novas perdas na família, avô e avó morrem no percurso. E sem enterros decentes.
A primeira parte do romance se ocupa com a descrição daquilo que poderíamos chamar de revolução agrícola pela mecanização. Ela expulsa os trabalhadores do campo. Estes, endividados, veem as terras sendo tomadas pelos bancos. Numa imagem nossa diríamos que o agronegócio estava se estabelecendo. A dificuldade dos lavradores em compreender essa situação é enorme, mas o quadro de sofrimentos provocados é real. Cartazes impressos, dizendo que há muito trabalho na Califórnia, os põem em movimento. Pura ilusão. Com a chegada à Califórnia começa a segunda parte do romance. Não há trabalho, ou melhor, há pouco trabalho para milhares e milhares de trabalhadores. Na beira das estradas formam-se as favelas chamadas de Hoovervilles (alusão ao presidente Hoover, o presidente republicano da crise (1929-1933). Ele era liberal. Não admitia intervenções do Estado na economia. A família também encontra um acampamento organizado pelo governo federal. Trata-se do acampamento de Weedpatch. Lá predominava a auto organização e a polícia não entrava.
A ação da polícia é outro ponto forte do romance. Ela sempre será a grande provocadora dos conflitos e sempre atuava em favor do sistema dominante e agia com extrema violência, inclusive com mortes movidas pela impunidade. Este foi o caso do ex pregador Casy, que morre numa greve contra a redução do valor da hora trabalhada. Como a polícia não podia intervir no acampamento de Weedpatch, ali procuravam implantar infiltrados para provocarem confusão, fato que daria motivo para intervenção. Lembrando que o romance foi escrito em 1938 e que, a partir de 1933 até 1945, o presidente dos Estados Unidos passou a ser o democrata F. D. Roosevelt, a favor das intervenções estatais, especialmente em tempos de crise, em favor da geração de empregos e ajudas humanitárias. Isso explica o acampamento de Weedpatch.
Mas a situação da família Joad não melhora. Seguem a sua sina em busca de trabalho. Isso ocorre apenas esporadicamente e com salários cada vez menores, movidos pelo processo da super oferta do trabalho. Essa era a razão dos folhetos que procuravam atrair tantos trabalhadores. Desemprego parece ser um elemento estrutural do sistema capitalista. Quando não há oferta de trabalho, trabalha-se a troco de comida. O espírito da escravidão parece nunca ter sido abolido. E a família vai sofrendo novas baixas, a miséria vai desintegrando-a por completo.
O contraste entre a acumulação e a miséria é um dos pontos mais elevados do grande romance. A solidariedade humana entre os famintos é extraordinária. Eles partilham, com grande generosidade, o alimento que guardavam para o dia de amanhã, com aqueles que não tinham o que comer no dia de hoje. Por outro lado há grande euforia e total insensibilidade para a acumulação auferida com o emprego da exploração e da violência. Gestos simbólicos são profundamente significativos. Só não há maiores ajudas entre os pobres esfaimados pela absoluta impossibilidade de os mesmos ocorrerem. Entre os personagens, eu destacaria a força de Tom Joad, um ex presidiário e, acima de todos, a mãe Joad, força impressionante e decisiva nos momentos de crise maior. A força da mulher.
Outro ponto impressionante do livro é o ódio. O mesmo ódio tão presente nos dias de hoje. O ódio aos pobres, o ódio aos diferentes, o ódio aos pobres, que imediatamente passam a ser rotulados de vagabundos, preguiçosos, desordeiros e inúteis. Pessoas sem "mérito". Naquele tempo esse ódio era dedicado aos migrantes, aos OKIES, o termo pejorativo com o qual eram chamados os habitantes do Oklahoma. Hoje esse ódio é contra as políticas afirmativas, contra os detentores de ajudas humanitárias governamentais e, especialmente aos IMIGRANTES, sem esquecer também dos próprios migrantes. Vejam o caso brasileiro dos nordestinos.
O romance não poderia ter um final mais impressionante. Uma grande enchente toma conta e inunda o acampamento onde estão alojados. Pai, Mãe e Rosa, que recém parira uma criança morta, partem em busca de um lugar ainda seco. Num galpão abandonado encontram duas pessoas. Uma criança prestes a morrer de fome é amamentada com o leite que brota dos seios de Rosa. Um hino à solidariedade. Steinbeck ganhou o prêmio Nobel de Literatura, apenas após oito sucessivas indicações. Só em 1962, quando este livro é datado de 1938. Certamente o tema desse livro lhes foi indigesto.
O livro que eu li é da coleção Os imortais da Literatura Universal, volume 34. Ele tem 629 páginas, divididas em 29 capítulos. E uma falha sem tamanho. Há a ausência das páginas 567 a 598. Tive que recorrer ao Google e encontrar um PDF. Nessas páginas há a importante informação de que Tom se vê na obrigação de fugir da polícia, desintegrando assim, ainda mais, a já tão diminuída família. Ah! A família. A instituição Mater da sociedade.
No livro de biografias que acompanha a coleção lemos o seguinte sobre esta grande obra: "Recolhido em sua casa, o escritor dedicava-se inteiramente à composição de As vinhas da ira, romance de tese que relata o calvário dos pequenos agricultores expulsos de suas terras pela industrialização e atraídos pela ilusória fartura de uma Califórnia que a propaganda lhes apresenta como sendo a 'Terra da Promissão'.
As vinhas da ira evidencia mais uma vez, a posição filosófica característica do autor: a ele importa a realidade tal como ela é, não como poderia ou deveria ser, nem por que ou para que as coisas existem. Ante o problema abordado em seu romance, ele não toma partido. Descreve uma situação, mas abstém-se de dar opiniões. Dessa forma, ao longo da obra, conjugam-se curiosamente a nostalgia da vida patriarcal do tempo dos 'pioneiros' e o apelo à revolução social. As personagens e as ideias são superficiais, como geralmente ocorre em toda a sua produção literária. A grandeza de Steinbeck está mais no fôlego épico, na força de convicção e de emoção, na generosidade.
Publicado em 1939, As vinhas da ira transformou-se logo em enorme sucesso de vendas e de crítica, e propiciou ao autor dois importantes prêmios - o Pulitzer e o troféu dos Livreiros Americanos -, além da eleição para membro do Instituto Nacional de Artes e Letras. Para coroar o êxito, Hollywood comprou a estória e transformou-a num grande filme de protesto social, que teve como intérprete principal o ator Henry Fonda".
E, as razões para o título? "E o cheiro da podridão enche o país (diante da destruição dos alimentos, para que estes mantenham os seus preços). [...] Há um fracasso nisso, que opõem barreiras ante todos os nossos sucessos. À terra fértil, às filas retas de árvores, aos troncos vigorosos e às frutas maduras. E crianças sofrendo de pelagra, têm que morrer, porque a laranja não deve deixar de dar o seu lucro. E médicos-legistas devem declarar nas certidões de óbito 'Morte por inanição', porque a comida deve apodrecer, deve ser forçada a apodrecer.
O povo vem com redes para pescar as batatas no rio, e os guardas impedem-no. Os homens vêm nos carros barulhentos apanhar as laranjas caídas ao chão, mas elas estão untadas de querosene. E eles ficam imóveis, vendo as batatas passar flutuando; ouvem os gritos dos porcos abatidos num fosso e cobertos de cal viva; contemplam as montanhas de laranjas, num lodaçal putrefato. E nos olhos dos homens reflete-se o fracasso. E nos olhos dos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, AS VINHAS DA IRA diluem-se e espraiam-se com ímpeto, crescem com ímpeto para a vindima". Página 480.
Por razões óbvias me lembrei dessa execração ao dinheiro. O texto é de Marx, numa citação de Shakespeare.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/03/o-dinheiro-marx-goethe-e-shakespeare.html
segunda-feira, 14 de outubro de 2024
Memórias de minhas putas tristes. Gabriel Garcia Marques. Nobel 1982.
Fiz uma breve busca em minha
biblioteca por livros ainda não lidos. Logo de saída me deparei com um clássico
que aguardava desde 2007 para ser lido. Trata-se de Memórias de minhas putas tristes, do Nobel de Literatura colombiano
Gabriel Garcia Marques. Fui amplamente recompensado em minha busca. Uma leitura
agradável e de um fôlego só estava no meu aguardo.
Memórias de minhas putas tristes. Gabriel Garcia Marques. Record.2007.
Na contracapa do livro está
transcrita uma parte do seu primeiro parágrafo. Ele nos dá um prospecto da obra
e uma perspectiva para a sua leitura: “No ano dos meus noventa anos quis me dar
de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa
Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes
quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de
suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus
princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com sorriso maligno,
você vai ver”.
Estão aí os três protagonistas do
livro. O idoso senhor, a completar noventa anos, a adolescente virgem e a
astuta Rosa Cabarcas, a dona do bordel. O idoso e lascivo senhor, além de
protagonista é também o narrador. Ele é homem culto e grande apreciador de
música, especialmente a clássica. É jornalista por profissão e que, ainda aos
noventa, mantem no jornal da cidade, uma crônica dominical bastante apreciada.
Em sua narrativa afirma que as “putas” nunca lhe permitiram tempo para o
casamento. Com elas teve uma longa vida, iniciada aos 12 e sem perspectivas de
acabar, mesmo após os noventa.
Rosa Cabarcas se especializara no
atendimento a seus clientes e não encontrou grandes dificuldades em atender o
seu exigente cliente. Recrutou a adolescente virgem em uma fábrica, onde vivia
a pregar botões e cuja remuneração ajudava no sustento de seus irmãos e irmãs.
Uma presa fácil, no contexto de um mundo de exploração. Um amor para
contemplação e sentimentalidades. E, acima de tudo, para a renovação de sua
escrita nas crônicas dominicais. Exortações ao amor e às suas sublimidades.
Rosa e Delgadina, este era o nome
que o jornalista deu à menina, subitamente desapareceram para só voltarem após
trinta dias de vacâncias em paradisíacas praias. Este desaparecimento ocorrera
depois do assassinato de um “graúdo”, nas dependências de seu estabelecimento.
O desespero tomou conta de sua vida. Após a volta ele é acometido por uma crise
de louco ciúme e de um ataque de fúria, do qual resultou a depredação do quarto
VIP, que mantinha no estabelecimento de Rosa. As suas já debilitadas finanças
acabaram de se arruinar por completo. Ainda lhe restavam quadros e joias,
heranças da mãe. Ele não tem dúvidas em sua penhora. Isso proporciona a ele o
desvendar das falsificações praticadas por sua própria mãe.
O livro, como já vimos, é de
leitura de um fôlego só. São 120 páginas, divididas em cinco capítulos. É um
dos últimos romances do autor, do ano de 2004. O Nobel de Literatura lhe fora
concedido em 1982. O livro tem uma frase em epígrafe. É de Yasunari Kawabata,
autor de A casa das belas adormecidas. Ela
diz: “Não devia fazer nada de mau gosto, advertiu a mulher da pousada ao ancião
Euguchi. Não devia colocar o dedo na boca da mulher adormecida nem tentar nada
parecido”. A Delgadina também permanecia constantemente adormecida.
Na orelha temos um parágrafo bem ilustrativo do livro: "Um leitor mais atento vai encontrar aqui as principais referências e motivações desse hino de louvor à vida e, por extensão, ao amor, já que um não existe sem o outro no imaginário do Prêmio Nobel de Literatura de 1982. Apesar de parecer estranho, uma dessas chaves está no conto de fadas A bela adormecida, que, não por acaso, é citado em um momento crucial dessa narrativa ambientada em uma cidade colombiana imaginária, numa época que de tão remota parece imemorial".
A edição do livro é da Record. A publicação original é do ano de 2004 e a edição que eu li é de 2007. A tradução é de Eric Nepomuceno.
segunda-feira, 7 de outubro de 2024
Viagem a Portugal. José Saramago.
As minhas releituras de Saramago. Olhando na estante os livros que tenho de José Saramago, deparo com Viagem a Portugal. Envergonhado, confesso que não me lembrava de tê-lo lido. Mas ao folheá-lo, vi partes sublinhadas e outras pequenas anotações. Assim percebi que o tinha lido, e de ponta a ponta. E forçando um pouco a memória, lembrei das várias vezes que Saramago ia em busca de chaves das igrejas que queria visitar, mas que nem sempre as encontrava, ou então se encontrava com pessoas muito mal humoradas e pouco dispostas em atendê-lo. Mas, afinal, o que devo dizer da releitura deste livro?
Viagem a Portugal. José Saramago. Companhia das Letras. 2010.Uma viagem. Uma viagem que, como nos diz o próprio Saramago, é um livro de viajante e não de turista. É um livro meticuloso, voltado a detalhes de arte, de história e de cultura, com os quais vai povoando as inúmeras cidades visitadas, de norte a sul de seu país. Isso mesmo, a viagem obedece a este direcionamento. Começa ao norte, em Miranda do Douro, junto a divisa com a Espanha e termina em Lagos, cidade através da qual Portugal promoveu a sua enorme expansão. E haja paisagens geográficas, haja história e cidades históricas, arte mourisca e arte portuguesa, estilos do românico, do gótico e do barroco e, acima de tudo, haja castelos e igrejas. E sim, o estilo manuelino. Tudo isso é entremeado de análises e de críticas. Portugal e a sua história é tema das primeiras grandes obras de Saramago. Para lembrar, cito Levantando do chão, sobre os latifúndios do Alentejo e o sofrimento de seu povo na luta pelo pão de cada dia e Memorial do Convento, em que é contada a história da construção de seu famoso convento e os enormes sacrifícios do povo, no trabalho de sua construção.
O livro é longo. São 484 páginas, divididas em seis partes, ou capítulos, que correspondem às regiões visitadas. Dou, primeiramente, os títulos e as páginas. Faço isso para que se tenha uma ideia do quanto o autor dedicou a cada uma das regiões: 1. De Nordeste a Noroeste, duro e dourado (páginas 15 a 139); 2. Terras baixas, vizinhas do mar (páginas 141 a 185); 3. Brandas beiras de pedra, paciência (páginas 187 a 272); 4. Entre Mondego e Sado, parar em todo o lado (páginas 273 a 381); 5. A grande e ardente terra de Alentejo (páginas 383 a 451; 6. De Algarve e sol, pão seco e pão mole (páginas 453 a 476. Passo a dar também as principais cidades visitadas em cada região e algum detalhe a mais.
Na primeira parte o viajante se deparou com Bragança, Outeiro, Vila Real, Amarante, Guimarães (a cidade berço do país), Viana de Castelo, Braga (a Roma portuguesa e a rival de Santiago de Compostela), Barcelos (a cidade do Galo) e Porto, junto a foz do Douro.
Na segunda parte, o viajante, após a travessia do Douro, percorre Vila Nova de Gaia (a cidade do vinho), Aveiro, Figueira da Foz, Montemor e Coimbra (a capital nos séculos XII e XIII e a sua famosa universidade jesuítica).
Na terceira parte, o viajante continua pela região central do país e a região da Serra da Estrela. As principais cidades visitadas são Cidadelhe, Belmonte (a terra de Pedro Álvares Cabral e o Museu dos descobrimentos), Marialva, Covilhã, Castelo Branco e Abrantes.
Na quarta parte o viajante vem beirando o rio Tejo. As cidades pelas quais ele andou são Constância (a terra natal de Camões e do Castelo de Almourol, Tomar, a cidade dos templários, com o Convento de Cristo e também um famoso aqueduto, Fátima (cidade tomada pelo comércio e da qual, afirma ele, se salva apenas a fé), Leiria, Batalha (a batalha de Aljubarrota), Nazaré, Alcobaça, Azinhaga (a cidade natal do viajante), Santarém, Óbidos, Mafra (a cidade do convento), Estoril e Cascais e mais de vinte páginas dedicadas a Lisboa.
Na quinta parte, já feita a travessia pela ponte Vasco da Gama ou 25 de abril, chega-se à famosa região do Alentejo. Entre as cidades visitadas estão Setúbal, Montemor-o-Novo, Pavia, Mora - Brotas, Grândola - Carvalhal, Alter do Chão, Vila Viçosa, Évora (Templo de Diana), Beja e Mértola. Terra de latifúndios e sofrimento humano.
A sexta parte é a mais breve. É o Algarve. Duas cidades merecem destaque. Faro e o seu museu e Lagos e o museu náutico. Terra de turismo e de estrangeirismos.
Mas, deixemos o próprio Saramago falar de seu livro. Isso ele faz na sua apresentação: "Esta viagem a Portugal é uma história. História de um viajante no interior da viagem que fez, história de uma viagem que em si transportou um viajante, história de viagem e viajante reunidos em uma procurada fusão daquele que vê e daquilo que é visto, encontro nem sempre pacífico de subjetividades e objetividades. Logo: choque e adequação, reconhecimento e descoberta, conformação e surpresa. O viajante viajou no seu país. Isto significa que viajou por dentro de si mesmo, pela cultura que o formou e está formando, significa que foi, durante muitas semanas, um espelho reflector das imagens exteriores, uma vidraça transparente que luzes e sombras atravessaram, uma placa sensível que registou, em trânsito e processo, as impressões, as vozes, o murmúrio infindável de um povo".
Ao final, o viajante nos alerta que em breve ele estará de volta. "Não é verdade. A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse 'Não há mais que ver', sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já".
Deixo a resenha dos dois livros em que o escritor se ocupa mais diretamente com histórias de seu país. Levantando do Chão e Memorial do Convento.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/08/levantando-do-chao-jose-saramago.html
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/08/memorial-do-convento-jose-saramago.html
sábado, 28 de setembro de 2024
Ensaio sobre a lucidez. José Saramago.
Ensaio sobre a lucidez, o livro de Saramago que reli nesta sequência, é uma continuidade do seu livro Ensaio sobre a cegueira. A cegueira foi o tema abordado em 1995 e a lucidez, quase dez anos depois, em 2004. A cegueira abordada na obra do final do século, para lembrar, era uma cegueira branca. A lucidez, por sua vez, se manifesta por uma decisão popular, de não mais votar em candidatos, mas sim, votar majoritariamente em branco. Na cegueira, as instituições do Estado deixaram de funcionar e na lucidez, o Estado se retirou da cidade e governou à distância, pelo arbítrio. Um mundo de barbaridades.
Ensaio sobre a lucidez. José Saramago. Companhia das Letras. 2004.
Na minha primeira leitura, na página 175 eu sublinhei algumas linhas e escrevi ao lado - Ensaio sobre a cegueira. Eis o trecho sublinhado: "... falemos abertamente sobre o que foi a nossa vida, se era vida aquilo, durante o tempo em que estivemos cegos, que os jornais recordem, que os escritores escrevam, que a televisão mostre as imagens da cidade tomadas depois de termos recuperado a visão, convençam-se as pessoas a falar dos males de toda a espécie que tiveram de suportar, falem dos mortos, dos desaparecidos, das ruínas, dos incêndios, do lixo, da podridão, e depois, quando tivermos arrancado os farrapos de falsa normalidade com que temos andado a querer tapar a chaga, diremos que a cegueira desses dias regressou sob uma nova forma, chamaremos a atenção da gente para o paralelo entre a brancura da cegueira de há quatro anos e o voto em branco de agora..."
Essa passagem é tão significativa para a compreensão do romance, ou do ensaio, que ela se encontra na própria contracapa do livro. Mas na página 186, tenho outras linhas sublinhadas. Ela faz parte de uma carta denúncia, enviada ao governo, por um dos cegos, integrante de um grupo de sete, que teve uma notável particularidade. Vejamos uma parte do teor da carta: "... e essa missão (a do denunciante), senhor presidente da república, consiste em revelar, escrevo a palavra por ser a primeira vez que falo deste assunto a alguém, que há quatro anos, com a minha mulher, fiz casualmente parte de um grupo de sete pessoas que, como tantas outras, lutou desesperadamente para sobreviver. Parecerá que não estou a dizer nada que vossa excelência, por experiência própria, não tenha conhecido, mas o que ninguém sabe é que uma das pessoas do grupo nunca chegou a cegar, uma mulher casada com um médico oftalmologista, o marido estava cego como todos nós, mas ela não..." O remetente da carta ainda alerta que esta mulher, que não cegara, havia cometido um assassinato. A partir dessa página, o romance vira uma investigação policial. Querem atribuir a esta mulher, a culpa pela lucidez que assolara a cidade.
Como já assinalamos, o mote do romance ocorre com uma eleição, ou melhor, pelos resultados dessa eleição. Nela os eleitores aparecem apenas ao final da tarde e, na apuração ficou constatado que 75% dos eleitores votaram em branco. A eleição terá que ser repetida. Os votos em branco aumentaram para 83%. Este é o cenário da crise. Diante dela, como o governo, o mais diretamente atingido, deverá agir? Tudo deveria ser diligentemente investigado. Quem seriam os conspiradores? Medidas urgentes deveriam ser tomadas. Para isso o Conselho de ministros se reúne constantemente. As discussões são hilariantes. As propostas mais absurdas sempre são as dos ministros da defesa e do interior e as menos acatadas, as do ministro da justiça e da cultura. O ministro do interior disputa o poder diretamente com o primeiro ministro.
É preciso endurecer o regime. O estado de sítio é decretado. A vida da cidade continua na mais plena normalidade. Não há indícios de que grupos organizados estejam a comandar o movimento. Uma decisão drástica é tomada. O governo se retira da capital, junto com todas as instituições, inclusive a polícia. Nas reuniões ministeriais passa a imperar o princípio de que o fim justifica os meios, desde que os resultados apareçam. Mas eles não aparecem, As medidas tomadas são as mais ridículas que se possa imaginar. Para que elas tenham efeito, é preciso criar um inimigo. Fundamental, criar um inimigo. Mas quem seria ele?
É o momento em que chega a carta com a denúncia da mulher que não cegara e que cometera um assassinato. É o inimigo perfeito. Ela e o seu grupo. A um comissário e a investigadores é confiada a investigação. Nada constatam que possa desabonar, nem a mulher do médico, nem o seu grupo. Mas o ministro cobra resultados. Uma fotografia do grupo, junto com matérias difamatórias são exibidas nos meios de comunicação. A eles é atribuída a culpa.
As soluções apresentadas pelo governo não são nada honrosas. Depois de arbitrariedades cometidas, o ministro do interior é demitido e o primeiro ministro acumula o cargo. O comissário é assassinado, assim como o médico oftalmologista e a sua mulher e também Constante, que no Ensaio sobre a cegueira aparecia mais sob o nome de cão das lágrimas. Com três tiros o romance é encerrado. Vejamos: " o cão veio a correr lá de dentro, fareja e lambe a cara da dona, depois estica o pescoço para o alto e solta um uivo arripiante que outro tiro imediatamente corta. Então um cego perguntou, Ouviste alguma coisa. Três tiros, respondeu outro. Mas havia também um cão aos uivos. Já se calou, deve ter sido o terceiro tiro. Ainda bem, detesto ouvir os cães a uivar".
Sim, falta a frase de epígrafe: Uivemos, disse o cão. Livro das Vozes.
Vejamos ainda a síntese encontrada nas orelhas do livro: "Numa manhã de votação que parecia como todas as outras, na capital de um país imaginário, os funcionários de uma das seções eleitorais se deparam com uma situação insólita, que mais tarde, durante as apurações, se confirmaria de maneira espantosa. Aquele não seria um pleito como tantos outros, com a tradicional divisão dos votos entre os partidos 'da direita', 'do centro' e 'da esquerda'; o que se verifica é uma opção radical pelo voto em branco. Usando o símbolo máximo da democracia - o voto -, os eleitores parecem questionar profundamente o sistema de sucessão governamental em seu país.
É desse 'corte de energia cívica' que fala Ensaio sobre a lucidez. Não apenas no título José Saramago se remete ao seu célebre Ensaio sobre a cegueira: também na trama ele retoma personagens e situações, insistindo em algumas das questões éticas e políticas abordadas no romance de 1995. Ao narrar as providências do governo, polícia e imprensa para entender as razões da 'epidemia branca' - ações estas que elevam rapidamente a um devaneio autoritário -, o autor faz uma alegoria dos rituais da democracia e da fragilidade do sistema político e das instituições que nos governam. A lucidez, aqui, é aquilo que se opõe à loucura, ao desvario, à demência: não se trata, portanto, de mera metáfora ou ironia.
O que se propõe não é a substituição da democracia por um sistema alternativo, mas o seu permanente questionamento. É pela via da ficção que José Saramago entrevê uma saída para esse impasse - pois é a potência simbólica da literatura, território em que reflexão, humor, arte e política se entrosam, que por fim se revela capaz de vencer a mediocridade, a ignorância e o medo".
Deixo ainda a resenha do livro lido anteriormente, A caverna.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/09/a-caverna-jose-saramago.html
segunda-feira, 23 de setembro de 2024
Saramago e os temas religiosos. Caim e O Evangelho segundo Jesus Cristo.
As críticas de Saramago à religião são ácidas. Ao tema ele dedica dois livros Caim e O Evangelho segundo Jesus Cristo. Um acerto seu com o Antigo e com o Novo Testamento. No meu entender esses dois livros são os mais impactantes de sua obra. Eles abordam os fundamentos da cultura ocidental. Críticas tão contundentes, ou ainda mais, são encontradas apenas em Nietzsche, em seus livros ensaio Genealogia da moral e Além do bem e do mal. Com base nesses quatro livros já poderíamos abrir um estudo de altíssimo nível sobre os fundamentos da cultura ocidental, no que tange aos seus fundamentos religiosos.
Caim. José Saramago. Um acerto com o Deus do Antigo Testamento.Deixo o link das duas obras de Saramago. Primeiramente o seu Caim, personagem com quem um Deus rancoroso e sempre irado mantém profundos diálogos:
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/08/caim-jose-saramago.html
E O Evangelho segundo Jesus Cristo, onde, de acordo com a minha opinião, encontram-se 40 páginas, das mais significativas da literatura ocidental: Um diálogo entre Deus e o demônio, quando Deus quer expandir a sua religião, para que ela seja, não mais a religião apenas do povo judeu, mas ser a grande religião universal:
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/08/o-evangelho-segundo-jesus-cristo-jose.html
sexta-feira, 13 de setembro de 2024
Guerra e paz. O grande livro da paz. Leon Tolstói. Os quatro volumes.
Guerra e paz, de Leon Tolstói é seguramente uma das maiores obras da literatura universal. Na apresentação do livro, da edição da L&PM Pocket, Ivan Pinheiro Machado o apresenta como "o grande livro da paz". O seu tema são as guerras napoleônicas que assolaram a Europa pelo longo período de 1803 a 1815. Foi possivelmente a mais sangrenta das guerras. Elas tiveram o seu fim, com a intervenção do "general inverno" do qual os soldados franceses foram vítimas. As consequências foram enormes e imensuráveis. A sua descrição só poderia caber a um dos maiores gênios da literatura universal, Leon Tolstói.
Guerra e paz. Leon Tolstói. Capa do primeiro volume. L&PM. 2017.
Como li e resenhei os quatro volumes da obra e publiquei os posts, à medida que lia os livros, os publico agora, agrupados em único post. A versão da obra que eu li é da L&PM Pocket, em reimpressão de 2017. A primeira impressão ocorrera no ano de 2007. A tradução é de João Gaspar Simões. A grande obra ocupa 1481 páginas, em letrinhas à altura de um livro em edição de bolso. Os li em tempo de reclusão absoluta, em função da pandemia do COVID-19. Vamos a eles. O primeiro volume:
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/06/guerra-e-paz-leon-tolstoi-volume-i.html
O segundo volume. Nele há uma preciosidade sobre a ociosidade no exército, que não pude deixar de destacar:
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/07/guerra-e-paz-leon-tolstoi-volume-ii.html
O terceiro volume, com a famosa batalha de Borodino:
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/07/guerra-e-paz-leon-tolstoi-volume-iii.html
E o quarto e último volume, com um belo apêndice do próprio autor:
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/07/guerra-e-paz-volume-iv-leon-tolstoi.html
Cumpre ainda dizer, que Leon Tolstói se ocupou com a escrita dessa obra entre os anos de 1865 a 1869.
quinta-feira, 12 de setembro de 2024
Textos de literatura - Aulas de filosofia. A Categoria TRABALHO em A CAVERNA de José Saramago.
Sempre defendi que a categoria Trabalho é a principal categoria com a qual a filosofia trabalha. O trabalho é a linha divisória entre o mundo humano e o mundo animal. Em compensação, é também o humano, o único ser que tem a necessidade do trabalho para sobreviver. No mundo animal essa sobrevivência se dá de forma natural, na relação com a natureza. Já entre os humanos é necessária a intervenção nessa natureza. É a essa intervenção, para assegurar a sobrevivência, que chamamos de trabalho. Nessa relação, uma das características é a utilização de meios, de instrumentos, de extensões da mão, coisa que os animais, se o fazem, o fazem de forma absolutamente rudimentar. O trabalho, ao mesmo tempo que assegura a sobrevivência, também confere ao homem a alegria da criação, o chamado trabalho criativo.
A caverna. José Saramago. Companhia das Letras. 2000.O trabalho é por excelência um trabalho criativo, um trabalho artesanal. Ele envolve o ser humano em sua totalidade, especialmente pela soma da mente e da mão. A mente que emite ordens para as mãos executarem as mais diferentes atividades. Mas o mundo capitalista se apropriou do trabalho e o transformou em mercadoria, voltada à produção, sendo ele próprio uma mercadoria. Em vez de trabalho artesanal e criativo ele é transformado em trabalho mecânico e repetitivo. A sua força de trabalho se transformou em mão de obra, simbolizando que apenas as mãos trabalham. Uns são pagos para conceber, para criar, enquanto aos outros é reservada a tarefa de trabalhar. Houve a separação da criação. O trabalho já não é mais práxis, e sim trabalho alienado, trabalho que a outro pertence e que também se apropria de seu resultado.
Mas o objetivo deste post é mostrar essa transformação no mundo do trabalho e na estruturação da sociedade no livro A caverna, de José Saramago. Cipriano Algor é o principal personagem desse romance. Ele é oleiro, produz cerâmica, louças e outros utensílios domésticos. Como surgiram artefatos mais baratos, com outras matérias primas mais baratas e submetidas a produção mecânica e repetitiva, em série, Cipriano Algor, junto com a sua filha Marta, precisam se reinventar. precisam por a mente, a mão e os dedos a funcionar, para, a partir da produção de bonecos, garantirem o seu sustento. O texto de Saramago é uma das grandes definições para definir o trabalho como práxis, trabalho criativo e instrumento de realização humana. Vejamos:
"... Porém, quando Marta colocou diante de si a folha de papel com que ia principiar a última série de ilustrações, reuniu rapidamente as cópias iniciais e saiu para a olaria. A filha ainda teve tempo de lhe dizer, Não se irrite se não lhe sair bem à primeira. Horas atrás de horas, durante o resto desse dia e parte do dia seguinte, até a hora em que teria de ir buscar Marçal ao Centro, o oleiro fez, desfez e refez bonecos com figura de enfermeiras e de mandarins, de bobos e de assírios, de esquimós e de palhaços, quase irreconhecíveis nas primeiras tentativas, mas logo ganhando forma e sentido à medida que os dedos começaram a interpretar por sua própria conta e de acordo com suas próprias leis as instruções que lhes chegavam da cabeça. Na verdade, são poucos os que sabem da existência de um pequeno cérebro em cada um dos dedos da mão, algures entre a falange, a falanginha e a falangeta. Aquele outro órgão a que chamamos cérebro, esse com que viemos ao mundo, esse que transportamos dentro do crânio e que nos transporta a nós para que o transportemos a ele, nunca conseguiu produzir senão intenções vagas, gerais, difusas, e sobretudo pouco variadas, acerca do que as mãos e os dedos deverão fazer. Por exemplo, se ao cérebro da cabeça lhe ocorreu a ideia de uma pintura, ou música, ou escultura, ou literatura, ou boneco de barro, o que ele faz é manifestar o desejo e ficar depois à espera, a ver o que acontece. Só porque despachou uma ordem às mãos e aos dedos, crê, ou finge crer, que isso era tudo quanto se necessitava para que o trabalho, após umas quantas operações executadas pelas extremidades dos braços, aparece feito. Nunca teve a curiosidade de se perguntar por que razão o resultado final dessa manipulação, sempre complexa até nas suas mais simples expressões, se assemelha tão pouco ao que havia imaginado antes de dar instrução às mãos. Note-se que, ao nascermos, os dedos ainda não têm cérebros., vão-nos formando pouco a pouco com o passar do tempo e o auxílio do que os olhos veem.
O auxílio dos olhos é importante, tanto quanto o auxílio dos olhos é importante, tanto quanto o auxílio daquilo que por eles é visto. Por isso o que os dedos sempre souberam fazer de melhor foi precisamente revelar o oculto. O que no cérebro possa ser percebido como conhecimento infuso, mágico ou sobrenatural, mágico e infuso, foram os dedos e os seus pequenos cérebros que lho ensinaram. Para que o cérebro da cabeça soubesse o que era a pedra, foi preciso primeiro que os dedos a tocassem, lhe sentissem a aspereza, o peso e a densidade, foi preciso que se ferissem nela. Só muito tempo depois o cérebro compreendeu que daquele pedaço de rocha se poderia fazer uma coisa a que chamaria faca e uma coisa a que chamaram ídolo. O cérebro da cabeça andou toda a vida atrasado em relação às mãos, e mesmo nestes tempos, quando nos parece que passou à frente delas, ainda são os dedos que têm de lhe explicar as investigações do tacto, o estremecimento da epiderme ao tocar o barro, a dilaceração aguda do cinzel, a mordedura do ácido na chapa, a vibração subtil de uma folha de papel estendida, a orografia das texturas, o entramado das fibras, o abecedário em relevo do mundo. E as cores. Manda a verdade que se diga que o cérebro é muito menos entendido em cores do que crê. É certo que consegue ver mais ou menos claramente visto o que os olhos lhe mostram, mas as mais das vezes sofre do que poderíamos designar por problemas de orientação sempre que chega a hora de converter em conhecimento o que viu. Graças à inconsciente segurança com que a duração da vida acabou por dotá-lo, pronuncia sem hesitar os nomes das cores a que chama de elementares e complementárias, mas imediatamente se perde, perplexo, duvidoso, quando tenta formar palavras que possam servir de rótulos ou dísticos explicativos de algo que toca o inefável, de algo que roça o indizível, aquela cor ainda de todo não nascida que, com o assentimento, a cumplicidade, e não raro a surpresa dos próprios olhos, as mãos e os dedos vão criando e que provavelmente nunca chegará a receber o justo nome.
Ou talvez já o tenha, mas esse só as mãos o conhecem, porque compuseram a tinta como se estivessem a decompor as partes constituintes de uma nota de música, porque se sujaram na sua cor e guardaram a mancha no interior profundo da derme, porque só com esse saber invisível dos dedos se poderá alguma vez pintar a infinita tela dos sonhos. Fiado do que os olhos julgaram ter visto, o cérebro da cabeça afirma que, segundo a luz e as sombras, o vento e a calma, a humidade e a secura, a praia é branca, ou amarela, ou dourada, ou cinzenta, ou roxa, ou qualquer coisa entre isto e aquilo, mas depois vêm os dedos e, com um movimento de recolha, como se estivessem a ceifar uma seara, levantam do chão todas as cores que há no mundo. O que parecia único era plural, o que é plural sê-lo-á ainda mais. Não é menos verdade, contudo, que na fulguração exaltada de um só tom, ou na sua musical modulação, estão presentes e vivos todos os outros, tanto os das cores que já tem nome como os das que ainda o esperam, do mesmo modo que uma extensão de aparência lisa poderá estar cobrindo, ao mesmo tempo que os manifesta, os rastos de todo o vivido e acontecido na história do mundo. Toda a arqueologia de materiais é uma arqueologia humana. O que este barro esconde e mostra é o trânsito do ser no tempo e a sua passagem pelos espaços, os sinais dos dedos, as raspaduras das unhas, as cinzas e os tições das fogueiras apagadas, os ossos próprios e alheios, os caminhos que eternamente se bifurcam e se vão distanciando e perdendo uns dos outros. Este grão que aflora à superfície é uma memória, esta depressão a marca que ficou de um corpo deitado. O cérebro perguntou e pediu, a mão respondeu e fez. Marta disse-o de outra maneira. Já lhe apanhou o jeito". Páginas 82-84.
Deixo ainda a resenha do livro A caverna.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/09/a-caverna-jose-saramago.html
sábado, 7 de setembro de 2024
A CAVERNA. José Saramago.
Na releitura das obras de Saramago, chegou a vez de A caverna, o seu livro do ano de 2000. Depois dessa releitura, não tenho dúvidas em afirmar que este é o melhor de seus livros, excetuando os dos temas religiosos. Ao menos é essa a minha escolha. É, e não podia deixar de ser - pelo título que ostenta, um livro de filosofia, mas também de psicologia, de sociologia, de compreensão dos valores humanos e de humanidade. Um livro de profunda sensibilidade, mas também de angustiantes preocupações com o futuro da humanidade. O novo século que está por se iniciar, certamente não trará perspectivas animadoras. O livro é também uma bela história de amor. Uma nova vida está a começar, quando tudo apontava para o seu fim. E o amor recria um milhão de motivos para a continuidade do viver, e viver com alegria e felicidade. Foi o que eu vi de essencial neste livro.
A caverna. José Saramago. Companhia das Letras. 2000.
O livro tem também uma peculiaridade única e insuperável. Não creio que haja paralelo que permita comparações, na relação que o ser humano estabelece com o mundo animal, com o cachorro em particular. O Achado. O cão assim foi chamado por ter aparecido na vida de Cipriano Algor, de sua filha Marta e do genro Marçal Gacho, o núcleo familiar do romance. Foram eles que acharam o cão a quem tanto se afeiçoaram. Achado se transformou em um dos motivos a mais para que o viver efetivamente continuasse a valer a pena. Mas há também Isaura Estudiosa, ou Isaura Madruga, como Cipriano Algor a preferiu chamar.
A construção do romance é belíssima e, não hesito em afirmar, que Saramago, ao escrevê-lo, o fez com grande e ímpar entusiasmo. Por óbvio, o tema Caverna nos remete a Platão. Além de óbvio, isso também está explícito na epígrafe, também repetida na contracapa: "Que estranha cena descreves e que estranhos prisioneiros. São iguais a nós". Platão. República. Livro VII. É nesse livro que Platão relata a famosa Alegoria da caverna, na qual as sombras do real, projetadas ao fundo da caverna são vistas como a realidade e que, portanto, para se conhecer a realidade é preciso sair da caverna. Sair do mundo de sombras, de aparências. Em A caverna de Saramago também há uma caverna. Ela está localizada num Centro, um local em que estão localizadas todas as atividades de uma cidade moderna. Será desse "Centro" que, primeiramente fugirá Cipriano Algor e logo a seguir Marçal e Marta.
Mas vamos aos personagens. Cipriano Algor tem, nas imediações da cidade, uma olaria. A partir do barro produzem, de forma artesanal, louças e outros utensílios domésticos. A olaria está passando para a terceira geração. Nela trabalham Cipriano e a sua filha Marta. Esta é casada com Marçal Gacho que trabalha como guarda provisório no famoso Centro. Ele está à espera de ser promovido a guarda residente. Cipriano é viúvo, já há quatro anos. Cipriano é um dos fornecedores do Centro, com contrato de exclusividade. Só pode vender as suas mercadorias para o Centro e, não mais poderá atender aos seus antigos clientes. Um dia, na rotina de descarregar suas mercadorias, só lhe querem a metade, para logo a seguir lhe desencomendarem todo o fornecimento. E mais, lhe dão um curto prazo para retirar as suas mercadorias, encalhadas nas prateleiras. Outras peças deveriam ocupar o seu lugar. Agora são de plástico e outras matérias primas mais práticas. Metamorfoses no mundo do trabalho. O que Cipriano e Marta irão fazer, não é um problema do Centro.
Marta troca ideias com Cipriano. E... se produzíssemos, em vez de louças, bonecos. Cipriano irá ter com o chefe de compras. A ideia não lhe desagradou. Fez uma encomenda inicial de 300 exemplares. Cipriano e Marta não cabem em si de felicidade. Mas não foi fácil, foi necessária uma reinvenção. O trabalho seria muito diferente. A essa altura do romance, Saramago nos dá uma aula sobre a principal categoria da filosofia, que é o trabalho. A mente a as mãos, a habilidade dos dedos, os conhecimentos técnicos, a modelagem, o cozimento do barro, o manuseio das tintas, tudo isso precisa ser trabalhado (Isso será tema de um post especial). O chefe de compras alertara a Cipriano, que faria uma grande pesquisa entre os consumidores para ver sobre a aceitação, ou não, de seus novos produtos, frutos de tão árduo trabalho, trabalho criativo. Dias de aflição e muita angústia.
Estes só não foram maiores, porque a tão aguardada promoção de Marçal a guarda residente finalmente saíra. Se nada desse certo, Cipriano iria morar como a filha e o genro no tal do Centro. Mas, havia um problema. O pai e a mãe de Marçal queriam o mesmo e, por isso o atormentavam insistentemente, enquanto Cipriano, ao contrário, resistia à ideia. Em meio a esses acontecimentos, Cipriano encontrou-se com Isaura Estudiosa, ou a Isaura Madruga. Ela era viúva. Cipriano lhe promete e lhe leva um cântaro. Mas, isso não era tudo. Marta, para profundo incômodo do pai, constantemente trazia o tema à baila. Também é desse tempo o aparecimento do cão, o Achado. Repito, - são das mais belas reflexões que se possa encontrar na literatura - das relações de profunda amizade e compreensão entre o ser humano e o animal, no caso, o cão. Quanta sensibilidade! Quanto entendimento de sentimentos mútuos! Seria o Achado um dos motivos pelos quais Cipriano não queria ir morar no Centro? Lá os animais não eram tolerados.
Já quase ao final do livro, os três irão morar ao Centro. Cipriano faz as suas investigações. Marçal ganhara uma missão especial. Trabalharia em turnos especiais e seria dispensado da farda. - Sem farda, não há guarda, há, isso sim, espionagem - observa o perspicaz sogro. A guarda especial era no local chamado de caverna. O seu turno era de madrugada. Cipriano, após alguns dias, irá visitá-lo, invocado com o que lá se passava. O que viu foi o suficiente para abandonar imediatamente o Centro, mesmo sem saber que destino tomar. Alguns dias depois, o casal, que estava à espera do primeiro filho, segue o seu caminho. Enquanto houver vida, haverá futuro e haverá esperança. Já é muito saber o que não se quer!
Cenas lindas ocorrem ao final. Cipriano na sua volta, passa pela casa de Isaura, a quem havia confiado o Achado. Lá não está ela, nem ele. Então toca-se para a sua casa. La encontra os dois. Achado fugira, já no primeiro dia. Voltara para a casa de Cipriano, esperando pela sua volta. Cenas de comovente sensibilidade e felicidade descrevem esse encontro, não mais dado a separações. Dias depois, já junto com a filha e o genro, deliberam que esse mundo não lhes serve e vão em busca - não sabem exatamente do que, - mas sabendo muito bem em que mundo não mais querem viver. Enquanto isso, Saramago anuncia a mais nova atração do centro, na frase que encerra o seu romance: BREVEMENTE, ABERTURA AO PÚBLICO DA CAVERNA DE PLATÃO, ATRAÇÃO EXCLUSIVA, ÚNICA NO MUNDO, COMPRE JÁ A SUA ENTRADA.
Para não ficar apenas nas impressões da minha leitura deixo o relato de Benedito Nunes que encontramos nas orelhas do livro:
"O que singulariza a ficção de José Saramago é o ajustamento da narrativa romanesca a uma parábola. Neste novo romance a parábola já começa nos desiguais papéis dos personagens, o oleiro e o guarda, estampados nos seus próprios nomes. Algor o do primeiro, significando o frio prenunciador da agitação febril, e Gacho o do segundo, significando o lugar do pescoço que suporta a canga. A agitação do oleiro vem de seu desconforto moral: quando a louça que fabrica é rejeitada pelas instâncias decisórias superiores de um mega Centro econômico que atua como a "mão da Providência", Algor oferece-lhe bonecos de barro, representando diferentes tipos de gente que as mesmas instâncias lhe encomendam em grandes quantidades. A anulação do trabalho manual ou artesanal pela tecnologia tal poderia ser o resumo desse aspecto destrutivo do capitalismo em seu acme, convertido pelo romance numa parábola social, a que o romancista contrapõe, em sutil paródia, o mito dos que creem nas sombras. Mas quando o oleiro, o guarda e sua mulher ganham o mundo luminoso e real da estrada na companhia do amável cão Achado, em sua humana animalidade à altura da cachorra Baleia de Graciliano Ramos, do cavalo Colomer de Tolstoi e do cãozinho Karenin de Milan Kundera, a parábola social é contestada pelo mito, muito embora venha a ser este, como verá o leitor, neutralizado e reapresentado, em seu puro valor cênico, pela sociedade de espetáculos (ou de massa), que se funda no poder da tecnologia".
Para os leitores deixo também a alegoria da caverna, a de Platão, que serviu de mote para Saramago.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/04/a-alegoria-da-caverna-republica-de.html
E ainda, a resenha de Ensaio sobre a cegueira, o livro anteriormente resenhado.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/09/ensaio-sobre-cegueira-jose-saramago.html
quarta-feira, 4 de setembro de 2024
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA. José Saramago.
Continuo firme na minha releitura das obras de José Saramago. O livro da vez foi Ensaio sobre a cegueira. Retomei a ordem cronológica, interrompida com a leitura dos temas religiosos. Depois de ler o Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), emendei com Caim (2009). Sobre o Ensaio é importante notar, que ele é do ano de 1995. Por que é Importante? Na resposta possivelmente encontraremos um dos motivos que inspiraram o autor para a escrita do livro. A proximidade de um fim de século. Uma data já fora justificativa para O ano da morte de Ricardo Reis. Esta ocorreu no ano de 1936. Qual dos temas teria uma abordagem mais interessante? A ascensão do nazi-fascismo, o entre guerras e o início de uma nova, ou um final de um século, um século curto, na expressão de Hobsbawm, e extremamente violento, sangrento e tenebroso e a perspectiva de um novo, sob um outro olhar.
Ensaio sobre a cegueira. José Saramago. Companhia das Letras. 2004. 28ª reimpressão.Vamos imaginar o que teria se passado no imaginário de José Saramago para escrever sobre o tema da cegueira. Seria esta uma abordagem fácil ou difícil de se fazer? Creio que a imagem do final de século nos ajuda a entender o que se passava na mente do ilustre pensador e escritor. Um bom momento para fazer um balanço da nossa civilização. Uma balanço, não em retrospectiva, mas em perspectiva. A ideia de um progresso continuava a animar o povo ou nuvens sombrias e carregadas pairavam no ar, prestes a se precipitar. A esperança ainda fazia parte da caixa de Pandora, ou ela continha apenas males?
A epígrafe do livro também nos dá um bom indicativo das pretensões de Saramago com o seu Ensaio: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara". Livro dos Conselhos. O livro é da literatura portuguesa. Uma visão dialética e progressiva do fenômeno do olhar: olhar, ver e reparar. Não um olhar meramente mecânico, mas sim, e sempre, um olhar reflexivo. Um olhar que tem a sua origem ou raiz na profundidade do cérebro. Um olhar construído a partir de valores éticos. É por isso mesmo que o livro está inscrito entre os livros de ética.
Tudo começa num sinaleiro de esquina. Ao abrir-se para o verde, um carro não avança e atrapalha o tráfego. O motorista repentinamente ficara cego. Recebeu ajudas: teve o carro retirado do trânsito e foi levado para casa. Por óbvio, foi consultar um oftalmologista. Para irem ao consultório, não mais encontraram o carro no lugar deixado. O bom samaritano, o da caridade de tê-lo levado para casa, na verdade era um ladrão. O oftalmologista não encontrou causas no caso da cegueira de seu paciente. O aparelho da visão não sofrera nenhum tipo de lesão. Embora a situação ser gravíssima, menos mal, a cegueira não é doença de contágio. Mas, como logo veremos nas páginas seguintes, muitos cegos se encontravam num antigo manicômio, internados compulsoriamente. Já estavam ali, o primeiro cego e a sua mulher, o ladrão do carro, o médico que o atendera, sua mulher e a secretária do consultório, um menino estrábico e um cliente idoso com uma venda nos olhos, além de uma prostituta. Apenas a mulher do médico continuava a enxergar. Mais cegos continuavam a chegar e, logo todos os pavilhões estavam lotados.
As consequências da cegueira começam a se manifestar. Ainda existia um governo para cuidar da epidemia para que não se transformasse em pandemia. Evitava contatos, providenciava alimentação e distribuía os cegos pelos diversos pavilhões. Os primeiros cegos ocupavam o primeiro. A mulher do médico logo tomou a dianteira nas decisões. O que fariam com o ladrão do carro entre eles? Nos outros pavilhões, em um deles, juntaram-se as pessoas do mal. Apoderaram-se das caixas de comida e passaram a vendê-la aos demais. Primeiro por dinheiro e joias e depois, inimaginável, em troca das próprias mulheres. O que fazer?! E uma conclusão óbvia. A cegueira não melhorara os homens. A perversidade estava neles incrustada. Sujeiras e fedores se transformaram no novo habitat de todos. Pássaros passaram a ser os agentes sanitários. Já não havia mais governo que ditasse ou cuidasse da ordem. Tudo estaria ao deus dará.
Quando o caos se completara os cegos tratam da volta para casa. A sorte favoreceu o grupo da mulher do médico. A primeira providência a ser tomada era a de encontrar comida. A encontraram num porão de supermercado. As antigas residências foram todas visitadas, algumas ocupadas. Um cão, o das lágrimas, numa espécie de antecipação de o Achado, de A caverna, se associa ao grupo. O senso de propriedade ditava que não era justo, mas.... Instalam-se na casa do médico. A situação não se alivia. Uma chuva e alguma reserva de água lhes permite amainar a sede, tomar um banho e lavar as roupas. A comida se tornava cada dia mais escassa e quando a encontravam ela provocava vômitos. O caos diário indicava que a situação, dia após dia, piorava. O fim do mundo estava próximo. Os pregadores não cansavam de o anunciar. Entre as pregações também princípios de moralidade e de livre mercado eram anunciados. Sinais dos tempos.
Um prenúncio do final do romance é o momento em que todos começam a readquirir a visão. Muita troca de abraços e afetos. Mas o caos persistia. Para sobreviverem, muita organização seria necessária e a organização necessita de cooperação e participação. A organização é essencialmente coletiva. Organização coletiva era sinônimo de esperança e possibilidade de futuro. Ninguém seria capaz de sobreviver mantendo-se na autossuficiência e do espírito individualista e egoísta. Aliás, não teriam sido estes os princípios que os levaram à cegueira? E passadas mais de duas décadas do novo século, como vemos e enxergamos a situação do mundo? Devo dizer que as doutrinas políticas e econômicas em voga, pregadas quase em uníssono, nos levam ao aprofundamento da cegueira das desigualdades, da convivência harmoniosa, da miséria, da fome, da destruição ambiental e das guerras. Isso tudo sem falar da cegueira provocada pela expansão das chamadas redes sociais. Lembrando, esta cegueira, a do Ensaio, é uma cegueira branca.
Na contracapa do livro temos recomendação para a sua leitura e reflexões posteriores: "Cada leitor viverá uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria. José Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, face a pressão dos tempos e ao que se perdeu - 'uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos'". Com certeza, um livro que deve ser lido junto ao imaginário e ao simbólico profundamente ativos.
E, como um antigo de professor de filosofia, não poderia terminar sem citar e recomendar o documentário Janela da alma, de João Jardim e Walter Carvalho. Sempre o utilizei em minhas aulas, com um impacto extraordinário. O que é a construção de um olhar, a construção de uma visão de mundo. O olhar, o ver e o reparar brotam da profundidade da dimensão do humano e da convivência harmoniosa. Caso contrário, o caos e o inferno da cegueira, a cegueira branca, a cegueira deste Ensaio.
Deixo ainda com vocês as duas resenhas anteriores dos livros de Saramago, os dos temas religiosos. O Evangelho segundo Jesus Cristo.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/08/o-evangelho-segundo-jesus-cristo-jose.html
E Caim, o seu acerto como Antigo testamento.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/08/caim-jose-saramago.html
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